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De temperatura máxima.

Durante 35 anos de estudos ao planeta Vénus, ninguém reparou que lá existia um rasgão com cerca de 7500 km de comprimento. Mas agora os investigadores não têm dúvidas. Depois de voltarem atrás no tempo e analisarem milhares de imagens, confirmaram que esta descontinuidade nas nuvens é um fenómeno recorrente. Estes resultados foram anunciados nesta quarta-feira pela Agência Espacial Japonesa, também pela Agência Espacial Norte-Americana e pelo Instituto Português de Astrofísica e Ciências do Espaço.

E para nos explicar um pouco melhor este fenómeno, temos conosco Pedro Machado. É professor de Física e também investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço. Faz parte da equipa que realizou esta descoberta. Muito boa tarde, Pedro Machado. Ao fim de tantos anos sem que fosse detetado este fenómeno, como é que aconteceu agora esta descoberta?

Olá, boa tarde. Antes de mais, é uma descoberta histórica, sem dúvida. E importantíssima para compreender melhor a dinâmica da atmosfera de Vénus. Por que isso só foi detetado agora nesta altura, apesar de haver indícios em observações nossas de alguns anos atrás? Bom, uma das sondas espaciais da Agência Espacial Europeia, que esteve na órbita de Vénus durante vários anos, tinha uma órbita polar e por isso só uma órbita equatorial, como tem a atual sonda japonesa Akatsuki, é que conseguiria detetar melhor este enorme rasgão. É como se fosse uma superfície frontal à dimensão do planeta. Portanto, para a sonda Venus Express, a sonda anterior, era muito difícil de detetar isto. Agora, nós já sabendo que isto ocorre, conseguimos detetar a posteriori esta disrupção nas nuvens. Mas neste momento, com a sonda Akatsuki, nós conseguimos ter vários dias de observações. Por exemplo, eu estive a fazer observações no telescópio da NASA, IRTF, que é um telescópio no infravermelho, e tivemos as nossas observações coordenadas, ou seja, ao mesmo tempo tínhamos a sonda espacial a observar as zonas que nós queríamos sobre o planeta e conseguimos com facilidade detetar esta onda recorrente que dá a volta ao planeta, à volta de 300 km/h e que dura mais ou menos cinco dias a voltar a estar no nosso campo de visão, olhando a partir da Terra.

E Pedro Machado, portanto, foi só a evolução tecnológica que permitiu chegar a esta conclusão 35 anos depois. O que lhe pergunto é: qual é que está a ser o impacto deste resultado? Como é que a comunidade científica o está também a receber, já que é uma descoberta, como dizia no início, histórica.

Pois, é histórica sim. E eu tenho o privilégio de fazer parte do grupo, ser coautor desta descoberta. E como diz, por um lado, é a componente tecnológica, mas também a sorte da sonda espacial que está neste momento em órbita de Vénus, ter uma órbita equatorial. O impacto, veja lá, para o press release. O lançamento desta notícia. Nós tivemos que estar à espera alguns dias para conseguirmos uma janela de oportunidade para que o lançamento fosse à escala mundial. Portanto, neste momento esta notícia está a sair em todo lado no mundo. É uma referência na página da NASA, como vocês bem disseram, e também da Agência Espacial Japonesa, obviamente, porque é um resultado muito ligado à sonda Akatsuki japonesa, mas aqui na Europa nós temos vários colaboradores que também estiveram a fazer observações. Eu próprio, como já referi, quer no passado, observações que eu fiz com o telescópio Galileu nas Canárias e com o follow-up, portanto, o seguimento das observações que fizemos agora há um tempo atrás, em Mauna Kea, no Havaí. Por que é tão importante? É tão importante porque nunca tinham sido detetadas ondas à escala planetária no nível médio das nuvens, que se estende mais ou menos entre 48 até 56 km de altitude, mais ou menos. Por que isso é muito importante? Porque, para já, nunca tinham sido detetados. É como se fosse, como eu referi, uma disrupção, uma quebra, uma clivagem nas nuvens, como se fosse uma parede e que é à escala planetária. Vai desde as latitudes médias, mais ou menos 40 graus Sul, até mais ou menos 30 graus Norte. Nunca tinha sido visto. Por que é muito importante? É como se fosse uma parede vertical. E então essa onda pode transportar energia e momento das camadas profundas muito aquecidas, que estão a temperaturas tão altas que até derreteria o chumbo, a mais de 400 graus Celsius à superfície de Vénus, e transportar essa energia e este momento até ao nível médio da camada das nuvens em Vénus. Isso quer dizer que poderia ajudar a acelerar a atmosfera, porque a atmosfera de Vénus sofre um fenómeno único, que é a superrotação, ou seja, a atmosfera está muitíssimo mais acelerada do que o globo sólido. Só para terem uma ideia, a atmosfera roda cerca de 60 vezes mais rápido do que o globo sólido. Isto no topo da camada das nuvens. Por isso, esta descoberta agora é realmente extremamente importante e vai nos levar a ter muitos anos de pesquisa para conseguirmos interpretar bem este fenômeno do aquecimento devido ao efeito de estufa avassalador que existe em Vénus.

E Pedro Machado, só para terminar, esta descoberta pode ajudar também a perceber alguns fenômenos no nosso planeta, ou não?

Na verdade, nós nunca vimos, aliás, nunca foi detetado, daí também ser histórico, nada semelhante em nenhum planeta do sistema solar. À escala planetária, esta enorme parede de clivagem na atmosfera nunca foi visto. Claro que ajuda muito a nós entendermos, por exemplo, a evolução do efeito de estufa, ou seja, que cenários se podem desenhar no futuro. Quer dizer, eu espero que fique só no plano das hipóteses teóricas e nunca na realidade, porque o que acontece em Vénus é realmente algo de avassalador e crítico.

Muito bem, Pedro Machado, agradeço-lhe ter-se juntado a nós. É professor de Física, é investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e faz parte da equipa que realizou esta descoberta. Durante 35 anos de estudos ao planeta Vénus, ninguém tinha reparado que lá existia um rasgão. Essa descontinuidade nas nuvens que o Pedro aqui nos explicou é uma descoberta histórica. É um resultado partilhado aqui do trabalho da Agência Espacial Japonesa, da Agência Espacial Norte-Americana e também do Instituto Português de Astrofísica e Ciências do Espaço, do qual o Pedro Machado faz parte. Amanhã voltaremos a falar de ciência, na tarde em direto. Entretanto, se quiser voltar a ouvir esta conversa, vai ficar disponível daqui a instantes em podcast, nas plataformas habituais e em observador.pt. Basta procurar pelo nome da rubrica: E igual a MC. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.