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Um estudo da Universidade de Coimbra quer perceber qual o impacto da apneia do sono nos relógios biológicos. Os relógios biológicos que regulam as células do nosso organismo, são cruciais pra saúde e bem-estar. E para o desenvolvimento deste estudo foram analisados 30 doentes com apneia do sono, que foram seguidos pela equipe do Centro de Medicina do Sono e Centro Hospitalar Universitário de Coimbra.

E para nos dar a conhecer este estudo, junta-se agora a nós Ana Rita Álvaro, a investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. É também a investigadora principal deste projeto. Muito boa tarde, Ana Rita Álvaro. O que é esta síndrome de apneia obstrutiva do sono?

Olá, muito boa tarde. Obrigada pelo vosso contato. De fato, a síndrome da apneia obstrutiva do sono é uma das doenças do sono mais comuns e caracteriza-se por obstruções das vias aéreas respiratórias. Essas obstruções são transitórias e, portanto, há temporariamente uma redução dos níveis de oxigênio. E quando ocorre essa diminuição, o organismo ressente-se e para não deixar de respirar na totalidade, acorda. A doença caracteriza-se por estarmos constantemente a dormir e a acordar. Ou seja, as pessoas têm um sono fragmentado, de muito baixa qualidade, que leva a consequências a curto e longo prazo.

E Ana Rita Álvaro, há graus de gravidade diferentes, obviamente, em pessoas que sofrem de apneia do sono, mas vamos a conclusões deste estudo. A que conclusões chegaram, afinal?

De fato, existem diferentes severidades. E no nosso estudo, nós acompanhamos doentes dessas várias severidades, embora, porque atualmente o diagnóstico desta doença ainda se revela um pouco tardio, a maior parte dos doentes que nós recrutamos, já aparecem numa fase muito intensa, muito severa. Esta doença tem tratamento, embora não tenha cura. Mas é uma doença que quando devidamente acompanhada e tratada, o tratamento de referência é uma máscara que emite uma pressão positiva e evita o colapso das vias aéreas respiratórias. E este fenômeno que eu ainda agora expliquei, de dormir e acordar devido à interrupção da respiração. Ou se fazer um tratamento, estes doentes ganham uma grande qualidade de vida e previnem muitas das consequências associadas a esta doença, desde logo, consequências a curto prazo, como irritabilidade, falta de concentração ou mais grave, a longo prazo, doenças crônicas e graves, como doenças cardiovasculares, câncer ou mesmo doenças neurodegenerativas.

Lá está, e doenças metabólicas também, diabetes, obesidade.

Exatamente.

E como vocês chegaram a estas conclusões? Tudo isto tem estes malefícios, digamos assim, não preciso de outra palavra correta. Mas eu gostava que me explicasse como é que funciona precisamente os relógios biológicos. Em que sentido é que vocês estudaram estes processos biológicos?

Nós fomos avaliando essa questão da apneia e percebemos que não havia estudos que mostrassem o impacto da doença e tantas consequências da doença naquilo que são todas as nossas funções biológicas. Isto quer dizer o seguinte, que todas as nossas funções, os nossos comportamentos são cíclicos, oscilatórios. Por exemplo, nós dormimos de noite e estamos acordados de dia. E isto repete a cada 24 horas. É como se fosse uma onda oscilatória dos nossos comportamentos. Há momentos em que estão em alta, estão ativos e outros que não estão. Isto é o que regula o nosso organismo, uma vez que há funções mais ativas, outras menos. Em presença da doença, o que acontece é que ocorre, devido a esta diminuição dos níveis de oxigênio e, sobretudo, do sono fragmentado, uma desregulação dessas funções que deviam ser oscilatórias. Essa onda deixa de acontecer e fica completamente desregulada. E isto pode estar na base de explicar as comorbidades associadas à apneia, que são graves e que levam a uma complicação muito grande da doença, porque não se trata apenas de resolver esta interrupção da respiração. Esta interrupção da respiração, de fato, leva a problemas muito graves como hipertensão, as pessoas desenvolverem a diabetes, obesidade, que são doenças crônicas e que têm que ser tratadas o resto da vida. Aquilo que nós gostaríamos, e que percebemos que podia acontecer, é que se esta doença for diagnosticada mais precocemente, podemos encontrar os doentes numa fase também menos severa. E com isto, podemos, por um lado, às vezes, alterar estilos de vida, uma alteração da alimentação, exercício físico, evitando o avançar da doença e desta maneira evitamos também o aparecimento dessas outras comorbidades.

Porque para ter uma recuperação, neste caso, é necessário muito tempo, não é, Ana Rita Álvaro? Nós precisamos quase de dois anos para voltar, nesse tratamento, a ter estes níveis mais normais nos nossos relógios biológicos.

Exatamente. Sendo que é necessário que os doentes façam sempre o tratamento. Também mostra a importância que este tratamento tem que ser feito sempre, sem interrupções. Daí eu ter dito que não há uma cura. Estes doentes, uma vez diagnosticados, têm que usar sempre esse dispositivo Médico, que bastou não usarem, que voltam a ter as interrupções da respiração, portanto, a apneia.

Ana Rita Álvaro, deixe-me só perguntar lhe uma coisa também enquanto investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, a propósito desta questão da apneia do sono. Haverá, eventualmente, muitas pessoas que poderão sofrer deste problema e que não estão suficientemente alertadas. Quais são os primeiros sinais a que devemos prestar atenção para que haja também esse diagnóstico mais rápido?

É uma pergunta muito importante. Ou seja, a maior parte das pessoas quando começa a ter sinais de apneia é, normalmente, um ressonar muito intenso, muito desconfortável, sobretudo para quem convive com estas pessoas. E adormecerem muito facilmente durante o dia, adormecerem ao volante, quando se sentam em qualquer sítio adormecem. São os primeiros sinais de que algo não está bem e que está associado a uma perturbação do sono. E quando nestas situações, e normalmente leva logo a uma irritabilidade, a quadros de depressão, devem de facto consultar, numa primeira fase, um médico de família, que faz uma primeira triagem e depois se de facto entender que se trata de uma doença do sono e, em particular, da apneia do sono, vai ser dirigido, encaminhado para um centro de medicina do sono para ser acompanhado por um especialista e fazer exames complementares para aferir se de facto tem apneia do sono ou outra doença do sono e que pode ser tratado. Porque de facto as doenças do sono têm tratamento e as pessoas deviam valorizar mais uma privação do sono e um problema de sono, porque não dormir está associado a muitas consequências graves.

Claro, portanto, existe uma desvalorização disso em alguns casos. É uma das doenças mais comuns no mundo, como dizíamos há pouco, e é importante estar alerta para esses sinais. Ana Rita Álvaro, obrigada por ter estado conosco, por nos ter explicado este estudo, por ter partilhado conosco as conclusões. É investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra. É a investigadora principal do projeto, este estudo que quer perceber, que percebeu no fundo, qual é o impacto da apneia do sono nos relógios biológicos. Voltemos a falar de ciência na tarde da indireta, amanhã. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.