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Three, two, one, zero. Houston, we have a problem.

Falamos de ciência na tarde em direto e já vamos a meio do verão e é sempre importante alertar para os comportamentos de risco nas praias, piscinas e zonas balneares. Os acidentes de mergulho já são a quarta causa de lesão medular. Noventa e dois por cento destes acidentes acontecem com homens.

E para nos dar aqui uma ajuda a tentar perceber qual a melhor forma e a forma mais segura, sobretudo, de mergulhar, contamos agora com a ajuda do médico ortopedista Luís Teixeira, é cirurgião da coluna, diretor clínico do Spine Center em Coimbra. Doutor Luís Teixeira, bem-vindo à Rádio Observador. Quando mergulhamos, e o mergulho é sempre um ato divertido e fresco, às vezes não pensamos bem nas consequências daquilo que estamos a fazer, não é?

Sim, é verdade. Muito boa tarde a todos. Como sabe, o mergulho normalmente é usado em atividades lúdicas, particularmente nas piscinas, mas pode trazer consequências absolutamente imprevisíveis e que sejam danosas para o resto da vida daqueles que às vezes, sem querer, acabam por sofrer acidentes ao nível da coluna, particularmente da coluna cervical, do pescoço. As lesões de mergulho ocorrem normalmente quando a pessoa mergulha com o corpo curvado, a cabeça acaba por embater no solo, seja no fundo da piscina, seja nalguma pedra, nalgum lago ou no mar, etc. Ou bate com a cabeça contra um obstáculo, basta ser outra pessoa que está junto quando se faz o mergulho. E neste impacto, o pescoço recebe todo o peso do corpo e absorve o impacto, produzindo um movimento brusco de flexão ou extensão do pescoço e que normalmente causa uma fratura ou um deslocamento de uma das vértebras cervicais.

E, portanto, Luís Teixeira, é preciso saber mergulhar.

Sim. Ainda que não seja totalmente possível evitar todo o tipo de acidentes, há alguns cuidados que são importantes e que podemos deixar aqui alguns conselhos. É bastante importante avaliar bem a profundidade e o local. É importante, por exemplo, perceber qual é a profundidade onde vamos mergulhar, verificar se há rochas, se há troncos, se há bancos de areia, verificar se não existe nada que ali esteja. No caso de dúvida, perguntar a pessoas que conhecem a área, inclusive aos nadadores-salvadores. Evitar algum tipo de brincadeiras que possam condicionar a quedas bruscas dentro d'água, como empurrões ou outro tipo de acrobacias, mergulhos de costas, piruetas, coisas que às vezes são comuns em idades muito novas. E ter algum cuidado na posição na altura de mergulhar, evitar o mergulho totalmente na vertical, entrar na água numa posição o mais oblíqua possível, e manter os braços esticados, de maneira que as mãos vão na frente em extensão, protegendo de alguma forma a cabeça e o pescoço ao longo do mergulho.

As mãos podem servir muitas vezes de para-choques, não é?

Sim. As mãos funcionam muitas vezes de para-choques no caso de, apesar de todos os cuidados, poder haver um contacto. Há depois outro aspecto que é bastante importante e que tem a ver com o consumo de bebidas alcoólicas. Verificou-se que existe uma percentagem muito elevada de acidentes com lesões da coluna cervical, que se verificam em indivíduos que estão sob efeito do álcool, ou seja, sob excesso de consumo de álcool. E isso traz consequências, não só porque os comportamentos se tornam de maior risco, e porque muitas vezes também nós sabemos, nós estamos a falar de acidentes que ocorrem cerca de 92% em indivíduos do sexo masculino, mas talvez uma das coisas mais dramáticas desse tipo de acidente, é que os estudos mostram que cerca de 75% destes casos ocorrem em jovens que são do sexo masculino, mas que têm entre 15 e 30 anos. Ou seja, estamos a falar de acidentes em idades de pessoas muito ativas, com uma vida completa pela frente e que podem ver a partir de agora, e a partir do acidente, a sua vida completamente alterada, com consequências absolutamente dramáticas.

E Luís Teixeira, por que afeta mais os homens?

Normalmente, tem a ver com os comportamentos de risco. Normalmente, os homens adotam comportamentos mais de mergulhos em áreas mais desconhecidas, acrobacias, piruetas. Tem muito a ver com o tipo de comportamento em que as senhoras aqui previnem, são um bocadinho mais cautelosas. E podemos, isso não está cientificamente comprovado, mas muitas vezes esta chamada necessidade de demonstrar a masculinidade, em idades da adolescência, onde esse aspeto também muitas vezes é posto em causa, sobretudo em grupo de amigos, faz com que as pessoas cometam um tipo de excessos que não deviam ser praticados.

Mas aqui chegados e com tantos alertas, continuamos a assistir a casos destes todos os anos e como o doutor dizia, alguns com consequências depois irreversíveis. Nunca é demais lembrar os miúdos e sobretudo os adolescentes, que os mergulhos podem ser mesmo perigosos. Isso é um trabalho de pedagogia que temos que ir fazendo.

É verdade, é importantíssimo aquilo que estão a fazer neste momento. Os acidentes de mergulho são a quarta causa de lesão medular mais frequente em todo o mundo. Tem uma repercussão gigante. Temos de perceber que, de uma maneira geral, e para que quem nos está a ouvir perceba isto: um homem em média pesa cerca de 80 quilos. Quando mergulha, atinge uma velocidade de cerca de 15 km/h Reparem na força que é exercida sobre o pescoço quando há um impacto brutal de 80 quilos a uma velocidade de 15 km/h. Por isso é que as lesões que ocorrem ao nível cervical são extremamente graves. Eu acho que se as pessoas perceberem o que são o peso de 80 quilos e o que são 15 km/h, que já é uma velocidade significativa no momento do salto com o mergulho, percebem e compreendem as consequências.

É uma bicicleta a andar já a uma velocidade boa, não é? 15 km/h já é uma bicicleta a andar bem.

Exatamente.

E doutor Luís Teixeira, quando ocorre um acidente deste tipo, qual deve ser a reação de quem está por perto? O que deve fazer, afinal?

Olha bem, aqui normalmente há dois aspetos. O primeiro aspeto tem a ver com alertar as entidades competentes, sejam os 112, sejam os nadadores salvadores, porque são as pessoas com maior competência e formação para poder reagir à situação. Por outro lado, se por qualquer motivo essas pessoas não estiverem presentes, há que ter a importância de perceber que alguns destes acidentes podem ser seguidos de afogamento, ou seja, se a pessoa perder completamente a mobilidade ou até perder a consciência, estes indivíduos traumatizados podem ficar afogados, e portanto, é importante evitar o afogamento. Mas depois, convém, se não for o caso de risco iminente de afogamento, em que vale a pena procurar ajudar a vítima, na maioria dos casos, é procurar mobilizar o menos possível a vítima, deixando para as pessoas especializadas isso, ou procurar ter a pessoa de barriga para cima, para que mantenha a parte respiratória, manter a cabeça alinhada com a linha do tronco, mas evitando movimentos bruscos.

Ainda dentro d'água ou evitar retirá-la d'água?

Isso era o ideal. As pessoas, quando são encaradas por profissionais, nadadores salvadores ou outros, são retirados em plano duro ou um plano específico. Todos vocês já viram isso nas praias que existem, e portanto são uma espécie de umas plataformas, uma espécie de um plástico específico.

Uma maca rija.

É uma espécie de uma maca rija, mas em plástico, chamam-se mesmo os planos duros, em que a pessoa sai dentro d'água já completamente na horizontal e devidamente imobilizada, com a cabeça imobilizada e com a coluna cervical numa posição neutra.

Doutor Luís Teixeira, muito obrigada por se ter juntado à tarde em direto. Ficaram aqui então estas dicas essenciais para mergulhar este verão em segurança. O doutor Luís Teixeira é cirurgião da coluna, é diretor clínico do Spine Center em Coimbra e juntou-se à tarde em direto para falar de ciência. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.