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Bem-vindos de regresso ao "E o Resto é Ciência". Hoje, tal como foi prometido na semana passada, vamos viajar até à África, até ao ponto culminante do continente, a montanha mais elevada, que é o Quilimanjaro. Não é apenas a montanha mais elevada de África, é também, em termos de montanha isolada, a maior montanha isolada do planeta e tem uma origem muito interessante e muitas histórias para contar. Tem histórias de exploração, histórias de evolução, histórias de literatura, até inclusivamente etnografia e etnologia. Mas hoje vamos, sobretudo, centrar-nos naquela montanha, na sua origem e numa coisa muito particular, que é como se mede uma montanha, como se mede a altura de uma montanha. Eu sou o João Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda. O Miguel Miranda é geofísico, é membro da Academia das Ciências e, além disso, já subiu ao Quilimanjaro, precisamente numa missão para medir com maior rigor a altura dessa montanha. Uma missão de colaboração entre a comunidade científica da Tanzânia e a comunidade científica portuguesa, em particular a Universidade da Beira Interior. Mas antes de ir aí, vamos começar por aquilo que é a nossa mitologia, que é um conto pequeno, mas muito conhecido do Hemingway.

Eu vou dar o texto, que penso que muitos de vocês já leram, mas que é sempre bom de ouvir e que diz: "Quilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6 mil metros de altitude e diz-se que é a montanha mais alta de África. O seu pico ocidental chama-se Nga Nga Ngai, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude".

Nós temos aqui um mistério para resolver. Vamos tentar resolvê-lo neste programa, que é o mistério do leopardo. Mas antes de irmos ao mistério do leopardo, vamos começar pela mitologia do próprio Quilimanjaro, que é uma montanha que desde milênios existe.

Sim, o Ptolomeu, eu poderia dizer o pai, mas não é o pai, nem o avô, é o tataravô dos geógrafos, descreve a existência de um relevo importante no norte da África, a que chama os Montes da Lua, perto do local, esse sim também mítico, que seria a nascente do Nilo. Porque a nascente do Nilo foi uma questão discutida durante muito tempo.

E procurada durante muito tempo.

E procurada durante muito tempo, por muitas razões.

Por muitas razões.

E ainda hoje não se sabe o que se referia os Montes da Lua. Mas das montanhas que existem em África nesta latitude, nós temos três: o Quênia, o Ruwenzori, no Uganda, e temos o Quilimanjaro. Provavelmente o Quilimanjaro é que deveria dar esta ideia de uma montanha muito alta, porque ele é visto de uma distância muito grande.

E tem o cume coberto de neve.

E tem o cume coberto de neve. É interessante pensar que em 1848, não é assim há tanto tempo, existe um missionário alemão que avista, no dia 11 de maio desse ano, uma grande montanha cuja parte superior lhe parece branca e que o seu guia local lhe descreve que aquilo é frio. Ele reconhece de imediato que se trata de gelo, mas não identifica nenhuma palavra local que sirva para gelo, porque o gelo não era propriamente uma substância que fosse comum naquela região.

Estamos a falar de uma montanha que fica muito perto do Equador.

Quando chega à Royal Geographic Society, ele é recebido com incredulidade, porque a ideia de que pode haver gelo tão perto do Equador estava fora de consideração naquela altura.

Enfim, percebe-se por quê. Para termos uma ideia, estive aqui a fazer uma conta, esta montanha tem cerca de 4 mil km², não é? Se fosse um círculo, seria um círculo com 70 km de diâmetro. Em termos de área, estamos a falar de uma área equivalente ao distrito de Coimbra, uma área maior que o distrito de Lisboa. Portanto, quando falamos da montanha do Quilimanjaro, chamamos de montanha isolada. Ela, em rigor, não é completamente isolada, porque são três montanhas.

Três picos.

Três picos, mas o pico principal é de facto-

Ou seja, aquilo é um grande cone vulcânico, que quando se chega a Moshi, que é a povoação mais perto para onde se consegue viajar quando se quer subir o Quilimanjaro, de repente, da savana, ergue-se um cone cujo impacto eu diria que só é comparável, e mesmo assim não é bem igual, ao Fuji.

O Fuji, eu estava lembrando disso. Mas o Fuji é mais cetim, não é?

É, mas também tem um grande impacto visual.

Tem.

E existem três picos. Existe Shira, que é o mais antigo, Mawenzi e Kibo, é o mais recente, e é em KiboQue situa um pico ainda mais alto, um picozinho, um piquinho, como se diria nos Açores, o Uhuru, que significa em suaíli, liberdade. Portanto, nós estamos na terra do Rei Leão, em que as pessoas nem sabem o que quer dizer Hakuna Matata.

O quê?

Hakuna Matata, toda mundo sabe, pelo menos quem teve filhos da idade dos meus e viu o Rei Leão muitas vezes. E por que aparece esta grande montanha do ponto de vista geológico? Portanto, há cerca de duas dezenas de milhões de anos, 20 a 25 milhões de anos, a África começou a dividir-se ao meio. Na Etiópia nasce aquilo que se chama o Rift, uma separação. Aquilo que se chamava antigamente África para os geólogos e geofísicos, começa a chamar-se Núbia pro lado do Ocidente e Somália pro lado do Oriente.

Digamos, a parte da Somália é pequenina, apanha basicamente ali o chamado Corno da África, não é?

Não, mas apanha tudo pro sul. Apanha até Moçambique ainda.

Apanha até Moçambique.

E estende-se um bocadinho para este.

Este. E depois todo o resto de África, portanto, o Saara, toda a África Ocidental, tudo isso é a Núbia.

Para os portugueses, isto é algum sentido geofísico, porque é devido a isto que provavelmente a placa africana começa a afastar-se mais lentamente da América do que a placa euro-asiática, e esta diferença de velocidades é que faz aparecer os Açores.

Isso vamos falar com mais detalhe noutra altura, falaremos com mais detalhe noutra altura.

Mas é interessante pensar que ao longo deste rift aparece uma sequência grande de lagos, que muitos conhecem, como o Niassa, o Vitória, o Tanganica, que se prolonga até Moçambique, cujo território aumenta todos os anos alguns milímetros.

Esse movimento, de resto, alguns milímetros, nós achamos que é muito pouco, mas isto vai acumulando. E isto vai gerando, como tu disseste, processos vulcânicos. Enfim, neste momento os vulcões não estão ativos como em outras regiões do mundo. Não quer dizer que não possa acontecer alguma coisa, mas neste momento não estão. E estamos a falar de uma região que foi nascendo e foi sendo modificada muitas vezes ao longo deste período. Por que eu estou a falar disto? Porque nós, se temos aqui uma Montanha da Lua, ou como quiser chamar, com esta dimensão, um pouco para norte, portanto, numa altura em que ainda não existia o Kilimanjaro. O Kilimanjaro é mais recente. Portanto, há 3,2 milhões de anos, digamos, no extremo norte deste Rift, enfim, ainda nascente, apareceu aquilo que nós consideramos o nosso mais antigo antepassado, ou melhor, antepassada, porque é uma senhora, a Lucy, que é o fóssil do hominídeo mais antigo. Estamos a falar de algo que não está de forma nenhuma comprovado. Uma das hipóteses para a evolução dos hominídeos, designadamente para nós sermos bípedes, isto é, andarmos de pé, é estar-se num ambiente que estava a sofrer uma mutação relativamente rápida. Evidentemente, quando falamos em mutações rápidas ou falamos em evolução das espécies, não falamos em dezenas de anos, falamos em centenas ou milhares de anos, mesmo. Mas uma mutação mais rápida com ambientes a serem transformados com bastante rapidez. Lagos que aparecem e desaparecem, planaltos que sobem e descem, são erodidos, abrem-se vales de rios e surgem grandes montanhas. Isso é uma hipótese. Enfim, se é verdadeira ou não, talvez um dia desses vamos saber.

Mas a pergunta é muito simples: os biólogos sempre consideraram que era a biologia que determinava a geologia.

Ah, não.

Os geólogos, em contrapartida, têm uma opinião que é parecida, mas é inversa, achando que é a geologia que determina a biologia. Na verdade, hoje em dia, é preciso dizer que existe uma área em grande expansão, que se chama biogeodinâmica e que tem a ver exatamente com esta interação entre os processos biológicos e os processos geológicos, que parece ser muito complexa e muito importante pra história da Terra. Porque falamos ainda há pouco tempo da questão da Lua, da Lua ser apenas um planeta que tinha uma única capa. E parece ser que a Terra também já foi assim. E o que permitiu que a Terra passasse de uma capa, uma tampa estagnada.

Como a Lua, que poderia estar cheia de crateras como a Lua, mas não está.

Exatamente, mas estagnada, mas sem dinâmica, para uma situação de tectônica de placas, há o papel da água, seguramente, e há o papel da vida. E ambos são discutidos muito fortemente, porque, como é evidente, hoje em dia estamos no tempo em que estamos a pensar como é que saímos da Terra, porque como sabe, já praticamente temos cabo deste planeta e estamos a precisar de uma nova casa.

Sim, vamos precisar bastante disso. Apesar de a nossa atmosfera não era assim originalmente, a vida também contribuiu pra ela. Daí a tal dinâmica, a tal geodinâmica, como tu disseste. Bem, geobiodinâmica. Bem, mas voltando ao nosso Kilimanjaro. Tu estavas a falar que ele nasceu do Rift, ele fica numa zona que é, portanto, se estamos a falar em termos físicos, ele fica ainda na Tanzânia, mas já perto do Quênia, e a Etiópia fica mais pra norte, não é?

E este processo, do ponto de vista da história geológica e vulcanológica, está muito estudado. Não é hoje nenhum motivo de polêmica, mas há uma coisa que é motivo de polêmica, que é a altura do Kilimanjaro. Mas antes de irmos à altura do Kilimanjaro, tem que se perceber quando se chegaAo aeroporto, pode-se comprar as várias T-shirts que indicam que o Kilimanjaro tem uma altura que eu não me quero enganar.

5895 metros.

595 metros. E, portanto, o objetivo da missão que foi organizada pelo Rui Fernandes, da UBI, aliás, com um pouco de financiamento público da FCT e um pouco de financiamento privado do licor Beirão.

Licor Beirão.

Que foi transportado até ao ponto mais alto, até ao topo de África. E esta missão tinha o objetivo exatamente de calcular a altura da montanha. Mas houve uma outra missão, também pela mesma equipe, que teve a ver com calcular exatamente as novas marcas geodésicas de Moçambique, porque isso é o mesmo processo geofísico. Nós temos o Rift a abrir e ele tem um efeito a norte que teve a ver inicialmente com a formação dessas grandes montanhas. Ele cria uma enorme trincheira que atravessa todo o continente até praticamente Moçambique, mas isso significa que as coordenadas que foram atribuídas no princípio do século XX pelos geodésicos portugueses, na altura só havia portugueses. Hoje em dia já não são válidas e, portanto, os colegas de Moçambique tiveram que fazer a reocupação.

Quando fala, só para as pessoas terem uma ideia, você fala de milímetros. Quanto é que nesse espaço de tempo?

Mas em 100 anos, 5 mm ainda faz um pouco, faz 50 cm, mais ou menos.

50 cm.

E, portanto, para se corrigir todas essas medições e de certa forma melhorar a própria observação, foi feita a reocupação. E é preciso dizer, porque isto é experiência pessoal e vale como uma fotografia, que muitas das marcas geodésicas de primeira importância estavam íntegras, lindas, erguendo-se do chão, com todas as condições para serem observadas. Significa que há coisas que se mantêm. Às vezes nós pensamos que não, mas às vezes as pessoas dão mais importância a certas coisas.

Nós deixamos muita coisa em África e algumas delas estarão lá há 100 anos. Outras estão lá há 500 ou 600, alguns padrões, alguns pontos da costa.

Porque a ciência e a geografia não são assim tão influenciadas pela política como se pensa.

E para todos os efeitos, nós sempre precisámos de pontos de referência, porque sem pontos de referência a orientação torna-se mais complicada, senão impossível. E daí a necessidade do rigor absoluto. Estamos a falar de coisas que são, neste caso, rigor absoluto.

O que é interessante quando se sobe o Kilimanjaro é ver que temos uma sucessão de climas totalmente diferentes uns dos outros. E eu aconselho a todos a viagem. Não a fazer com a pressa que nós fizemos, eu depois explicarei porque é que teve que ser com pressa, mas com um pouco mais de calma. Não é nenhum drama do ponto de vista físico. A parte final é dura, mas o Piquinho dos Açores também é muito duro, porque é gravilha e gravilha é sempre difícil de subir. Em contrapartida, a capacidade de ver desde uma paisagem que é savana, até à floresta quase tropical, até ao deserto no planalto superior, é uma lição de geografia.

Até, por enquanto, à neve e ao glaciar.

Àquele glaciar, que já é muito conhecido.

Já é muito pequeno. Vamos à história do glaciar um pouco mais daqui a pouco, quando voltarmos ao nosso leopardo. Antes, conta melhor essa tua subida. Disseste que teve que ser rápida, mas se é rápida, o que vocês estavam a fazer?

Entramos no problema de como é que se mede uma montanha. Quando foi preciso fazer a observação da altura do Kilimanjaro, já tínhamos tecnologia GPS. Aliás, participou também naquela operação um colega do departamento financeiro da Trimble. Grande montanhista, porque ele vive no Colorado e para ele 5 mil metros é o que para nós seriam amendoins. Na verdade, o GPS trouxe uma grande alteração à forma como nós trabalhamos para medir a Terra.

Mas antes disso, para quem não tem bem presente, o GPS basicamente o que faz é: nós temos um aparelho que está ligado a satélites e através da triangulação com os satélites, nos dá a nossa posição exata. Agora, estamos a falar que podemos chegar a um nível de precisão, de metros, já percebemos, todos nós andamos com o telemóvel no bolso e percebemos que ele nos dá a precisão de metros, mas de centímetros e de milímetros?

Com o tempo de ocupação suficiente, pode-se melhorar muito a precisão. E, por exemplo, a observação que foi feita no topo do Kilimanjaro, penso que durou 45 minutos. Quarenta e cinco minutos a medir as posições. Só que o GPS tem uma grande vantagem e um grande problema. A grande vantagem é que ele mede a posição em um referencial inercial relativo ao centro da Terra. Mede a distância ao centro da Terra, vamos pôr a questão assim. E mede uma distância geométrica.

Ao centro da Terra.

Ele mede geometria. E o problema é que a vida não é só geometria. Ou seja, na verdade, o que se passa é que vamos imaginar que nós queremos construir um terraço, coisa que é vulgar, e precisamos de ter uma pendente, que também não pode ser grande, porque se ela for grande, é desagradável. Mas se ela for pequena demais, a água não escorre

Infiltra-se nos nossos criados.

Infiltra-se. Dá cabo de tudo, tem que ser recuperado pouco tempo depois. E nós precisamos de garantir que ela tenha uma certa pendente. Quem diz isto, diz também um sistema de abastecimento de águas ou um sistema de águas residuais. Nós precisamos de saber o que está acima e o que está abaixo. Isto não é como ermos ao extremo, que o que está abaixo é como o que está em cima e vice-versa. É preciso mesmo saber como é que estamos ou não em uma horizontal. Quando nós dizemos: "A serra da Estrela tem quase 2 mil metros", aliás, 1992 metros. Nós, em geral, estamos a falar da distância ao nível do mar. Porque se as pessoas dizem ao nível do mar, e está sempre escrito em todo lado, o que significa que eu que tenho o GPS e ele mede muito bem a distância ao centro da Terra, mas ele também tem que medir onde é que está o nível do mar naquele sítio.

E nós sabemos que o nível do mar coloca mais do que um problema.

Muitos problemas.

Muitos problemas. Um deles é que o nível do mar não é sempre igual porque temos marés. E além de termos marés, às vezes, como vimos naquele episódio que fizemos sobre o Pacífico, nem sempre está tudo exatamente ao mesmo nível. Mas nós vamos já entrar em mais detalhe na segunda parte de "E o Resto é Ciência?", fazemos agora um pequeno intervalo. Estamos de regresso ao "O Resto é Ciência", estamos aqui no Kilimanjaro, já nos ligámos ao satélite, mas o satélite dá-nos a distância lá do pico do Kilimanjaro ao centro da Terra, mas nós queremos saber é a distância ao nível do mar. Exatamente, é aquilo que importa.

Temos que saber onde está o nível do mar sem ter que fazer um buraco grande, um poço que liga ao nível do mar para saber onde é que está. Coisa que, devo vos dizer, o Leonardo da Vinci pensou. Isto tem a ver com o teorema de Clairaut, mas falaremos disso noutra altura. É só para dizer que é preciso saber onde é que está o nível do mar e a única forma de o fazer é medir o campo da gravidade. Portanto, o que nós precisamos de saber é, se eu colocar um berlinde neste sítio, que ele não se mova nem para um lado nem para o outro. E isso não é um plano.

Isso não é um plano, é horizontal.

Isso é que é a verdadeira horizontal. E o que se passa é que quando nós temos uma grande montanha, como o Kilimanjaro, a horizontal está muito torcida. E está torcida por quê? Porque o que mantém a montanha lá em cima? Nunca pensaram nisso. Por que ela não se desfaz, não desce? Porque sabes que há um limite para o tamanho de uma montanha. Nós não podemos ter montanhas de qualquer tamanho, porque nós só podemos ter montanhas que a litosfera seja capaz de aguentar.

A litosfera é a crosta.

É a parte mais dura.

A parte mais dura que está por cima.

Por isso é que não temos montanhas de 30 km, nem de 40, porque essas não são possíveis, essas afundam-se dentro do planeta. E portanto, para ser possível fazer isto, nós temos que ter aquilo que se chama uma raiz. E então, isto é um problema básico de geofísica, percebeu-se que quando nós temos uma montanha, quer dizer, temos uma raiz, ou seja, temos material menos denso mergulhado em material mais denso, e quando nós temos um oceano, temos uma anti-raiz, quer dizer, os oceanos muito fininhos, porque a densidade do basalto dos oceanos é muito elevada. E portanto, o que isto quer dizer é que ela tem que ser compensada por uma anti-raiz, enquanto quando nós temos uma montanha, o que está a aguentá-la? É a rolha, é a madeira que mantém um barco acima d'água.

É aquilo que flutua.

Aquilo flutua, de certa forma.

Portanto, em princípio, é uma coisa mais espessa. Para baixo e para cima.

Mas ao termos essa rolha, essa raiz, o campo gravítico é alterado, e alterado de tal forma que, para termos o mesmo potencial gravítico, temos que estar um bocadinho mais acima. Isso faz com que a distância entre o nível do mar, que é o potencial gravítico em médio igual ao nível dos oceanos. Médio, lembre-se do Pacífico. Daí até ao topo da montanha é que é a verdadeira altura da montanha. E aí pode-se perguntar: "Mas por que isso é que é a altura?" Porque todos os processos que nós conhecemos dependem da gravidade. Por isso é que se fazem tantas experiências de não gravidade. Agora, por exemplo, na viagem à Lua que foi feita, à Lua, não, quer dizer, à volta da Lua. E a água corre de onde está o potencial mais alto para onde está o potencial mais baixo, ponto. E todos os processos são assim, biológicos, inclusive.

Nós também sabemos, como costumo dizer, para baixo todos os santos se ajudam, não se pode dizer o mesmo quando subimos uma montanha.

Mas é o Newton que ajuda para baixo. E portanto, quando estamos a falar de medir uma montanha, nós temos que reconstruir as duas coisas. E portanto, ao mesmo tempo que a equipe de geodésia media as distâncias ao centro da Terra, tinha que haver uma outra equipe a calcular onde é que estava o geoide. O geoide é o nível do mar. A palavra fina para falar em nível do mar é o geoide.

E tu fazias parte dessa equipe?

Não, eu estive com a primeira. A segunda foi o Joaquim Luís e foi o Macail, um jovem também que estava, não sei se em Coimbra, se na Beira Interior, holandês, mas que vive em Portugal há muitos anos, e que com um gravímetro iam medindo o valor da gravidade. O gravímetro é um aparelho estranho.

Não é um aparelho que andamos com ele no bolso.

Não andamos com ele no bolso, se bem que agora andamos com acelerômetros no bolso sem saber. Mas o gravímetro não andamos. E não andamos porque ele é um aparelho muito rigoroso, mas que se baseia num princípio físicoQue é razoavelmente simples. Mas como é que nós podemos medir a gravidade? A gravidade influencia duas coisas: o peso dos corpos e a queda dos corpos. São coisas diferentes. Aliás, um dos grandes problemas da física é exatamente a equivalência entre as duas massas, mas isso também são contas de outro rosário. Mas pra perceber, temos uma mola como se fosse um dinamômetro, e vamos ver como é que a mola estica e encolhe pra sabermos a gravidade, ou então temos uma bola que deixamos cair. E existem gravímetros dos dois tipos. Os gravímetros da bola que deixa cair são dificilmente transportáveis, são transportáveis, mas no limite, medem realmente a gravidade absoluta. Existem vários, mas não são muito confortáveis pra levar pra cima do Kilimanjaro. E depois existem gravímetros que têm uma espécie de mola em quartzo, que são capazes de medir 10 levantado a -9 do G, que é uma medida muito precisa, desde que estejam com uma temperatura controlada e em vácuo. E foi um desses gravímetros que foi utilizado, mas ele mede diferenças. O que significa ele medir a diferença? Ele não sabe quanto é a gravidade absoluta, mas se tiver dois pontos, ele sabe qual é a diferença de gravidade entre esses dois pontos.

E ao medir a diferença de gravidade, mede a diferença de altura ao nível do mar?

Exatamente. Ao medir essa gravidade, ele vai somando e vai calculando a gravidade, porque existe uma rede mundial que tem valores absolutos de gravidade calculados em todo lado, porque isto usou-se muito em prospecção, em determinação, geolocalização de picos.

Mas há diferenças grandes? A gravidade varia com a altura, mas pode variar também com o local.

Varia com a altura e com a posição.

Com a posição.

Varia muito com a altura. E ainda sei que são 0,36 miligraves.

Quer dizer, no fundo, o que estás a dizer é que tu pesas um bocadinho menos no topo do Kilimanjaro.

O meu sonho pra emagrecer, era ir à Lua, como sabem, porque era uma redução radical. Depois já subir o Kilimanjaro tira assim uns gramas e, portanto, é sempre saudável. Agora, a equipa que vai fazer medições de diferenças tem um problema, que é ela ter que voltar ao mesmo ponto com muita frequência.

Tem que andar a subir e a descer.

Tem que andar a subir e a descer. E esses circuitos não podem ser lentos, porque nós temos as marés terrestres que falamos quando falamos das marés do oceano. E como temos as marés terrestres, também temos a influência do sol e da lua e temos que compensar todas essas diferenças.

Apesar de ser muito rígida, a crosta é suficientemente plástica pra se mexer um bocadinho.

Um bocadinho. E, portanto, nós temos que compensar isso tudo. E ao compensar isso tudo é que se consegue saber o valor absoluto da gravidade pra nós dizermos aquela que é o 9,80, 65, 32, etc. E o que é interessante perceber é quando nós vamos fazer a medição da altura do Kilimanjaro, o nosso valor foi ligeiramente diferente a todo que estava escrito nas T-shirts. Aliás, três metros abaixo.

Portanto, roubaram três metros ao Kilimanjaro. E as autoridades da Tanzânia não ficaram muito satisfeitas.

Vamos lá ver.

E fica bastante abaixo do que dizia o Hemingway, que falava em seis mil metros, não chega lá.

Sim, mas era mais ou menos. É um escritor.

É a literatura.

Não é um físico. E este valor ainda pode ser obviamente refinado, mas o problema não é, mais uma vez, a distância ao centro da Terra, essa é calculada pelas Nações Unidas. O problema é onde é que está o nível do mar, porque o nível do mar é influenciado, como já percebemos, por muitas coisas, porque nós queremos saber o nível do mar, mesmo onde não há mar. E esse é que é o principal problema.

E então vocês acabaram por conseguir fazer isso, e essa é a tal razão, tu me explicaste, que os últimos 1800 metros, 1200 metros de escalada foram um bocadinho duros, não é? Porque andavam pra baixo e pra cima.

Eles andavam pra baixo e pra cima um bocadinho cada vez embaixo, mas nós tínhamos que ser sincronamente com eles e portanto quanto mais curta é a viagem, mais dura é pras pessoas. Mas é preciso dizer que a maioria dos instrumentos foram transportados pelos guias locais.

Sim, mas outra coisa também é preciso dizer, porque quem nunca subiu uma montanha, não tem às vezes noção disto. É que nós quando estamos lá em cima, temos menos oxigênio à disposição. Nós quando estamos lá em cima, a pressão do ar é muito mais baixa, o que significa que a cada expiração e inspiração, temos mais dificuldade em pôr oxigênio no sangue, que é uma coisa que muitos de nós não têm consciência, quem não esteve a 4.000, 5.000 metros. Já se nota se estivermos nos 2.000 metros da Serra da Estrela, mas só se começa verdadeiramente a notar acima dos 3.000 metros.

Mas é muito simples, com a falta de oxigênio respiras tipo um cão.

Um cão. Há um exemplo que uma vez me contaram que eu acho maravilhoso, que é alguém que uma vez visitou aquele observatório que está nos Andes, aquele grande telescópio dos Andes, e à noite vieram: "Então vamos lá pra fora, saímos aqui de dentro deste ambiente controlado, climatizado, vamos até lá fora. E olhem pro céu". À noite. E o céu era um céu estrelado, bonito. E pensou: "Mas apesar de tudo, não é assim tão diferente do céu que eu conheço lá da minha terra". E depois: "Agora tomem lá um bocadinho uma máscara de oxigênio". E é como se o céu se iluminasse, porque de repente, com mais oxigênio, o nosso cérebro e os nossos sensores oculares ganham uma capacidade que não tinham antes. Agora, quando estamos a subir, e é um trabalho físico, isso ainda fica mais aflitivo muitas vezes.

Porque tens sorte, porque o oxigênio não tem que passar pelo estreito embuso. Se tivesse, teríamos mais dificuldade.

Apesar de não ser assim tão longe dali.

Do ponto de vista geofísico, como é evidente, não é muito importante nós sabermos se o Quilimanjaro tem mais ou menos um metro. Em contrapartida, é bastante importante sabermos onde é que está o geoide, porque existe hoje em dia uma grande preocupação com a água e com a água doce. E é preciso perceber que, na grande escala, nós monitorizamos a água que existe no planeta, a água no chão, a água subterrânea, com satélites gravimétricos. Pelo sistema que eu diria que é mais fantástico que se pode imaginar, que é o sistema Grace, os dois satélites Grace, que medem essencialmente a distância entre os dois satélites que são lançados ao mesmo tempo e que quando a gravidade é mais alta ou é mais baixa, um aproxima-se ou afastam-se, e isso mede indiretamente a gravidade. Portanto, reparem bem, nós tínhamos primeiro uma medição da gravidade, que era uma mola, como aprendemos na escola. A segunda, temos um berlinde, uma daquelas bolas de látex que atiramos ao chão, também está a medir a gravidade. E temos agora uma terceira, que é dois satélites que são síncronos e cuja distância entre eles é também uma medida indireta da gravidade. Isso é um feito tecnológico fantástico.

Desculpa, isso tem alguma relação com a medição da água à superfície?

Tem, porque a variação da água subterrânea é muito grande. Isso é outra ideia de dinamismo que é importante perceber-se. Quando apareceram os primeiros satélites capazes de fazer interferometria radar, que eu tentei explicar muito mal da última vez, mas que mede exatamente os movimentos do solo. Uma das coisas que pareceu logo clara é que para além dos movimentos que tinham a ver com escorregamentos ou com vulcões, também apareciam movimentos que tinham a ver apenas com a dinâmica da água subterrânea. Em cidades, quando a água baixa, quando a água sobe, o chão muda de sítio. Centímetros. É preciso também perceber, porque, mais uma vez, a nossa ideia da estabilidade é bastante errônea, que quando nós temos aqueles silos de cereais e eles estão cheios até acima, que o chão mexe centímetros. E, portanto, que todo este nosso sistema, que nós vemos sempre como parado e imutável, na verdade, é bastante dinâmico pra quem tem precisão suficiente nas observações.

Mas entretanto, por falar d'água, nós no topo do Quilimanjaro já tivemos muito mais água sob a forma de gelo, naturalmente, do que temos hoje. Voltamos atrás, voltamos àquilo que provocou o ceticismo da Academia das Ciências Britânica, a dizer: "Enfim, não, não senhor, não é possível ter glaciares no Equador ou perto do Equador", mas tínhamos um glaciar e tínhamos um glaciar que nessa altura era um glaciar com uma dimensão bastante razoável, e hoje em dia já está muito reduzido, não é?

É, mas a redução-

Mas tu ainda viste, não é? Tu ainda o visitaste.

A temperatura no topo do Uhuru é de, digamos, 10 graus abaixo de zero, uma coisa parecida com isso, o que significa que nós não temos água no estado líquido. Nós temos apenas água no estado sólido e água no estado gasoso. Portanto, temos aquilo que se chama sublimação.

Se a temperatura é negativa, por que aquilo está a perder gelo ou a perder água?

Pela secura do ar. Essencialmente, é um processo de longo termo, tem a ver essencialmente com a sublimação do gelo em vapor d'água. Tem muito a ver com a variação da umidade relativa na zona do Quilimanjaro.

Que tem diminuído. Isso é que tem a ver com as alterações climáticas, não é?

Eu não sei se terá diretamente a ver com as alterações climáticas.

Poderá ter a ver também com o funcionamento das regiões tropicais.

Mas a redução de 1912 e 2002, que é a que está mais bem calculada, foi de cerca de 80%. Ou seja, este é um processo de longo-

Quer dizer, os glaciares há 10 mil anos que estão a recuar, não é?

Isto é a redução do glaciar, provavelmente histórica, e tem a ver com a sublimação do gelo. Claro que pra quem vai, é muito impactante e emocionante verificar que o glaciar está a desaparecer. Claro que um outro fenômeno mais diretamente ligado com o aquecimento, que é o aumento da precipitação noutras alturas da subida, é sim, de origem meteorológica e que tem a ver com o aquecimento, também é bastante impactante pra quem visita. E, portanto, a verdade é que quando se olha pra montanha com essa sensação um bocadinho de fim de época, de algo que está a acabar, e vemos que ainda se mantém a frase do personagem do Hemingway, que eu também trouxe aqui e que diz: "À frente, tudo o que podia ver, imensos como o mundo, grande, alto e incrivelmente branco ao sol, estava o topo quadrado do Quilimanjaro". Isso é que está a reduzir-se de uma forma, neste momento, praticamente inexorável.

Portanto, o glaciar terá só 4 km²., mais ou menos.

Exatamente, mas que não quer dizer que não mereça, seguramente, a visita.

Nem que seja uma espécie de despedida.

De despedida do mundo que nós sabemos que está a acabar.

Por causa disso, enfim, agora perguntar-se-á: mas numa altura em queHavia muito mais gelo e uma placa naquela zona e um glaciar muito maior, o que faria lá, o tal leopardo do início da primeira frase, primeiro parágrafo das neves do Kilimanjaro. Ora bem, é possível ou não ter um leopardo àquela altitude? Estamos a falar de algo que fica a 5 mil, 5600, 5700 metros de altitude. Aparentemente, é uma realidade histórica. Nós temos alguns registos. Temos um registo de 1889, um alpinista chamado Hans Meyer, que apenas referiu ter encontrado restos de um leopardo numa zona alta entre o Kiko e o Mavenzi. Bastantes anos depois, foi um pastor luterano, o Richard Bauros, que descobriu, esse sim, um leopardo mumificado. Não sei se seria até algo semelhante àquele homem dos Alpes que tem sido tão estudado e que foi descoberto aqui há uns anos atrás, precisamente com um fenómeno semelhante, o recuo dos gelos. Esse sabemos que estava a 5640 metros. Estava na borda da cratera. Portanto, exatamente onde é que estava. Tê-lo-á mudado de sítio, tê-lo-á tirado de onde estava, não temos fotografias, e terá colocado numa zona mais à vista. E depois, numa visita posterior, desapareceu. Alguém levou a múmia do leopardo. Mas foram feitas amostras. Agora a pergunta é: faz isto sentido? Os leopardos iam até ali? Habitualmente não, apesar de haver indicações que noutras altas montanhas de África os leopardos podem chegar lá acima. Por quê? Bem, porventura a perseguir um antílope ou a perseguir uma presa, o que não é impossível, porque também foram encontrados restos de antílopes naquela altitude. Não é biologicamente impossível chegar lá. É difícil, pode-se lá ficar, como terá ficado esse leopardo, como terá ficado o nosso homem dos Alpes. Ora, por quê na história de Hemingway? Tem a ver com o conto. Tem a ver com a moral do conto de Hemingway, se quiseres.

Tem a ver com a moral do conto de Hemingway, tem a ver com, por vezes, a inexistência de razões objetivas para muitas das nossas decisões.

Tem a ver com isso e tem a ver com aquela ideia de que é chegar sempre mais alto e às vezes o chegar mais alto leva-nos para além dos limites possíveis. O conto de Hemingway é a história de alguém que vai morrer.

Eu sei.

Não vamos contar o fim, mas se calhar já estamos a fazer aqui um pouquinho.

Não, se há um objetivo desta nossa conversa hoje é que só se continua a olhar com emoção para a natureza, se aprecia estes excessos. O Kilimanjaro é um excesso, é um exagero, é aquilo que foge da normalidade, tal como o leopardo fugiu da normalidade. E nós não podemos viver toda a vida só com a normalidade.

Exatamente. E não podemos achar que porque é difícil, porque fica muito alto, porque é muito frio, não se vai lá. Há sempre aquele desafio: por que sobes o Everest ou por que sobes o Kilimanjaro? E a resposta é: porque está lá. E assim ficamos. Para a semana temos mais um "E o Resto é Ciência".