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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes. Comigo está, como sempre, o Miguel Miranda. O Miguel Miranda é geofísico, foi presidente do IPMA, foi professor na Faculdade de Ciências de Lisboa. Hoje vamos falar de um tema que todas as crianças, a uma altura, ficam fascinadas com isso. E vamos tentar perceber o que isso significa, o que isso nos ensina. E aquilo que eu falo é o som dos búzios, das conchas, mas os búzios em particular, que todos sabemos que se encostarmos a uma orelha, ouvimos o ruído do mar. O que é misterioso. É um bocadito misterioso, como é que de repente, aquilo que é quase algo de obrigatório quando encontramos um búzio. Eu lembro muito bem a primeira vez que peguei num búzio e entreguei a meu filho, ainda ele era pequenino, e à minha filha. É uma descoberta. O que está a passar-se aqui, como é que a gente ouve isto? Miguel, por onde é que a gente começa pra explicar isto? Primeiro, o que é que é um búzio?

Primeiro, o que é que é um búzio. O nome é dos búzios, são conchas, de moluscos ou de gastrópodes que nós encontramos na praia e que têm aquela forma de cornucópia, que é muito importante pra produzir este efeito, que nós imaginamos ser o som do mar.

Que é uma forma em espiral.

É uma forma em espiral, mas de raio variável. Isso é muito importante pra este efeito. E é muito importante porque o som que os búzios nos transmitem é aquilo que se chama em física ruído branco. É um som que tem todas as frequências misturadas. E o som do ruído branco é muito semelhante ao som do mar, que também é um som de ruído branco, que tem a ver com a distribuição estatística das ondas.

Portanto, no fundo, o que estamos a dizer é: há um paralelo que as pessoas talvez entendam, que é, apesar de nós nunca conseguirmos fazer isso muito bem feito quando ensaiamos fazer manualmente. A cor branca é a mistura de todas as cores. O som branco é a mistura de todos os sons.

Só que existe uma reação fisiológica, característica do som branco, que é: ele transmite-nos calma. Há pouco tempo, uma moça que trabalha comigo me disse que costumava pôr aos filhos ruído branco pra que eles adormecessem, porque quando nós temos um som que é a soma de todos os sons, e esse som parece o marulhar da água do mar, isso dá em nós uma sensação de descanso, enquanto o contrário disso, o contrário de um som que tem todas as frequências, é o som que só tem uma frequência, que é aquilo que nós conhecemos por nome de sirene. Quando nós queremos chamar a atenção, nós usamos um som monofrequencial, que é o que fazem os veículos que estão em marcha de urgência, como nós aprendíamos quando tirávamos a carta de condução. Quando nós queremos uma situação em que queremos estar relaxados e descansar, então o que nós precisamos é de ruído branco. E tanto o mar como o búzio são capazes de emitir esse ruído, que é apanhar do ruído ambiente. Os búzios recolhem do ruído ambiente.

É isso mesmo, o búzio não produz ruído.

Não.

Transforma o ruído.

Ressona o ruído.

Ressona o ruído.

E o que é mais curioso e tem uma certa leitura interessante é que, onde é que nós ouvimos? Nós ouvimos também no caracol auditivo. Nós ouvimos no osso que temos no ouvido, que de certa forma tem a forma de um búzio. Portanto, nós estamos na verdade de um búzio a falar pra outro. E esse ressoar que o búzio tem é, na verdade, o som que está no ambiente que ressoa nas espirais sucessivas de raios diferentes que existem na forma do búzio e que nos permite assimilar depois à ideia do mar. Aliás, esta questão do mar e do efeito do mar sobre a saúde, que está demonstradíssima, não é uma questão que precise de demonstração, tem sido usada por vezes mesmo em ambiente hospitalar. É talvez um dos fatores que leva à atração crescente das pessoas pelo litoral e pela costa. O mar é um ambiente relativamente agressivo, não é um ambiente calmo.

Não, tem marés altas, marés baixas, tempestades, ondas. Tem mais vento habitualmente, há variações de pressão atmosférica maior.

Nós temos uma atração.

E por isso mesmo, durante a maior parte da nossa história, até da história portuguesa, a maior parte do nosso litoral, exceto nas zonas abrigadas, as baías e bocados dos rios, estava vazio, não havia lá gente, a não ser pescadores que lá iam de vez em quando.

Exatamente, e tinham lá as suas casas perto, que hoje em dia têm um valor econômico muito elevado. Mas na verdade, nós temos uma grande atração por um ambiente que em si até é um ambiente agressivo. E isso tem muito a ver com o som. O som é muito importante.

Mas quando tu falas do som do mar, não é o som das ondas. Ou também é o som das ondas?

É de todas as ondas misturadas.

Todas as ondas misturadas. Não é o arrebentar, aquele .

Não.

É mais aquele-

É o som que chama do marulhar das águas. E hoje em dia, até se utiliza uma designação que é os chamados espaços azuis, porque não é só o mar, atenção, a água em si também tem uma atração. Os spas As termas de que falámos há pouco. Portanto, todos eles têm a ver com uma relação que nós temos com o universo, que tem muito a ver com o mar. Do passado até ouvi dizer uma ideia que era: se calhar nós temos uma grande atração pelo mar, pelo facto de a vida ter vindo do mar. E, portanto, nós estamos apenas a voltar ao local de onde a vida veio. E isso, que é uma expressão bonita e poética, talvez também transmita uma parte do problema, mas há uma coisa que eu sei: é que mesmo as pessoas que não gostam de sol, que é o meu caso, eu odeio o sol, gostam muito do ambiente marinho porque ele transmite uma ideia de repouso que permite ler, ouvir música, o que se quiser, porque estamos numa situação em que não há perigo. A ideia de que apesar de ser um ambiente perigoso, o som que transmite é um som que não há perigo.

Um som de tranquilidade.

Se calhar por isso é que ele é um ambiente tão perigoso também.

Pois. Voltando aos nossos búzios e às nossas conchas. Tu disseste: já ali viveu um ser vivo dentro, mas aquilo não é propriamente um ser vivo, ou podemos pensar?

Não, aquilo é uma casca.

Aquilo é uma casca, é uma coisa de calcário basicamente.

É uma casca de carbonato de cálcio, de pigmento, que foi criada pelo organismo quando era vivo pra se proteger, que foi criado em meio marinho e que uma vez os animais mortos, arrasta-se e aparece nas praias à beira d'água, à linha d'água.

Aliás, uma parte da areia das praias é feita dessas conchas, e uma parte das rochas em que nós pisamos todos os dias. Sim, mas aí são rochas já feita há muito tempo.

Já foi há muito tempo. Não foram estes, foram os pais ou os avós ou os bisavós ou os trisavós. O que se passa nesta questão das conchas e que mais tem preocupado muita gente na atualidade, tem a ver com o facto de as conchas marinhas estarem a ser impactadas fortemente pela acidificação do oceano. Quando eu era jovem, havia uma definição de pH que se aprendia no liceu, que tinha um ar profundamente mágico, que dizia: "O pH é o cologaritmo da concentração hidrogeniônica".

Repete lá isso pra quem não ouviu bem.

É o cologaritmo da concentração hidrogeniônica. Isto que parece uma fórmula mágica, da qual deveria dar origem ao aparecimento ou desaparecimento de pessoas, é uma medida da acidez ou da alcalinidade da água. Claro que hoje em dia, muita gente bebe muita água mineral, já sabem quem precisa de águas básicas tem que ter um pH maior que sete, quem tem que ter águas ácidas, tem que ter menor que sete.

Quem é mais velho e às vezes tem problemas de gota, convém beber água que até-- nós até temos águas em Portugal com nove pH, ou mesmo mais que nove.

São fortemente alcalinas.

Que são muito alcalinas. No fundo, ajudam a quê?

Essencialmente tem a ver com o facto de nós termos um pH ligado ao sistema digestivo, que é muito baixo. O pH do estômago é muito ácido e o número é inferior a cinco ou quatro ou três. É um valor muito baixo. No caso da água do mar, por exemplo, nós temos um pH que é próximo de 8,1, portanto, é ligeiramente alcalino. E o que se passa é que-

Portanto, o pH sete é chamado neutro.

Que tem a ver com a constante dissociação da água, porque a água, que é H2O, é como se fosse OH- e um H+. Mas tem tanto OH- como tem de H+ e isso corresponde, fazendo este cologaritmo da concentração hidrogeniônica, a sete. E portanto, quando tem mais que sete, sabemos que tem menos íons hidrogênio. E quando tem menor que sete, é mais íons hidrogênio. O que é que se passa? É que nós quando aumentamos muito a quantidade de CO2 na atmosfera, aumentamos a concentração que já existe, há mais CO2 que dissolve no mar, dissolve na água.

Aliás, é uma das formas de absorver o CO2.

É o íon carbonato, forma o íon carbonato. O íon carbonato é muito simpático, quando em seguida forma carbonato de cálcio, que em seguida precipita, vai pro fundo do oceano, forma sedimentos, dá origem aos calcários, que uma vez metamorfizados fazem os tampos de mármore que nós gostamos de ver nas casas de banho, mas que numa fase inicial tem tendência a dissociar-se no íon hidrogenocarbonato, HCO₃⁻ e no hidrogênio H⁺. E quantos mais H⁺ nós temos, mais ácida, obviamente, é a água. O que se passa é que o carbonato de cálcio dissolve-se. E ao dissolver-se o carbonato de cálcio das conchas na água, as proteções destes animais, destes gastrópodes ou destes bivalves, ficam mais frágeis.

Portanto, isso acontece tanto com as amêijoas, as lambezinhas, essas coisas todas. Acontece com tudo, não é só com os búzios.

Não é só com os búzios. Pior que tudo, acontece com os corais. Os corais são tremendamente frágeis ao aumento da acidez do oceano. E tornam-se brancos, tornam-se mortos. O grande problema é, além dos corais se tornarem brancos e transmitirem um rastro de morte no oceano, é preciso compreender que os corais têm uma enorme importância ecológica e que eles são o refúgio de uma fração muito importante das espécies marinhas.

Mas sobre isso, por exemplo, nos últimos anos tem havido flutuações Significativas da zona mais famosa dos corais, que é a Grande Barreira da Austrália. Com anos de crescimento, até crescimento muito rápido, depois de grande crise que vem em seguir. Como é que isso se pode explicar? Porque há momentos em que parece que vai desaparecer, vai morrer tudo e depois, de repente, regressa.

Uma parte do processo é, obviamente, a recuperação que os ecossistemas têm, apesar de tudo, de reagir à agressão do meio ambiental, mas não vale a pena equivocarmos. Eu tive a felicidade, ainda há pouco tempo, de ver uma exposição de um grande engenheiro mecânico do Porto, mas que é também um homem que faz muita fotografia submarina, que é o Pedro Camano, que tem fotografias fantásticas do Mar Vermelho nas últimas décadas, em que o desaparecimento das espécies e o embranquecimento dos corais é completamente pervasivo. Felizmente, em algumas zonas da Terra que não estão tão completamente influenciadas por estes processos de acidificação, mas é preciso perceber que nós reduzimos o pH em 0,1, 0,11, desde o princípio da era industrial. Mais uma vez, todos os efeitos que têm a ver com o aumento da concentração do CO2 na atmosfera são verificáveis do ponto de vista físico, químico e biológico. E a verificação biológica é, por vezes, até mais gritante do que a validação física, porque a gente diz: "Entre 8.1 e 8.2, que raio de diferença é que há?" Pois, mas é que em termos de concentração dos íons hidrogénios, que são protões, são íons que só têm uma partícula, significa um aumento de 30%. Nós temos 30% a mais de hidrogénios no oceano.

Justamente, como tu disseste, é logarítmico.

Logarítmico. 0,1 logarítmico é muito em concentração.

É aquela escala que nós, de vez em quando, quando ouvimos falar de uma escala logarítmica, temos que ter noção que ela não é proporcional, é muito rápida, é como a escala dos terramotos. Escala Richter também.

Exatamente. À medida que aumenta a acidez do mar, o equilíbrio desloca-se no sentido da dissolução do carbonato de cálcio e as conchas começam a reduzir a sua espessura e a sua frequência. E esta é uma questão que tem uma enorme complexidade, porque é um efeito planetário. O CO2 aumentou na atmosfera, em toda a atmosfera e em todo o oceano. E este efeito planetário é um efeito que dificilmente pode ser contraditado apenas por uma ação local. O ambiente, ao princípio, tinha aquela grande expressão que era: "Queremos efeitos globais e ações locais". Neste caso do CO2, francamente, estamos a falar de necessidade de uma ação global pra ter um efeito global.

Porque quando pensamos nesse efeito, nós falamos dos corais, que são muito óbvios, mas nós vivemos com conchas desde quando? Desde os neandertais?

Eu, por acaso, escrevi um texto aqui há uns tempos no Jornal Nacional, em que ia buscar um trabalho do Zilhão. O Zilhão, sim. Um dos mais importantes arqueólogos portugueses, em que mostrava que os neandertais utilizavam já conchas como objetos decorativos.

E podem ser usados até como dinheiro, digamos assim. Não é algo que seja muito caro.

E essas conchas acompanharam a humanidade desde sempre. Alguma coisa vai ter que ser feita pra que elas continuem a acompanhar a humanidade daqui pra frente e que não sejam apenas mais um elemento.

E são usadas pela humanidade, porque nós temos um dos sítios arqueológicos relevantes dos Arroios de Lisboa, enfim, fica numa zona privada, não é muito visitado, são os Concheiros de Mus. Também já aqui falamos, o estuário do Tejo tinha outra configuração. Mus, hoje em dia, é uma zona que tem muita terra à volta, digamos assim, a margem do rio fica longe, mas há ali grandes concheiros que são sinais de comunidades que ali viviam, que se alimentavam. Moluscos, não sei exatamente qual era a espécie, iam acumulando o seu lixo, das suas cascas.

E em muitos registos arqueológicos, obviamente que as conchas são muito importantes pra sabermos até qual é a vida das comunidades nessa altura. O que é importante aqui é perceber-se que a situação que está criada vai ter efeitos, está a ter efeitos, os efeitos são significativos e nós não podemos pensar que eles vão desaparecer quando não haja uma alteração muito significativa da fração de CO2 na atmosfera da Terra.

Bem, nós terminamos a primeira parte. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Estamos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência" e desta vez estamos a falar de conchas, de búzios, de sons brancos, de calma, mas também dos riscos que toda esta evolução está a apresentar, porque muitas vezes nós não nos apercebemos, mas pequenas alterações no CO2 geram alterações na acidez da água do mar É algo que não notamos quando vamos à praia, como é óbvio. Estamos a falar de variações muito pequenas, mas que se notam na biologia, na capacidade de formar essas conchas. Miguel, mas as conchas não têm todas a mesma resistência. Nós olhamos para as conchas e elas têm às vezes cores diferentes, não é?

Exatamente. Primeiro, qual é o pior cenário possível, mas realista? É uma diminuição do pH em 0,4. Teoricamente, os modelos apontam para isso. Claro que sabes que eu sou muito sensato em relação aos modelos. Temos que ter alguma precaução.

E não gostas de exagerar. Não gostas de ser apocalíptico.

O apocalipse, na verdade, não serve para grande coisa. O dramatismo não serve para grande coisa, mas há certas situações que são observadas realmente. O branqueamento dos corais é uma delas e outra é o fato de as cores também estarem a ser alteradas. Na verdade, o carbonato de cálcio tem dois minerais diferentes, que é a calcite e aragonite, que não têm a mesma cor.

A calcite é mais clara.

Mais clara.

E a aragonite é mais escura. Aquelas faixas, aqueles desenhos. Às vezes são desenhos mesmo. Como é que aquilo se forma de maneira diferente? É a circunstância?

Isso é mineralogia, é uma área que pra mim é bastante opaca, mas que os colegas que trabalham nisso sabem distinguir, tem a ver com a forma de cristalização. Estás lembrado, seguramente, no ensino secundário, quando aprendíamos os sistemas de cristalização cúbico, ortorrómbico, monoclínico. É a mesma coisa, estamos a falar de sistemas cristalinos, em que os átomos estão todos ordenados espacialmente.

É uma organização arrumada.

Arrumada, não é um vidro, como se vê em geologia, é um cristal. E nessa organização cristalina, há duas formas de arrumar diferentemente o Ca e o CO₃, o Ca++ e o CO₃--. E essa forma de arrumação dá origem a dois minerais que são diferentes, que é a calcita e aragonite, e isso dá a variação também das cores dos bivalves. Dos bivalves e não só.

Isso não tem alguma coisa a ver com a variação? Eles não reagem da mesma forma à acidificação.

A aragonite é a forma mais estável de carbonato de cálcio a baixas temperaturas e pH alto, mas quando o pH é baixo, a calcita é dominante. E portanto, arriscamo-nos a perder o som e também estamos a perder uma parte da cor. Se se lembrarem que uma boa parte do universo é nos particularmente simpático por causa da cor, do som e do sabor, lembrem-se que o som pode se perder um pouco, a cor também estamos a perdê-la, e o sabor, basta acabarem os bivalves, porque uma parte dos sabores que nós associamos à praia, ao verão e ao mar, que são os bivalves, tipicamente, também têm um certo risco de entrarem numa situação de alguma debilidade.

Mas além daquilo que possamos fazer relativamente ao tema, como disseste, é um tema global, é um tema que tem a ver com a concentração de CO₂. A temperatura aqui não é relevante, não é? Não é muito relevante.

Não é muito relevante aqui. Se bem que não é muito relevante na escolha. A acidez é o fator determinante. Mas se se lembrarem do que nós discutimos na parte das praias.

Foi um programa que fizemos há dois programas atrás, em que estivemos a discutir a evolução das praias e por que as praias ficam sem areia no inverno e depois têm areia no verão, sem a gente saber bem por quê.

Nós ao querermos o sossego, esprememos as praias. E nós quando esprememos as praias-

O que quer dizer com isso, esprememos as praias?

Quando nós queremos o sossego e queremos ouvir o barulhar do mar e achamos que é muito importante ter um hotel, uma casa. O hotel é menos impactante que uma casa. Uma casa em frente à praia, nós estamos a ocupar o espaço, que é o espaço do sistema litoral, nós estamos a espremer a área de praia. Ao espremer a área de praia, nós estamos a impedir que o sistema praia-duna se mantenha vivo e estável.

No fundo, não é bem estável, é um sistema vivo que se não se mover livremente ao longo do ano, pode estabilizar em desequilíbrio.

Nós estamos naquela situação da galinha dos ovos de ouro. Ao comermos os ovos de ouro da galinha, matamos a galinha. E portanto, se nós fizermos uma ocupação excessiva do espaço litoral, se nós criamos uma situação em que estamos a somar os impactos, que chamamos vulgarmente de poluição, com os impactos químicos provenientes de um excesso de CO₂ na atmosfera, nós estamos ao mesmo tempo a destruir aquilo que queremos desfrutar. E isso é uma posição pouco inteligente. Nós temos que repor alguma inteligência na nossa relação com o oceano e na nossa relação com o litoral.

Mas mesmo assim, há alguma explicação para nós termos conchas, às vezes sem formato nenhum, como as ostras, ou com pouco formato, como as amêijoas, e depois temos aqueles búzios tão elaborados, alguns deles tão grandes, tão bonitos.

Sabes que o búzio é das formas mais interessantes para os matemáticos. O búzio deu origem a muitas explicações matemáticas que têm a ver essencialmente com a simetria na produção do carbonato de cálcio.

Explica lá isso um pouquinho melhor.

Nós fazemos uma concha e quando temos uma situação de assimetria na produção de carbonato de cálcio, nós temos tendência a fazer formas curvilíneas. E essas formas curvilíneas é que dão as espirais de raios crescentes, em que o animal tipicamente vive na parte maior e mais exterior dessa cornucópia.

Nós temos a ideia dos belos búzios grandes, mas no fundo, o princípio da concha é um caracol também.

Exatamente.

A concha do caracol não é muito diferente.

Não é muito diferente.

E quem já comeu caracol sabe onde é que o apanha, onde é que ele está.

Ou os búzios, que hoje em dia se compram nos supermercados. Claro que são os búzios de outro tipo, não são aqueles bonitos que nós gostamos pra ter o som do mar. Mas o que é relevante aqui, é compreendermos o essencial do conhecimento científico nesta área. O pH está a diminuir um pouco, mas já significa 30% de átomos de hidrogênio a mais. Ao diminuirmos o pH do oceano, nós estamos a afetar o equilíbrio do carbonato de cálcio. Ao afetarmos esse equilíbrio, nós estamos claramente a pôr em risco algumas espécies que precisam criticamente dessa proteção pra sobreviver. E é importante nós percebermos que isto não tem a ver com dramatismos, não tem a ver com exageros, tem a ver com uma situação que está a ser observada no planeta todo e que precisa claramente de intervenção. Nalgumas situações, existe a adição dos problemas que têm a ver com a poluição humana ao problema da poluição química, chamemos assim.

Mas aí, apesar de tudo, tem havido progresso.

Tem havido muitos progressos.

Aliás, nós vemos isso nas nossas zonas estuarinas, que estão menos poluídas do que já estiveram.

Sim, mas isso é nos países que têm capacidade econômica pra fazer isso.

E vontade.

Se há assunto que está cada vez mais em cima da mesa e que tem a ver exatamente com as grandes mudanças que estão ocorrendo no oceano, é o chamado sargaço, que está a ocupar zonas enormes do Atlântico Norte. O sargaço, neste momento, ocupa zonas que vão desde as Caraíbas até a África.

Explica lá melhor o que é isso, porque isso é um tema que eu não tenho visto referido em parte nenhuma. Pra já, o que é o sargaço? Nós temos duas imagens de sargaço. Uma, que é a imagem das sargaceiras do norte, da zona da costa de Viana, costa do distrito do Minho, onde o sargaço era apanhado para servir de adubo, para pôr às vezes até subterrâneos de areia, para os enriquecer. E depois temos outra ideia, que é mais longínqua, mais mitológica, que é o Mar dos Sargassos, que fica mais perto da costa dos Estados Unidos, ali entre as Caraívas. De que sargaço é que estamos a falar?

Nenhum deles.

Nenhum deles.

Na verdade, o que chamamos de sargaço em Portugal não é a espécie Sargassum da Biologia. Essa espécie é uma espécie que é muito invasiva do ambiente das Caraíbas, do México, perto do Mar dos Sargassos, propriamente dito, mas que é uma espécie que tem tido um desenvolvimento, eu diria, exponencial nos últimos anos. Para se ter uma ideia, muitas das praias das Caraíbas, no México e nos países vizinhos, têm hoje em dia que ter barreiras pra que o sargaço não chegue à praia.

Porque se o sargaço chegar, apodrece.

Apodrece, fica castanho, liberta H₂S e liberta amônia.

Que cheira mal.

Que cheira mal e é um risco enorme pra saúde pública. E destrói a capacidade turística dessas regiões, que vivem essencialmente do turismo. E pra ter uma ideia também, ainda há pouco tempo eu soube que tinha havido uma invasão grande de Cabo Verde, da Nigéria e do Senegal.

Portanto, das zonas mais tropicais.

Atravessando um lado ao outro o Atlântico. E por que é que há tanto sargaço no mar?

Pois, é isso que eu ia perguntar.

São os nitratos. Nós temos nitratos a mais no oceano, que provêm provavelmente do Amazonas, dos rios sul-americanos e dos rios africanos também. Portanto, o Níger, o Kwanza, todos os grandes rios.

Por que agora mais? A bacia do Amazonas não é uma bacia-

Eu devo dizer que os primeiros artigos sobre o assunto identificavam como principal razão a desflorestação do Amazonas. A partir de certa altura apareceu como também igualmente importante os rios africanos que transportam os restos da agricultura e das regiões urbanas pra dentro do oceano. E se quiserem ver assim, o sargaço é o Atlântico a libertar-se dos nitratos. A libertar-se sob a forma de uma alga, que tem umas pequenas bolinhas que o mantêm à superfície, e que está a tornar-se invasivo de muitas regiões.

Portanto, aquilo que nós vemos, às vezes chamado de invasões de algas, que aparecem nas barragens, nos nossos rios, é um fenômeno semelhante, mas com espécies diferentes?

Em Portugal, nos Açores e no Algarve, nós temos tido uma outra invasão, também da Ásia, que é a Rocamura, que tem o mesmo efeito que o sargaço em termos da destruição da capacidade de utilização das praias, e que hoje em dia também é uma prioridade importante a sua identificação e eventualmente tratamento. O sargaço tem a ver com volumes tão elevados, que apesar de neste momento na região do México estar essencialmente levado a aterro, é uma enorme preocupação da comunidade internacional, como é que se pode ter uma utilização que consuma É aquela enorme quantidade de macroalgas.

Estamos a falar de matéria orgânica que, no limite, também fixa CO2. Limite não, fixa mesmo CO2. Portanto, a questão é saber se é possível transformar aquilo que neste momento é uma praga, de alguma forma, numa fonte de energia.

Mas parcialmente. Agora é preciso também contares que o sargaço, em particular o Mar dos Sargaços, é também um refúgio de muitas espécies, está num ciclo de evolução de muitas espécies importantes do oceano.

Eu creio que são as lampreias que vêm de lá, não é?

Não faço ideia, mas acredito que sim. Não é um alimento que eu aprecie, mas eu sei que há grandes apreciadores.

Enfim. Não se pode ser grande apreciador nos dias que correm ao preço que está, mas é verdade.

És um pequeno apreciador. Mas de qualquer das maneiras, é importante perceber que elas também acabam por ficar-

Não são lampreias, são enguias

...com grandes quantidades de microplásticos, com grandes quantidades de metais pesados, hidrocénico, e portanto, temos aqui um problema que o oceano está, também neste aspeto, desequilibrado, e muito vai ter que se fazer na relação nossa com o oceano pra ser capaz de ultrapassar estes problemas.

Já agora, nós estamos a falar aqui de facto, no caso dos rios, estamos a falar de grandes rios africanos, imagino que te referias ao Congo e ao Níger, sobretudo, são os maiores rios da costa ocidental de África. Depois estamos a falar do Amazonas, que é o maior curso de água do planeta. Mas apesar de tudo, não são zonas tão intensamente agricultadas como outras. Mas são, então, agricultadas com nitratos a mais, os nitratos industriais?

Eu diria que o assunto não está completamente fechado, mas que é provável que o aquecimento do mar também tenha algum efeito neste processo. Mas o último trabalho que eu vi, também por uma coincidência no México, mostrava que a produtividade do sargaço até diminui com temperaturas acima de 28 graus. Portanto, há muita gente a trabalhar nisto, é uma prioridade pra União Europeia, é uma prioridade para os países do Caribe, é uma prioridade pro México. Neste momento, nós temos grandes zonas do Atlântico que estão a ser afetadas fortemente por estas macroalgas e outras invasivas. E atenção, aquele mar azul que nós idealizamos, aquele mar cujo ruído nos dá calma-

E que é muito transparente

...espírito contemplativo, que é muito transparente, que é uma fonte de saúde e de bem-estar, tem riscos. Estes riscos, uma parte fizemo-los por omissão, outros por ação.

Nós já falámos disso algumas vezes, às vezes há desequilíbrios que provocam outros equilíbrios. O sargaço, em concreto, pode ter efeito sobre a acidificação ou não? Não se sabe ainda.

Não acho muito fácil que tenha, mas sei que tem um efeito complicado até pra o aquecimento. Não esquecer que ele é escuro, não reflete a totalidade da radiação, ele está muito à superfície no oceano, ele é um problema pra navegação, é um problema pra algumas espécies, também é proteção pra outras, porque nós estamos naquelas situações que a natureza conhece muitas. Muitas vezes o que é mau pra uns, é bom pra outros e vice-versa. Mas é um equilíbrio diferente. E nós estamos a caminho de um mundo diferente, em que alguns dos aspetos não são claramente melhores do que o passado, e que é preciso, portanto, pelo menos tentar antever os anos que se vão suceder a nós.

E qual é a tua perspetiva?

A minha perspetiva é que, tal como nos desafios passados, só a ciência é que pode resolver os desafios futuros. A ciência e a cooperação internacional, neste caso. Nós temos uma visão muito eurocêntrica quando pensamos nos problemas e olhamos para os nossos rios e dizemos: "Não, mas isto está muito melhor do que estava no passado". Olhamos para as praias daqui, da linha do Estoril ou das praias das proximidades do Porto, da zona norte, e dizemos: "Não, mas neste momento os nossos níveis, todas as praias têm bandeira azul ou dourada", e não percebemos que nós vivemos num mundo grande e complexo, onde muitas regiões não têm nenhum tipo de tratamento dos resíduos, não têm nenhum tipo de tratamento das águas residuais, dos hotéis, das habitações.

Estou falando dessas zonas tropicais. São zonas mais pobres.

São zonas muito mais pobres e que têm muita produtividade também do ponto de vista orgânico, e em que é necessário percorrer todo o caminho, que já foi percorrido nos países que têm mais capacidade financeira, para repor a qualidade do ambiente. E esse percurso é indissociável da necessidade da melhoria da sua capacidade económica.

Deixamos só, entretanto, esclarecer. Eu tinha dito a certa altura que falei da lampreia, mas que talvez fosse enguia. É enguia. Enguia que vai ao Mar dos Sargaços completar o seu ciclo de-

Apesar de tudo, é um processo diferente.

O Mar dos Sargaços é um processo em equilíbrio. Este é um processo em desequilíbrio, em explosão. Portanto, é completamente diferente.

E, portanto, neste momento, eu diria que, no nosso caso, é claramente importante nós seguirmos este processo de uma forma próxima. Nós vamos seguramente ter este tipo de efeito nas nossas costas num período que não vai ser muito longo.

Não é a forma mais entusiasmante de terminar mais um programa, mas encontramo-nos aqui dentro de uma semana com outro tema.