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Estamos de regresso a mais um Resto É Ciência e hoje era quase inevitável. Temos que falar da Lua, uma vez que o homem está de regresso à Lua, mais de 50 anos passados depois da última nave espacial terrestre ter alunado. Nós estamos de novo a caminho da Lua. O programa agora chama-se Artemis. Artemisa é o nome em português da deusa Artemisa. Artemis, no momento em que gravamos, ainda estão a caminho da Lua quatro astronautas. Vamos saber mais sobre este planeta, sobre este satélite que sempre tem fascinado a humanidade desde que ela pode chamar a si própria humanidade. Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA, grande conhecedor também destes temas. Miguel, nós, humanidade, temos, de facto, uma grande proximidade com a Lua. Quem tiver ouvido o nosso programa de língua portuguesa este fim de semana ficou a saber que o próprio nome da Lua na nossa língua tem a ver também com "mês", e em várias línguas é assim. Por exemplo, é mais óbvio em inglês, é "moon" e "month", portanto a origem é mais próxima, o que de facto é um sinal de que os ritmos do calendário tenham andado ao ritmo da Lua, praticamente desde que a humanidade se conhece. Terá sido praticamente sempre assim, pelo menos desde que nós temos noção desse facto. E há, inclusivamente, achados arqueológicos que mostram uma espécie de calendário lunar, um achado com 26 mil anos em França. A Lua, apesar disso tudo, é um ilustre desconhecido até há muito pouco tempo. Uma ilustre desconhecida.
Uma ilustre desconhecida. A Lua é o segundo objeto espacial mais brilhante que se vê no céu. O primeiro é Vênus.
Quer dizer, exceto o Sol, naturalmente.
Mas o Sol a gente vê-o com dificuldade. E à noite, que é quando vemos as estrelas do céu, ele está do outro lado da Terra e, portanto, não entra normalmente nessa contabilidade. E a Lua é dos poucos objetos que se reflete, por exemplo, numa superfície de água. Isso levou a que ela é olhada com atenção desde há muitos milhares de anos e tem uma característica curiosa. Enquanto Vênus é essencialmente branco, e o que nós vemos de Vênus é a atmosfera de Vênus, na Lua, o que vemos é a superfície da Lua, ainda por cima com alguma permanência no tempo, o que leva a que existem esquiços da Lua desde há muito tempo. Até Leonardo da Vinci fez desenhos.
Fez esquiços da Lua. Uma coisa que havemos de falar melhor, que é algo que tem um lado quase paradoxal, vamos tentar perceber porquê, que é: a Lua mostra-nos sempre a mesma face, com pequena variação, mas muito pequenina. Mostra-nos sempre a mesma face, o que até tornou mais fácil desenhá-la, cartografá-la. Mas não foi sempre feita assim. Havia aquela velha mitologia do homem do saco, que estaria na Lua.
O homem da Lua tem a ver com o facto de a Lua mostrar sempre a mesma face, o que leva a que há uma certa permanência da forma como nós vemos a Lua. Mas, na verdade, o primeiro mapa da Lua feito com esse nome é feito por um polaco, de nome Velius, que era ainda por cima, ao mesmo tempo, presidente da Câmara de Gdańsk. Repara um tempo em que os presidentes da Câmara eram astrónomos amadores.
Nós temos em mente que Gdańsk é uma cidade portuária, industrial, polaca, o que é verdade, mas além disso, é uma cidade hanséática e, portanto, uma cidade que tinha uma vida económica e cultural poderosíssima.
No século XVII, em particular. E aberta ao mundo. Ele era topógrafo e tentou aplicar a topografia.
Gdańsk, que não são só os antigos estaleiros Lenine de Lech Walesa. É também uma cidade com uma catedral lindíssima e com ruas muito bonitas também.
E, portanto, ele vai partir do ponto em que tinha deixado Galileu, que tinha aperfeiçoado um pouco o telescópio e usado o instrumento capaz de ampliar a imagem. As fontes de luz, aproximadamente 20 e 30 vezes, começou a tentar olhar para as diferentes áreas escuras e claras da Lua. E ele, ao fazer esse mapa, clarifica a existência de umas zonas muito escuras, que são os chamados tipicamente os mares, se bem que não tenham água, e umas zonas mais claras, que já se sabia que eram sobrelevadas e que chamam as terras altas da Lua. E ao continuar-se esses estudos de uma forma cada vez mais pormenorizada, veio a concluir-se que os mares se sobrepunham às terras altas e, portanto, que eram geologicamente mais novos.
Mas nós só temos uma perceção clara de tudo isso, inclusive da sua composição, depois das primeiras viagens à Lua. Basicamente do programa Apollo. Depois os russos também lá iriam com naves não tripuladas, mas do programa Apollo, que trouxeram pra Terra pedaços, rochas lunares, que nos permitiram chegar a muitas conclusões.
Exatamente. Por seis vezes a Lua foi visitada pelo homem. Que foram as missões Apollo entre 69 e 72. Elas foram precedidas de missões que não alunaram, mas cartografaram o essencial da superfície deste pequeno planeta. E nota que já em 68, penso eu, tenho isto aqui, a parte escondida da Lua foi cartografada. E já agora, o nome em inglês, que é "The Dark Side of the Moon", é bastante tonto, porque o lado da Lua que nós não vemos tem tanta iluminação quanto o lado que nós vemos. Ele é oculto, não é escuro.
Porque a Lua, tal como a Terra, tem dois movimentos. Aliás, no caso da Lua, até podemos considerar que é mais um, porque não há o movimento em torno do Sol, mas a Lua também gira sobre ela própria, só que gira muito devagar. Ela gira à mesma velocidade com que dá a volta completa à Terra, portanto, é sensivelmente 28, 29 dias.
Essa razão é uma razão que tem a ver com o mecanismo físico, que é exatamente o mesmo, ou pelo menos é da mesma família, daquele que dá origem às marés. Explicar as marés é complexo. Não vale a pena dizermos que é simples, porque existe uma ideia bastante simplista, que é dizer: "As marés é a atração que a Lua faz sobre o oceano". Mas isso não é exatamente verdade, porque se isso fosse exatamente verdade, então o lado da Terra que está virado pra Lua teria maré alta e o lado contrário teria maré baixa, coisa que não é o que se verifica. Normalmente, o lado virado pra Lua, quando é maré alta, também é maré alta do lado oposto.
É uma espécie de alongado, ou longo.
Esse alongamento é feito por um processo que fisicamente é um pouco complexo e que tem a ver com o seguinte: existem aqui duas forças que têm que ser consideradas. A primeira é a força gravítica. Como sabem, a lei da gravidade, como costumam dizer, é das poucas leis que é aplicada, por exemplo, em Portugal, de uma forma bastante sistemática, e a única que é cumprida pelas pessoas sem reclamar. E outra força, que é uma força inercial, aquilo que pra um físico não é propriamente uma interação, uma força, mas que tem a ver com o facto do sistema Terra-Lua andar à volta daquilo que é o seu centro de massa. E essa força, uma força inercial e uma pseudoforça, é como a força centrífuga, mas não é uma força centrífuga, porque ela não tem a ver com a rotação, tem a ver com o movimento de revolução em torno do centro de massa, que é, em si, uma translação. E essa força é igual, praticamente, em toda a Terra. É a força que é gerada pelo sistema Terra-Lua. É a composição dessas duas forças que dá origem à força geradora de maré. E, por exemplo, se querem pensar se isso, de um lado e do outro da Terra, quando a Lua está numa determinada posição, nós temos uma força gravitacional da Lua, que é mais importante do lado que está virado pra Lua que do outro, por uma razão que tem a ver com a distância, porque a força gravítica cai com o quadrado da distância, mas a força inercial tem praticamente o mesmo valor, e a composição das duas faz com que, na verdade, a força geradora de maré seja para fora dos dois lados.
Mas isso tem outro efeito. E esse efeito é um efeito sobre a velocidade de rotação da Terra.
É.
Porque a Terra, em princípio, se não fosse isso, devia ter a mesma velocidade de rotação desde o princípio dos tempos.
Mas ela atrasa-se um bocadinho.
Atrasa-se, exatamente. Os dias são cada vez mais longos.
E tem um efeito sobre a Lua, que a Lua afasta-se um bocadinho, uns três centímetros.
Isso é muito interessante, porque há um texto escrito ainda em 1754, por uma pessoa que nós só associamos à filosofia, à metafísica, que é o Immanuel Kant, que, conhecedor do fenômeno das marés, faz um texto cujo nome é: "Exame sobre a questão de como a Terra sofreu uma alteração do seu eixo de rotação". E esse texto do Kant é um texto que tem uma ideia sobre este sistema Terra-Lua. Isto já vem a partir dos cálculos do Kepler e também do Newton. Portanto, ele também tinha feito isso. Ele estabelece uma ideia de que o Sol e os planetas têm origem num ambiente caótico, de gases, que depois se condensaram. O que é extraordinário, porque na altura não havia nenhuma ideia que permitisse chegar até aqui. E esta ideia sobre a origem da Lua, não sendo exata, tem uma parte de verdade. E curiosamente, outra pessoa que vai pegar neste mesmo tema, influenciado pelo seu pai, é um senhor chamado George Darwin, como você está a imaginar, era filho do Darwin, que também pega no tema das marés e como as marés podiam ter influenciado a evolução biológica, o que é verdade, mais tarde nós sabemos que é verdade. E ele elabora uma teoria que tem também uma parte de verdade. E essa teoria é de que a Lua saiu da Terra. A Lua separou-se da Terra. Separou-se da Terra e a prova disso seria o facto de haver o Oceano Pacífico, que é uma zona gigante sem nenhum continente e seria uma espécie de cicatriz ou buraco da saída da Lua. Nós hoje sabemos que não é bem assim.
Não é verdade.
Não é verdade. Mas há a ideia que, de alguma forma, Lua e Terra tiveram uma origem parecida. E por isso nós temos agora um terceiro planeta, que já não existe, de que falamos como pai da Lua.
Ou mãe da Lua.
Ou mãe da Lua, que é Theia.
Que é Theia. Voltando um pouquinho atrás. A força geradora de maré, que dá as marés, influencia também a Lua. Ou seja, a maré que a Terra faz na Lua, exatamente devido àquilo que alguns autores chamam de divergência da gravidade. A força da gravidade da parte do material da Lua que está mais perto da Terra é mais alta do que aquela da parte da Lua que está mais longe da Terra. Isso faz com que haja uma tendência, ao longo do tempo, pra que a Lua volte sempre a mesma face pra Terra, porque ela é mais atraída do que a outra face.
No fundo, o que estás a dizer é que é como se fosse um pouquinho mais densa, mais pesada.
Exatamente. Mas, na verdade, notem bem que esta combinação, que há pouco tentei sem um quadro. Explicar um assunto sem quadro é sempre difícil.
Sobretudo pra quem tem o costume de ser professor.
Pra quem tem o vício do giz. E, portanto, na verdade, o que se passa é que há combinações entre dois planetas que estão ligados um ao outro, em que esta diferença é muito significativa. Na verdade, já expliquei, não é bem a diferença, é a soma da força inercial, pseudoforça inercial, com a força gravítica. E o conjunto Terra-Lua, tal como o conjunto Plutão-Caronte, por exemplo, está nestas condições. São satélites bastante volumosos, que estão razoavelmente perto do seu satélite pai, já que o outro é a mãe, deixemos este ser o pai, e que devido a essa proximidade, e a essa comparabilidade das massas, se consegue ter uma situação estável em que a rotação e a translação são síncronas. Repara, por exemplo, que não é o que se passa com Mercúrio e o Sol. Mercúrio é muito mais pequeno que o Sol. São dois pra três. Não vamos falar agora disso, mas voltamos à questão da Lua, em que as missões vão à Lua, conseguem recuperar quase 400 kg de rochas lunares e quando chegam à Terra e são analisadas nos laboratórios, em particular da NASA, mas não só, se chega à conclusão que existem dois conjuntos de idades. O primeiro diz que as terras altas são antigas e são nortesitos, do ponto de vista geológico, e têm idades de perto dos quatro ponto qualquer coisa mil milhões de anos. Os basaltos, que são as terras escuras, como os nossos basaltos são escuros, são mais novos, têm cerca de 3,8, 3,9 mil milhões de anos. E nós chegamos a esta situação que a Lua não tem rochas tão novas como nós temos na Terra, nos vulcões, nos Açores.
Portanto, nós temos na Terra rochas não sempre a ser formadas, rochas sedimentares. Essas podem ser quase de ontem. Mas depois temos as rochas, e temos de ontem mesmo, tudo o que resultar de fenómenos vulcânicos.
Tudo o que sai do vulcão é recente. E o vulcanismo da Lua, aparentemente, terminou há 3,8 mil milhões de anos, o que significa que a atividade geológica na Lua tem um período que é curto, que é entre 4,6 e 3,8. Mas de onde é que vem este valor 4,6? Por que ele é tão importante? Aquele é o valor mais antigo que nós somos capazes de medir, tanto em meteoritos que chegam à Terra, como em rochas da própria Terra, porque os sedimentos, como são feitos a partir de rochas pré-existentes, muitas vezes são aqueles que guardam alguns dos elementos mais velhos da geologia do planeta. E acredita-se, por tudo o que foi medido, que 4,6 é exatamente a idade do sistema solar. O sistema solar terá sido formado todo ao mesmo tempo. Essa nébula primitiva, em rotação, coalesceu o astro mais importante, que foi o Sol, que devido às suas dimensões e à força da gravidade, se autoignou, entrou em ignição, e depois criou os planetas à sua volta, um dos quais também é bastante volumoso e esteve quase a dar ignição, que foi Júpiter. Mas nós não chegamos a ter duas estrelas no nosso sistema, temos uma só estrela, e depois temos este conjunto de planetas todos.
Júpiter sozinho pesa mais do que todos os outros juntos. Quer dizer, tem a massa de Júpiter. Estamos em Júpiter e temos que voltar à Lua, mas também é hora de interromper para o noticiário. Regressamos dentro de alguns minutos. Estamos de regresso à segunda parte de "O Resto é Ciência". Estávamos em Júpiter, mas vamos regressar à Lua. Não pra ficar com a cabeça na lua, vamos regressar à Lua. Miguel, estavas a falar há pouco que havia um terceiro planeta envolvido neste processo de formação. Nós sabemos qual era a idade deste sistema. Neste sistema, temos uma lua que ficou, por assim dizer, em termos de evolução geológica, como que parada no tempo. Muito antes da Terra, e continua a estar viva, com vulcões, com deriva dos continentes, com essas coisas todas. A Lua não, mas poderão ter uma origem em comum.
Em princípio, todo o sistema solar tem uma origem comum.
Claro, mas nós no sistema solar temos planetas que são gasosos e outros planetas que são metálicos.
São telúricos.
Telúricos.
E a Lua é telúrica.
Tal como a Terra.
E é interessante, porque o cálculo das dimensões da Lua e da massa da Lua foi tentado desde o tempo do Newton. E é interessante, porque nós hoje, que temos uma capacidade enorme de fazer esse tipo de observações, ainda vemos como com observações razoavelmente simples, se tentou saber coisas tão complexas como isso. E o Newton, por exemplo, usou as marés para tentar calcular a relação entre a massa da Lua e a massa da Terra. E já muito antes disso, o Ptolomeu tentou comparar as dimensões da Terra e da Lua a partir de um eclipse parcial da Lua, ou seja, pela sombra projetada e pela penumbra projetada. E a partir desses racícios muito simples, e apesar de ser obviamente com erros razoavelmente importantes.
Mesmo assim, muitas vezes estes cientistas antigos tinham capacidade de se aproximar muito da verdade. Temos o famoso teste de, com a sombra de uma vara, calcular a dimensão da Terra.
O que mostra que a capacidade de invenção da humanidade existe desde sempre e, se Deus quiser, ainda vai continuar algum tempo. Apesar de, como sabemos hoje em dia, se quiser saber qualquer coisa com menos erros, mais vale consultar a inteligência artificial, porque ouvir-nos a nós vai ser sempre pontuada por lapsos e pequenas incorreções, que, aliás, é o tal sal da vida.
A inteligência artificial pode ter menos imaginação do que nós, mas tem mais memória.
Exatamente, tem muito mais memória. E portanto, o que é interessante é que a Lua, com essas dimensões, tem um problema. E o problema é que a chamada velocidade de escape da Lua é muito baixa comparada com a da Terra, o que significa que é muito difícil manter uma atmosfera. E ao não ter dinâmica geológica, também não tem a capacidade de ter diferenciação.
Explica-me melhor o que é velocidade de escape. A velocidade de escape é a velocidade com que os gases-
As moléculas conseguem escapar ao campo gravitativo.
Exatamente.
E, portanto, enquanto na Terra estamos a falar de 11, na Lua estamos a falar cerca de dois, o que significa que, por exemplo, o hidrogênio nunca poderá estar na Lua, porque para uma temperatura de ordem dos 300 Kelvin.
300 Kelvin são 28 graus.
Vinte e poucos graus Celsius, imediatamente o hidrogênio se escapa em grandes quantidades e, portanto, é muito difícil. A atmosfera é tremendamente rarefeita, e daí vem aquela teoria da conspiração segundo a qual nunca se teria estado na Lua, porque ao ver-se a bandeira americana na lunagem mais famosa de sempre, se diz que ela oscila, e ao oscilar quer dizer que havia ar, e não pode haver ar com aquela dimensão na Lua. O que é interessante, porque a oscilação que existe, um bocadinho de oscilação na bandeira americana, na verdade, tem a ver com um outro fenômeno físico também muito interessante, que é o fato de não haver também arraste do ar. E ao não haver arraste do ar, há muito pouca fricção, e temos um pêndulo. Desde que se retire da posição de equilíbrio, ela essencialmente reage como um pêndulo, até que a própria estrutura interna da bandeira acaba por atenuar esse movimento.
Aliás, ela, para se manter naquela posição, tem que ser mantida no ar por uma vara horizontal.
Claro, como se faz muitas vezes nas situações em que não há vento, para desfraldar as bandeiras com o brio que os seus promotores pretendem. E, portanto, a Lua tem a face virada para nós e a face que nós nunca vemos, que é a tal face oculta, não escura, oculta da Lua. E essa face oculta também é interessante, porque ela tem ainda mais cicatrizes das colisões com corpos espaciais.
O que é um sinal de que a Terra terá, de alguma forma, protegido, ficando com os meteoritos que iriam em direção à Lua?
Exatamente. E portanto, acaba por proteger um bocadinho esta face. Se bem que a Lua tem uma pequenina oscilação, a tal libração da Lua, que leva a que de vez em quando desça um bocadinho mais, tanto em longitude como em latitude.
Isso tem a ver com o plano de circunvalação da Lua não estar estável. Oscila ligeiramente.
Oscila ligeiramente. E essa oscilação causa que nós, de vez em quando, temos o direito de observar um bocadinho da parte que está oculta da nossa visão atual. Outro assunto interessante, e que tem a ver com a observação que todos nós fazemos da Lua, é aquela ideia que temos quando a Lua está perto do horizonte, está maior do que quando está no alto do céu.
É por isso que as fotografias da lua cheia são boas, são tiradas logo ao nascer da lua, não é?
E como sabe, isso é uma pura ilusão de ótica.
É como o sol.
É como o sol.
É como o pôr do sol.
Existe uma experiência muito interessante da qual eu tenho conhecimento muito recente, que é como é que nós podemos verificar, de uma forma simples, que a Lua tem sempre a mesma distância angular. Porque eu sabia fazer isso com um pequeno telescópio, claro, porque eu sei medir que é mais ou menos meio grau d'arco, o tamanho aparente da Lua. Mas na verdade, meio grau d'arco corresponde à dimensão do dedo mindinho com o braço esticado. E, portanto, se nós esticarmos o braço e pusermos o dedo mindinho virado pra Lua, vemos que somos capazes de ter mais ou menos o tamanho da Lua. E se fizermos isso apontando para o zênite, também vemos que ela mantém exatamente a mesma dimensão. E aprendi outra coisa ainda mais interessante, é que a mão fechada corresponde mais ou menos a 10º d'arco, o que significa que se identificarmos a estrela polar e tivermos quatro amigos que nos permitam ter pelo menos 10 mãos umas em cima das outras, ainda somos capazes, com um erro bem aceitável, de calcular a nossa latitude.
Isso já é bem mais interessante.
Isso é bem mais interessante e mostra como coisas simples podem dar informação útil quando sabemos o que estamos a ver.
Exatamente. Continuando na Lua e voltando ao sistema Terra-Lua. Tu falaste aqui de algumas forças que têm influência nisso. Por exemplo, no caso da Terra, tem a tal influência que tu falaste nas marés. As marés sempre existiram e têm imensa influência, por exemplo, já o Darwin falava disso, na própria evolução das espécies, mas não é a única influência que existe. Existem outras, nomeadamente a tal força, explica-me um pouco melhor o que é isso, da força inercial.
Se a Terra estivesse parada, ou seja, se ela não rodasse, Newton ensinou-nos que devia ser vista como uma referencial inercial. O que isso quer dizer? Que um corpo parado continua parado e que um corpo animado a uma certa velocidade mantém essa velocidade ao longo do tempo. Isso é que é um referencial inercial. Mas quando nós temos a Terra a andar à volta, já nada disso se verifica. Já falámos aqui, numa das outras nossas conversas, da força de Coriolis, que é também uma força inercial.
Força de Coriolis, só para quem não ouviu a conversa, tem que perceber o que a força de Coriolis tem a ver com sardinhas. É certo um tema que atrai.
Mas isso tem que andar para trás.
Tem que andar para trás e ver o nosso programa anterior.
Quando temos o sistema Terra-Lua, na verdade, tem um movimento que é não em torno do centro da Terra, nem do centro da Lua, mas em torno do centro de massa conjunto Terra-Lua. Como a Lua tem uma massa bastante elevada, esse centro está bastante desviado do centro geométrico da Terra. Esse movimento, que é um movimento translacional, é um movimento de revolução, também dá origem, exatamente, a uma outra força inercial. E essa outra força inercial é que tem a ver com a força geradora de maré quando ela se soma à força da gravidade. E é isso que leva a que os oceanos se movam e isso é que leva a Lua também a virar sempre a mesma face para nós. Mas notem que os oceanos movem-se, mas a Terra também. Faz ideia que o ciclo de maré também é um ciclo de maré terrestre. O ciclo de maré terrestre é em centímetros.
Não damos por ele, mas ele existe.
Mas ele existe.
Porque os continentes estão a flutuar.
E porque isto tudo tem alguma moleza. A Terra é achatada devido à sua rotação. É a rotação que achata a Terra. Portanto, a Terra é, na dimensão do tempo geológico, soft. Ela só é dura quando nós estamos na nossa dimensão temporal. É como a água. Nós quando damos um chapão, a água é sólida, não é? E quando entramos devagar na água, a água é líquida. Portanto, tudo isto tem a ver um pouquinho com as escalas de tempo. E estas escalas de tempo fazem com que toda a Terra se deforma em função da posição, essencialmente, da Lua e do Sol. Para um geofísico, como eu sou, isso altera as medições de gravidade de forma suficientemente sensível para ter que ser corrigido, por exemplo, quando se anda à procura de uma mina. Coisa que já me aconteceu no meu passado distante, mas que ainda hoje se realiza. Aparentemente, existirá mais uma massa importante na zona da faixa piritosa, segundo ouvi dizer, e que mais uma vez é identificada parcialmente pelas alterações que faz no campo gravítico.
Na composição da Terra e na composição da Lua, não temos informação sobre isso que possamos usar, mas temos na composição da Terra. Tu falaste há pouco na faixa piritosa, estamos a falar de materiais ferrosos e isso não devia estar à superfície. Portanto, pela própria forma da formação, devia ter ido para o núcleo, para o fundo, para a parte central, para aquilo que atrai os materiais mais pesados.
E há de ir, porque o que mantém a dinâmica da tectônica de placas são os blocos que mergulham para o cemitério das placas, que será algures entre a parte inferior do manto e a parte superior do núcleo. Uma boa parte do ferro da Terra já migrou pra lá, por isso é que temos o núcleo de ferro. A Lua tem uma situação que é menos bem estabelecida, porque existe algum magnetismo muito fraco nas rochas da Lua. A essência desse magnetismo primitivo leva-nos a crer que teve ou a haver ou ter havido um campo magnético na Lua significativo, mas ele não é dipolar. O nosso é dipolar. O que isso quer dizer? Que o polo magnético norte está perto do polo geográfico norte e até nos serve para nos orientarmos na Terra com uma bússola. Isso serviu durante séculos para orientar toda a gente na Terra.
Na Lua não há polos tão marcados.
Na Lua não há bússolas que nos salvem. E, portanto, temos que ter orientações com outro tipo de estrutura. Mas esta questão da formação da Lua também tem que ser compreendida, que é um assunto que não está provavelmente fechado.
Não está fechado. Voltando um pouco atrás. Há pouco eu referi a ideia do filho do Darwin, do George Darwin, de que a Lua teria saído do Oceano Pacífico. Nós hoje sabemos que não é assim, mas sabemos de alguma forma algo que durante muito tempo não era claro, é que os materiais são os mesmos. Quer dizer, com idades diferentes, mas nós sabemos, por exemplo, que a semivida de um material radioativo da Lua é idêntica ao da Terra, o que quer dizer que ele foi Têm a mesma idade.
Eles têm a mesma idade, e mais: sabemos que em termos de densidade, a densidade da Lua é semelhante à de Marte, penso eu, ou seja, uma densidade de um planeta tipicamente rochoso ou telúrico, como se quiser chamar. Sabemos que ele tem que ter tido alguma diferenciação, porque tem que ter criado uma capacidade de fazer um campo magnético que influenciou as rochas à superfície. E eu tinha que entrar na outra ótica, que é assim: sabemos que ele é mais homogêneo que a Terra e podemos saber isso pelo momento de inércia da Lua, mas não totalmente homogêneo. E, portanto, existe uma experiência que não é exatamente isto, mas que muitas vezes é evocada, que é como é que se distingue um ovo cru de um ovo cozido sem o partir. E sabem que isso tem a ver com a relação que há entre a rotação que nós imprimimos como momento de força e a forma como ele reage em termos de movimento. E se fizéssemos isso à Lua, veríamos que ela não estava muito longe de uma esfera homogênea, mas está um bocadinho longe. Esse bocadinho leva a que tenha que haver alguma diferenciação interna. A Terra, quando se formou, teve uma situação parecida, porque as placas que hoje nós falamos muito, as tais placas tectônicas ligadas aos sismos, não existiram sempre. E aparentemente há uma parte inicial da formação da Terra e da evolução da Terra em que havia uma única tampa.
Uma tampa arrefecida, digamos assim.
Diz?
Uma tampa arrefecida natural.
Uma tampa arrefecida exterior e não havia propriamente a dinâmica que conhecemos hoje. A passagem de um regime para o outro será tema de uma próxima conversa entre nós, mas tem a ver com a água e tem a ver com talvez episódios extremos de colisão entre corpos celestes.
Já que foste à colisão, vamos à tal origem novamente atrás e o ponto em que estão algumas dúvidas. A ideia é que no início terá havido um outro planeta, um outro corpo, que se chama Theia, que terá colidido com, chamam-lhe às vezes Terra 1.0, portanto, não seria a Terra, seria um outro objeto celeste que ficava aqui mais ou menos onde nós estamos, neste local, em termos de relação com o Sol. A Theia andava por aí também não muito longe, terá chocado. E agora a dúvida é o que aconteceu depois. Havia uma tese, que era a tal tese de que poderia ser no choque ter-se-ia solto a Lua, portanto, teriam se formado dois corpos. A outra é que esse choque teria sido tão cataclísmico que se teria formado uma nuvem de poeiras. E essa nuvem teria consolidado em dois corpos, a Terra e a Lua. E agora, nos últimos estudos mais recentes, haverá simulações já de computadores que mostram que isso é possível. Estamos aqui mais próximo, curiosamente, da teoria do Kant do que da teoria do Charles Darwin, da Lua a sair do Pacífico.
É verdade, José Manuel, mas há uma coisa que eu não me posso esquecer. Eu, durante alguns anos, dei aulas de introdução à física da Terra, em que também recorria a alguns destes exemplos dos planetas do sistema solar, porque por vezes é interessante fazer essa comparação para se perceber a diferença de comportamento. E ao longo dos anos, eu tinha todos os anos que verificar exatamente o que se entendia sobre os movimentos da atmosfera de Júpiter ou da atmosfera de Vênus, porque tudo mudava muito rapidamente. Os nossos colegas astrofísicos têm, felizmente, uma grande capacidade criativa que os leva a, com poucos dados, tentar obter uma imagem o mais realista possível.
Esta é a ideia que eu tinha. Quer dizer, a ideia que eu tinha, não. Eu quando comecei a pensar nisso, lembrei-me de repente: "Mas a Lua não sai da Terra, separa-se da Terra?" E tinha uma coisa na memória, que era um livro que li quando era miúdo, depois fui verificar, o livro é de 1963, onde vinha dado como sendo uma das teorias mais plausíveis, precisamente a teoria do George Darwin, da Lua a sair do Pacífico. Eu pensei: "Mas que estranho, porque defender nesta altura que a Lua saía do Pacífico, porque o Pacífico é muito fundo, mas então não havia já a teoria da deriva dos continentes?" Porque o Wagner era o princípio do século XIX. De facto, havia, mas só nos anos 60 é que há a prova de que há formação de fundo oceânico.
Sim.
Só nessa altura é que vem. Só nessa altura é que se percebe que a deriva dos continentes corresponde àquilo que depois chamamos de tectônica de placas.
Isso é Vening-Meinesz. E só quando foi possível mostrar as bandas de campo magnético invertido e não invertido, mas também será tema de uma nossa próxima conversa, é que foi possível ter a certeza de que não estava apenas o planeta a encolher, que era Belousov, uma teoria concorrente. Mas, até porque o nosso tempo está-se a acabar, eu gostava de salientar que nós tivemos 4,6 bi milhões de anos para fazer aquilo que conhecemos hoje. Dizem que dentro de 5000 milhões, o Sol terá arrefecido significativamente, transformar-se-á naquilo que os astrofísicos chamam uma gigante vermelha.
Tão grande que chega cá.
Tão grande que chega cá e os planetas que orbitarão o Sol e o que orbitarão a Terra já não existirão, provavelmente. Sabendo nós, como sabemos, que tudo isto se vai transformar.
Não sabemos é se estaremos cá para assistir.
Mas temos alguma esperança. E sabendo-se é o seguinte: como vimos há pouco que a Lua está a cada ano 3,5 cm mais longe da Terra, é bom que nós nos apressemos, se ainda queremos chegar lá numa distância significativa, e pensar que desde que veio a primeira missão Apollo até agora, ela já se afastou quase 1,5 metro.
Enfim, não é muito à velocidade do Bartêmeas, mas é significativo. Terminámos mais um "E o Resto é Ciência?". Estamos de regresso dentro de uma semana.