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Bom dia. Estamos de regresso a "E o Resto é Ciência" e hoje vamos falar de um tema que pode parecer um pouquinho fora de época, fora de tempo, que é: por que nós, sobretudo no verão, temos em Portugal tanta disponibilidade de sardinhas? Por que apreciamos tanto esse prato? Por que a nossa indústria pesqueira também depende tanto, sobretudo os barcos mais pequenos, dependem tanto da sardinha? Isso tem a ver com a forma como o oceano funciona. E pra percebermos a forma como o oceano funciona, vamos ter que começar por fazer uma pequena viagem até ao Polo Norte, uma viagem realizada há bastante mais de 100 anos, a norte da Sibéria, em mares praticamente sempre gelados e que permitiu perceber melhor o funcionamento das correntes oceânicas, quer as superficiais, quer as que não são superficiais. Eu sou o José Manuel Fernandes, faço sempre este programa com o Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA. Miguel, vamos falar de um norueguês que tem uma vida, de resto, absolutamente fascinante. Eu nem me atrevo a dizer o nome completo dele, Nansen, mas o primeiro nome é, não sei se vou dizer bem, Fridtjof. Não sei se será exatamente este o nome. É um herói nacional da Noruega, num tempo em que a Noruega ainda estava unida à Suécia, depois acaba até por ter um papel na separação dos dois reinos. Miguel, por que esta grande aventura de Nansen é tão importante? Vamos começar por contar um pouquinho o que ele fez, que é uma coisa que vale a pena contar.

Vale a pena contar. Vale a pena contar que Nansen foi, durante toda a sua vida, um tipo profundamente excepcional. E nós estamos no fim do século XIX. No fim do século XIX, as sociedades científicas tinham dois grandes objetivos, chamemos assim: um era o Polo Norte, outro era o Polo Sul. Chegar aos polos, atingir o local dos polos. E no caso do Polo Norte, que é o que nos traz mais aqui, havia ainda uma questão básica, era se o Polo Norte estava em terra, ou seja, se o gelo que cobria a região polar estava sobre terra, ou se era apenas gelo flutuante no Oceano Ártico.

Como é.

Como é. E, na verdade, que é gelo flutuante, foi descoberto por acaso. Existe uma antiga canhoneira, que tinha sido comprada pelos Estados Unidos, é uma canhoneira inglesa, que era a Janet, que fica presa no gelo ártico e que deriva de tal forma que vai parar depois ao norte do Canadá e da Groenlândia.

Isto passou-se há quase 150 anos.

Quase 150.

Quase 150 anos.

E o Nansen, olhando pro percurso estimado pra esta canhoneira, deduz que: "Para chegarmos ao Polo Norte, nós temos que fazer o mesmo que a Janet fez. Temos que construir um navio capaz de suportar a pressão do gelo ártico, soldá-lo a uma placa de gelo flutuante e deixar que a corrente", que na opinião dele ia do norte da Sibéria até à Groenlândia, "nos faça passar, sem mais esforço, pelo Polo Norte". E essa é a primeira grande aposta de Nansen. Ele era muito jovem nesta altura.

Sim, ele é um biólogo, que depois se apaixona pela oceanografia. E antes disso, já tinha feito uma viagem, também extraordinária, de cruzar a Groenlândia a pé.

Exatamente.

Quer dizer, em esquis, nem sequer com cães. Uma viagem que é até difícil de imaginar como é que ele conseguiu fazer aquilo.

Estamos numa altura dos grandes exploradores. Esta é a altura dos grandes exploradores da Terra, na altura em que não havia nem telemóvel, nem Starlink, nem Maps e apenas com orientações astronômicas, no essencial, se tentava encontrar os dois pontos extremos da Terra. E existe uma frase do Shackleton, que foi o homem que tentou o Polo Sul, e que lhe é atribuída, que é perguntar: "Mas por que raio, qual era o objetivo dele atingir o Polo Sul?", que é o mesmo objetivo do Nansen atingir o Polo Norte. Ele diz: "Nenhum objetivo. É porque ele está ali".

É a mesma coisa que se diz em relação ao Everest, a conquista do Everest.

É porque ele está ali. E, portanto, o primeiro objetivo dele é construir um navio. O navio que ele vai construir se torna célebre, é o Fram, que quer dizer "pra frente" ou "forward" em inglês.

Não é um quebra-gelos, pelo contrário.

É o contrário, é um navio bojudo, com o pouco calado, e que ele constrói pra ser capaz de resistir à pressão lateral.

Sim, mas a ideia é genial, em muitos aspectos genial, porque não é apenas resistir, é quando o gelo se vai aproximando, vai soerguendo o navio, ele fica pousado sobre o gelo.

Exatamente.

Em vez de ser esmagado, é empurrado pra cima e depois quando o gelo derreter, vai outra vez pra baixo sem se virar. Parece muito simples, mas é um ovo de Colombo.

Mas é um ovo de Colombo. Ele junta-se a um carpinteiro naval e a um marinheiro, que hoje em dia não seria, seria um engenheiro naval com doutoramento em navalidades e seria seguramente um almirante da Marinha. Mas não, ele juntou-se a um carpinteiro naval e a um marinheiro experiente nas zonas polares e os três desenharam o Fram. Era um navio que tinha 11 metros de largura, não estamos a falar de um navio enorme e que era razoavelmente bojudo. Ele vai idealizar uma experiência entre 1893 e 1896, levando o navio para a ilha de Nova Sibéria, que era no norte da Sibéria.

No norte da Sibéria.

No norte da Sibéria, no Ártico Oriental, congela. Espera pela estação fria, para ele ficar congelado e vai com ele derivar dizendo assim: "Neste momento, para atingirmos o polo, só precisamos de duas coisas: tempo, paciência, alimentação e vestuário." E não precisava de mais nada além disso.

Precisava também que aquilo funcionasse dessa maneira.

Precisava que funcionasse, porque o que vai acontecer é que ele não vai exatamente ao polo, ele fica ainda a alguma distância do polo, acaba por sair do Fram e tentar chegar mais perto. O tornou-se cães.

Samoyedos, são aqueles cães siberianos brancos.

Sabes mais que eu.

Eu já tive um Samoyedo.

Tu és um grande especialista de cães e eu não.

Já tive um Samoyedo. Chamei-lhe Gorbi, vim lá tudo por causa do Gorbatchov.

Devia ter sido Nansen, na altura não sabias.

Não sabia, exatamente.

O que é interessante é que ele, quando está a ser arrastado pela corrente, faz a primeira grande observação que dá origem a um conhecimento muito importante, que emociona muitas das regiões costeiras do mundo. É que ele repara que o gelo não se move exatamente na direção do vento. Ele move-se para a direita do vento, fazendo um ângulo de 20 e poucos graus, e com uma velocidade que é inferior à velocidade do vento. 2%, tipicamente. Estamos a falar de ventos muito fortes no Ártico. Um vento de 100 km/h, dá 2 km/h de velocidade de corrente e era a velocidade a que o Fram estava a deslocar quando estava preso no vento. Mais importante que isso, ele percebe que essa rotação, essa deslocação para a direita, era devida à força de Coriolis.

Explica lá melhor o que é a força de Coriolis, que é muito importante.

É tão importante que neste momento, que a gente infelizmente vê na televisão tantos mísseis, uns dos quais balísticos e outros não, todos eles são afetados pela força de Coriolis, e todos eles têm que ter em conta a força de Coriolis. A Terra está sempre a andar à volta, a andar à roda. E como nós estamos solidários com a Terra, nem sequer temos ideia da velocidade de rotação, mas é muito grande.

É muito grande. E é maior no Equador, não nos polos.

Para quem está no polo, como chamam na cadeira do Pai Natal, está razoavelmente sossegado, apenas roda sobre si próprio, mas quem está no Equador faz 40 mil km por ano. Desculpem, por dia.

Por dia.

Se dividirem, veem que é uma velocidade estonteante. Quando nós temos um objeto na Terra, um dos efeitos desse objeto é que ele sofre alguma força centrífuga e é por isso que a gravidade no Equador é mais pequena que a gravidade do polo, e a gravidade aumenta à medida que a latitude diminui. Mas a velocidade também é afetada, e a velocidade é afetada de tal forma que um corpo que se desloque a uma certa velocidade no hemisfério norte vai sentir uma deflexão para a direita e no hemisfério sul para a esquerda. E essa deflexão é suficientemente importante para que, por exemplo, que é uma ideia que as pessoas não têm, um rio se desloca, por exemplo, para o ocidente, faz mais erosão na margem norte do que na margem sul. Isso pode ser verificado por qualquer pessoa. Aliás, até existe um teorema mais complexo, que mostra que até a água dos rios está ligeiramente inclinada, exatamente devido à força de Coriolis. Existe um aluno do Nansen, que é o senhor Ekman, que se tornou o maior oceanógrafo do tempo dele, que começa a tentar estabelecer a matemática e a física desta-

Mas antes de ir, já agora, deixa só contar dois aspetos importantes dessa viagem, porque como tu disseste, percebe que o Fram não vai chegar ao Polo Norte, então vai tentar chegar a pé. E depois o que é extraordinário é que ele sai do barco com o tornage e só acompanhado por um companheiro. Tentam viajar para norte, chegam ao sítio mais a norte que alguém tinha chegado na altura, que é a latitude de 86.13, portanto 86 graus, menos de quatro graus dos 90 graus do Polo Norte. Depois percebe que não vai chegar e volta para baixo. Esta viagem dura imenso tempo, mais de um ano. Ele vai fazer esta viagem e depois vai conseguir chegar à Terra de Francisco José, que são umas ilhas russas. Aliás, é curioso porque dos territórios imperiais russos, são os únicos que ficam com o nome de um imperador, neste caso, um imperador prussiano, Francisco José. E ao chegar a essa terra, encontra um explorador britânico. E o explorador britânico, quando o encontra, pergunta-lhe se ele é o Nansen. Parecido com aquela outra história que se passou mais ou menos na mesma altura, mas no meio de África, Mr. Livingstone, I suppose. Aquela famosa frase quando perto das Cataratas Vitória, se encontram dois exploradores britânicos que também estavam a viajar por África. Isso tudo se passa na terra de Francisco José, ainda leste das ilhas Svalbard, onde depois se vão encontrar. E o que é espantoso é que Ele vai chegar a esse lugar com um dia ou dois dias de diferença do barco que entretanto se tinha libertado do Fram, que entretanto se tinha libertado do gelo e que também vai navegar para aí. É uma história. Eu nunca vi nenhum filme sobre isto, mas era bom que tivessem feito.

Se calhar existe, porque o Nansen é o mesmo herói nacional.

É um herói, ele tem um papel fundamental, um papel humanitário mais tarde no final da vida, é uma figura extraordinária.

Eu devo dizer que eu vim de Cabo Verde há pouco tempo e concluí uma coisa que para mim, infelizmente, foi novidade, que toda a gente conhece no sul o Passaporte Nansen. Eu desconhecia o Passaporte Nansen.

Eu também não sabia. O que é?

O Passaporte Nansen foi o primeiro documento emitido pela Liga das Nações e que era dado a todos os apátridas ou a todos aqueles que eram imigrantes por razões de guerras. E o Passaporte Nansen chegou a ser reconhecido por mais de 50 nações antes de ser formada as Nações Unidas. E ele tem um papel determinante na defesa dos apátridas, que eles não tinham país.

Isso é muito evidente no pós-Segunda Guerra Mundial.

Muito evidente no pós-Segunda Guerra Mundial. E em particular dos imigrantes que saíram depois da Revolução de Outubro de 1917, na criação da União Soviética. E essa massa enorme de imigrantes não tem documentos, não tem papéis, não é nada, e ele idealiza um passaporte que recebeu o seu nome, que é o Passaporte Nansen, mas que ainda hoje é conhecido de todos os países onde há uma grande imigração e onde houve uma grande imigração durante o século XX.

Vamos lá agora ao Ekman.

O Ekman é um homem que agarra nesta observação naturalista do Nansen e tenta estabelecer como é que varia a corrente sob a ação do vento. E descobre que não só na camada superficial da água há realmente a tal rotação, cerca de 20 e poucos graus em relação à direção do vento, como essa camada superficial da água, ao arrastar a camada que está por baixo dela, dá uma nova rotação, que por sua vez, ao arrastar a camada que está por baixo dela, dá uma nova rotação, e que na verdade significa que a velocidade faz uma espécie de espiral, é a chamada espiral d'Ekman. Quando se faz a matemática deste processo, e se verifica qual é o transporte real de água do mar na primeira centena de metros do oceano, chega-se à conclusão que esse transporte faz 90º para a direita da direção do vento. É esse transporte que leva a que, ao afastar da terra, num país como o nosso, em que o vento dominante é de norte, ao afastar para oeste a camada superficial, faz vir à superfície a camada mais profunda e, portanto, mais fria.

Mas não é só mais fria. É mais fria e tem mais nutrientes.

Que é o chamado afloramento costeiro, em inglês "upwelling", é um nome que muita gente conhece, e é esse afloramento costeiro que vai alimentar os pelágicos e, em particular, a sardinha, e a vai tornar tão populosa e tão importante em Portugal.

Pois, isso é verdadeiramente fascinante. Isto também tem a ver com o facto de como a água do mar se move, cria uma espécie de vácuo.

Um vazio.

Um vazio, e esse vazio é preenchido por água que vem de baixo. Para as pessoas perceberem como é que essas coisas funcionam.

Existe uma questão que as pessoas às vezes têm mais dificuldade em perceber. A temperatura da água do mar é essencialmente um efeito dinâmico, não é um efeito térmico. Não tem a ver com o sol. Os modelos que se utilizam para calcular a temperatura da água do mar essencialmente só contam com a física, com a corrente, com as equações de Navier-Stokes. Na verdade, não utilizam as variações da temperatura do sol. O sol apenas tem efeito na pele do mar, no chamado efeito de pele. E nas praias.

Mesmo assim, nós sabemos que na mesma latitude, podemos ter temperaturas do mar muito diferentes, e às vezes com a temperatura do sol também há pouca relação. Aliás, se as pessoas quiserem ter noção disso, há uma praia em Portugal que eu digo às pessoas para não irem, porque faz sempre muito calor e a água está muito fria, que são as praias da Arrábida. As praias da Arrábida é uma zona que, como está virada a sul, o sol bate e, em concha, aquece muito o ar, mas a água do mar não é água do Algarve, é água ainda do Atlântico, tudo é Atlântico, mas é uma água da face ocidental do Atlântico.

Sabes que eu não sou grande especialista de praias.

Isso é.

Muito pelo contrário. Mas é interessante pensarmos nesta questão do upwelling, porque isto são duas aplicações seguidas do problema do efeito de Coriolis.

Bem, mas nós agora temos que interromper para o nosso habitual intervalo. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Bem-vindos de regresso à segunda parte do "E o Resto é Ciência". Estávamos a falar da força de Coriolis, dos movimentos marinhos, do transporte Ekman e a influência que isso pode ter no nosso verão e na nossa sardinha.

Exatamente. E eu estava a tentar chamar a atenção do seguinte aspecto que é interessante, que é: por que nós temos este vento ao fim da tarde no verão? Que já agora, eu que não sou um homem da praia, diria que é a única coisa que ainda refresca qualquer coisa no fim do dia Antes que o José Manuel fique zangado comigo.

Não fico. Eu gosto bastante desse vento que sopra do mar para terra.

Exatamente. O vento, à partida, devia soprar do mar para terra e ele existe porque a Meseta Ibérica é um semideserto que está muito quente e muito mais quente durante o dia do que o mar. Só que o vento, que devia soprar do mar para terra, ou seja, de oeste para este, na verdade, também sofre efeito da força de Coriolis e, portanto, desvia-se para a sua direita. E ao desviar-se para a sua direita, ele acaba por ser um vento do noroeste.

Noroeste. Nortada.

Nortada na costa portuguesa toda. E depois, a corrente que induz no oceano ainda tem um novo desvio para a direita e por isso é que ela é de terra para fora. Na verdade, a corrente é ao contrário daquilo que devia ter sido o vento. Não sei se isto tem algum sentido.

Nós falámos um pouco desse andar de norte para sul da corrente quando falámos da areia das praias.

Exatamente. E o que se passa aqui? O que se passa aqui é que os pelágicos, ou seja, os peixes que vivem na coluna d'água e que portanto são muito sensíveis às variações de temperatura e às variações de alimento, de plâncton, tornam-se muito mais invasivos quando têm estas condições. A sardinha precisa de uma temperatura que ande entre os 14 e 15 graus, em particular para o seu ciclo reprodutivo.

Portanto, não é boa temperatura para ir à praia.

Não é boa para ir à praia, mas é boa para arranjar sardinha. Essa é a vossa contradição. E, portanto, eu como sou mais da parte do restaurante, percebo a sardinha, para mim está bom num dia fresquinho. E a sardinha é um problema em Portugal, sei lá, aparece, ela desaparece, é um problema que é científico, político, cultural, o que se entender. É preciso ver que o primeiro trabalho científico do homem que começou a biologia marinha em Portugal, que foi o Alfredo Magalhães Ramalho, em 1925.

Foi o diretor.

Foi o fundador, o verdadeiro fundador é o Alfredo.

E depois foi diretor do Aquário Vasco da Gama.

Aquário Vasco da Gama, porque era tudo a mesma unidade. O Alfredo Magalhães Ramalho, em 1925, já faz um trabalho sobre a sardinha e o problema da sardinha, porque as variações do manancial de sardinha têm um enorme impacto, não tanto na economia da pesca, como no lazer dos seus consumidores. E quando ele vai para a Noruega, donde era o Nansen, e vai aprender em Bergen como é que se faz investigação marinha a sério, porque o Dom Carlos era um naturalista, mas não era um investigador. E o Alfredo é que é o primeiro grande investigador. Ele era doutorado em medicina, ele vem da fisiologia, é da fisiologia que ele chega à pesca. E ele vai, em particular, aprender como é que se faz um navio oceanográfico. O primeiro navio oceanográfico português é o Albacora, não é o Dona Amélia, e o Albacora é que realmente já está desenhado para fazer observações oceanográficas.

E o Albacora, que neste caso não era um albacora submarino, era um albacora.

Não era um albacora submarino, era um albacora que se mantinha à superfície, com garbo. E, portanto, a pesca da sardinha tem uma tal importância, que ela, na verdade, é gerida com muito cuidado por Portugal e por Espanha.

A pesca da sardinha representa que parte da economia da pesca portuguesa, neste momento?

Em termos de dinheiro, não é um valor muito significativo. Eu não tenho os números na cabeça, mas diria que é à volta das dezenas de milhões. 30 ou 40 milhões, uma coisa parecida com isso, na minha memória. Mas o impacto cultural e o impacto social é exponencial ao pé disto. Ela é explorada pela frota, que é a frota do cerco. Aliás, tenho que mandar daqui os meus cumprimentos ao Humberto, que é o grande animador da ANOPCERCO. E durante os anos 2017, 2018 e 2019, vivemos talvez o nível mais baixo do manancial de sardinha nas costas portuguesas.

E isso por quê? Porque de repente pescamos demais ou porque de repente esse fenômeno de upwelling, de trazer os nutrientes à superfície, estava afetado?

Na verdade, todas as hipóteses foram postas em cima da mesa. A verdade é que diminuiu, não há nenhuma dúvida. Eu diria que houve um período importante de sobrepesca, pelas piores razões, ou seja, não foi pela ganância, mas foi por erros dos modelos de previsão.

Erros científicos.

Erros científicos, que conduziram a uma taxa de exploração demasiadamente elevada, e que depois foram corrigidos, obviamente. E havia sempre a ideia: "Mas será que é a mudança do clima que está a gerar o aquecimento do oceano?" Na verdade, aparentemente, pelo menos em parte, a espécie é capaz de se adaptar, afastando-se um pouco mais da costa e um pouco mais para o fundo. Nós temos sardinha até aos cerca de 100 metros de profundidade do oceano, portanto, é uma pesca muito costeira.

Portanto, é uma pesca que se faz na nossa plataforma continental, não é?

Faz na plataforma continental, perto da costa.

Perto da costa.

As embarcações são embarcações pequenas, não são aquelas grandes embarcações.

Eu já saí mais do que uma vez à pesca da sardinha.

Então pronto, sabes bem o que é. O cerco é uma técnica que se baseia muito no fato de a sardinha criar cardumes, cardumar, como eles dizem. E um cardume pode ter uma quantidade realmente muito grande de peixes. É uma pesca que é controlada, ou seja, existem valores que estão estabelecidos todos os anos. E mais do que isso, existe uma altura do ano em que a pesca não é feita, existe um período de não pesca, que vai agora terminar.

Que é o defeso.

O defeso, e que é o período no qual a sardinha se reproduz. Nós comemos sardinhas com que idade? Alguém já se perguntou isso?

Não são tão novinhas como pensamos, não é?

Não são tão novas como pensamos, nem tão velhas, porque as muito velhas também não são muito interessantes do ponto de vista gastronômico. A sardinha tipicamente tem dois, três anos é uma sardinha que é interessante do ponto de vista alimentar.

Enfim, ela gordinha fica mais no fim do verão, não é?

Independentemente da idade.

Independentemente da idade, porque tem a ver com o ciclo reprodutivo.

Exatamente.

Para o ciclo reprodutivo é preciso primeiro-

Engordar pra depois pôr ovos

...engordar pra depois pôr ovos.

Exatamente. Toda a parte do defeso e toda a parte mesmo nos períodos piores das chamadas zonas de pesca proibida, tem a ver essencialmente com a existência de regiões onde há o essencial da reprodução da espécie. Normalmente, é na zona norte de Vila do Conde, se bem que ela depois torna-se sempre mais volumosa nas zonas que fazem interface com os rios, porque na verdade existem mais produtos orgânicos que são colocados no oceano.

No fundo, o que os rios trazem.

Trazem mais o que eles depois induzem da evolução do plâncton, porque a sardinha é um peixe que vive não só da filtração do material orgânico que existe no oceano, o plâncton, mas como também de predação. Elas chegam a comer os próprios ovos e os próprios alevins mais pequenos. E portanto, nesse sentido, existe tanto do ponto de vista do setor da pesca, como do ponto de vista dos gestores da pesca, que é a DGRM, apoiada pelo IPMA, existe sempre esta tendência de manter a prazo a certificação, e aliás, foi um dos grandes sucessos da Nopcerco, daí os meus cumprimentos, foi terem obtido a certificação MSC de sustentabilidade ambiental.

Mas é um tema sempre muito difícil, porque nós temos comunidades, enfim, alguns portos de pesca que dependem, não diria totalmente, mas muito da sardinha.

Dependem muito da sardinha e dos indonésios, mas isso são dois assuntos diferentes que não vamos agora misturar.

Indonésios agora, não é?

Agora, desde há uns anos.

Desde há uns anos, porque antes era sempre comunidades como aquela perto da Póvoa de Varzim. Por que não fica Caxinas?

Onde está um grande ex-jogador de futebol, que também é um grande pescador.

Sim, ele tem um dos melhores barcos.

Exatamente, o mais moderno. A sardinha é em si um bom alimento, e que é outra coisa interessante. Ao longo do verão, quando ela vai engordando, ela vai ganhando também ômega 3 e ácidos gordos, que são importantes pra saúde, e acaba por ser um produto alimentar que é tradicional, faz parte da chamada dieta mediterrânica também, e é um produto que é muito apreciado pelos consumidores.

Mas que quantidade de sardinha se pode encontrar, não se pode falar propriamente de bancos, mas nestas zonas onde há-

É nos cardumes. Ela não está parada, é nos cardumes. Primeiro, vamos dizer, como é que as pessoas sabem que a sardinha está em bom estado, que é um problema. Isto é feito de uma forma interessantíssima, que é: em Portugal é obrigatório que o pescado que é coletado no mar, seja entregue na lota. Portanto, Portugal tem um sistema que é centralizado, que para os cientistas é muito interessante, porque significa que é possível fazer amostras representativas. Portanto, os jovens ou as menos jovens vão às lotas, escolhem de uma forma aleatória um conjunto de sardinhas e depois vão ver as idades que elas têm. Ora, como é que é possível saber a idade de uma sardinha?

Exatamente, isso é curioso. Explica lá.

Isso é uma coisa superinteressante e que tem a ver com uma coisa muito engraçada. Todos os peixes ósseos dormem.

Dormem dentro d'água e não sufocam.

Exatamente, dormem dentro d'água. E a sardinha é um desses casos em que ela sobe no oceano, normalmente durante o fim da noite, princípio da manhã, na madrugada, por isso é que a pesca é feita de madrugada.

Exatamente. As vezes que eu fui à pesca de sardinha, foi sempre madrugada.

Para apanhar cá em cima e depois ela desce.

Eu por acaso joguei que era pra não verem o barco e as redes, mas agora estou a perceber.

Pensávamos que era pra fugir à fiscalização.

Não, pra fugir à fiscalização dos cardumes.

E portanto, o que se passa é que este ciclo circadiano fica gravado nos otólitos da sardinha.

Os otólitos são?

Os otólitos são umas pedrinhas, chamemos assim, que existem na tua orelha interna da sardinha. Existem três, mas um deles é mais volumoso que os restantes e é mais utilizado para este fim, e que cada dia, cada ciclo circadiano, tem uma pequena risquinha. E houve uns cientistas sucintamente pacientes para verificar que havia uma relação direta entre o aumento do número de riscos, e portanto, o aumento também do volume da pedra, e a idade da sardinha e o comprimento. As três coisas. E portanto, o que se faz em cada campanha é que se analisam os otólitos, alguns totalmente, ou seja, contam-se o número de dias desde que a sardinha nasceu.

Sim, mas dão-se riscos superfinos.

Superfinos, é feito em microscópio, obviamente. Medem com muito cuidado a sua massa e como há uma relação aparentemente muito boa, aquilo que se chama um proxy, entre a massa do otólito e a idade da sardinha, já se consegue saber: "Ok, este ano a sardinha de 11 centímetros tem um ano, a de 14 tem dois, e a sardinha pode ter até sete anos Nas amostras. Até pode ter um pouco mais à escala da plataforma continental, mas nas amostras, tipicamente até sete anos. E portanto, as sardinhas que são requeridas são todas catalogadas e depois vai-se ver a relação entre as coortes, entre as gerações de sardinha. Porque existe uma coisa nas sardinhas que é igual às pessoas do país. Quando é que nós vemos que uma população está numa má situação? Quando tens muitos velhos e não tens praticamente crianças. Ou quando, por exemplo, tens uma zona, uma altura da faixa etária que falta, por exemplo, porque houve uma guerra, porque houve uma epidemia.

E terá sido isso que aconteceu em 2017, 2018?

Em 2018, chegou-se a ter uma situação em que a pirâmide etária das sardinhas tinha claramente dois módulos, quer dizer, havia uma parte que faltava.

Portanto, a parte, a coorte reprodutiva.

Dois, três, quatro anos faltava.

Faltava. E é aquela que, a princípio, será-

A que mais capacidade reprodutora. E portanto, depois, o que se fez nessa altura foi definir, juntamente com a pesca, quais eram os locais em que ia ser mesmo interdita completamente a pesca, para tentar facilitar e promover a reprodução. E depois fez-se uma pesca muitíssimo controlada, que permitiu recuperar o manancial e portanto, todos os receios que havia, que estávamos numa espécie de um point of no return, que nunca mais teríamos sardinha.

Já agora, só para dar uma nota, quando nós agimos com cuidado, conseguimos recuperar a matéria viva. Isso também aconteceu de alguma forma com o bacalhau, que é outro, mas aí não é nas nossas costas, porque é noutros sítios.

Porque é uma segunda confusão. Aliás, eu tenho uma colega minha do IPMA, uma investigadora, que sempre chamou a atenção que existe uma diferença entre a explorabilidade, ou seja, um recurso pode deixar de ser explorável, mas não quer dizer que seja extinto. Uma coisa é a extinção de uma espécie, outra coisa é o fim da explorabilidade.

Da capacidade, no fundo, o seu interesse económico, o seu interesse para a nossa alimentação.

Exatamente. E portanto, a sardinha não teve nenhuma situação de extinção. Teve uma situação perto de não ser economicamente rentável. E tu que te interessas por essas coisas, é também interessante saber que o preço da sardinha é praticamente elástico do ponto de vista da teoria econômica. Quando há menos sardinha, o preço é mais alto e quando há mais sardinha, o preço é mais baixo.

Por quê? Porque a procura em Portugal é quase infinita. Estamos disponíveis para pagar preços absurdos em certas épocas do ano.

O que significa, e os economistas da pesca mostram, aliás, que o rendimento dela não tem variado muito, porque na verdade tem acompanhado de forma inversa.

Mesmo com anos com capturas muito mais baixas.

Exatamente. Que as capturas baixas estão sempre acompanhadas do aumento do preço na lota e as capturas altas, o contrário. E onde é que se gera sempre o grande problema do ponto de vista económico e social? É na conserva, porque a conserva para ser rentável precisa de um preço muito baixo na lota. E portanto, não sei agora os valores, mas eu lembro-me que era abaixo para aí dos 0,70 €.

Isso deixa as pessoas arrepiadas, 0,70 €.

Mas posso estar enganado. Enquanto que a venda in vivo para a restauração e para alimentação pratica preços razoavelmente superiores. E portanto, este é um recurso que em Portugal tem uma importância, como disse, muito grande. Eu, que tenho o privilégio de ser um dos confrades da Confraria do Melhor Peixe do Mundo.

Confraria, como é que se chama?

Do Melhor Peixe do Mundo, tem sede em Sines.

E qual é o peixe? É sardinha?

Todo o peixe português é o melhor peixe do mundo. Isso, por vezes, é uma ideia que nós temos completamente baseada em experiência, ou seja, na comparação.

Já agora que estamos a falar disso, uma das coisas que muitas vezes se ouve dizer é que o bom peixe tem que ter águas frias. Tu confirmas?

Uma coisa eu posso confirmar, é que quem faz aquacultura nearshore, ou seja, perto da costa, ou aquacultura em terra, ganha muito na qualidade do pescado quando o coloca tempos suficientes em águas frias e agitadas. Porque o peixe tem que muscular e tem que ganhar tônus para ser realmente agradável ao palato. Como sabes, o gosto é um dos sentidos que é um bocadinho sobrevalorizado, porque ele é bastante pouco completo e vive muito também do tato, do céu da boca, vive das texturas e vive do cheiro. E portanto, o peixe muito fresco, o cheiro a mar, o ar salgado, tudo isso faz parte da nossa percepção sensorial, que é muito mais do que propriamente aqueles quatro sentimentos básicos que o gosto nos permite dar do ponto de vista estritamente fisiológico.

Bem, mas voltando ainda à sardinha, apesar de não ter tanto valor económico como nós às vezes imaginamos, no que diz respeito à política europeia, nós ficamos com a parte leão.

Historicamente, existe uma separação penso eu 65%, 35% entre Portugal e Espanha, mas também te digo que a sardinha é muito mais apreciada em Portugal que em Espanha. E já agora, o contrário se passa, por exemplo, com o carapau, que é um peixe que é igualmente muito interessante do ponto de vista gastronómico e do ponto de vista nutricional, e que em Portugal é bastante desvalorizado. Ou a cavala.

O carapau pequenino é bastante apreciado.

É, mas nós temos sempre carapau à espanhola, molha espanhola, e temos sardinha.

É verdade. Bem, vamos voltar à questão da ligação que isto tem com o nosso princípio O que nós ainda podemos aprender sobre estes movimentos das correntes marítimas no que respeita não só à produção de peixe, como ao nosso dia a dia?

Nós ainda fazemos uma avaliação da situação dos diferentes peixes com valor comercial de uma forma ainda um bocadinho primitiva, porque nós fazemos uma avaliação que é muito estatística, tem a ver com a herança e com a informação que existe. E na verdade, no mundo de hoje está a haver uma grande evolução para se começar a ver o sistema de uma forma mais multiespécie, com todas as espécies e as suas interações. Por exemplo, quando houve a grande crise da sardinha, uma das questões que estava sempre a ser levantada na mesa era se isto não era um efeito negativo da proteção aos mamíferos marinhos e, em particular, aos grandes.

Quanto aos mamíferos marinhos, estamos a falar das baleias, dos golfinhos, das orcas.

Da sua capacidade de se alimentarem.

As orcas, um dia destes temos também falado desse fenómeno das orcas na costa portuguesa.

Exatamente. E da tal família das orcas. E porque é que alguns problemas são familiares. E do ponto de vista da multiespécie, só neste momento é que estamos a ir numa fase que em vez de ser licença por licença, passa a englobar mais informações. Mas a verdade, o que se está a passar aqui, é que estamos ainda muito crus para isso. Nós falamos muito do gémeo digital do oceano, mas estamos ainda muito longe de conseguir fazer um gémeo que seja físico, químico e biológico.

Mesmo assim, por exemplo, quando recuperamos espécies, há coisas que eu imagino que sejam difíceis de recuperar. Alguma vez será possível, por exemplo, recuperar a pesca do atum no Algarve?

A pesca do atum no Algarve, não. O que existe, como sabes, é a engorda do atum no Algarve, daqueles poucos exemplares que nós temos a capacidade de recuperar na quota portuguesa estabelecida pelo ICCAT. Mas a verdade é que o oceano está em muitas regiões em grande recuperação e que há muito para fazer isso. É interessante saber que o navio que mais apoio dá aos países do Sul no Atlântico para exatamente tentarem fazer o mesmo, que há muitos países do Sul que têm situações de completo desaparecimento da capacidade pesqueira, também se chama Nansen e que também se chama de homenagem ao grande, nem posso dizer oceanógrafo, nem explorador.

É uma figura extraordinária. Eu aconselho as pessoas que tentem perceber mais quem era este Nansen, porque é daqueles gigantes, podemos dizer assim, daqueles gigantes da exploração, da ciência, das relações internacionais, do lado também humanitário, porque ele fez campanhas por causa da fome durante a Guerra Civil Russa.

E pensar que nós, pelo menos quando instalámos e fizemos o navio Mário Ruivo, que aliás foi também com financiamento norueguês, na sala onde se preparam as campanhas, está lá a fotografia do Nansen, que foi o norueguês que o governo da Noruega definiu como sendo aquele mais representativo para a importância que a Noruega ainda tem, tal como Portugal, no mar.

Bem, terminámos mais um "E o Resto é Ciência". Estamos de regresso com um novo tema dentro de uma semana.