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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA, antigo professor da Universidade de Lisboa, Faculdade de Ciências. E hoje vamos falar, até porque é quase inevitável, daquilo que nos está a acontecer, o céu a cair-nos na cabeça, literalmente. Mas em vez de falar do céu, vamos falar do mar. Não porque seja altura de época balnear, as pessoas estão preocupadas com o que está a acontecer, por exemplo, às praias, as praias estão sem areia. Mas mais do que isso, o mar é o grande regulador do clima, de sabermos o tipo de clima que temos, incluindo da temperatura média, da pluviosidade, tudo isso. Temos discutido, inclusive fizemos já aqui alguns programas no Observador sobre o famoso anticiclone dos Açores, mas por baixo do anticiclone dos Açores, fica a Corrente do Golfo, e a Corrente do Golfo é apenas parte. A Corrente do Golfo é uma massa de ar que vem da zona do Golfo, precisamente, os americanos às vezes até lhe dão outro nome, e que vai, de alguma forma, aquecendo a Europa e Portugal, em particular, temperando o nosso clima, porque é uma corrente quente. Só que essa corrente faz parte de um sistema muito mais complexo, porque a água que corre numa direção, depois tem que correr noutra, não é?

Exatamente.

E portanto, o que nós temos é água mais quente a correr em direção ao norte.

À superfície.

À superfície. E depois o que temos é que há uma altura em que essa água mergulha, já vais explicar por quê e como é que isso funciona, e depois vem por baixo, sem nós vermos, até praticamente a Antártida. Isso é uma espécie de rotação completa das águas.

E depois mergulha, passa por Índico, etc.

Passa por Índico. Está tudo junto, está tudo ligado, como se costuma dizer. Mas aquilo que muitas vezes se discute, e esse é o tema do programa de hoje, é saber se este sistema, que no fundo é o grande regulador de todos os climas da Terra, e no caso concreto da Europa, é aquilo que permite perceber por que nós na Europa, à mesma latitude, temos temperaturas bastante mais amenas do que têm, por exemplo, do outro lado do Atlântico, os nossos amigos americanos. Nova York está mais ou menos à altitude do Porto, e Nova York é muito mais frio do que o Porto, no inverno. Mas além de percebermos isso, é percebermos se pequenas flutuações neste sistema podem provocar variações muito mais rápidas do clima do que as nossas alterações climáticas, os nossos extremos, aquilo que a gente está sempre a discutir. Ora bem, mas começando pelo princípio, Miguel. Tenta lá explicar de uma forma o mais simples possível, porque isto não é muito simples, o que é o AMOC, porque este sistema é conhecido por AMOC.

E não é um estado de espírito.

E não é um estado de espírito, exatamente. Não é uma zanga. Ele pode zangar-se, mas não é uma zanga.

O AMOC é uma sigla inglesa que tem exatamente a ver com a Atlantic Medium Overturning Current, e apenas quer dizer aquilo que tu disseste, é uma corrente termohalina, ou seja, que acontece pelos contrastes de temperatura e de salinidade, e que é muito importante porque ela é que, de certa forma, revolta o oceano. Porque, por exemplo, há uma ideia que as pessoas têm sobre a temperatura da água, olha, quando vão à praia. E que é uma ideia que parece certa, mas não é. É de que a água está mais quente quando tem mais irradiação solar e está mais fria quando há menos irradiação solar. Mas, na verdade, a temperatura da água é, no essencial, um aspecto dinâmico. Nós temos água fria quando ela vem do fundo e temos água quente quando ela vem da superfície. No essencial.

Pode haver pequenas variações, se tiveres uma praia muito plana e tiveres a água ali ao sol durante umas horas, pode ser que ela aqueça um pouquinho.

E aquece mais um pouquinho.

Aquece mais um bocadinho.

E quando há vento, mistura mais rapidamente. Mas nós sabemos que tudo isso são características dinâmicas. E esta corrente, que passa todo o oceano da Terra, é muito importante, não só do ponto de vista do clima, porque ela influencia o clima, mas também do ponto de vista biológico. Não nos podemos esquecer que se não houvesse esta mistura de corrente de água profunda e superficial, todo o sistema biológico ficava profundamente alterado. E desde há muito tempo, que se tentou encontrar um modelo simples pra explicar o que estava a passar e, em particular, que forças moviam esta corrente pra ela ser assim tão persistente. Foi assim elaborado o modelo.

Portanto, quando falamos da corrente, é uma corrente que inclui aquilo que nós chamamos Corrente do Golfo, mas no fundo inclui tudo aquilo que são todas as correntes.

Aquilo que se chama em inglês, o grande conveyor belt. Nós aqui chamamos Corrente do Golfo, cujo nome agora, como sabem, tem aí algumas disputas, mas que, já agora, é de onde está a vir uma boa parte da precipitação que está a atingir Portugal nas últimas semanas. E um grande cientista, Stommel, idealizou um modelo muito simples pra explicar isto. Foi assim: "Vamos imaginar que nós temos o oceano equatorial de um lado e o oceano polar do outro. E que estes dois oceanos contactam entre si por uma corrente superficial quente e uma corrente profunda fria. Que componentes, que parâmetros do oceano são importantes Para este equilíbrio e que raio de tipo de equilíbrio é que isto pode dar? E quando se faz as equações mais simples que imaginar se pode. Imaginar que nós temos água na zona equatorial, que tem mais irradiação durante muito tempo, ela aquece, e onde também há muita pluviosidade, atenção. Portanto, perde-se a linearidade e ela migra para norte, encontrando a água do Mediterrâneo, que sabem que é mais salgada.

Que é mais salgada.

Migra ainda mais para norte e vai arrefecendo. E vai tornando-se mais salgada. E quando chega ao norte, fica mais densa.

Só para recordar a física básica, a água mais fria é mais densa, ocupa menos espaço, portanto é mais densa, com mais sal também é mais densa, portanto, afunda.

Afunda. E depois de afundar, o ciclo completa-se e ela desce para sul, fechando este ciclo simples de Stommel. O que se passa é que quando se faz uma conta básica de qual é a energia que esta circulação transporta para norte, nós estamos a falar de um valor chamado um petawatt. Um petawatt é muito watt, é muita energia.

Eu já ouvi traduzir isso várias vezes. Quantas vezes o total da produção de energia térmica do mundo? Fala-se em mil vezes, cem mil vezes.

Provavelmente. É um número brutal.

Isto significa que toda a energia que nós produzimos, tudo aquilo que fazemos, e que temos vindo a evoluir desde a Revolução Industrial, é uma mínima fração daquilo que só esta corrente transporta.

Exatamente. Uma boa parte dos fenômenos atmosféricos e geofísicos da Terra tem a ver com a diferença simples entre a energia que o Sol transmite à Terra na zona do Equador e a energia que o Sol transmite à Terra na zona dos polos, porque a inclinação dos raios solares é muito diferente. E quando os raios solares estão muito verticais em relação à zona em que nós estamos, nós recebemos mais energia por metro quadrado. E quando estão mais inclinados, menos energia por metro quadrado. Por isso é que ao fim da tarde costuma fazer mais frio e durante a hora do almoço nós temos mais calor. E isto na Terra também se verifica. E claro que a Terra compensa essas diferenças grandes de energia com fluxos oceânicos e fluxos atmosféricos. E depois roda, e quando roda ainda complica mais um bocadinho na atmosfera, em particular.

Quando dizes que roda, é o planeta roda e, apesar de nós rodarmos com o planeta, essa rotação em massas móveis, como é o caso dos oceanos, tem alguma influência. Até porque depois ainda há outras coisas, ainda há a Lua.

Exatamente, mas faz aparecer uma força que é muitas vezes falada, que é a força de Coriolis, que complica um bocadinho isto, é muito importante, é aquilo que faz com que o vento no hemisfério norte rode para a sua direita e no hemisfério sul, ao contrário. O que se passa aqui é que quando se faz as equações simples do Stommel, verifica-se que a solução pode não ser estável. Ou seja, porque se nós fizermos variar muito rapidamente o conteúdo em água doce do oceano, este equilíbrio pode ser alterado.

E essa questão é particularmente sensível, porque nós estamos numa altura em que sabemos, e é um dos temas mais noticiados dos últimos 20 anos, talvez mais do que 20 anos, sabemos que a água acumulada nos polos, particularmente no Polo Norte, isto é, a água do Ártico, o gelo do Ártico, o gelo em cima da Groenlândia, que tanto se fala agora, essas calotes polares são hoje mais pequenas, o que significa que a água que lá estava, sob a forma de gelo, derreteu, e é a água doce que se mistura com a água do mar.

Altera-se a salinidade. E a questão teórica é dizer assim: então, mas se eu alterar a salinidade de uma forma significativa, pode acontecer que ela deixe de se afundar nos polos. E se ela deixar de se afundar nos polos, quer dizer que ela então regride para a zona equatorial à superfície, o que significa que nós deixamos de misturar água profunda com a água superficial. Isto é um problema de tal forma grave que, a acontecer, que lançou muita gente à procura de saber duas coisas diferentes. Primeiro: aconteceu no passado? Nós temos alguma evidência que no passado a Terra tal tenha já acontecido. E o segundo: qual é a probabilidade de isto acontecer se aumentar o degelo no Ártico, em particular, e na Antártida?

Só para as pessoas também terem uma ideia. Uma alteração, se for profunda, deste sistema de correntes, se de repente a corrente do Golfo deixar de chegar tão a norte ou deixar de circular nesta direção no limite, de repente isto muda tudo. Não é apenas termos um vento em Leiria e umas chuvas na serra da Estrela. É outra coisa, passamos para um palco completamente distinto.

Do ponto de vista económico, isto tem uma consequência muito importante. É que nós estamos a preparar-nos para um aumento de temperatura, estamos a investir em sistemas para resistir ao aumento de temperatura e, de repente, claro, não é em todo o mundo, mas nesta zona da Terra, nós temos uma redução de temperatura.

Podemos ficar como Chicago, os Grandes Lagos dos Estados Unidos.

Exatamente. Isto atingiria todos os países, em particular aqui nesta região da Europa, e é óbvio que seria uma questão que tem que ser quantificada. É possível, já aconteceu, vai acontecer.

O que sabemos sobre isso?

Vamos ao passado. Já aconteceu? Bem, existe uma comunidade de pessoas que trabalham muito aquilo que se chama paleooceanografia, saber como é que foi o oceano do passado. Em Portugal, uma das mais conhecidas paleooceanógrafas vai fazer agora 70 anos, que é a Fátima Abrantes. Eles têm trabalhado imenso pra caracterizar exatamente a existência de mudanças climáticas que eles procuram essencialmente em organismos que são capazes de encontrar nos sedimentos. E está razoavelmente bem estabelecido que há coisa de 10, 12 mil anos, houve um período em que o AMOC não deve ter existido. E, portanto, o clima sofreu uma grande alteração.

Há muito pouco tempo isso?

Há muito pouco tempo.

Portanto, a viajar Homo sapiens e Homo sapiens sapiens é que por estes sítios.

Exatamente. E esse período, que recebeu o nome de Novo Dryas. Dryas é uma flor, é uma pétala de uma rosa, é até um nome bastante poético. Interpreta-se este acontecimento essencialmente como resultado da precipitação no Oceano Atlântico, dos lagos que nós conhecemos no norte do Canadá e do continente americano. E que isso terá levado, eventualmente, a uma quebra rápida da salinidade e com isso uma quebra rápida do sistema de correntes profundas.

E o que aconteceu? Isso é no mar. E o que aconteceu na terra?

A Terra é mais difícil de caracterizar, porque os sedimentos marinhos têm uma grande vantagem, é que eles são muito regulares e podem ser encontrados e amostrados de uma forma razoavelmente simples. Portanto, a gente já sabe uma coisa: isto pode acontecer. Então se pode acontecer, está a acontecer? Ponto de interrogação.

Mas agora, antes de irmos aí, deixa-me só introduzir uma pequena complicação. Houve momentos que nós temos memória, porque há a memória histórica relativamente sólida, que foi a chamada Pequena Idade do Gelo, em que há alguma especulação que pode ter acontecido qualquer coisa. A Pequena Idade do Gelo é algo que acontece no final da Idade Média e vai mais ou menos até ao século XIX, em que de repente as temperaturas baixam na Europa, as colheitas falham, há fomes, o Tamisa chegou a gelar, há quadros dos pintores holandeses com pessoas a patinar no gelo em sítios que hoje nunca gelam. Portanto, há várias explicações pra isso, questões que têm a ver com vulcões, questões que têm a ver com manchas solares, com ciclos solares, mas também se diz que pode ter havido uma flutuação, pelo menos, deste sistema.

E isto tem dois problemas, não é só porque aquilo começa, mas porque aquilo acaba. E, portanto, há gente a tentar perceber como é que começa e gente que está a tentar perceber como é que acaba, porque como é que acaba uma coisa que se chama um tipping point? O tipping point, como penso que todos sabem, é aquela situação em que nós sabemos que não há volta atrás.

Um momento de viragem, não é?

É um ponto de viragem, é uma bifurcação. E, na verdade, esta situação é tão drástica que levou a uma monitorização importante do Atlântico pra saber se o fluxo de energia e de massa, que está associado a esta corrente profunda, se estava realmente a reduzir ou não. Foram feitos aquilo que se chama amarrações, que são correntômetros colocados num cabo bastante profundo, com vários correntômetros, que medem a velocidade da corrente. E existem duas linhas mais importantes, que é a linha RAPID ao norte e a linha SAMBA perto da África do Sul. Nenhuma cobre de um lado ao outro o Atlântico. Nós não temos essa capacidade ainda. Mas olhando-se pra estes dados, chega-se a uma conclusão interessante, é que não há evidência experimental de que esteja a diminuir.

Bem, já vamos a isso, senhor. Agora temos que interromper. Terminou a primeira parte do programa. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Estamos na segunda parte de "O Resto é Ciência". Estamos a falar desse sistema com esse nome curioso, conhecido pelos cientistas como AMOC, que no fundo é o grande sistema de correntes atlânticas, as superficiais e as profundas. E estavas precisamente a explicar que há redes científicas que colocaram uns medidores de velocidade de corrente no norte e no sul do Atlântico, e já há alguma indicação sobre o que é que está sendo medido?

Primeiro, eu gostava de explicar que isto é uma operação logística muito complicada, porque nós precisamos de fazer um corte no Atlântico de este a oeste, da África à América do Sul, da Europa até à América do Norte. E tínhamos que fazer esse corte ao mesmo tempo, pra poder fazer um cálculo realista do fluxo de energia de massa que estava a passar por essa região. Inicialmente, houve uma interpretação de que havia indicações de que havia uma grande atenuação, mas os dados mais recentes que eu conheço, publicados este ano, são de que não há essa evidência. Contudo, os modelos continuam a indicar que pro fim do século há capacidade de que isso possa acontecer.

Portanto, o que estamos a falar é: nós temos um sistema que regula o nosso clima. Quando digo o nosso clima, é o clima não só apenas de Portugal, basicamente, neste caso, é da Europa. E há uma coisa que as pessoas visualizam bem. A cidade habitada mais a norte do mundo, mais perto do Polo Norte, é uma cidade europeia que fica numas ilhas, que ficam bem para lá do círculo polar ártico, quer dizer que aquilo está gelado grande parte do ano, que é Longyearbyen, nas ilhas Svalbard, pertence à Noruega. Aliás, é um sítio bastante importante estrategicamente, que se fala sempre que há guerras. Os russos têm lá umas explorações mineiras, os alemães andaram por lá durante a Segunda Guerra Mundial, portanto, é um sítio com grande importância estratégica. E essa cidade, apesar de tudo, é acessível todo o ano, de avião e até penso que sempre de barco, precisamente porque apesar de tudo, lá mesmo, quase no Polo Norte, chegam lá ainda os efeitos desta corrente quente que vem do Golfo. Uma parte disto circula por baixo, mas há também correntes frias que circulam à superfície e, por exemplo, na zona da Groenlândia, junto à costa, entre a Islândia e a Groenlândia, há uma corrente fria.

São correntes muito complexas.

São sistemas complexos, há muitas correntes. Quando temos uma corrente fria, para as pessoas terem uma ideia, há zonas que poderiam ser parecidas connosco. O sul de Angola, por exemplo, poderia ser parecido connosco, Moçâmedes, mas que é deserto, precisamente porque ali passa uma corrente fria.

Que é a corrente fria de Benguela.

Exatamente, a corrente fria de Benguela. E o mesmo se passa no Chile. As zonas mais desérticas da Terra ficam no Chile, porque também há uma corrente fria. Aí tem o nome de um cientista famoso, Humboldt, a corrente Humboldt, que há quem diga que foi o pai das ciências naturais.

E foi.

E foi. Bem, mas dito isto, há uma preocupação. Uma coisa é nós termos aquela ideia, que pode ser uma ideia simples, que é: nós vamos ter aquecimento global, foi a primeira ideia, depois já não é aquecimento global, é alterações climáticas, mas seja lá como for, vamos ter subida da água do mar. Mas tudo isto para um continente como a Europa pode não significar nada se de repente esse sistema de correntes se alterar radicalmente. Pelo que se percebe, não se sabe, não é?

A probabilidade de ocorrência no século XXI, que é o problema que está em cima da mesa, é hoje em dia um desafio científico de grande importância. E é preciso perceber-se que não existe certeza nem de um lado nem do outro, que as observações de profundidade vão continuar. O princípio físico básico indica que isso tem tendência para acontecer. A história indica que já aconteceu e, portanto, nós temos que saber, até para nos podermos orientar a nossa vida e das gerações seguintes, qual é a probabilidade de acontecer num futuro próximo. É importante perceber-se que nós estamos mesmo a redesenhar o clima da Terra. Isso tem que ser compreendido. Isso não tem a ver com opiniões, tem a ver com realidade. O clima da Terra está a mudar e não está a mudar, tendo já atingido um estado estável, está a mudar continuamente.

Há uma coisa aqui que é: sempre mudou, não é?

Sempre mudou. Sempre variou.

Sempre variou. Agora está a ter alterações que são pelo menos mais rápidas do que nós temos a ideia que eram historicamente. E depois, têm uma origem antropogênica, portanto, derivam de atividades humanas.

Tem que se compreender isto. Eu sei que é péssimo no sentido moral, no sentido econômico, até porque põe grandes desafios à humanidade, mas de certa forma significa que algum tipo, alguma parte, pelo menos, da mudança, pode estar na nossa mão controlar. Não estará totalmente, mas em parte está.

Há duas coisas que podem influenciar o clima, pelo menos temporariamente, e que estão completamente fora da nossa mão. Uma é a radiação solar, que tem variações também, também tem ciclos.

Mas são muito inferiores.

São muito inferiores. E outra, que por vezes provoca períodos de arrefecimento global.

São os vulcões.

São os vulcões. E também não controlamos.

Também não controlamos. Mas esses, em princípio, até são a nosso favor neste momento. E vamos lá ver, mesmo em termos de emissões, já há grandes blocos políticos que já estão a fazer um esforço enorme de reduzir as emissões e elas vão ser reduzidas, porque do ponto de vista econômico, francamente, a eletrificação vai ser uma vantagem para muitos e, portanto, seguramente se vai reduzir.

Desde que não se fique debaixo d'água.

Diz?

Desde que não se fique debaixo d'água.

Desde que não se fique debaixo d'água. E, portanto, o que está a acontecer? Nós o que estamos aqui a ver é um bocadinho o resultado do aquecimento do Ártico, que é muito superior ao aquecimento médio da Terra. E este aquecimento do Ártico pode gerar ou não pode gerar alterações significativas na corrente termohalina. O princípio físico diz que é possível, muitos modelos apontam para isso, mas temos que ter cuidado que são modelos. A observação ainda não é completamente clara. Neste momento, o que é preciso aumentar é a observação. Não me parece a probabilidade-

Anteciparmo-nos ao que possa vir a acontecer.

Exatamente. Não me parece que a probabilidade possa ser muito elevada até ao fim deste século. A partir daí, claro que é elevada. Agora, o que é interessante no meio disto, e não tem a ver com o almoco, mas tem a ver com como é que nós aproveitamos as correntes da Terra e as alterações do clima, é com uma notícia que deves ter visto, com certeza, num artigo do Economist, que tem a ver com o facto da China ter conseguido fazer o primeiro transporte do navio de contentores através daquilo que se chama a passagem do Nordeste, que passa exatamente pela terra que há bocado falaste, Svalbard.

Svalbard. Falou-se um pouco dessas passagens a propósito da discussão sobre a Groenlândia e da importância de olhar pra Terra, não apenas na sua Naqueles mapas habituais que põe o Equador a meio, mas em mapas que põe o Polo Norte a meio. E aí percebe-se que há duas rotas, uma que vai ao longo do norte da Sibéria e vem por aí adiante, passa por cima da Escandinávia e depois desce para o Mar do Norte, para o Reino Unido. E há uma outra rota que vai pelo outro lado, uma zona com mais ilhas, mais complicadas, portanto pelo norte da Alasca, norte do Canadá, e vem desaguar ali na zona do Labrador, entre a Groenlândia e o Canadá. Esta é a passagem noroeste, a outra é a passagem nordeste, por onde passou uma coisa que é, de facto, extraordinária, porque o tempo a menos que os contentores levam a chegar da China à Europa, se vierem por aí, é incomparável.

Incomparável. E a Ásia, neste momento, é o grande produtor de manufatura e, portanto, o impacto há de ser brutal. O que é interessante para nós e para saber a relação que há entre clima, comércio, estrutura política global, é que deves saber que existe uma rua no Restelo chamada Rua David de Melo e Oliveira.

Eu já morei perto do Restelo, mas nunca reparei nisso.

E o David de Melo e Oliveira é uma personagem meio mítica, meio verdadeira, mas é o nome de um navegador que terá feito, pela primeira vez entre 1660 e 1662, a passagem do nordeste, vindo do Japão até ao Porto, onde terá morrido. Existe toda uma história rocambolesca que envolve diplomacia, envolve até assassínios, que tem a ver com a transmissão dessa informação, em particular aos holandeses.

A viagem terá sido feita ao serviço dos holandeses. Estamos a falar de um período muito particular. Portugal tinha recuperado a independência em 1640, o navio que ele usou seria um navio construído no Brasil, que não se sabe sequer onde é que poderá estar, e há quem diga que é uma figura completamente mítica e há quem diga que não, que isto aconteceu mesmo. Mas aqui coloca-se um problema, que talvez hoje tu possas ajudar a responder, que é: era possível fazer essa passagem nessa altura, que ainda por cima estávamos ainda na Pequena Idade do Gelo?

Exatamente. O que é curioso é que praticamente todos os historiadores, até a meio do século XX, tinham a ideia de que isto era falso, porque era tecnicamente impossível passar sem meios muito modernos, atualmente.

Que era gelo.

Que era gelo. Que era impossível fazer a passagem do nordeste. Durante as últimas décadas, o que tem acontecido é que os tais paleooceanógrafos têm tentado reconstruir cada vez mais para trás as condições climáticas do Ártico, porque isso está a se tornar importante e, francamente, de todos os pontos de vista, científico, político, econômico.

Tu és capaz de ajudar, mas para as pessoas perceberem, quando a gente fala de paleooceanógrafos, estamos a falar, no fundo, de arqueólogos do clima. É uma coisa para as pessoas perceberem melhor. Os arqueólogos estudam setinhas, flechas, inscrições. Os paleooceanógrafos, assim como outros, estudam vestígios, troncos de árvores, tiram tubos de gelo e tubos de solo gelado e tubos de enturfeiras, vão para ali abaixo e veem o que ali cresceu e o que ali está depositado.

E há uma grande relação entre as espécies, as relações entre as espécies e as condições do clima. E a partir dessas relações, que eles obviamente têm que calibrar da melhor maneira possível, é possível perceber qual é o clima. Tal como nós hoje sabemos o clima pelas árvores que estão plantadas e que vivem, e que algum dia hão de ser também sedimentos, ou hão de ser misturadas com os sedimentos. E quando se começa cada vez a virar mais as variações climáticas de pequeno período, que sabes que são muito importantes, como a Pequena Idade do Gelo, porque são muito importantes até do ponto de vista da história das comunidades e da relação das comunidades com o clima, há algumas indicações no sentido de dizer que este período podia ter sido possível.

Esta viagem podia ter sido, porque pode ter havido ali um período quente, digamos assim.

Pode ter havido um pequeno período quente em que ele pode ter passado. Existindo ou não existindo, hoje em dia não é realmente relevante. O que é relevante é a capacidade de aventura para tentar a passagem, é o interesse que a Ásia sempre teve nesta ligação à Europa pela passagem do nordeste, o facto do clima atual estar a ser diferente e estar a permitir novas condições de utilização do oceano, e que nós temos que dar uma importância muito grande à evolução das condições físicas do oceano nas próximas décadas e nos próximos séculos. Algumas tornar-nos-ão a vida mais fácil, outras a vida mais difícil, algumas mudarão as regras do jogo. A verdade é uma: o clima é razoavelmente frágil. É muito influenciado pelos processos atmosféricos, mas também é influenciado pelos processos oceânicos. Nós temos alguma capacidade de prever, mas essa capacidade tem muitos limites e, portanto, nós temos que ser bastante serenos e prudentes como é que utilizamos essa informação. É compreensível que para o conjunto de países que têm esta opção em vamos aquecer ou vamos arrefecer, que isto é um problema completamente importante.

Quer dizer, mas no fundo, nós temos de escolher, não é? Nós não podemos dizer aqui na Europa: "Olha, preferimos não arrefecer e, portanto, o melhor é continuarmos". Quer dizer, nem sei fazer bem o quê, porque se nós continuarmos a emitir e a aquecer, vamos arrefecer, que é o paradoxo.

É o paradoxo. Este é o problema do clima, é que o clima é global e, portanto, não há uma relação direta entre as ações de um conjunto da humanidade e as consequências que tem. Porque as consequências são sempre globais. A posição conservadora é tentar manter as condições do clima como as conhecemos atualmente, porque todo o sistema natural está condicionado por elas. A posição de não queremos ligar a isso e queremos deixar o sistema correr a sua lógica interna, vai levar a situações que vão ser de muito difícil gestão, se é que essa gestão alguma vez vai ser possível. Nós somos uma espécie frágil, que é vencedora, mas é frágil, num clima que tem a grande capacidade de ter uma mudança rápida, sem nós sermos capazes depois de controlar a sequência dessa variação.

Ora, deixa-me só introduzir uma pequena complicação, que é: estas alterações nas correntes, aquilo que diferenciam do resto é que a alteração pode ser muito mais rápida, o que coloca um enorme problema de adaptação. Nós temos noção de que há muitas zonas, sobretudo aqui, por exemplo, na bacia do Mediterrâneo, onde a margem sul do Mediterrâneo, portanto o norte de África, era uma zona de celeiro e hoje não é, e em tempos históricos. O tempo do Egito, o tempo de Cartago, o tempo de uma parte da Líbia, e hoje são desertos. Mas tudo isso foi, as populações foram saindo de lá, foram indo para outros sítios, foram evoluindo. Aqui estamos a falar de algo que em vez de se passar em décadas ou séculos, pode se passar em períodos muitíssimo mais comprimidos no tempo e numa zona muito mais ocupada e muito mais densa. Dito isto, há algo que também às vezes se fala, que é o planeta, digamos assim, também às vezes se autorregula. Isto é, se nós arrefecermos, e o problema neste momento, como tu dizias, deixa-me lá introduzir esta complicação, o Ártico está a derreter, digamos assim, ou perder água. A água é a água doce, faz diminuir a salinidade e pode alterar toda essa dinâmica de correntes. Se vier o frio, eu vou voltar a ter mais gelo em cima do Ártico e, porventura, em cima dos glaciares na Europa. Se tiver mais gelo, posso, em alguns aspectos, reverter o processo de aquecimento, porque o gelo também reflete mais o sol para fora da atmosfera. Mas só que isto é um processo, é uma autorregulação do planeta muito mais lenta, não é?

Sabes, essa autorregulação, porque existe alguma capacidade de autorregulação. Essa autorregulação é aquilo que deu origem à tal hipótese Gaia.

Gaia, exatamente. James Lovelock.

Que a Terra funcionava como um organismo vivo. Mas o que se tem verificado, tanto em observações como em modelos razoavelmente bem estabelecidos, é que tudo caminha para uma situação em que não há autorregulação, porque nós podemos passar de um sistema que está autorregulado para um sistema que está, desculpem, de feedback negativo para feedback positivo. Quando nós temos um sistema que está a aquecer, o sistema que está a aquecer também faz desaparecer o gelo. Ao fazer desaparecer o gelo, torna a Terra mais escura, a Terra mais escura fica mais quente. Nessa altura, temos um feedback ao contrário. Tudo isto é complexo, mas não devemos esquecer que uma coisa é a escala global, outra coisa é a escala regional. Que o facto do AMOC poder colapsar é uma ação dramática de outros pontos de vista, que tem implicações biológicas tremendas e que tudo o que se puder fazer para evitar que tal aconteça, é importante. Aparentemente, a escala de tempo não parece ser tão complexa que não nos permita tomar uma direção. Qualquer que seja o sentido da nossa interpretação, qualquer que sejam os resultados que se venham a obter sobre a probabilidade de acontecer ou não acontecer um colapso do AMOC até ao fim deste século, a verdade é que não se conhece nenhuma outra estratégia que não seja reduzir as emissões dos gases de efeito estufa. Por muitas dúvidas que possa haver de muita gente, não há outra estratégia possível. E eu penso que infelizmente, ou felizmente, temos que nos adaptar no sentido industrial, no sentido comercial, à nova Terra que aqui está.

Importante, isto não é apenas construir mais barragens, fazer diques mais altos, não é só precavermo-nos para alterações pontuais, circunstanciais e de proximidade, mas sim para algo que, porventura, é até um desafio talvez quase tão grande como o desafio de diminuir as emissões, que é conseguir captar uma parte do CO₂ que já está na atmosfera. Fazer diminuir a densidade, isso através de mecanismos de captura de CO₂, que é um desafio técnico.

Há todas as tentativas, mas o que me preocupa neste momento até é outro assunto. É que a nossa capacidade de observação do oceano vai estar muito diminuída pelas novas decisões da administração americana, que espero que sejam alteradas, obviamente, e que faz com que a Europa, a China, o Japão e outros blocos com capacidade económica suficiente ocupem o espaço na parte observacional que tinham os Estados Unidos.

Há protocolos de observação que estão a ser rompidos?

Há protocolos de observação que estão em risco neste momento, mas eu penso que há comprometimento de todas as outras partes para ocupar esse espaço. Nós temos que saber o que se está a passar no oceano cada dia. Não podemos viver outra vez como se viveu quando se tinham os detritos nucleares, da ideia de que o oceano é um mundo escuro, sem fim, porque se tiveres aqui no teu gabinete uma Terra que tenha um metro de raio, desculpa, um metro de diâmetro, não te esqueças que o oceano é apenas um milímetro.

Portanto, é apesar de tudo, bastante-

É uma pequena película de água que nós tomamos por infinita, porque somos tão pequenos que não temos capacidade de lhe apreciar a fragilidade.

E esse milímetro é o tal milímetro que é muito pouco, mas ao mesmo tempo muito, comparativamente com a quantidade de energia que ele transporta. É ele que no fundo aquece e arrefece uma parte da Terra, determina depois os fluxos atmosféricos.

E é por isso que deve ser tão difícil encontrar vida fora da Terra.

Pequeno planeta azul. Bem, terminámos mais um "E o Resto é Ciência". Não nos deu o AMOC, mas falámos sobre o AMOC.