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As armas e os barcos- E o resto é história É a terra com marcha! Com exceção e palavra, ainda na zona do Chiado. Falo por gosto. Falo por amor. Ai, vinho vermelho, troco de cor, logo de amor.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos a este episódio 163 de "E o Resto é História", com os recorrentes Rui Ramos e João Miguel Tavares. E desta vez ponham os capacetes, porque vai haver violência e muita. Foi em julho de 1942, há 80 anos, que Adolf Hitler assinou pessoalmente a ordem que levou o exército alemão a travar aquela que talvez possamos considerar, já se verá se o Rui concorda com isso ou não, a mais decisiva batalha da Segunda Guerra Mundial. Stalingrado, a mítica batalha de Stalingrado, que começou em agosto de 1942 e que em cerca de seis meses terá provocado 2 milhões de baixas entre as tropas alemãs e soviéticas e conduziu à destruição das melhores unidades militares nazistas e à inversão da iniciativa na Frente Leste. Foi o princípio do fim para a Alemanha nazista. E o que eu gostaria de saber, Rui, é por que Hitler insistiu obsessivamente na conquista da cidade, recusando-se a recuar mesmo diante do contra-ataque soviético de novembro de 1942, o que acabou por conduzir ao extermínio das suas melhores tropas. Foi apenas porque a cidade tinha sido batizada com o nome de Joseph Stalin e aquela era uma batalha simbólica que Hitler não se podia dar ao luxo de perder? Houve mais do que simbolismo a justificar esta sua obsessão por Stalingrado até à última gota de sangue dos seus homens?
A batalha de Stalingrado, a cidade chamava-se Tsaritsyn, antes de se chamar Stalingrado, até 1925, e hoje chama-se Volgogrado, desde 1961. Não foi desde o fim da União Soviética, foi antes, Khruschov mudou.
Mas foi depois de Stalin.
Mas já foi depois de Stalin ter desaparecido, em 1953. A batalha de Stalingrado dura entre, enfim, isto são as datas que geralmente são adotadas para marcar o período durante o qual decorreu a batalha, entre 23 de agosto de 1942 e 2 de fevereiro de 1943, durante cerca de cinco meses. E a batalha levantou sempre duas questões, as questões, aliás, que tu colocaste. Por que que aconteceu? Por que não ocorreu logo aos alemães que ia acabar mal? Essa é uma das questões. Eu acho que por vezes subestimamos um fator, que é um fator importante, aliás, subestimamos em História, não é só nesta situação, que é um pouco o encadeamento das situações. Quando uma decisão leva à outra, mesmo quando a pessoa não quer. Depois de tomar uma decisão, às vezes é-se obrigado a tomar uma decisão a seguir, porque está determinada pela primeira. E nós temos de lembrar aqui um bocado para perceber o caminho que levou a Stalingrado e o princípio. Já falámos aqui do princípio o ano passado, em junho de 1941, a Alemanha ataca a União Soviética com 3 milhões de homens e um plano. E o plano que aqui referimos, aliás, um plano um pouco oscilante, um pouco vacilante, mas havia ali um plano que era destruir os exércitos soviéticos na fronteira e ocupar as regiões da União Soviética produtoras de alimentos e de outras matérias-primas e daquelas de combustíveis.
Estamos a falar da Ucrânia, não é?
A Ucrânia e o sul da Rússia, sobretudo. Destruir os exércitos soviéticos em batalhas na fronteira e depois ocupar essas regiões da Ucrânia e do sul da Rússia, o celeiro dos celeiros da Europa e os campos de petróleo, sobretudo do Cáucaso.
Portanto, não queria chegar a Moscovo no início.
Em 1941, Hitler tem um precedente, que é o precedente da invasão da Rússia por Napoleão, cerca de 130 anos antes, em 1812.
Que tudo o que a chefe militar estudava abundantemente.
Toda a gente estudava nas academias militares. O que é que tinha feito Napoleão? Napoleão tinha ido para Moscovo, tinha chegado a Moscovo, tinha estado em Moscovo, tinha incendiado Moscovo e tinha perdido a guerra. A conquista de Moscovo não lhe tinha servido para nada. Hitler, sobretudo, não quer cometer o erro de Napoleão, que é avançar pela Rússia, ficar no meio de nada e depois retirar no inverno russo, sendo atacado pelos exércitos russos e mais ou menos destruído. Ele não quer nada disso. Quer, sobretudo, destruir o poder militar soviético e ocupar de maneira a aproveitar aquelas regiões.
Que para ele eram essenciais para o esforço de guerra.
Exatamente, fundamentais para o esforço de guerra da Alemanha e para a alimentação da Alemanha. Mas, por exemplo, os campos de petróleo do sul da Rússia, no Cáucaso, eram absolutamente fundamentais. Além disso, Hitler, em 1941, como aqui dissemos, subestimava imenso a União Soviética e julgava também que era possível destruir o poder militar soviético numa série de batalhas.
Por causa das próprias purgas de Stalin.
Sim, Stalin tinha mandado executar centenas, milhares de oficiais soviéticos e, portanto, a ideia era que os melhores generais, os melhores oficiais tinham sido liquidados por Stalin e o exército soviético, aquilo que estava no terreno, seria relativamente frágil. O que é que aconteceu? Também falámos aqui, mas é bom lembrar, no outono de 1941, depois de dois ou três meses de guerra na Rússia, os comandos alemães percebem que o plano não está a resultar.
Mas eles avançaram muito rapidamente, não é?
Tinham avançado rapidamente e tinham destruído imensos exércitos soviéticos, tinham feito quase 3 milhões de prisioneiros. Agora, isso não tinha impedido Stalin de continuar a enviar exércitos contra as tropas alemãs. Eles já tinham ocupado a Ucrânia, uma parte da Ucrânia, da Bielorrússia, os Países Baixos, os Países Bálticos, perdão, mas parecia haver sempre mais exércitos soviéticos a vir, falámos aqui disso, e é nesse momento que o plano muda, isto é, que os comandos alemães convencem Hitler a mudar o plano e mudar o plano para um ataque a Moscovo No outono de 1941, o objetivo passa a ser Moscou. Por quê? Porque as batalhas nas fronteiras não estão a resultar no sentido em que o poder militar soviético nunca mais desaparece. E portanto a ideia é: se conquistarmos a capital, o impacto da conquista da capital. Moscou era também um centro importante de transportes e esperava-se com isso desarticular o Estado soviético, por um lado, e por outro lado, confiava-se também no impacto psicológico que isso poderia ter. Ou seja, obrigar Stalin a fugir de Moscou e desacreditar um pouco o poder soviético. É isso que os homens tentam a partir de outubro, novembro de 1941. O que é que acontece? Também já falamos disso. Em dezembro de 1941 estão diante de Moscou. Algumas unidades chegam a avistar, segundo se dizia, as torres do Kremlin, mas estavam nos limites das suas capacidades operacionais, em pleno inverno, que é um inverno russo, e sofrem um contra-ataque soviético que obriga o exército alemão a recuar. Eu não disse retirar, porque é neste momento, dezembro de 1941, diante de Moscou, que Hitler dá ordens ao exército alemão para não retirar. Esta ordem para não retirar tem mais uma vez a ver com as lições que Hitler julgava ter aprendido ao fazer as suas leituras sobre a campanha de Napoleão na Rússia em 1812. Tinha sido durante a retirada que o exército de Napoleão tinha sido destruído. Porque uma retirada é sempre a pior operação que pode fazer um exército, está a ser atacado e está ao mesmo tempo a retirar, a perder armamento, desarticular-se, sem iniciativa. E portanto Hitler dá às suas tropas as instruções para ficar onde estão. É isso que o exército alemão faz e foi assim que se explicou o fato do exército alemão não se ter desfeito na Rússia logo em dezembro de 1941. A convicção é que é esta ordem de não retirar que Hitler deu que permitiu salvar o exército alemão na Rússia. Isto é fundamental para perceber depois a campanha de Stalingrado em 1942. No princípio de 1942, os alemães continuam bem dentro da União Soviética. Eles, entretanto, conseguem parar as ofensivas de Stalin e até infligir novas e enormes derrotas ao exército soviético. Isso devolve a iniciativa ao comando alemão na primavera de 1942. Eles voltam a ter iniciativa.
E precisam decidir o que fazer.
Exatamente. Agora, o que se vai fazer, porque a guerra continuava a não acabar, então o que é que se vai fazer? Repare, em 1942, a Alemanha já está em guerra com os Estados Unidos, mas os Estados Unidos parecem demasiado ocupados e em desvantagem no Pacífico contra o Japão. Portanto, não parece haver probabilidade de iniciarem qualquer operação militar na Europa, os Estados Unidos, em 1942.
Mas havia a pressão.
Claro, há uma guerra aérea com a Inglaterra para dificultar. Há uma guerra submarina no Atlântico também. Há também o exército alemão no norte da África a tentar ajudar os italianos a conquistar o Egito, mas é uma operação relativamente secundária para os alemães. Portanto, as atenções da Alemanha em 1942, embora ainda continue em guerra com a Inglaterra, agora está em guerra com os Estados Unidos, mas de qualquer maneira podem concentrar-se na Rússia, isto é, podem se concentrar na frente leste.
Mas com pressa, sabiam que os Estados Unidos haviam chegar.
É preciso fazer alguma coisa. Eles têm que fazer alguma coisa em 1942 para resolver a guerra na Rússia. E fazer o quê? Voltar a atacar Moscou, como tinham tentado no fim de 1941? Essa era uma das possibilidades, voltar a fazer uma ofensiva contra Moscou.
E muitos generais queriam isso.
Muitos generais querem isso, pelas mesmas razões que queriam no fim do verão de 1941. Pensavam que era a única maneira de acabar ou de limitar a guerra na Rússia. Mas Hitler não confia nos generais. Eles tinham-no levado até Moscou em dezembro de 1941 e tinham quase provocado o colapso. A guerra podia ter acabado em dezembro de 1941, porque o exército alemão podia ter sido destruído em 1941. Não foi. E Hitler acha que não foi os generais que se salvaram, mas ele. Porque os generais queriam retirar, ele é que disse: "Não, as tropas ficam todas nos lugares, fazem defesas em ouriço", ou seja, fazem uma espécie de quadrados e defendem-se até vir o bom tempo e poderem retomar operações. E foi isso que as tropas fizeram e conseguiram manter as suas posições todas até à primavera de 1942. E portanto, Hitler julga: "Vamos voltar à minha ideia inicial, que nunca foi conquistar Moscou, mas fazer operações para destruir forças militares soviéticas e, sobretudo, conquistar as regiões produtoras das matérias-primas que interessam à Alemanha para continuar a guerra em 1942." Esses centros produtores de matérias-primas estão no sul da Rússia e no Cáucaso, e portanto é isso que Hitler toma como prioridade. Por um lado, ele pensa: "Se eu conquistar os campos de petróleo e estas zonas de matérias-primas, o poder militar soviético também vai se ressentir Portanto, é uma forma também de enfraquecer imenso a União Soviética e, por outro lado, são recursos importantes para a Alemanha poder continuar a guerra. Aliás, algum dos seus oficiais, embora estas citações às vezes são duvidosas, mas ele diz mesmo: "Se eu não conquistar os campos de petróleo do Cáucaso em 1942, esta guerra tem de acabar. Não vou poder continuar a guerra." A Alemanha está dependente do petróleo, que é sobretudo da Roménia, que também está muito próximo da União Soviética, o que é complicado, e usa também combustíveis sintéticos que são menos eficazes. Portanto, tem um problema de abastecimento de combustíveis graves para uma potência que está em guerra não apenas com a Rússia, mas também com a Inglaterra e, já agora, também com os Estados Unidos, isto é, com quase o mundo inteiro, e precisa destes recursos. A operação que é decidida por Hitler, que os seus generais vão executar em 1942, é a chamada Operação Azul, Fall Blau, ou Caso Azul, que é assim que se devia chamar a Operação Azul, que devia ter começado em 7 de maio de 1942, mas só começa em 28 de junho, aliás, como a Operação Barbarossa, que também foi atrasada. Depois os azares fazem sempre atrasar tudo. É a maneira de continuar a guerra iniciada no verão de 1941, voltar a este plano inicial. Esta é a decisão. Perante isto, nós sabemos como é que acabou. Acabou mal.
Nós sabemos como é que acabou.
E isso, às vezes, torna difícil analisar as decisões. Nós sabemos o resultado e dizemos: "Eles estavam a ir fazer uma asneira." Inicialmente, as coisas começaram a correr muito bem. Inicialmente, a Operação Azul começou a correr muito bem. Tal como em 1941, no verão de 1942, os alemães vencem grandes batalhas, destroem enormes forças militares soviéticas. De tal maneira, isso nós sabemos, porque há informação, há muitos generais alemães, até alguns daqueles que tinham muitas dúvidas em relação à direção de Hitler, que se começam a convencer em julho, agosto de 1942, que a guerra está ganha. Eles estão a ganhar mesmo a guerra na Rússia. A União Soviética está acabada em 1942. E depois, claro, há Stalingrado.
Porque Stalingrado é uma cidade, essa lógica era não atacar diretamente a cidade.
Esta é uma coisa estranha, porque aí vem um bocadinho contra uma das regras que Hitler tinha estabelecido também para a invasão da União Soviética, que era evitar conquistas de cidades. Isto é, evitar concentrar o exército a conquistar uma cidade, porque a ideia dele é as cidades devem ser cercadas, bombardeadas, mas não se deve tentar conquistar uma cidade, isto é, entrar e tentar conquistar rua a rua, bairro a bairro, casa a casa, uma cidade. Por quê? Porque a grande vantagem do exército alemão é a sua vanguarda de unidades blindadas e a mobilidade é o grande trunfo do exército alemão. É isso que o torna superior aos outros exércitos com os quais tinha lutado até então, a rapidez e a eficácia dos comandantes alemães quando operavam grandes manobras com unidades blindadas, permitiam aquelas operações de cerco e de destruição dos exércitos adversários. Isso tudo se perdia numa guerra urbana, já numa guerra entre bairros e praças, etc. Essa vantagem da mobilidade perdia-se completamente e não era interessante, não era uma coisa originalmente interessante. E sobretudo, no caso de Stalingrado, que era uma cidade muito grande. Não era uma cidade pequena, que pudesse ser conquistada. Era uma cidade de 400 mil habitantes, tinha uma superfície muito grande, era um grande centro industrial, tinha imensas fábricas, etc.
Como nós vemos agora, recentemente, na guerra da Ucrânia, como são boas para se refugiarem lá.
Exatamente, com imensos recursos subterrâneos, etc. Como vimos no Azovstal. Aliás, acontece o mesmo em Stalingrado, as fábricas são usadas depois pelo exército soviético como centros de resistência. Em julho de 1942, e depois em agosto, começa-se, de facto, a tentar conquistar Stalingrado, por decisão de Hitler, o que até fez outra coisa: fez com que as forças alemãs que estavam a progredir no sul se dividissem em duas. Uma parte, o sexto exército e o quarto exército Panzer, ocupam-se de Stalingrado e outra força continua a avançar pro Cáucaso, que é o 17º exército e o primeiro exército Panzer, blindados, continuam a avançar pro Cáucaso. Agora, por que conquistar Stalingrado? Por causa do nome da cidade, uma coisa simbólica, conquistar a cidade que tem o nome de Stalingrado. Provavelmente, isso não terá tido muita importância. Terá talvez mais importância o facto de Stalingrado ser um centro fundamental da indústria de armamentos soviética. Isso terá talvez sido mais importante. É o mais importante no sul da Rússia. Ser também um importante centro de confluência de vias de comunicação. Stalingrado, no rio Volga, vias ferroviárias, fluviais, era um grande centro, determina de alguma maneira o acesso ao Cáucaso. Para conquistar o Cáucaso, é importante ter Stalingrado. Mas por uma outra razão. É verdade que ao tentar conquistar Stalingrado, o exército alemão perdeu algumas das suas vantagens, mas ao mesmo tempo fixou forças soviéticas, criou um ponto em que os exércitos soviéticos se fixaram, em que a guerra se fixou ali, para permitir o avanço em relação ao Cáucaso e ao campo de petróleo. De alguma maneira, a conquista de Stalingrado é uma confissão do comando alemão de que a operação em direção ao sul tinha muitos perigos, muitos riscos. Uma delas era a extensão das linhas de comunicação que precisavam de ser protegidas de ataques soviéticos vindos do norte. Era preciso manter uma parte do exército na zona de Stalingrado para permitir a outra parte avançar até ao Cáucaso. E essa pode ter sido uma das razões para de repente se estabelecer ali aquele nódulo, aquela fixação da guerra ali, que era para permitir uma parte do exército avançar em relação ao Cáucaso.
Que cidade é essa, Stalingrado, em termos de dimensão? Já falaste alguma coisa.
É a maior cidade russa no sul, na direção ao Cáucaso, no rio Volga. O Volga é o principal rio da Rússia, uma das principais vias de comunicação na Rússia. Stalingrado fica na margem ocidental do rio Volga. É uma cidade grande, 400 mil habitantes. A maior parte está na cidade durante a batalha, o que quer dizer que morre na cidade durante a batalha, porque os soviéticos, Stalingrado não dá ordens de evacuação da cidade.
Já tínhamos visto isso parcialmente em relação a Leningrado.
A população fica, dos 400 mil, há uma parte que são deportados pelos alemães para a Alemanha, usados como mão de obra. A maior parte fica em Stalingrado e no fim da batalha, em fevereiro de 1943, pensa-se que estarão vivos cerca de 60 mil. Dos 400 mil, se pensarmos que 30 mil puderam ter ido pra Alemanha, uma grande parte da população-
Três quartos da população morreu
...provavelmente terá.
Impressionante.
A batalha desenrola-se mesmo nos arredores e no perímetro urbano de Stalingrado. Basicamente, a geografia é a seguinte: os alemães avançam vindos do ocidente, estão na margem ocidental do Volga. Os soviéticos estão, sobretudo, na margem oriental. Stalingrado fica na margem ocidental. Os alemães vão conquistando Stalingrado e os soviéticos, a partir da margem oriental, vão tentando abastecer, enviando exércitos, isto é, forças militares, para dentro de Stalingrado. O rio em frente de Stalingrado, há contextos às vezes diferentes, mas terá cerca de 1 km de largura. É uma extensão grande, um pouco como o Mar da Palha em Lisboa, talvez. Uma extensão relativamente grande, que os soviéticos usam para tentar chegar a Stalingrado, para onde enviam reforços. A batalha é terrível. Stalingrado dá a ordem de não retirar também. Tanto Hitler como Stalingrado, as mais frequentes ordens que eles davam aos seus exércitos era para não retirar. Há mesmo companhias da Polícia Política Comunista, o NKVD, que executam todos os soldados soviéticos que recuam, que deviam estar na frente e de repente aparecem. Umas vezes é porque os alemães pura e simplesmente destruíram as suas unidades e eles escaparam. São apanhados e são executados pelo NKVD para dar o exemplo a todos os outros combatentes de que quem não combate até ao fim, até à morte, morre quando chega atrás. O NKVD, a polícia comunista, executa-os. Os sacrifícios são enormes, quer do lado alemão, mas quer do lado soviético. Por exemplo, há a história de uma divisão soviética, uma divisão de infantaria ligeira, 10 mil homens que entrou em combate na estação de comboios de Stalingrado no dia 15 de setembro de 1942. Só no primeiro dia tem 30% baixas, um terço fica logo fora de combate no primeiro dia. E ao fim de poucos dias, uma ou duas semanas, dos 10 mil homens, estão vivos 320. Isto dá ideia do que era esta máquina de triturar humanidade em que Stalingrado se tinha tornado. Mas os soviéticos continuam sempre a enviar reforços para a cidade, através do Volga, a colocar tropas em Stalingrado, e os alemães também têm perdas enormes. Entre agosto e novembro, têm 12 mil mortes e 45 mil feridos. São perdas relativamente importantes. Em novembro de 1942, a situação é a seguinte: os alemães controlam 90% da cidade, mas ainda não toda a cidade. Há umas fábricas e umas zonas que ainda estão a ser abastecidas da outra margem do rio Volga. Mas, sobretudo, em termos estratégicos, em novembro de 1942, os alemães voltam a estar na situação em que tinham estado em dezembro de 1941. Tinham tido grandes vitórias, tinham derrotado importantes exércitos soviéticos, mas, por um lado, não conseguiram atingir os seus objetivos, porque entretanto ainda não têm os poços de petróleo ocupados. Em novembro, dezembro de 1942, ainda não chegaram aos poços Ainda não ocuparam a zona do Cáucaso, produtora de petróleo, que tinham como objetivo ocupar, e o poder militar soviético ainda se faz sentir em Stalingrado, onde a batalha ainda continua em novembro de 1942. Entretanto, os soviéticos, tal como tinha acontecido um ano antes, em dezembro de 1941, estiveram a concentrar tropas. Eles têm, de facto, uma capacidade enorme de mobilizar, criar novos exércitos a partir da sua população. E o general Zhukov, mais uma vez Zhukov, que tinha sido também o comandante em frente a Moscovo em dezembro de 1941, vai ser também o comandante, é o general em que Stalin confia. Aliás, é um dos poucos generais que às vezes consegue criticar Stalin, mas Stalin confia nele. É Zhukov que em novembro de 1942 também está encarregado de dirigir as tropas no sentido geral, o comando geral nesta frente sul. Zhukov consegue juntar cerca de 1 milhão de homens à volta de Stalingrado, a norte e a sul de Stalingrado. E aquilo que ele faz é uma ofensiva para isolar o exército alemão em Stalingrado.
Mas não atacando de frente o exército alemão.
Não, é uma manobra de envolvimento, onde ele também aproveita o facto de como o exército alemão está concentrado na Batalha de Stalingrado. Houve uma tendência para as melhores unidades militares alemãs serem levadas para a frente de combate e os seus flancos estarem guarnecidos por tropas aliadas dos alemães, porque na Rússia os alemães têm aliados, que são os romenos. Há exércitos romenos, há exércitos húngaros, a Hungria também é aliada da Alemanha, e italianos. A Itália de Mussolini é aliada da Alemanha e também tem tropas na Rússia. E são estas tropas húngaras, italianas e romenas que acabam por estar a defender os flancos do exército alemão que está ocupado na conquista de Stalingrado. E isto é uma vantagem para os soviéticos, uma vez que estas tropas não têm a qualidade, isto é aceito por toda a gente, pacificamente, mesmo os próprios italianos, romenos e húngaros não têm a qualidade do exército alemão. Já não têm a resiliência, não têm a capacidade de combate do exército alemão e quando são atacadas, tendem a entrar em colapso. Apesar de tentarem reagir, eles não fogem, tentam combater também, mas não resistem ao ataque soviético. Os soviéticos, nesta altura, têm uma vantagem em relação às tropas alemãs. Têm uma maior mobilidade do que o exército alemão, e essa mobilidade vem da ajuda norte-americana. Os norte-americanos fornecem milhares de jipes e de caminhões ao exército soviético. Reparem, estes exércitos da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, o exército alemão e inicialmente também o exército soviético, são exércitos que têm unidades blindadas, tanques, mas depois os seus abastecimentos, as suas linhas na retaguarda, são asseguradas ainda por transporte animal.
Ah, sim? Muitos cavalos?
Muitos cavalos, milhares e milhares de cavalos. Isto é, há poucos caminhões, não há tantos caminhões como se podia esperar. E a infantaria marcha a pé. Marcha de comboio e quando acaba a linha férrea, marcha a pé para os seus objetivos. O exército americano, por exemplo, já é um exército totalmente mecanizado. Há tanques à frente e caminhões e jipes atrás. E a partir de dezembro de 1941, uma das coisas que os Estados Unidos fazem é fornecer estes elementos ao exército soviético e o exército soviético já tem uma capacidade de mobilidade maior do que o exército alemão que também tem um problema com a sua total mecanização: é problemas de combustível. Tem acessos restritos ao combustível, que tem de ser racionado a favor da Força Aérea e das unidades blindadas e não dá para ter todas aquelas unidades móveis, mecanizadas na retaguarda para transportar soldados, transportar munições e transportar abastecimentos. O que acontece em novembro de 1942 é que há esta ofensiva soviética e basicamente os soviéticos conseguem cercar em Stalingrado 290 mil soldados do sexto exército e do quarto exército Panzer, num perímetro de cerca de 60 km por 40 km. Destes 290 mil soldados, 210 mil são alemães, o resto são romenos, italianos e muitos soviéticos. Há muitos soviéticos que estão a lutar ao lado da Alemanha nesta altura. Tropas auxiliares, cerca de 60 mil combatentes soviéticos. Sim, isto é, ucranianos, russos, cidadãos soviéticos que estão do lado alemão. O que está cercado em Stalingrado é o equivalente a cerca de 10% do exército alemão na Rússia, o que é muito. Aliás, os soviéticos não sabem isso. Os soviéticos julgam que tinham cercado cerca de 80 ou 90 mil soldados alemães e depois ficam espantados quando percebem que afinal têm em Stalingrado cercado um exército alemão daquele tamanho.
Incluindo com o Marechal, não é?
Mais tarde, em janeiro de 1943, já com o Marechal. Agora, a outra questão que se levanta em relação a Stalingrado é: mas então quando perceberam isto, por que não retiraram imediatamente? Isto é, quando os alemães perceberam, em novembro de 1942, por que não tentam romper o cerco e retirar para o Ocidente? Bem, em primeiro lugar, porque uma retirada implicava riscos enormes.
Como tu já explicaste.
Como já expliquei, tal como em 1947. Isto é, por exemplo, o exército teria de abandonar todo o material pesado para uma retirada. Além disso, não tinha combustível suficiente para trazer, portanto praticamente eram os soldados com as suas armas ligeiras que teriam de retirar. Segundo, e mais importante, o que estava a fazer aquele exército em Stalingrado? Estava a dar cobertura para o exército que estava no Cáucaso. O que quer dizer que para salvar o exército de Stalingrado, deixava-se isolado, cercado, o exército no Cáucaso. Portanto, na prática, era escolher entre um exército e outro. O que se perdia? Já não havia uma boa decisão ali. Para salvar um exército, perdia o exército no Cáucaso. O exército do Cáucaso começa a retirar. Não é verdade que Hitler depois não tivesse impedido a retirada. Mas em dezembro de 1943, o exército do Cáucaso começa a retirar. O exército de Stalingrado, na prática, tem que ficar em Stalingrado para o outro exército poder retirar. Terceira razão: Hitler, em 1941, tinha dado ordem de não retirar e tinha julgado que tinha tido razão.
Certo.
Mais uma vez aqui, parece que vai ter razão. E sobretudo, porque há outros conselheiros militares de Hitler que lhe dão elementos que parecem justificar a opção de manter o exército em Stalingrado, mesmo cercado.
Sim.
Por exemplo, Hermann Göring, o chefe da Força Aérea, que lhe diz que pode abastecer o exército a partir do ar. O exército precisava de pelo menos entre 500 e 700 toneladas entre alimentos, munições, combustível por dia.
Certo, uma enormidade.
Mas Göring diz: "Não, a Força Aérea alemã faz isso sem grandes problemas." Um outro general, Manstein, que está no sul da Rússia, diz-lhe: "Também não se preocupe que ele vai romper o cerco." Isto é, vai estabelecer uma ponte de contacto com o exército alemão em Stalingrado. Curiosamente, Manstein depois da guerra diz que não disse nada disso, mas há documentos que diz que disse, porque depois os generais alemães tentam culpar Hitler de tudo aquilo que correu mal, dizer: "Não, nós na altura dissemos logo que não devia fazer isso." Só que às vezes deixaram documentos para trás em que eles estão a dizer a Hitler: "Sim, tudo bem, não há problema nenhum, força." E depois havia um outro precedente também. Na frente norte, na frente de Leningrado, a sul de Leningrado, num lugar chamado Demyansk, no inverno de 1941, 42, um exército alemão de 100 mil homens, um exército também grande, tinha estado cercado entre fevereiro e maio de 1942. Não era um exército tão grande como em Stalingrado, mas ainda era um exército grande. E tinha sido abastecido por ar, pela Força Aérea, tinha resistido e o cerco tinha-se depois rompido em abril, maio de 1942. Também havia esse precedente para explicar: não, a melhor opção é manter o exército em Stalingrado, a resistir até mais tarde. Mas a verdade é que praticamente não havia mesmo melhor opção. Não havia outra opção possível. Era mais uma espécie de vamos ver se resulta. E não resultou.
Certo.
Primeiro, porque os abastecimentos não chegaram. A Força Aérea só conseguiu garantir, e durante algum tempo, 100 toneladas por dia, em vez das 500 ou 700 que eram precisas. O inverno é terrível, mas isso já se sabia.
Certo.
O inverno é tremendo. E os soviéticos vão apertando o cerco, porque vão também tentando conquistar, limitando o perímetro à volta de Stalingrado. Pior, a guerra também começou a mexer-se noutras frentes.
Incluindo na Europa.
Em novembro de 1942 é o desembarque dos americanos no norte de África.
Uhum.
Sim, talvez falemos disso aqui mais à frente, em Marrocos e na Argélia. Os americanos começam a sua guerra de infantaria no Mediterrâneo, a aproximar-se da Europa. E o que isso faz? Faz com que haja necessidade da parte da Alemanha de desviar uma grande parte da Força Aérea para o Mediterrâneo, por causa desta ameaça americana no Mediterrâneo. O que quer dizer que o abastecimento e a defesa também, através de meios aéreos de Stalingrado, diminui imenso. Isso é notório no quartel-general de Hitler, o chefe do Estado-Maior do exército, o general Zeitzler, decide, em solidariedade com os soldados que estão cercados em Stalingrado, decide comer apenas a mesma ração que ele sabe que está a ser dada aos soldados em Stalingrado. Portanto, isso era uma pessoa que, atenção, Hitler via todos os dias e com quem tinha reuniões. E aquilo que Hitler vê em duas semanas é Zeitzler perde 12 quilos, começa a tornar-se cadavérico, de tal maneira que Hitler diz: "Acabe com essa farsa." Passa a alimentar-se, que já não costumava. Mas ele diz: "Não, eu estou exatamente com a mesma dieta com que estão os soldados alemães em Stalingrado." Mas isso dá a ideia daquilo que eles estavam lá a sofrer. O que acontece? Bem, os soviéticos vão apertando. Um exército alemão sem abastecimentos Com dificuldades cada vez maiores em combater, até de munições, está a ter dificuldade em ter munições, perdeu completamente qualquer mobilidade, aliás, já não tem combustível para tanques, nem para nada. Em 22 de janeiro de 1943, perde os últimos dois grandes campos de aviação que tem em Stalingrado, depois há uns lançamentos de paraquedas, mas deixa de haver a ponte aérea que tinha havido até então, embora limitada. E entre 1 e 2 de fevereiro de 1943, o comando do exército alemão em Stalingrado rende-se. Ainda há 11 mil soldados alemães que continuam a resistir mais um mês na cidade, porque o exército entretanto está tão fragmentado que há outros grupos militares que ou não sabem da rendição, ou tentam lutar. Dos 210 mil soldados alemães que foram inicialmente cercados, os soviéticos aprisionam 105 mil, portanto, cerca de metade. O que é que aconteceu à outra metade? À outra metade, cerca de 60 mil morreram em combate, tinham morrido em combate já, ou com frio, com doenças, e 35 mil tinham sido evacuados por ar, entretanto, enquanto houve a ponte aérea. O Paulo Marshall Paulus ficou, não é? É. Destes 105 mil prisioneiros, é impressionante este número, só 5 mil sobrevivem. Isto é, 10 anos depois, em 1955, há apenas 5 mil sobreviventes que regressam dos campos de concentração soviéticos à Alemanha. O resto morreu nas marchas para os campos de concentração soviéticos e nos campos de concentração soviéticos por maus-tratos. Atenção, os prisioneiros de guerra soviéticos eram tão maltratados pelos alemães como os prisioneiros alemães na União Soviética. A outra grande questão é que consequências é que teve a Batalha de Stalingrado em termos da Segunda Guerra Mundial. A propaganda soviética e a propaganda aliada, a americana e inglesa, faz uma grande festa com a vitória, como é compreensível. Havia o mito de que os alemães eram invencíveis e foi muito importante provar que eles podiam ser derrotados e derrotados em grande escala. Até então, o exército alemão parecia vencer todas as campanhas. Eles, de facto, não eram invencíveis. Os alemães já tinham sido derrotados em dezembro de 1941 na Rússia, tinha sido uma grande derrota. Aquilo que tinha acontecido em dezembro de 1941 na Rússia em frente a Moscovo, tinha sido uma grande derrota alemã, que só não tinha sido uma catástrofe gigantesca, uma das razões, Hitler tinha dado aquela ordem para não retirar. Se tivessem retirado, provavelmente tinha-se desfeito bastante. Mas tinham sido derrotados também no norte de África, na mesma altura, no fim de 1941, pelos ingleses. Iam ser derrotados outra vez, ao mesmo tempo de Stalingrado, na Batalha de El Alamein, entre outubro e novembro de 1942. Uma batalha que liquidou a possibilidade dos alemães e dos italianos conquistarem o Egito. Não foi a única derrota, mas foi uma derrota importante, um exército tão grande ter sido derrotado, ao contrário dos outros exércitos mais pequenos. Isto teve este impacto muito grande em termos de propaganda, mas não criou imediatamente para as forças alemãs no leste, na Rússia, uma situação catastrófica. De facto, a vitória soviética em Stalingrado é logo compensada por vitórias alemãs e novos grandes desastres soviéticos, por exemplo, na Batalha de Kharkov, na Ucrânia, em março de 1943, uma enorme derrota soviética, uma gigantesca derrota soviética. Tanto assim que no verão de 1943, a iniciativa volta a estar do lado alemão. No verão de 1943, seis meses depois de Stalingrado, são os alemães ainda que mantêm a iniciativa na Rússia, com opções diminuídas em relação a 1941 e 1942, mas ainda com algumas opções. Qual foi o principal impacto? O principal impacto creio que não é apenas em termos da destruição do mito da invencibilidade, é em termos da possibilidade de os alemães virem a ganhar a guerra. Em 1942, 43, em Stalingrado, percebeu-se que os alemães não vão ganhar a guerra na Rússia. Ainda não está garantido que vão perder, necessariamente, mas de repente torna-se claro que não vão ganhar. Eles já fizeram duas apostas no verão de 1941, no verão de 1942, para ganhar a guerra na Rússia. E nunca conseguiram. E nunca conseguiram. Em 1943, aquilo que vão fazer, se calhar vamos falar disso daqui a um ano, é tentar equilibrar a situação na frente, mas já sem a possibilidade nenhuma de virem a ganhar a guerra na Rússia. Na prática, como é que a Alemanha perde a guerra? A Alemanha perde a guerra não por causa da derrota numa batalha ou noutra. Não é a Batalha de Stalingrado que faz a Alemanha perder a guerra. É a guerra, e no caso da Rússia, isso é notório, é a guerra no seu todo. Por quê? Porque isto é uma guerra que se tinha tornado uma guerra de desgaste, isto é, de consumo de homens e de material. E portanto, basicamente ia ganhar quem tivesse possibilidade de repor os homens e o material que se ia perdendo. Certo. E é notório que quando a guerra se torna uma guerra de desgaste, quem tem mais recursos não é a Alemanha, é a Rússia. E a possibilidade da Rússia acabar por prevalecer, no fim, torna-se muito grande a partir de 1943. Quando a Alemanha não consegue ganhar de um só golpe, como pensou em 1941, como pensou em 1942, e a guerra fica numa guerra de desgaste A Alemanha está destinada a perder a guerra e é isso que vai acontecer. Reparem, mesmo em Stalingrado, os soviéticos perdem mais homens do que os alemães. Os alemães tiveram 400 mil baixas, os soviéticos tiveram 1 milhão de baixas em Stalingrado. Isto é, no conjunto, a derrota alemã custou muito mais à União Soviética do que à Alemanha. Só que a União Soviética pode repor este milhão de homens e os alemães têm dificuldade em repor mais de 400 mil homens. Portanto, com ou sem Stalingrado, a relação de forças estava a pender para, quanto mais a guerra durasse, mais ia pender para o lado soviético. O que faz a direção política e militar alemã a partir de Stalingrado? O que tenta é fazer subir também o custo da guerra para os aliados. Isto é, convencer os aliados: "Sim, vocês talvez tenham mais recursos do que nós e talvez possam vencer, mas isso vai vos sair a um preço gigante." E há duas coisas importantes a seguir a Stalingrado, nesse sentido. Um é a ideia da guerra total. Isso é uma ideia que Joseph Goebbels, que é o ministro da propaganda de Hitler, e não é só o ministro da propaganda, é um dos principais líderes nazistas, lança logo dias depois de Stalingrado, 18 de fevereiro de 1943, há um grande comício em Berlim, no Palácio dos Desportos, e Goebbels faz este apelo à guerra total. Isto é, a Alemanha tem de se envolver na Segunda Guerra Mundial totalmente, com todos os custos, toda a sociedade alemã. Isto é uma coisa curiosa, porque até então, estamos em 1943, no quarto ano de guerra, mas Hitler tinha tido o cuidado até então de tentar manter algum nível de normalidade na sociedade alemã. Isto é, restaurantes abertos, uma certa vida normal.
As crianças não eram recrutadas, nem os jovens a partir de uma certa idade.
As senhoras estavam em casa. Havia a ideia de que era possível ganhar, de que Hitler estava a propor à sociedade alemã campanhas que os alemães podiam ganhar sem um transtorno enorme. Com algum transtorno, havia mortes, havia guerra, mas sem um transtorno enorme. E isto em grande medida porque os nazistas sabiam que estas guerras não eram totalmente populares na Alemanha. Por exemplo, a guerra com a Rússia foi vista logo desde o princípio, isso sabemos através dos próprios inquéritos feitos pelo Estado nazi, sabemos que a decisão de Hitler de atacar a União Soviética deixou os alemães muito apreensivos sobre o que ia acontecer. Depois as vitórias, de repente, equilibraram. Mas desde logo o princípio, desde 1939, a opinião pública alemã teve sempre muitas dúvidas sobre esta guerra contra toda a gente. Reparem que isto é uma sociedade que tinha vindo do traumatismo da Primeira Guerra Mundial, da derrota da Primeira Guerra Mundial, em que tinha tentado lutar contra todos e tinha perdido. E agora Hitler estava a colocá-los outra vez na mesma situação. Portanto, Hitler tem de lhes dar a ideia de que isto não é a mesma coisa que a Primeira Guerra Mundial. E uma das maneiras foi tentar manter alguma normalidade, até por contraste com as grandes dificuldades que os alemães tinham sentido durante a Primeira Guerra Mundial, dificuldades de abastecimento enormes, etc. Portanto, Hitler estava a tentar manter uma sociedade normal. Ora bem, o que Goebbels veio dizer em fevereiro de 1943, isso acabou-se. Agora é tudo pra guerra. A sociedade alemã vai ter de se voltar totalmente pra guerra. E isso também foi importante, o que aconteceu em Stalingrado. Isto é, a derrota teve para Hitler um sentido duplo. Por um lado, era uma derrota, mas, por outro lado, a maneira da derrota era importante para Hitler. Isto é, a ideia de que o exército alemão em Stalingrado tinha lutado até o fim, não se tinha rendido. Tinha lutado até o fim.
O que não aconteceu.
E isso para Hitler era muito importante. Ele admitia que alguns soldados pudessem entrar em colapso e render-se, mas esperava que o comando nunca aceitasse condições de rendição. E aliás, Paulus, ao princípio, é ambíguo sobre se aceitou a rendição ou não aceitou a rendição. Mas para encorajar o general Paulus, que era o comandante do 6º exército em Stalingrado, a comportar-se dessa maneira, isto é, não nunca admitir a rendição, o que Hitler faz poucos dias antes do fim é nomeá-lo, promovê-lo a marechal no exército alemão. Esta promoção a marechal era quase um convite a Paulus para o suicídio. Por quê? Porque nunca, até então, um marechal do exército prussiano e depois do exército alemão tinha sido feito prisioneiro pelos inimigos. De vez em quando tinha acontecido a uns generais, mas nunca a um marechal. E, portanto, ele estava à espera que Paulus, com esse precedente, lutasse até o fim. E aquilo que acontece é que Paulus deixa-se capturar, pelo menos é assim. E depois até passa a colaborar com os soviéticos, e isso para Hitler é um sinal terrível. É um sinal de que não pode esperar do exército, dos oficiais superiores, aquela dedicação total Que ele acha que é necessária para poder esperar sair da guerra numa posição que não seja de derrota total. E repito, a única maneira que ele está a pensar nesse momento, em 1943, é fazer subir o preço de uma vitória aliada, de tal maneira que leve os aliados a ter dúvidas sobre a vantagem de tentar derrotar a Alemanha. Na prática, a ideia é mandar para os aliados a mensagem de que vão ter de conquistar a última cidade alemã, rua a rua, casa a casa. Isto é, nós nunca nos vamos render. Se não querem reconhecer o direito à Alemanha de ser uma potência que possa sair mais ou menos com alguma vantagem desta guerra, vão ter de nos derrotar e essa derrota vai vos custar imenso. É a mesma lógica do Japão a partir de 1942, isto é, aumentar o preço. E isso pressupõe incutir nas forças militares um desespero, uma vontade de lutar até ao fim, de lutar até ao último homem, até à última bala, de nunca se render. Curiosamente, Stálin também tinha incutido isso nas forças soviéticas de uma maneira brutal e, de alguma maneira, Hitler consegue criar esta psicologia nas forças alemãs, que até maio de 1945 continuam a lutar numa situação que outros exércitos teriam desistido. E Stalingrado serve-lhe para isso. Aliás, a maneira como a derrota depois é comemorada na Alemanha. Durante algum tempo, os meios de comunicação alemães, controlados pelos nazistas, escondem a situação em Stalingrado, mas depois quando reconhecem a derrota, reconhecem-na totalmente. Do gênero: "Eles morreram todos." Aliás, até tornam mais grave ainda a derrota do que o que foi, do gênero: "O sexto exército em Stalingrado lutou até ao fim. Os oficiais, os soldados." Aliás, aquela grande manchete do órgão de imprensa do partido nazi que é: "Morreram para que a Alemanha viva." A Batalha de Stalingrado chegou ao fim, eles morreram para que a Alemanha viva. De alguma maneira, depois a propaganda nazi tenta também usar Stalingrado a seu favor. Eis o exemplo de um exército alemão que prefere lutar até ao fim desesperadamente, em vez de se render. Agora, havia o azar de Paulus estar vivo em Moscovo e depois até a falar na rádio soviética contra a política de guerra de Hitler.
Muito bem, e assim termina esta Batalha de Stalingrado. Nós voltamos de novo para a semana e esperamos que esteja aí desse lado. Até lá.