Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o resto é história. É apenas pomba! Do incêndio e palavra ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Não, não. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 280 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. A história de que hoje vamos falar ocorreu na reta final da Segunda Guerra Mundial, entre 23 e 26 de outubro de 1944, portanto fez há pouco 80 anos, e foi a maior batalha naval da história contemporânea. Os números são impressionantes: mais de 300 navios envolvidos, entre os quais dezenas de porta-aviões, mais de 2 mil aviões no ar, quase 20 mil mortos no final da batalha, incluindo dois almirantes japoneses. A Batalha do Golfo de Leyte opôs a marinha aliada no Pacífico, sobretudo americana, mas também australiana, à quase totalidade da armada japonesa na altura, junto às ilhas de Leyte, nas Filipinas, um arquipélago que tinha sido conquistado pelo Japão em 1942. A batalha saldou-se numa enorme vitória aliada e na destruição praticamente total da marinha japonesa, que a partir daí não voltou a ter qualquer intervenção relevante na guerra. A Batalha do Golfo de Leyte tem ainda uma outra particularidade: foi aí que ocorreram pela primeira vez os famosos ataques kamikaze por parte da aviação japonesa, que conduziram inclusivamente ao afundamento de um porta-aviões ligeiro americano. Rui, quais foram as razões que levaram a que em outubro de 1944 ocorresse um confronto naval desta dimensão nas Filipinas? E por que o Japão empenhou praticamente toda a sua frota nessa batalha?

Para o Japão, a reconquista americana das Filipinas teria sido um tremendo golpe, porque iria cortar o acesso japonês às suas principais fontes de petróleo e de borracha que estavam nas ilhas da Indonésia, em Bornéu e Sumatra. Portanto, deixava de ter combustível, ou deixava de ter combustível à mesma escala.

É um problema semelhante àquele que a Alemanha também atravessou na Europa continental na Segunda Guerra Mundial.

Sim, com a Roménia, com os poços de petróleo da Roménia, portanto a tentar até ao fim manter acesso a esses poços. Portanto, era vital para o Japão impedir o desembarque americano. Isto por um lado, mas também porque o governo japonês, o alto-comando japonês, pensou que um ataque vitorioso ou com grandes consequências às forças americanas que estavam a preparar o desembarque nas Filipinas podia ser uma das últimas oportunidades para o Japão não perder a guerra. E isto vinha um bocadinho na lógica com que o Japão tinha começado o conflito com os Estados Unidos desde dezembro de 1941. O Japão nunca teve a menor pretensão de conquistar os Estados Unidos. A expectativa japonesa era de poder infligir aos Estados Unidos uma derrota militar no Pacífico que levasse os Estados Unidos a reconsiderar a sua campanha contra o Japão. Isto é, a pensar: "Bem, vamos agora demorar imenso tempo a voltar-nos a pôr em campo contra o Japão, se calhar vamos fazer aqui um acordo com o Japão e reconhecer uma área de influência do Japão na China e no Extremo Oriente, como o Japão pretende." Digamos que essa era a ideia japonesa desde 1941. Eles tinham falhado sempre essa ideia.

Exato, já tinha corrido mal outras vezes.

Tinham falhado em Pearl Harbor, em dezembro de 1941, porque tinham atacado a frota americana, mas os grandes porta-aviões americanos não estavam em Pearl Harbor e portanto escapou-lhes. Falámos aqui há dois anos na Batalha de Midway, em junho de 1942, mais uma vez, um plano japonês para tentar destruir a esquadra de porta-aviões americana, e o que aconteceu foi que foram os americanos que destruíram a esquadra de porta-aviões japonesa. Portanto, mais uma vez, a coisa falhou. Neste momento, o que eles pensam aqui em Leyte, na ilha de Leyte, nas Filipinas, porque eles sabiam que iria ser o lugar do desembarque das forças americanas para a conquista das Filipinas, era: "Bem, vamos aproveitar para aqui tentar então dar-lhe o golpe aos Estados Unidos, que não conseguimos dar nas outras ocasiões".

Porque em termos de marinha, depois de Midway, as forças já estavam totalmente desequilibradas.

E tinham ainda ficado mais desequilibradas depois da Batalha do Mar das Filipinas, que tinha acontecido em junho de 1944. A Batalha do Mar das Filipinas coincide com a invasão americana das ilhas Marianas, uma invasão extremamente importante, porque a partir daí os americanos ficaram com bases em terra para os seus bombardeiros atacarem o Japão, para os bombardeiros B-29 atacarem o Japão, e começaram uma campanha de bombardeamento sistemática das cidades japonesas a partir daí. Portanto, isso já era um momento importante. Aí a marinha japonesa tinha tentado enfrentar a marinha americana e o que lhe tinha acontecido é que tinha perdido dois dos últimos três grandes porta-aviões que tinha. Portanto, já tinha ficado ainda mais debilitada depois da Batalha dos Mares das Filipinas.

Nesse caso, evidentemente, é material irrecuperável, porque o tempo que demora a construir um porta-aviões...

Tal como em Midway, quer dizer, é os porta-aviões, é os aviões e é também os pilotos. Eles perderam imensos pilotos em Midway e na Batalha do Mar das Filipinas. E esses pilotos, então, aqui ainda era mais difícil. Isto são os melhores pilotos, os melhores combatentes do ar. Quer dizer, formar outra geração de pilotos era também extremamente difícil. Portanto, em suma, no outono de 1944, quatro meses depois da Batalha do Mar das Filipinas, a expectativa japonesa é mais uma vez tentar infligir um desaire aos Estados Unidos. E ainda por cima, eles tinham em conta, neste caso, as eleições americanas. Havia eleições presidenciais nos Estados Unidos em novembro de 1944 também, há 80 anos. E os japoneses tinham essa ilusão de que se pudessem ocasionar um enorme desastre aos Estados Unidos nas Filipinas, talvez o presidente Roosevelt, que eles viam como o principal falcão a querer a guerra contra o Japão, tivesse dificuldades na reeleição. Era uma ilusão, Roosevelt iria ganhar, mas eles também pensaram nisso. O último golpe: não valia a pena poupar recursos. Portanto, toda a Marinha japonesa, todos os grandes barcos japoneses, cerca de 60 barcos, dos quais sete couraçados, 14 cruzadores pesados, tudo foi reunido. Até as chamadas frotas combinadas, todas as frotas combinadas foram encaminhadas para as Filipinas para enfrentar a Marinha de Guerra Americana. Os japoneses sabiam o que estavam a fazer, e este é o lado interessante desta Batalha do Golfo de Leyte. Eles sabiam que não teriam as mínimas possibilidades, eles próprios estavam conscientes, se enfrentassem a principal força de combate dos Estados Unidos. E essa força de combate dos Estados Unidos, que era conhecida como Task Force 38, a Força de Combate 38, era a força de combate de grandes porta-aviões. No Pacífico, os japoneses tinham conhecido isso, os americanos adotaram isso. Os porta-aviões não fazem parte das várias esquadras, estão todos reunidos numa esquadra. Combatem um pouco como os blindados na Segunda Guerra Mundial, segundo a técnica alemã. Os alemães foram aqueles que perceberam que não valia a pena distribuir os tanques pelas várias unidades militares, que era preferível ter uma unidade blindada, os tanques estarem todos na mesma unidade. E os japoneses e os americanos perceberam isso também. Não valia a pena cada esquadra ter um porta-aviões. Os porta-aviões deviam combater como uma força única, e portanto, esta Task Force 38, podemos traduzir como a Força de Combate 38, era a força de combate dos Estados Unidos de porta-aviões, e era uma força absolutamente impressionante, provavelmente a maior força naval que alguma vez houve na história. Tinha oito grandes porta-aviões, nove porta-aviões ligeiros, 18 porta-aviões de escolta. No total, tinha cerca de 1500 aviões. Esta era uma força com 1500 aviões, era uma coisa impressionante.

No mar.

No mar, a operar em grupo. E contra isto, os japoneses não tinham a mais pequena possibilidade. Os japoneses tinham, nesta altura, um grande porta-aviões e três porta-aviões ligeiros.

Sim, mas tinham as bases nas Filipinas, portanto tinham aviões em terra.

Os aviões em terra, no princípio de outubro, tinham sido absolutamente devastados por esta Força de Combate 38. A Força de Combate 38 tinha chegado às Filipinas e tinha puro e simplesmente aniquilado a força aérea japonesa nas Filipinas. Seiscentos aviões que os japoneses tinham em terra nas Filipinas e que foram eliminados em três dias pela aviação americana. Isto, aliás, já tinha acontecido também na Batalha do Mar das Filipinas, em que os americanos tinham abatido 400 aviões japoneses em muito pouco tempo. Por quê? Porque em 1944, o desnível da aviação, o desnível tecnológico dos aviões era muito grande, o que era muito favorável aos americanos.

Mas diante deste desequilíbrio, então quais eram as contas japonesas para acharem que podiam ganhar?

As contas japonesas foram de um plano extraordinariamente engenhoso, um plano muito hábil. O que eles pensaram? Eles sabiam que os americanos continuavam, apesar da força de porta-aviões japoneses já estar reduzida a quase nada, obcecados com a força de porta-aviões japonesa. E eles sabiam isso por quê? Porque na Batalha do Mar das Filipinas, por questões de comando, eles tinham deixado escapar estes porta-aviões japoneses, um grande porta-aviões e estes três porta-aviões ligeiros. E isso, nos Estados Unidos, tinha causado imensas críticas. Os comandantes americanos na Batalha do Mar das Filipinas foram acusados: "Como é que vocês deixaram escapar? Podiam ter aniquilado completamente a força de porta-aviões japonesa, deixaram escapar". Portanto, os japoneses calcularam que os americanos, se por acaso tivessem a possibilidade de aniquilar a força de porta-aviões japonesa, por mais pequena que ela fosse, iam distrair-se e iriam atrás da força de porta-aviões japonesa. E o que eles pensaram? "É isso que vamos fazer. Vamos usar a nossa força de porta-aviões", a força de porta-aviões japonesa, "não já como uma força de combate, mas como um chamariz para uma manobra de diversão". E qual era a manobra de diversão? Era a força de porta-aviões aparecer, de maneira a ser detectada pela armada americana, para levar a Força de Combate 38, a força de combate de grandes porta-aviões americana, a sair da zona de batalha para ir em direção aos porta-aviões japoneses para tentar destruí-los.

E isso no momento da invasão, é isso?

E isso no momento da invasão. O que estaria a acontecer? Os americanos estariam a efetuar um desembarque nas Filipinas, aparecia a força de porta-aviões japonesa vinda do norte e imediatamente a principal força de combate americana sairia da zona de desembarque para ir perseguir a força de porta-aviões japonesa. E o que isso daria? Isso daria a possibilidade às forças de couraçados japoneses de atacarem a zona de desembarque, enfrentarem o resto das forças americanas numa posição, não vamos dizer de igualdade, mas de menos desigualdade. E com alguns trunfos. Os japoneses podiam usar alguns trunfos, sobretudo os seus supercouraçados. Até hoje são os maiores barcos de guerra alguma vez construídos, que eram os couraçados, supercouraçados Yamato e Musashi. Eram monstros autênticos, eram os maiores barcos Alguma vez construídos, aliás, os aviões americanos, há uma história famosa de um avião americano que detecta esta força de couraçados e eles perguntam: "O que estás a ver?" E o piloto diz: "Estou a ver os maiores barcos que alguma vez vi na minha vida". Eram monstros autênticos. Era a tentativa de fazer estes couraçados entrar no Golfo de Leyte. A ilha de Leyte forma um golfo com uma outra ilha, a ilha de Samar, mais acima. O desembarque americano seria em Leyte, que é mais ou menos uma ilha no meio, central, no arquipélago das Filipinas. As frotas reunidas estão de facto divididas em três forças. Esta força de porta-aviões que deve vir do norte, que é o chamariz, que é uma manobra de diversão para fazer a força de porta-aviões americano sair do Golfo de Leyte. E depois duas forças que vão rodear a ilha de Leyte, uma a aparecer a norte e outra a aparecer a sul, e tentar entrar no Golfo de Leyte e apanhar a esquadra de desembarque americana com os grandes navios de transporte. São dezenas de milhares de soldados. A infantaria, o sexto exército americano que está para desembarcar e atacar as forças de desembarque.

Mas então o objetivo japonês não era destruir os porta-aviões americanos?

Não, eles contra os porta-aviões sabem que não têm a mínima hipótese. Eles sabem que os grandes porta-aviões nem se conseguem aproximar. O enxame de aviões que há à volta. Os porta-aviões são protegidos pelos próprios aviões, constantemente em patrulha, é impossível aproximarem-se dos grandes porta-aviões. Dos porta-aviões mais pequeninos, que têm 20 aviões, são capazes de se aproximar. Dos grandes porta-aviões, desta força em que se protegem uns aos outros, têm literalmente centenas de aviões no ar constantemente. Eles não têm dúvidas que não se conseguem aproximar disso. Mas se eles conseguissem entrar no meio da força de desembarque e causar danos imensos, não só afundar muitos barcos, mas matar imensos soldados americanos, dezenas de milhares, que se afundassem os barcos de transporte, aí sim podiam obter, mesmo que sacrificassem os seus barcos. Podiam obrigar os Estados Unidos a desistir do desembarque nas Filipinas.

Sacrificar os seus barcos e sacrificar os seus pilotos, não é?

E os seus pilotos. Sim, um outro recurso que eles têm, que é aquilo que eles vão chamar de operações kamikaze. O tipo de voo suicida já tinha ocorrido antes, ocasionalmente, por iniciativa individual dos pilotos. Aliás, de ambos os lados, dos japoneses e também dos americanos. Por exemplo, na Batalha de Midway, há um momento conhecido, um porta-aviões japonês que atinge um avião americano e o piloto do avião americano quando percebe que vai cair, dirige o avião contra o porta-aviões japonês, literalmente numa operação suicida. Aliás, para percebermos depois o desenvolvimento da Batalha do Golfo de Leyte, temos que perceber isso. Isto está cheio de jovens rapazes que não têm mesmo medo de morrer, que estão mesmo disponíveis para morrer, de um lado e do outro. Agora, o que distingue estes kamikazes é que o ponto é só morrer. O ponto é voarem em aviões que são praticamente bombas para serem usados contra os aviões americanos, usando várias coisas. Até de já não terem muitos pilotos experientes, portanto, isto já são pilotos que não são de grande qualidade. Do ponto de vista do japonês, isto já é a melhor maneira de os usar do que tentarem lutar, porque perante os pilotos americanos não têm possibilidades. Os próprios aviões já não têm uma vantagem em relação à aviação americana. E depois aproveitarem também a tradição militar japonesa em que a rendição é vista como uma humilhação e o morrer em combate é uma honra maior do que se renderem.

Muito bem, eu sei que vais embalado, mas entretanto chegou o final do nosso tempo para esta primeira parte. Nós voltamos já a seguir para mais detalhes desta grande batalha naval da Segunda Guerra Mundial. Até lá. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estamos a falar de uma das maiores batalhas da Segunda Guerra Mundial, a Batalha do Golfo de Leyte. Eu chamo Leyte, tu chamas Leyté, mas deves ter mais razões do que eu.

É, acho que é a maneira filipina de pronunciar, Leyté.

É, abre o último, é?

Leyté.

Muito bem. O filipino Rui Ramos então tem certamente razão. E conta-nos mais coisas de Leyté.

Recapitulando, o desembarque americano para reconquistar as Filipinas, que tinham sido conquistadas pelos japoneses em 1942. Está previsto para uma ilha central do arquipélago das Filipinas, a ilha de Leyté, no Golfo. A frota ia entrar no golfo com o mesmo nome, com umas centenas de barcos, com umas dezenas ou centenas de milhares de homens para desembarcar. E o plano japonês é tentar provocar o maior o maior número possível de baixas a esta força de desembarque e para fazer isso, desenvolveram um plano de tentar fazer descolar desta força de desembarque, a força de combate de grandes porta-aviões americanos. Esse plano era favorecido pela estrutura do comando militar americano. As forças americanas são, de facto, divididas em dois comandos. A terceira esquadra, de que faz parte a Força de Combate 38, de grandes porta-aviões, e havia uma outra que era a Sétima Esquadra. A Sétima Esquadra é aquela que dá uma proteção direta ao desembarque, mas tem forças muito inferiores, alguns porta-aviões, mas ligeiros e de escolta e couraçados, que até são dos menos novos. A Terceira Esquadra é a grande força de combate dos Estados Unidos. Mas o que é que acontece? É que eles têm comandos completamente separados. Não é só dois almirantes, o almirante que comanda a Terceira Esquadra é o almirante Halsey, o almirante que comanda a Sétima Esquadra é o almirante Kinkaid, mas o almirante Halsey está sujeito ao almirante Nimitz, que é o comandante das Forças Navais no Pacífico, e o almirante Kinkaid, da Sétima Esquadra, está sujeito ao comandante das forças terrestres que vão desembarcar nas Filipinas, que é o general MacArthur. Portanto, a Terceira e a Sétima Esquadras não têm um comando unificado. Cada um deles pode fazer, não o que quiser, mas o que achar melhor ou decidir.

Duas personagens muito convictas das suas capacidades.

Das suas capacidades, como o almirante Halsey é um homem extraordinariamente agressivo. Aliás, que tinha ficado com o facto de terem deixado escapar algum porta-aviões no mar das Filipinas, tinha ficado com isso atravessado e agora não queria de maneira nenhuma que isso voltasse a acontecer, se por acaso tivesse uma oportunidade. E o plano japonês é enviar, vindo do norte, uma força de porta-aviões que é apenas diversão, que aliás, é uma força de porta-aviões que praticamente não tem aviões. Os porta-aviões japoneses estão lá só para atrair os porta-aviões americanos, não estão para dar combate. Estão para atrair os porta-aviões americanos e é uma força que os japoneses estão dispostos a sacrificar, para depois as outras duas forças, aquilo que eles chamaram a Força Central e a Força Sul, entrarem no Golfo de Leyte, uma vinda do norte da ilha, outra vinda do sul, e atacarem a esquadra de desembarque americana. Para o plano japonês resultar, era preciso uma coisa: era preciso que os americanos descobrissem a força de porta-aviões antes de descobrir a força de couraçados. Ora bem, as coisas não começam bem, porque o que acontece é que as primeiras forças que os americanos detetam são as forças de couraçados, não é a força de porta-aviões. Isto é, os americanos descobrem a força que os japoneses não queriam que eles descobrissem e não descobrem as forças que os japoneses queriam que eles descobrissem. Esse foi o primeiro. A batalha começa no dia 24 de outubro, precisamente com um ataque de aviões da Terceira Esquadra, da Força de Combate 48, à Força Central, que eles tinham detetado a rodear a ilha de Leyte e a tentar entrar no Golfo de Leyte. Há um primeiro ataque aí.

Que também era a frota mais poderosa.

Era a frota onde estava o Musashi, onde estava o Yamato, é imediatamente detetada, é essa que é atacada. E na noite de 24 para 25 de outubro, as forças da Sétima Esquadra, que estão a sul do Golfo de Leyte, detetam também a outra Força Sul japonesa que está a tentar entrar no Golfo de Leyte. E há também aí uma batalha. Aliás, é a última batalha de couraçados na história, porque aí não há porta-aviões e portanto é uma batalha entre navios. É a última batalha entre navios na história das batalhas navais. As coisas começam a correr mal para os japoneses. Eles perdem imediatamente um dos supercouraçados, o Musashi, que é atacado, basicamente uma vaga gigantesca de aviões cai sobre ele, é atingido por cerca de 30 torpedos de todo lado e acaba por afundar. E o que acontece é que este ataque é tão grande e tão intenso que o almirante Kurita, que é o comandante desta Força Central, decide recuar. Diz: "Bem, nem vale a pena tentar entrar. A aviação americana", eles são atacados por aviões, "a aviação americana é tão densa aqui que não vale a pena continuar a manobra, tentar entrar no Golfo de Leyte não vale a pena". Ao fazer isto, ao recuar, ele recua no mesmo momento em que a Terceira Esquadra finalmente descobre a força de porta-aviões japonesa. Isto é, é detetada a força de porta-aviões japonesa que estava-se a aproximar pelo norte, sempre a dizer: "Estou aqui, vejam", mas ninguém tinha visto até esse momento, até à noite de 24 para 25 de outubro de outubro. Isto acontece depois daquele primeiro choque entre a terceira esquadra e a força central de couraçados japoneses. E o que o almirante Halsey, que comanda a terceira esquadra americana, pensa? Ele pensa que esta força de couraçado japonesa recuou, perdeu algumas das suas unidades principais, portanto já não é uma ameaça. O desembarque está seguro e vamos tentar destruir os porta-aviões japoneses. Que ele julga, aliás, que são a principal força. Reparem que eles não sabem. O almirante Halsey julga: "vem aí porta-aviões". Os porta-aviões, na campanha do Pacífico, tinham sempre sido a principal força de combate e esta força de couraçados que nós conseguimos enxotar do Golfo de Leyte devia ser uma pequena força. A força principal deve estar a vir do norte e é para essa força que vamos agora dirigir-nos. E o que ele faz é que finalmente o plano japonês resulta. A terceira esquadra, incluindo a força de combate 38, que é a força de porta-aviões, sai de cena, sai do golfo, sai de dar proteção à esquadra e avança para norte, à procura dos porta-aviões japoneses, julgando eles também que iam descobrir a principal força japonesa. E o que acontece? Acontece que esta força central de couraçados, que tinha recuado, de repente vê-se livre dos ataques da aviação americana. Aquilo diminui e o almirante Kurita decide: "bem, aconteceu aqui qualquer coisa, vamos tentar outra vez". Faz meia-volta e volta outra vez ao Golfo de Leyte na madrugada do dia 25 de outubro. Ainda é uma força muito importante, tem quatro couraçados, incluindo o supercouraçado, o Yamato, ainda tem seis cruzadores pesados, é uma força que dá para combater num pé de relativa igualdade com a sétima esquadra, que está ainda no Golfo de Leyte. Mas o que acontece é que a sétima esquadra também está distraída, porque a sétima esquadra americana esteve no sul de Leyte a combater a outra força sul japonesa. Está muito para sul. E o que acontece é que, de repente, esta força de couraçados japonesa que está a vir do norte, encontra as forças de desembarque à sua mercê, praticamente. Este é um momento de grande pânico americano. É quando estas forças de desembarque que estão a aproximar-se das praias para desembarcar, de repente veem surgir no horizonte estas forças de couraçados japonesas, e a única coisa que têm são alguns pequenos barcos de guerra, destroyers, que estão a fazer de escolta. Não são verdadeiramente forças de combate, são apenas forças para manter a ordem no desembarque, e com uns poucos porta-aviões de escolta, pequeninos, que estão ali também para bater aviões de patrulha. Isto não são forças de combate, são forças mais de organização, de tentar manter alguma organização. E finalmente, a possibilidade de os japoneses consumarem o seu plano de infligir um desastre gigantesco aos Estados Unidos no desembarque das Filipinas. E a questão é saber por que não aconteceu. E não aconteceu, em primeiro lugar, porque iniciativas individuais ainda fazem muita diferença numa batalha. E o que acontece aqui é que quando esta força de couraçados e de cruzadores japoneses aparece para cair em cima da força de desembarque americana, os comandantes dos destroyers, isto é, dos pequenos barcos que estão ali, decidem tornar-se uma força kamikaze, basicamente. Os comandantes decidem fazer os pequenos barcos de guerra avançarem em massa para cima da esquadra japonesa. Tentar navegar em direção à esquadra japonesa e, ao mesmo tempo, lançar uma imensa cortina de fumo para os japoneses não perceberem o que é que têm pela frente. Eles lançam uma imensa cortina de fumo, avançam para os japoneses e, ao mesmo tempo, os aviões de patrulha americanos que estão na área fazem também a mesma coisa. Não são os melhores aviões de combate americanos, mas fazem a mesma coisa: avançam todos para cima da esquadra japonesa. Isto é mesmo uma operação espontânea, decidida pelos comandantes das várias unidades no momento. É uma operação suicida. Um dos comandantes de um destroyer dá mesmo por megafone a informação a todos os seus marinheiros: "nós vamos navegar agora em direção à esquadra japonesa. É absolutamente improvável que a gente vá sobreviver a isto. Aqueles dos marinheiros que não quiserem participar nesta operação, façam o favor de sair imediatamente do barco, porque nós vamos mesmo avançar em direção aos barcos japoneses". Estes grandes couraçados, o Yamato, etc. Vamos avançar. E o que acontece é que a esquadra japonesa está a entrar no Golfo de Leyte e aquilo que vê é esta Nuvem de fumo e estes pequenos barcos a virem todos em direção à esquadra e os aviões a virem e de repente deixa de perceber com o que se está a deparar. Porque isso é o outro factor nesta batalha, é que nós hoje sabemos, com os mapas, isto está cheio de mapas, etc. Sabemos praticamente onde é que estavam os barcos todos, o que é que fizeram a todas as horas, porque a história naval é muito popular nos Estados Unidos e, portanto, as pessoas sabem, às 14h15 o barco estava ali, depois estava acolá e que toda a gente estuda, a batalha é estudada nas escolas, etc. É considerada a maior batalha naval de todos os tempos pelo número de barcos envolvidos. Portanto, nós sabemos isso, mas os comandantes não sabiam. Os comandantes americanos não sabiam, mas o comandante japonês também não sabe. O comandante japonês, umas horas antes, no dia 24, tinha entrado em choque com a Terceira Esquadra, com aquela massa de força aérea da Terceira Esquadra. E agora ele não sabe com o que está a entrar em contacto. Primeiro porque ele nem sabe o que está a acontecer nas outras frentes de batalha, porque eles não têm comunicações. Os japoneses até estão a manter um silêncio rádio, que é para não serem detectados pelos americanos e, portanto, ele não sabe o que fez a frota sul, nem sabe o que está a fazer a força de porta-aviões japonesa. E além disso, o radar, que era o grande instrumento que nesta altura havia para se ver o que não estava à vista, nas Filipinas não funciona, porque as ilhas são todas montanhosas. Aliás, quem vir fotografias desta batalha, isto é uma batalha naval com montanhas ao fundo, toda cheia de montanhas ao fundo, porque a batalha desenvolve-se no arquipélago das Filipinas com montanhas enormes e isso afetava o radar, fazia efeitos que não permitiam ao radar funcionar. Portanto, o almirante japonês não sabe com o que está a contar. Não sabe se a Terceira Esquadra e a força de grandes porta-aviões americana está fora do Golfo de Leyte ou está lá. E perante a força daquele ataque, o que o almirante Kurita pensa é que está a entrar em choque com a primeira cortina da Terceira Esquadra americana. Isto é, que a Terceira Esquadra americana está ali e que ele mais uma vez tropeçou na Terceira Esquadra americana. Portanto, ele nunca chegou a perceber que tinha a força de desembarque à sua mercê. E como já tinha feito antes, quando tinha encontrado pela primeira vez a Terceira Esquadra americana, resolve recuar. Recua outra vez. Portanto, o bluff daquele ataque dos pequenos navios e do ataque dos aviões patrulha resultou. A esquadra japonesa ficou um bocadinho desorientada pelo ímpeto daquele ataque, estes pequenos barcos a atacarem. Isto quer dizer que a Terceira Esquadra deve estar mesmo atrás. Se não, eles não faziam isto. Daqui a bocado vamos ser cobertos por uma imensa nuvem de aviões da Terceira Esquadra.

E os famosos kamikazes, onde é que ficam no meio disto tudo?

Há duas vagas de kamikazes, uma logo no dia 24 à tarde. Eles não têm uma grande eficácia. Só cerca de menos 19, talvez menos de 20% é que conseguem atingir alvos. De facto, a defesa dos barcos americanos é muito densa, é uma defesa aérea e também há uma defesa nos barcos que também dificulta a aproximação de aviões. Conseguem danificar vários barcos, mas a única coisa que conseguem é afundar um porta-aviões ligeiro, por muita sorte, porque atingem quando estão aviões prestes a levantar voo completamente armados e portanto essas munições explodem e depois comunicam-se às munições que estão no navio e é o St. Lo, que acaba por explodir, mas é um porta-aviões pequeno. É o único que consegue. Entretanto, a Terceira Esquadra, incluindo a Força de Combate 38 do almirante Halsey, lá consegue destruir os últimos porta-aviões japoneses, mas claro, logo no dia 25 descobriu-se que ele tinha conseguido fazer isso deixando completamente desprotegida a força de desembarque. Portanto, ele começa logo a ser imensamente criticado e ele depois tem de se defender nas memórias. Mas a guerra é assim, isto é a guerra. E é por isto, pela importância de decisões individuais, pelas dificuldades de comunicação e pelo fator de sorte e azar que assim é introduzido no campo de batalha. É por isso, em grande medida, que quer os japoneses, quer também os alemães na Europa, lutaram muito para além do que parecia hoje razoável em 1944, 45. Isto é, o desequilíbrio de força já era gigantesco, mas como a guerra é também perícia, valentia e sorte, quer japoneses, quer alemães apostaram nisso. Os japoneses aqui no Pacífico, os alemães, como vamos ver, na Europa e a guerra prolongou-se mesmo quase até ao fim, até ao último, porque eles pensaram sempre que ainda podiam ter uma chance. Apesar, repito, do desequilíbrio de força, isto é, as estatísticas já serem completamente avassaladoras para eles.

Muito bem. E é assim que termina esta edição de "E o Resto é História". Nós voltamos para a semana. Até lá.

E o resto é história. É apenas pomba! Dominando a quadra, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Atende, atende. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.