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As armas e os barcos... E o resto é história. É apenas fumaça. Do incêndio e plavra ainda na zona do Chiado. Faz um filho, fá-lo por gosto. É de ti mãe, vinho vermelho, troco de morte, fogo de amor.

Quer transformar este país numa ditadura. Entende?

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja bem-vindo a este episódio 234 de "E o Resto é História", o primeiro de 2024. Portanto, um feliz ano novo aos nossos ouvintes. Vão ter um ano inteiro para nos continuar a aturar. É os dois do costume, Rui Ramos, João Miguel Tavares. Hoje, talvez por ser ano novo, vamos falar de chá, mas não trouxemos os bolinhos.

Essa relação entre o ano novo e chá, mas enfim.

Parece uma coisa de velhinho, não é? Mas vamos falar de uma coisa muito velhinha, mas muito gira, porque o chá de que vamos falar hoje é chá metido dentro de baús, mais propriamente 342 baús de chá da Companhia das Índias Orientais, que foram atirados para as águas frias da baía de Boston na noite de 16 de dezembro de 1773. Portanto, acabou de fazer uns redondíssimos 250 anos. Não podemos deixar de falar disso. Esse ato de rebeldia de um grupo de americanos contra as leis comerciais e os impostos da Coroa Britânica, ficou conhecido como a Festa do Chá de Boston. E é daí, aliás, que vem o nome do Tea Party, um dos mais famosos grupos do Partido Republicano. A Festa do Chá de Boston é considerada o início, de certa maneira, do nascimento dos Estados Unidos da América, cuja independência seria declarada dois anos e meio depois destes acontecimentos. Mas para já, não estamos ainda em 1776, estamos em 1773, e esta história do mergulho involuntário do chá nas águas de Boston teve a sua origem meses antes, a 10 de maio desse mesmo ano, 1773, quando o Parlamento britânico aprovou a Lei do Chá, o chamado Tea Act, e que muito irritou as colônias americanas, por causa também de um outro marco da independência, que é aquela frase que muitas vezes ainda ouvimos: "No taxation without representation". Ou seja, a recusa de pagar impostos à Coroa sem uma representação adequada das colônias americanas no Parlamento britânico. Diz a lenda que uma das formas que os americanos tiveram de mostrar o seu desagrado com o Tea Act foi simplesmente boicotando o consumo do chá. E de fato, temos de admitir, essa foi uma tradição que nos Estados Unidos se perdeu, enquanto se mantém fortíssima em Inglaterra. Rui, eu não sei se gostas muito de chás, nunca falámos sobre isso. Pelo teu comentário sobre não beber chá no final do ano, não fiquei muito impressionado, imagino que não gostes, mas sei que gostas muito de história.

Não, também gosto de chá.

Gostas de chá e de história?

Também bebo chá. História não é incompatível com o chá, ao contrário do que foi agora insinuado. Não é verdade.

Então vai ser mesmo um episódio espetacular. O que nos podes contar acerca da Festa de Chá de Boston?

Como já disseste, o Tea Party foi um desafio à autoridade do governo britânico nas colônias americanas, e temos de recuar 10 anos, antes de 1773. A causa do Tea Party é uma guerra que acabara 10 anos antes, a chamada Guerra dos Sete Anos. Essa guerra dos sete anos, as datas mais usadas são 1756, 1763. Nós já falámos aqui da Guerra dos Sete Anos, a propósito de Portugal, da guerra fantástica de 1762, 1763, uma invasão de Portugal pela Espanha e pela França, precisamente porque Portugal estava aliado à Inglaterra nesta guerra. Isto é uma guerra que pôs várias potências europeias a combater umas contra as outras, na Europa, mas também na América, na Ásia. Há quem diga que foi uma Primeira Guerra Mundial.

Sim, e não é despropositado.

Não, é de fato uma Primeira Guerra Mundial e com consequências também tão importantes como as outras guerras mundiais do século XX. A origem desta guerra dos sete anos está no esforço de várias potências europeias, lideradas pela Inglaterra, a Prússia, a Rússia, em determinado momento, para se opor à pretensão de hegemonia da França. O século XVIII ainda é um século em que a monarquia francesa, que é a maior monarquia da Europa Ocidental, com mais população, tem uma aspiração, que já vinha do século XVII, de dominar a Europa. Nesta altura, a França está aliada à Áustria e à Espanha.

E como todos têm colônias, a guerra estendeu-se às próprias colônias.

E aliás, a guerra começa, de fato, nas colônias da América do Norte, onde tanto a Inglaterra como a França, mas também a Espanha, têm colônias na América do Norte. O que é que são estas colônias? São coisas às vezes um bocado diferentes. São, por vezes, povoações com europeus ou com descendentes de europeus, que estão lá estabelecidos, que vivem lá, têm atividade econômica. Outras vezes são fortes, com guarnições militares europeias, franceses, britânicos ou espanhóis, e outras vezes são alianças das potências europeias com tribos, com nações dos chamados índios, dos nativos americanos, que reconhecem Uma certa potência europeia ou como seu aliado, às vezes como dirigente, como soberano, mas sobretudo como aliado. E, portanto, também há uma presença, às vezes europeia, em determinados territórios.

Sequer vale a pena orientar um bocadinho as pessoas geograficamente, porque nós hoje em dia quando falamos da América do Norte, claro que temos na nossa cabeça os Estados Unidos e o Canadá, mas aí o coração da América do Norte, nesta altura, estava ainda toda na mão das tribos índios e era um território praticamente inexplorado.

A presença europeia nesta altura era muito mais reduzida do que viria a ser depois. Havia a Nova Inglaterra, que eram as colônias britânicas que ficavam na costa leste.

Portanto, a banhada pelo Atlântico.

E havia a Nova França, que tinha o seu centro principal no Canadá, no Quebec, mas que depois se prolongava por dentro dos Estados Unidos, ao longo da bacia do rio Mississippi, e que ia praticamente desde o Canadá até ao sul do que é hoje os Estados Unidos. Mas repare, isso não era uma zona povoada de franceses. Atenção, isto era uma zona onde os franceses-

E neste caso, pelo interior, ou seja, não pela costa

Sim, o interior. Porque na costa estavam os britânicos.

Estavam os britânicos, claro.

Isto era uma zona onde havia algum povoamento francês, sobretudo no Canadá, e depois havia fortes franceses e sobretudo havia tribos índias que estavam em aliança com os franceses.

E muitas vezes contra os britânicos.

E claro, em aliança com os franceses contra os britânicos. Havia também tribos índias em aliança com os britânicos contra os franceses. Quem viu aquele filme, "O Último dos Moicanos" tem uma ideia dessa diplomacia e dessas alianças entre determinado tipo de tribos e potências europeias. A Guerra dos Sete Anos terminou com uma enorme vitória da Inglaterra e, no caso do continente europeu, da Prússia, e a França perdeu as suas colônias na América do Norte, portanto, esta Nova França. E isso teve duas consequências importantes para perceber o Tea Party de 1773. Em primeiro lugar, a guerra, com a vitória britânica, libertou os colonos britânicos da América do Norte da ameaça dos franceses e dos seus aliados nativos. Isto é, deixaram de precisar, na prática, das tropas britânicas para os proteger contra tropas francesas ou contra nativos aliados às tropas francesas. Em segundo lugar, a guerra deixou o governo britânico em Londres, portanto, o governo de Londres, carregado com enormes dívidas e com a necessidade, que nós todos sabemos, quando há muitas dívidas, de cortar despesas e aumentar receitas, ter contas certas.

Já era assim?

Já era assim no século passado, foi sempre assim. É uma das maldições da humanidade. Agora, a guerra tinha criado uma grande presença militar britânica nas colônias, os britânicos tinham 10 mil homens na América do Norte. E, portanto, o que o governo faz em relação à América do Norte? É uma tentativa de obter mais receita da América do Norte e ter também menos despesas na América do Norte. Em suma, este que é o problema. E há aqui o problema, que é: no momento em que os colonos britânicos da América do Norte deixaram de precisar do governo de Londres, ou precisaram menos do governo de Londres, o governo de Londres passou a precisar deles para equilibrar as contas.

É, de fato. Tem tudo para correr mal.

Tem tudo para não correr muito bem, não. Vamos falar um bocadinho das colônias britânicas, para perceber então por que apesar de tudo, puderam fazer frente ao governo em Londres. Estas colônias britânicas da América do Norte tinham sido estabelecidas a partir do século XVII. A primeira foi a Virgínia, em 1607, e eram de fato muito prósperas. Mas a questão é que não davam muito rendimento ao governo em Londres.

Ou seja, era próspera para os habitantes, mas não-

Mas não era para o governo em Londres. Isto é, a receita que obtinha dessas colônias britânicas não era muita.

E por quê?

Vamos explicar. As colônias eram em número 13, estavam arranjadas em três grupos. Havia cinco colônias do Sul, que era a Geórgia, a Carolina do Sul, a Carolina do Norte, a Virgínia e Maryland, portanto, eram as cinco colônias do Sul. Depois havia quatro colônias do meio, the middle colonies, que eram antigas colônias holandesas ocupadas pelos britânicos ainda no século XVII. E talvez das colônias britânicas na América do Norte, eram as que tinham, precisamente por essas origens holandesas, a população mais variada, portanto, havia descendentes de holandeses, descendentes britânicos, descendentes de outras nacionalidades.

Mais variada também culturalmente.

Portanto, era a Pensilvânia, Delaware, New Jersey e Nova York.

Nova York, sim, claro.

E depois havia as colônias do Norte, que eram as colônias da chamada Nova Inglaterra, que era New Hampshire, Massachusetts, Rhode Island e Connecticut. Portanto, estas são as colônias do Norte. Portanto, colônias do Sul, colônias do meio, colônias do Norte, faziam uma espécie de uma linha ao longo da costa da América do Norte.

E só para relembrar que nesta altura eram mesmo colônias separadas entre elas. Portanto, não havia ainda vestígios de Estados Unidos da América.

Não havia Estados Unidos, não havia uma federação das colônias, nada. Isso eram tudo colônias, cada uma delas governava-se a si própria e tinha um governador nomeado por Londres para representar a autoridade de Londres, mas basicamente governavam-se a si próprias, com os seus estatutos, as suas leis.

Até com competitividade entre elas.

E eram muito diferentes umas das outras. As colônias do Sul são colônias onde há grandes plantações, são dominadas por uma aristocracia anglicana, portanto, muito inglesa, digamos assim. As colônias do meio, já dissemos, muito variadas, e depois as colônias do Norte são uma coisa completamente diferente, porque são os estabelecimentos de puritanos, isto é, de protestantes calvinistas, e têm um ambiente religioso intenso. É uma coisa completamente diferente das do Sul. Elas tinham uma população, estas colônias, em meados da segunda metade do século XVIII, elas têm uma população de origem europeia já muito importante, 1,5 milhões de pessoas.

Parece pouco, mas na altura era bastante.

É uma população importante se nós pensarmos que o Reino Unido, nesta altura, tem sete milhões de habitantes.

Certo.

Isto é, nós estamos a falar de colônias que têm 1,5 milhões. O Reino Unido tem sete milhões. Por exemplo, as colônias da América do Norte, na segunda metade do século XVIII, têm mais população do que a Escócia, no Reino Unido. A Escócia tem 1,25 milhões de habitantes, portanto, estas colônias têm mais população do que a Escócia. E estamos a falar apenas de europeus e descendentes de europeus, porque se acrescentarmos os escravos, temos mais 500 mil escravos africanos que vivem nestas colônias, sobretudo nas colônias do Sul Produtoras de tabaco, como a Virgínia, as colónias do sul. Por exemplo, as colónias francesas eram muito mais pequenas. O Quebec, o Canadá, as colónias francesas do Canadá têm cerca de 70 mil pessoas, portanto não se compara nada com 1,5 milhões de pessoas das colónias britânicas. A presença francesa na América até 1763 é mais política e militar. Política no sentido das alianças com tribos nativos e militar com presença de tropas.

Estávamos a falar da questão da receita fiscal.

A questão da receita fiscal, exatamente. As colónias britânicas, por quê? A maior parte da tributação colonial tradicionalmente incide sobre o comércio externo das colónias. Isto é, não há IRS, quer dizer, IRC, isto é, impostos diretos. Isso acontecia em quase todas as colónias europeias. Aquilo que era mais fácil taxar para uma potência europeia eram as trocas das colónias com o exterior. Por quê? Porque é mais fácil canalizar o comércio através de alfândegas do que andar lá no mato, às vezes em extensões enormes, a tentar calcular o rendimento de cada família e aplicar impostos. Isso era quase impossível, exigia uma máquina fiscal que seria caríssima. E era sobre o comércio externo. Ora bem, o comércio externo das colónias britânicas da América do Norte não era tão importante, por exemplo, como o das colónias das Caraíbas. Por quê? Porque as colónias das Caraíbas produziam açúcar, o açúcar era todo exportado. As colónias da América do Norte produziam tabaco, que era uma coisa muito menos exportada.

Nós falámos aqui também da questão do tabaco e do cigarro.

Havia muito menos consumo de tabaco do que de açúcar na Europa e o comércio externo era menos valioso do que o da Jamaica, dos Barbados, das Bahamas. Nas ilhas das Caraíbas, havia grandes plantações de açúcar com imensos escravos, muito mais escravos do que na América do Norte, produziam açúcar, melaços, bebidas alcoólicas, era tudo exportado pra Europa e a receita fiscal era muito maior daí do que vinha da América do Norte. Mas, por contraste, as despesas na América do Norte eram muito maiores por causa da manutenção, da população, proteger a população e até 1763 tinham o ato dos franceses e portanto precisavam.

É extraordinário, era de fato um outro mundo.

Era um outro mundo. Por exemplo, pra terem uma ideia desta proporção entre as colónias das Caraíbas e as colónias da América do Norte, durante a Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra ocupa quase todas as colónias francesas fora da Europa. E no fim da guerra, eles têm que negociar e têm que devolver alguma coisa à França, não podem ficar com tudo. E acontece esta coisa curiosa: eles admitem devolver ou o Canadá ou a ilha de Guadalupe nas Caraíbas. A ilha de Guadalupe nas Caraíbas tem 1600 km quadrados. O Canadá tem 10 milhões de quilômetros quadrados. E reparem, entre o Canadá e a ilha de Guadalupe, a França hesita e escolhe o quê? A ilha de Guadalupe. E escolhe a ilha de Guadalupe por quê? Porque a ilha de Guadalupe vale muito mais do que o Canadá. Estes 1600 km quadrados têm uma enorme produção de açúcar. Estas colónias de açúcar das Caraíbas são como postos de petróleo. Isto é um petróleo do século 18. O Canadá, que são esta suspensão enorme, muito pouco habitada, gelada a maior parte do ano, isto era uma coisa que não interessa. A França escolhe Guadalupe, a Inglaterra devolve Guadalupe, fica com o Canadá e em Inglaterra há uma grande discussão, há uma enorme discussão de gente a dizer: "Mas que estupidez que o governo fez, deviam ter entregue o Canadá que não vale nada, quer dizer, ter ficado com Guadalupe". Guadalupe, a ilha de Guadalupe, esta pequenina ilha das Caraíbas era muito mais interessante. Isso dá uma ideia do que é que valiam as colónias britânicas das Caraíbas, por contraste com as colónias da América do Norte. São colónias que eram muito povoadas, tinham alguma produção já industrial.

Tabaco, além do tabaco havia mais alguma coisa?

Era o tabaco da Virgínia. Mas era menos valioso do que o açúcar, por causa do consumo ainda. Esse tabaco da Virgínia depois vai ser importante até na adoção do hábito de fumar, porque é um tabaco mais doce, mais leve. De resto, eles exportam madeiras, exportam peles, exploram os recursos naturais do continente na América do Norte, mas a economia da América do Norte está mais virada pra dentro. 90% destes colonos britânicos na América do Norte são agricultores. As cidades são todas pequenas, as cidades como Nova York, Filadélfia ou Boston, são pequenas em termos europeus, não têm mais de 50 mil habitantes.

É a agricultura de consumo próprio.

E era estes agricultores produziam sobretudo alimentos, mas eram muito prósperos. Há um sinal para isso que se vê através dos recenseamentos militares, etc. É que os colonos britânicos da América do Norte são, na média, mais altos do que os britânicos da Grã-Bretanha. Eles são mais altos, era um sinal que tinham melhor alimentação.

Significativamente mais altos?

Calcula 5 cm mais altos.

5 cm é muito.

É muito, eles são muito mais altos. São mais altos porque se alimentam muito melhor, são mais prósperos. Eles consomem sim bastantes produtos importados Mas obtinham. Depois podia dizer: "Aí está, então os britânicos tinham aí receita." Não, uma grande parte desses produtos obtinham-nos através de contrabando. Contrabando com as colônias francesas e holandesas, precisamente nas Caraíbas.

E a extensão do território também ajudava, não é?

Obtinham, por exemplo, o chá ou açúcar, eles obtinham geralmente contrabando através dos holandeses ou dos franceses, e assim não pagavam impostos.

Ou seja, até o controle dos portos americanos também era difícil.

Também era difícil porque para obter receita, eles teriam de instalar nos portos uma máquina fiscal também nos portos, as "offenders", que também ficaria caríssima.

Até porque o território é enorme e com uma costa gigantesca.

O território é enorme, são milhares de quilômetros, distâncias enormes. Nós às vezes apercebemo-nos disso quando vemos as memórias ou os diários, as vidas, as biografias de alguns líderes da independência americana, como George Washington, por exemplo, nunca tinha estado em Boston ou Nova York até à independência dos Estados Unidos. Ele nunca lá tinha ido. Era um outro mundo.

Olha, esse outro mundo fica para a segunda parte. Vamos continuar a falar dele, mas agora o tempo da primeira chegou ao fim. Até já. Olá, seja bem-vindo. Estamos de volta a falar de chá e de Estados Unidos da América, depois de uma primeira parte em que eu próprio já estou quase com pena dos britânicos, porque aquilo estava a ser muito difícil conseguir sacar algum dinheiro da América do Norte.

O que temos a partir do fim da Guerra dos Sete Anos, a partir de 1763, o governo britânico carregado de uma dívida gigante, por causa do esforço de guerra durante sete anos, e quer obter mais receitas e começa a inventar maneiras de obter mais receita fiscal na América do Norte. E para isso começa a inventar impostos. Como, por exemplo, o imposto de selo, que incidia sobre, eu estou a chamar imposto de selo-

Mas é sobre o papel, não é?

...que é o termo português, porque também foi inventado nesta altura em Portugal, também o imposto de selo, o Stamp Act, que é um imposto que incide sobre todo o papel usado para efeitos públicos. Um papel onde se registra um contrato entre privados ou o papel de um jornal, por exemplo. Todos tinham ter um selo e portanto pagar um imposto para ser usado o papel.

Não foi assim há tanto tempo, tínhamos ainda aqui os papeis.

Ainda tínhamos o papel selado, exatamente, que é uma sobrevivência desses impostos do século XVIII. Ou então, outra coisa que os britânicos também imaginam é tentar diminuir o contrabando e fazer o comércio externo da América do Norte tornar-se mais legal, e pagar os devidos impostos.

Imagino que não tenham sido medidas muito populares.

Não, as colônias começaram logo a protestar, sobretudo contra o imposto de selo, e protestavam como? Protestavam segundo uma tradição britânica. O argumento era precisamente o de que o governo de Londres não tinha o direito de lançar impostos sobre os colonos britânicos da América do Norte. E por quê? Porque segundo eles invocavam a antiga tradição britânica, isso começa logo a ser invocado a partir de 1765, a partir do imposto de selo, a antiga tradição britânica de que os ingleses não estavam obrigados a pagar impostos, a não ser que fossem votados por um parlamento em que estivessem representados. Ora, os colonos britânicos da América do Norte não elegiam deputados para o Parlamento de Londres, que era de onde saía o governo do Reino Unido. Os colonos britânicos estavam representados, mas representados nas assembleias locais das colônias. Todas as colônias tinham o seu parlamento, vamos dizer assim, a sua assembleia local, elegiam, nalguns casos até uma grande parte da população tinha direito a voto, portanto era um sistema até um pouquinho mais democrático do que no Reino Unido, frequentemente. E eram estes parlamentos e os governos que saíam destes parlamentos na América que governavam. De facto, isto é muito importante perceber, porque é talvez até o mais difícil de perceber, porque é contraintuitivo. Até 1773, até 1765, 1773, de facto, as colônias da América do Norte são praticamente independentes. Isto é, eles já têm eleições, têm governos representativos, portanto governam-se a si próprios.

Tinham uma autonomia única.

Não, uma autonomia quase total. Os governadores britânicos são apenas delegados, representantes da autoridade britânica, mas não têm poderes executivos, não são eles que governam os territórios. Ora, isto quer dizer que entre 1763 e 1773, desde o fim da Guerra dos Sete Anos até a este momento em que começa uma cisão mais violenta, a luta dos americanos não é para se libertarem da opressão do governo da metrópole. É o contrário, é para impedirem que se estabeleça aquilo que eles acham que é o governo da metrópole. Portanto, é uma luta para defenderem a independência que já têm.

Que já têm, certo.

Não é para criarem uma nova independência. Eles já são independentes e acham que quem está a violar os termos da relação entre as colônias britânicas da América do Norte e o governo de Londres, é o governo de Londres. O governo de Londres é que está a mudar as coisas. Não são eles, eles querem que tudo fique na mesma. Que só paguem impostos decididos, votados nos parlamentos das colônias da América do Norte. E de repente está o Parlamento de Londres a dizer: "Nós também podemos impor tributos que vocês não aprovaram."

Até porque quem se interessa por essa parte da história da América percebe que mesmo aqueles que vieram a ser os grandes heróis da independência, nesta altura sentiam-se genuinamente cidadãos britânicos ainda.

Sim, e com os direitos dos britânicos, dos direitos tradicionais dos britânicos. E depois, a maneira de eles protestarem é também uma maneira muito britânica de protestar. Eles formam associações, dirigidas por aqueles que depois vão ser chamados os patriotas, como a Associação dos Filhos da Liberdade, Sons of Liberty, fundada em 1765. Os mais importantes membros desta associação são o Samuel Adams, que é um negociante de Boston, e Paul Revere, que é um ourives e autor de gravuras, também de Boston. Boston tem aqui uma importância bastante grande. Estas associações têm algo a ver com o movimento maçónico Com a maçonaria que, vinda do Reino Unido, também se tinha espalhado nas colônias, lojas maçônicas, mas sobretudo com o uso da linguagem do constitucionalismo britânico. Isto é, a ideia de que não pode haver impostos sem representação parlamentar. Que é um argumento que vai ser muito usado na segunda metade da década de 60, princípio da década de 70 do século 18 em Inglaterra. A defesa também da liberdade, há esta linguagem. O que leva um escritor britânico, Doctor Johnson, a dizer que era curioso que aqueles que na América mais gritavam pela liberdade eram os donos dos escravos. Donos de escravos a gritar por liberdade, porque a escravatura era então legal, aliás, em todas as colônias da América. O que foi neste movimento, digamos, pior do ponto de vista britânico, do governo de Londres, foi que isto levou a uma coordenação entre as colônias que não existia antes. Isto é, antes o que havia eram colônias, estas 13 colônias, que estavam às vezes afastadas umas das outras, não eram contíguas, como às vezes aparecem no mapa, porque o povoamento não era contínuo. Havia um núcleo de povoamento, depois havia umas centenas de quilômetros sem ninguém e depois havia outro núcleo de povoamento. Eles praticamente às vezes não tinham grande relação, tinham leis diferentes, parlamentos diferentes.

Culturas diferentes.

Às vezes eram culturas um bocado diferentes, exato, eram pessoas com origens diferentes.

Religiões diferentes.

Sim, os anglicanos do sul, os calvinistas do norte. E o que acontece nesta altura é que postos perante o mesmo problema, que é o dos impostos britânicos, eles concertam-se, começam a se concertar. Eles já se tinham concertado uma vez por causa da Guerra dos Sete Anos, já tinha havido alguma concertação entre as colônias, mas é a questão fiscal, e sobretudo a do imposto de selo, em 1765, que faz representantes de nove colônias, curiosamente não chegam a ser todas, repare que são 13, mas são só nove, que se reúnem em Nova York para protestar contra esse imposto.

Contra o imposto de selo.

É aí que vem a conversa do no taxation without representation, e também a decisão de uma das formas de protesto ser o boicote dos produtos britânicos. Eles decidem apelar aos colonos da América do Norte, das várias colônias, para não consumirem produtos britânicos, boicotarem produtos britânicos. E protestavam, de facto, desta maneira, e protestavam também como os britânicos: através da imprensa, há muitos jornais, manifestos, e através de tumultos.

Também era muito britânico.

Os tumultos nas cidades, isto é, as manifestações populares mais ou menos violentas contra as autoridades, era também uma forma de fazer política que se tinha tornado costume nas grandes cidades britânicas do século 18. O seu auge seria atingido em 1780 com os famosos Gordon Riots em Londres, em que mais de 300 pessoas morreram em choque com as tropas, isto em Londres. E o mesmo vai acontecer nas cidades americanas. Começa a haver manifestações, protestos, tendo às vezes frequentemente como alvo ou os governadores, os representantes das autoridades britânicas, por exemplo, em 1765, há uma multidão que destrói a residência do governador de Massachusetts, em Boston, queima-lhe a casa. Ou então provocações e confrontos com as tropas britânicas, isto é, com as tropas que o governo de Londres tinha na América do Norte. O incidente mais famoso desse gênero é o chamado Massacre de Boston, 5 de março 1770.

Uma expressão um pouco exagerada, tem que contar o que aconteceu.

São cerca de 300 manifestantes que começam a provocar e a atacar nove soldados britânicos da guarnição estacionada na cidade. Os soldados são só nove pra 300, ficam um bocado sem saber o que fazer, acabam por recorrer às armas, disparar. Há fontes que dizem três, outras dizem cinco manifestantes, mas isso chegou a se chamar o Massacre de Boston. Aliás, o Paul Revere, que é um dos líderes do movimento da independência, que também faz gravuras e faz uma gravura muito conhecida, que depois tem uma divulgação enorme das tropas britânicas com os seus casacos vermelhos a disparar sobre cidadãos desarmados e uma quantidade de gente. Uma espécie de uma imagem como a do Goya, os do 2 de maio em Madrid de 1808, é um bocadinho assim, todos aqueles colonos caírem no chão com os peitos atravessados por balas.

Sim.

Um massacre. Isto não é a única coisa. Uma das formas de confronto com as autoridades mais frequentes tem outra dimensão ou outra graça, que é apanharem os cobradores de impostos Despirem-nos e cobrirem-nos de alcatrão e penas, que é uma coisa que-

Como nós vemos nos livros do Lucky Luke.

Exatamente. E vem daí essa tar and feather. Claro que isso não era tão engraçado assim, porque aquele alcatrão colava-se às pessoas, para tirar o alcatrão arrancava-se a pele. Aquilo era uma coisa bastante mais desagradável-

Do que nos livros de banda desenhada

...do que nos livros de banda desenhada.

Mas tu estavas a dizer que era habitual, tu disseste que é uma tradição britânica, o tumulto?

Os tumultos, sim. Nesta altura em Londres, os partidos britânicos, os grupos políticos britânicos usam isso muito. Tentar criar manifestações nas cidades, levantamentos populares, protestos. Isso era uma coisa que estava enraizada em Londres, aliás, na segunda metade do século XVIII e depois no século XIX, ao longo do século, por exemplo, no princípio do século XIX também há massacres, o massacre de Peterloo, enfim, outros incidentes. Agora, a partir desses incidentes, a questão começa a se tornar mais complexa, porque já não é apenas uma questão fiscal. Já não é apenas a questão de o governo de Londres querer retirar receita das colônias da América do Norte para equilibrar as suas contas. Isso começa a se tornar uma questão de princípio. Isto é, da afirmação da soberania. Para o governo de Londres, a partir de determinado momento, já começa a tornar-se menos relevante o fato de tirar ou não tirar receita, como o de afirmar o seu direito de cobrar impostos na América do Norte. Isso começa a se tornar a questão principal, esta questão de afirmar a soberania. E digamos que os diferendo, o conflito com os colonos da América do Norte, também não tem apenas uma questão fiscal. Por exemplo, os colonos da América do Norte, uma coisa que eles ressentiam imenso é que no fim da guerra, em 1763-

Dos sete anos.

No fim da Guerra dos Sete Anos, em 1763, uma das coisas que o governo de Londres tinha imposto era que os colonos da América do Norte não podiam entrar na parte daquilo que tinham sido as colônias francesas, isto é, não podiam entrar no interior da América.

No chamado território índio.

É, para o governo de Londres, isso tinha sido considerado uma espécie de reserva índia. Por quê? Porque tinha sido a maneira como eles tinham obtido a sujeição dessas tribos que antes tinham estado aliadas aos franceses e agora tinham aceito o controle britânico, mas tendo como contrapartida que não haveria colonos europeus a entrar nos seus territórios. E o governo de Londres só autorizava entradas de colonos europeus nesses territórios se fossem o resultado de contratos, isto é, se os colonos europeus comprassem terras aos índios. E isso fosse muito claro que era um contrato, que tinham pago e os índios lhes tinham dado uma parte dos territórios. Já havia aí uma grande decepção no fim da guerra, em 1763, eles estão à espera de poder ir para a bacia do Mississippi, os colonos britânicos estão a pensar e de repente não podem. Dizem: "Não, aquilo é como se continuasse a ser território francês." Isso também era uma questão que ficou a azedar as relações entre as colônias britânicas e o governo de Londres. E depois havia uma outra, que tinha a ver com a religião, curiosamente, e que era o governo de Londres também tinha chegado a um acordo com os colonos franceses do Canadá para ficarem integrados no império britânico. E esse acordo tinha estado baseado no compromisso do governo de Londres de respeitar as instituições, os costumes e a religião dos colonos franceses do Canadá, isto é, o catolicismo. Eles eram católicos. E isso não caiu muito bem na Nova Inglaterra, naqueles protestantes, naqueles puritanos.

Que estão colados ao Canadá.

Que por um lado estavam à espera de ficarem com o Canadá, deles próprios expandir para o Canadá. Já não iam ficar, porque o governo de Londres reconhecia que os colonos franceses iam manter as suas instituições, etc. Portanto, não iam ser integrados nas colônias britânicas da América do Norte. E depois respeitar-lhes a religião. E isto para esses colonos puritanos da Nova Inglaterra, deu-lhes oportunidade para acusar o governo de Londres de estar a proteger o papismo, isto é, o catolicismo na América do Norte. Eles estavam a proteger o Papa, iam proteger as tropas do Papa na América do Norte.

Portanto, era um leque cumular de razões.

É, a contradição de interesses era muito grande. Inicialmente, a questão dos colonos é contra o Parlamento. Eles quando fazem apelos, protestos, dirigem-se ao rei, ao rei Jorge III, contra o Parlamento. Eles dirigem-se ao rei a dizer: "O Parlamento de Londres está a fazer isso e mais aquilo." Estão a apelar ao rei para intervir a favor deles contra o Parlamento. Tem o azar do rei, o Jorge III, ser um rei parlamentar, isto é, está convencido que quem governa, quem deve governar é o Parlamento ou aqueles que têm apoio no Parlamento, e portanto não quer ir contra o Parlamento. Mas isso não quer dizer que os colonos britânicos não tivessem apoios em Londres. Porque a questão americana divide o governo em Londres, divide os políticos em Londres. Há muitas fações no Parlamento britânico. Às vezes são usados aqueles nomes de Tories e Whigs para designar essas fações, mas de fato havia muito mais grupos do que os Tories e Whigs, a política era muito complicada. O que quer dizer que sempre que um governo decidia uma coisa, havia sempre deputados Para atacar, para fazer oposição a essa decisão. Isso quer dizer que os governos que decidiram a favor de impostos na América do Norte tiveram sempre outros deputados a contestar também esses impostos e o tratamento que o governo estava a dar aos colonos britânicos. Houve sempre deputados a favor dos colonos britânicos da América do Norte no Parlamento. Isso fez com que a política de Londres em relação às colônias norte-americanas nunca fosse muito consistente nem estável. Basicamente, o que acontece entre 1763 e 1773, nestes 10 anos a seguir à Guerra dos Sete Anos, é que os governos de Londres impunham um imposto na América do Norte. Havia grandes protestos na América do Norte, das suas assembleias. Havia também protestos no Parlamento, em Londres, de outros deputados da oposição e o governo acabava por desistir do imposto, a cancelar o imposto, dizendo: "Pronto, não cobram o imposto, fica cancelado, fica suspenso." Era muito difícil lançar impostos também na América do Norte, por causa da política em Londres.

Sim. Bom, eu tenho que te interromper aqui, Rui, só porque o nosso tempo para quem nos está a ouvir em FM chegou ao fim. Despeço-me destas pessoas que nos estão a ouvir em direto. As outras, já sabem, encontram-nos no sítio do costume. Nós vamos continuar esta conversa em podcast. Sim, Rui.

E é precisamente aí que vamos dar ao chá, porque em 1773 alguém teve uma ideia em Londres. Isto de aumentar impostos ou criar novos impostos não resulta, que eles ficam todos furiosos, protestam, e depois a oposição doméstica faz eco dos protestos dos colonos americanos, o governo começa a sentir-se isolado, tem que desistir, etc. Então o que é que no governo de Londres, algum gênio fiscal que havia lá, teve a ideia? Basicamente, era manter ou até baixar os impostos existentes.

Para acalmar as coisas.

Deixar. Mas tentar dominar o mercado americano com produtos vindos de outros domínios britânicos. E aí vamos ter ao chá.

Isso parece-me um bocado engenhoso. Explica lá isso melhor.

Porque em 1773 o governo de Londres não tem só um problema na América do Norte. Tem também um problema noutro ponto do globo, na Índia. Na Índia, a presença britânica efetua-se através de uma companhia comercial, que é a Companhia das Índias Orientais. Esta Companhia das Índias Orientais é uma companhia comercial, mas que exerce soberania, sobretudo em Bengala e na zona oriental da Índia, onde hoje é o Bangladesh e Calcutá, na Índia, é nessa zona. Digamos que é no estuário dos grandes rios, do Ganges, etc. Tinha-se estabelecido aí desde o século XVII esta Companhia das Índias Orientais.

Um dia temos que falar dessas companhias, que é uma lógica de funcionamento que hoje em dia nós já não compreendemos muito bem.

Aquilo é uma companhia privada, mas que tem exército, impõe e, na prática, representa o poder britânico na Índia. Ora bem, o que aconteceu a esta companhia, de que um dia havemos falar, mas agora vamos falar só-- em 1773 está à beira da bancarrota. Está à beira da bancarrota por várias questões, por causa dos grandes custos da dominação na Índia. É uma companhia comercial, mas cada vez tem mais responsabilidades militares e administrativas, está se a tornar um Estado. Tem uma administração, tem exércitos, tem marinha, está se a tornar um Estado. Há más colheitas e fomes em Bengala, na zona onde está instalada, quer dizer que também obtém menos receita aí. E sobretudo, há uma crise na Europa, nesta altura, que faz com que o consumo do chá tivesse diminuído na Europa. E eles viviam, sobretudo, esta companhia, entre outras coisas, viviam de exportar chá para a Europa. Eles têm imenso chá, que não conseguem vender na Europa, e alguém no governo de Londres lembrou-se de uma manobra para matar dois coelhos com uma cajadada só, que era autorizar a companhia a vender chá na América do Norte em regime de monopólio. Dizer: nas colônias britânicas da América do Norte, o único chá que pode ser consumido é o chá da Companhia das Índias Orientais. E a preços mais baixos, que é para quê? Para diminuir o contrabando. Isto é, o chá vendido legalmente, tendo pago impostos, ficava mais barato do que o chá introduzido por contrabando nas colônias britânicas.

Mas essa ideia brilhante parece efetivamente brilhante. Todos parecem ganhar. O que correu mal?

Isso iria arranjar receita para a companhia, ao mesmo tempo destruir o contrabando na América do Norte e arranjar receita extra para o governo de Londres na América do Norte, por quê? Porque o imposto sobre o chá importado, que tinha sido um dos impostos inventados depois de 1763, tinha sido o único que não tinha sido abolido. Era o único que eles tinham mantido, que o governo de Londres não tinha voltado atrás. Mas como eu disse, o chá legal seria mais barato do que o chá de contrabando. Claro que isso pôs imediatamente contra isso todos os contrabandistas e maior parte dos comerciantes na América do Norte tinham alguma coisa de contrabandista, toda a gente estava envolvida em contrabando, ou naquilo que se podia chamar contrabando, mas de fato era um comércio que não era controlado pelas autoridades britânicas. E sobretudo, irritou-os soberanamente o monopólio do chá. Isto é, de repente, só a Companhia das Índias Orientais é que pode vender chá. E aquilo que nós podemos chamar o dumping, portanto, era tirar este chá todo que estava em Londres nos baús Sem venda, sem extração e agora vai todo para a América do Norte. Muito mais provavelmente, isto é entendido por essas associações que se tinham desenvolvido desde 1763, à volta da contestação, do protesto contra as autoridades britânicas e que já têm uma lógica própria, já têm uma razão de ser própria, e aproveitam isto para fazer ainda mais agitação. Reparem que eles andavam a fazer campanha pelo boicote dos produtos britânicos e apelam também ao boicote deste chá. Mas de qualquer maneira, no fim do ano de 1773, chegam ao porto de Boston três navios da Companhia das Índias Orientais, carregados de chá. Vêm todos carregados de chá, chegam lá, toda a gente sabe isso. E é nessa noite que tu referiste, nessa noite do Tea Party, cerca de 100 voluntários da Associação dos Filhos da Liberdade, desta associação clandestina dos Filhos da Liberdade, disfarçados de índios.

Disfarçados de índios, exatamente.

Com penas nas asas, para dar a ideia. Toda a gente percebeu que eram eles, mas não sei, se calhar gostavam de se disfarçar de índios.

Há um lado quase paródia, que ainda por cima fica com o nome Festa do Chá.

Sim, porque isto é uma provocação. Isto é uma afronta às autoridades britânicas e é isso que eles fazem. Assaltam os navios e deitam ao mar 46 toneladas de chá.

É muito chá.

Não, é imenso chá. Isto causa um enorme escândalo em Londres, precisamente porque era muito chá. Era muito dinheiro. Isto é muito dinheiro. Isto foi imenso dinheiro que eles atiraram ao mar. E o governo de Londres reage brutalmente, com o chamado Coercive Acts, os atos de coerção. O porto de Boston, que é onde acontece isto, é encerrado à navegação até a cidade de Boston pagar o chá destruído. Eles obrigam a cidade de Boston a pagar à Companhia das Índias Orientais o chá destruído. E são estes Coercive Acts que, em 1774, levam a uma nova reunião de delegados das colônias britânicas, o chamado Primeiro Congresso Continental, em outubro de 1774, em Filadélfia, na colônia da Pensilvânia. Os delegados das colônias reúnem-se e apelam ao boicote de todos os produtos britânicos outra vez, isto é, não consumir produtos britânicos. E é aqui que o ambiente vai azedando, vai se tornando cada vez mais ácido entre os colonos britânicos e os representantes do governo de Londres. E chega-se a 1775, isto é só para dar uma ideia do que acontece a seguir, há um confronto entre tropas britânicas e milícias americanas. Outra coisa que se tem que dizer em relação a estes colonos, uma grande parte deles está armada.

Sim, claro, é verdade. É a América.

Sim, porque eles tinham de se defender dos franceses, tinham de se defender dos índios. Uma parte deles tem experiência militar, fez parte das milícias que combateram na Guerra dos Sete Anos e tem experiência militar. Uma parte deles foi treinada pelas tropas britânicas. Isto não é propriamente civis que de repente é lhes dada uma arma para as mãos. Não, é gente tem armas e que sabe usá-las, são caçadores, defendem-se dos índios. É gente que está habituada a isto. E há um confronto entre tropas britânicas e milícias americanas em Lexington e em Concord, na colônia de Massachusetts. Digamos que são os primeiros tiros da guerra entre os colonos britânicos em 1775, dois anos depois do chá. E em maio de 1775, reune-se então um segundo congresso continental de delegados das colônias britânicas em Filadélfia, que em 1776 vai declarar, dia 4 de julho, a independência dos Estados Unidos e a formação do exército continental, o chamado United Continental Army, sob o comando de George Washington, que era um oficial que tinha combatido na guerra.

Um oficial britânico.

Era americano, mas tinha combatido no exército britânico durante a Guerra dos Sete Anos e tinha sido um dos comandantes militares formados pelos britânicos durante a Guerra dos Sete Anos. Curiosamente, só para retomar um ponto que é importante para percebermos isto. Durante toda esta época, a partir de 1775, 1776, a grande preocupação do governo de Londres não é exatamente perder as colônias da América do Norte, é perder as colônias das Caraíbas. Essa é que é a grande preocupação.

O açúcar.

E porque há, entre os colonos da América do Norte, uma grande ideia que é tentar arranjar maneira de ficar também com as colônias das Caraíbas. A riqueza estava nas colônias das Caraíbas. Essa é que era importante e por isso é que a Inglaterra, quando finalmente perde as colônias da América do Norte, fica com as colônias das Caraíbas e acha que não fez assim uma coisa assim tão grave, porque em termos de receita fiscal, a receita estava nas colônias das Caraíbas e não nas ilhas da Jamaica, da Trinidad, Barbados, nas Bahamas. São cerca de 18 estabelecimentos. Alguns são ilhas, outros até são no continente, como aqueles que aqui falámos da Guiana Britânica há um tempo, mas aí é que estava verdadeiramente. O dinheiro estava aí. Mas os colonos estavam na América do Norte, mas esses a partir de 1783, que era quando o Reino Unido finalmente reconhece a independência dos Estados Unidos da América, esses depois ficam entregues a si próprios, mas sem grande prejuízo para as finanças britânicas.

E ouvi dizer que não se safaram mal.

Não. Deixaram foi de beber chá e passaram a beber café.

Exatamente. Termina assim esta edição inaugural de 2024, que o resto é história. Nós voltamos de novo para a semana. Até lá.

E o resto é história. É apenas pomada. Do incêndio em Poá, ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Ameaça, ameaça. Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.