Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este programa tem o apoio da GMS Store, o especialista Apple para a sua empresa. Encontre na GMS Store um bom negócio para a sua empresa. Temos soluções de equipamentos e campanhas de renting adaptadas ao seu negócio. Tenha a força da Apple a trabalhar consigo. O hardware, o software e os melhores serviços em conjunto para que tenha o poder e a flexibilidade de fazer o seu trabalho onde quer que esteja. Visite uma GMS Store, o seu especialista Apple. Mais informação em gmsstore.com.
E o resto é história.
É apenas fumaça.
Do incêndio de Pedra, ainda na zona do Chiado.
Quer transformar este país numa ditadura. Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, sejam bem-vindos a este episódio 181 de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares, já depois do Natal, com muitas gramas no bucho a mais.
Não vamos falar de coisas tristes.
Não, mas vamos falar de coisas alegres e de medicina.
Tristes, obviamente, referi-se ao peso.
Só o peso. Alguém que nos tratou da saúde e que nasceu há 200 anos. Foi há 200 anos, mais precisamente a 27 de dezembro de 1822, que nasceu uma daquelas pessoas tão importantes, mas tão importantes, que o seu apelido é hoje um adjetivo. Isto geralmente é mesmo sinal de grande importância. O adjetivo é pasteurizado, dizemos nós do leite e de outros alimentos que passaram por um processo que elimina os micro-organismos, que podem prejudicar gravemente a nossa saúde. Pasteurizado, claro, deriva de Louis Pasteur, provavelmente o homem cujas descobertas e criações mais vidas salvaram em toda a história da humanidade. E acho que não estou a exagerar. O cientista francês é o pai da microbiologia e ao descobrir que estamos rodeados de bicharada invisível e que esses micro-organismos são os responsáveis por inúmeras doenças, Pasteur descobriu também que eles podem ser eliminados através de métodos como a pasteurização ou a esterilização, graças à qual se passaram a ferver os instrumentos cirúrgicos e os médicos passaram a ter cuidados com a higiene, ou então as vacinas, tendo sido o próprio Pasteur a desenvolver uma das mais importantes de todas na altura, foi a vacina contra a raiva. Portanto, a compreensão do que é uma doença, as formas de a combater e tudo o que hoje é a higiene e a saúde pública, foi construída em cima do trabalho deste cientista francês extraordinário. Rui, este não é um programa propriamente de divulgação científica, mas o impacto de Louis Pasteur é tão significativo que tenho a certeza que ele marca a própria história como um todo. Estou certo? Isto não foi um exagero. É o homem que mais vidas salvou, provavelmente, ao longo da história da humanidade.
Estás certo, sim. Acho que é muito difícil exagerar a importância histórica do Louis Pasteur. Nasceu em 1822, morreu em 1895. Ele era um químico.
Não era um médico.
Não era um médico, era um químico formado na Escola Normal Superior de Paris, que até há pouco tempo eram as grandes escolas, era o topo do ensino superior francês, não eram as universidades, eram estas grandes escolas. Portanto, ele é formado numa das grandes escolas e depois torna-se professor de química na Universidade de Estrasburgo e depois também ensina noutras universidades. Mas ele vai ficar associado à medicina através da microbiologia, embora, curiosamente, nalgumas interpretações do trabalho dele, seja considerado que as suas descobertas mais importantes, mais geniais, são mesmo no campo da química e não da microbiologia. Curiosamente, os cristais, etc. Não me peçam para explicar essas coisas, mas aparentemente há quem defenda essa versão do trabalho de Louis Pasteur. Como disseste, o que Pasteur fez não foi apenas encontrar remédios para doenças, foi de alguma maneira explicar o que são as doenças, o que são as infeções. Em meados do século XIX, o problema da saúde pública e da saúde individual não era apenas das pessoas não saberem como tratar as doenças, era não conseguirem identificar, não saberem, em muitos casos, o que era a doença e sobretudo, qual era a origem da doença.
Havia as teses mais absurdas.
Isso, aliás, é uma das razões pelas quais quando as pessoas perguntam: "De que é que morreu o rei fulano tal?" Às vezes perguntam: "De que é que morreu o rei tal?" E não é claro, porque as fontes às vezes têm descrições de sintomas que não se percebe a que doença é que podia corresponder. Portanto, Pasteur, com a sua teoria da origem bacteriológica de muitas doenças, revolucionou verdadeiramente a medicina ao revolucionar a maneira como os médicos olhavam para as coisas.
Foi o fundamento de tudo.
Eu dou uma nota apenas para se perceber a importância disto. Pasteur casou em 1849, teve cinco filhos, mas só dois é que sobreviveram até à idade adulta. E dos três que morreram, um deles morreu com nove anos, o outro com 12. Morreram ambos de tifoide. Uma doença causada por uma bactéria.
Certo.
Isto é precisamente naquela que iria ser a área de investigação do pai. É absolutamente impressionante ver as estatísticas de óbitos Óbitos do século XIX. Hoje, a maior parte das mortes é causada por doenças degenerativas, cancros, problemas cardíacos, e ocorre em idades avançadas. Esta é a ideia da doença e da morte que nós hoje temos. Ora bem, no século XIX, a maior parte das mortes têm causas exógenas, são infecções bacteriológicas, uma grande parte delas, e ocorrem sobretudo na infância. A maior parte dos mortos eram crianças com menos de um ano de idade e por infecções que podiam ter sido evitadas com higiene, mas que não se sabia que a higiene era importante. Aliás, nem se sabia bem em que é que consistiria exatamente essa higiene. É esse mundo que Pasteur transforma completamente, o mundo em que morreram dois dos filhos dele. Quer dizer, 100 anos depois, aqueles filhos não teriam morrido. É basicamente isso. Pasteur começa a mudar isso através dos seus estudos de laboratório sobre fermentação. Curiosamente, ele inicialmente não está associado à medicina propriamente dita, mas está associado à agricultura e à criação de gado. São os produtores de vinho, são os criadores de gado que contactam este químico para perceber como evitar determinados problemas da fermentação do vinho, como evitar doenças que atingem animais, como, por exemplo, a cólera das galinhas, que era uma coisa que matava imenso. E é aí que ele começa a perceber qual é a origem, porque não é clara qual é a origem. Há quem ache que é o ar.
Os maus ares.
Os maus ares. Não, ele identifica estas partículas que estão no ar, estes micro-organismos. Defende isso contra outros cientistas que na época rebatem isto, acham que ele não está a acertar, que é um disparate o que ele está a dizer, e ele insiste. E depois, ao mesmo tempo, vai descobrindo maneiras de prevenir essas doenças.
Coisas tão simples como desinfetar os instrumentos numa mesa de cirurgia.
A quantidade de vidas que isso deve ter poupado. Quando ele diz: "Desinfetem as mãos e os instrumentos."
E fervam.
Por exemplo, fervendo. Fervam o leite.
Uma coisa que hoje é tão óbvia.
Mas é preciso pensar que isto parecia um grande disparate. "Lavar as mãos, que diferença é que isso faz?" Há aquela história, acho que já aqui falei, do Semmelweis, um médico em Viena, que também, antes de Pasteur, recomendou a lavagem das mãos aos médicos que trabalhavam num hospital onde se faziam partos e ao mesmo tempo onde se faziam autópsias. Eles vinham da sala de autópsias para a sala de partos e a percentagem de mortes das mulheres que iam lá ter filhos era enorme. Ele disse: "Experimentem lavar as mãos para ver." E toda a gente se riu dele. Toda a gente achou o Semmelweis que era um doido, um louco. O que tinha a ver lavar as mãos? Que diferença é que isso fazia? Por quê? Porque Semmelweis tinha se apercebido de uma relação, não a conseguia explicar. Ele não tinha explicação para a importância de lavar as mãos. Pasteur tinha uma explicação. A partir da sua teoria sobre as origens das doenças, conseguia dizer: "Desinfetem as mãos, porque as doenças vêm destes micro-organismos." Ele também, a partir da década de 1870, tem uma outra intuição, que é esta ideia da possibilidade de usar bactérias enfraquecidas para criar imunidade nos organismos que depois venham a ser infectados com essas bactérias. O princípio da vacina. As vacinas já eram conhecidas, o princípio da vacina já era conhecido desde o fim do século XVIII, por exemplo, a varíola, mas esta ideia de enfraquecer a bactéria artificialmente, porque isso é o método que ele desenvolve, isto é, de enfraquecer, através de vários procedimentos, de maneira a criar uma vacina, é de facto algo de que ele também é pioneiro. E em 1880, ele está tão confiante que numa comunicação que ele faz à Academia das Ciências em Paris, ele diz que o seu propósito é encontrar vacinas para todas as doenças que afligem a humanidade. É isso que ele propõe.
Como projeto.
E em 1885, cinco anos depois, tem um sucesso decisivo com uma vacina contra a raiva, que ele experimenta em 1885 num paciente, uma criança, que tinha sido mordida por um cão raivoso. Curiosamente, lembrar, Pasteur não era um médico e portanto ele desenvolveu a vacina, mas não pôde dar a injeção na criança. Teve de ser um médico a fazer isso, com ele a orientar, a dirigir. O que isto fez? Isto, para começar, deu logo à medicina um poder que de facto a medicina nunca tinha tido até então. Os médicos nunca tinham tido este poder de verdadeiramente perceber a causa das doenças e poder evitar essas doenças. Isto é um poder novo que Pasteur está a começar a dar à medicina. Ainda falta muita coisa, ainda faltam os antibióticos, essas coisas do século XX, a penicilina e isso tudo, ainda falta isso, mas é aqui, nestes anos 1870 e 1880, que de repente se começa a perceber que sim, isto pode Além dos paliativos, de cuidados paliativos. De repente pode haver aqui uma frente mesmo contra.
E há, naturalmente, um recuo do sobrenatural, não é?
Porque até então a maneira como as pessoas lidavam com a doença, e até era uma maneira que fazia algum sentido, uma vez que as outras não resultavam muito bem, era apelando à intercessão de seres sobrenaturais, santos, rezavam, coisas assim. O que Pasteur faz é criar um intercessor humano. As pessoas em vez de irem ao santo, podem ir ao médico. O médico agora também tem meios, não apenas o santo lá no altar, mas o médico também tem meios para evitar doenças. Isto é uma transformação que acaba por ter um grande impacto cultural. Até então, meados do século XIX, mesmo meados do século XIX, a preocupação principal de um crente ainda é a salvação da alma, a vida no além. É esse que é o grande objetivo da vida terrestre de uma pessoa, essa que parece fazer sentido ser o grande objetivo. Cuidar da sua alma para depois uma vida eterna. É aquilo sobre o qual a fé parece ter um efeito. Parece, estou a dizer, é uma questão de fé, mas parece. E Pasteur permite que o cuidado do corpo, no sentido de obter uma vida longa e saudável, começasse a ser mais importante do que a salvação da alma. Porque de repente é possível também cuidar do corpo e prolongar a vida de maneira que ela seja saudável. É com Pasteur que começa isso. E Pasteur contribui também para uma nova ilusão, que é a ilusão de que a ciência, esta ciência de base experimental, a ciência de laboratórios em que ele trabalha, aí podia estar a solução para todos os problemas e todas as outras formas que a humanidade até então tinha de lidar com esses problemas podiam ser consideradas irrelevantes.
Certo.
Essa era uma expectativa que na cultura ocidental há desde o princípio do século XIX. Já falei aqui várias vezes do Auguste Comte, aquele sábio francês que previu que a religião iria ser substituída pela ciência. Auguste Comte faz essa previsão, ou essa proposta, no princípio, nos anos 1820, 1830. Pasteur, 40, 50 anos depois, parece vir demonstrar que sim, é possível. O próprio Pasteur aparece como uma espécie de santo laico, uma figura. Aliás, na iconografia, ele é extremamente popular em França, mas em toda a Europa. Recebe todos os prêmios, é endeusado. Não é apenas um cientista, isso é uma coisa que depois escandalizou as pessoas que fizeram investigação sobre Pasteur. Os materiais que podiam ser usados para essa investigação, sobretudo os seus cadernos de notas, etc, ficaram reservados até aos anos 80 do século XX. Durante 100 anos, ninguém teve acesso. E quando tiveram acesso, a partir dos anos 80 e nos anos 90, os investigadores ficaram escandalizados com alguns dos hábitos deste cientista. Por exemplo, um dos hábitos que ele tinha era, por vezes, quando ele percebia que estava a chegar a alguma conclusão interessante, fazia comunicações em que dava dados errados sobre o que estava a fazer para enganar os seus colegas. Porque isto era uma concorrência, era uma competição, havia uma competição para as descobertas. Ele não era apenas um cientista, era já uma espécie de empresário da ciência para assegurar que era ele que descobria. Também às vezes quando publicava ou quando obtenha determinados resultados, também tinha uma certa tendência para se esquecer um bocado dos contributos dos seus colaboradores nos laboratórios para assumir uma espécie de lenda do gênio isolado que tinha descoberto as coisas por ele próprio. Depois, de repente, aparecia um ou outro colaborador dele dizendo: "Não, mas eu é que tive a ideia. Depois ele adotou, sim".
Era um empreendedor.
É mais um empreendedor da ciência, ou também é um empreendedor da ciência. E é um empreendedor da ciência numa época em que a ciência é também uma área de concorrência entre as potências europeias e especialmente, por exemplo, entre a França e a Alemanha. A Terceira República Francesa, o regime estabelecido em 1870, sai de uma derrota da França na guerra com a Prússia em 1870. E o objetivo da Terceira República Francesa é reerguer a França, tornar a França outra vez uma potência importante na Europa. E Pasteur faz parte, esse também é o lado interessante da história, dessa estratégia da Terceira República Francesa para engrandecer a França na Europa. Há uma grande promoção oficial pelas autoridades republicanas de Pasteur como o grande sábio europeu. Aliás, em concorrência com o sábio alemão, Robert Koch, que descobriu o bacilo da tuberculose, o bacilo de Koch, como nós dizemos. E há uma rivalidade enorme, Pasteur e Koch insultam-se um ao outro, os alemães acham que Koch é que é o grande descobridor, os franceses acham, obviamente, Pasteur, mas nitidamente Pasteur tem muito mais sucesso. E sobretudo tem sucesso não apenas pelo trabalho que fez, mas também pela maneira como as autoridades da França republicana criaram o culto de Pasteur. E isso é notório quando Pasteur morre. Há uma promoção enorme da sua memória. A França depois aplica no seu território vários programas de vacinação que têm Pasteur como uma espécie de patrono. É criado o Instituto Pasteur em Paris, em 1888. O grande sábio torna-se Nitidamente uma das grandes referências desta cultura europeia e é uma maneira dos vários países também concorrerem entre si, não apenas através de grandes generais, grandes artistas, mas também de grandes cientistas.
Certo. E a partir daí criasse um entusiasmo científico.
Sim, há um grande entusiasmo.
No sentido em que achavam que resolviam os problemas da humanidade.
Exato, a ciência era a resposta para tudo, tinha resposta para tudo.
Bom, nós não temos resposta para tudo, mas voltaremos na segunda parte com uma tentativa de resposta a propósito de um outro grande vulto do século XIX.
Mais uma vez francês.
Mais uma vez francês e também autor de uma obra muito impressionante, mas num outro campo. Até lá. Muito bem, cá estamos nós de volta a esta segunda parte de "E o Resto é História". Continuamos no século XIX, continuamos em França e também continuamos a celebrar efemérides. Mas desta vez não de um cientista, mas de um livro. Foi há 160 anos, em 1862, que começou a ser publicada uma das obras literárias mais marcantes de todos os tempos: "Os Miseráveis". O longo épico de Victor Hugo, dividido em cinco volumes, 48 livros, como se chamava, partes, 365 capítulos e cerca de 1900 páginas na sua versão original, que compõe um dos mais profundos retratos da sociedade francesa, sobretudo da primeira metade do século XIX, acompanhando a atribulada vida de Jean Valjean e das personagens que o rodeiam. "Os Miseráveis" vive hoje em livro, mas também no cinema e na televisão, com adaptações recorrentes, além, claro, de um famoso musical, que ele próprio também já teve várias versões. Bem, não sei se será a obra literária mais adaptada de sempre, não encontrei essas contas, mas só filmes são mais de 60. Só filmes. E, portanto, se não for a mais adaptada de sempre, anda lá certamente muito perto. Rui, qual foi a importância, na altura, em 1862, do romance "Os Miseráveis" e por que continuamos a falar dele em 2022?
Bem, nós hoje estamos mesmo de visita ao Panteão da mitologia do século XIX. Depois do grande cientista, temos agora o grande escritor. E um escritor que não é só valorizado pelas suas competências propriamente literárias, mas pelas suas capacidades de visionário sobre temas sociais e morais, uma espécie de profeta bíblico em versão laica. E era isso que o Victor Hugo era em França há 160 anos, quando publicou "Os Miseráveis". Ele não estava em França nesta altura, estava exilado, porque ele discordava do regime político que então existia em França, desde 1852 que a França era outra vez um império, como tinha sido no princípio do século XIX, com um sobrinho de Napoleão Bonaparte, chamado Luís Napoleão, que era como imperador com o nome de Napoleão III. Era um regime autoritário, aliás, tal como tinha sido o império de Napoleão I, e o Victor Hugo preferia o exílio. Estava exilado numa das ilhas do Canal da Mancha, uma ilha britânica, Guernsey. Ele era, ao mesmo tempo, a grande voz da oposição a Napoleão III e ao chamado Segundo Império. E depois era também o campeão de uma quantidade enorme de causas na Europa, como a abolição da pena de morte, a abolição da escravatura e também a formação dos Estados Unidos da Europa. Ele é um dos grandes entusiastas da ideia dos Estados Unidos da Europa.
Um humanista.
Sim, é esta grande figura, é este profeta, o campeão. Ele em 1862 tinha 60 anos e já era uma celebridade literária há muito tempo. Portanto, ele não era um autor desconhecido, era um autor muito conhecido. Na juventude tinha sido uma das grandes figuras do romantismo francês das décadas de 1820, 1830. Autor de versos que imensa gente conhecia, de romances imensamente populares como a "Notre-Dame de Paris", que era tão popular como "Os Miseráveis". É um romance de 1831, portanto, 30 anos antes já ele tinha tido um sucesso gigantesco com este romance que se passava na Idade Média. O Victor Hugo, nessa altura, estava mesmo no ambiente romântico, recuperação da Idade Média, tal como tinha feito Chateaubriand, Walter Scott, etc., que eram os grandes modelos dele. E em 1862, curiosamente, "Os Miseráveis" são publicitados pelo seu editor como a "Notre-Dame de Paris" do mundo contemporâneo.
Era a linha de publicidade.
Nos "Miseráveis", Victor Hugo ia fazer para o mundo contemporâneo o que tinha feito para a Idade Média na "Notre-Dame de Paris". Isto é, mais uma vez, popularizar, estudar, recriar, imaginar uma época e torná-la familiar para os seus leitores. Ele estava exilado, mas os seus livros e escritos eram recebidos em França.
Escrevia nos jornais.
Sim, ele publicava nos jornais, publicava panfletos, às vezes eram publicados na Bélgica, mas em francês e eram introduzidos em França. E "Os Miseráveis" em 1862 têm esse sentido também. É um livro que vai um pouquinho contra a corrente. Aliás, contra a corrente literária e contra a corrente política, contra a corrente econômica, contra uma quantidade de correntes. É interessante. Ele não foi a favor da moda em 1862, foi contra. E por quê? Esta era uma época, em 1862, é a época de muito otimismo na Europa Ocidental. É a época que os britânicos conhecem como The Great Victorian Boom, uma grande época de prosperidade econômica Que está associada à expansão dos caminhos de ferro na Europa, grandes investimentos, grandes obras de caminhos de ferro e a abertura comercial. É uma época de liberalismo econômico, é a grande época liberal em termos econômicos na Europa, incluindo o Império Francês, também se está a abrir relações com a Inglaterra. É uma época que alguns historiadores chamam de época da primeira globalização contemporânea. No meio deste otimismo, as cidades estão a ser transformadas, estão a se construir novos edifícios, novos bairros, novos apartamentos com novas comodidades, etc. Há um grande fascínio com a tecnologia. Esta é a época em que Julio Verne está a escrever os seus romances na antecipação científica. É a época também que Pastor está, porque está um grande otimismo, isto vai tudo correr bem. É o século do progresso, os anos 1860. E o que Victor Hugo vem fazer no meio disto tudo? Vem lembrar os pobres, os excluídos, aqueles que ficaram para trás, aqueles que não têm lugar, aqueles que foram proscritos. Tudo simbolizado na figura do Jean Valjean, precisamente aquele que não pertence a lado nenhum, como ele diz, não tem família, não tem ninguém, vive anônimo na cidade, à margem, perseguido pela polícia, excluído. De repente, Victor Hugo vem escrever sobre uma coisa que não está no ar do tempo. É verdade que o romance é publicado em 1862, ele tinha começado a escrevê-lo antes e tinha-o quase pronto em 1848, quase 14 anos antes. Tinha interrompido em 1848, há uma revolução em França, em 1848, ele envolve-se muito nessa revolução, suspende o romance e depois vai pro exílio, não lhe pegam, e é em 1861, 62 que acaba o livro. Nota-se muito, e aí é quando ele vai contra a corrente literária, nota-se muito que aquilo é um romance publicado em 1862, mas que tem um sabor muito anos 1840. É isso que Flaubert e Baudelaire, que são as grandes figuras das vanguardas da modernidade literária no fim dos anos 1850, 1860 em França, acham isso uma coisa lamentável. Uma coisa sentimental, forçada. Os miseráveis achavam velho. Os miseráveis. Uma coisa velha. Lembrava muito os folhetins que tinham tido uma grande voga nos anos 40, portanto 20 anos antes, como "Os Mistérios de Paris", do Eugène Sue, de 1842, 43. Aliás, "Os Miseráveis" têm muitas cenas e muitos personagens que parecem muito inspirados nos Mistérios de Paris. Tinha sido também incrivelmente popular, uma coisa extraordinariamente popular, esta identificação dos pobres com a marginalidade urbana. É isso que o Eugène Sue tinha feito em 1842. Reparem que o romance é publicado em 1862, mas o tempo da narrativa não é o contemporâneo. O romance passa-se no princípio do século, entre 1815 e 1832. 50 anos antes. É, essas são as datas do romance, é um romance histórico, digamos assim. E isto é importante por quê? Porque Victor Hugo está a falar de uma Paris, uma cidade de Paris, que ou já não existe ou que está a deixar de existir. Uma das coisas que Napoleão III está a fazer é reconstruir Paris. E aquela Paris, que é a Paris d'Os Mistérios de Paris, do Eugène Sue, e a Paris d'Os Miseráveis, do Victor Hugo. Esta Paris, uma cidade antiga, popular, de bairros que eram mais ou menos labirínticos, digamos mais Alfama e Mouraria do que Avenidas Novas. Essa cidade está precisamente a ser substituída pelas Avenidas Novas, as grandes avenidas que Napoleão III está a abrir em Paris, destruindo os antigos bairros. Portanto, "Os Miseráveis" remetem para uma outra cidade, uma cidade que já está a deixar de existir. O romance tem, de fato, a estrutura do folhetim, tem os tais 365 capítulos, são tudo capítulos pequenos. São capítulos que correspondem praticamente, porque não foi publicado assim, "Os Miseráveis", mas podiam ter sido publicados nos jornais como, por exemplo, foram "Os Mistérios de Paris" do Eugène Sue, foram publicados em folhetins. As obras de Dumas. É, eram publicadas no rodapé da primeira página dos jornais, vinha no fim, depois continuava. São capítulos não muito longos. Os personagens, as peripécias são típicas do folhetim, com encontros ocasionais, cenas que ficam em suspense para saber o que se vai conduzir. Mesmo a ação, uma parte da ação tem a ver com esses folhetins dos anos 1840, portanto, 20 anos antes. Por exemplo, a ideia do pária que se torna um homem rico. Isso é como o clássico "Conde de Monte Cristo". O "Conde de Monte Cristo", Alexandre Dumas, de 1846, é essa a história. "Os Miseráveis" têm também essa história, Jean Valjean, o forçado, o preso, depois aparece como um industrial rico em determinada altura. Temos um traço de intriga policial com o polícia, o Javert, sempre atrás do Jean Valjean, quase a apanhá-lo e depois não apanha, depois apanha. É um romance de mistério, em que só se percebe a verdadeira identidade de determinadas personagens mais tarde. É misterioso, está cheio de peripécias inesperadas. Agora caracteriza, por exemplo, a ficção televisiva era característica da ficção escrita. E, de alguma maneira, aquilo que o Victor Hugo faz com "Os Miseráveis" é o equivalente a uma grande série de televisão de hoje para os leitores da época. É dessa maneira que eles se relacionam com "Os Miseráveis", que tem um êxito absolutamente estrondoso em 1862. Logo em 1862 começa a ser traduzido para várias línguas na Europa. A primeira edição inglesa é de 1862, começa a ser traduzido mesmo antes ainda da edição francesa ter sido totalmente publicada. Portanto, há um interesse enorme.
Mas se ele apresenta uma Paris que já não existe e um grupo de pessoas que estava sendo ultrapassado pelo progresso, de onde é que vem esse interesse?
Esse interesse vem de duas coisas. Primeiro, temos que fazer justiça ao autor. Estamos a falar de um dos maiores escritores, de facto, de todos os tempos. O livro é uma narrativa, mas depois está cheio de digressões ensaísticas sobre quase tudo. Aliás, como "Os Mistérios de Paris" do Eugène Sue também era a mesma coisa. Mas isso inclui reflexões extraordinariamente profundas e incrivelmente interessantes, por exemplo, sobre o calão parisiense, o argot. Ou sobre o sentido da história do século XIX, da Revolução Francesa de 1789, até meados do século. Por exemplo, no começo da segunda parte d'"Os Miseráveis", há um grande ensaio de 70 páginas sobre a Batalha de Waterloo, em 1815, e o significado histórico da Batalha de Waterloo. O Victor Hugo tinha sido filho de um general de Napoleão, e portanto aquilo para ele era uma história pessoal, uma história familiar, o fim do Império Napoleônico. Mas está não só incrivelmente bem escrito, mas muito bem pensado. E, por exemplo, os capítulos sobre as revoltas e os motins populares em Paris no princípio da década de 1830, em que ele tem uma espécie de teoria histórica dos motins populares, são absolutamente geniais como história. Qualquer historiador devia ser obrigado a ler aquilo. É um grande trabalho de história, não só de que ele tinha participado e tinha assistido, mas a interpretação e perceber porque aquilo acontecia e como é que aquilo acontecia. Ele tem isto. E depois mais uns capítulos à frente, escreve-nos aqueles combates de rua entre a população armada nas barricadas e os soldados do ponto de vista de um miúdo das ruas, que é o Gavroche. Ele consegue as duas coisas: um grande ensaio historiográfico, quase, e depois, ao mesmo tempo, uma ficção palpitante e dramática, muito melodramática. É um grande escritor. Está cheio de achados literários, de comparações, de ideias. Nos romances do Victor Hugo, nunca há banalidades. Ou antes, nós agora vemos banalidades no sentido de que as pessoas imitaram as coisas que ele disse, mas foi ele que as inventou primeiro. Isto é, frases, ditos, é uma fonte de citações espantosa, é tudo citações geniais, grandes rasgos. De facto, estamos a falar de um grande escritor. Temos de fazer justiça. Victor Hugo é, em primeiro lugar, um escritor muito maior do que o Eugène Sue. Eugène Sue era um escritor mais ou menos modesto, medíocre, embora muito eficaz, muito eficiente naquilo que fazia, mas Victor Hugo era, de facto, uma figura enorme. Essa é uma parte da razão. Outra razão é que o livro, de alguma maneira, captura a imaginação dos seus leitores, que são leitores de classe média e que veem no livro uma via para aceder àquilo que eles imaginam ser a realidade da vida das classes inferiores, da sua pobreza, de uma cidade grande como Paris. Aliás, "Os Miseráveis" no título joga com o sentido ambíguo dos miseráveis, "misérable", que é criminosos, miserável, mas também as vítimas, os coitados. Os miseráveis nesse sentido.
Também funciona em português.
Funciona em português e também funciona em inglês. Em inglês, por exemplo, há um grande problema com isso e, portanto, é por isso que geralmente o título do romance é traduzido como "Les Misérables", isto é, eles mantêm o título francês. Não conseguem arranjar uma expressão inglesa que tenha essa. Mas acima de tudo, aquilo a que o romance parece chamar a atenção é para o modo como estes pobres, através do seu sofrimento, podem ser também criminosos, infames, como alguns dos personagens são, mas também podem, através do seu sofrimento, adquirir uma espécie de grandeza moral que deve impressionar a burguesia no conforto em que vive. É o caso nitidamente de Jean Valjean, um ladrão, que depois se torna uma figura de arrependido, quase redimido, através da intervenção de um bispo, o bispo Myriel, a seu favor, num ato de caridade evangélica. O Jean Valjean tinha assaltado a casa do bispo, tinha roubado a prata, é apanhado pela polícia, que leva-o perante o bispo, e este bispo, que é uma figura evangélica, diz: "Não, eu dei a prata a este homem, fui eu que lhe dei a prata. Aliás, ele deixou estes dois castiçais, tome lá estes dois castiçais." Isso para Jean Valjean é a descoberta, é o momento em que ele se transforma. Como é que é possível este homem ter esta atitude? Ele próprio se vai transformar. Mas é Jean Valjean, este proscrito, este pária, que representa no romance Mais até quase do que o bispo, esta possibilidade de redenção. Portanto, "Os Miseráveis" ajuda à ideia de que ter uma consciência social para um indivíduo da classe média, ou seja, daqueles que vivem em conforto, que têm o rendimento assegurado, que são educados, que não têm esse problema nenhum, não implica só ajudar os pobres. Isso era o que mandava a solidariedade e o progresso no século XIX, mas também olhar para os pobres como uma entidade moral superior. Aliás, como ensinava a tradição cristã. Por quê? Porque era uma parte da humanidade que podia ser redimida através da sua dor, e Cristo tinha também sofrido. Portanto, eles sofriam também e era isso que os aproximava. Aliás, no evangelho está: os pobres são aqueles que se aproximam de Cristo, não os ricos. São os pobres. Este é que é o ponto: numa sociedade que está a enriquecer, Victor Hugo está a ver a sociedade que está a enriquecer através da tecnologia, da prosperidade económica, está a adquirir uma vida cada vez mais confortável. Victor Hugo está a chamar a atenção desta sociedade burguesa para não se deixem impressionar ou ficar dentro da maravilha das realizações tecnológicas, do seu novo conforto, das melhorias do nível de vida, mas olhem para aqueles que deixaram para trás. E olhem para eles não apenas para os recuperar, mas olhem para eles como o princípio de um outro tipo de vida, da vida daqueles que renunciam, como Jean Valjean faz no romance, renunciam à fortuna. Depois ele torna-se um homem rico, mas depois renuncia também a essa fortuna. Portanto, "Os Miseráveis" acabam por se tornar uma espécie da má consciência do progresso. E nesse aspecto, é como se Victor Hugo, em 1862, tivesse feito uma adaptação laica daquela que era a mensagem da Igreja no século XIX, que foi sempre a de criticar o progresso econômico e técnico como insuficiente para a humanidade. Isto é, a humanidade não podia ser só conforto, não podia ser só melhoria de nível de vida. Mas isso era uma mensagem profundamente cristã e Victor Hugo vem tornar essa mensagem cristã uma mensagem humanitária, digamos, isto é, já não necessariamente cristã, porque Victor Hugo tinha sido católico, mas quando publica "Os Miseráveis" ele é já um republicano, agnóstico até certo ponto, porque ele dedica-se ao espiritismo, mas sobretudo quer religião, sim, mas uma religião sem padres. Aliás, no fim, ao morrer Jean Valjean, alguém pergunta: "Quer um padre?" E o romance diz que ele apontou para cima e diz: "Já tenho um." Quer dizer, portanto, já há Deus que está com ele. E o romance acaba, aliás, com a figura de um anjo imenso de asas abertas à espera da alma de Jean Valjean. Portanto, o que está implícito n"Os Miseráveis" é que só passando pela renúncia, isto é, aceitando aquela miséria no sentido de despojamento já não e não de injustiça social, mas despojamento, é que nos podemos salvar através do desprendimento, através da entrega. E "Os Miseráveis", desse ponto de vista, sugerem uma coisa interessante, que é: uma grande parte da literatura do século XIX é, de facto, uma versão laica de narrativas e mensagens religiosas. E essa é que é a grande força dessa literatura. Numa época que está a secularizar-se, mas que precisa ainda dessas mensagens, é através de obras como "Os Miseráveis" de Victor Hugo que é possível recuperar essa ideia de que sim, o indivíduo só se pode salvar através da sua integração numa ordem superior ordenada por Deus, mas essa já não é a ordem dos padres, mas ainda é um objetivo. É isso que Victor Hugo, em 1862, vem corresponder. E é a isso que as autoridades republicanas francesas, falamos aqui da Terceira República Francesa a propósito de Pasteur, é a isso que as autoridades republicanas francesas também são sensíveis e, portanto, Victor Hugo torna-se uma grande figura da Terceira República Francesa e quando ele morre, em 1885, são-lhe feitos funerais nacionais. A procissão do funeral dele em Paris tem cerca de dois milhões de pessoas que vão ao funeral, ele é sepultado no Panteão e, portanto, ao lado do grande cientista, temos o grande escritor, este grande profeta laico, que é aquele que atualiza numa versão laica a mensagem tradicional do cristianismo.
Muito bem, e assim termina este último programa em grande de "E o Resto é História" de 2022. Nós voltaremos em 2023. Até lá e leiam "Os Miseráveis".
Este programa tem o apoio da GMS Store, o especialista Apple para a sua empresa. Encontre na GMS Store um bom negócio para a sua empresa. Temos soluções de equipamentos e campanhas de renting adaptadas ao seu negócio. Tenha a força da Apple a trabalhar consigo. O hardware, o software e os melhores serviços em conjunto para que tenha o poder e a flexibilidade de fazer o seu trabalho onde quer que esteja. Visite uma GMS Store, o seu especialista Apple. Mais informação em gmsstore.com.