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As armas e os barcos.
E o resto é história. É a terra promessa.
Do encento e palavra ainda na zona do Chiado. Que paz, meu filho. Falo por gosto. É que é raio, vinho vermelho, trovo do colho, fogo de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Entende?
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Olá, seja bem-vindo a mais esta edição de "E o Resto é História", com Rui Ramos e João Miguel Tavares. Nós na semana passada estivemos a falar da Palestina, desse povo, dessa terra e de como é que nós chegamos até aqui, ao mundo em que estamos a viver hoje. Na altura, ficamos ali por volta de 1945, quando acabava a Segunda Guerra Mundial e estávamos prestes a entrar na criação do Estado de Israel, mas como Moisés, ficamos à porta.
Ficamos à porta, sim.
Não chegamos a entrar bem lá. Rui, queres fazer um pequeno resumo da matéria dada, como bom professor que tu és?
Exato. Nas décadas de 1920, 1930, as relações entre judeus e muçulmanos no mandato da Palestina, sob governo britânico, já são péssimas. Há muita violência.
Também sobre os britânicos, não é? Violência cruzada.
Geralmente é uma violência entre judeus e muçulmanos, mas de vez em quando as duas partes tomam os britânicos como alvo. Portanto, os britânicos levam dos dois lados.
Levam dos dois lados e estão fortíssimos daquilo.
Estão absolutamente desesperados para sair de lá, até porque a manutenção da ordem no mandato da Palestina, os britânicos percebem que exigiria o reforço da presença militar britânica na zona. No fim da Segunda Guerra Mundial, o que os soldados britânicos querem é ir pra casa, não lhes querem arranjar mais uma zona de conflito, de guerra, onde estão sujeitos a atentados de um lado e do outro, é uma coisa muito inviável. Aquilo que se está em presença na Palestina já não são propriamente duas populações, mas são duas sociedades completamente diferentes. Uma sociedade muito secular, moderna, instruída, que é os judeus, e uma sociedade mais tradicional, mais religiosa, que é a dos muçulmanos. É muito difícil começar a conceber como é que essas duas sociedades podem coexistir harmoniosamente no mesmo Estado. E é aí que as Nações Unidas vão fazer uma proposta.
Mas em relação aos palestinianos muçulmanos que lá estão, mesmo nesse momento, depois da Segunda Guerra Mundial, existe já a reivindicação de um Estado palestiniano pela parte deles?
Não existe. Eles querem ser integrados na Síria. É isso que exigem, ser integrados na Síria ou reivindicam em nome da unidade árabe, uma grande unidade árabe.
Ok.
A proposta que as Nações Unidas fazem para esta zona, para o mandato da Palestina, é um bocadinho à imagem e semelhança do que se está a fazer noutras regiões do mundo, onde há também uma retirada das autoridades europeias e há várias comunidades étnico-religiosas que disputam o poder. Por exemplo, no subcontinente indiano, a Índia britânica divide-se em três nesta altura, Birmânia para os budistas, a Índia para os hindus e o Paquistão para os muçulmanos. O Paquistão, que nessa altura ainda incluía o Bangladesh também como parte. A receita para o mandato da Palestina é essa: vamos criar dois Estados, já falamos aqui disso, um Estado para os judeus e um Estado para os muçulmanos ou para os outros que não são judeus, porque inclui também os cristãos.
A minoria cristã ficava do lado...?
Ficava espalhada. Em 1947 há 1 milhão de árabes muçulmanos, há 630 mil judeus no mandato da Palestina e há 143 mil cristãos. A maior parte dos cristãos, como eles falam árabe, tendem a ser integrados, tratados com os não judeus, porque os judeus começam a falar hebreu nesta altura, nos anos 20 e 30, tentam desenvolver uma língua própria que é o hebreu.
Mas isso quer dizer que no final dos anos 40 a proporção era essa, só de 1 milhão de muçulmanos para 630 mil judeus?
Sim, essa é a proporção no mandato da Palestina em 1947. A solução dos dois Estados não é muito satisfatória para nenhum dos lados, porque aqueles que querem reconstruir o Estado de Israel, querem reconstruir o antigo Estado de Israel. Isto é, gostavam de ter a terra toda, incluindo a Jordânia, para fazer o antigo Estado de Israel. Os muçulmanos, por outro lado, querem Integrar-se na Síria, querem integrar-se numa grande nação árabe que esperam que venha a resultar da retirada dos europeus, dos franceses e dos britânicos daquela zona. Portanto, também não querem ter ali um enclave judaico. Mas apesar de tudo, são os judeus que aceitam a solução da separação do mandato da Palestina em dois estados. E em 1948 proclamam, quando acaba o mandato da Palestina, isto é, quando acaba a autoridade britânica no mandato da Palestina, os judeus proclamam o Estado de Israel naquelas fronteiras que em princípio devia ser aquela atribuída pelas Nações Unidas, e não há nenhuma proclamação de um Estado árabe da Palestina. Por quê? Porque os governos dos países árabes, que entretanto se tinham tornado independentes, não reconhecem a partilha do mandato da Palestina.
Mas expliquem lá melhor qual era a intenção das Nações Unidas. Portanto, há um país chamado Israel que começa a partir-
As Nações Unidas partem do fato de haver 1 milhão de muçulmanos e 630 mil judeus. A ideia é: nenhum deles vai poder tirar os outros daquela terra. Mas também não conseguem viver juntos. E, portanto, vamos dividi-los em dois estados. Vamos criar dois estados, um para judeus, outro para muçulmanos, no mandato da Palestina. Portanto, vamos dividir o mandato da Palestina, não vão dividir a meio. Cada um dos estados é composto de três partes, fazem uma espécie de xadrez, de maneira a toda gente ter um Estado ali naquela zona.
Mas era necessário já mudar pessoas de sítio.
Sim, mudar de um sítio, mas a base daquilo é: eles nunca vão poder viver juntos no mesmo Estado. Isto é impossível. A violência, os confrontos dos anos 20 e 30 não permitem imaginar que eles possam viver juntos já. E, portanto, vamos separá-los.
Sim, mas o que eu estava a perguntar é: quando há Israel, existe um governo de Israel, não é? E portanto, era suposto, ao mesmo tempo, existir um governo da Palestina.
Que não aparece, porque são os estados árabes, o Líbano, a Síria, a Jordânia, o Egito, que não reconhecem a separação do mandato da Palestina e passam naquele momento a prioridade a eliminar o Estado de Israel. Nalguma propaganda, deitar os judeus ao mar. E é isso que fazem os exércitos árabes, já falamos aqui dessa história, invadem o mandato da Palestina, tentam destruir Israel, há o confronto, há a guerra de 1948, 49, há grandes deslocações de população. Cerca de 700 mil árabes saem de Israel. Aliás, não saem todos logo em 1948, saem também nos anos seguintes. Há outros tantos judeus, 600 ou 700 mil judeus que saem dos países árabes e que vão para Israel. Portanto, há uma troca de populações, como aconteceu na Europa no fim da Segunda Guerra Mundial também, trocas de populações, ucranianos, polacos e alemães, já falamos aqui disso, são transferidos através das fronteiras. E o que acontece? Também já falamos disso. Os refugiados judeus são integrados a Israel, isto é, tornam-se cidadãos de Israel. O que acontece é que os refugiados árabes que saem do território de Israel no mandato da Palestina não são integrados em nenhum Estado árabe. Aliás, exceto na Jordânia, já vou falar disso. Ficam a cargo como refugiados de uma agência das Nações Unidas, que é criada para tratar deles.
E que dura até hoje.
E que dura ainda até hoje. Portanto, entre 1948 e 1967, a Faixa de Gaza e a margem ocidental do Jordão ficam sob controle, respetivamente, do Egito e da Jordânia, e nenhum deles promove um Estado árabe da Palestina. Isto é, nenhum deles promove aquilo que estava previsto para as Nações Unidas, que era a proclamação de um Estado árabe da Palestina. Por duas razões: primeiro, porque proclamar um Estado árabe na Palestina seria reconhecer a divisão dos dois Estados, e isso eles recusam. Eles acham que não deve haver dois Estados no mandato da Palestina, deve ser tudo um Estado árabe, não deve haver dois Estados. E depois, porque ambos, tanto a Jordânia como o Egito, fazem tensões de anexar o mandato da Palestina, porque essa é a ideia, anexar. A Jordânia faz isso em 1950, anexa a margem ocidental do Jordão, e portanto os árabes aí residentes passam a ser cidadãos da Jordânia, e são até 1988, portanto, são cidadãos do reino da Jordânia. Daí nós chamarmos Cisjordânia à margem ocidental.
Até 1988, por quê?
Porque é em 1988 que finalmente a Jordânia diz: "A margem ocidental não é parte da Jordânia". E a população deixou de ser, deixaram de ser cidadãos da Jordânia. Mas nós ainda chamamos Cisjordânia à margem ocidental do Jordão, porque originalmente a Jordânia é a Transjordânia.
Portanto, a Cisjordânia, para enquadrar isso para os nossos ouvintes, a Cisjordânia como nós a conhecemos atualmente, muito falada, foi deixada pela Jordânia em 1988.
A Jordânia renunciou ao seu governo, à soberania sobre a margem ocidental do Jordão, que tinha adquirido em 1950. Aliás Parte, também já falamos disso-
Mas Israel não reivindicou esse território.
Não, esse território foi um território que ficou sob autoridade da Jordânia em 1948, 49, e tal como Gaza, ficou sob a autoridade do Egito.
Eu estava a dizer a partir de 88.
Não, a partir de 88. Reparem, a Jordânia, em 88, há 20 anos que não administrava aquele território, que desde 1967 está ocupado, mas mantinha a dizer que era um território jordano ocupado por Israel. Em 1988, disse: "Não é um território jordano". Mas reparem, a Jordânia é uma unidade política especial, uma vez que uma grande parte da população é de árabes do Mandato da Palestina. Dois terços da população da Jordânia são de árabes do Mandato da Palestina. A Transjordânia tem muito pouca população e, portanto, a maior parte da população são os árabes do Mandato da Palestina. Portanto, basicamente, em determinados momentos, parece o Estado árabe da Palestina é a Jordânia incluindo a margem ocidental do Jordão e há políticos israelitas que às vezes referem: "Não, os chamados palestinianos já têm um Estado, que é a Jordânia". Muitos árabes ficam em Israel, que lhes concede cidadania. Isto é, apesar de ser um Estado dos judeus, concede cidadania aos árabes que ficam, os muçulmanos que ficam.
Muçulmanos, não é?
São hoje 25% da população.
Mas por que uns permanecem e outros são expulsos?
Não é expulsos. Há uns que fogem. Há gente que foge, há gente que é expulsa. Não, há gente que é expulsa mesmo. A maior parte da população foge. Há gente, depois, que é expulsa estrategicamente, porque querem controlar aquele vale, querem controlar aquela colina, expulsam a população que lá está, porque é uma ameaça militar. Portanto, há expulsões dessas. Há outra população que naturalmente foge. Perante uma guerra, as pessoas fogem. E há outros que ficam, porque, por exemplo, há partes do território em que não há combates. Os judeus afirmam imediatamente a sua autoridade e, portanto, a população árabe lá não reage. Desde que fique quieta, fica lá. As situações são muito variadas naquela zona e hoje os árabes israelitas são 25% da população de Israel. Um quarto da população de Israel são árabes israelitas. Reparem, até a guerra de 1967, os árabes do Mandato da Palestina estão divididos entre árabes israelitas, cisjordanos, portanto, cidadãos da Jordânia, na margem ocidental do Jordão, e árabes da República Árabe Unida. Por quê? Porque o Egito, em 1948, que está em competição com a Jordânia, declara toda a Palestina um protetorado egípcio. Portanto, diz: "Toda a Palestina, incluindo Israel, é um protetorado egípcio". Estabelece um governo da Palestina no Cairo. Há um governo da Palestina no Cairo, que é um protetorado do Egito. Em 1953, a política muda, o governo da Palestina no Cairo é dissolvido e em 1959, a parte do território do Mandato da Palestina que é controlada pelo Egito é anexada, porque tem Gaza, é anexada ao Egito no quadro da República Árabe Unida. O Egito tinha se unido à Síria para fazer a República Árabe Unida e, portanto, Gaza passa a fazer parte da República Árabe Unida e pressupõe-se que no dia em que a República Árabe Unida conseguir eliminar Israel e atirar os judeus ao mar, como eles diziam na altura, essa parte também vai ser integrada na República Árabe Unida. Aliás, a ideia da República Árabe Unida, de Nasser, do líder egípcio, é incluir todos os países árabes. Portanto, a ideia é formar um grande Estado árabe que inclui também o antigo mandato da Palestina.
E o que faz fracassar esse plano é mais uma guerra.
É mais uma guerra, a guerra de 1967, já falamos aqui dela. A luta contra Israel, nesta altura, até 1967, é sobretudo protagonizada, dirigida por Estados árabes. Pelo Egito, sobretudo, pela Síria, pelo Líbano, pela Jordânia menos, mas também. Portanto, são estes Estados que atacam Israel, que conduzem um conflito contra Israel. Em 1967, são todos derrotados na Guerra dos Seis Dias.
Portanto, Israel conquista a Cisjordânia, a Faixa de Gaza, os Montes Golã.
E a Península do Sinai.
Que entretanto devolveu.
Sim, o fracasso dos Estados Árabes aqui é também o fracasso do grande objetivo que até então tinha sido o objetivo que tinha inspirado a luta contra Israel, que é o pan-arabismo, o nacionalismo árabe, que é a constituição de um grande Estado árabe, um só Estado árabe. Portanto, há vários projetos. Eu já falei aqui da República Árabe Unida, que é uma união entre o Egito e a Síria, mas há vários projetos de união, entre a Jordânia e o Iraque. Eles estão constantemente a unir-se, a fundir-se, a constituir um governo só e depois a separarem-se. Mas a ideia, nesta altura, não é a de um Estado palestiniano, não é um grande Estado árabe que inclui também o antigo mandato da Palestina. Esse é o grande objetivo do nacionalismo árabe que anima as campanhas contra Israel até 1967.
Portanto, o que tu estás a dizer é que verdadeiramente a ideia de uma Palestina Independente de um Estado palestiniano independente surge após as derrotas de 67.
Surge como objetivo da luta contra Israel depois das derrotas dos Estados Árabes em 1967.
Mas essa é uma história que vai ficar pra segunda parte, porque entretanto aqui chegamos ao final do primeiro tempo, claro. Até já. Olá, seja bem-vindo a esta segunda parte de "E o Resto é História". Neste momento estamos em 1967, portanto Israel tem mais uma grande vitória militar e essa ideia de uma unidade árabe sucumbe.
Sim, pelo descrédito dos grandes líderes que animavam esse projeto, como é o caso de Nasser, que é o derrotado na guerra com Israel, e depois ele vem a morrer em 1970. Portanto, o nacionalismo árabe, que tinha sido o cimento político que constituía estes Estados árabes no Médio Oriente, fracassa no seu grande projeto, naquilo que tinha animado, que era a eliminação de Israel e a constituição como um primeiro ponto de partida para a constituição desta grande nação árabe no Médio Oriente, que viria desde o Atlântico até ao Golfo Pérsico, seria um grande Estado árabe. É essa a ideia de Nasser e dos outros líderes árabes.
É a partir daí que também começa a ascender a figura de Arafat?
É a partir daí que começa, no momento em que os Estados Árabes são desacreditados, de repente há um maior destaque para aquilo que tinha começado a surgir em 1964, 65, mas até já em anos anteriores, que eram organizações de árabes da Palestina que colaboravam na luta contra Israel. São organizações armadas baseadas nos chamados campos de refugiados. Estes campos de refugiados inicialmente são tendas, mas agora já em meados dos anos 60 começam a tornar-se, de facto, subúrbios pobres das grandes capitais árabes, com uma população deslocada, mas que vai construindo casas, continuam a chamar-se campos de refugiados, mas já não são propriamente tendas.
Já não são tendas, são bairros, não é?
São bairros, sim, uma espécie de bairros. Estas organizações armadas são os chamados Fedayeen, é assim que se chama. A OLP, a Organização de Libertação da Palestina, fundada em 1964, é uma espécie de frente destas muitas organizações, são cerca de oito organizações que fazem parte da OLP. A mais importante é a Fatah, que é a força principal. Fatah quer dizer vitória, mas é uma sigla também. O seu líder é Yasser Arafat, ou um dos seus líderes nesta altura é Yasser Arafat, que mais tarde se vai tornar também, em 1969, líder da OLP. A Organização para a Libertação da Palestina tem o apoio dos Estados Árabes, que começam a apoiá-la, alguns Estados Árabes. Por exemplo, eles aplicam taxas aos refugiados para financiar a Organização de Libertação da Palestina, portanto, é um sistema fiscal aplicado aos refugiados do mandato da Palestina para financiar estas organizações. E tem o apoio da União Soviética. A União Soviética aproxima-se dos Estados Árabes e sobretudo do Egito, na medida em que eles têm conflitos com o Ocidente e vão também apoiar estas organizações. E o apoio da União Soviética traz também o apoio dos partidos comunistas da Europa Ocidental e das organizações de extrema-esquerda da Europa Ocidental. Nos anos 60 e nos anos 70, por exemplo, as organizações de extrema-esquerda dedicadas à luta armada, como por exemplo o grupo Baader-Meinhof na Alemanha, organizações clandestinas e que têm apoio no Médio Oriente de organizações da OLP, que lhes dão treino nos campos de refugiados do Líbano e da Jordânia. Portanto, há terroristas do grupo Baader-Meinhof que vão fazer treino no Médio Oriente nestes campos de refugiados.
E os atentados também começam nessa altura?
Os atentados começam em Israel a partir de 1964, 65, portanto ataques não só a soldados, mas ataques também a civis, a escolas, autocarros começam a ser atacados. E há também operações de terrorismo fora de Israel. Por exemplo, desvio de aviões no Ocidente, ou ataques como em 1972, o ataque na Aldeia Olímpica de Munique durante os Jogos Olímpicos, em que a delegação israelita é atacada por um comando da OLP, o Setembro Negro, e uma série de atletas israelitas são assassinados nessa altura. Inicialmente, o objetivo da Organização da Libertação da Palestina é a eliminação de Israel, de acabar com o Estado de Israel, mas em nome da unidade árabe, isto é, de constituir esse tal grande Estado árabe. É um bocado sob a influência da União Soviética e das extremas-esquerdas ocidentais, com quem eles estabelecem uma boa relação, que os Fedayeen começam a assimilar a luta contra Israel à luta da descolonização nos antigos territórios dominados pelos europeus na África e na Ásia. Portanto, os Fedayeen começam a conceber o antigo mandato da Palestina como se o antigo mandato da Palestina tivesse sido um território colonizado por europeus E houvesse uma população de nativos que estivesse a reagir contra os colonos europeus e a tentar libertar-se dos colonos europeus. Os palestinianos seriam os nativos. Há teorias a fazê-los descender até dos cananitas da terra de Canaã, seriam os habitantes originais que estariam lá antes dos judeus, uns milhares de anos antes, e que estariam numa luta para expulsar aqueles invasores estrangeiros. Curiosamente, depois acrescentam que os cananitas teriam vindo da Arábia, eles não querem perder a sua relação com a Arábia, porque essa é uma relação que no mundo árabe é extraordinariamente prestigiosa, dizer que se vem da Arábia. Aquilo é um bocado contraditório, dizem que são os habitantes originais, mas depois dizem ao mesmo tempo que vieram da Arábia. Enfim, querem dizer que vieram antes dos outros. Os judeus vão dizer ao contrário, que foram eles os habitantes originais e que os árabes vieram depois, no século VII, uns séculos muito depois dos judeus estarem lá e terem sido expulsos de lá pelos romanos. Isto é a maneira como a história é manipulada por um lado e pelo outro. Cada um deles quer passar pelos nativos daquela região. "Nós é que somos os verdadeiros nativos, nós é que somos os índios, vocês são os cowboys". É um bocadinho assim que a discussão se faz. Mas o importante aqui é que a Organização de Libertação da Palestina adota na década de 60 esta mitologia da descolonização, dos movimentos de libertação da África e da Ásia contra o domínio europeu. Adota isso com o patrocínio da União Soviética e das esquerdas europeias. Mas verdadeiramente, a OLP e as organizações que compõem a OLP são um problema maior para os estados árabes onde eles estão sediados do que para Israel.
Por quê?
Por quê? Porque a começar pela Jordânia e depois no Líbano, a população de refugiados é bastante grande e as organizações armadas da OLP tornam-se uma espécie de Estados dentro dos Estados. Isto é, por exemplo, na Jordânia, eles têm um exército privado, a Fatah tem cerca de 20 mil homens armados na Jordânia em 1970. É um exército. É maior do que o exército jordano. Tem uma administração à parte, tem um sistema fiscal à parte.
Aquilo que nós há tanto vimos com a Hezbolah no Líbano. Havia uma situação semelhante na Jordânia.
É muito semelhante na Jordânia e depois vai haver no Líbano, antes do Hezbolah, com a OLP, quando a OLP vai para o Líbano. O que é que acontece? Em 1970, o rei da Jordânia diz: "Isto não pode continuar". Tem de se decidir quem é que manda neste país. E o exército jordano ataca a OLP. E há uma guerra civil entre setembro de 1970 e março de 1971, entre a OLP e o governo jordano. É uma guerra terrível, é o maior massacre de palestinianos até então cometido pelas tropas jordanas, que atacam os campos de refugiados tentando expulsar a Organização de Libertação da Palestina. Arafat, que é então já o líder da Organização de Libertação da Palestina, aceita sair da Jordânia. E vai para onde? Vai para o Líbano. O que acontece no Líbano? Exatamente a mesma história. A OLP torna-se uma força enorme no Líbano e a partir de 1975 há a guerra civil no Líbano. Por quê? Porque no Líbano o problema é tão grande como na Jordânia, porque os cristãos sentem que aquela presença do exército da OLP é uma maneira de desequilibrar um Estado, que era um Estado cristão, era o Estado cristão do Oriente Médio, de repente tornar-se um Estado muçulmano. E por outro lado, também nesta altura, os xiitas, aqueles que vão mais tarde formar o Hezbolah, mas que ainda não existe o Hezbolah, também veem os árabes da Palestina como uma ameaça, porque são sunitas e eles são xiitas e portanto também os atacam. É uma guerra, e já falámos aqui, uma guerra extraordinariamente complicada. A OLP domina o sul do Líbano, constitui uma espécie de Estado no sul do Líbano, onde forma um exército com tanques, com artilharia pesada, é quase verdadeiramente um Estado durante a guerra civil no Líbano.
E quem é nessa altura o principal apoio da OLP?
O principal apoio da OLP continua a ser a União Soviética.
Na altura ainda não havia Irã. Havia Irã, mas não havia ainda a revolução islâmica.
Não havia a revolução islâmica. E Israel, em 1982, decide entrar no Líbano para destruir este Estado da OLP no Líbano. Consegue, e a OLP tem de mudar mais uma vez de poiso. A OLP, o Arafat aceita sair do sul do Líbano, vai para a Tunísia. E quando vai para a Tunísia, o que acontece? A OLP começa a mudar um bocado de natureza, isto é, deixar de ser uma espécie de exército de libertação que está na fronteira com Israel para entrar em Israel e destruir Israel, e começa a dedicar-se sobretudo à diplomacia. Não só à diplomacia, mas sobretudo à diplomacia. Arafat, que se torna então o líder mais conhecido, com os seus óculos negros, com o seu lenço na cabeça, que se vai tornar depois extraordinariamente conhecido. Ele abre esta frente diplomática, que é conseguir que os Estados nas Nações Unidas reconheçam a OLP como representante de um povo palestiniano. Depois vai abrir uma nova frente Em 1987, na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, ocupadas por Israel, a chamada Intifada, uma sublevação das populações muçulmanas desses territórios contra Israel. Inicialmente é uma sublevação não violenta, portanto há greves, manifestações, e depois começa a se tornar violenta à medida que continua. Esta é a chamada primeira Intifada, que vai até 1991, 92. É uma Intifada que está baseada, aliás, numa mudança da própria população destes territórios, com o investimento em educação que as Nações Unidas lá fazem. Por exemplo, hoje em dia há 14 universidades na margem ocidental e três em Gaza, e 45% dos jovens na Palestina frequentam as universidades. É uma massa muito grande e são confrontados com o desemprego depois de diplomados. Não é só ali, há em muitos outros países também, mas de repente cria-se ali uma massa de uma população que é muito menos dócil do que a antiga população rural de camponeses. Que estava habituada a estar sob domínio de estrangeiros, otomanos, britânicos, e aceitava e ficava lá quieta nas terras. Esta é uma população de diplomados, gente urbana, instruída.
Frustrada.
Muito frustrada, muito desesperada e portanto está muito mais predisposta pro confronto violento com as autoridades da ocupação, uma vez que depois quanto mais confronto há, mais repressão há e as coisas alimentam-se uma à outra. A insurreição e irreverência provoca a repressão, a repressão vai provocar mais irreverência e a Intifada alimenta-se desta maneira.
Mas nessa altura a OLP já está a reivindicar, evidentemente, um Estado próprio, correto?
Não. A OLP ainda não identifica a Palestina com o Estado árabe de 1948, mas com todo o território entre o Mar Mediterrâneo e o Rio Jordão. Isto é, exige a destruição de Israel. Isto é um dos princípios básicos da Organização para a Libertação da Palestina. E claro, Israel, pelo seu lado, considera a OLP uma organização terrorista e diz que não tem nada que falar com a OLP, só fala com os Estados Árabes. Israel não reconhece a OLP, diz que o problema da Cisjordânia e de Gaza é pra ser resolvido com a Jordânia e com o Egito. Os seus interlocutores são os Estados Árabes, por seu lado, a OLP também não reconhece Israel, Israel é pra ser eliminado. O que faz aqui diferença, o que muda as coisas? É entre 1989 e 1991, o colapso e a queda da União Soviética. A União Soviética tinha sido a grande base de apoio das potências árabes e dos movimentos árabes contra Israel. Tinha levado essas potências árabes a ver Israel como um Estado imperialista, como agente do Estado do imperialismo americano no Médio Oriente, portanto, havia uma lógica. E claro, dava-lhes um grande apoio. A queda da União Soviética tira esse apoio. E o Egito já se tinha afastado desta guerra em 1977, 78. Há um processo de paz mediado pelos Estados Unidos entre o Egito e Israel. O Egito recupera o Sinai, toda a península do Sinai. Curiosamente, não recupera Gaza e nem está interessado em recuperar Gaza. Deixa Gaza para-
Para os palestinianos.
Para os palestinianos. Tal como depois em 1988, a Jordânia não vai recuperar, vai abdicar, renunciar à margem ocidental.
Ou seja, ninguém quer os palestinianos.
Ninguém quer os palestinianos. Esta nova situação leva a OLP a investir ainda mais na frente diplomática. Vai renunciar à luta armada. Vai começar primeiro a tentar negociar com os Estados Unidos e depois através dos Estados Unidos com Israel. O chamado processo de paz é muito complicado, mas em 1993, em setembro de 1993, vai dar finalmente origem aos acordos de Oslo, em que a OLP reconhece Israel, o Estado de Israel, diz que o Estado de Israel tem direito de existir, e ao mesmo tempo Israel reconhece a OLP como representante do povo palestiniano. O próprio Israel reconhece a identidade dos árabes da Palestina como um povo palestiniano. Já não são jordanos, já não são árabes do outro, são um povo da Palestina.
Eles podiam ter sido felizes pra sempre, por que não foram em 1993?
Em 1993, parece. Porque as fotos do Bill Clinton, o presidente dos Estados Unidos, a presidir ao aperto de mão entre o primeiro-ministro de Israel, o Yitzhak Rabin, e o Yasser Arafat, isso pareceu o fim de uma época. Finalmente, 1993 ia acabar aquilo que tinha começado mal no fim do século XIX, que em 1948 a proposta das Nações Unidas pra dois Estados não tinha resolvido, e agora finalmente parecia que ia ser resolvido com base na ideia ainda de 1948, da ideia de dois Estados. Isto é a ideia do mandato da Palestina dividido num Estado de Israel e o resto, Gaza e a Cisjordânia, como o Estado árabe da Palestina. É esta a ideia dos diplomatas americanos e ocidentais que facilitam os acordos de Oslo. É isso que parece inicialmente que Arafat aceita quando ele depois se desloca para a Cisjordânia e estabelece uma forma de governo da Cisjordânia, que é a Autoridade Palestiniana. Parece que é o começo do Estado Da Palestina naquelas fronteiras definidas no fim da guerra de 1948, 49, quais são os problemas? Há problemas dos dois lados. Há um problema do lado de Israel. Israel não confia na Organização para a Libertação da Palestina e insiste em querer controlar as fronteiras do Estado da Palestina, isto é, em manter uma linha militar nas fronteiras, por exemplo, pra não deixar entrar armas, pra eles não se armarem. Portanto, há uma desconfiança. Por outro lado, durante a ocupação israelita, a partir de 1967 alguns governos de Israel tinham deixado os judeus começar a instalar na Cisjordânia e em Gaza. Os famosos colonatos. Bairros judeus que se vão instalar, por exemplo, na Cisjordânia, e continua até durante o processo de paz. Na Cisjordânia há 35 mil judeus em 1984 e há 130 mil em 1995. Isto é, mesmo durante o processo de paz, uma mistura ainda. É preciso dividir as populações, é quase impossível dividir as populações. E não há apenas bairros judeus, os chamados colonatos, na Cisjordânia e em Gaza. Há movimentos judaicos extremistas que reivindicam Gaza e a Cisjordânia como parte do antigo reino de Israel. Isto é, que acham que aquilo deve fazer parte de Israel e que veem o processo de paz como uma traição a esse ideal. É como resultado disso que em 1995 Yitzhak Rabin, que tinha sido o primeiro-ministro de Israel que tinha feito a paz com Arafat em 1993, é assassinado por um extremista que acha que ele é um traidor. Um extremista judeu. Rabin tinha sido um dos grandes heróis militares de Israel, quer em 1948, quer em 1967. Não era de todo um traidor, mas este extremista acha que ele era um traidor que entregou a Cisjordânia e Gaza, terra de Israel, aos árabes. Depois há também a questão de Jerusalém. Israel reivindica Jerusalém como capital de Israel e a Organização de Libertação da Palestina também reivindica Jerusalém como capital do futuro Estado da Palestina. Em 1948, a solução das Nações Unidas era que Jerusalém não fizesse parte nem de um Estado, nem do outro. Era uma cidade internacional. Mas claro, nenhum destes agora, nem Israel, nem a Organização da Libertação da Palestina aceitam Jerusalém como uma cidade internacional. E finalmente, há grandes dificuldades do lado da Organização para a Libertação da Palestina, porque entretanto houve a revolução no Irã, em 1979, a revolução islâmica. A revolução islâmica vai inspirar novos movimentos islamistas no resto do mundo árabe, embora a revolução islâmica no Irã seja xiita, vai inspirar movimentos islamistas sunitas também com a ideia de recriarem a antiga comunidade islâmica como no tempo de Maomé. Um desses movimentos é o dos irmãos muçulmanos que começam a ter uma importância muito grande também entre os árabes da Palestina, através do Hamas e depois de outra fonte, a Jihad Islâmica da Palestina. Estes são movimentos que não aceitam o processo de paz. E que já são inimigos da OLP também? Da Fatah. Sim, que continuam ataques terroristas, que acham que a Fatah é um bando de traidores, quer dizer, que se rendeu a Israel, eles não aceitam, eles continuam a recusar a existência de Israel, dizer que a Fatah traiu. E Yasser Arafat começa a ter medo da força destes movimentos. Por quê? Porque é muito difícil para a Autoridade Palestiniana, sobretudo nestas condições em que está tão constrangida pela presença de Israel na Cisjordânia e em Gaza, é muito difícil para a Autoridade Palestiniana dar aos árabes da Palestina, quer a gratificação de um Estado completamente independente de Israel, quer também os proventos, isto é, empregos, bom nível de vida imediatamente, apesar das ajudas externas. E portanto, a mobilização através da luta contra Israel continua a ser um fator importante de criar capital político nestas comunidades. E o Hamas explora isso. E claro, Arafat, como bom político, não vai deixar pra o Hamas essa causa. Não pode deixar pra o Hamas essa causa, não se pode identificar totalmente com a reconciliação com Israel. Se o fizer, ele tem a noção de que vai perder apoio na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. E portanto, a OLP começa também a exigir condições para finalizar o processo de paz, que voltam a pôr em causa, na prática, a existência do Estado de Israel. E quais são essas condições? Começam a exigir o retorno dos refugiados do mandato da Palestina à terra de Israel. Os descendentes naquela altura também já. E esse é o problema, porque os refugiados não são apenas aqueles que fugiram em 1948 ou em 1967. As Nações Unidas dão o estatuto de refugiado a todos aqueles que são descendentes desses refugiados originais. Também é uma originalidade, também é uma coisa que acontece mais nenhum lugar. Os cerca de 700 mil refugiados de 1948 e dos anos seguintes são hoje 5,6 milhões Portanto, o regresso de 5 milhões de muçulmanos a um Estado que tem 10 milhões de habitantes, dos quais 7 milhões são judeus, de repente coloca-se mais 5 milhões de muçulmanos e aquele Estado, que era o Estado dos judeus, deixa de ser o Estado dos judeus. E nesta altura, os israelitas sabem o que aconteceu no Líbano, quer dizer, a maneira como aquele Estado cristão se tornou também um Estado muçulmano e os cristãos tiveram de começar a fugir do Líbano e portanto não aceitam, obviamente, o chamado direito de retorno dos refugiados ao antigo Estado de Israel. Dizem: "Não, podem retornar aos territórios que estão sob controle da autoridade palestiniana, mas não a Israel." E o que faz a OLP entre 2000 e 2005? A OLP lança a chamada Segunda Intifada, um segundo movimento de sublevação, desta vez armado, extraordinariamente violento, com grandes atentados. Morre imensa gente e acaba por destruir o processo de paz, basicamente até hoje. O processo de paz nunca mais recuperou, mesmo depois do fim da Segunda Intifada em 2005. Em 2005, Israel retira da Faixa de Gaza os colonatos, os judeus da Faixa de Gaza. E o que acontece é que o Hamas tira a Fatah e impõe-se na Faixa de Gaza, o que dá a ideia de como o apelo a uma atitude radical perante Israel continua a ter força, dadas as condições naqueles territórios de grande frustração, de grande desalento perante a situação. Há uma abertura e uma disponibilidade para mensagens cada vez mais radicais. Portanto, não augura nada de bom para a evolução que, para a maioria das pessoas, ainda continua a estar associada à solução de 1948 dos dois Estados.
Muito bem. E assim termina esta longa história da Palestina. Nós voltamos pra semana com novos temas. Até lá.