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E o resto é história. É apenas fumaça.
Dominando a palavra, ainda na zona do Chiado.
Quem faz um filho fala por gosto. É tudo pai, filho vermelho, troco de corpo, pouco de amor. Quer transformar este país numa ditadura. Entende? Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.
Olá, seja bem-vindo ao 38º episódio de "E o Resto é História". Esta edição de "E o Resto é História" está a ser transmitida pela primeira vez no dia 1 de abril, Dia das Mentiras. Portanto, parece uma oportunidade irrecusável para falar do papel da mentira ao longo da história e daquilo a que hoje chamamos fake news. A verdade é que, como todos sabemos, as falsas notícias têm uma grande e velha tradição. Rui, tendo em conta que hoje é o dia certo para lançar este desafio, vê lá se consegues abraçá-lo. Se tivesses de escolher uma grande mentira da nossa história, uma fake news impressionante, um facto totalmente errado que passou por verdadeiro e teve consequências importantes na nossa sociedade, qual é que escolherias? Ou seja, na tua opinião, qual é a maior mentira da história de Portugal?
Ora bem, deixa-me só dizer...
Eu sei que tu resistes a estas coisas do maior.
Não, não vou resistir, vou abraçar, como tu dizes. Vou abraçar. Nesta época de solidariedade, vamos abraçar mesmo as questões mais complicadas. Bem, deixa-me só começar por aí. Nós, às vezes, em relação ao passado, temos uma atitude esquizofrênica, que é: olhamos para os tempos que decorreram, por vezes, como tempos atrasados em relação ao nosso, mais bárbaros, menos civilizados. Falámos aqui disso, a maneira como a ideologia do progresso afeta a nossa visão do tempo e da história. Mas, por vezes, também olhamos para esses tempos anteriores como mais inocentes e como se toda a perversidade, toda a maldade, toda a astúcia fossem modernas, e não são. As notícias falsas, as fake news, como agora se diz, e os boatos não são uma invenção do nosso tempo, não são uma característica específica do nosso tempo, têm uma longa história e ao longo de várias épocas, todos aqueles que disputaram o poder, todos aqueles que estiveram envolvidos na política, souberam ou perceberam a utilidade que o rumor, o boato, a calúnia, a mentira têm na luta política e usaram-nas para infamar adversários ou para inventar factos que jogassem a favor dos seus argumentos ou dos seus objetivos. E um dos casos mais famosos da história de Portugal, de uma mentira útil, é o do golpe de Estado do Mestre de Avis, em Lisboa, em dezembro de 1383.
Ok. Nessa altura, ainda se dizia fake news em latim ou em galaico-português.
Exatamente. Devia-se dizer fake news numa outra língua.
Mas já se usava.
Já se usava. As fake news, mesmo que não tivessem esse nome, já se usavam. E o que é que acontece em dezembro de 1383? Portanto, só para lembrar os nossos ouvintes. O rei Dom Fernando tinha morrido, tinha uma filha, que era a sua sucessora, que estava casada com o rei de Castela. Mas a questão imediata, portanto, isso depois tem a ver com a sucessão ao trono de Portugal, mas a questão imediata é a do governo, quem é que fica com o governo. Quem ia ficar com a regência do reino durante aquele período de transição. E muito provavelmente, talvez se pressupusesse que iria caber à rainha, a rainha viúva, Leonor Teles. E um dos principais conselheiros da rainha, a quem, na prática, iria talvez caber a influência principal no governo, era o Conde João Fernandes Andeiro, que era uma pessoa das relações da rainha, muito estimado pela rainha, e que se esperava que, no caso de a rainha assumir no governo do país, naquela fase de transição, o papel de regente, de chefe do governo, este João Fernandes Andeiro, este conde, seria provavelmente a personagem mais importante. Ora bem.
O primeiro-ministro de outorga.
Uma espécie de chefe de governo, isto é, é o valido. Mas era uma espécie de chefe de governo. O Mestre de Avis, que vai ser o futuro rei Dom João I, está envolvido numa conspiração para tentar tirar a regência à rainha e provavelmente tomar ele o poder. Por quê? Bem, ele é filho do rei Dom Pedro, portanto era irmão do Dom Fernando, é filho bastardo, e é alguém que pode, por isso, por ser filho de um rei, aspirar a ser regente. E o golpe de Estado envolve um ataque no Palácio Real, onde os conspiradores esperam assassinar o Conde Andeiro. Isto é, matar o Conde Andeiro, a maneira de tomarem o poder. Aliás, já tinham posto a correr que o Conde Andeiro era amante da rainha, portanto, de maneira a criar um ambiente contra o Andeiro, contra a rainha Leonor Teles, teria traído o rei Dom Fernando, etc. Agora, claro, eles têm receio de serem imediatamente atacados ou pelos partidários da rainha ou mesmo pelos partidários do Conde Andeiro. Então pensam num estratagema para conter, para intimidar e para evitar uma grande reação dos partidários da rainha e do Conde Andeiro. E trata-se de usar o povo de Lisboa Isto passa-se em Lisboa, usar o povo de Lisboa para acorrer ao palácio, cercar o palácio e mostrar aos partidários da rainha e do Conde d'Andrade que se tentarem reagir ou contra-atacar, teriam de enfrentar uma multidão violenta.
Porque o Mestre de Avis era um homem popular.
O Mestre de Avis ia se fazer o homem popular. O Mestre de Avis está em contacto com alguns homens importantes da cidade, nomeadamente o antigo chanceler-mor do rei Dom Fernando, o Álvaro Pais, que é uma figura importante em Lisboa nesta altura e a combinação deles é a seguinte: no momento do atentado, quando o Mestre de Avis, à frente de um grupo de fidalgos, seus amigos, atacar o Conde d'Andrade, matar o Conde d'Andrade, eles, Álvaro Pais e um pajem do Mestre de Avis, iriam pôr a correr em Lisboa uma fake news, que era que o Mestre de Avis é que estaria a ser vítima de um atentado no Palácio Real.
Portanto, em vez de esperá-lo a matar, estava a ser morto, é isso?
É. E esperava-se com isso, a multidão acorresse para o palácio, que nesta altura ficava ali ao pé da Sé de Lisboa, acorresse ao palácio e criasse aquele ambiente em que a rainha e os partidários do Conde d'Andrade tivessem receio de reagir.
Para impedir o assassinato de Dom João I. Do estudo de Dom João I.
Não para impedir que a rainha e os partidários do Conde d'Andrade, os seus amigos, reagissem, contra-atacassem. No momento em que o Mestre de Avis assassinasse o Conde d'Andrade, provavelmente estariam sujeito a retaliações imediatas, a um contra-ataque. Eu esperava que uma multidão ululante, furiosa lá fora, aos gritos contra a rainha e contra o Conde d'Andrade, intimidasse os seus partidários. A nossa fonte para isto é o cronista Fernão Lopes, que é um dos primeiros grandes escritores portugueses. Ele conta a história na primeira parte da crônica de Dom João I. E conta que o mestre então vai ao paço, fala com a rainha, depois pede para falar com o Conde d'Andrade. E o Conde d'Andrade, entretanto, tinha percebido que alguma coisa que ia acontecer contra ele e tinha mandado os seus amigos, os seus apaniguados, irem se armar, isto é, irem buscar armas. Mas aconteceu que ao mandá-los embora para se irem armar, naquele momento ficou sozinho. Não tinha ninguém com ele. E o Mestre de Avis e os seus companheiros aproveitaram para o atacar e acabam por o matar. E na rua, tal como tinha sido combinado, um pajem do Mestre de Avis e o tal Álvaro Pais, que se coloca a cavalo, passam pelas ruas a levantar a população, mandam tocar os sinos das igrejas, etc, aos gritos que matam o mestre nos paços da rainha. E de facto era o contrário, o mestre é que tinha matado o Andrade, era uma mentira. A notícia falsa tem o efeito esperado, uma imensa multidão junta-se imediatamente em frente do palácio, uma multidão violenta, tentam deitar fogo ao palácio, deitam pedras, gritam morte a este e morte àquele. A rainha fica assustada, os partidários do Conde d'Andrade acabam todos por fugir imediatamente. Aliás, a própria rainha depois acaba por sair de Lisboa. E claro, o Mestre de Avis vem à janela do palácio para provar que está vivo, a multidão aclama-o, dias depois ele acaba por ser aclamado regedor e defensor do reino, portanto acaba por ficar com a regência. Entretanto, a multidão entusiasma-se, acaba por atacar a fé e linchar o bispo de Lisboa, que era um castelhano e que não tinha mandado tocar os sinos da Sé e acaba por ser assassinado também. E depois tem uma outra ideia que é ir atacar a judiaria, ir atacar os judeus para roubar os judeus e trazer a fortuna, o dinheiro dos judeus ao mestre. Aí o Mestre de Avis é convocado a intervir e dizer para estarem quietos. É nitidamente o uso cínico de uma mentira que, no entanto, ficou na história de Portugal como um grande ato de patriotismo, na medida em que foi o advento da dinastia de Avis e impediu depois que o rei de Castela se tornasse rei de Portugal. O Álvaro Pais, que congeminou esta grande fake news, tem hoje uma avenida com o nome dele em Lisboa. Aliás, ele é um personagem bem interessante. O Fernão Lopes conta também o conselho que ele deu ao Mestre de Avis, ao futuro Dom João I, quando o Dom João se tornou regedor e defensor do reino, ele disse, segundo o Fernão Lopes, deu este conselho ao Mestre de Avis: "Dai aquilo que vosso não é, prometei o que não tendes e perdoai a quem não vos fez mal". Este Álvaro Pais é um bom antecessor.
Isso é um Maquiavel ante tempo, não é?
É um Maquiavel lisboeta.
Muito bem, sim senhor. É uma ótima história e uma ótima fake news. Muito bem, obrigado, Rui. Na semana passada, nós prometemos aos nossos ouvintes parar de falar obsessivamente de epidemias aqui neste programa, para ajudarmos a quem nos ouve a desanuviar um bocado a cabeça, e que bem preciso é. Mas talvez valha a pena recordarmos um fato histórico que tem ressonâncias no nosso presente. Eu refiro-me à invasão por tropas francesas e belgas da região alemã do Vale do Ruhr, no início de 1923, com o argumento de que a Alemanha não estava a cumprir o pagamento das reparações que tinham ficado então estabelecidas no Tratado de Versalhes após a Primeira Guerra Mundial. Essa ocupação deu origem a greves na região e a uma campanha essencialmente de resistência não violenta, embora tenha existido alguma violência, mas essencialmente de resistência não violenta, e é nessa campanha e nas consequências que ela teve, que eu penso que tu também podes encontrar alguns paralelismos históricos com a situação atual. Queres explicar um pouco isso melhor, Rui?
Sim, vamos falar daquilo que se pode argumentar ser um paralelismo. Não estamos a falar nem de um antecedente, nem vamos necessariamente tirar lições pros dias de hoje. O paralelismo tem a ver com esta ideia de parar a economia e manter todas as pessoas em casa, propondo-se o governo pagar os salários aos desocupados. Hoje, isso é proposto no âmbito de uma quarentena pra conter a epidemia do coronavírus. Em 1923, na Alemanha, fará dentro de uns anos, 100 anos, em 1923, fez no âmbito do que explicaste, isto é, da ocupação, sobretudo francesa, do Vale do Ruhr. Só pra lembrar, a Alemanha tinha perdido a guerra, a Primeira Guerra Mundial, em novembro de 1918, e na Conferência de Paz de Paris de 1919, tinha ficado assente que iria pagar reparações aos aliados, aos vencedores, nomeadamente à França. As reparações eram vultuosas, significavam uma certa percentagem do PIB alemão, portanto, na prática, uma grande transferência do Norte pro Sul. Aí temos também um outro paralelismo, mas falaremos desse outro paralelismo uma vez, outra altura. A justificação pras reparações não tinham apenas a ver com o fato de ter sido a Alemanha, de uma certa maneira, a iniciar a guerra, isto é, com o ataque à França, mas também com o fato de a Alemanha ter, durante a guerra, ocupado o norte da França e a Bélgica. Portanto, a guerra na frente ocidental tinha decorrido essencialmente aí, no norte da França e na Bélgica, causando destruições, etc. E era suposto agora a Alemanha indenizar os aliados pelos estragos causados. As reparações podiam ser em dinheiro ou em matérias-primas ou em produtos. Imediatamente, os alemães, obviamente, consideraram-nas muito pesadas e os aliados dividiram-se. Os ingleses acharam, em determinada altura, que os alemães talvez tivessem razão. Isto é, os ingleses tinham uma abordagem diferente da questão do pós-guerra, achavam que o mais importante era integrar a Alemanha na economia e na política europeia e não tratá-la como uma potência derrotada.
Foi a filosofia que vingou na Segunda Guerra Mundial, mas não na primeira.
Não na Primeira Guerra Mundial, mas que no pós-Primeira Guerra Mundial permitiu também aos alemães tentarem jogar imediatamente com a divisão dos aliados. E começaram a falhar pagamentos até pra testar como é que os aliados iriam reagir. E em janeiro de 1923, depois de falharem uma série de pagamentos, os franceses perdem um bocado a paciência e sentem-se também encurralados, isto é, no sentido em que se consentirem aquilo vão perder o direito ou podem dar aos alemães o direito de não pagar as indenizações, as reparações de guerra, e ocupam a região industrial do Ruhr, do Vale do Ruhr. Esta região fica no sul da Alemanha, entre os rios Ruhr e o Reno, portanto tem o nome do Vale do Ruhr, da região do Ruhr ou Ruhr-Reno. É uma região mineira e industrial, é uma das grandes regiões industriais da Europa no fim do século XIX, princípio do século XX, com uma população muito densa. Na altura, tinha cerca de quatro milhões de habitantes, hoje tem 10 milhões de habitantes em 4000 km quadrados, portanto tem uma população hoje quase como Portugal, quer dizer, uma fração do território.
E continua a ser uma das zonas mais ricas da Europa.
Mais ricas e mais industriais do continente europeu, tem uma série de cidades que estão quase ligadas entre si e fazem quase uma enorme cidade. Era a zona das minas de carvão, eram as grandes minas de carvão do continente e que eram essenciais pra indústria no século XIX e princípio do século XX, antes do petróleo. No século XIX havia mais de 300 minas de carvão no Ruhr e tinha fábricas enormes, como as fábricas da Krupp, de armamentos e munições, que empregavam mais de 100 mil operários. Era uma região economicamente fundamental. E é essa região que os franceses ocupam em 11 de janeiro de 1923 e é nessa região também que os trabalhadores desta região ocupada, estes operários todos, mineiros, operários dessas fábricas, se dispõem a entrar em greve, isto é, a não trabalhar como uma forma de resistência contra os franceses. E o governo alemão dispôs a pagar os salários dos grevistas, isto é, a mantê-los em casa e a pagar-lhes os salários. A ideia era provar aos franceses.
Daí o paralelismo com a situação atual.
Daí o paralelismo, isto é, ter uma população, centenas de milhares, milhões de pessoas em casa sem fazer nada e com o governo a pagar os salários. Eles evacuam as crianças do Vale do Ruhr, cerca de 300 mil crianças são evacuadas e distribuídas por outras regiões da Alemanha, portanto, fica numa espécie de estado de guerra não violenta, mas de resistência contra a ocupação francesa. Há, de vez em quando, choques na rua, entre soldados franceses e civis alemães. Há cerca de 130 civis alemães que acabam por ser mortos pelas tropas francesas em atos de resistência, e isso também tinha sido calculado pelos alemães com a ideia de também desprestigiar, isto é, criar má reputação aos franceses, reputação de opressores. A questão é: como é que o governo alemão ia pagar aos grevistas, a toda essa gente que está em casa sem trabalhar? Disposto a pagar como tinha feito Em parte já durante a guerra, entre 1914 e 1918, que era imprimindo notas para pagar esses salários. Durante a guerra, era assim que tinha sido financiado uma parte do esforço de guerra. Eles tinham pedido à classe média para investir as poupanças em dívida pública, tinham aumentado um bocado os impostos, mas essencialmente tinham recorrido à impressão de notas, portanto, ao aumento da circulação monetária, como aliás tinham feito todos os beligerantes, Portugal também fez, outros países também fizeram, para ir pagando as despesas que tinham. O governo, na prática, emitindo dinheiro. Só que o governo alemão tinha continuado a fazer isto também depois da guerra, porque era um governo novo, num regime novo, o regime da República de Weimar, um governo social-democrata, e para evitar mais revoluções, mais convulsões, isto é, uma época em que tinha havido a revolução bolchevista na Rússia, que tinha inspirado outras tentativas de revolução bolchevista também na Alemanha, e portanto o governo alemão tinha tentado ultrapassar isso pagando aos funcionários, benefícios sociais, subsídios, e para pagar essas coisas todas também tinha usado a impressão de notas.
Deixa-me só interromper-te, porque o que nós estamos a falar é da hiperinflação, não é? E para tu explicares bem essa história e para nós não cairmos numa hiperinflação de tempo da primeira parte do "O Resto é História", eu proponho que terminemos aqui a primeira parte e voltemos à hiperinflação já na segunda parte deste 38º episódio do "O Resto é História". Aguarda aí um bocadinho que voltamos já já a seguir. Olá, sejam bem-vindos a esta segunda parte de "E o Resto é História". Nós estávamos na hiperinflação na Alemanha de 1923. Íamos entrar na hiperinflação. Rui, uma das coisas que qualquer pessoa que estude um bocadinho de História da Segunda Guerra Mundial sabe do nazismo é que sempre se atribui ao nazismo, a causa do nazismo foi a hiperinflação descontrolada da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, e que ainda é esse espectro da hiperinflação que ainda hoje marca o coração e a cabeça dos alemães, e é por causa disso que eles têm aquele rigor obsessivo das contas. Cada vez que falam de inflação, os alemães ainda tremem. Foi aqui que isto começou?
Em parte, foi aqui que isto começou. E começou precisamente também com a ocupação do Ruhr de que estávamos a falar, porque a impressão de notas pelo Estado alemão já tinha provocado a desvalorização do dinheiro e inflação durante a Primeira Guerra Mundial, 1914, 1918, e no pós-guerra, entre 1918 e 1923, quando se dá a ocupação do Ruhr, mas em 1923 as coisas pioraram. Deve-se dizer que o governo alemão até 1923 não estava excessivamente preocupado com a inflação. Os preços aumentavam todos os meses, cerca de 50%, mas de certa maneira a desvalorização do marco alemão facilitava também as exportações e, portanto, havia ali alguma vantagem também.
É uma história que quem tem alguma memória também conhece de Portugal.
Exatamente, a desvalorização como uma forma de aumentar a competitividade do país, como se diz, em termos do comércio externo. Agora, em 1923, de facto, o governo começa a exagerar. Calcula precisamente para pagar a toda aquela população que no Ruhr não está a trabalhar. Além disso, com a ocupação do Ruhr e a paragem da economia do Ruhr, a Alemanha também não está a exportar ou está a exportar muito menos do que exportava. Portanto, é uma situação de paragem da economia.
Estás a nos assustar um bocadinho, porque esses paralelismos são mesmo muito paralelos.
Mas vamos continuar. Eu estou a assustar. Calculava-se que em outubro de 1923, 99% das notas de marco que estavam em circulação tinham entrado em circulação nesse mês, isto é, uma grande parte do dinheiro tinha entrado em circulação naquele mês. Eles tinham uma espécie de Casa da Moeda que imprimia o dinheiro, mas o equivalente à Casa da Moeda já não dava conta do recado e havia outras 130 casas impressoras a imprimir dinheiro. Portanto, a Alemanha tinha se tornado uma grande fábrica de dinheiro. Era aquilo que essencialmente a economia alemã fazia em 1923, durante a ocupação do Ruhr, imprimia dinheiro, fazia notas em papel.
E porque a lógica do padrão ouro também tinha sido abandonada.
Totalmente. Isso tinha sido abandonado logo em 1914, digamos, com a entrada na guerra, e os outros países também tinham entrado. O que é que a greve do Ruhr, esta paragem da economia no Ruhr significa? Não criou a inflação, já havia a inflação antes, mas levou a um patamar superior, que é a tal hiperinflação. Na prática, a reação organizada contra a ocupação francesa no Ruhr pressupunha que os alemães eram patriotas, isto é, e os alemães eram suficientemente patriotas para terem ido todos para casa no Ruhr e não trabalharem. Mas os alemães não eram estúpidos, digamos assim, eram patriotas, mas não eram estúpidos. E tiveram a percepção que o dinheiro que estava a entrar em circulação, aquelas notas que andavam em circulação, já não correspondiam a nenhum valor real. Isto é, no século XIX pressupunha-se que, aliás, o que é que significava o padrão ouro? O padrão ouro significava que o dinheiro que circulava no país deveria corresponder a umas certas reservas de ouro Reservas de ouro ou reservas de divisas estrangeiras ou algum crédito do país, isto é, correspondia a um valor real. Ora, o que os alemães perceberam em 1923 é que o governo lhes estava a pagar, quer dizer, que estava a dar dinheiro com algo que já não correspondia a absolutamente nada e, portanto, o governo, na prática, estava a fingir que lhes pagava, quando de fato não lhes estava a pagar. E nesse momento, como dizem alguns historiadores, o dinheiro morreu na Alemanha, isto é, as pessoas deixaram de acreditar no dinheiro.
Sim, é bom ter isso em atenção. Nós às vezes esquecemos que o dinheiro é apenas uma nota de papel colorido.
É que as pessoas confiam e ainda acreditam. E em 1923 os alemães deixaram de confiar no dinheiro. Portanto, foi aquele momento em que há aqueles famosos câmbios, um dólar valia 4,7 marcos alemães em 1914 e em 1923 valia sete trilhões de marcos. Portanto, já era a altura em que as pessoas levavam um carrinho de mão com pacotes de notas para ir comprar um café.
E isso não é uma metáfora.
Não é uma metáfora. O Frederick Taylor, que é um historiador que escreveu sobre este assunto num livro publicado em 2013, que se chama "The Fall of Money", conta a história de um senhor que vivia em Berlim, o Maximiliano Bern, em 1923, que num determinado momento de 1923, foi ao banco. Ele tinha uma fortuna de 100 mil marcos, era uma fortuna mesmo, quer dizer, antes da guerra lhe teria dado para comprar casas e para viver completamente à vontade, mas ele foi ao banco e levantou toda a sua fortuna, os 100 mil marcos, e com essa grande fortuna, que era as suas poupanças todas de uma vida, ele já era uma pessoa de idade, portanto todas as suas poupanças de uma vida, com essa fortuna de 100 mil marcos, comprou um bilhete de metrô e deu uma volta de metrô. Quer dizer, foram todas as poupanças de uma vida. Portanto, o que é que esta inflação fez? Esta inflação destruiu basicamente a classe média. A classe média que eram aqueles que tinham poupanças, aqueles que tinham investido em dívida pública, que deixou também de ter qualquer significado, qualquer valor, e aqueles que não tinham poder para, por exemplo, através dos sindicatos, fazer pressão para aumentar os rendimentos em função do aumento dos preços. E portanto, é esta sociedade alemã que o governo acaba por destruir para resistir à ocupação francesa. No fim de 1923, o governo alemão desiste da resistência no Ruhr, depois os americanos intervêm e acabam por mediar um conflito entre a Alemanha e a França e emprestam dinheiro à Alemanha, portanto os alemães depois passam a depender de empréstimos americanos, os franceses acabam também por retirar do Ruhr em 1925. Portanto, a situação no Ruhr resolveu-se, a situação das reparações foi mais ou menos resolvida, mas durante aquele momento de resistência em que o governo mandou toda a gente pra casa e se dispôs a pagar os salários, o que eles fizeram foi destruir a sociedade alemã, destruir a classe média. E tornou essa classe média, que perdeu os seus patrimônios, perdeu as suas poupanças, se viu espoliada, digamos assim, muito mais suscetível a demagogos como Hitler mais tarde, já no fim dos anos 20, depois da outra crise de 1929, que leva a Alemanha também a perder os empréstimos alemães e então a ficar novamente numa situação extraordinariamente crítica. Mas isso começou, em parte, com aquela ideia de mandar toda a gente pra casa.
É melhor pararmos por aqui que eu já estou a sentir alguns calafrios na espinha. Rui, vamos então passar às perguntas dos nossos ouvintes.
Mas era só um paralelismo, nós não estamos a dizer que vai acontecer agora.
É um paralelismo, mas é um paralelismo que mete um bocadinho de medo. Pergunta do ouvinte Nelson Gonçalves, e isto é uma citação: "Eu resido na Bélgica e quando visitei o Museu Militar Belga, descobri com muita surpresa que a primeira expedição militar belga no estrangeiro foi em Lisboa, em 1831. Estão até em exibição", diz o ouvinte, "cartas de louvor aos oficiais belgas escritas em português e assinadas por Dona Maria II. Uma revisita rápida à Wikipédia confirma que outros países participaram no que pensava eu tinha sido um assunto exclusivamente português". Aqui, um aparte, o ouvinte refere-se, evidentemente, às guerras liberais que duraram em Portugal entre 1828 e 1834. "Mas a Bélgica", diz o ouvinte, "existe como país apenas desde outubro de 1830 e não é conhecida como sendo um país belicista. Por que motivo enviou tropas para participar numa guerra civil num país com o qual tinha poucas ligações? Terá a ver com relações familiares, já que o rei belga e o marido de Dona Maria II, Dom Fernando, eram ambos Saxo-Burgo Gotha? Ou será que as lutas liberais foram um dos palcos ou o prelúdio de outros conflitos semelhantes na Europa entre liberais e absolutistas?" Eu desconfio que parte das perguntas do ouvinte já contém em si a sua resposta, mas Rui, diz-me se é assim. Pode haver aqui um pequeno equívoco de datas, não é?
É, pode haver aí um pequeno equívoco de datas, o rei da Bélgica nesta altura era o Leopoldo I, primeiro rei da Bélgica, aliás, não enviou certamente tropas em 1831 e também não o poderia ter feito por razões familiares que ainda não existiam, uma vez que a Dona Maria II só casou com o Dom Fernando, que é sobrinho do Rei Leopoldo, em 1836. Agora, em 1833, 34, portanto, durante a guerra civil entre os liberais e os miguelistas Há, de fato, um batalhão de voluntários belgas que participa na Guerra Civil. Segundo Luxuriante, que é um dos historiadores que no século XIX estudou a guerra civil entre Dom Miguel e os liberais, estes voluntários belgas seriam cerca de 200. Eles teriam chegado a Lisboa no outono de 1833. Já Lisboa estava nas mãos dos liberais, desde o verão de 1833, e são usados numa operação, isto é, vão reforçar a cidade de Setúbal, sob as ordens do almirante inglês Charles Napier, isto na sequência de uma derrota que os liberais tinham sofrido em Alcácer do Sal, em novembro de 1833. São estes belgas, este batalhão belga, que vai para Setúbal tentar impedir uma progressão dos miguelistas.
Ou seja, estes belgas, só pra esclarecer, estavam ao lado de Dom Pedro.
Estavam ao lado dos liberais contra Dom Miguel. Há aqui duas questões diferentes. Uma tem a ver com a participação dos belgas na Guerra Civil Portuguesa de 1832 a 1834 e outra tem a ver com a intervenção belga na política portuguesa depois de 1836, isto é, com a intervenção do rei Leopoldo da Bélgica nos assuntos portugueses. São duas coisas diferentes. Vamos falar delas. O que estavam a fazer estes 200 voluntários belgas em Portugal? Estavam a fazer a mesma coisa que muitos outros estrangeiros que participaram na Guerra Civil Portuguesa. A Guerra Civil Portuguesa é vista por muita gente na Europa como mais um episódio do confronto entre liberais e tradicionalistas ou absolutistas, e portanto é vista por muitos como a Guerra Civil de Espanha vai ser vista no século XX, a Guerra Civil de Espanha de 1936 a 1939, com as suas brigadas internacionais, isto é, muita gente vê como um palco para inimigos se defrontarem, os mesmos inimigos que se defrontam noutros países, isto é, liberais.
Entre visões políticas, não é? Entre visões políticas compartilhadas por outras pessoas.
Exatamente. Os liberais belgas, franceses, italianos, polacos, espanhóis estão com os liberais portugueses, tal como os absolutistas austríacos, franceses e alemães estão com os absolutistas portugueses. Além disso, as sociedades europeias neste princípio do século XIX são sociedades militarizadas, porque vêm de anos e anos de guerras, isto é, com as guerras francesas, as chamadas guerras napoleônicas, entre os anos 90 e 1815, a Europa está quase sempre em guerra.
Portanto, também é um emprego. E há um emprego.
E há muita gente, muitos soldados e oficiais desmobilizados e que estão disponíveis também para participar em conflitos, em guerras. Aliás, alguns vão pra América Latina participar também em guerras e alguns deles estão disponíveis para vir. Isto é uma mistura de mercenários e de gente de convicções, também. O que acontece é que os exércitos, o exército liberal, por exemplo, que desembarca no Porto em julho de 1832 para tentar depor Dom Miguel, tem imensos estrangeiros, ingleses, franceses, polacos.
E oficiais, não é?
E muitos oficiais, e os miguelistas também têm. Aliás, em determinada altura, os dois exércitos, o exército liberal e o exército miguelista, são comandados por generais franceses. O liberal, pelo general Solignac, que curiosamente tinha sido um oficial que tinha feito parte do exército de Junot em 1807. Portanto, ele já tinha invadido Portugal em 1807, e depois, em 1833, está à frente do exército liberal em Portugal outra vez, e o exército miguelista tem o general Bourmont, como comandante. Dois franceses estão a comandar os dois exércitos da Guerra Civil Portuguesa. Há também uma outra coisa que é uma dimensão diplomática. Há uma dimensão diplomática nesta guerra civil. Há potências que apoiam ou que são mais favoráveis e simpáticas ao Dom Miguel e há outras que apoiam ou são mais favoráveis aos liberais, comandados nesta altura, durante a guerra civil, pelo Duque de Bragança, Dom Pedro. Aliás, em 1830, há uma mudança na Europa, de que faz parte a emergência da Bélgica, que se forma, que se separa da Holanda em 1830, precisamente, e separa-se da Holanda no momento em que a política europeia muda, na medida em que há também uma revolução em França, onde os liberais tomam o poder também em França, começa então a chamada Monarquia de Julho, os Bourbons são substituídos por um ramo júnior da mesma família, os Orleans, Luiz Felipe de Orleans torna-se rei de França. A França torna-se uma potência, digamos, liberal, e ao mesmo tempo os liberais tomam também o poder em Inglaterra, onde substituem os conservadores no governo. É neste momento que a Inglaterra e a França se tornam um pouquinho mais simpáticas para a causa dos liberais contra Dom Miguel. Não demasiado simpáticas, mas bastante simpáticas. E depois, em 1833, 34, o que acontece é que também começa uma guerra civil em Espanha e, portanto, há uma internacionalização do conflito na Península, uma vez que o Dom Miguel vai apoiar também os absolutistas espanhóis. De repente, a guerra em Portugal e a guerra em Espanha juntam-se, e quer a França, quer a Inglaterra, quer o governo liberal de Espanha Juntam-se ao governo liberal português, fazem uma aliança para defender a causa dos regimes constitucionais na Península Ibérica contra os absolutistas. Aliás, esta é uma das razões invocadas pelo Dom Miguel em maio de 1834 para desistir da coroa e para sair de Portugal. Ele diz que quer evitar uma invasão estrangeira de Portugal. Isto é, ele quer evitar que pela sua resistência aos liberais, dê pretexto para ingleses, franceses e espanhóis invadirem Portugal. É a razão que ele dá para pôr termo à guerra civil. É o comunicado que faz ao seu exército para dizer que vai desistir, que vai sair do país.
Estava a lutar contra Dom Pedro e contra o espírito do tempo, também.
E contra a Inglaterra, a França e a Espanha. Isto era mesmo assim, no sentido em que, por exemplo, em 1847, quando os miguelistas se revoltam outra vez, a Espanha e Inglaterra acabam por intervir mesmo militarmente em Portugal para defender o regime constitucional em Portugal. Portanto, a questão portuguesa, a questão do regime que deveria prevalecer em Portugal, é uma questão internacional. E esta internacionalização nota-se depois também a partir do estabelecimento do regime liberal. E com o rei Leopoldo da Bélgica, que aconselha o sobrinho, o Dom Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, Saxe-Coburgo-Gota como ele. No casamento com Dona Maria II, depois do casamento, o casamento realiza-se em 1836, dois anos depois do fim da guerra civil, o rei Leopoldo torna-se uma espécie de patrono, de pai adotivo dos reis portugueses. É lembrar que a Dona Maria II tem 17 anos, a rainha de Portugal tem 17 anos, e o rei Dom Fernando tem 20 anos. E portanto, o Leopoldo torna-se patrono dos seus sobrinhos e começa a interferir diretamente nos assuntos políticos portugueses. E em 1836, há uma revolta da esquerda liberal, a chamada Revolução de Setembro, que vai abolir a carta constitucional e força a rainha a reconhecer a Constituição de 1822. E nesse momento, no outono de 1836, discute-se mesmo, na corte, em Lisboa, a possibilidade de uma divisão belga, isto é, de uma parte do exército belga ou uma legião estrangeira recrutada na Bélgica, intervir em Portugal para defender a rainha contra a esquerda liberal. Aliás, por conselho do rei Leopoldo, os reis saem do Palácio das Necessidades, vão para o Palácio de Belém para estarem mais perto do mar e, portanto, de uma esquadra que pudesse chegar e protegê-los. Neste caso, seria a esquadra inglesa que transportaria as tropas belgas. O rei Leopoldo não vai fazer isto de graça. Ele está à espera de ser remunerado, e está à espera de ser remunerado com uma das possessões portuguesas em África. A ideia é Portugal pagar as despesas das tropas belgas em Portugal com uma das possessões portuguesas.
Mas não teve muita sorte, não é?
Não, não teve sorte. O rei Leopoldo tinha a pior impressão de Portugal, dizia que era um país infeliz, e diz isto uma carta à rainha Vitória, que também era parente dele. Ele diz que Portugal era um país infeliz onde só o clima prestava, tudo o resto, nada mais prestava em Portugal. Agora, os ingleses é que não gostam desta ideia de uma divisão belga militar, de uma intervenção militar belga em Portugal, portanto, opõem-se à intervenção belga e Portugal acaba por não ter essa experiência de ter os belgas a defender a rainha em Lisboa e a serem pagos, provavelmente, com Angola ou com Moçambique, ou com aquilo que viria a ser Angola e Moçambique.
Muito bem, OK. E assim termina, então, este 38º episódio de "O Resto é História", e cá estaremos para a semana de novo. Até lá.
E o resto é história.
É apenas fumaça do incêndio de Loiva, ainda na zona de Chiado. Aqui, os bombeiros tentam controlar o incêndio das Casas Novas. Quer transformar este país numa ditadura. Atenção, atenção.
Com João Miguel Tavares e Rui Ramos. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.