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E o Vencedor É, na Rádio Observador, com Judite de França, com o Alexandre Borges e o Nuno Gonçalo Poças. Hoje vamos falar sobre o fato de a Comissão Parlamentar de Saúde ter começado as audições sobre a petição pública por um programa do Estado português de indenização das vítimas de reações adversas às vacinas contra a Covid-19. É um tema que vai ficar para a segunda parte. Vamos ainda falar sobre a subscrição da Sport TV no Palacete de São Bento e vamos ao debate quinzenal desta tarde no Parlamento, e é por aí que começamos. Judite de França, queres começar já por nota ou por apreciação?

Nota artística, porque houve ali um momento de grande debate e embate entre o primeiro-ministro e André Ventura, que merece uma nota. Eu acho que quem ouviu este debate hoje não acredita que o Chega e a AD, o governo, já alguma vez chegaram a acordo, porque aquilo foi tão violento. O primeiro-ministro perdeu.

Irritou-se.

Irritou-se mesmo, perdeu a paciência com o André Ventura, o que também não é muito difícil. André Ventura consegue tirar a paciência a um santo quando quer. E claro que isto é uma piada, porque nada os impedirá no futuro de fazer acordos. Isso é mais ou menos garantido, independentemente de hoje terem estado, de facto, muito irritados um com o outro. Em compensação, o Partido Socialista pôs-se na primeira fila para ajudar o governo no orçamento retificativo e acho que fica muito bem ao Partido Socialista mostrar essa responsabilidade. O PS precisa demonstrar que é um partido responsável num período tão difícil para o país e, portanto, recusar fazer da tragédia um instrumento político acho que é uma boa manobra política, sobretudo. E José Luís Carneiro esteve bem neste debate. Eu acho que André Ventura, mesmo para o estilo de André Ventura, exagerou. Não trouxe nenhuma solução, apenas gritou algumas coisas, nomeadamente que o mecanismo europeu de prevenção de proteção civil devia ter ajudado com portilhos, coisas deste gênero, que não fazem sentido nenhum. E Luís Montenegro respondeu bem. Disse que se alguém pensa ser alternativa, então não pode aparecer assim aos portugueses, tem que aparecer com maior responsabilidade e não dizer algumas coisas que não fazem o mínimo sentido, nomeadamente esta do mecanismo europeu de proteção civil. Porque nenhum mecanismo conserta telhados, nem o governo tinha essa capacidade logo no início, nas primeiras horas. Já pôr lonas nos telhados tinha dado jeito que tivessem ativado o exército uma semana antes e isso sim, teria sido útil. Deste debate, também ficamos a saber que o ministro da Administração Interna é conhecido na próxima semana, portanto, ficou esse teaser feito. Agora vai andar tudo a tentar se perceber quem é, porque claramente já está convidado. Começa na próxima semana. E eu acho bem, porque está na altura do primeiro-ministro deixar de ser ministro da Administração Interna e passar a ser o coordenador do governo e deixar de acumular funções.

Nuno, viste com grande interesse o debate desta tarde?

Imenso. Eu gosto sempre destas altas performances, que no fundo é o que aquilo é. É um espetáculo para nós vermos e tirarmos daqui algumas conclusões. Eu estava aqui a ouvir a Judite, estava a pensar até nos resultados eleitorais que o André Ventura teve nos conselhos mais afetados pela tempestade. E posso me enganar redondamente, mas estou capaz de arriscar que ele talvez não tenha percebido muito bem o sinal que lhe foi dado nas urnas.

Perdão.

Sim, e que esteja a continuar a arriscar, no fundo, aquilo que tentou naquela última semana de campanha em cima da desgraça, para tentar apelar ali um bocadinho ao sentimento das pessoas. E sendo certo que eu também acho, é quase consensual, que nós vivemos numa época de muita sentimentalização e que ele explora isso bastante bem. Também acho que as pessoas deram sinais de um bocadinho mais de maturidade do que isso. E portanto, não sei se isso lhe será muito vantajoso, se olhando só para o debate, José Luís Carneiro não tenha saído um bocadinho mais vencedor. Até depois da vitória do António José Seguro, acho que ouvi alguém durante a tarde dizer isso.

Ganhou um novo ânimo.

Sim, se calhar pode haver aqui uma nova tendência de sucessos eleitorais para oschoninhas.

O mundo é doschoninhas.

Eu acho que sim, eu sempre quis que fosse.

Eu defendo exatamente o mesmo.

Eu andei a escola inteira à espera que um dia o mundo fosse doschoninhas.

Finalmente o mundo é nosso.

E, portanto, estou sempre a torcer por eles.

Alexandre, por falar emchoninhas, estou brincando.

Tu que eu digo isto não como defeito.

Estavas a pedi-las. Não, isto é uma qualidade.

Eu não tinha feito nada.

É um elogio.

É oschoninhas doschoninhas. Acabou de levar na boca doschoninhas. Oschoninhas a fazer bullying. Até me caíram os headphones. Quem está a ver em vídeo, está a ver um belo momento.

Olha, eu não sei se resulta daqui vencedor do debate José Luís Carneiro. Agora pondo água na fervura neste momento épico sobre este movimento de fundo que vinha aqui sobre os soninhos. Porque há duas leituras, diz-me a minha curta experiência ainda de acompanhar estes debates em direto, que é só a comunicação social que faz, absolutamente mais ninguém. E portanto, eu não sei se daqui resulta um conteúdo que as pessoas vão consumir, vão ver, por exemplo, nos noticiários.

É muito importante o que as pessoas vão ver no telejornal às 20:00 da noite.

Exatamente. Já para não falar naquilo que depois vai para as redes. Exatamente, é isso mesmo. Porque de longe o debate é muito mais marcado por aqueles 15 minutos à vontade iniciais, talvez mais do que isto, talvez 20 ou 30 de speak entre o primeiro-ministro e André Ventura. E depois também de algum modo, quando a peça do noticiário for percorrer as intervenções das bancadas, vai terminar na parte do Hugo Soares, que é violentíssima também e que está cheia de soundbites. Nomeadamente contra o José Luís Carneiro. Mas pronto, antes disso, acho que já estivemos mais longe de haver violência física no Parlamento, portanto, nesse sentido, estamos cada vez mais perto da Coreia, só nos falta o desenvolvimento tecnológico. A dureza das intervenções, que já passam, de facto, cada vez como uma coisa mais normal, os gritos que se ouviam da bancada do PSD durante as intervenções de André Ventura, André Ventura e os gritos do Chega durante a intervenção do PSD. Uma coisa, essa, sempre divertida de ver, que é ouvir André Ventura a pedir respeito e silêncio às bancadas adversárias e a mandá-las calar.

E arrancou uma bela gargalhada.

Exatamente.

Eu estive a ouvir o debate com headphones e quem faz esse exercício ouve melhor os apartes e realmente é impressionante o grau de espreza que há, quer nas alocuções, quer nos apartes, quer nas interrupções constantes. Há 10 anos não assistíamos a isto.

É isso, exatamente.

Havia um ou outro.

Sim, havia momentos quentes, como é óbvio.

Mas não era nada disso.

Agora ficamos com a sensação que estamos duas horas e meia com um momento quente.

A política está mais parecida com o país real. E isso sempre foi um problema.

Ou com o trânsito.

Com o trânsito.

Ou é o país real.

Com a taberna, a conversa de café, a tareia no trânsito, a trotineta que passa de repente com alguém a atravessar. Esse tipo de coisas.

Não me enerves.

No sentido em que se mandam bocas e depois não se concretiza nada. Sim, acho que sim. Nesse sentido, o agarra-me se não eu vou-me, isso é muito o país, é verdade. Agora, sim, ouvir a Rita Matias a gritar para o Hugo Soares: " És mentiroso, és mentiroso, baixinho, és baixinho". E portanto, a coisa já um bocadinho aceite, que de parte a parte se faça isto. E isso como característica mais evidente ou resultado mais evidente de um debate que não trouxe nada de novo, absolutamente, às populações. Ficamos a saber que vamos ter ministros da Administração Interna para a semana, que a remodelação do governo se ficará por aí, que o governo não vai alargar o estado de calamidade, que não vê razões para um orçamento retificativo.

Esse é curioso.

Mas é uma performance, ou seja, não há nada de substancial.

Exatamente, não há nada. Diz o primeiro-ministro que finalmente vai haver relatório do grupo de trabalho do SIRESP, portanto, continuamos no oito, vai aparecer, mas ainda não há.

Vai haver acesso ao SIRESP nas Juntas de Freguesia e geradores.

Isso já se sabia também, que também é uma coisa curiosa, porque se discute a possível extinção do SIRESP, mas antes de sabermos se vamos acabar com ele ou não, já vamos dar telefones do SIRESP às juntas, que correm o risco de daqui a três meses já não serem usados. Mas tudo bem.

Mas acho que temos que assinalar um facto. Eu estou muito interventivo. Para mim, acho inacreditável que as Juntas de Freguesia não tenham-

Queres que eu modere?

Sim, por favor. Não tenham um gerador, acesso ao SIRESP.

Nem um telefone de satélite.

É inacreditável. Sinceramente. Com os fogos, com as coisas todas que temos, a forma como se menospreza a proteção civil é um bocadinho aflitivo. E hoje tivemos dois abalos telúricos para assustar as pessoas.

Gosta do telúrico. Vocês estão a tentar introduzir no léxico a palavra telúrico.

Eu gosto muito da palavra.

É chique. Na minha terra era um abalo de terra.

Aqui na redação as pessoas: "O que é isto? É um sismo?" As pessoas assustam-se muito.

Claro, e com razão.

É preciso ter uma proteção civil eficaz e capaz de responder.

Claro, e com razão. Muito obrigado pela sua participação.

Dou oito a este debate.

Mas, de facto, é um debate que ficou mesmo muito na espuma política, entre o governo não fez nada, o governo chegou tarde e a más horas, é mentira, nós não falhámos em nada, estivemos lá desde a primeira hora, que me parecem ambos dois exageros clamorosos.

Claramente.

Acho que o Montenegro está muito terrado na estratégia com que começa o debate, na onda também de debates políticos a dizer: "Diga-me um, diga-me um. Mas diga lá onde é que o governo falhou." E André Ventura: "Falhou nisto, naquilo." "Não concretizou, concretize lá." "Concretizo aqui, ali. No SIRESP que não funcionou, nos bombeiros que não estavam acionados, nos militares que ficaram à espera. Aí só tem reagido cinco dias depois." Era basicamente dar espaço para André Ventura ir buscar mais ataques e terminar com aquelas demagogias fáceis, fazendo também tease para o que falemos a seguir, quer dizer, senhor primeiro-ministro, menos Sport TV, mais ação ou algo deste género. Logo vindo de André Ventura.

Que fez o documentário desportivo.

Exatamente. A sua carreira pública basicamente como comentador desportivo. E depois, tudo isto muito longe de facto do discurso. Andaram a atirar acusações sobre os vídeos. É André Ventura que se mete com os vídeos de António Leitão Amaro, com os vídeos no centro da ação das decisões e depois Hugo Soares que responde com a chuva adicionada. Andámos nisto Poderia passar melhor a postura do José Luís Carneiro, e já a temos defendido até aqui, começa bem nesse sentido. Ou melhor, passada a primeira intervenção, José Luís Carneiro depois andou também a tentar aparentemente puxar os galões ao seu conhecimento enquanto ministro da Administração Interna.

E bem.

E bem, e depois caiu-lhe em cima.

Mas também não é só conhecimento. Exato.

Depois caiu-lhe em cima. Ele vai fazendo isso e depois Júlio Soares, e os outros também, mas Júlio Soares recordou-lhe que primeiro atirou-lhe com o caos na imigração. Diz: "Era você que estava lá quando foi extinto o SEF."

Por acaso não é bem justo.

Começou com Cabrita, ele recordou isso, mas acabou consigo.

E você não podia fazer nada em relação a isso.

Muito bem, mas num dado mais paralelo, foi buscar a história do grande incêndio da Serra da Estrela, que o governo dele, já ele era secretário de Estado da Administração Interna, demorou 23 dias a decretar o estado de calamidade e 52 dias a sair a portaria que autorizava os apoios para essas populações. Portanto, não ficou dali bem. Ainda acabou o debate a pedir um favor à mesa da assembleia, que distribuísse as atas desse tempo ou algo desse gênero. Exato.

Vamos distribuir notas na segunda parte do "E o Vencedor É?". Arranca agora a segunda parte de "E o Vencedor É?", na Rádio Observador, também em vídeo, hoje com a Judite França, o Nuno Gonçalo Poças e o Alexandre Borges, e ficaram por dar notas na primeira parte ao debate quinzenal. Nuno, que nota te merece?

Eu dou um cinco ao debate na sua generalidade e acompanho o que o Alexandre estava a dizer no final da primeira parte, relativamente aos excessos de parte a parte, ou seja, quer de Luís Montenegro, na ideia de que correu tudo bem, não houve erros nem falhas e, portanto, não há nada que se possa apontar ao governo, mas também aos excessos do André Ventura, que aquilo roçou a brutalidade, e que no meio disto faz de alguém como José Luís Carneiro, agora para falar um pouquinho mais a sério, que tem muitas coisas que se lhe podem apontar enquanto ministro da Administração Interna, enquanto membro do governo, que de alguma maneira foi conivente com muitas das más opções políticas que somaram nos últimos 10 anos, passar por cima disto quase como o adulto na sala. Nós chegamos a este ponto absurdo. É um cinco.

Alexandre.

Personalizando nas figuras ou pelo menos nos partidos, daria um nove ao PSD e ao Chega, ou melhor, ao governo e ao Chega, pela postura muito presa só a tentar o ataque político fácil e assim não tão preocupado com a realidade. Um 10 para o José Luís Carneiro pelas razões apontadas e um 10, por exemplo, para o Rui Tavares. Isto é para os partidos mais pequenos, que às vezes fazem e às vezes não fazem um discurso interessante, mas o discurso do LIVRE dentro do género pareceu uma coisa bastante equilibrada, dizendo: "Não há exemplos históricos de catástrofes deste gênero" e falando em reconstruir melhor e numa coisa que me parece, estamos sempre a criar mais entidades, mas eu acho que vai ter que haver uma entidade aqui criada para gerir a história do PTRR, e julgo que era isso que o LIVRE estava a sugerir, porque a coordenação, a quantidade de ministérios envolvidos nisto e de autarquias, e uma vez que vai haver um plano financeiro específico para isto, é preciso saber quem é que coordena isto. E de facto acho que temos que falar desse assunto.

Judite?

Eu vou dar um nove a André Ventura, vou dar um 10 a Luís Montenegro e vou dar um 12 a José Luís Carneiro.

Ficam dadas as notas do debate quinzenal. Agora, Nuno Gonçalo Poças, olhamos para o papel do Estado perante as reações adversas à vacina contra a Covid-19, o assunto que está a ser agora discutido por via de uma petição no Parlamento.

Sim, este tema já desperta grandes paixões há uns anos, e por um lado ainda bem, mas recupera um tema que eu acho importante e que nós de facto acabamos por nunca fazer, que tem a ver com o balanço da pandemia no geral, ou seja, na forma como o Estado, como a sociedade, como as instituições, incluindo como os mídia, lidaram não com a pandemia, ou seja, não propriamente com a doença, mas com a forma como nós coletivamente optámos por responder a uma doença que existia. E agora surge na Comissão de Saúde uma petição que é conduzida por uma série de clínicos, médicos, enfermeiros, salvo erro. Há uma médica cardiologista, Teresa Gomes da Mota, salvo erro, que lidera o processo, se bem percebi, e que tem recolhido dados, que terão naturalmente que ser averiguados e confirmados, relativos a efeitos adversos das vacinas que foram administradas na altura e que rondam mais ou menos perto das 40 mil pessoas com efeitos, daquilo que eu fui lendo na notícia do Nascer do Sol da passada sexta-feira, coisas graves em gente muito nova e pessoas que ficaram totalmente paralisadas, pessoas que perderam capacidades motoras, cognitivas, etc. E eu acho que será importante não só analisar os efeitos adversos das vacinas. Na altura, embora não totalmente escrutinado, até porque nós vivemos durante aqueles anos também um tempo de excessivo sentimentalismo e quase uma divisão da sociedade entre puros e impuros Durante algum tempo, a mínima contestação às medidas e a tudo aquilo que fosse decidido ou administrado era levado em conta como negacionismo, terraplanismo e coisas do gênero. E essa postura também fez com que essa análise não fosse feita até agora. Enfim, para nós, normalmente, é um hábito não fazer análises, balanços, recolha de dados e prever se da próxima vez não caímos nos mesmos erros. Mas durante algum tempo, eu lembro-me de haver até alguns pediatras a falarem sobre isso, que não recomendavam, por exemplo, que a vacina fosse administrada a crianças, porque o risco da doença nas crianças era tão reduzido que o risco que se poderia verificar através de uma vacina que não tinha completado o ciclo de testes seria, em teoria, potencialmente mais gravoso administrar uma vacina cujos efeitos não se conheciam totalmente do que propriamente o risco das crianças apanharem doenças, a não ser que tivessem uma expressão que hoje em dia já não se usa: comorbidade.

É verdade.

Associadas.

Aprendemos todos o que queria dizer.

Foram administradas, segundo números oficiais, até dezembro do ano passado, 32 milhões de doses de vacina.

Certo.

Covid, cá em Portugal.

Certo. E houve já não sei quantos milhões de infetados.

Quarenta mil com reações adversas reportadas, é esse o número.

Certo, vou tentar recuperar isto aqui um bocadinho.

Qual é o ponto?

O meu ponto é uma avaliação positiva, eu vou dar aqui um 14 à possibilidade de nós estudarmos isto e tornarmos esse debate público e se ele, de facto, for pedagógico para toda a gente, e se for sério e rigoroso, independentemente do resultado que venha a ter. Mas o meu ponto é precisamente esse, de nós termos capacidade para olhar para as coisas em determinados momentos, sobretudo em momentos de catástrofe ou de emergência, ou de perigo, e de não sentimentalizarmos a coisa. Eu lembro que na altura havia pessoas que eram proibidas de fazer fosse o que fosse porque não tinham tomado a vacina. Eu lembro-me ainda do presidente Joe Biden dizer que quem tomasse a vacina ficava imune para sempre. Depois, afinal, não era nada disso. Quem tomava a vacina tinha menos probabilidade de desenvolver doença grave. E isso, por si só, já era uma coisa muito boa. Ou seja, para as pessoas que podiam, de facto, contrair doença grave apanhando Covid-19, tomando aquela vacina e esse risco diminuindo, era uma coisa muito boa. A questão era se toda a gente teria que a tomar e se o risco associado à sua toma ou não, se justificava. E nós, na altura, não tivemos algum discernimento para pensar sobre isso. Houve processos que correram no Tribunal Constitucional e houve muitas famílias que ganharam essas ações. Houve miúdos que deixaram de ir à escola porque os pais não queriam que eles tomassem a vacina. Houve uma série de coisas que foram tomadas e que foram decididas sem que nós olhássemos para ela. E eu acho que neste momento nós já estamos com capacidade para olhar para isso com algum distanciamento.

E aparentemente terá acabado o reporte, ou pelo menos não está atualizado, nem é público o reporte de reações adversas à vacina, que terá sido interrompido. O que é também estranho. E tu tens uma nota, já deste a nota?

Dei um 14. Eu até gostava que se discutissem mais uma série de coisas. Depois, entretanto, também caiu aquele debate da revisão constitucional, que depois acabou por não avançar.

Sendo que as vacinas não são obrigatórias em Portugal.

Certo, mas naquela altura.

Formalmente.

Exato.

Sim, se as crianças não podiam ir para a escola.

Eu acho que lindamente. Eu lembro-me na altura de discutir isso, eu acho que só no primeiro ano da pandemia, em 2020, houve 13 mil crianças que deixaram de tomar vacina contra o sarampo, porque o SNS de repente se tornou o SNC, que era o Serviço Nacional de Covid, e não havia mais nada. E houve não sei quantas consultas de cardiologia que deixaram de se fazer, de oncologia, tudo e mais alguma coisa. E esse balanço nunca foi feito. Tal como na altura nunca foram feitos quer os dados comparativos entre o grau de caos hospitalar, de atrasos, face a anos anteriores, e os anos a seguir foram melhores ou piores. Nós este inverno, por exemplo, os hospitais estiveram piores ou melhor do que no ano de 2021 para 2022. E houve Natal na mesma e já não havia pandemia. Portanto, acho que há uma série de coisas que nós tínhamos que discutir para além disso, naquela altura que estávamos todos tão obcecados com isto, que qualquer pergunta que se fizesse era encarada.

Estávamos perante um gigantesco desconhecido que matou milhões de pessoas em todo o mundo.

Mas esse é outro problema, porque também houve desde o início muito médico, muito epidemiologista, muito especialista em saúde pública, não negando a existência da doença, não negando a existência da pandemia, não negando a existência dos contágios, e a proteção das populações em risco, que se conheciam mais ou menos desde o caso daquele paquete ou do cruzeiro, onde estavam 5 mil pessoas e a partilhar ar-condicionados. A Suécia, por exemplo, na altura era um caso de negacionismo e afinal a Suécia tem dados de combate à Covid-19 e de mortalidade muito melhores do que os nossos.

Importa, obviamente, estudar tudo isso até para prevenir situações futuras. E o Alexandre quer também falar sobre um assunto.

Sim, quero. Se me permites só 30 segundos sobre o que estávamos a dizer antes. Isto é, acho que de facto importa também a irracionalidade e aqui não se vai discutir se o modelo sueco era melhor que o português, até porque houve momentos muito diferentes. Ou se quer a gravidade da doença. O que está aqui e nas questões das vacinas, porque isto toca num problema global, como sabemos. É engraçado, falavas da questão das pessoas que não foram vacinadas para o sarampo. Muitas das pessoas que não quiseram ser vacinadas para a Covid também são aquelas que não querem ser vacinadas para o sarampo. Vale a pena ter isso presente e perceber o que está a acontecer nos Estados Unidos com impactos globais, porque estamos só a falar do país que mais dinheiro investe na investigação farmacológica no mundo e, em particular, no fabrico das vacinas, e que tem neste momento à frente um responsável que nega, pura e simplesmente, contra toda a evidência, a utilidade das vacinas, por exemplo, para a hepatite B. Ou seja, o risco de escalar desta discussão é gigantesco. O que aqui está em causa neste tema é que estas pessoas pedem uma indenização do Estado pelas consequências negativas da vacina. É só isto. E isto não tem nada de irracional, nem de anticientífico, nem questiona a validade ou invalidade das vacinas. Qualquer medicamento, quanto mais uma vacina, diz que há uma probabilidade de X acontecer. Diz: há um em mil casos em que acontece uma miocardite ou há um em não sei quantos que acontece. Quando tu vacinas 10 milhões de pessoas ao mesmo tempo, é claro que esse número vai ser bastante grande.

O que não é razoável é o Estado impedir pessoas de fazerem a sua vida porque não existe um caso, por exemplo.

Ok, mas não é isso que está em causa aqui agora. Mas isso estás a discutir as políticas que foram adotadas naquele tempo. Não estamos a discutir quais são os efeitos das vacinas.

Por isso é que eu disse que eu não estava a discutir isto.

Pois.

Isto em concreto.

Mas isso não vai ser discutido agora. Isso não vai ser avaliado agora.

Qual é que deve ser o comportamento do Estado perante isto?

Eu acho que este comportamento é interessante. Isto é, abraçar uma discussão que às vezes parece que corre num mundo paralelo, que é o das pessoas que correm notícias na internet e dizem: "Estão a ver, ninguém fala disto, olha este caso, as vacinas fazem isto às pessoas." E há ali casos gravíssimos, a comprovar-se que todos são relacionados com a toma das vacinas, que poderão nem ser todos.

Todos podem não ser.

Todos podem não ser, mas muitos são.

Mas muitos serão, muitos têm relatórios médicos sobre isso. Agora, o que não pode ser agitado, que é a discussão típica, infelizmente, de rede social e dos tempos que vivemos, que é: "Olha aqui o que as vacinas fazem, está aqui este caso." Não. Certo, olha o que a Covid fazia nos casos em que também matou pessoas em que as deixou doentes para o resto da vida. O agitar de uma história é a coisa menos racional e científica do mundo. O que nós precisamos é de estatística sobre estes assuntos e acho bem que neste caso o Parlamento abraça isto, vá fazer uma comissão sobre o assunto e que eventualmente o Estado indenize as famílias que foram afetadas por isto, porque isto iria sempre acontecer. Existiriam sempre casos, vacinando massivamente, de pessoas que iriam ter, infelizmente, efeitos secundários. Acho que é isso. Peço imensa desculpa por saltar deste assunto tão sério para a Sport TV, mas queria mesmo fazer esta nota, porque há dias fui eu que trouxe este tema aqui para o Vencedor, porque tinha sido notícia no Correio da Manhã que a Secretaria-Geral do Governo tinha mandado instalar-

Daqui a um minuto vou apitar para o fim.

Sete postos de Sport TV. Gastou um contrato de três anos, 20 mil € para pôr sete postos de Sport TV Premium na residência oficial e no Parlamento. Uma oitava. Ficámos a saber depois que afinal este contrato já vinha desde 2017. Tinha nove anos e apenas foi renovado por este governo, que uma vez saída a notícia, já mandou reduzi-lo basicamente ao mínimo, a uma estação na residência e outra no Parlamento, reduzindo drasticamente este custo absurdo. 20 mil € não salvam nada no país, mas seriam ridículos quando sabemos que ainda há pessoas que nem sequer têm luz há quase um mês em várias regiões do país. Agora, o que alguém poderia saber é como é que esta notícia aparece quando há nove anos que isto acontecia e não foi notícia antes. Nós até podíamos não saber, mas li, por exemplo, uma pessoa que tinha alguma obrigação de saber e escrever sobre este assunto, Pedro Adão e Silva, há dois dias, que escrevia uma crônica no Público intitulada: "O que a Sport TV nos diz sobre o governo." No lead dizia: "O primeiro-ministro já sofre todos os sintomas de desgaste característicos dos governos que levam vários anos." Depois ele tenta irrelevar isto um pouco ali, mas vê nisto a contestação e isto um sinal já do desgaste do governo. Ele próprio conclui que o que é que isto diz, que era a pergunta dele. Ele diz: "Nada de relevante." Então não se percebe bem porque é que chamou isto para título e lead, que é o que as pessoas leem e o que corre depois nas redes sociais. E vale a pena lembrar que Pedro Adão e Silva foi não só ministro desses governos, como parte do núcleo de coordenação política do primeiro-ministro, que tinha reuniões semanais com o primeiro-ministro, inclusive na residência.

Já estamos nos descontos.

E de resto, até como eu, um grande fã de futebol e até partilhamos a mesma paixão portista.

O Pedro Adão e Silva via a bola noutro lado.

Portanto, acho que soa-me ligeiramente a um oportunismozinho utilizar estas questões. Portanto, eu vou dar uma nota sete a Pedro Adão e Silva, que era o número de televisões com Sport TV na residência.

E amanhã há mais, e "O Vencedor é..." logo pela fresca, depois das 08h30.

Muito obrigado.