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"E o Vencedor É?" aqui na rádio, em vídeo no YouTube, bem como nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite de França, o Nuno Gonçalo Poças e o Anselmo Crespo. Boa tarde, bem-vindos. Temos vários temas para abordar, desde logo a prestação social única, proposta que é amanhã discutida no Parlamento e que foi tema de uma reunião que juntou esta quinta-feira Luís Montenegro e André Ventura. Anselmo Crespo, trazes esta reunião ao "E o Vencedor É?" por quê?

Olha, porque à semelhança de outros temas e de outras leis, eu acho que nós estamos a assistir aqui a uma transição suave de André Ventura, do vou votar contra para provavelmente vou aprovar isto. Não foi o mês passado, foi a semana passada, dia 2 de junho, André Ventura convocou os jornalistas à sede do Chega e disse, passo a citar: "Vamos votar contra por este motivo, porque a lei permite que quem vem para Portugal receba subsídios sem ter descontado, e isso é errado." E hoje ouvimos Pedro Pinto, ainda não ouvimos o próprio André Ventura, dizer que há aqui caminho pra fazer e que o Chega está muito disponível para viabilizar. Aliás, já ouvimos o próprio André Ventura no fim de semana passado a dizer que havia aqui caminho pra fazer. E eu acho que apesar de este ser um modus operandi do Chega a que nós já estamos habituados, não vale a pena fazer grandes prognósticos sobre o que o Chega vai fazer, porque eu acho que o próprio Chega, na maior parte das matérias, não sabe o que vai fazer. Usa sempre uma estratégia de atirar um fogo de artifício. É aquela coisa de: "Olha ali um pato a voar." Estamos a falar de um tema e o Chega aponta pra outro lado qualquer, que é pra nos distrair. Eu acho que esta forma do Chega de fazer política tem, no fundo, um objetivo, que é deixar sempre tudo em aberto, permite tudo. Permite não viabilizar uma proposta porque o governo não correspondeu às exigências que o Chega colocou, mas depois também permite viabilizar a proposta porque o governo prometeu que ia discutir essas exigências num diploma à parte, ou lá pra frente, ou nas calendas, ou então há aqui duas ou três matérias que permitem negociar a viabilização de um determinado diploma. Estamos a assistir a isso, por exemplo, com a questão da revisão constitucional. Vamos ver como é que vai acabar o pacote laboral, mas eu admito a possibilidade do Chega acabar por viabilizar o pacote laboral em troca da revisão constitucional que o Chega quer fazer. Dito isto, eu espero mesmo que isto seja negociado e que seja debatido no Parlamento, já agora não apenas com o Chega, mas com todos os partidos, porque eu acho que a medida vai no bom sentido, já o disse aqui a semana passada, ou esta semana, se calhar até foi esta semana. Este feriado aqui no meio espalhou-nos um bocadinho as contas.

Porque este é um entendimento comum em relação a esta matéria, em relação a PS e PSD, não é?

Não na fusão das prestações. Quando eu digo que vai no bom sentido, não é apenas na dimensão em que várias prestações passam a ser uma só. Eu acho que vai no bom sentido, porque me parece que a intenção do legislador, neste caso o governo, é tentar trazer de volta pra economia, tentar trazer de volta pro mercado de trabalho um conjunto de pessoas que neste momento estão fora do sistema e que dependem das prestações sociais pra viver. Eu não estou a falar daquelas que contornam o sistema, porque sobre essas parece-me que não há grandes dúvidas. Quer dizer, há diferenças na abordagem, mas não há grandes dúvidas que da esquerda à direita, acho que ninguém discorda que é preciso combater a fraude. Não é dessas que eu estou a falar. Eu estou a falar daquelas que têm dificuldade em voltar ao mercado de trabalho e que estão na vida ativa. Mas também me parece que a lei que o governo apresentou, como é óbvio, não é perfeita e, portanto, tem ali matérias que, sendo bem-intencionadas, precisam de ser trabalhadas. Ainda agora no noticiário, vocês referiam uma delas precisamente, que é se calhar é um bocadinho parvo estar a pedir a pessoas que têm cancro, mesmo que isso não lhes coloque uma limitação física brutal, estar lhes a pedir que vão fazer 15 horas de trabalho social. Eu não lhe chamaria de detalhe, mas é o tipo de matérias que eu acho que o Parlamento tem a obrigação de discutir, corrigir e melhorar. Porque também não parece que o governo faça sentido ser tão intransigente relativamente a esta proposta que não aceite as propostas da oposição se elas visarem melhorar esta lei sem a adulterar totalmente. E, portanto, acho que há aqui bons sinais, por um lado, por parte do Chega. Por parte do Partido Socialista, também vi hoje uma abertura que não vi até a data de hoje, até a reunião que Eurico Brilhante Dias teve hoje com o ministro dos Assuntos Parlamentares. E, portanto, eu queria mesmo só formular esse desejo de que isto não caísse por terra apenas porque dois partidos, neste caso o PS e o Chega, se colocam em duas trincheiras e dizem que não logo à partida, sem sequer quererem debater, ou então colocam condições tão impossíveis para se aprovar a lei, que ela acabe por não passar no Parlamento, porque eu acho que esta lei é uma lei importante e que pode ser, de facto, melhorada.

Também trazes a este "E o Vencedor É?" este tema, a prestação social única. Qual é a perspectiva que queres aqui abordar, Judite?

Neste momento, segundo a Fundação Francisco Manuel dos Santos, destas transferências feitas, que são feitas à medida de quem mais precisa, as que dependem da condição de recursos, só a Roménia é menos eficaz do que nós a reduzir a pobreza. E aparentemente, à medida que se vai sabendo um pouco mais sobre esta prestação social única, o plano parece ser apertar, pelo menos. Não cortar, mas apertar, pelo menos. E nós temos mais de 1 milhão e meio de pessoas em risco de pobreza e estas prestações não contributivas reduzem a pobreza nuns míseros dois pontos percentuais, porque chegam a pouca gente.

Temos que o desenho da medida venha a agravar este problema da pobreza no país?

Há critérios mais apertados. O património agora vai passar a contar o carro, o património do agregado familiar não pode ultrapassar os € 16 mil, quando agora era o dobro. E depois há a tal obrigação de trabalho social até 15 horas por semana, até para deficientes, que sobre a questão de alguém que seja um doente de cancro e que agora seja obrigado a apresentar uma declaração a dizer que está a fazer quimioterapia, acho que isso era absolutamente escusado e era muito fácil ao Estado, sobretudo era muito fácil ao governo não se meter nestas trapalhadas. É a história da amamentação outra vez. Vai buscar uma coisa qualquer que objetivamente não faz sentido. Uma pessoa que está a fazer quimioterapia não vai fazer trabalho social nem durante cinco horas, quanto mais 15. Mas acho que obrigar essa pessoa a preencher mais um formulário e apresentar um atestado não faz muito sentido. Daí não retiro a questão das pessoas, como o Anselmo dizia, que estão fora da vida ativa, serem chamadas para qualquer tipo de comunidade. Por exemplo, passarem a colaborar com uma câmara. Isso pode lhes dar uma abertura para conhecerem outras pessoas e se calhar daí até partir para o emprego, tirá-las do isolamento onde elas muitas vezes estão. E eu acho que isso tem virtudes. Preocupa-me sempre esta questão, mas isso é talvez ideológico, que é trabalhar sem receber.

Não, eu também já levantei essa dúvida, que para mim só há dois tipos de trabalho: ou é voluntário ou é pago. Agora, não conheço uma terceira via, não conheço o voluntário à força.

É, pois. E este é. E eu acho que não conseguimos tirar esta ideia, que o Chega, aliás, gosta de espalhar, que é a ideia de quem pede ajuda e de quem está nesta circunstância é suspeito até prova em contrário. E eu acho que esta desconfiança, que agora vai dar origem a este mecanismo de denúncias, também acho que não faz sentido. Há mecanismo de denúncias em diversas circunstâncias, mas não é para isto. Vamos lá ver. A fraude é uma coisa tão descabelada? Há fraude neste tipo de apoios de uma forma significativa? Não sei, acho que ninguém consegue dizer. Acho que o mecanismo de denúncia, espero que seja como o mecanismo de denúncia da fraude fiscal, na Autoridade Tributária, em que não basta fazer uma denúncia, é preciso ter dados. Não basta chegar lá e escrever: "Eu acho que este senhor não paga impostos." Não é suficiente. E portanto, eu acho que daqui a um ou dois anos, quando saírem os indicadores de pobreza outra vez, nós vamos perceber se isto foi uma reforma ou se isto foi um corte.

Se contribuiu para agravar o problema do fenómeno da pobreza em Portugal. Nuno, também quero-te dar aqui uma pincelada sobre este tema. Encontras alguma virtuosidade nesta medida e no desenho conhecido desta proposta do governo?

Mais ou menos. Eu tenho sempre muitas dificuldades em abordar este tipo de coisas, porque me parece sempre que nós estamos aqui basicamente no reino da tecnocracia. Portanto, isto é uma coisa que serve para o sistema de segurança social agilizar melhor, para prevenir a fraude, aquelas coisas todas que são, em teoria, ótimas. Mas eu acho que há aqui uma discussão por trás disto que nos faz quase desaguar nestes pequenos ou grandes problemas em que depois vamos tropeçando, que é desenhar aqui. "Agora, tinha aqui uma ideia espetacular para mudar isto tudo e para agilizar e para não sei o quê, e que vai ser muito melhor e vamos tirar não sei quantas pessoas da pobreza e tal." E depois, de repente, à medida que se vai cavando, se vai encontrando cada minhoca deste género. Que afinal os deficientes também têm não sei o quê. Depois isto é tudo muito discutível, porque também há quotas para deficientes. Aliás, foi uma causa de muitos anos, de muitas associações nesse sentido, das pessoas com deficiência também poderem fazer parte do mercado de trabalho, etc. Mas toda a discussão que está por trás disto é, no fundo, para tirar pessoas da pobreza. Não é assim que os países tiram pessoas da pobreza. A Roménia tem tirado muito mais pessoas da pobreza do que nós, não é por causa do sistema de segurança social, é porque tem crescido. E é assim que os países crescem.

Trazendo as pessoas de volta para a economia.

É criar, é permitir à economia que cresça e que se desenvolva e que tenha iniciativa para que as pessoas possam entrar nela e fazer parte dela e receber o seu rendimento, trabalhar e ter a sua vida. Agora, depois do resto, são coisas técnicas. Daqui a uns tempos vamos andar a descobrir que há pessoas que andam outra vez a enganar.

Apesar das novas regras. Então vamos lá às notas. Anselmo, a tua nota para quem?

Eu para já ia dar um 10, dou um 11 de benefício da dúvida, porque eu acho mesmo que esta lei precisa de ser melhorada, mas ela é importante. E ela é importante se conseguir precisamente o seu principal objetivo, ou pelo menos foi esse que o governo enunciou, que era trazer de volta uma parte das pessoas que neste momento está a precisar desse apoio do Estado, de regresso à economia e ao mercado de trabalho. E portanto, se a lei for nesse sentido e não no sentido que a Judite suspeita que vá, que é de apertar mais o cerco e com isso deixar ainda mais pessoas à deriva no país, eu acho que ela irá no bom sentido, mas para isso é esse o papel dos partidos. Eles têm que trabalhar para a melhorar, em vez de estarem só a fazer política de soundbite todos os dias.

A tua nota?

11.

Eu vou passar a nove. A minha nota passa a nove, porque eu desconfio que o caminho não está a ser o melhor.

Copo meio cheio, copo meio vazio.

Mas pode ir nos 200 e qualquer, até. O leque é tão grande que vou dar um 10.

Dê só um 10.

Que é para equilibrar.

Nuno, queres também partilhar conosco uma reflexão sobre a visita do Papa a Espanha, os banhos de multidão que tem recebido o Leão XIV e os alertas e preocupações que tem manifestado com o rumo da civilização.

Sim, em particular da civilização ocidental, que é um fenômeno interessante que o Papa Leão XIV traz de volta, sai um bocadinho da esfera do terceiro mundo, onde a Igreja tinha investido nos últimos anos. Eu acho que o Papa percebeu, a Igreja percebeu que o Ocidente é um sítio importante para a Igreja. E de fato, estes dias em Espanha, os discursos que foram feitos acabam por demonstrar que o Papa está preocupado com várias coisas que nos são particularmente caras e que nos deviam, e eventualmente vão acabar por fazer, tal como já aconteceu com a encíclica, discutir e pensar sobre isto, que tem muito a ver com a ideia do legado, mas também do futuro do homem, da civilização ocidental, de quem é que nós somos, de onde é que vimos, o que é que para nós é importante, em que valores é que nós assentamos. E de fato, a Igreja tem um valor que é indiscutível, apesar de ter sido discutido durante muitos anos. E também acho que é sintomático que ao fim destes anos todos em que se falou tanto da crise da Igreja e as questões todas da pedofilia e do fato de já ninguém querer saber daquilo. A Igreja, pelo menos nas últimas décadas, é sempre uma instituição em decadência, da qual as pessoas se afastam, etc. E, na verdade, aquilo que temos vindo a ver é algo bastante diferente disso. Todos os papas têm uma dimensão importante, em determinados sentidos, em determinados momentos. E este acho que acaba por corresponder um bocadinho às expectativas que eu tinha quando soube que seria ele o escolhido.

Mas de travar esse caminho a que há pouco fazias referência, decadência de maior afastamento.

Não é travar rigorosamente nada, é de nos recentrar e de, mais uma vez, mostrar à civilização ocidental que ela existe, continua a existir, tem um passado, tem um presente e traz seguramente um futuro, nem que tenha que recorrer a uma instituição com 2000 anos de história que aparentemente estava em decadência e que neste momento consegue ser o farol em muitos temas. O fato de termos um papa na rua com um milhão e tal de pessoas, e as pessoas em efusão total. Depois do Papa Francisco, quem é que ia imaginar o papa super popular, este até meio cinzentão e não se ri muito.

Mas isso é um sintoma da aproximação das pessoas à Igreja ou o Papa Leão XIV visto como um pop star?

Não, não acho nada disso. Aliás, acho que a Igreja faz muito bem em não procurar a pop star. Mas acho que é sinal que as pessoas no Ocidente precisam de referências e precisam de instituições sólidas e precisam de símbolos e precisam de uma coerência e precisam de um sentido. E de fato, esta deslocação à Espanha é muito importante. Agora também se seguirá à França e acho que é muito importante acompanhar isto e é um grande sinal de vitalidade para a Igreja. Acho que é muito importante para todos, mesmo para quem não é católico.

E a tua nota vai para?

É um 18 para o Papa.

Para o Papa. Querem pronunciar-se em relação a este tema? Anselmo, Judite. Eu concordo com o que o Nuno disse. Eu só queria acrescentar um dado que me parece muito curioso, e que eu senti muito nas reações, sobretudo quando ele passou por Madrid, políticas em Espanha, que é: de repente, o Papa não está a falar para ninguém, porque toda gente concorda com o que o Papa diz. Mas toda a gente vem dizer que não podia estar mais de acordo com o Papa, estando ele a falar para alguns daqueles que dizem que estão de acordo com ele.

Em Espanha, eu acho que eles levaram todos pancada.

Sim, aquilo foi de uma ponta à outra. Mas no fim, eu sei que fica bem, é também seria um bocado chato vir debater com o Papa na praça pública, mas alguém tem que enfiar a carapuça, porque eu acho que mais claro do que aquilo era impossível. Judite, queres focar-te em particular na intervenção do Presidente da República?

Sim, porque acho que foi uma oportunidade que se desperdiçou ali. Lendo depois com atenção, encontram-se menções, aqui ou ali, que são importantes, não digo que não. Para já houve aquelas referências intelectuais, que eu acho que são desnecessárias, mas os políticos gostam de ir buscar aquela citação daquele poeta ou daquele escritor. Tenho dúvidas de que isso seja relevante para as pessoas que estão a ouvir. Tenho muitas dúvidas. E acho que nós precisávamos de discursos com algum arrojo, com algum impacto. E seguro não inovou, o Presidente da República não aproveitou a oportunidade e é curioso que pediu moderação num registo que ele próprio era muito morno. Depois há aquele problema do destinatário ausente, que aparentemente é para não aborrecer ninguém no dia 10 de junhoPorque falou dos salários que não acompanham a qualificação, da habitação inacessível, de um Estado que devia simplificar em vez de complicar, mas nunca nomeia ninguém. Uma crítica sem sujeito é uma crítica que toda a gente pode aplaudir. E foi precisamente o que o primeiro-ministro fez. De outra forma, se tivesse sido visado, se calhar corava, não batia palmas. E eu acho que é um discurso desenhado pra não ofender ninguém. E depois a arquitetura literária, de facto, é uma coisa que se juntares mar, saudade e diáspora, pronto, está feito o 10 de Junho.

E Camões.

E Camões.

A língua.

E cumpre-se ali o 10 de Junho e nada fica a moer no dia seguinte.

Eu acho que até o desgraçado do Camões já deve estar farto de que o citem. Porque vimos que mandar fazer t-shirts a dizer: "Parem!". É um abuso. Teve graça a primeira vez, a segunda, quando faz sentido. Mas o que não faz sentido é todos os discursos, sejam eles quais forem, do 10 de Junho, do 25 de Abril, do 5 de Outubro, todos têm que levar uma citação de um escritor qualquer.

Sim.

Um poeta, normalmente.

Um poeta. Já não é discurso.

Sim.

É uma regra, quase.

E de facto acho que isso se nota muito nesta espécie de arquitetura literária. Não sei se os próprios políticos ficam a pensar: "Ah, não vá o povo achar que eu não sou culto." Não sei se é isso.

É como os concertos pra violino do Chopin.

Pois, é isso, é armar ali o pingarelho.

Sim.

Foi uma oportunidade perdida esta intervenção do Presidente da República, primeira nas vestes de chefe de Estado?

Olha, foi. Eu concordo com a Judite nisso, sobretudo porque eu tinha uma expectativa um bocadinho mais alta, tendo em conta o passado 25 de Abril, e as intervenções que António José Seguro tem feito neste início de mandato, em que me parece que ele tem sido muito mais assertivo do que algum dia eu esperei que ele fosse. Portanto, a minha expectativa também era baixa, eu tenho que admitir. Só que o discurso do 10 de Junho do Presidente da República, provavelmente tem a ver com isto que a Judite estava a dizer, não sei se ele não quis aleijar ninguém, mas foi um discurso muito Gustavo Santos. Era uma coisa quase de autoajuda, em que uma pessoa estava sempre à espera da punchline, já embrulhou, já citou Camões, já falou do mar, da diáspora, da língua portuguesa. Sobretudo quando ele entra no tema da ambição, eu pensei: "Ok, o discurso vai começar." Mas não, é o e acendo-me no fundo. Não aconteceu. Ele ficou ali, ambição e ambição, e exportamos talento, e fazemos isto, e somos incríveis, e a ambição. Ok, e qual é a conclusão? Não há. O Miguel Pinheiro dizia uma coisa no Realpolitik que eu também achei curioso, porque também não entendi, que é quando ele diz a frase: "As empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. Isto é inaceitável e temos de o alterar." Ok, e então? E então nada. E para além de que a frase, de facto, é dúbia, uma pessoa olha pra isto e isto tem várias interpretações possíveis.

Não pagam suficientemente bem quem tem qualificações.

Pois, claro, está bem, mas eu espero que o Presidente da República saiba minimamente como é que funciona a economia. Espero eu. Que uma pessoa, o cidadão comum, diga uma coisa destas, que as empresas deviam pagar melhor. Eu também acho que as empresas deviam pagar melhor, mas eu também tenho a obrigação de saber como é que isto funciona. Isto pra dizer o quê? Que acho que António José Seguro nem foi a meio da ponte, foi muito floreado e pouca entrega naquilo que eram as principais mensagens que me pareceu que ele queria passar, para lá daquelas iniciais, da língua, enfim, e até em matéria de política externa. Eu acho normal que ele não tenha entrado ali num conflito institucional com os Estados Unidos, ou que tenha entrado em matérias de política externa, que eu acho que estavam resolvidas só pela escolha do local das comemorações do 10 de Junho. Ou seja, eu acho que isso em si mesmo era a mensagem que António José Seguro queria passar. E acho que ele foi feliz na forma como subtilmente passou essa mensagem, ou seja, escolheu a Terceira, escolheu fazer ali ao lado da Base das Lajes. Tudo isso era uma mensagem e não precisava no discurso ter ido mais longe do que aquilo que foi. Sobre a mensagem que ele tinha pra dentro, pra política interna. Foi tão Gustavo Santos que acabou com toda a gente a elogiar. Até Pedro Pinto, antes de André Ventura falar, porque há duas reações do Chega. Até Pedro Pinto vinha convertido daquele discurso. Pedro Pinto sai a dizer: "Nós concordamos com aquilo que o Presidente da República diz." Depois teve que vir André Ventura dizer: "Não concordamos nada, o Chega alguma vez vai concordar com um socialista? Está tudo maluco ou o quê?" Portanto, acho que foi, de facto, uma oportunidade perdida. Se calhar o objetivo de António José Seguro era mesmo esse, era que deste discurso não rezasse a história. Se era esse o propósito, acho que ele conseguiu.

Conseguiu, sim.

Nuno, é a mesma interpretação da intervenção do Presidente da República?

É assim um bocado meh.

Comparativamente com o Marcelo Rebelo de Sousa, foi uma coisa tão diferente, uma intervenção assim tão diferente do antecessor?

Eu estava na ilha.

Na própria.

Na própria da ilha Terceira, estive lá uma semana.

Estava ali com alguma expectativa, estava com as minhas filhas e via os eventos todos das Forças Armadas, todo um manancial de novidade. Nós obrigamos as miúdas a ver os discursos e eu às tantas estava a explicar-lhes que aquilo era uma coisa que eu fazia desde que tinha mais ou menos a idade delas. Eu acho que desde os sete, oito anos, eu vi todos os discursos do 10 de Junho, todos. E vi todas as paradas militares. É uma coisa que sempre me fascinou desde miúdo. Adorava aquilo e ver as paradas e quem é que era, este era dos comandos e dos paraquedistas. Eu consigo cantar aquilo enquanto eles desfilam. É uma matara como outra qualquer. E não há, nestes anos todos, eu não me lembro de repente de um discurso do 10 de Junho. Sou capaz de me lembrar do discurso do João Miguel Tavares.

Do João Miguel Tavares em Portalegre. E da Lídia Jorge o ano passado.

Da Lídia Jorge, é verdade, embora seja uma coisa um bocadinho mais recente. O do João Miguel Tavares teve aquela vantagem, aquela coisa simbólica do: "Dêem-nos alguma coisa em que acreditar." Foi uma mensagem importante e tudo aquilo que estava ali um bocadinho à volta. Tudo o resto, eu acho que fico sempre com a sensação de que aquilo é feito precisamente porque nós temos que marcar isto, temos que ter aqui umas coisas interessantes, parece que é uma coisa importante. Nós lemos umas coisas, não somos tontos nenhuns, portanto, podemos fazer aqui um poema qualquer e estamos aqui a olhar o mar à beira da falésia, a ver o mar ao longe e eu hoje tenho amnésia e estou vestido como um monge. E pode sair uma coisa qualquer assim neste género, está muito bem, rimamos e agora vamos pra casa e não se fala mais disso.

Mas então, quem está a presidir as cerimônias, ou seja, o convidado, esse discurso devia ter impacto.

Não teve o discurso de Miguel Machadinho Tamarão.

Eu acho que também não. É suposto o discurso do Presidente da República ter uma mensagem política e não é no sentido da política comezinha, aquilo não é o pá, espão, habitação, saúde, educação. Não é isso que eu quero ouvir do Presidente da República. Mas também não é isso que eu quero ouvir do-

Do presidente da comissão organizadora das cerimônias.

Do presidente da comissão, exatamente. Faz falta ali um bocadinho mais de substância na coisa. É tão chato que se está um ano inteiro a preparar um evento daqueles.

E depois sai aquilo.

E depois sai aquilo.

Mas agora deixa-me dizer, eu acho que faz falta as duas coisas. Faz falta a substância, naturalmente, e faz falta a forma. Porque a forma como se faz o discurso. Tu estavas a falar do discurso do João Miguel Tavares. Eu sugeria vivamente que quem quer fazer discursos vá ouvir aquele discurso e tire dali não só a forma como pode ficar substância na cabeça das pessoas. Concordo ou discordes, o ponto não é se concordamos com o que disse o João Miguel Tavares.

Mas a forma faz com que a mensagem chegue às pessoas.

E a forma como a mensagem fica na cabeça das pessoas. Eu, aliás, queria recomendar um livro que é do Cody Keen, que foi um speechwriter do Obama, um dos, não foi o primeiro, foi um dos speechwriters do Obama, que escreveu um livro que se chama "Grace" e que conta toda a história de bastidores na Casa Branca, na escrita dos discursos e a forma, o trabalho, as horas e a equipa que eles tinham para fazer discursos. E eu acho que era uma boa forma dos políticos portugueses, que passam a vida a fazer discursos, poderem aprender a levar isto um bocadinho mais a sério, porque a sensação que eu tenho é que, em geral, agora já estamos a largar para o 10 de Junho, em geral, os políticos portugueses não cuidam muito da forma como fazem os discursos. Acham todos que sabem discursar e que sabem fazer discursos, e eu tenho uma má notícia para lhes dar: a maior parte deles não sabe.

É verdade.

Vamos às vossas notas. Ainda tínhamos aqui mais um tema sugerido pelo Anselmo, estamos mesmo em cima da hora. Já temos aqui, de resto, o Alberto Gonçalves pronto para o Ideias Feitas. Vamos às vossas notas. Nuno, a tua nota para estas intervenções do 10 de Junho, em particular do Presidente da República.

Um nove. Um insulto.

Deixo um ponto, dou um oito.

Eu dou um nove também.

Notas negativas para as intervenções que marcaram o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, no final da edição da tarde de "You Ventore".