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Eu venho esta hora é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje com a Judite França, o António Costa e o Alexandre Borges. Vamos falar de sondagens, vamos também falar sobre o caso do ministro da Administração Interna, ainda de moções de confiança, mas vamos começar pelos exames. Há um país inteiro, António Costa, de olhos postos nas vitrinas. Não sei se é vitrina ou se é vitrines, por acaso não sei se devemos- Vitrines.
À francesa?
A palavra portuguesa é vitrina.
É vitrina, não é?
Como limusina.
Ou cabine.
Exatamente. Ou gabardina.
Mas eu diria que as nossas notas vão sair mais depressa que as notas dos exames.
Pronto, então esquece o exame de francês.
Voltando às vitrinas, António, continuam vazias, a ansiedade vai crescendo.
Pois, eu estou a ouvir esta nuance que o ministro Fernando Alexandre e o ministro Leitão Amaro hoje revelaram ao país, que isto já está tudo feito, mas isto agora é responsabilidade do presidente do júri dos exames nacionais, como se o presidente e o júri dos exames nacionais fossem uma entidade externa que vivesse, não sei, talvez na China, como se não dependesse hierarquicamente dentro do Ministério da Educação, do ministro da Educação, mesmo tendo, como tem, independência técnica e autonomia técnica. Eu devo dizer que também estou à espera, porque tenho uma filha que fez exame e também está à espera.
Também te toca.
Também está à espera. Tu diz isto: "Estamos todos". Eu não sei se estamos todos. Eu estou, de facto. Eu estou mesmo. Mas vamos lá ver. Eu acho que é preciso mesmo tirar lições. Agora, de facto, como alguém dizia, com uma surpreendente sensatez esta manhã, o André Ventura: "Não é tempo de pedir a demissão do ministro. Isto hoje é tempo de ver se as notas saem-
Ou não saem
...ou não saem." E, sobretudo, o ministro sublinhou isso, se calhar devia ter sublinhado isso antes, que é muito importante que haja confiança no sistema. Mais do que este atraso nas notas, foi a forma como chegamos ao atraso, porque o atraso podia ter sido gerido sem o ministro começar a falar nos agrafos, e a falar no QR code, e a falar nas famílias que foram imprudentes, e a ter uma sucessão de declarações absolutamente disparatadas do ponto de vista de comunicação, porque os ministros também têm que saber falar com os portugueses. Isto não é só conhecimento técnico. E se tivesse sido dito há um mês ou há três semanas, tendo em conta a transformação, a transição, vamos precisar de mais três, quatro, cinco dias, não havia esta tensão crescente e este estado de ansiedade em que o país entrou e o principal responsável é o governo. É evidente. Eu já sei, a FENPROF é a FENPROF. A FENPROF já fez greves em cima de exames e agora faz o seu papel, mas o problema não é a FENPROF, o problema são mesmo os exames, as correções e o processo como foi montado. Hoje, o ministro ensaiou de manhã, no debate de urgência promovido pelo PCP, esta nuance, mas disse duas coisas importantes. Clarificou o acesso à correção, que ainda há 24 horas há uma grande confusão. Primeiro era um link, depois era preciso pedir. Afinal, já sabemos, não é preciso pedir. Os alunos receberão no seu e-mail registrado o PDF do exame. Boa notícia, fator de transparência importante. Segundo, não há alteração aos calendários. Isso é um compromisso político, que já não é do presidente do júri, nem do júri nacional, é o compromisso do ministro. E eu acho que obviamente é pra levar a sério e é importante, tendo em conta o que se passa, foram duas mensagens que era necessário esclarecer durante o dia de hoje. Acho que vai ser preciso, até porque limpa uma segunda chamada, que vai ter o mesmo processo, que nestes dias, sem causar grande alarmismo, porque de facto nesta fase se calhar não é o mais indicado, que o governo consiga mesmo tirar ilações disto antes de nós falarmos das consequências políticas. Há consequências de facto de gestão do processo e eu acho que, por exemplo, ontem no debate do Estado da Nação, falou-se de tanta coisa e não se falou disso, da forma como o Estado se organiza pra fazer esta operação e pra fazer uma operação que era obviamente muito importante, que se calhar tinha que ser feita em três, quatro ou cinco anos, e que o ministro ainda não explicou por que considerou, há um mês, que tinha condições para fazer esta operação. Ele devia dizer-nos isso. Não hoje, hoje é dia de notas e de correções e de avaliações nos próximos dias.
Esta noite vai dar uma entrevista a Alexandre. Já vou às tuas notas, António.
Lá está.
Às minhas? Da minha filha, às minhas ou às dele?
Às tuas. Vamos deixar a da tua filha pra mais daqui a bocado. Sim, isto parece aquele... Lembra-me os Flintstones, pra quem-
Não é desse tempo
...não é desse tempo, ou pelo menos do tempo do cartoon e não daquele que é evocado pelo cartoon. Lembro-me que no genérico, acho que era o Fred Flintstone que chegava a casa, carregava numa espécie de telecomando, que na verdade era uma caixa que abria e um passarinho ia e carregava no botão da televisão. Era o telecomando. E eles também tinham carros, que tinham uns cilindros pra serem umas rodas, mas depois, como não havia motor, era ele a pedalar, a andar e a rodar.
E abada badu.
E abada badu, exatamente. Os Flintstones eram isto. Eram uma família da pré-história a viver supostamente como nós vivemos nos dias de hoje. E é o que parece todo este processo de digitalização, isto é, este suposto passo pro futuro, que é a raiz de todos estes acontecimentos. É uma coisa em que aparentemente 4 milhões de folhas de papel, ao que eu ouvi dizer, sendo que há provas de matemática que só essas tinham 16 folhas Foram transportadas, escoltadas por 5 mil polícias e trazidas para um armazém num sítio onde 40 pessoas trabalharam das 8 às 10 da noite, sete dias por semana, tentar digitalizar aquilo em 70 máquinas. É isto. E é claro que isto deu problemas por todo lado. E isto é meter o futuro dentro de uma coisa qualquer perfeitamente pré-histórica. Eis-nos aqui ao dia de hoje e há bocadinho, a última notícia que ouvimos no noticiário era que o governo nem se compromete com uma hora limite. Para já podemos sempre invocar o fuso horário açoriano, que me é caro, como já todos sabemos.
Olha que boa ideia.
Olha como dá jeito agora.
Até à 01:00 de Lisboa ainda é hoje em Portugal.
Ainda é meia-noite.
Isso não é algures no mundo.
Eu já vi um orçamento a ser entregue às 23:00.
É verdade, exato, mesmo em cima da hora. É que eu estive a ver algures no mundo, enquanto for hoje isto é válido, é a Samoa Americana, é o último território do mundo. Está 12 horas. A gente normalmente na passagem de ano só fala dos primeiros. Nunca se fala dos últimos.
Porque já passamos o nosso.
Porque já passamos, já não estamos nos tintas.
Ou ainda estamos a acordar.
Olhamos para Vanuatu e não para a Samoa Americana. Vanuatu e não para a Samoa Americana. A Samoa Americana está 12 horas atrasada, portanto até amanhã ao meio-dia é possível. Tem 57 mil habitantes, há de haver lá um português, há sempre um. Isto conta. Com certeza. E 20 santos. Se tu dizes, não sei. É isso, pode ter uma padaria ou algo do gênero. Agora, é como dizia o António, o que se viu no discurso de hoje, e em alguns momentos acho que o próprio ministro canalizou isto para aqui e não é bonito. Falou numa espécie de teoria da conspiração de que como eu quero fazer coisas, estão a criar isto ao meu redor.
Também é, mas ele tem de contar com isso.
Ele tem de contar com isso, exato.
Há muito.
São pessoas.
E não é um sistema como o Ministério da Educação.
Famoso.
Mais do que noutras áreas, em especial.
Exatamente, em especial, é isso mesmo. Mas grande parte do trabalho dele ou de qualquer ministro é gerir pessoas, portanto tem de contar com isso, de facto, e com a possibilidade de elas falharem.
Não, mas aí não é falharem, o que ele está a alegar não é as pessoas falharem, é as pessoas causarem resistias no sistema.
Mas aqui a razão não é essa.
Não, não é.
Há 90 razões antes de chegar a essas resistências, que eu acredito que haja, até porque ele também não tratou as pessoas da melhor maneira no processo. Quando de repente ontem de manhã está a pedir ajuda aos professores. Eu percebo que alguém se pudesse sentir ofendido com isto, depois de terem sido culpados, acusados de fake news, de coisas deste gênero. E já se tinha percebido isto para trás. Ele hoje voltou a dizer, e é a escolha de palavras e até a entoação com que as disse. Ele disse que decidiu contra o Educa, o adiamento da avaliação, porque o Educa lhe garantiu que dia 14 estava tudo pronto.
Portanto vai mexer no Educa.
Vai mexer no Educa.
Só pode.
É isto mesmo.
Tem de retirar consequências disso.
Exatamente. E a seguir vai dizer: o Júri Nacional de Exames, como o António referiu, tem as condições e a responsabilidade, e frisou a palavra, e a responsabilidade, de lançar as notas hoje. E começou a sentir-se o burburinho no Parlamento e ele repetiu: o Júri Nacional de Exames. Quer dizer, ele está a colocar uma responsabilidade sobre essas instituições que não a tem querido sequer para si. E isso acho que lhe fica mal. Fora os atrasos, fica-lhe mal.
Eu concordo completamente com o António e com o Alexandre. Acho que se as notas não saem hoje, não é uma derrota para o Júri Nacional de Educação, é uma derrota para o ministro e uma derrota pesada para o ministro. Mesmo que saiam agora ou nas próximas horas, o ministro nunca sai bem disto. Não tem forma de sair. Eu acho alguma graça que o Conselho de Ministros tenha tido o Leitão Amaro a dar a mesma garantia que o ministro da Educação já tinha feito, exatamente a mesma coisa. Que as notas podem sair mesmo depois de encerrarem as secretarias e as escolas. Mas só para perceber como é que isto funciona na prática, estão os diretores lá sentados todos na sala de diretores à espera que saiam as notas?
Sim.
À espera que chegue o ficheiro? E depois como é que é? Vão abrir a porta que já está fechada, porque com certeza que os funcionários já se foram embora, são eles que vão abrir a porta para os alunos entrarem para verem as notas?
Acreditamos que sim.
Que é estranho.
Mas agora, se as notas vêm, ao menos que sejam afixadas hoje.
Sim, claro, que sejam afixadas hoje. A escola não vai abrir ao sábado, isso não acredito. Portanto, ou é hoje ou é na segunda-feira. E se for na segunda-feira, corremos o outro problema, que é os alunos da segunda fase, que só têm um dia para se inscrever na segunda fase. Por quê? Porque o ministro recusou mudar prazos, como recusa mudar prazos em relação ao acesso ao ensino superior.
Mas como eu ouvia aqui numa rádio muito de referência, que é o Observador, que é há uns minutos, aparentemente esse dia depois pode ser corrigida a nota se houver necessidade disso, no processo de candidatura. Introduz aqui um certo ruído que não havia necessidade.
Vamos às notas, porque o António encontrou uma boa notícia e ainda quer falar dela. Vamos às notas.
Eu dou um 10 ao ministro.
Ao Sandro? Dou menos.
E dou um 10 com pena, porque eu acho que é mesmo um ministro que é mesmo reformar o sistema. É uma pena que seja com este, mas a responsabilidade obviamente é dele. É uma pena. É de lastimar que seja com o ministro que é mesmo reformar que isto aconteça.
Concordando totalmente com isto, gostando do ministro, achando que já fez muita coisa boa e quer fazer mais, aqui acho que de facto tem a grande responsabilidade de tudo e é um sete e é pelo sofrimento que também imagino que venha a tempo.
Eu vou dar um oito ao ministro, também achando que ele de facto era o ministro estrela e que tem uma enorme vontade de reformar, mas isto correu-lhe tudo muito mal.
Então para acabar a primeira parte com alguma nota de esperança, tu tens uma boa notícia de que queres falar, António.
Qual boa notícia?
Eu tenho uma boa notícia. Perdão, que eu estou aqui um bocado aflito.
Até se engasgou.
É de não ser por causa da boa notícia.
Até se engasga.
Peço desculpa.
Respire fundo, olhe para cima.
Olho para cima, já estou a olhar para cima.
Levanta o braço.
Não, isso não é preciso. O Fundo de Estabilização Financeira, em tempos em que se fala de fundos soberanos.
Desapareceu.
Nós temos um.
O Fundo Soberano desapareceu.
Desapareceu da agenda mediática. Espero que tenha desaparecido.
Ninguém sabe dele.
O Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, que é um fundo que vai sendo reforçado anualmente com os excedentes da Segurança Social do regime geral contributivo, isto é, resultado do sistema que é financiado com os nossos descontos, atingiu neste primeiro semestre os 49,3 mil milhões de euros, quase 50 mil milhões de euros.
É uma almofadinha.
É uma almofada muito significativa, dá 28 meses de pagamento de pensões do regime geral. Vocês sabem, a Segurança Social paga muitas pensões, as contributivas, as que descontamos nos nossos salários, e as não contributivas, de quem, por variadas razões, não pode contribuir ou não contribuiu o mínimo para ter essas pensões. Ainda assim, estes quase 50 mil milhões de euros pagam 28 meses de pensões. Existem para quê? Para garantir que se o país tenha um problema sério, durante este período, há capacidade do país pagar a quem está mais vulnerável a uma crise, que são os idosos, obviamente, que não trabalham e não têm outra forma de rendimentos. É uma ótima notícia, porque o fundo valorizou-se por duas vias: porque recebeu 5 mil milhões de excedentes da Segurança Social do ano anterior e porque beneficiou de uma valorização da gestão desta carteira. Vá-se lá ver como mercado de capitais. Cuidado, atenção.
Querem privatizar.
Andam a jogar com o nosso dinheiro na bolsa e não é que ganharam dinheiro com isto. Qual é o meu ponto? A boa notícia é chegamos a este valor. Há limitações à aplicação destes fundos em ações, o que obviamente concentra o risco. 50% destes 50 mil milhões estão em dívida pública portuguesa, portanto, o que é o risco se o país tiver um problema? Metade deste dinheiro também pode ter um problema. Acho que a gestão do fundo deveria ter autonomia para investir um pouco mais, em percentagem, em mercado de capitais, em ações. Tem mais risco, mas tem mais rendibilidade e, a longo prazo, isso seria desejável.
Em vários cestos.
Em vários cestos, mas tendo em conta mesmo esta limitação, há uma coisa que é importante: isto não resolve a demografia. O fundo está agora a beneficiar de um contexto económico, da entrada dos imigrantes nos últimos cinco, seis, sete anos. É esta a oportunidade para mexer na Segurança Social, porque é a oportunidade em que estamos a carregar um fundo, porque estamos a gerar excedentes para carregar no fundo. Não vai haver condições para mexer de forma estrutural na Segurança Social quando e se houver um problema, não vai ser nesse momento que haverá politicamente condições para mexer nas regras e a malta vai dizer sempre: "Atenção, temos ali um fundo, vamos protegê-lo, não vamos mexer". Eu acho que a boa notícia é este valor. A notícia ainda por apurar, a boa notícia por efetivar, é a oportunidade que temos, neste contexto, de alterar algumas regras da Segurança Social.
E a tua nota positiva?
Eu dou um 14 ao fundo. Ao gestor do fundo.
Aquele fundo soberano que anda desaparecido, será que foi parar a Barcelos? É uma pergunta que fica.
No aterro lado, dentro do aterro lado.
Estaria dentro do aterro lado ou numa piscina. É uma pergunta que fica pra segunda parte. Segunda parte de "E o Vencedor É", na rádio e também em vídeo no YouTube, hoje com a Judite de França, o António Costa e o Alexandre Borges. Judite, vamos começar pelo caso que envolve o ministro da Administração Interna. Todos os dias aparece, isto é cada cavadela, cada minhoca.
Eu ia dizer isso. Tal e qual, porque depois de termos conhecido o pecado original, que foi o fato de ter contratado alguém que trabalhou na Polícia Judiciária quando Luís Neves era diretor nacional da Polícia Judiciária, e eu acho que esse continua a ser o grande problema nesta história. Mas todos os dias puxa-se o fio e sai mais um pedaço. Agora a última é que o construtor não tem alvará. Não lembra a ninguém.
Desde março.
Desde março. O que significa que muitas das obras podem ter sido feitas sem alvará e portanto serão obras ilegais. Não lembra a ninguém esta história.
É um papel, não é?
É um papel, mas é mais um papel, além daqueles todos que o ministro tinha prometido mostrar e não mostrou ainda, pelo menos ainda, que são as faturas de todas as obras que foram feitas e daquilo que foi pago. Nomeadamente daquilo que foi pago, pelo que se percebe, terá sido pago em dinheiro e, portanto, essa também não é conhecida, essa fatura.
Desculpem só ajudar o pessoal, tendo em conta a dúvida que se calhar muita gente tem. Eu percebi que ele até já mostrou as faturas todas, não mostrou foram os comprovativos de pagamento.
Não. Mostrou uma listagem.
Fez ele próprio uma listagem com o nome da fatura.
Em Excel.
Não foi as próprias faturas, foi uma listagem das faturas.
Ou seja, eu recebi esta e esta e esta.
Com este valor, este e este, para tais três empresas.
Mas nós ainda não as vimos.
Ok, muito bem.
E pelo que se percebe, Luís Montenegro quer que ele mostre essas faturas. Não se percebe é quando, porque o ministro disse que será só no final das obras e ele não tem condições para estar à espera muito mais tempo. E eu acho que esse é o problema, é que à medida que o tempo vai passando, o problema vai se avolumando. Agora o terreno é numa zona protegida, a casa está numa zona protegida, não tem licença para fazer a piscina, não havia tanque nenhum no sítio onde foi feita a piscina, portanto, não há forma de ter confundido aquilo com uma piscina. Tudo isso vai avolumando uma história muito complicada em volta de Luís Neves, que eu continuo a achar que começa no dia em que Luís Neves achou por bem contratar um amigo que por acaso fazia obras para a Polícia Judiciária.
António.
Pois, eu acho que, de facto, há aqui uma dimensão. Ouvia também há pouco Luís Rosa a detalhar todos os pormenores do processo. Há seguramente uma dimensão judicial que está em curso, em avaliação. Não sei se será judicial nesse sentido. A PJ abriu uma auditoria interna para perceber o que se passou.
Estou a tentar perceber como é que o outro lado, a galera.
A galera foi parar a Barcelos e sobretudo a um camião daquela construtora.
Sim, quer dizer, quando não faltava mais nada.
Nada. Parece uma coisa um bocado caricata.
Apreendido numa operação contra o tráfico de droga que acaba em Barcelos.
Como é que tu dizias há pouco, Alexandre, qual era?
Os Flintstones.
Os Flintstones, pois. Parece os Flintstones também.
Também.
Parece uma coisa, de facto. O tema de não ter alvará, na verdade, nós tendo em conta o histórico, que já é público há uns dias, da sucessão de falências dolosas.
Não ter pago uma taxa não é o mais importante.
Até parece uma coisa de somenos, de facto. Mas completa o quadro. O pecado original de estarmos na inauguração de uma obra da PJ. Olhe o senhor que está aqui, agora não quer vir ali num instante dar uma opinião. É tudo muito mal explicado. O que isto tudo resulta? Vamos lá ver. Luís Neves, eu creio que disse aqui no "Venceré" que achava mal a nomeação, não exatamente pelo que se dizia, que ele sabia coisas, porque era diretor da PJ e sabia coisas de outros. Não, é porque o cargo de diretor nacional da PJ é demasiado importante para ser percepcionado como um trampolim político. Isto é, para que se crie a ideia de quem vai para diretor nacional da PJ está a um passo de chegar à equipa A, na perspectiva de Luís Neves, aparentemente é essa, que é ser ministro. E isso encerrava logo um problema. Mas Luís Neves, de facto, tinha uma reputação pelo trabalho que fez na PJ, é inquestionável, do ponto de vista da análise pública, e de idoneidade e de confiança. Ele perdeu-as. Portanto, nós estamos numa fase que parecia impossível. O país teve duas ministras que saíram por razões diferentes, mas que em momentos e também com contextos diferentes. Aliás, a última, aparentemente, saiu à força, a meio da meia-noite do descalabro das tempestades da Kristen, decidiu bater com a porta quando ainda não se percebia bem até onde aquilo podia ir. Pensávamos: não era possível ter uma ministra da Administração Interna que ficasse numa situação política pior do que aquelas duas ministras ficaram. Faz-me lembrar, nesta altura, o estado a que chegou o ministro Eduardo Cabrita, por razões também diferentes, mas ficou numa situação politicamente penosa e aquilo já parecia um castigo. Parecia que António Costa, primeiro-ministro, estava a castigar Eduardo Cabrita, mantendo-o em funções.
E arrastou-se.
Arrastou-se até ao insuportável. Para o próprio, uma injustiça, desde logo para o próprio, porque também pagou caro isso. Mas nesta fase, Luís Neves, o que está em causa é mesmo a idoneidade e a confiança que podemos ter num ministro da Administração Interna. Isso é muito grave, independente da dimensão judicial que isto pode vir a ter ou ter os inquéritos.
Retira-lhe peso político.
É mais do que retirar peso político, porque isso pode acontecer e ser recuperado. A idoneidade, a confiança, são coisas mais fundas.
Vamos antes de ir pro Alexandre, às tuas notas, António e Judite.
Eu dou um oito ao ministro Luís Neves, ou ainda ministro Luís Neves.
Eu dou um sete.
Alexandre.
O caso é realmente muito difícil e dá pano pra mangas. Eu já sei que não sou a pessoa mais dotada de poder de síntese, mas percebendo tudo e concordando, claro, muito com a Judite e com o António, nós já começámos neste assunto na semana passada e se recordam, eu disse logo que o tanque era uma piscina, e disse isto antes de aparecerem as fotografias, porque era evidente que isso estava no discurso do ministro. E isto pra mim diz mal do ministro, mas também diz mal do que se passa à volta. Isto é, agora vai se ver as fotos e dizer: "Ah, não, não estava aqui nenhum tanque antes." Claro que não estava, era evidente que não estava. Ou seja, acho que há dois lados. Há um lado que se vai agravando, que é aquele que a Judite indicava. De facto, até ver, salvo outra coisa qualquer, que é o abuso total de informalidade da relação de um diretor nacional da PJ com aquele empreiteiro em particular. Que pelos vistos se estende à história do atrelado, que dá vontade de rir, porque de facto é daquelas histórias que só em Portugal. Até falta charme às nossas histórias de potencial corrupção. É um tanque e um atrelado. Arranjem um iate, arranjem coisas como deve ser.
E uma autocaravana daquelas luxuosas.
Exatamente.
Com jacuzzi.
Arranjem mansões. A história em si reveste-se depois de uma espécie de pitoresco que me custa no meio disto tudo, porque há um certo embaraço e há uma certa vergonha alheia nisto. Mas há um lado que é grave, ainda não sei se é gravíssimo, que está na raiz disto, que é um excesso de informalidade do ex-diretor nacional da PJ com esta pessoa. E que contrata para um trabalho pessoal, uma pessoa que está a trabalhar para ele em termos profissionais e que ainda por cima agora calha ser ministro, pior. Mas depois disto, há um processo a conta-gotas nesta história, que se percebe que é a conta-gotas. Todos os dias sai mais uma coisinha que já se viu. Agora é o tanque que não era. Depois é o alvará. Apesar de tudo, o homem diz, se é de março para agora, ou na maior parte das coisas que envolvem esta empresa, ou se ele tinha dívidas, então temos que ir ver uma coisa muito mais grave. Temos que ir ver como é que o Conselho Nacional de Segurança, é assim que se chama, Gabinete Nacional de Segurança, vistoriou e autorizou esta empresa vezes sucessivas a poder construir para o Estado, neste caso em concreto para a PJ.
Os períodos das licenças podem não coincidir. Poderia estar válido ainda. Estamos só a falar do alvará que é de março. Mas o que está para trás?
Mas isso não tem a ver com o Luís Neves. Está aqui a ser colocado, o que se pode dizer é que entre 2019 e 2024 foram atribuídas não sei quantas obras a esta entidade pelo Estado, com as entidades competentes para o fazer, que consideraram, e já responderam aos jornalistas por estes dias, que nenhum dos motivos apontados é razão atendível para excluir aquela empresa ou outra qualquer. Mas se há mais problemas, acho que temos que ir vê-los todos e atrás. Agora passo para a outra parte, que é a parte em que eu me torno no Otávio Machado nesta conversa. Acho que o Luís Montenegro precisa, no mínimo, de tentar fazer uma limpeza de balneário ao que se passa dentro do próprio PSD, porque não sei se recordam, há um detalhe um pouco estranho nesta conversa, que é: André Ventura, que justamente como há pouco lembrava o António, com inaudita moderação, diz hoje que não é a altura de pedir a demissão do ministro da Educação, pede a cabeça do ministro da Administração Interna.
O PS faz o contrário, é engraçado. O PS sugere a demissão.
É um facto.
Sugere a demissão do ministro da Educação.
E há um grande silêncio dos partidos em relação a esta história.
Mas do PS em particular.
Do PS em particular. Do PS em particular eu concordo contigo, mas acho que isso nos leva a outro lado que tem a ver com Viegas Nunes. Porque esta conversa começa, para mim, com Viegas Nunes e a guerra do Chega com Luís Neves e com o PS a defender Viegas Nunes também. Isto é, a escolha do Luís Neves para ser o novo diretor, e já tinha sido antes do SIRESP. André Ventura, quando de repente desencanta uma suposta ameaça que Luís Neves lhe terá feito no Parlamento, a dizer, uma ameaça que é: "Vais pagá-las, vais engoli-las todas", quando André Ventura está a dizer que ele quis ocultar, que o MAI ocultou a informação do relatório sobre o estado do SIRESP. Isto foi no fim de maio, dia 27 de maio, o debate. Apareceu André Ventura com isto esta semana. André Ventura disse: "Foram membros do governo que me chamaram a atenção para isto". André Ventura, que pode ser a pessoa mais venenosa do mundo e está a ser, mas disse isto. Ele disse: "Foram membros do governo e deputados próximos do ministro da Administração Interna que me chamaram a atenção para isto". E republica o vídeo com aquelas legendas que, lá está. Já disse isto noutro lado, repito aqui, isto vem dos autores de "Eu dou-te porrada, queres?" sobre o Hugo Soares, que fizeram esta acusação e afinal o que o Hugo Soares tinha dito era: "Eu dou-te a morada, queres?" Portanto, as leituras labiais do Chega valem o que valem. Mas fez esta referência. Na mesma semana em que Miguel Relvas também diz, na segunda-feira: "Talvez haja gente na área do governo que ache que o governo deva pedir uma moção de confiança." O que é que André Ventura de repente aparece ontem e pede uma moção de confiança. Começa a haver aqui uma estranha comunicação entre partes do governo e coisas que André Ventura depois faz a seguir. Otávio Machado.
Estás a ser muito conspirativo.
Muito conspirativo.
Mas muito interessante.
Já só temos um minuto. Queres dar alguma nota à tua conspiração?
A minha teoria é muita boa. Se é verdade ou não é, não sei. Vamos ver. Mas por enquanto, eu nem sei muito bem o que classificar aqui, confesso.
Então, Judite, dá-te 30 segundos para falar de sondagens. Aproveita.
Duas.
Duas sondagens.
15 cada um.
20 segundos.
Vou dizer o que eu acho mais significativo das sondagens. É que as pessoas não querem eleições. E eu acho que isso fica claro na sondagem. Portanto, não estão nem contentes com o governo, nem descontentes com o governo, nem contentes com a oposição, mas basicamente aquilo que percebem é que nada mudaria se houvesse eleições e, portanto, querem estabilidade e continuam a sinalizar que não têm vontade de eleições antecipadas.
E tens uma nota?
Tenho uma nota para esta sensibilidade e bom senso das pessoas, vou-lhes dar um 15.
Eu só ia acrescentar um ponto. As sondagens também revelam uma coisa: uma certa recentragem, ainda que com o Chega relevante, do PS e do PSD. Isto é, o Chega perdeu, apesar de ter sondagens diferentes, perdeu uma certa posição e parece que houve um regresso de eleitores potenciais do Chega, nomeadamente ao PS.
E amanhã há mais. Eu venço de orelhas, manhãs 360, um pouco mais tarde, porque é fim de semana, é às 10h30. Dão notas aos protagonistas o Luís Rosa e o Vítor Matos.