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Há notas para atribuir aos protagonistas da atualidade. Hoje, na edição de fim de semana de "E o Vencedor é?", contamos com Eunice Lourenço, editora de política do Expresso, e António Costa, publisher do Eco. A moderação está a cargo do Miguel Cordeiro.
Eunice, António, bom dia, bem-vindos.
Bom dia.
Bom dia.
Movimento 2031, apresentado como apartidário, criado por João Cotrim Figueiredo, antigo líder da Iniciativa Liberal, eurodeputado eleito pela Iniciativa Liberal e, até ao domingo passado, candidato presidencial apoiado pela Iniciativa Liberal. 2031 é o ano das próximas eleições presidenciais, é isso que está no calendário. Eunice, este novo movimento pode ser considerado quase como uma oposição informal que está a ser criada ao próximo presidente da República?
Bom dia. Não sei se será uma oposição informal ao próximo presidente da República, mas como pretende congregar vários setores do centro-direita, será mais um fator de fragmentação e de divisão num espaço que já está muito dividido. E acho que será também um fator de alguma ultrapassagem da própria Iniciativa Liberal. Por muito que Cotrim Figueiredo tenha dito que isto não é um partido, não é um passo para um novo partido, a verdade é que o seu diretor de campanha, Bernardo Blanco, em entrevista à Sic Notícias, já tinha apontado para um movimento, um partido, e mais, tinha dito que é preciso uma nova liderança do centro-direita. Conjugando isso com o que Cotrim disse, com os ataques a Luís Montenegro, que Cotrim Figueiredo fez logo na noite eleitoral, e que Bernardo Blanco também fez, ao considerarem que Luís Montenegro não é o líder que o centro-direita precisa. Tudo isto conjugado, parece-me que há aqui uma grande vontade de Cotrim Figueiredo, e de várias pessoas à sua volta, de ir ocupando um espaço que nesta segunda volta não tem um candidato, como eles próprios dizem, mas que é um espaço que é transversal à Iniciativa Liberal, ao PSD, ao CDS, que ainda eventualmente existe, e que pretende dar resposta àquilo que esta primeira volta também deixou muito claro, que é: há uma crise no centro-direita. Se é uma crise de liderança, se é uma crise de estratégia, acho que isso deve ser discutido e devia levar a uma reflexão dos vários partidos deste espaço. E depois ainda há aqui mais um dado, que é: o movimento chama-se Movimento 2031, mas quem vai ao site, o slogan que lá está é "Portugal em Frente", o que dá PEF, algo que nos faz lembrar PAF, para quem ainda se lembra da aliança Passos-Portas, que foi às eleições de 2015. E tendo em conta que há tanta gente a querer ser herdeiro de Sá Carneiro e de Passos Coelho, Cotrim, pelos vistos, também parece querer ser um desses herdeiros, reclamar ser herdeiro, porque ainda que diga que não, isto é uma atitude de quem se considera, se não dono, pelo menos líder de 900 mil votos. E portanto, acho que, por um lado, Cotrim é um dos vencedores da primeira volta pelo inesperado terceiro lugar e quase que disputa da segunda volta. Acho que o empenho político é sempre de saudar e de louvar, mas eu ontem, enquanto ouvia o ex-líder da Iniciativa Liberal falar na Sic Notícias, confesso que agora vou ser aqui um bocadinho beata, só me lembrava de um livro da Bíblia que diz: "Há um tempo para tudo, um tempo para semear, um tempo para colher, um tempo para rir, um tempo para chorar." E no mesmo livro também há uma citação, muitas vezes citada, passo o termo, que é: "A verdade das vaidades tudo é vaidade." E acho que ainda não seria o tempo do lançamento deste movimento. Talvez fosse de alguma contenção esperar, pelo menos pela segunda volta, mas se calhar Cotrim Figueiredo quis desde já marcar terreno também em relação a Gouveia e Melo, que esse sim, já tinha admitido criar um movimento.
António Costa, sobre este assunto, a tua opinião e queria perceber também contigo se não achas que se está aqui também a criar uma Iniciativa Liberal 2.0 e se isto acaba por não tirar força também à própria Iniciativa Liberal.
Não, eu não sei se concordo exatamente com tudo que disse a Eunice.
Como é que não concordas?
Sim, convém, devo concordar, enfim, não tem mal nenhum se concordarmos, pelo contrário. Mas eu concordo com um ponto que disseste, que eu não sei se este é o tempo, no meio de uma campanha, para anunciar um movimento destes. Enfim, parece às tantas um pouco precipitado. Porque às tantas o que se admitia com o anúncio que o próprio Cotrim Figueiredo fez nas redes sociais de que iria fazer um anúncio no meio de uma campanha, é que se admitiria que poderia, depois de ter dito na noite eleitoral que não fazia o endosso do seu voto, que clarificasse essa posição pelo timing. Por mais nada, mas pelo timing. Portanto, eu subscrevo esse teu ponto. Acho que fazer este anúncio no meio de uma campanha eleitoral, que na verdade não começou, começa amanhã formalmente, creio, parece-me um pouco deslocado. Mas onde é que eu não concordo? Parece-me que às vezes as explicações mais simples são as mais óbvias e acabam por ser as verdadeiras. Eu acho que o nome diz tudo. Cotrim Figueiredo está a lançar a candidatura presidencial para daqui a cinco anos. Pode parecer precipitado e independentemente desta nota sobre o timing nesta semana, não me parece precipitado, parece-me muito acertado que o faça logo a seguir às presidenciais. E por quê?
Logo a seguir à primeira volta.
Não, à segunda volta. Ao resultado. Eu esperaria o resultado e deixava espaço a que hora a campanha, independentemente do resultado que viesse a suceder, percebo que ele o anuncie já. Por quê? Porque é evidente que uma leitura, independentemente de com algumas nuances dos resultados finais de 8 de fevereiro, veremos com que dimensão é que António José Seguro pode ou não ganhar estas legislativas e se de facto pode acelerar ou não uma mudança no sistema político português, porque é isso que está em causa. É uma mudança no sistema político português. A verdade é que Cotrim Figueiredo, parece-me evidente, olha para daqui a cinco anos e antecipa que, num dos cenários, não creio que ninguém possa dizer que vai acontecer, temos André Ventura como primeiro-ministro, temos a AD e o PSD a perder força tal qual conhecemos hoje e Cotrim Figueiredo a emergir como uma figura da direita que pode ser o protagonista contra uma mais do que previsível recondução do presidente em exercício, a confirmar-se, António José Seguro. Portanto, eu não creio que Cotrim Figueiredo esteja a substituir-se mesmo, não acho que seja esse o objetivo. Se Cotrim Figueiredo quisesse voltar à Iniciativa Liberal, é tal a popularidade de Cotrim Figueiredo dentro da Iniciativa Liberal, que voltaria no dia seguinte. É evidente que criaria uma cisão e criaria problemas internos. É óbvio.
Um ponto é: então achas que efetivamente é um movimento mais para este sentido de criar uma oposição à presidência?
E é o contrário da substituição da Iniciativa Liberal, portanto também caberá a Mariana Leitão fazer pela vida para que este movimento não acabe por substituir a Iniciativa Liberal. Isso também compete à líder da Iniciativa Liberal. Mas na verdade, pode funcionar e creio que é isso que está subjacente à estratégia de Cotrim Figueiredo. É mesmo alargar o espaço, não exatamente da Iniciativa Liberal, mas do voto do eleitor liberal ou disponível para votar num candidato com este perfil, porque passaremos a ter o próprio, ele disse que não é partidário, mas não é apolítico e portanto vai cavalgar obviamente uma visão do país assente nos valores liberais que obviamente também o próprio defende. E portanto eu acho que aqui o que estamos a assistir é o lançamento de uma candidatura presidencial, antecipando, que isso é que é novidade, uma visão que o próprio está a revelar de que com a refundação da direita, que é evidente destes resultados, o candidato apoiado pelo PSD teve 11%. E portanto, isto cava a ideia de que é mais fundo. E aliás, num parêntesis, digo, é por isso que eu tenho alguma dificuldade nesta neutralidade de Montenegro sobre estas eleições. Não é porque eu acho que deva apoiar António José Seguro, é porque o Chega e André Ventura têm um objetivo: é substituir o PSD, é acabar com o PSD e tomar conta desse espaço. Cotrim Figueiredo está a olhar para isto e a perceber quem é que nós podemos admitir que dentro de cinco anos pode ser candidato presidencial. O próprio Montenegro? Enfim, veremos. Vamos scenarizar, obviamente, porque estamos a cinco anos, ainda nem temos candidato presidencial agora. Há eleições antecipadas, Montenegro perde as eleições, o que é que vai fazer? Vai estar três anos, vai desaparecer para a vida política, vai pôr a candidatura presidencial no seu horizonte. Portanto, Cotrim Figueiredo está a antecipar os vários cenários e a dizer: "Eu tenho que começar a trabalhar já hoje em cima destes 900 mil votos que tive e que não os posso alienar." São do centro-direita. Sim, exato. E portanto, eu não creio que seja para substituir, nem para criar problemas à Iniciativa Liberal.
Mas sabendo sempre que uma eleição em que há um presidente que pode ser recandidato é sempre muito mais difícil.
Claro, obviamente, e por isso mesmo se justifica que o próprio, se tem mesmo essa ideia, é o que eu leio disto, é que comece a trabalhar já hoje. Isto é, não há tempo a perder para não deixar fugir os 900 mil votos. Estou a pensar agora em voz alta e a refletir mesmo agora em direto. Talvez isso explique que o próprio- Talvez tenha a pressa de Cotrim ou o almirante. Talvez o almirante, embora eu acho que o almirante não está exatamente nas prioridades da decisão, nas razões da decisão, mas na pressa de dizer estes 900 mil, independentemente Do candidato em que votarão na segunda volta. "Não se esqueçam que eu estou aqui, votaram em mim e eu vou continuar por aí." Só faltava dizer isso como o Santana Lopes. Nós percebemos essa linda interação com Santana Lopes muito animada. Portanto, às tantas também vai andar a dizer: "Eu vou andar por aí." E vai, com este movimento vai mesmo.
Nós estamos já a falar de 2031, de umas eleições presidenciais apenas já pra próxima década, mas ainda temos as eleições presidenciais a decorrer. A campanha começa amanhã pra segunda volta. E nisso tu queres falar também de António José Seguro, nesse sentido e deste homem que venceu a primeira volta e que parece estar bem posicionado para vencer a segunda, de acordo com as sondagens.
Sim, António José Seguro é claramente o vencedor da primeira volta, não só pelo resultado, mas por vir lá de trás. É um regresso político que deve ser um caso de estudo de alguém que esteve 10 anos na sombra, noutra vida, consegue regressar e contra uma parte do seu próprio partido, contra as expectativas, passa à segunda volta como primeiro e com uma vantagem em relação ao segundo, também ela inesperada. E agora as sondagens dão-lhe até a possibilidade de bater o recorde de Mário Soares. Acho que tudo isto deve ser salientado e obviamente atribuído a António José Seguro, que fez uma campanha sem grandes erros e uma campanha em que se conseguiu manter-se acima de muitos dos casos, de muitas das tricas e picardias, e eu acho que isso o favoreceu bastante. É acusado de não dizer muita coisa e é um dos ataques que agora André Ventura provavelmente vai acentuar. Acho que ainda assim, António José Seguro tenta manter uma posição equilibrada, moderada em relação à maioria dos assuntos, mas diz coisas definidoras, sobretudo sobre código laboral e a sua insistência na saúde também me parece de assinalar. Parte para esta campanha em clara vantagem, mas há perigos nesta segunda volta. Acho que a concentração de apoios, ainda que natural, sobretudo tendo em conta que a disputa é entre Seguro e Ventura, e não é uma disputa ao centro. Mas pode, por outro lado, dar a ideia de que já ganhou, além da ideia de isto é uma amálgama tão grande que uns à esquerda desmobilizam por achar que eles já têm muitos apoios à direita, outros à direita não votam por ele ter demasiados apoios à esquerda. E é importante, não só para o exercício do cargo presidencial, como para a saúde da democracia portuguesa, que esta segunda volta não tenha uma abstenção elevada, tenha grande mobilização, porque a legitimidade e a autoridade do presidente também vêm dessa mobilização. Por isso é que um presidente tem que ter mais de 50% dos votos. Ora, 50% de 30% dos votantes é muito pouco. Espero que a mobilização se acentue, que haja uma abstenção baixa e que, portanto, os 50% mais um, ou os 60, ou os 70, sejam de uma larga faixa do eleitorado. Até porque quanto menos votarem, também maior pode ser a percentagem do candidato que venha a ser derrotado. Portanto, isto pra dizer que Seguro é claramente um vencedor, que parte para a segunda volta com esta vantagem, que as sondagens também já lhe estão a dar, mas que há perigos pelo caminho que é preciso evitar ou contornar. Aliás, Rui Tavares, em declarações ao Expresso esta semana, lembrava o Brexit e a primeira vitória de Trump como exemplos de surpresas que aconteceram porque se julgava que outro resultado já estava garantido.
Duas ou três notas rápidas. Eu acho, de facto, que António José Seguro está demasiado presidencial pra quem está em campanha. Na verdade, ainda não começou a campanha. E eu acho que excesso de confiança normalmente dão maus resultados. Obviamente que também parece que a abstenção é o grande risco de António José Seguro para ter uma votação mais ou menos reforçada, considerando eu, com os dados que temos hoje, até com as sondagens que já saíram, que a probabilidade de António José Seguro ganhar é muito elevada. Creio que esta procissão de apoios a António José Seguro, que alarga muito, de facto, o universo da candidatura do ex-líder PS, reforça a ideia de vitória. Mas para André Ventura, o resto que me dizia o Nuno Garoupa Fora do baralho desta semana, o André Ventura começa a votação, creio que era o Nuno Garoupa, agora não tenho a certeza. Vai para esta campanha pensando também no dia 9 e precisamente na reconfiguração da direita e, portanto, tem objetivos que não são exatamente os mesmos de António José Seguro. E perder com 25% e o mesmo número de votos que teve na primeira volta ou perder com dois milhões de votos é obviamente, do ponto de vista das consequências políticas, muito diferente. Última nota: acho que António José Seguro tem sido, há o seu registo, cuidadoso, contido nas opiniões que vai tendo e não definitivo, protegendo-se. Está na sua natureza já e percebe-se agora ainda mais. O caso, que é mesmo uma exceção, talvez o mais evidente, nos temas internacionais também vai sendo mais claro, mas na política interna é mesmo na área do código laboral. E António José Seguro diz uma coisa que eu confesso que me surpreende, vindo de um presidente, de um líder partidário, que é dizer: "Não havendo acordo na concertação social, eu chumbo o diploma". Ora, se esse ponto é levado ao limite, o que o Presidente da República, digamos, provável Presidente da República, está a dizer é que a concertação social se substitui ao Parlamento. Porque nas matérias de política económica, de política social, de política fiscal, elas passam todas pela concertação social. O que António José Seguro está a dizer é que o Parlamento deixou de contar, isto é, que a representação parlamentar que os portugueses deram, goste de António José Seguro ou não, ao PSD, ao Chega e à Iniciativa Liberal, valem menos do que a concertação social? Ora, isto não faz sentido nenhum. E para quem ainda por cima diz que quer, e eu acho que é convictamente que o diz, estabilidade política, o que está a dizer cria uma enorme instabilidade e, aliás, reforça o papel. Eu acho que a concertação social tem um papel muito importante, mas não é substituto de Parlamento. Eu não votei no presidente da CIP, nem no presidente da UGT, nem no presidente da CGTP. Eu votei nos deputados que ali estão. Ora, não pode valer mais a concertação social que o Parlamento. Corre o risco, aliás, como nós sabemos, de ver repetida a votação de diplomas chumbados e voltar a passar. Isso cria instabilidade. Portanto, eu acho que tem sido redondo e contido, em algumas matérias percebo, no que deve, nesta matéria ter sido claro e se calhar devia ser mais contido. Enfim, acho que obviamente também devo acrescentar que vejo muito mal parada a possibilidade de haver qualquer tipo de reforma laboral, tendo em conta os resultados e os sinais que André Ventura já deu. E portanto, eu acho que é uma das reformas, enfim, chamemos-lhe assim, concordes ou não, pois é outra discussão, é uma das reformas que podia avançar e que eu creio que vai ficar pelo caminho, consequência direta destas eleições.
E acho que uma das incógnitas ou uma das curiosidades para vermos depois da segunda volta é o peso que André Ventura vai dar ao seu resultado na segunda volta. E ele, em entrevista ao Expresso esta semana, diz que o resultado dele tem de ter um reflexo em funções executivas, também terá um reflexo em negociações parlamentares, certamente, e a vida do governo e de Luís Montenegro não se irá facilitar.
Muito mais difícil. Não, de todo.
Temos de avançar para as nossas notas, até porque já estamos a chegar ao final do nosso tempo. Eunice, nota para Cotrim e também para Seguro.
Um 11 para Cotrim, porque ainda que considere o timing um bocadinho errado, acho que Cotrim teve um ótimo resultado na primeira volta e acho que toda a participação política é de saudar. Depois, para António José Seguro, um 16, que não é mais alto por ser preciso ter cuidado com os perigos de vitórias antes de o serem.
Pois eu ia dizer que dava exatamente ao contrário. Deste um 11 a Cotrim, eu dou um 12 a António José Seguro, porque eu acho que apesar de tudo, ele está a fazer a campanha que deve. Ainda ontem tive aqui a oportunidade de dizer, acho que esta recusa em fazer debates rádios era mais um debate. Não lhe fica bem. Eu não vou dizer que põe em causa a democracia, não vou também escalar isto para um nível que eu acho que não tem, mas acho que está-se a dar ares presidenciais quando tem que falar com os portugueses. Eu percebo, pode vir com esta narrativa da proximidade e portanto justificação para não ter debates. Portanto, eu pensando bem, dou mesmo exatamente os votos ao contrário dos teus. Eu dou um 16 ao Cotrim, dou 11 a António José Seguro.
Está feita esta edição de "E o Vencedor é". Bom fim de semana.