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"Vencedores" na Rádio Observador, com Judite França e hoje Alexandre Borges e Nuno Gonçalo Poças. Vamos falar de José Sócrates, do IRS de Sócrates e do julgamento da Operação Marquês. Vamos também falar das presidenciais e da entrevista de ontem de António José Seguro na SIC. Mas começamos pelo relatório preliminar sobre o acidente no elevador da Glória, em Lisboa. Alexandre, há algum vencedor? Encontras algum vencedor neste relatório?
Suspeito que o próprio GPIAAF, Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários. São três As, mas é um nome muito musical. E por que é vencedor? Porque acho que estamos todos muito habituados. Este ainda é só o relatório preliminar. O relatório final é só daqui para o ano. Não se percebe exatamente por que tanta distância temporal. De qualquer modo, isso já estava previsto. Este relatório preliminar, sendo preliminar, é muito mais conclusivo, acho eu, do que aquilo a que estamos habituados, que são uns relatórios que sacodem, que dizem umas coisas vagas para aqui e para ali, não chegam a lado nenhum. Aqui é uma lista de responsabilidades, sendo que, ainda assim, o relatório assume que ainda não estão verdadeiramente apuradas as causas do acidente. Mas acho que, no fundo, a grande conclusão que podemos tirar do relatório é como é que isto ainda não tinha acontecido antes e como é que isto ainda não tinha acontecido em todos os elevadores. Porque vamos percorrer mais ou menos a lista de conclusões do relatório. O cabo do elevador não correspondia à especificação para aquele veículo. Não correspondia sequer a um equipamento destinado ao transporte de pessoas. Tinha esta nota específica: não poderia ser usado com destorcedores nas extremidades, que é uma coisa que passámos todos a saber que era exigida no caso do elevador da Glória. Alguém comprou, portanto, o cabo errado em 2022. Alguém não deu por nada. Alguém mandou comprar um cabo igual para o elevador da Lavra em 2023. Alguém, mais uma vez, não deu por nada. Alguém voltou a comprar um cabo igual para substituir este na Glória em 2024, porque este tinha chegado ao fim do seu tempo de vida, alguém substituiu por um igual. Outra vez, ninguém deu por nada. O cabo fornecido para o elevador de Santa Justa, que não é idêntico a este, mas diz o relatório que também não corresponde às especificações no que toca à graduação para aquela articulação. Também ninguém deu por nada. Diz o relatório que a utilização de cabos multiplamente desconformes, por todas estas razões que estamos a dizer, deve-se a várias falhas acumuladas nos vários momentos, portanto, no processo de aquisição, de aceitação, de aplicação, e para os quais a empresa não soube encontrar explicação durante esta investigação. E também diz o relatório que só enviou os documentos tarde e a más horas, que permitiram estas conclusões. De qualquer modo, prolongam-se as conclusões do relatório. Diz que também a manutenção, portanto, isto estamos só a falar da questão dos cabos, que é um desastre. Manutenção feita com métodos arcaicos que não estão escritos em lado nenhum, que são literalmente, diz o relatório, passados de geração em geração. Parece uma piada. Parece uma tradição que havia lá naquela aldeia, o senhor fazia o doce assim e depois o filho fez assim e aquilo se alguém emigra, depois a tradição perde, porque já ninguém sabe fazer. Aqui não existia um manual. Eram uns funcionários que explicavam aos seguintes como fazer aquela manutenção do cabo. A empresa que fazia a manutenção destes equipamentos para a Carris, a MNTC, diz o relatório, não tem o necessário corpo de engenharia com o conhecimento técnico especializado. Portanto, como é que é esta entidade aceite, contratada para fazer esta tarefa?
Ou seja, estás a descrever uma receita para o desastre.
Para o desastre. Nunca foi testado o sistema de travagem, a redundância, portanto, se falhassem os cabos, nunca foi experimentado se o sistema de freios funcionava. A ideia que temos, o que é descrito é que o guarda-freios tentou acionar todos os travões e nada resultou. Portanto, também não existia isto, nunca foi testado. No fim de tudo isto, o que é que diz o relatório? Diz que apesar de tudo, esta não é a causa, porque, e isto acho que no fundo é aquela coisa que é do milagre ou do mero acaso, porque diz que apesar de todas estas inconsistências, o cabo originalmente comprado funcionou durante 601 dias, o cabo que estava no elevador da Lavra funcionou durante 606.
Até ser parado.
Exatamente, até ser parado. E este aqui rebentou ao fim de 337 dias. Portanto, alguma coisa aconteceu, que a gente vai perceber qual é, mas que tem a ver com a história da pinha, destas peças que ficámos a saber o nome.
E do trambolho. Finalmente soubemos o que é um trambolho.
Que estava debaixo do trambolho, exato. Já tínhamos usado essa expressão.
Usamos essa expressão geralmente em outro contexto.
Em sentido figurativo. Dito isto tudo, qual é depois a resposta da Carris? A Carris culpou a administração anterior, porque o cabo errado foi comprado em 2022, em março, e esta administração só entrou em maio. Mas vamos recordar que é esta administração que depois renovou em 2024, que o aplicou em 2023 ao da Lavra, etc., e que nunca se apercebeu ou nunca deu qualquer espécie de retorno aos ecos dos trabalhadores que diziam, sabia-se que o cabo teve que ser cortado em 4,5 m porque distendia muito mais.
Esticou.
Exatamente.
É um cabo de aço que estica.
Exatamente. Portanto, a Carris culpa a administração anterior, porque eles é que estavam cá, é que compraram isto, não fomos nós. Despede o diretor de manutenção e culpa também a empresa de manutenção, que diz que pelos vistos não cumpriu o calendário.
E vai daí, qual é a conclusão que tu tiras de tudo isto?
Eu não compreendo como é que a Carris não assume verdadeiramente as responsabilidades disto. Não é possível. Isto me faz lembrar outros casos que nós temos, particularmente na questão da externalização. É como na TAP, quando se descobre a indenização Alexandra Reis, de meio milhão de euros, etc. Quando se andou por ali, depois, de repente, a administração culpou o escritório de advogados. "Não, nós contratamos um escritório de advogados pra tomar as decisões por nós e eles disseram que isto estava muito bem". Eu não percebo por que pagamos administrações de empresas públicas, porque essa podemos dizer no plural, somos nós que pagamos as administrações das empresas públicas com ordenados fenomenais, muito superiores tipicamente aos dos primeiros-ministros, presidentes, etc, para que depois seja ainda retirada mais uma fatia do orçamento para externalizar as suas responsabilidades e depois imputadas a estas pessoas. Eu não sei por que precisamos de administrações. Então passamos simplesmente a contratar diretamente as consultoras, os escritórios de advogados ou as empresas de manutenção e poupamos ao menos na administração.
E a Carris ainda tem técnicos. Ou seja, há ali pelo menos um double check.
Que também falhou, segundo eles.
Aparentemente, não houve uma fiscalização do trabalho desta empresa.
Exatamente.
Ou seja, não houve double check.
Não houve double check, porque essa supervisão está a cargo da própria Carris, no caso do elevador da Glória e no caso do elevador da Lavra, penso eu, estes dois. E por quê? É esta questão, que agora falava o ministro há pouco sobre a questão do IMT, por que isto não está debaixo da supervisão do IMT? Provavelmente, já todos vocês tenham percebido.
Aparentemente, porque são monumentos nacionais.
Não é delirante? Não é maravilhoso? Portanto, isto não é tratado como qualquer outro meio de transporte público, porque é um monumento. É um monumento feito desta forma anterior a 1986, portanto, isto respeita-se essa forma como está feito.
A Passarola também é um monumento e toda a gente sabe que não voa.
Aqui está. Porque se a gente quiser tratar, ou se quiseres, pode usar a Torre de Belém. Se formos invadidos pelos russos, vamos usar a Torre de Belém como o nosso baluarte de defesa. Foi pra isso que ele foi preparado. Portanto, se a gente quer tratar uma coisa como monumento, acho que deve tratá-la como monumento, isto é, imóvel pra ser visitado, fotografado. Se é pra ser usado pro fim pro qual foi criado, ou o Castelo de São Jorge, vamos usar o Castelo de São Jorge pra nos defender.
Esse foi refeito.
Exato, e mesmo assim, se calhar temos que pensar noutras coisas. Mas isto eu acho que é delirante. Dizer: "Não, isto é um monumento, não lhe podemos tocar", mas então avisem as pessoas a não se deitarem. Olhe, você entra aqui por sua conta e risco. Se não é verdadeiramente supervisionado, isto é um monumento.
Assinam um termo de responsabilidade e levam um capacete daqueles das obras, é melhor. Judite.
É um relatório arrasador. De facto, é um relatório absolutamente arrasador. Aponta descuido, negligência e, portanto, o que se vai fazer com o conhecimento que temos agora? Eu acho que isso é que era importante perceber. O que vai acontecer não só à administração da Carris, mas o que vai acontecer com todos os outros elevadores que estão parados.
E os elétricos.
E já pra não falar nos elétricos, porque também não sabemos se os elétricos são-
Também são monumentos nacionais.
E se são devidamente fiscalizados. Não sabemos. Agora podemos pôr tudo em dúvida. Eu acho que esse é o problema.
O relatório, aliás, refere-se a isso especificamente, diz: "Os carros elétricos da Carris estão nas mesmas condições, não têm enquadramento legal para a regulação técnica e de segurança dos sistemas elétricos que circulam em via não reservada", etc. Portanto, isto são uma série de acidentes à espera de acontecer. Aliás, acho que é isso que isto mostra. Isto não foi um acidente, foi um desastre. Exatamente, temos é muita sorte.
Nuno, e há responsabilidades políticas aqui ou não?
Nós já falamos aqui tantas vezes sobre isso, eu acho que vou manter mais ou menos aquilo que eu tenho mais ou menos ideia de já ter dito. Tudo isto me parece mais ou menos Portugal no seu melhor. Eu acho que desde aquele primeiro pré-relatório, que tinha saído lá do gabinete.
Um dos problemas é que nada disto nos espanta, enquanto cidadãos.
Não, porque eu acho-
Desculpa. A mim não me espanta.
Este relatório espantou-me.
Nuno.
Não, mas eu acho que não espanta, eu percebo o que o Ricardo está a dizer nesta lógica. Acho que tudo isto parece um bocadinho Portugal no seu melhor, que há sempre alguém que não viu, alguém que devia ter visto e também não viu, alguém que se calhar olhou pra aquilo e disse: "Isto aguenta".
Põe mais um arame que isso aguenta.
É isso, pomos aqui um prego. Alguém que está a tentar arranjar uma torradeira e se puser aqui uma garrafa a prender a mola, isto dá. É um bocado isto, só que neste caso a coisa é só mais grave, só, porque morreram ali pessoas.
16 pessoas.
E há aqui um dano muito maior sobre isto. Eventualmente, até podemos aqui discutir agora no plano jurídico, se de facto houve aqui só negligência ou até a própria existência de algum dolo eventual, ou seja, de alguém que configurou a possibilidade daquilo correr mal e deixa estar. Portanto, isso depois vai ter que ser tudo analisado e discutido, etc. Logo se verá. Responsabilidade política, no limite, há todos. Toda gente que teve aquele pelouro, embora a responsabilidade política, no limite, aqui também a responsabilidade política é da escolha da administração da Carris. Escolhas da administração da Carris têm a ver com as empresas que foram contratadas e, lá está, com a existência ou não dos double checks que a Carris devia ter feito e a quem nós pagamos, ou seja, por onde nós enviamos dinheiro dos nossos impostos pra pagar a técnicos especializados, engenheiros, etc., que lá estão, que devem fazer esse trabalho. E se calhar, aparentemente, nem sequer lhes pediram isso. Isto abre aqui uma escada muito grande de responsabilidades, pode ser uma responsabilidade muito difusa. A política no meio disto tudo, se calhar ainda é a última.
Não há de ser aquele diretor intermédio.
Claro, no limite, foi a senhora da limpeza que pôs o papel do relatório não sei onde.
Porque todos vamos tendo a noção disto, que obviamente tudo isto custa muito dinheiro, as empresas tentam ter a melhor gestão possível e muitas vezes a gestão possível passa Por poupar em todo lado. E isto são transportes públicos.
Na segurança, com certeza, não se pode poupar.
Certo, mas essa é a vida de toda e qualquer empresa.
Mas isto pode ou não levantar uma dúvida também em relação a outros meios de transporte, como os comboios, o metro, os autocarros?
Eu ainda não vi o Perturbações.pt, por exemplo. Mas era interessante perceber em que estado é que está o metro.
Levanta essa dúvida. Mas mina a confiança no sistema.
Com tanta perturbação, nós já falámos aqui outras vezes.
São empresas diferentes.
São empresas diferentes, são meios de transporte diferentes, claro.
Claro, mas são empresas que nós pagamos.
Sim, e das quais nós esperamos. Ou seja, é uma esperança. As pessoas esperam, de uma forma endêmica e natural, que a segurança está ali assegurada, passe o pleonasmo.
Mais do que garantida.
Sim, não é suposto ser aqueles países em que de repente nós estamos habituados, não sei onde, na Índia, descarrilou um comboio com 800 milhões de pessoas. Não, nós habituamo-nos a isso, uma espécie daquele conforto de primeiro mundo, fazer uma série de coisas em que não pensamos no dia a dia, porque damos por adquirido que é seguro. E aparentemente não é, e é muito grave.
Alexandre, há consequências políticas ou não a ter depois disso?
Eu acho que fundamentalmente, eu não teria nenhuma dúvida de que a administração se deveria demitir. Se quiserem esperar o relatório final, ok, seja. Mas a primeira reação não indica que se sintam minimamente afetados por isto. É um sacudir, de facto, responsabilidades. Aliás, eles dizem qualquer coisa do gênero, agora não encontro exatamente a declaração, mas é algo do gênero: "Não nos cabe a nós fazer estas coisas." Como se a administração não tivesse que ter a competência técnica para fazer aquilo. Mas então, quem é que tem que ter? Têm que ter eles perante a empresa que contratam pra o fazer, etc. E perante os contratos que fazem, de facto, não podem oferecer um diretor intermédio em sacrifício.
Como se isso bastasse.
Como se isso bastasse, exato. E têm que assumir eles, porque, de facto, eu acho que nisto não chega à política. Isto acho que desde o dia um, acho que não se pode pedir ao presidente da Câmara de Lisboa que seja o responsável por estas coisas. A menos que tivesse contratado uma administração que se viesse a comprovar que se viesse a comprovar que era incompetente. Não pode, isto não é imputável a ele. Acho que fica mal, mais uma vez, a Carlos Moedas, como ficou na altura, fica mal também vir logo a correr dizer:
"Isto é questão técnica apenas."
"Isto é uma questão técnica, não é política." Não dizia nada. Era óbvio, estávamos todos a ver que era uma questão técnica.
Se dizia, dizia que ia demitir a administração da Carris.
É isso, ou então dizia isso.
Há uma coisa que o relatório também diz. O próprio do gabinete, que tu dizes na perfeição a sigla, queixa-se que não teve acesso a toda a informação.
Sim.
Ora, isto ainda é mais grave.
Exatamente.
É a cereja no topo do bolo.
A administração terá enviado, a Carris enviou tarde a informação e pelos vistos nem sequer enviou toda. Eu acho que o papel do presidente da Câmara nisto, e isto é aquilo que imputo a Carlos Moedas ou à Câmara de Lisboa em geral, o que tinham de fazer era de falar para as famílias das vítimas, para as pessoas hospitalizadas, para a população em geral. Deviam ter uma palavra de solidariedade com estas pessoas, de conforto, de garantia de que vão investigar isto até o fim, aquelas coisas. Mas este é o papel que a Câmara tinha que fazer.
Vamos à tua nota, Alexandre.
Olha, como eu agora dei para o simbolismo, a carreira do avaliador agora era a 51. Pronto, isto eu sei, sai da escala, é 20 valores. Fica 5,1 arredondado a cinco pra Carris, 15 para o GPIAAF.
Eu também dou uma excelente nota ao relatório porque até eu consegui ler o relatório.
Qual é a nota?
Que é uma coisa rara, dou-lhe um 18.
18.
Sim, eu também vou dar um 16 ou um 17 ao relatório.
Judite França, o que te surpreendeu nesta entrevista?
Nada.
Obrigado. Voltamos amanhã.
Não, o que achaste?
Não, nada me surpreendeu.
Sim, eu sei.
Vou continuar, mas foi uma boa entrevista.
Foi só pra fazer um apontamento de humor, porque as pessoas agora estão no carro, precisam de uma ajuda.
Fizeste bem.
Sobretudo aqueles que vão a caminho do supermercado a esta hora com a lista de compras ainda pra despachar.
Certíssimo. Dito isto, ficamos a saber o que António José Segura pensa sobre diversos temas, e alguns eu não sabia, portanto, foi útil também. Como foi muito longa, deu pra ir a muitos temas.
Pensei que ela ia dizer outra coisa, que deu pra ir às compras, justamente, pôr os fones.
Deu pra ir lavar a louça.
Desculpa.
Estamos impossíveis.
Ela quer fazer um comentário sério.
Eu ia tentar, estou a tentar.
Doutora Judite França, por favor, conclua.
Isto pra dizer que, por exemplo, um dos temas que trouxe, dois, aliás, ainda não tinha ouvido nenhum candidato presidencial a falar. Falou da violência doméstica e falou da igualdade salarial pras mulheres. Olha, dois temas que eu achei interessante. Foi clarinho sobre como não vai apresentar propostas porque não é candidato a primeiro-ministro, e eu acho bem que não queira ser primeiro-ministro em Belém. Agora, enfim, indo ao fato de vocês estarem a fazer piadas, eu percebo por quê.
Piadas, não.
Porque é sobre o tom, que é monótono. Há quem diga até que é monocórdico. Eu até posso dizer que é soporífero. Podemos utilizar vários adjetivos. Agora, eu acho que o conteúdo é preferível à forma. Acho sempre que o conteúdo é preferível à forma. E apesar de ser redondo na forma como aborda alguns assuntos, acho que conseguiu passar a mensagem daquilo que queria dizer. Ou seja, acho que foi uma entrevista que o próprio deve ter saído satisfeito, porque disse aquilo ao que vinha e disse aquilo que queria dizer.
Trazia algumas mensagens bem estudadas.
Trazia algumas mensagens bem estudadas. E eu acho que ser moderado nos dias correntes está altamente subvalorizado
E António José Seguro quis mostrar que é uma espécie de antítese de Marcelo. Chegou a criticar a banalização do uso da palavra do Presidente da República. E eu acho que a seguir a um presidente da República que é assim, costuma vir um presidente da República que é assado. E portanto, eu acho que até nisso António José Seguro tem alguma sorte, porque é muitíssimo diferente, para bem e para mal, de Marcelo Rebelo de Sousa. E portanto, eu acho que, de facto, a entrevista correu-lhe bem, passou a mensagem que queria e mostrou de si aquilo que queria. E portanto, eu acho que isso merece uma boa nota.
Queres avançar já a nota?
Quero dar um 15 a António José Seguro.
Um 15. Nuno Salpo, vocês viste a entrevista?
Vi. Queres me fazer mais alguma pergunta?
Só essa. O que achaste?
Só essa. Podes passar ao Alexandre.
Passamos a outro?
Passamos ao Alexandre, já.
Estamos no modepacismo, é?
Vi.
Despacismo.
Despacito. Alexandre, o que tu achaste? O Nuno quer mesmo falar sobre o IRS.
Exato. É a questão fundamental do dia. O que eu achei da entrevista?
Sim.
Confesso que não vi toda, mas também pelas razões apontadas, porque era longa. Mas aquilo que vi e aquilo que posso relacionar com o fenômeno que tem acontecido nos últimos dias, que é de facto, Seguro tem vindo um pouco à tona, há temporadas, havia a temporada em que o almirante é que ia limpar isto tudo. Depois houve a temporada até à semana passada, André Ventura candidato, isto vai ser a dois e tal, e de há uma semana para cá, provavelmente ajudado pelos resultados autárquicos do CHEGA e obviamente pelo anúncio do apoio formal do PS à sua candidatura, nos últimos dias fala-se muito de Seguro. Também se fala muito de Seguro-
Pelo apoio do centro-direita. Eu acho que o apoio de um certo centro-direita.
Muito bem.
Isso também lhe deu algum-
Hype
Sim.
À falta de uma palavra melhor em português.
Élan.
Élan. Essa palavra tão portuguesa. Obrigado.
Isto parece um sketch.
Exatamente.
E ainda bem.
Não és só tu que sabe fazer humor.
Ainda não chegámos ao Sócrates.
Eu não sei fazer humor.
Ainda não chegámos ao IRS, é isso mesmo.
Eu sou uma pessoa divertida.
Eu tenho, pronto. Eu tenho sobre isto-
E eu ainda não disse nada.
Tu ainda não disseste nada. Isso está a ser a parte mais engraçada.
Está a ser muito engraçado.
Este está a ser o humor mais sofisticado, é bem verdade. Eu diria, de facto, sobre tudo isso, sobre esse élan em torno de António José Seguro nos últimos dias, particularmente na questão do apoio ao centro-direita, que a sensação que tenho é que andamos todos à procura do candidato da imaculada conceição do político. Elegemos isto à grande virtude que procuramos num político, que ele seja concebido sem pecado. E isto não é de agora, isto já vem de trás. Mas no caso de António José Seguro, sinto isso hoje em dia, isto é, as características que lhe são admiradas. Acho que a direita que está a apreciar António José Seguro, suspeito que gosta fundamentalmente dele porque a esquerda não gosta muito. Como a esquerda está a rejeitá-lo, ele torna-se um pouco mais simpático à direita. E como a direita tem tanto por onde escolher, que para mim, isso roça o absurdo nestas eleições. Você é a direita? Olhe, tem aqui um candidato que é mais PSD impossível. Marcos Mendes, toma. O PSD é isto, está aqui, Marcos Mendes. Uma vida inteira a ser PSD. Não gosta do PSD? Não faz mal. Temos aqui uma direita mais extremista, desta que agora está na moda, André Ventura, está aqui para si. Não, a verdadeira direita, como se reivindica, está aqui. Tem aqui André Ventura, conservador, eu diria reacionário, aqui tem. Não gosta desse, não. Gosta de uma direita mais sofisticada, cosmopolita, liberal. Tem aqui João Cotrim de Figueiredo. Não, não quero nenhum. Olhe, hoje não sei, apetece-me uma coisa diferente. Dê-me lá o António José Seguro.
Queres que eu te explique?
Obrigado. Estava a ver que não intervéns. Obrigado.
Mas eu acho que essa escolha, pelo menos para mim, mas é uma escolha pessoal, mas acho que não é muito difícil. Desse rol de candidatos todos, primeiro, um deles não quer ser presidente da República, embora seja candidato, que é o André Ventura. E portanto, eu não voto em pessoas que não querem ser eleitas para o lugar que concorrem.
Tens dois.
O João Cotrim de Figueiredo quis ser deputado ao Parlamento Europeu há um ano, portanto, imagino que seja aquilo que ele de facto quer ser e portanto também não quer ser presidente da República e está a fazer momento de afirmação pessoal e portanto também não me interessa eleger alguém ou ajudar eventualmente a dar votos a alguém que também não quer ser presidente da República.
Não sei se ele não quer ser presidente, mas ok.
Acho que se fosse não rejeitaria, mas o homem foi eleito há um ano para ser deputado ao Parlamento Europeu.
Certo, ele não contava com uma queda de governo entretanto.
Eu já não me lembro muito bem se votei nele ou não, mas se alguém votou no João Cotrim de Figueiredo para ser deputado ao Parlamento Europeu, ficava um bocado chateado de eleger pessoas que afinal querem ser outra coisa.
Por acaso acho que não, porque entretanto a situação política mudou bastante. Tiveste legislativas em Portugal, tiveste uma mudança na liderança da própria Iniciativa Liberal em consequência dos seus resultados nas legislativas.
Sim, mas há um ano a Iniciativa Liberal já, imagino, nos bastidores, pensava quem é que poderia ser candidato.
Tu sabes quem era. Tu sabes quem era. Mariana Leitão. Isso foi noticiado e avançado.
Ainda temos de ir ao IRS do Sócrates.
Foi, mas a Mariana Leitão também podia continuar a ser candidata como o André Ventura é. Isso seria mais estranho. Pois, não sei. O André Ventura é candidato.
Mas o André Ventura o que é que não faz no Chega? Ou quando ele não vai, o que é que acontece?
E o João Cotrim Figueiredo o que é que não faz na Iniciativa Liberal?
Não é líder do partido há algum tempo, já estão os dois a seguir.
Foi deputado ao Parlamento Europeu e agora é candidato a Presidente da República.
Desculpe, e o Marques Mendes?
Marques Mendes eu acho que tem muito a ver com isso. Se alguém gosta tanto do PSD, quer alguém que seja mesmo um PSD na Presidência da República, claramente, mas eu não quero.
Portanto, o slogan de campanha para o Seguro é: "Por exclusão de partes".
Não é por exclusão de partes. Em primeiro lugar, é um órgão que é unipessoal e, portanto, depende de uma série de características pessoais e de todos os candidatos que estão em cima da mesa, eu pessoalmente aprecio mais o perfil do António José Seguro para aquele cargo em concreto. Se me dissessem: "Votarias no António José Seguro, líder do PS, para ser primeiro-ministro?" Não. Pronto, é só isso. Mas há 10 anos eu também não votei no Marcelo Rebelo de Sousa para ser presidente da República, nem há 10, nem há cinco.
Deixaram de fora o almirante.
Eu até votei.
Não identificado necessariamente com a direita.
Mas o almirante também já se identificou com tudo. Já foi o candidato da direita a sério, depois já foi o candidato do centro, depois já foi o candidato do centríssimo.
Diz que a sua referência é o Mário Soares.
E agora o Mário Soares, aquilo dá para tudo. É o arrebanhador.
Bom, vamos à nota.
Nota para António José Seguro. Só se me permites dizer isto, as qualidades que eu vejo em António José Seguro: dá um bom genro, um bom sogro, um bom contabilista, um bom gestor de conta, um bom vizinho. Não tenho a certeza que são aquilo que eu gostaria para presidente. Mas isso, de facto, dou-lhe 12.
Judite, há de teres nota.
Já dei nota.
É verdade, peço desculpa. Nuno, e José Sócrates, que se surpreende como a justiça funciona e também se surpreende com a pipa de massa que tem de pagar de IRS.
Eu já não me lembrava disto, mas de facto foi notícia há uns anos, daquelas escutas que eram divulgadas pelo Correio da Manhã. Hoje vi a notícia no Observador, porque esteve-se a discutir na operação Marquês o uso que ele fazia da conta bancária, etc. E a expressão é exatamente esta: "Tenho de pagar o meu IRS e fiquei um bocado boquiaberto. Acho que começa a passar para o outro lado. Acho que o Estado nos rouba de forma violenta. Tenho de pagar 40 e tal mil euros." Tirando os 40 e tal mil euros, eu acho que qualquer pessoa neste país subscreveria isto.
Finalmente me senti de acordo com o José Sócrates.
Sim. Já que também estamos aqui quase a acabar, eu vou-te citar José Sócrates pela segunda vez. Eu também acho que o Estado me rouba violentamente e o segundo é: "Pacista é a tua tia."
É um grande final para este "You Bestore". Amanhã há mais, nas manhãs 360, depois das 08h30 e depois ao final da tarde também isto promete. Obrigado e até amanhã.