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E o Vencedor É, na Rádio Observador, hoje com o Luís Rosa, o Anselmo Crespo e a Raquel Abecasis. Estamos na rádio e também em direto em vídeo, no YouTube e nas redes sociais do Observador. Hoje vamos falar sobre o 1º de Maio, que amanhã se assinala. Ainda do relatório sobre o andamento do PRR, um terço dos projetos estão em estado crítico ou preocupante, e estamos apenas a quatro meses do encerramento do programa. Mas vamos começar pelo estado da economia portuguesa, com os números hoje divulgados pelo INE sobre o crescimento económico e a inflação. Anselmo, é melhor deixar para o ano a compra do carro e da bicicleta?

Eu já vendi a minha bicicleta, mas sim, se fosse no meu caso, eu faria isso mesmo. Não porque eu acho que nós devemos ter aqui um discurso alarmista ou excessivamente preocupado, mas porque eu acho que a incerteza, neste momento, é a palavra mais realista que nós podemos usar. E quando vivemos um período de incerteza, acho que cautelas e calos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Preocupam-me, sobretudo, duas coisas na economia portuguesa, e acho que os números de hoje do Instituto Nacional de Estatística vêm confirmar isso. Preocupa-me, há muitos anos, uma excessiva dependência da economia portuguesa do consumo interno. E por isso também sou muito crítico das políticas que defendem que a economia deve crescer, sobretudo, assente no consumo interno. E isso preocupa-me, desde logo, por uma razão simples, porque nós temos uma estrutura da economia muito desigual, onde uma parte muito significativa dos trabalhadores, aquilo que nós tipicamente chamamos classe média, tem vencimentos que andam a rondar os € 1.000, € 1.500 brutos, e é a isto que nós chamamos classe média. Quase um quarto da população dos trabalhadores está muito próximo do salário mínimo. Se formos aos pensionistas, são quase dois terços que andam com pensões até aos € 600. E depois temos, para cima disto, fatias muito pequenas da população, o que significa que há uma desigualdade salarial crônica na economia portuguesa e em situações destas, em que há uma subida da inflação. Nós vivemos isso em 2022, ainda agora o Nogueira Leite e a editora de economia do Observador lembravam isso mesmo. Quem sofre, de facto, são estas camadas da população. E a economia acaba por sofrer também, porque se a esmagadora maioria da população está nesta fasquia de salários, naturalmente que deixa de consumir ou passa a consumir menos, e isso também se reflete na economia. Claro que a queda das exportações explica-se, em grande medida, pela situação internacional que estamos a viver e por aquilo que aconteceu na região centro, porque é uma zona muito exportadora, mas apesar de tudo, é conjuntural. O problema é que na grande contribuição pra economia, que teve precisamente com o consumo interno, nós não temos trabalhadores, não temos uma população com capacidade pra aguentar este tipo de choques externos e, portanto, vamos acabar por ter o Estado a subsidiar direta ou indiretamente estas pessoas, porque não há outro caminho. E depois, no caso das empresas, apesar de tudo, há uma fatia de empresas que eu até admito que possam ter uma capacidade de resiliência maior, mas voltamos ao mesmo, que é: mais de 90% das empresas portuguesas são pequenas e médias empresas. E as pequenas e médias empresas, como é evidente, estão hiperdependentes das grandes e aquelas que, apesar de tudo, ainda tenham alguma capacidade de internacionalização ou de exportação, estão também dependentes do contexto externo. Isto tudo para concluir o seguinte: eu acho que a economia portuguesa é muito pouco resiliente para aguentar este tipo de choques externos. E eu até acho que o Luís Montenegro tem estado a fazer uma gestão muito ponderada.

Pois, ia dizer que não há razão pra alarmar, não é?

Não é a gestão da dialética, é a gestão das medidas políticas. Acho que ele não embarcou, não se pôs a passar cheques, a torto e a direito.

Melhor ter o apoio do Lagarto, nesse sentido.

Exatamente. Não se pôs a distribuir dinheiro sobre a economia para tentar capitalizar as boas graças do país. Mas na dialética, precisamente aquilo que é o discurso que eu ouvi hoje de Luís Montenegro e que eu ouvi no debate quinzenal, parece-me pouco avisado. Não que eu ache que o primeiro-ministro tenha que vir com um discurso derrotista ou catastrofista pro país. Acho que ele devia ser um bocadinho mais ponderado ou, se quiseres, tão ponderado no discurso como tem sido ponderado nas políticas. E eu não acho que ele esteja a ser muito ponderado no discurso. Eu ouvi Luís Montenegro esta semana dizer no Parlamento: "Tenha calma que a economia vai continuar a crescer nos próximos anos e nós vamos continuar a reduzir os impostos." Eu ouvi aquilo e confesso que me arrepiei um bocadinho. Eu espero que seja verdade. Eu não quero estar aqui a dizer: "Isto não vai acontecer", não faço a menor ideia. Agora, eu tenho é uma notícia pra dar: não faço eu e não faz Luís Montenegro. Ele também não faz a menor ideia se isto vai acontecer.

Luís

Bem, eu concordo e subscrevo o que o Anselmo vai dizer agora.

Eu ia falar sobre o Aguiar Branco só para discordar.

Temos já criar um novo tema para termos algum debate. Mas eu concordo, acho que a situação é muito incerta em termos internacionais. E eu concordo com o Anselmo quando ele diz que o governo tem sido inteligente a gerir a crise, ou seja, vai tomando medidas face às necessidades. Agora, isso tem um efeito. Nós, por exemplo, vimos as últimas duas sondagens, que eu me recordo da Raquel dizer que era muito raro ouvir aqui o vencedor não vencedor, mas é de facto muito raro que um partido da oposição esteja a liderar as sondagens ao fim de dois anos dos situacionistas, de quem está no poder. Isso tem a ver com o preço que Montenegro está a pagar pelo facto de os eleitores estarem a perder poder de compra. E os dados da inflação revelam isso mesmo, porque além da questão do número global, que é do aumento de inflação de 3,4%, o que interessa aqui é: o aumento dos combustíveis foi de 11% no primeiro trimestre. E os produtos não transformados, não por acaso ouvimos Alexandra Machado a falar dos produtos não transformados, não processados e processados.

Alimentos.

Os frescos.

Não mistures alfaces com lápis.

As alfaces subiram 7,5%. Ou seja, isto é uma perda de poder de compra real das pessoas. É por isso que mostram depois o quase cartão amarelo nas sondagens. Agora, há aqui uma questão que eu acho que é importante, que é a reunião de hoje do BCE, e queria complementar precisamente com isso. O BCE decidiu não aumentar a taxa diretora. Agora, é claro, pelas declarações que Lagarde fez e a presidente do BCE, quando dizem isto, eles são muito diplomáticos, têm que ter muito cuidado não é com as palavras, é com todas as sílabas que dizem, porque os mercados reagem automaticamente. Quando ela diz que os governadores dos bancos centrais da zona euro debateram abertamente e profundamente sobre os juros, está a dizer que na próxima reunião vai aumentar os juros. Isso é claro.

De resto, as Euribors já começaram antes de faltar luz.

Isso é um problema que agrava o problema político do governo e agrava acima de tudo, quem é que interessa mais? Os portugueses, o bolso dos portugueses, porque efetivamente as taxas de juro vão subir. Vamos ver se vão subir uma ou duas vezes até ao final do ano, mas a taxa de inflação na zona euro está nos 3% e o objetivo é 2%. Isso não são boas notícias para os portugueses e para o governo. Qual é o lado positivo que eu queria só enfatizar aqui para o povo, que me parece importante também dizer isto. E até isto tira o tapete um bocadinho do discurso do próprio Partido Socialista aqui em Portugal, que vê agora no Pedro Sánchez um Churchill, realmente o novo Churchill do século XXI.

Ao que nós chegamos.

Exatamente. A Christine Lagarde deu um recado claro para alguns governos da zona euro e o recado é claro para Pedro Sánchez. Diz ela que alguns governos da zona euro não terão ouvido muito bem, se fosse o meu caso até era uma boa desculpa, mas não terão ouvido muito bem, porque tomaram medidas muito abrangentes para um problema que se espera que seja temporário. Agora, a Espanha reduziu brutalmente o IVA sobre os combustíveis, que é isso que o José Luís Carneiro queria fazer aqui em Portugal, contra as regras da União Europeia, ou seja, não pediu autorização à União Europeia e arrisca-se a um processo grave na União Europeia. Portanto, resumindo e concluindo, são notícias que tivemos hoje na área econômica que são preocupantes, nomeadamente para o governo, mas lá está, isto tem que ser gerido tudo de forma muito cautelada, porque a incerteza é muita.

O engraçado nisto é que eu vi socialistas esta semana a partilhar nas redes sociais sondagens em Espanha que davam Pedro Sánchez e o PSOE à frente, todos contentes, porque, na verdade, a estratégia de Sánchez está a funcionar para aquilo que é o efeito que ele quer, que é sobreviver politicamente.

Funciona em sentido inverso do que dizem as nossas sondagens, porque Luís Montenegro está a sofrer nas sondagens exatamente porque não toma estas medidas que necessariamente seriam ainda piores para a nossa economia a médio e longo prazo. Mas enfim, eu queria fazer a ponte entre este tema e o tema de outra notícia que tivemos hoje, que era a notícia mais esperada, infelizmente, desde que o PRR aterrou em Portugal.

Mas eu queria te pedir para deixares o PRR para a segunda parte. Queria ainda que, do ponto de vista político, olhar para esses números e para o que o Anselmo e o Luís estiveram a dizer, porque não sei se isto será muito justo ou não, mas quando ouvimos Luís Montenegro dizer: "Não há caso para alarme, está tudo bem.", quando ouvimos o discurso que fez no debate quinzenal, a primeira coisa que me vem à memória é: o país está melhor, os portugueses é que ainda não estão a sentir.

É. Eu confiaria mais no discurso de Miranda Sarmento, que não tem falado, do que propriamente no discurso político.

Não falha.

Exatamente, que não falha. Mas eu acredito que a prudência vem, sobretudo, de Miranda Sarmento. E portanto, apesar de facto nos lembrarmos sempre que o autor destas declarações agora é esse mesmo autor do país está melhor, as pessoas é que não sentem. A verdade também é que quando ele disse isso, era verdade. E eu espero que, isto para dizer o quê? Espero que apesar do otimismo e do discurso meramente político para não dar espaço à oposição para ganhar terreno nesta questão, que ele esteja, apesar de tudo, ancoradoA informações que o Ministro das Finanças lhe tem dado, da forma como pretende gerir. Eu há bocado estava a ouvir o António Nogueira Leite e que sublinhava a importância de independentemente das medidas não estarem já no terreno, estarem já a ser preparadas. E apesar de tudo, tenho fé que Miranda Sarmento já tem um plano traçado de acordo com os cenários que se forem colocando em cima da mesa e que esses planos têm em conta o tal equilíbrio das contas e sobretudo a questão da redução da dívida, e que sejam de facto medidas, porque há um caminho que tem sido seguido, que parece-me que está completamente fechado e decidido no governo, que é não alinhar nesta ideia do IVA zero para o cabaz essencial, etc., de onde nós deduzimos que o caminho será muito mais aquele que António Nogueira Leite dizia, que são apoios localizados às faixas de população mais necessitadas.

As declarações da Christine Lagarde é um chumbo total e absoluto a medidas como o IVA zero, por exemplo.

Pois.

Já vamos voltar à questão do PRR no arranque da segunda parte. Estou muito generoso, ainda vou dar 30 segundos aqui ao Anselmo Crespo para uma menção honrosa à ideia de baixar a idade da reforma.

É muito rápido, ainda bem que não preciso de mais de 30 segundos. Eu gosto muito, como sabem, do Paulo Ferreira, mas hoje não resisti. Eu sei que este tema já foi amplamente, provavelmente até ontem aqui no Vencedor, debatido, só que eu não resisti quando ouvi hoje o Paulo Ferreira dizer que a proposta de André Ventura era profundamente ignorante. Eu ia no carro e desatei-me a rir. Eu só queria dar uma notícia: André Ventura não tem nada de ignorante. Ele só não quer é aprovar o pacote laboral. E como já não dava para apresentar aquela cartada do referendo à imigração, que foi a cartada que ele jogou em 2024, e entretanto também a Lei da Nacionalidade já foi, e entretanto a lei da imigração. Havia três leis.

Nacionalidade e a pena de prisão.

Ainda vamos falar da prisão perpétua e da castração química também.

Exatamente. Que será as duas próximas que ele vai pôr como condição quando não quiser aprovar qualquer coisa ao governo. Portanto, ele sacou esta da cartola como podia ter sacado outra coisa qualquer e, portanto, ele não tem nada de ignorante. Isto é só mesmo para evitar aprovar o pacote laboral.

É caso para dizer que nem a gastar dinheiro somos bons?

Isso não somos, de certeza. E eu acho que aquilo que hoje a Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR nos diz é, no fundo, a crônica de uma desgraça anunciada desde o primeiro dia em que o PRR foi anunciado com grande pompa e circunstância em Portugal. Devem se lembrar todos daquela graçola do atual presidente do Conselho Europeu, que dizia: "Já posso ir levantar o cheque." Levantou o cheque, mas não sabemos o que é que fez ao cheque, porque foi também António Costa, pelo menos ele gabou-se sempre disso, que trouxe a genial ideia de implementar um plano de recuperação e resiliência para toda a União Europeia na situação pós-Covid e que isto sim ia tornar, eu há bocado estava a ouvir o Anselmo a falar da resiliência ou da falta de resiliência da nossa economia, este plano com mais de 22 mil milhões de euros que vieram da União Europeia para Portugal, destinava-se a aumentar a nossa resiliência. Houve sempre preocupações, o anterior presidente da República manifestou isso desde o início, queria controlar muito bem como é que ia ser aplicado o PRR e que estava muito preocupado com a forma como isto ia ser canalizado em Portugal, e os resultados a quatro meses do final estão à vista. Certo é a aplicação de metade deste valor. Ou seja, só 50% dos projetos é que verdadeiramente já estão ou terminados ou bem encaminhados. Os outros variam naquele semáforo que vai entre o amarelo e o encarnado vivo, ou seja, os amarelos talvez cheguem lá, os cor-de-laranja provavelmente não chegam e os encarnados não chegam de certeza. E onde é que nós temos os encarnados? Isto era para pôr o país e a nossa economia mais resiliente. E foi muito criticado também na altura, e também é um parêntesis que eu quero fazer, que grande parte destes investimentos, em vez de irem para o setor privado, não iam para o setor público para resolvermos problemas que tínhamos estruturais e que tinham que ser resolvidos. Quais eram os principais? SNS, habitação. São as duas áreas em que a execução está pior e em que há mais semáforos encarnados. Qual é um dos melhores indicadores? É a capitalização e inovação empresariais, que são aquelas verbas que foram para o setor privado, embora é justo dizer que a qualificação de competências também tendencialmente terá ido para o setor privado. É justo dizer que há uma área pública ou duas em que as coisas correram menos mal, as infraestruturas e a gestão hídrica. Mas terão sido pequenas infraestruturas, porque as grandes, o que é que fazia parte deste plano do PRR, onde ia haver um grande investimento e um salto fantástico na nossa economia? Novo Hospital de Lisboa, já lá devem estar 10 primeiras pedras.

Acho que estão aos calhaus.

Duas linhas de metrô, nem uma só, e a barragem do Pisão no Alto Alentejo, que também ficou pelo caminhoNas sublinhas deste relatório que a comissão faz, aquilo que nós percebemos é que para além desta fraquíssima execução e da previsão de que as notícias não vão melhorar muito nos próximos quatro meses, há, e vou citar o que diz o Pedro Dominguinhos, que é presidente desta comissão: "É muito preocupante a redução de ambição nalguns setores que limita drasticamente o potencial de transformação." Nós ontem estivemos aqui a falar do PTRR e falámos do Nuno Palma e da sua tese de como o dinheiro europeu tem sido a nossa desgraça. E eu acho que isto é a prova provada de que ele tem razão, porque de facto não é atirando dinheiro para aqui que nós resolvemos o nosso problema, e o nosso problema é efetivamente uma incapacidade que nós temos e que eu acho que depois em escadinha escorrega pelo país todo e até pelo setor privado e por toda a nossa organização interna, que é uma incapacidade de concretização. Tem a ver com burocracias, tem a ver com falta de organização interna e incapacidade de gestão, tem a ver com uma série de fatores que é prioritário nós resolvermos, porque não são os muitos milhões, agora foi anunciada uma verba ainda maior do que esta para o PTRR, e de facto é legítimo que todos nós receemos que daqui a uns anos estamos na mesma e não temos mais resiliência. Eu dou um seis à incapacidade de concretização nacional, que acho que é uma doença crônica.

Eu queria falar deste assunto também. Vou tentar dizer outras coisas, mas não discordando do que tu estavas a dizer, eu acho que é o nosso grande fado. Grandes planos, grandes ideias, má execução, mau planeamento, desorganização, burocracia, enfim, as explicações são sempre as mesmas. Mas eu, por acaso, gostava só de concretizar um pouco mais aqueles projetos que estão em estado crítico, que é na área da saúde, como a Raquel acabou de dizer. Investimento em cuidados de saúde primários, que é algo que nós precisamos muito. Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e Rede Nacional de Cuidados Paliativos. Vou citar o relatório, fragilidades estruturais de conceção. A culpa não é do setor privado, quem concebeu esses planos? Fragilidades estruturais de conceção. E depois na questão da habitação, como a Raquel também disse.

Em relação aos cuidados continuados e paliativos, só dar um pormenor que eu também tinha aqui e não disse, que é: das 7400 camas, até porque a última vez que estive aqui com o Anselmo falámos disso, que estavam previstas para isto, conseguiram-se concretizar 2800. E destas 2800, uma grande maioria não está a uso, porque há uma falta de articulação entre o Ministério da Saúde e o da Segurança Social. Ou seja, as camas estão prontas, mas o Ministério da Segurança Social ainda não autorizou que elas fossem postas no mercado.

Eu vou estar agora, não sei se isto tem a ver com o PRR ou não, não sei, mas vou dar um exemplo do que tu agora acabaste de dizer. Olha, na minha rua está um prédio inteiro, que foi construído, ainda bem que foi construído, da Santa Casa da Misericórdia. Supostamente, pelo que soube dizer no bairro, será para um lar de idosos. Ele está construído há seis meses e não está lá ninguém, aquilo não é utilizado, aquilo é novo em folha. Este tipo de coisas existem muito, mas vamos voltar aqui ao PRR. Vamos falar do que é da responsabilidade do Estado, que é, de acordo com a conceção que o António Costa, o governo António Costa fez o PRR, o governo tinha que fazer um conjunto de reformas para ganhar o capital, ganhar o cheque. Esse cheque ainda não tinha sido levantado, que é um conjunto de reformas que o governo tem de executar, sob pena de perder 1,5 mil milhões de euros de fundos europeus. Que reformas é que estamos a falar? Prestação social única, ainda falta a autorização legislativa. Reformulação dos benefícios fiscais, ela ainda nem entrou no Parlamento. Reforma dos licenciamentos de energias renováveis, deverá estar em consulta pública em breve. Ou seja, eu não sei de quem é a culpa, confesso. Provavelmente será do governo António Costa por ter concebido este PRR desta forma completamente centrado no Estado, ou muito centrado no Estado, mas o governo Luís Montenegro também tem aqui responsabilidades, porque estas medidas que eu acabei agora de falar, Montenegro concorda com elas e já devia ter executado, estão lá há dois anos. Vamos à tua nota. Eu vou seguir um bocado a lógica da Raquel e vou dar uma nota claramente negativa, um sete. De facto, esta desorganização e incapacidade. Anselmo.

Queres que eu dê uma nota ao PRR? Eu dou uma nota não ao PRR em si, mas ao desperdício que nós continuamos a ter naquilo que é o dinheiro público, porque este também é dinheiro público, para continuarmos a ter um país que eu tenho que dizer desta forma, não funciona. O país não funciona e dantes nós dizíamos era o Estado. Neste momento, já não é um problema apenas do Estado, também já é um problema no privado, porque os problemas do Estado afetam o privado. Isso é válido para a saúde, é válido para os cuidados continuados, é válido para todas as áreas da nossa sociedade, onde basicamente o privado começa a levar por arrasto.

Um aeroporto que não funciona e que não se constrói.

Eu no PRR, por exemplo, na área da transição digital, vi muito investimento para digitalizar as escolas e eu suspeito, espero estar redondamente enganado, que nós daqui a uns anos vamos ter quadros eletrónicos muito bonitos nas escolas e coisasSeguramente, mas que ninguém sabe mexer e que não contribuem rigorosamente nada para melhorar o nosso sistema de ensino. E como isto depois vira um concurso e uma corrida para ver quem é que consegue ir lá sacar mais dinheiro dentro do Estado, quando isto se faz dentro do Estado, é uma corrida para ver quem é que consegue. E nós temos que reconhecer que dentro do Estado há muitas pessoas muito bem capacitadas para concorrer a este tipo de concursos, que gostam desta parte burocrática e sabem como é que se vai lá buscar o dinheiro. A verdade é que nós provavelmente, veremos daqui a uns anos, não dá para fazer esse teste do Alton agora, veremos que contributo é que este dinheiro, estes 22,6 mil milhões de euros deram para o crescimento da economia portuguesa. Não dei a nota, a minha nota é um seis e não é mais baixa porque eu ainda quero esperar mais um ano ou dois para perceber o que é que isto contribuiu para a economia portuguesa.

Só por causa da digitalização, porque é uma coisa que também foi muito comentada na altura do PRR, que era a digitalização da Justiça. Nomeadamente a área que eu acompanho mais, que é a área penal, precisa, de forma absolutamente urgente, dessa digitalização. Eu estive no Supremo Tribunal de Justiça a consultar 80 volumes em papel.

Viste este relatório agora do DCIAP? Um dos temas era exatamente esse.

Tendo que esse lado aí do DCIAP tem dois lados, que é: ponto um, o sistema informático não tem segurança e os procuradores do DCIAP não ligam os computadores à rede por desconfiança.

Também cá está a cibersegurança, está aqui um item que é cibersegurança.

Exatamente.

Investir na cibersegurança.

Exatamente. Mas a digitalização, e vou só dar este exemplo: eu consulto muito regularmente processos entre tribunais, nas diferentes instâncias, e são quilos e quilos de papel. Atentado ambiental atrás de atentado ambiental. Eu precisamente por aquilo que eu lei, ainda mais atentado ambiental, é aquilo que até devia dar direito a multa. Mas era tão fácil nós termos um sistema informático nos tribunais que permitisse transmitir 80 volumes só com este teclado, este som, acho que os ouvintes estão a ouvir.

Enter.

Mas não, tem que se pôr 80 volumes numa carrinho, que vai uma vez por semana de um tribunal para o outro, e depois eu quando vou ver aqueles processos, já não faz recurso, está quase a prescrever, tento calcular qual é o tempo que demora as minhas razões para as demoras do processo, e uma delas é o gap de tempo de transmissão de papel de um tribunal para o outro. Às vezes são meses, é uma coisa impressionante.

E já ficamos com um minuto para a previsão em relação ao 1º de Maio, amanhã, mas Raquel, vou te dar uma ajuda. Amanhã vamos ter a CGTP a anunciar uma greve geral e a UGT a deixar no ar a possibilidade de se juntar a essa greve geral?

Sim, pregando mais um prego no seu próprio caixão, do meu ponto de vista, porque a CGTP mantém a sua capacidade de fazer barulho, mas pouco mais do que isso. E eu, na véspera do 1 de Maio, gostava de dizer que amanhã vamos ter os ecrãs cheios de manifestações do 1º de Maio e eu queria aconselhar os ouvintes da Rádio Observador para verem bem a faixa etária que lá está e as pessoas que estão na rua e perceberem se se identificam com elas. Porque infelizmente os sindicatos, neste momento, não só têm poucos associados como representam uma faixa muito pequena da sociedade portuguesa e sobretudo não representam de todo as camadas mais jovens da população, que não só não se sindicalizam como são em grande parte prejudicadas pelas reclamações sindicais destas grandes centrais sindicais, que já fizeram melhor o seu papel do que fazem hoje em dia.

Os vencedores também têm direito ao descanso. Amanhã não há "E o Vencedor É?", é feriado, 1º de Maio, mas regressa no sábado de manhã.