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Este é o som do Youven Sorê das manhãs 360, que também pode acompanhar com a imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E Carla, esta segunda-feira estão conosco a Sara Antunes de Oliveira e também o Ricardo Conceição. E esta semana começa com a pré-campanha a aquecer, com os números do IRS, a recordar também Francisco Lucas Pires e com um reaparecimento, Sara, de Boaventura Sousa Santos, que deu ontem uma entrevista na CNN.

Um maravilhoso aparecimento.

Foi maravilhoso.

Não sei se tiveram a oportunidade, mas foi muito divertido.

Ainda não.

Se não tiveram, por favor, vão à vossa box e puxem atrás. Foi bom porque como em qualquer boa entrevista com um professor, aprendemos várias coisas. Para já, foi uma maravilha ver um acadêmico reduzir o conceito de assédio sexual a um piropo em cima de um andaime. Pelos vistos, é isso que Boaventura Sousa Santos acha que é assédio sexual. E, segundo ele, apareça lá aí uma mulher que nunca ouviu um piropo e não gostou. Por favor, venham lá. Sim, há pérolas destas na entrevista, aconselho muito. Também aprendemos uma outra coisa, é que Boaventura Sousa Santos é uma vítima. E vocês perguntam: é uma vítima de quê? De difamação? De calúnia, meu Deus? Não, de assédio sexual. A sério, têm mesmo de ouvir, porque Boaventura Sousa Santos pôs-se nessa posição também. Além dos vários insultos às pessoas, às mulheres que o denunciaram, acaba por dizer, a dada altura, que lhe puseram a mão na perna e, portanto, que ele próprio podia ser vítima de assédio sexual. Enfim, é toda uma falta de vergonha na cara, uma entrevista que confirma aquilo que já sabíamos sobre o Boaventura Sousa Santos e tudo o que ele não aprendeu com este caso. Mas, na verdade, eu gostava de lhe agradecer, porque às vezes sinto que tenho alguma dificuldade em explicar alguns conceitos como misoginia. É difícil explicar, sinceramente, a alguns homens, a alguns amigos, exatamente o que é no dia a dia, na prática, o que uma mulher sente perante ações misóginas, conceitos como a boçalidade disfarçada de paternalismo e de sobranceria. E aquela entrevista vai ajudar-me muito cada vez que eu tiver uma conversa do gênero com amigos homens, para lhes mostrar diretamente um exemplo, aqui está. É isso tudo. Misoginia, boçalidade disfarçada de paternalismo e sobranceria. Boaventura Sousa Santos deu-nos isso tudo naquela entrevista. Claro, eu até podia dar-lhe uma boa nota por isso, mas com Boaventura Sousa Santos, nem por graça lhe poderia dar uma nota positiva, até porque corria o risco de ele achar que era assédio. Portanto, um seis.

Um seis, apesar da boa televisão, como disseste.

Sim, ótimo.

Fica um seis.

Great TV.

Great TV, mas um seis para a argumentação que ontem saiu dessa entrevista na CNN Portugal. Paulo, vamos a outros números agora.

Outros números, exato.

Relativos ao IRS.

Eles estão no JN. Engraçado que são formas diferentes de olhar para estatísticas e números que são públicos há muito tempo. São as estatísticas da arrecadação de IRS pelos vários escalões de rendimento. O que o JN faz é pegar nas cobranças de IRS de 2012 e 2022, portanto, temos aqui 10 anos, e compara aquilo que era cobrado há mais de 10 anos, mas em 2012, aos contribuintes que ganhavam menos de €13.500. E chega-se à conclusão que, nestes 10 anos, o montante cobrado pelo Estado a quem ganha menos de €13.500 triplicou o montante.

€13.500 brutos anuais.

Brutos anuais.

Mensais ou anuais? Não, brutos anuais. Estamos a falar de 960.

Salário mínimo, para as pessoas não terem ideia.

Exatamente. 960 € por mês, é disso que estamos a falar. Portanto, o IRS cobrado a pessoas que ganham até €964 por mês triplicou em 10 anos. Quando olhamos para escalões mais altos, isto é, pessoas que ganham acima de €3.500 por mês, verificamos que o bolo total de IRS cobrado a este grupo de contribuintes duplicou. Ora bem, triplicou embaixo, duplicou em cima. Isto acontece por quê? Não, não acontece porque as taxas de IRS aplicadas a um e outros escalões tenham diferido, isto é, não triplicaram as taxas aplicadas aos mais pobres, vamos chamar assim do que aos mais ricos, por simplicidade de linguagem. Isto não aconteceu por isso. Aconteceu simplesmente pelo seguinte: porque o número de pessoas, de contribuintes que paga IRS mais baixo, isto é, que está no escalão inferior, aumentou muito mais o número de pessoas do que as pessoas que ganham mais de €3.500.

Sim, portanto, a fatia é maior.

E, portanto, o bolo global cobrado pelo Estado, se há mais trabalhadores a descontar naquele escalão e a trabalhar com aqueles ordenados e a pagar IRS por aqueles ordenados, obviamente que a receita do Estado também aumenta. E isto leva-nos a uma conclusão muito óbvia. Nós temos uma fantástica máquina de fabricar pobres, basicamente. O Valter Hugo Mãe escreveu "A Máquina de Fazer Espanhóis", e nós temos, está à espera de ser escrito, "A Máquina de Fazer Pobres", que é o nosso sistema econômico, a nossa economia e os nossos salários. Isto é evidente. Nós temos cada vez mais trabalhadores a ganhar ordenados mais baixos do que temos trabalhadores com ordenados mais elevados. Portanto, aquela coisa do vamos acabar com os ricos. Mais uma vez, volta a velha história. Nós devíamos era basicamente esforçar-nos para acabar com os pobres, até porque eles são cada vez mais, como se mostra. Aliás, a peça do JN até nos mostra outro número. Uma das pessoas que Que fala para este trabalho de JTN é José Reis, professor de Economia da Universidade de Coimbra, absolutamente insuspeito nestas matérias, que é muito à esquerda. E ele próprio diz isso, estava aqui à procura desse dado. Diz José Reis: "Há uns anos a percentagem de trabalhadores com salário mínimo era de 4%", isto é, 4% dos trabalhadores ganhavam o salário mínimo. Agora são 22%.

Claro, porque houve uma compressão entre o salário mínimo e o salário médio.

Claro, porque o salário mínimo é ditado por lei. E o salário médio sobe em função da dinâmica do mercado de trabalho, da economia e por aí fora. Portanto, aí não há lei que lhe valha. Mas cá está, nós fabricamos cada vez mais pobres, devíamos era fabricar cada vez mais ricos, que esses pagam mais impostos e contribuem mais para a redistribuição de rendimentos e por aí fora. E queria só sublinhar isto, se não for incómodo para vocês todos.

Fica o desejo de Paulo Ferreira, fabricar ricos em Portugal.

Mais do que fabricar pobres.

Eu votava em ti, Paulo.

Vai haver eleições daqui a dois meses.

Estou-me a recordar de um manifesto publicado na sexta-feira por um almirante que dizia que não tínhamos que ficar pobres, era o título do manifesto.

Não temos de todo. Agora resta saber como é que se faz.

Como é que se chega lá. A nota que vais dar, Paulo, vais dar a quem?

Olha, não

Não tinhas pensado nesta parte.

Não tinha pensado nesta parte, que é uma parte importante sempre.

Para dar aos portugueses, que é sempre uma boa-

É sempre uma boa, é isso.

Eles merecem.

Vocês já têm os truques todos.

Vou mesmo para os mais pobres, de facto, que são vítimas disto tudo. As pessoas não têm culpa. E que são cada vez mais. E para esses vai um 16, porque isto não é fácil de argumentar.

Não é. E por que hoje, José Manuel, te lembras de Francisco Lucas Pires?

Precisamente por causa destas coisas que o Paulo esteve a dizer e por causa deste tipo de sociedade que nós temos vindo a criar ao longo de décadas em Portugal. No dia 25 de março, há uns anos valentes, 25 de março de 1988, Francisco Lucas Pires escreveu o prefácio de um livro, que vem hoje citado num texto de opinião aqui no Observador. O texto é escrito por Mário e Maria Lopes. A Mário e Maria Lopes é-

É deputada iniciativa.

É um académico neste momento.

E já agora, José Manuel, explica quem foi Francisco Lucas Pires.

E Francisco Lucas Pires, para quem não sabe, chegou a ser presidente do CDS, foi ministro da Cultura, depois foi eurodeputado, depois saiu do CDS e acabou por aderir ao PSD. Foi uma das pessoas que levou o PSD do grupo dos liberais, o grupo onde hoje está o Iniciativa Liberal, curiosamente, para o grupo dos democratas cristãos, juntamente com o CDS. Ora, Lucas Pires, há 40 anos, entre 1984 e 1986, mais ou menos, foi o grande dinamizador de uma coisa conhecida como Grupo de Ofir, de onde fizeram parte muitas figuras ilustres, algumas delas infelizmente já desaparecidas. Estamos num período em que já tinha havido a revisão constitucional, que tinha por assim dizer, libertado o Estado da tutela do Conselho da Revolução, mas ainda não tinha havido a revisão constitucional, que é aliás é de 88, mas é posterior a esta data deste prefácio, que tinha permitido a abertura da economia, que depois facilitou o crescimento acentuado do final da década de 80, aqueles anos do cavaquismo e depois também aquilo que aconteceu durante os primeiros anos do coterrismo, que foi tudo aparentemente muito bem. Mas o que é muito curioso é que vamos olhar para o texto citado pelo Mário e Maria Lopes, e que é um texto de 1988. Eu não vou conseguir ler tudo, e sugiro que os ouvintes do Observador sejam também leitores e vão ler o texto. O texto é basicamente uma citação do que foi escrito exatamente nessa altura. E o extraordinário é aquilo que parece um programa escrito agora e com urgências e prioridades de agora, sobre a necessidade de sermos uma sociedade aberta, sobre a necessidade de termos uma economia que não seja caracterizada pela presença asfixiante do Estado, pelo Estado ter que garantir serviços de defesa, justiça e segurança, mas não querer fazer tudo, por controlarmos o déficit. Eles já falavam de déficit em 1988. Dever ser controlado sobretudo pelo corte das despesas e não aumento de impostos. Como sabemos, fizemos um bocado ao contrário. Por ser necessário estabelecer critérios de profissionalismo, competência, independência política, responsabilidade pelos resultados na administração pública e na política. Está lá tudo aquilo que não fizemos nos últimos 40 anos e a explicação, lendo aquilo, pelo facto de não termos feito, porque é que estamos como estamos ainda. Naquela altura ainda sob a ilusão de que nos íamos aproximar rapidamente da Europa, coisa que aconteceu ali durante um relâmpago e depois voltámos novamente um pouco para trás. Muitas das soluções estão lá, há coisas sobre a saúde, sobre a cultura, sobre a educação. Eu por acaso recuperei o livro, o livro chama-se A perspectiva 92. Havia a esperança que em 92, quatro anos depois de algumas daquelas coisas terem sido aplicadas, de facto houve algumas coisas em que houve evolução, porque houve a revisão constitucional. Por exemplo, a comunicação social pode ser aberta à iniciativa privada e pode passar a haver televisões privadas. Mas ainda hoje discutimos alguns temas, como por exemplo, um ponto que está lá nas conclusões, já agora por falar aqui da casa, da comunicação social, diz assim: "Os meios de comunicação social do Estado devem ser despertadorizados." Isso aí, no essencial, aconteceu. "Devem ser autofinanciados e não podem ser sustentados por quaisquer taxas por eles cobradas." Enfim, não são eles que cobram, é a EDP que cobra por eles, ou a E-Redes, mas são assim que são sustentados, como todos sabemos. Este princípio achei também muito interessante: "O Estado não pode ter qualquer política de comunicação social e devem ser extintas as estruturas públicas no âmbito governativo ou administrativo voltadas para a coordenação da comunicação social."

1988.

1988.

Impresionante como é que as coisas se mantêm.

Foi ontem.

Vale a pena quem encontrar o livro nos alfarrabistas, que é capaz de haver por aí ainda alguns perdidos, que pegue nele e vejam lá, porque há lá tanta coisa que nós podíamos ter feito e não fizemos. E o que é extraordinário é que Lucas Pires foi líder do CDS, Lucas Pires foi eurodeputado, Lucas Pires teve influência política e houve um momento em que em Portugal Lucas Pires foi muito apreciado por quase todos os setores políticos, porque era muito admirado, quer à esquerda, quer à direita, mas infelizmente, o chamado grupo Dolphinu, que foi o grupo que fez isto, sempre teve má imagem na comunicação social, nos meios políticos e fugia-se dele como do diabo da cruz. E agora voltando 40 anos atrás, talvez percebamos porque é que temos aqueles números de que a Paula acabou de falar.

A nota vai para Francisco Lucas Pires?

A nota vai para Francisco Lucas Pires. E olha, ele licenciou-se com média 17, doutorou-se com média 18, portanto fica pelo 18. Vou mesmo para o 18.

Um 18 para Francisco Lucas Pires. Entretanto, os partidos vão se organizando e vão acertando estratégias. Ricardo, será que o trunfo da AD é Pedro Nuno Santos?

Aparentemente, a AD está com essa confiança toda. Basta ler o especial que temos hoje no Observador: "Montenegro aposta em campanha sem fogo de artifício. Pedro Nuno é seguro de vida." É um especial do Miguel Santos Carrapatoso e da Mariana Lima Cunha, e é muito revelador de toda a estratégia que aparentemente foi montada e pensada por Montenegro e por este PSD. Segundo o que aqui é explicado, PSD e Montenegro estão muito animados com a possibilidade de vencerem as próximas eleições de maio, tanto que a campanha deverá ser discreta, sóbria, sem bandeirinhas. Estão muito confiantes no bom desempenho do governo e do país, da vantagem do incumbente, porque Luís Montenegro é de novo, no fundo e na prática, candidato ao lugar de primeiro-ministro, e também têm confiança numa análise que os eleitores farão, segundo o PSD, de que há uma vantagem de Montenegro em relação a Pedro Nuno Santos quando são os dois comparados. No fundo, os eleitores têm mais confiança em Montenegro do que em Pedro Nuno Santos. É esta a leitura que é feita. E há ainda também confiança de que tudo isto vai superar a desconfiança que foi criada pelo caso Espinho Viva e pelos outros casos que estão a surgir. Ainda na semana passada a Express avançou com mais um caso em Espinho, e o PSD põe todas as fichas nesta confiança toda e de que isto irá levar o partido, ou neste caso a coligação, a AD, à vitória. Eu fico um pouquinho desconfiado no meio disto tudo. Isto para além de uma boa gestão dos silêncios em que Montenegro irá escolher quando e como falar, em ocasiões muito certas, quando temos uma campanha eleitoral aí à porta, e a campanha, no fundo, o que nós temos aqui à nossa frente é quase um plebiscito à confiança que os eleitores têm ou não têm em Luís Montenegro. E devemos recordar que quem fez cair o governo foi Luís Montenegro. Quem fez cair o governo foi o PSD. A escolha é do PSD. Foi o PSD que nos trouxe aqui, a este momento. E estão com esta confiança toda de que este plebiscito vai ser vencido, quando as eleições não podem ser um plebiscito, as eleições é a escolha de partidos, de rumos.

E de programas.

É essa que vai ser a escolha. E no fim das contas, o PSD está muito confiante de que os indecisos, na hora de votar, vão escolher Montenegro e vão escolher o PSD. Eu não sei de onde é que vem esta confiança toda, porque eu posso ser muito desconfiado, mas não sei, acho que os eleitores portugueses vão fazer as suas contas, vão fazer a sua ponderação na hora de ir votar, tomarão a decisão que tiverem de tomar. Mas há aqui uma soberba no meio disto tudo, uma soberba tática que é um pouco estranha.

A convicção de que Luís Montenegro é um grande ativo nesta campanha.

Sim, e que isto é triplo. Isto revela que há Um plano, posso lhe chamar assim. Há um plano, há uma ideia traçada, e nós começamos a perceber que há esta ideia de que Luís Montenegro vai conseguir fazer o que fez Cavaco Silva, que perante uma adversidade destas, vai sair por cima e vai sair reforçado. Não faço ideia. Se me perguntares qual vai ser o resultado das eleições de maio, eu não faço ideia. É que não faço mesmo a menor ideia nesta altura e nem sei, nem posso saber, nem tenho estudos para isso, para perceber o que os eleitores pensam. Eu só olho para isto e ponho-me a pensar nisto, e há aqui uma soberba por parte de Montenegro e do PSD que eu acho estranha.

Pode ser perigosa.

Pode haver um desfasamento com a realidade.

As histórias, aquelas que metem animaizinhos, tipo tartaruga e lebre, vão nos explicando que a soberba é má conselheira, porque é preciso trabalhar. Agora ia dizer ir de porta a porta, mas o Bloco quer ir também de porta a porta.

E vão todos.

E vão todos de porta a porta.

Ricardo, mas a agenda dos ministros tem estado muito intensa.

Tem, superintensa. Ainda hoje o primeiro-ministro, que felizmente já terá recuperado daquele problema de saúde que sexta-feira o levou ao hospital, já vai cortar a fita três centros de saúde ou três ULS, como se diz. Hoje, já na sua agenda, tem o cortar da fita de três centros de saúde. A agenda dos ministros não vai parar.

Aliás, hoje manhã já confirmámos com os assessores de Montenegro que sim, que a agenda é retomada hoje a planalto.

Daqui até maio, pelo menos quatro ou cinco fitas vamos ver cortadas todos os dias. Depois temos as eleições autárquicas também, vai ser um festim de tesouras e fitas a trabalhar até ao final do verão. Mas fica esta nota que eu acho que, não sei, posso estar muito enganado, também não percebo nada disto, mas esta soberba toda de Montenegro e do PSD.

De que Pedro Nuno Santos é o melhor adversário que podem ter.

Sim, porque é mais fraco. É o que a lebre pensava o mesmo da tartaruga, não sei. Recorro aqui a estas histórias porque nos ensinam alguma coisa. A ver vamos. Temos de esperar.

A ver vamos. Vais dar nota a quem com toda esta teoria?

Eu vou dar oito à soberba do PSD.

É ler o artigo que está em destaque no Observador para perceber melhor a confiança com que a AD parece partir para estas eleições legislativas antecipadas. E o vencedor está de regresso, como sempre, à tarde, para a segunda edição da Tarde Política, sempre depois das notícias das 17h30.