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E o Vencedor É, na Rádio Observador. Vamos falar de lei dos estrangeiros aprovada hoje no Parlamento. É o tema principal desta edição, mas também vamos falar de um desaparecimento de André Ventura, onde andará o líder do Chega, e ainda da irritação do primeiro-ministro com uma jornalista e, por que não, Parlamento e o clima crispado que se vai vivendo por esses dias, que mereceu hoje uma declaração do presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar Branco. Avançamos para a questão da lei dos estrangeiros. Hoje no E o Vencedor É, à Judite de França, juntam-se o Gonçalo Sousa e o Pedro Benevides. Gonçalo, o primeiro-ministro é o grande vencedor do dia com a aprovação da lei dos estrangeiros no Parlamento?

Sim, diria que sim, porque conseguiu um bocado aquele equilíbrio. Eu diria que o Luís Montenegro, talvez numa perspectiva inicial, não quisesse ir tão longe na lei de estrangeiros, ideologicamente falando. Talvez o recuo do Tribunal Constitucional até tenha dado jeito para manter as hostes mais tranquilas nas alas mais moderadas do PSD, mas independentemente disso, isto acaba por ser uma vitória para o governo, porque consegue aprovar aquilo que eleitoralmente queria, aquilo que era uma das grandes bandeiras para o país, até porque o eleitorado pedia isso. E faço também aqui a ligação para o desaparecimento de André Ventura, mas já vou comentar isso, porque acho curioso, pelo menos até agora, já são 18h e ainda não ouvimos nada e o debate até foi de manhã, não foi às 15h.

Isto estava arrumado à hora de almoço.

Exatamente. Até antes disso, se calhar. Mas isto para dizer, havia várias razões que levavam Luís Montenegro a ficar contente com isto, até aquele, não diria conflito, mas aquele bate-boca com o presidente da República termina à altura durante o verão, quando o documento é chumbado, porque até é enviado um documento para a Presidência da República, depois de Marcelo Rebelo de Sousa dizer que não sabe quantos imigrantes é que cá estão, não sabe quantos dados é que temos, e na altura são enviados dados que na perceção geral, são preocupantes. Ou seja, de 2017 a 2024, nós tivemos um incremento geral de imigração em Portugal em sete anos de mais de 200%. Nós tivemos um incremento de mais de 300% em termos daquilo que era a presença de alunos estrangeiros nas escolas e até também, a mais de 300%, o acesso a cuidados de saúde primários no SNS por parte de cidadãos estrangeiros. Ou seja, quando Luís Montenegro envia isso para a Presidência da República, está claramente a mandar uma mensagem de preocupação relativamente a esta particular legislação. E acaba por ser inegavelmente uma vitória para o governo. Falávamos aqui até antes, em off, da questão comunicacional do governo. O governo tem claramente um déficit comunicacional, tem problemas de comunicação e acho que deveria ter mais cuidado da forma como irá comunicar esta aprovação da lei de estrangeiros. Há claramente uma tentativa por parte da esquerda de dizer que há uma cedência ao Chega, mas eu nem diria isso, porque o próprio Partido Socialista, eu recordo as palavras de Pedro Nuno Santos, até antes das eleições de maio, dizer: "Bom, mas nós efetivamente erramos do ponto de vista do controle da imigração, e não é só na questão de legalidade ou ilegalidade." O Pedro Nuno Santos, na altura, até falou na questão da subsistência dos serviços públicos. Portanto, até estamos a falar aqui na questão do próprio problema económico, de necessidades ilimitadas das pessoas humanas, genericamente, e recursos limitados. Ou seja, quando 90% do país, fazendo aqui a questão da ligação parlamentar, porque 90% do Parlamento é Chega, Iniciativa Liberal, PS, AD, concorda que tem que haver mais controle, torna-se direto para o primeiro-ministro que isto seria claramente das primeiras coisas que ele queria arrumar na gaveta por duas razões: primeiro, procura do eleitorado e segundo, o papão do Chega, porque sabe perfeitamente que uma das principais razões pelas quais o Chega cresce e onde cresce, principalmente, e nós vamos ver isso agora nas eleições autárquicas, é a questão da imigração. Nós podemos colocar a questão do poder de compra também, as questões de identidade, etc. Mas a questão da diferença demográfica é claramente, pelo menos no meu entender, aquilo que faz com que o Chega paulatinamente esteja a engrossar a nível de eleitorado.

Senhora Judite de França, também achas que o governo é o grande vencedor do dia?

Acho que sim, acho que é o vencedor do dia e acho que este processo prova um pouco aquilo que o Gonçalo estava a caracterizar. Ninguém está propriamente preocupado com a legislação, aparentemente, estão aqui a medir como é que o eleitorado vai reagir.

E antes das autárquicas.

E logo em cima das autárquicas. O PS quer fazer de conta que isto nunca existiu, que desapareça rapidamente, porque não quer ficar associado a nada que tenha a ver com o processo de imigração. E o Chega quer valer-se do seu tema de eleição e como o PSD não estava muito agradado com esse crescimento à sua direita, preferiu ficar preso ao Chega neste tipo de acordo, porque não teve alternativa do lado do Partido Socialista, mas é basicamente um drama a três que nós vamos ver outras vezes acontecer. Vamos assistir a esta dança mais vezes. Agora resta saber se o PS quer sempre ficar de fora da solução. E ficar de fora da solução, o primeiro-ministro disse isso no debate quinzenal, torna o partido irrelevante. E tem alguma razão. Se não quiserem de todo usar da influência que têm, do poder legislativo que têm, saem a perder, no fim de contas. Com exceção da questão da imigração, que eu acho que, de facto, o PS estaria aqui a fazer uma ginástica muito complicada para aprovar mais do que aquilo que aprovou. Acho que era difícil fazer mais do que isso, porque nós temos aqui algumas alterações, não temos falado muito nelas, mas que são as alterações que têm a mão do Chega, porque ficamos com a ideia da renovação da autorização de residência, não se contabiliza para meios de subsistência os apoios sociais e que isto tinha ficado mais ou menos por aqui. A verdade é que Conseguiram que a autorização de residência para o reagrupamento familiar passasse para 15 meses, antes eram só precisos 12, e exigir que o cônjuge tenha vivido em casal

Pelo menos um ano.

18 meses, quando um ano era aquilo que o PSD queria. E portanto, há aqui uma limitação que foi exigida pelo Chega, que o Chega ganhou, e isso não há volta a dar. Aliás, é curioso porque André Ventura poderia estar ufano hoje em todas as televisões e curiosamente não está, o que nos leva a pensar: por quê?

Pedro Benevides, o PS também pode aqui perder uma oportunidade de não alimentar esta ideia de que se torna irrelevante, porque a questão da imigração é um problema que preocupa os portugueses. Não vamos esconder isso. À esquerda e à direita.

Preocupa os portugueses e o PS teve muita responsabilidade sobre a dimensão do problema.

E agora aqui não arrisca nada? Tem uma proposta aprovada, no fundo.

Sim, ou seja, não se colocou totalmente de fora e eu acho que não se colocou porque o próprio Partido Socialista teve consciência de que foi um contribuinte ativo para este problema, porque efetivamente nos anos de António Costa houve uma política relativamente à imigração que era basicamente portas completamente escancaradas. Não havia lá ninguém sequer a segurar a chave. Aquilo que esta legislação agora pretende resolver, não me parece que vá essencialmente à fonte do problema, que é como é que se controla as entradas. Ainda temos vários problemas relativamente a essa matéria. Agora, em termos de regularização da vida de quem cá está, que me parece que é uma coisa também bastante evidente, o PS não se afastou totalmente, mas também não foi o parceiro preferencial, isso pareceu claro. Mas nós ontem falávamos aqui, e claramente derrotados, achando que esta lei se calhar não ia passar. A nível de vinhos não somos espetaculares, temos que admitir. Mas ontem falávamos que isto é uma estratégia que interessa ao governo, que o governo, nesta questão da imigração, interessa lhe ter o Chega amarrado, porque o Chega, ao aprovar esta lei, não pode. Enfim, não pode, o Chega pode tudo, nós já vimos coisas assim e até piores.

Mas não cola tanto.

Mas não cola tanto a ideia de que a imigração está completamente desregulada porque o governo é frouxo ou porque o governo não foi capaz. O Chega foi um participante na construção desta lei.

Ativo.

Ativo. Queixou-se até quando o governo alterou a lei sem ouvir o Chega, etc. Podemos, claro, alimentar aqui algumas teorias da conspiração sobre este desaparecimento de André Ventura. Eu, na verdade, tenho uma resposta. Eu sei onde é que ele estava.

Foi a Londres ver Chelsea e Benfica.

Não sei, ele foi fazer coisas, ouvi há bocadinho Rita Matias a dizer: "Ele foi fazer não sei o quê, temos propostas". O André Ventura está nas redes sociais, só pra vocês saberem, porque eu fui procurar, e ele passou o dia inteiro nas redes sociais. O que ele fez há relativamente pouco tempo, há 22 minutos, já se estava a falar do desaparecimento de André Ventura, e ele escreveu isto: "Os ciganos sentem que fazem o que querem e como querem em Portugal, podem ter certeza comigo, isso vai acabar." Há cinco horas, ele escreveu: "Quando os políticos do sistema são confrontados e esmagados com a verdade na rua, obrigado a este herói, coração, coração, coração". E ainda escreveu há nove horas: "O Santiago e o António ainda não são os meus..." Isto é sobre gatos.

Isso não estaria agendado?

Não sei se está agendado ou não, eu sei que ele nas redes sociais, repara, estas informações me parece que foram hoje divulgadas. Ele até mete vídeos aqui de notícias que deram na televisão.

Pensei que fosse de gatinhos.

De gatinhos por acaso não é, mas ele há de lá chegar. Ele nas redes sociais está. Agora, em público, a falar aos jornalistas, ele hoje estranhamente não está. Não sei se está incomodado com esta história da imigração e não quer falar que é para não se associar, ou se há qualquer coisa que se passa estranha e que, já agora, convinha que ele esclarecesse os eleitores que votaram nele e, portanto, convinha que ele explicasse.

Eu queria só dar aqui uma nota sobre o caso do PS, porque o PS está num problema grave, que é: embora tenha um líder agora mais ao centro do que era Pedro Nuno Santos, o líder mais ao centro que tem agora foi o ministro da Administração Interna e o principal responsável pela desregulação de imigração que falávamos aqui.

Bem lembrado.

Exatamente. E outra coisa, o período em que o José Luís Carneiro é ministro da Administração Interna é justamente o período onde entram aqueles cento e tal mil cidadãos da CPLP sem verificação do registo criminal. Ou seja, muito dificilmente o José Luís Carneiro consegue ter um argumento um pouco mais securitário, porque depois leva logo uma resposta: "Quer dizer, mas eras ministro da Administração Interna, por que não fizeste isso há dois ou três anos atrás?" Portanto, é um problema que eu diria que o PS vai ter até na sua liderança.

E é este problema que nós falávamos da eventual irrelevância do Partido Socialista em algumas matérias. É precisamente esse jogo. Não podem adotar um discurso que contradiga aquilo que eles próprios andaram a fazer. Por outro lado, também não podem alimentar narrativas que sabem que neste momento já não colam ou que não têm adesão popular. Portanto, isto não é um jogo fácil.

Sim, o primeiro-ministro apresenta-se com este trunfo agora, estamos no primeiro dia oficial de campanha eleitoral.

Sim, e a questão é quanto tempo é que vai durar este trunfo, porque quando passar a espuma disto, os problemas da imigração vão ficar todos resolvidos em Portugal? Vai deixar de haver preocupação de alguns eleitores que vivem em zonas onde há mais pressão migratória? Isso fica tudo resolvido com esta lei?

Não prevês que seja um tema recorrente no discurso, na campanha, em zonas, por exemplo, como Lisboa, Porto?

Penso que sim, não tenho nenhuma dúvida de que vai usar esse argumento. A minha questão é se, nós falamos muito hoje em política nas percepções, se a percepção das pessoas muda porque uma lei foi aprovada. Eu não tenho a certeza que isso aconteça.

E vai demorar até isso acontecer.

Eu acho que isto tem sido um trabalho do governo e acho que tem conseguido, por isso é que também aumentaram a porcentagem de voto nas últimas eleições. Eu acho que muita gente acusa o Luís Montenegro de se aproximar ao Chega. Eu acho que nem é tanto essa a preocupação dele, é afastar-se do PS. Só que uma coisa leva inerentemente à outra. E eu acho que isto até pode ser positivo nos próximos debates, porque agora temos as últimas duas semanas e vai ser debate. Mas aqui, deixa-me fazer a pergunta assim: a nível da perceção pública, o governo arruma com o Chega e com o PS, ou não? Eu não digo arrumar com o Chega. Com o PS, eu acho que o PS já está arrumado. Neste tópico da imigração, atenção. Agora, com o Chega eu creio que é mais complicado. No curto prazo, até às eleições.

Mas chama o Chega e o Chega está colado ao Governo nesta solução, não é?

Sim. O problema é ao longo prazo.

Se o tema passou a ficar na agenda com a dimensão que tem, isso deve-se muito também ao Chega.

Claro.

Portanto, é difícil não ver aqui uma espécie de vitória do partido de André Ventura, por isso é que estávamos aqui a alimentar aquelas teorias da conspiração, ele se calhar não quer aparecer. Eu não acho que seja isso, acho que ele vai, e eles isso sabem fazer como ninguém, e quando eu digo eles, estou a falar de André Ventura, vai capitalizar isto a seu favor, sem nenhuma dúvida.

Temos de ir às notas.

Eu vou dar uma boa nota ao Governo. Acho que o Governo saiu-se bem no meio disto tudo e, portanto, vou dar um 14 ao Governo.

Gonçalo?

15 ao Governo.

Pedro?

Eu queria dar a André Ventura.

Dá, força. Mas vais dar uma positiva?

Vou dar uma ótima nota, pelo silêncio que às vezes também é bom, de um homem que tem claramente excesso de protagonismo face ao número de votos que apesar de tudo tem, eu dou um 18, que acho que é simpático também pra pessoa recompor, organizar ideias. É bom pra todos, pra ele, pra nós, pra toda a gente.

Eu acho que ele depois deste 18 vai aparecer pra te fazer agradecimentos.

Ele não falou e nós fartámo-nos de falar dele. Agora nós é que precisamos de uma cura de desintoxicação.

Bom, já voltamos pra segunda parte de "E o Vencedor É". Antes das 16h30, vamos atualizar as notícias. Arranca a segunda parte de "E o Vencedor É", com Gonçalo Sousa, Pedro Benevides e Judite França, nesta tarde de terça-feira. Pedro, agora queres falar de mais um episódio de irritação do primeiro-ministro com uma jornalista. Espera aí, deixa-me abrir o teu microfone.

Temos que lembrar que já tem 51 anos.

Exato, estava precisamente a falar nisso.

Às vezes distrai-se com os botões, isto é muito botão.

Sabes que a idade pesa, não é?

Não, sim.

E a esta hora.

Isto é uma rádio tecnologicamente avançada.

Exato. Uma pessoa da minha idade já devia estar a fazer o jantar.

Eu estava aqui a perguntar onde é que estão os bobines. Eu sei, eu bem sei.

É isso. Bom, vamos à irritação.

Tiveste essa pequena irritação e foi isso que me sugeriu falar sobre isto. Porque nós temos assistido com alguma frequência a pequenas irritações do primeiro-ministro com jornalistas. Eu lembro-me de um primeiro-ministro que tinha muito esses hábitos, que se chamava José Sócrates. Eu não sei se hoje andamos aqui a falar se Luís Montenegro quer estar ao lado do Chega ou se quer ser comparado com José Sócrates, mas ele começa a ser o primeiro-ministro mais parecido com José Sócrates nessa matéria, especificamente, porque se irrita muito com as perguntas dos jornalistas.

Tu também não irritas ninguém.

Não, eu estou a tentar não o fazer. Mas ele irrita-se muito com as perguntas dos jornalistas, irrita-se muito com a forma como se faz jornalismo em Portugal. Isto, eu lembro-me, começou no ano passado, em outubro do ano passado, quando ele fez aquela célebre declaração em que ele criticava os jornalistas por terem um auricular e sussurravam-lhes as perguntas e outros que liam as perguntas no telemóvel. E, portanto, ele tentou dar ali uma lição de jornalismo aos jornalistas, dizendo que eles não estavam a valorizar a sua própria profissão. Portanto, começamos a perceber que Luís Montenegro tinha ali um pequeno problema. E depois ele explicou, quando ouviu muitas críticas, começou a explicar o que é que ele queria ter dito. Estava ali a dar um contexto, falando sobre a importância do jornalismo nas democracias, e acho que ele tem razão. E atenção, eu acho que o jornalismo que nós praticamos em Portugal não está isento de críticas, obviamente, e acho que nalguns pontos ele até pode ter razão. A questão é: o primeiro-ministro, quando está na rua e quando leva com os microfones, acaba por ser notícia não pelo que diz propriamente, mas pela forma como se desentende com os jornalistas e como se irrita com essas perguntas. Na altura, quando ele deu essa aula de jornalismo aos jornalistas, ele depois explicou que muitas vezes os jornalistas quando vão cobrir um evento centram-se em temas paralelos, têm aquela coisa do tema do dia, que é uma coisa que o incomoda, em vez de estarem a cobrir os eventos e os acontecimentos. Era cingirem-se àqueles acontecimentos e a coisa funcionava toda muito melhor e facilitava a democracia na ótica de um político e de um primeiro-ministro em particular. Por quê? Porque todos estes eventos onde o primeiro-ministro participa normalmente são programados para ele fazer intervenções ou fazer uma aparição. Os ministros têm, eu diria que pouco tempo que estão no gabinete, eles estão sempre numa road trip pelo país fora a inaugurar, a visitar, a falar, a comentar. E, portanto, naturalmente, é muito mais fofinho para os políticos em exercício que os jornalistas, em vez de os maçarem com questões que vieram nos jornais ou com notícias ou com coisas que resultaram do chamado trabalho jornalístico, se centrassem em perguntar: "E este edifício que o senhor vai inaugurar, quantas pessoas é que vai albergar?" Que por acaso até já vinha no press release. Mas isso sim, era jornalismo na ótica do Luís Montenegro. E depois, ele voltou em maio de 2025, portanto, já estávamos outra vez naqueles rebuliços eleitorais, quando lhe perguntaram sobre a Spin&viva, ele voltou a irritar-se com jornalistas, desta vez porque faziam-lhe sempre as mesmas perguntas. E, portanto, aquele caso, como sabemos, ficou todo bem explicado e esclarecido logo ao segundo dia, foi uma maçada os jornalistas estarem a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas. E agora, teve a ver precisamente com a lei dos estrangeiros que estávamos a falar na primeira parte, em que uma jornalista lhe perguntou se para ter a aprovação do Chega, uma das contrapartidas tinha sido a questão das prestações sociais e ele voltou a incomodar-se com a forma como a pergunta foi feita e com a forma como os jornalistas gostam de se centrar em temas laterais, sendo que temas laterais são aqueles temas que não interessam ao primeiro-ministro. Ele não respondeu, mas Revela aqui uma dificuldade de lidar com a comunicação social de Luís Montenegro, sendo que aquilo que nós temos visto, ainda hoje teve o ministro Miguel Pinto Luz no Parlamento a voltar a explicar a questão da lei da habitação, prova que este governo também tem, ao mesmo tempo, um problema de comunicação. E, portanto, se calhar, em vez de estarmos aqui todos a dar lições e a irritarmo-nos com as perguntas, se calhar era bom que eles próprios fizessem aquilo que o André Ventura fez hoje, que foi desaparecer do espaço mediático.

Recebeu 18.

Recebeu um 18 e sulca, teve uma boa nota. Sentavam-se, respiravam fundo, olhavam para o que está bem e para o que está mal. Os jornalistas, apesar de tudo, vão fazendo também a sua autocrítica e a sua autoanálise. E eu, mais uma vez, digo, eu acho que o jornalismo que nós fazemos não está isento de críticas, mas acho que fazia melhor ao primeiro-ministro e ao governo em si concentrar-se nos seus próprios problemas de comunicação, em vez de estar a querer fazer o trabalho que não é o deles.

Judite de França, um homem com a experiência política que tem Luís Montenegro, com os anos que já leva disto, não seria de esperar outro tipo de abordagem ou de comportamento? Ele conhece o jogo.

Sim, mas desde que foi escolhido primeiro-ministro que mudou a atitude. Luís Montenegro não tinha esta atitude quando era líder do PSD.

Isso é um ótimo ponto.

E nem antes disso.

É que é mesmo isso. É que os jornalistas que fazem política ou que fizeram política, eu não sei se se lembram muito de um Luís Montenegro sempre agastado com perguntas de jornalistas.

Nem quando era líder da bancada parlamentar.

Não acontecia, de facto, não acontecia. Houve aqui uma mudança qualquer.

Houve uma mudança de posição. Está numa posição diferente e, portanto, agora acha que também tem direito de decidir sobre as perguntas que lhe fazem, coisa que não tem. E depois acontecem estes episódios que acabam por se tornar eles próprios na notícia e a culpa é apenas de quem não sabe reagir à pergunta do jornalista. Tem que saber, lamentavelmente, faz parte do trabalho de um político. Está lá mesmo no job description, está lá essa parte: ter que aturar jornalistas no meio da rua a fazerem perguntas que eu não gosto.

Que eu considero parvas. E algumas até podem ser.

Se calhar.

Mas a pessoa que tem preparação para isto é ele. Há quantos anos é que ele anda no espaço mediático?

Gonçalo.

Eu diria que olhando para Luís Montenegro, não me surpreende que ele tenha fugido agora. Eu recordo-me perfeitamente quando o governo caiu, na altura da Spin Viva, ele demorou dias, para não dizer mais do que uma semana, a responder aos jornalistas. Ele literalmente fugiu. Na altura fez uma viagem ao Brasil, caiu que o presidente da República, e demorou mais de uma semana, eu tenho quase a certeza que foi entre sete a 14 dias.

Mas é a mesma pessoa que perante aquelas primeiras suspeitas sobre a casa, deu uma conferência de imprensa selvagem num sábado ou domingo com um dossiê bem carregado de documentos a dizer: "Está tudo aqui" e a querer esclarecer tudo. O que é que mudou entretanto?

Mas às vezes a política conta mais o parecer do que o ser.

Claro.

Talvez o caso seja mais difícil de explicar. A casa e o caso.

Sim, já são outras dinâmicas. Mas eu recordo-me perfeitamente, e eu não sei se é receio, se é estratégia, eu até faço aqui uma comparação entre o André Ventura e o Luís Montenegro. Um aparece demais e fala demais, e o outro aparece de menos e fala de menos. O André Ventura aparece demais, acho que era óbvio. E o Luís Montenegro aparece muito pouco. Portanto, há aqui claramente uma disparidade, quase a 180 graus de um lado para o outro, que acho que não é saudável nem para um, nem para o outro. Eu recordo-me perfeitamente, quando o governo cai, na altura do chumbo da moção de confiança, Luís Montenegro vai para casa, não responde a perguntas a jornalistas, no caso. Acho que até é nesse debate que ele diz: "Desculpem lá, mas eu tenho mais o que fazer do que andar aqui a responder às vossas perguntas", em resposta a alguns parlamentares, acho que é até nesse debate. Eu recordo-me perfeitamente que ele não vai à comunicação social, nem nos próximos dias. Quem vai imediatamente a seguir aos canais de televisão, todos, à SIC Notícias, à RTP3, à CNN, à CMTV e à Now, são os seus ministros e o líder da bancada parlamentar Hugo Soares. Portanto, é curioso que se nós olharmos para a estratégia de comunicação do governo, tem passado muito por resguardar o primeiro-ministro, em que ele não se expõe absolutamente nada, e os ministros dele, principalmente o líder parlamentar, embora não esteja no governo, mas o Hugo Soares serve ali claramente como um escudo, e não é uma expressão pejorativa, mas o saco de pancada de Luís Montenegro, para resguardar a imagem do primeiro-ministro.

Mas isso, do ponto de vista comunicacional, está bem feito.

Certo, mas eu acho que em exagero é um problema, porque aí já não mostra a proteção da credibilidade institucional do primeiro-ministro, mostra medo do institucionalismo do primeiro-ministro. Tudo o que é demais é problemático.

Eu acho que não aparecer normalmente é vantajoso, porque muitas vezes aparecer dá asneira, como por exemplo hoje, ou numa situação que pode piorar. Quer dizer, estas coisas podem escalar. Nós já tivemos o primeiro-ministro ainda ontem a discutir com uma senhora do Chega.

Era do Chega aquela senhora mais velhota, pequenina, ruiva era essa?

A senhora que estava na janela.

Na varanda.

A gritar pelo Chega. E o primeiro-ministro sentiu necessidade de responder. E, portanto, resguardar talvez não seja mau. Eu lembro-me sempre que Nelson de Souza, que foi o ministro que menos apareceu, foi o ministro que mais durou num governo, talvez porque não aparecia.

Sabes que quando falaste o nome dele, eu pensei: "Olha lá, que bela memória, já nem me lembrava".

Tinha só os fundos europeus.

Exatamente.

Vamos aqui rapidamente, Judite, temos mesmo que ser rápidos.

Fala sobre o presidente da Assembleia da República, não é?

Que hoje considerou que poderia ser oportuno promover uma discussão sobre a revisão do Código de Conduta dos Deputados, eventualmente prevendo sanções, mas diz que esse impulso tem de caber aos grupos parlamentares.

Exatamente. Ora, não existe um quadro sancionatório que seja aplicado aos deputados no exercício das funções, mas se houver uma alteração neste código de conduta, isso pode existir. O que diz Aguiar Branco? Há dois grupos parlamentares, no caso o PS e o Livre, que até deram indicações que querem colocar propostas de revisão. Portanto, por que não? E eu acho que Aguiar Branco, com a história dos beijos vindo da sua própria mesa, da Mesa da Assembleia da República, está finalmente a pensar que alguma coisa tem que ser feita e que a ser feita, então seja feita num quadro sancionatório em que haja sanção para o deputado que se portar desta forma horrível.

Vamos às notas para a irritação, Pedro, do primeiro-ministro. Temos mesmo de fechar.

Está à procura de um vencedor, Pedro, eu convido-te só a pensar um pouquinho.

Dá-me só mais um bocadinho. Eu vou lá chegar, mas dá-me só mais um bocadinho.

Eu vou dar.

Sabes que o Pedro já tem uma certa idade também, tem mais um bocadinho.

Tenho 51.

Só para descansar, eu tenho 26 anos e também não sei mexer nos botões da rádio.

E também não sabes o que são bobines. Eu é que ainda tinha uma bobine para dar ao Ricardo para ele saber e acalmar um bocadinho, porque eu sabia o que era.

Gonçalo.

Mas vou dar dois ao primeiro-ministro. Não é péssimo, mas tem que fazer muito melhor.

Pedro.

Eu vou dar um 17 aos jornalistas, mesmo aqueles que fazem perguntas parvas, porque têm que insistir, a isto não se pode desistir. O primeiro-ministro não gosta de paciência, habitue-se.

Um 10, para essa falta de paciência.

Está feito e o vencedor é desta terça-feira. Amanhã há mais, depois das 08h30 da manhã, nas manhãs 360, na Rádio Observador.