Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este som não engana e o vencedor é a edição da tarde política da Rádio Observador, hoje com a Raquel Abecasis, a Helena Matos e a Cátia Bruno. Semana inevitavelmente marcada pela morte do Papa Francisco e, na política nacional, a semana em que se assinalam 51 anos do 25 de abril e em que a pré-campanha vai seguindo o seu rumo, Miguel, com dois novos protagonistas.
É precisamente esse o tema trazido a esta edição de "O Vencedor" é pela Raquel Abecasis. Raquel, um ano depois, Sá Carneiro e Cavaco Silva voltam a entrar na campanha. Está marcada para amanhã a apresentação de um livro sobre o fundador do PSD, onde o antigo líder e presidente da República, Cavaco Silva, vai marcar presença. A mesma cartada, digamos assim, do ano passado será uma mais-valia pra campanha da AD, Raquel?
Aparentemente, Luís Montenegro continua a achar que vale a pena apostar nos suspeitos do costume, ou seja, nas suas referências dentro do PSD. Sá Carneiro é uma referência de todos os líderes do PSD, mais à direita ou mais à esquerda. Mas Cavaco Silva, de fato, apesar de tudo aquilo que conduziu à queda deste governo, continua a manter-se firme no apoio a Luís Montenegro e já anunciou, sabendo perfeitamente que a sua participação nesta apresentação deste sétimo volume da vida de Sá Carneiro. Portanto, se próximo ao ano houver outra campanha eleitoral, outro volume haverá para lançar, de forma a criar as circunstâncias ideais para que os líderes que Luís Montenegro quer mostrar como seus mentores, seus exemplos e aqueles que pretende seguir na governação do país, para que os possa mostrar ao seu lado. Sá Carneiro, obviamente, será. Não sei se lá vai estar o busto do costume ou não, mas enfim, estarão todas as referências e todos aqueles que na social-democracia se reveem no seu líder histórico. E Cavaco Silva, que não deixará seguramente de lançar dali uma mensagem, eu diria que é apostar na credibilidade de Luís Montenegro. Parece-me que é a arma que Luís Montenegro vai usar e abusar ao longo de toda esta campanha, até porque todas as sondagens, na comparação com o seu principal oponente, com Pedro Nuno Santos, apontam para que Luís Montenegro é aquele em quem os portugueses mais confiam para exercer as funções de premiê. E, portanto, com todas as circunstâncias que nos trouxeram a esta campanha eleitoral, Luís Montenegro continua a apostar na sua própria figura, naqueles que o apoiam e na sua imagem de credibilidade como premiê e, do ponto de vista de quem vota mais à direita, ninguém mais como Cavaco Silva é a referência ideal nos tempos que correm para mostrar que Luís Montenegro ou para dizer que Luís Montenegro é de confiança. Continuando sempre a ter aqui um ausente, que se chama Pedro Passos Coelho, que foi quem trouxe Luís Montenegro pra primeira linha da política nacional e, portanto, também isso é significativo. Diz, Helena.
Raquel, uma coisa que Cavaco Silva, entre os seus defeitos e as suas qualidades, não sei o que considerar, mas ele nunca foi muito esfuziante a mostrar o seu apoio a outros líderes do PSD, àqueles que lhe sucederam. E podia pensar-se que, por exemplo, quando Passos Coelho esteve nas condições difíceis em que esteve à frente do governo, é claro, também podíamos pensar que Cavaco Silva, enquanto presidente da República, tinha de gerir toda a situação com muito cuidado. Mas, na verdade, na minha opinião, quase só a seguir à crise do irrevogável é que Passos Coelho ganhou. Não estou a falar o apoio de Cavaco Silva, mas estou a falar até por algumas declarações que ele posteriormente-
A não crítica de Cavaco Silva, porque Cavaco Silva foi verdadeiramente crítico de Passos Coelho enquanto presidente da República. Recordamos daquele episódio da reforma da mulher, não é? Em que ele, em relação à questão das pensões, disse que não tinha dinheiro ou que a reforma da mulher não chegava pra eles viverem, uma coisa assim.
Mas para lá disso, eu acho que só mesmo após a crise do irrevogável, em que Cavaco Silva parece, e aí não é uma questão de parece, não estou também a ser correta, ganhou respeito pela figura institucional de Passos Coelho, porque até aí era um bocado como se continuasse a olhar pra ele, muitos anos depois, como o truculento líder da JSD que lhe tinha causado tantos dissabores.
É, eu estou de acordo com isso e junto a isso que eu acho que Cavaco Silva representa um PSD
Que depois não era o PSD, até pelas circunstâncias, evidentemente, mas também pela forma como Pedro Passos Coelho defendia as políticas que então teve que pôr em prática, não as rejeitando e dizendo mesmo que elas eram necessárias. Aí há um ponto de divergência ideológica com o social-democrata Cavaco Silva, que nunca teve esta linha mais liberal na governação, nos seus governos. Também não teve que o fazer, é verdade. Mas verdadeiramente, aí também houve uma clivagem ideológica, curiosamente ao contrário do que tinha acontecido quando ele era primeiro-ministro e Pedro Passos Coelho era líder da JSD, em que aí o progressista era o jovem e o conservador era o primeiro-ministro. E depois os papéis inverteram-se. E eu acho que Luís Montenegro, que aparece na liderança do PSD sem uma definição muito clara de qual era a linha que iria seguir e com as pessoas todas a identificá-lo com Passos Coelho, fez muita questão de rapidamente aproveitar as circunstâncias de Cavaco Silva já na reforma, estar muito disponível para ter aqui ainda um papel político e ter ainda aqui a capacidade de fazer, eu não queria usar esta palavra, mas vou usar, de se vingar de António Costa e da forma como António Costa assumiu o governo naquela altura contra a vontade do próprio presidente da República. E Luís Montenegro eu acho que foi a pessoa que lhe saiu ao caminho no momento certo.
Mas eu acho que, sendo isso óbvio, certo e correto o que estás a dizer, na minha opinião, claro, mas também há aqui, e é isso que às vezes me surpreende, uma manifestação de um apoio de uma forma declarada. Ele chega a dizer que Luís Montenegro estava mais preparado para ser primeiro-ministro do que ele quando foi da primeira vez. E, portanto, há aqui um exteriorizar que provavelmente muitos, eu, por exemplo, não estaria à espera em Cavaco Silva em relação à figura de Luís Montenegro, ou seja, uma empatia com a figura de Luís Montenegro.
É verdade, eu acho que há aí uma responsabilidade de Luís Montenegro, que se afeiçoou à figura, no sentido de se deixar moldar por aquilo que foi a forma de olhar para a governação de Cavaco Silva.
Aliás, o deixem o Luís trabalhar.
Exatamente. Mas depois eu acho que também há as circunstâncias. Eu acho que António Costa e Pedro Nuno Santos, como sucessor de António Costa, têm também muita responsabilidade neste não se importar de voltar para a ribalta política a apoiar um líder do PSD. Eu acho que Cavaco Silva nunca engoliu bem o governo da Geringonça, está convencido que foram oito anos que fizeram muito mal ao país e, portanto, neste momento não faz qualquer cerimônia em atravessar-se para que essa linha não volte a governar o país.
Vai para quem a sua nota?
Entre as qualidades e defeitos, não sei o que vocês lhe queiram chamar, de Cavaco Silva, conta-se, na minha opinião, o fato de ele não esquecer.
É, exatamente, eu também acho. A minha nota, rapidamente, para não ocupar aqui o espaço todo, eu vou dar um 15 a Luís Montenegro, apesar de isto ser um pouco uma estratégia em que se percebe bastante bem o que se está a fazer, mas acho que resulta.
Dizíamos no arranque deste "O Vencedor" que é incontornável falarmos da morte do Papa Francisco. Cátia Bruno, o último encontro oficial que teve foi com o vice-presidente norte-americano, J. D. Vance. É também a prova de que por mais tensa que seja a relação, e que era neste caso, e o Papa até criticou, por exemplo, as políticas migratórias de Donald Trump e de Vance, a Igreja recebe mesmo todos.
A Igreja não sei, mas o Papa Francisco claramente sim. Parece-me que a Economist dizia ontem que era irônico que o último encontro de Francisco tenha sido com J. D. Vance. E é irônico não apenas por J. D. Vance ser vice-presidente da administração Trump, e o Papa Francisco teve muitos quezílias com a administração Trump, a primeira até relativamente à questão dos imigrantes, mas porque há poucas semanas tinha se envolvido diretamente numa questão com o próprio J. D. Vance. O vice-presidente americano citou um conceito cristão, o Ordo Amoris, para justificar a política de imigração dos Estados Unidos neste momento, dizendo: "O amor cristão é amamos primeiro a nossa família, depois os nossos vizinhos, depois o nosso país e só depois é que podemos olhar para os outros e, portanto, isso explica a nossa política migratória." E o Papa Francisco respondeu muito diretamente, enviou uma carta aos bispos norte-americanos, mas que obviamente era uma mensagem para Vance, onde dizia muito claramente que este conceito não se podia sobrepor aos conceitos maiores do Evangelho, e usa o exemplo da parábola do bom samaritano para mostrar como o Evangelho ia muito para lá disso. Ora, seria de esperar que depois de um embate destes, Francisco não recebesse Vance, ainda por cima numa altura em que estava fisicamente debilitado, podia invocar isso para não o fazer. Mas fê-lo, porque sempre foi um papa que sublinhou muito a ideia de que é também um ator na diplomacia mundial e, portanto, sempre manteve o diálogo com todos. Isso fez, por exemplo, no caso da guerra na Ucrânia, em que pouco tempo depois da guerra começar, o Papa Francisco foi à embaixada, se podemos chamar assim, de Moscovo no Vaticano, diretamente para tentar dialogar. E, portanto, independentemente das posições dele, sempre foi um papa que achou que era preciso falar.
Tens uma nota?
Bom, parece-me que pelo menos há coerência. A nota tende a ser elevada. Vou ser generosa, vou dizer um 16.
Helena Mattos, a propósito, precisamente a morte do Papa Francisco, lembraste Barack Obama. O que te remeteu para o antigo presidente dos Estados Unidos?
O que remete é o seguinte: a certa altura, uma espécie de entusiasmo mundial com figuras que pertencem a partes do mundo, instituições, organizações, chame-se o que se lhes quiser, contra a qual é, de certa forma, politicamente correto estar contra. É quase como uma espécie de um exercício de catarse. Deixa-me explicar. Barack Obama tinha sido eleito presidente e ganha o Nobel da Paz. Ou seja, ele ainda não tinha chegado à Casa Branca e tem o Nobel da Paz, já era presidente eleito, sucedia a George W. Bush e portanto havia aqui quase que uma necessidade de reconciliação com os Estados Unidos. Barack Obama, como todos os presidentes dos Estados Unidos, teve de gerir aquilo que era a política externa e a presença dos Estados Unidos, como se entendia à época, em diferentes partes do globo, o que levou a que, não sei se a afirmação seja rigorosa, mas que todos da sua presidência, os Estados Unidos terão estado envolvidos diretamente num conflito. Eu não sou daqueles que acha que a paz se consegue estando ausente dos cenários de conflito e de guerra, portanto, isto não me choca assim tanto, mas houve quase que uma necessidade, uma comoção mundial. Eu lembro-me que na altura me pediram para comentar o facto do Prêmio Nobel da Paz ter sido atribuído a Barack Obama e ter ficado sem muito que dizer, porque de facto achava que aquilo era mais do domínio do emocional e do volitivo do que propriamente do real. Havia ali uma necessidade de reconciliação com os Estados Unidos. Eu não creio que o mundo tenha, neste ano de 2025, uma necessidade de reconciliação com a Igreja Católica, mas tem expressa, penso eu, até na forma como está a reagir à morte deste papa, uma espécie de quase assombro por uma instituição que é quase invariavelmente apresentada como sendo uma coisa do passado, estando ultrapassada, e depois, de repente, quando se vê a morte de um papa, com todos estes rituais associados à morte de um papa, e quando depois se tenta perceber o que tem sido ou o que foi a intervenção desse papa, é quase como se houvesse uma surpresa, uma estupefação geral por ele ter estado presente no mundo do século XXI. Mas sendo isso absolutamente verdade em relação ao Papa Francisco, também é verdade em relação aos outros papas. E aqui estou referindo claramente ao que conheço, mal, mas que vou conhecendo, que tem a ver com o século XX. Os papas procuraram ou tiveram de se adequar muito a um mundo cada vez mais fora do Vaticano. E portanto, às vezes, nestas leituras daquilo que o Papa Francisco fez para estar a par do seu tempo, temos de perceber que aqueles que o antecederam, e aqui podemos recuar a João XXIII, com as questões da doutrina social da Igreja, podemos recuar ao elitista, muito elitista, Paulo VI, mas que na verdade se pôs a viajar por esse mundo fora, entrando e saindo de aviões para levar a figura do Papa, por exemplo, à África, à América Latina, uma coisa que era absolutamente impensável até aí. Podemos pensar em João Paulo II, que é sem dúvida um papa muitíssimo político. Mas a dizer missa em estádios de futebol, por exemplo, ou do caso, e isso é curioso, porque agora fala-se muito nas preocupações do Papa Francisco com o ambiente, que são reais, mas nós encontramos textos muitíssimo profundos, por exemplo, do Papa Bento XVI, sobre estas questões da vivência do homem neste planeta, que até mais ver, e é certo que ao que consta, o Vaticano tem manifestado sempre um grande interesse pela existência de extraterrestres. Não sei com qual papa, mas parece que essa curiosidade tem sido manifestada, mas este planeta, que para todos os efeitos é o único onde conseguimos viver. E portanto acho que nós mesmos, também como jornalistas, temos às vezes de fazer um bocadinho este esforço de perceber que além das notícias do dia, há uma continuidade no tempo e em matéria de continuidade, nenhuma organização, instituição ou o que lhe quisermos chamar, Estado, tem conseguido estar e continuar tanto quanto a Igreja Católica.
Os católicos têm uma explicação para isso, é que a Igreja é terrena, mas é também divina e conduzida pelo Espírito Santo.
Pois, mas como as notícias são só conduzidas assim
Não, mas é que essa explicação que tu estás a dar encaixa muito bem na explicação que os católicos têm para o que é a Igreja.
Não é um exclusivo do Papa Francisco esta tentativa de se aproximar aos tempos modernos. Isso é precisamente o que a Helena Mattos procura pôr em evidência. Para terminar, Helena.
Contando que tenha a bênção do Espírito Santo, o que não é coisa de somenos videira, eu diria que acho que se deve dar um 20 a este papa, porque como vários daqueles que o antecederam no século XX e XXI, têm procurado manter a Igreja, porque já cá está há de facto mais tempo do que todos nós e tudo indica que vai continuar.
São notas altas neste "E o Vento Sopro É". Amanhã há nova edição, logo pela fresca nas manhãs 360, depois das 08h30.