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"O Vencedor" é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube do Observador, hoje com a Judite França, a Helena Garrido e o Alexandre Borges. Eu sou o Ricardo Conceição. Hoje temos muitos temas. Vou tentar disciplinar estes meninos para que possamos ir a todos. Vamos falar da Flixbus, do custo de vida, do orçamento, de Espanha, do relatório da OCD sobre educação. Olhamos também para as rendas da habitação e regressamos ao caso das gêmeas, porque Alexandre Borges, ainda não te ouvimos sobre este caso, ontem foi conhecida a acusação.
Sim, gostava de olhar para o caso do ângulo da perspectiva de ver quem são os vencedores e os vencidos. E acho que se dá o caso estranho daquilo que é capaz de vencedores ser bastante imprevisto, de algum modo, ou aparentemente incoerente, mas que não deixa de ser interessante. Isto é, evidentemente, André Ventura e o Chega saem vencedores nesta fase. Na medida em que temos uma acusação, escusado será dizer que evidentemente toda a gente é presumivelmente inocente até prova em contrário. Não nos referindo a isso, mas o simples fato de existir uma acusação, é claro que dá uma certa razão a André Ventura e já vamos ver por quê. Mas os vencedores aqui, eu conto-os como André Ventura, Marcelo Rebelo de Sousa e, de algum modo, a própria justiça portuguesa/democracia. Afinal, ainda me parece de saúde. Os vencidos são, muito claramente, PS e PSD, há que dizê-lo, e Parlamento de um modo geral, porque olhando ao que foi o comportamento do Parlamento, dos restantes partidos na comissão de inquérito, de facto, optaram por concluir na altura que tinha havido uma intervenção especial, julgo que era esta a expressão utilizada, intervenção especial, mas sem ilegalidades. Intervenção especial é uma coisa que até soa a-
A operação especial
...a operação especial, exatamente, é isso. Parecia que podiam estar a escrever: "Tem jeitinho para eufemismo como o Kremlin". Estavam a esse nível. Por outro lado, só não diria que André Ventura pode reclamar vitória total neste caso, porque é evidente que Ventura está a fazer alguma demagogia com este assunto. Porque o grande alvo, em 2025, desta comissão de inquérito para André Ventura foi Marcelo Rebelo de Sousa. E o relatório redigido pelo Chega, pela deputada Cristina Rodrigues, na época, foi rejeitado por todos os outros partidos, particularmente porque este era o seu alvo e considerava que a comissão tinha apurado a culpabilidade do Presidente da República e que era um caso de abuso de poder. André Ventura gosta de fazer isso, mas não dá para escolher só o bocadinho que lhe interessa. Ele não pode dizer: "Não, a justiça deu-nos razão e provou." Para já não provou. Está por provar, como é evidente.
Ainda vai a julgamento.
Exatamente. Mas não pode dizer: "A justiça provou que nós tínhamos razão", quando foi só uma parte. E ainda ontem à noite, em entrevista à RTP, André Ventura tentou cavalgar esta onda e dizer: "Não, está lá que foi o filho que fez, portanto usou o nome de Marcelo." Eu posso usar os nomes que eu quiser. Até é sabido, não era preciso isto, mas até é sabido que Marcelo cortou relações com o filho. Mas não está aí sem causa, quer dizer, não é porque o filho, o neto, o avô, o pai faz qualquer coisa que incrimina o resto da família, como é evidente. E nessa medida, acho que chegamos um pouco ao segundo vencedor, de facto, que é o próprio Marcelo Rebelo de Sousa. Isto é, independentemente do que venha a acontecer no julgamento, Marcelo Rebelo de Sousa foi ilibado. E a Casa Civil também. Portanto, também não vale a pena dizer que foi o que fez Maria João Ruel ou o que fez o chefe da Casa Civil, ou dizer que a justiça provou que nós tínhamos razão em insistir nestes pontos, quando a justiça, aparentemente, prova justamente o contrário, isto é, considera que não há razão.
Queres dar uma nota?
Vou terminar para te dizer isto, que é: por que me parece que a democracia sai daqui vencedora? Embora este caso, lá está, se preste a imensos populismos, tem um outro lado interessante que prova justamente o contrário do populismo, e acho que é este lado que deve ser sublinhado aqui, que é: a justiça funciona. Isto é, continuas a ter uma separação de poderes clara e saudável em Portugal, ao contrário do que se pode tentar fazer neste caso. PS e PSD ficam muito mal, porque, de facto, tentaram, e fica o exemplo para o caso Luís Neves, aparentemente tentaram que este caso não avançasse por ali. Insistiram em não ver ilegalidades numa comissão em que a secretária do então secretário de Estado disse com as letras todas que marcou ela aquela consulta, aquela primeira consulta, como se isto fosse um procedimento habitual. Qualquer um de vocês pode experimentar. Experimenta. Vamos ligar e vamos ver se funciona assim.
Eu por acaso estou a precisar de marcar uma consulta com o ministro da Saúde.
Dá aquele toquezinho à Secretaria de Estado da Saúde, sei lá.
Ao ministro, diretamente.
Portanto, PS e PSD fizeram isto nesta altura, mas independentemente desta comissão de inquérito não ter apurado ou ter concluído pela não ilegalidade, o Ministério Público fez o seu trabalho e compôs uma acusação. Portanto, não só não precisas comissões de inquérito para fazer justiça, mas os partidos do centrão devem pensar bem em que tipo de aproveitamento político pode ou não resultar do seu comportamento nestas coisas. Portanto, as minhas notas: eu diria que Marcelo, apesar de tudo, pode sair daqui com um 12, Ventura com um 15, mas a democracia e a separação de poderes em Portugal com um 16.
Helena, tu ainda queres acrescentar alguma coisa?
Não, eu diria que há aqui, pelo menos, um aspecto que mostra que Marcelo não interveio. Basicamente, Marcelo fez aquilo que os presidentes da República em geral fazem Que é reencaminhou mansos. Desse ponto de vista, concordo inteiramente com o Alexandre, sobretudo no alerta aos partidos do centrão, que desvalorizaram uma questão que é muito sensível para a cidadão comum, que é o acesso à saúde. Não deviam ter desvalorizado o tema da forma como desvalorizaram, mais uma vez permitindo que o Chega cavalga-se um tema que para as pessoas é um tema importante.
Claro. Judite, quer falar sobre uma luta antiga que hoje conhece um novo episódio da FlixBus, que dá acesso ao magnífico terminal rodoviário de Sete Rios, em Lisboa. Que se é um local que os portugueses não conhecem, por favor, visitem.
Vale a pena. É verdade.
Pelo menos pela sua qualidade.
Qualidade do ar, sobretudo.
Arquitetônica.
E do ar.
E do ar.
Queres enquadrar aí num instante?
Enquadro num instante. Até a chegada da FlixBus, que é o que se chama de concorrência agressiva.
Concorrência a sério.
Concorrência a sério. Viajar de autocarro entre Porto e Lisboa pelo interior do país significava preços rígidos, autocarros por vezes antiquados. Portanto, a entrada da FlixBus veio obrigar os operadores ditos tradicionais a baixar preços, a modernizar frotas, a criar aplicações decentes para comprar bilhetes, a oferecer Wi-Fi que realmente funcione, coisas que antigamente não tinham que fazer. A FlixBus abalou o mercado que funcionava como uma espécie de um feudo há décadas. E atenção, ela conseguiu isto, ela a empresa, sem terminais próprios e a enfrentar bloqueios de acesso às plataformas de desembarque de Lisboa a Faro. E o que fez? Utilizou a regulação europeia, a força do preço para obrigar as grandes empresas a aceitarem que os tempos mudaram, e portanto nós tivemos aqui, de alguma forma, a Autoridade da Concorrência a mostrar os dentes.
Esteve impedida durante muito tempo de usar o terminal rodoviário de Sete Rios, porque a Rede Expressos não deixava.
Exatamente.
Que é a concessionária.
Como se uma empresa tivesse o monopólio de uma plataforma de entrada e de saída de autocarros. Não tem.
Tem a concessão, não é?
Tem a concessão, mas não tem a exclusividade. E atenção, ter a concessão já é por si errado.
Exatamente. Esse é o pecado original.
É como se uma companhia aérea tivesse a concessão de um aeroporto.
Por exemplo.
E só ela é que voava para lá.
Sim. A Autoridade da Concorrência.
Mas hoje temos então novas linhas, não é?
Mas deixa-me só acrescentar que a Autoridade da Concorrência veio demonstrar duas coisas. Primeiro, que havia concertação de preços e depois que havia bloqueios a infraestruturas essenciais como esta, e portanto forçou regras de transparências aos terminais. A grande lição do caso é que os terminais rodoviários não podem ser de propriedade privada ou de concessão de uma espécie de cartel, que funcionava como cartel. Sete Rios é uma infraestrutura crítica pra entrada e saída de Lisboa e tem que ser regulada, tem que ser tratada como um bem público, sob pena do país ficar refém do conforto de poucos em detrimento da mobilidade de todos. Eu acho que hoje é um dia de vitória, sobretudo para o consumidor, para o utente.
É um dia feliz pra concorrência.
É um dia feliz pra concorrência.
E tens uma nota?
Vou dar ao consumidor um 18, porque acho que fica muito mais fácil.
Acompanhas, Helena?
Eu não sou tão otimista como a Judite. Acho que este caso é um caso que ilustra bem. Vi sempre uma frase, e há sempre uma frase nas análises à economia portuguesa das entidades internacionais, que é recomendar a Portugal que faça a reforma dos mercados de serviços e produtos. Este é o exemplo do tipo de reforma que é preciso fazer. É preciso criar concorrência. A FlixBus tem fôlego financeiro, ou teve e tem, e vai continuar, porque vai continuar a guerra, porque só lhe deram 23 linhas, 23 horários. Tem fôlego financeiro pra combater a Rede Expressos. Agora, uma pequena empresa não tem capacidade financeira. Uma pequena empresa inovadora, que tenha iniciado a sua atividade agora, não tem fôlego financeiro pra combater a Rede Expressos. O que se passa aqui? O que não funciona aqui é o Estado de Direito, porque foi preciso ir pra tribunal e as entidades reguladoras e a própria Autoridade da Concorrência, ninguém teve capacidade de dizer à Rede Expressos: "Não. És a concessionária, mas como concessionária tens de abrir as linhas aos outros operadores, ou então tem que se ter capacidade de atirar a bomba atômica, que é retirar a concessão." O Estado tem de exercer o seu poder, porque a economia de mercado é muito boa, mas é se a concorrência funcionar. Não é deixar que uma empresa como a Rede Expressos abuse da sua posição, impeça a concorrência, usando e manipulando o sistema de justiça Podemos acreditar que só porque a FlixBus é uma grande empresa e tem capacidade financeira, porque outra empresa qualquer não tinha dinheiro para entrar nestas guerras e desistia.
E também tem comboios, sabias?
Também tem concessões de comboios, também podíamos a CP, eventualmente.
Na Europa. Tens alguma nota? Que ainda quero ouvir o Alexandre sobre a FlixBus.
Tenho uma nota para a incapacidade do Estado, é um quadro. Tem de se saber exercer o poder.
E neste dia do consumidor, Alexandre.
Sim, concordo totalmente com a Helena, percebo o ângulo da Judite, é evidente. E é um dia feliz, mas é isso, são 2%. É que eles continuam a resistir, isto é, o que cederam foram 2% da capacidade do terminal de Sete Rios. Portanto, esta guerra vai continuar, mas é um princípio. Finalmente puseram um pé na porta, ou neste caso, um autocarro. Mas este caso, que já fomos falando aqui ao longo do tempo, é isso, é sobretudo a triste ilustração de várias razões pelas quais o país não funciona. Antes de mais, é isso, estamos a falar de um terminal que é provisório desde 2004. Terminal provisório desde 2004, há uma formulação qualquer em que a frase do Vinícius de Moraes, do "o amor é eterno enquanto dura", que se inverte em Portugal, é provisório até que acabe.
É o provisório com caráter definitivo.
Exatamente, é isso mesmo. E portanto, como é que é possível há 22 anos que Lisboa, uma das grandes capitais europeias, vive disto, de um terreno que ainda por cima eram as oficinas do metrô, que são cedidas também à Rede Expressos. Portanto, nem o terreno é deles, não se compreende muito bem estas borlas, sem nada em troca e ainda não haver um projeto pra um terminal novo, como deve ser. Depois, a liberalização deste mercado em concreto dos expressos entre cidades, foi feita em 2019, em agosto de 2019, há sete anos. Portanto, há sete anos, que já mudou muita coisa, como dizia a Judite, e que se percebeu, as pessoas passaram, até por causa de todos os problemas com a CP, a viajar imenso de autocarro em Portugal, com preços muito mais favoráveis, incomparáveis, e é a maravilha da concorrência, de facto. Quando as pessoas puderam passar às vezes a viajar por € 5 e coisas do gênero entre Lisboa e Porto, comprado a tempo e em determinados horários. Mas há sete anos que no fundo, o principal terminal rodoviário ainda não está verdadeiramente aberto à concorrência, para se ver o tempo que isto demora. E depois, sobre isto que dizia a Helena, de facto só a FlixBus, que é a maior empresa do mundo, que é, entre outras, dona da Greyhound e, portanto, tem feito compras pelo mundo desta forma, é que teria músculo para isto. Porque mesmo outras empresas estrangeiras desistiriam, iam dizer: "Eu vou pra outro lado."
fosse a Xano Tours, não...
A Xano não conseguiria. Como é que sabias desse meu projeto anterior? Eu desistia, disse: "Vou fazer rádio."
A Xano Tours não consegue.
É lá que está o dinheiro, vou pra rádio. Tu não tens hipóteses, isto é, isto andou três anos em tribunal e andou também três anos com uma queixa na AMT, que também ninguém percebe muito bem pra que é que serve o regulador. Portanto, às tantas, como é que um estrangeiro compreende? Porque algumas empresas em Portugal também beneficiam disto, de saberem que os estrangeiros não sabem muito bem como é que funciona também a lei em Portugal. Tu imaginarias: "Eu faço uma queixa pra aqui, isto é ilegal, imediatamente isto transita e está resolvido." Não.
O poder administrativo.
Eu vou pôr os temas em cima da mesa, quem quiser, agarra. Temos o custo de vida, temos a proposta do orçamento do Estado, temos as rendas que voltaram a aumentar, temos a situação em Espanha, onde a inflação disparou pra quase 5%, e ainda temos o relatório da OCDE sobre a educação. Se calhar vamos para o custo de vida e para o orçamento, Helena.
O custo de vida, o orçamento e as propostas da oposição. Bom, o que se pode ainda dizer sobre isto? Nós estamos perante aquilo que é uma sequência ou uma dança política, basicamente. É a oposição a dizer: "É preciso mais medidas para ajudar as pessoas", e é o governo a dizer: "Não há dinheiro". Basicamente, para introduzir aqui alguma racionalidade, é preciso comparar a fase em que estamos nesta crise com a crise de 2022. E se fizermos essa comparação, nós ainda estamos longe da gravidade da crise de 2022 e não vale a pena estarmos a perder instrumentos e a perder dinheiro quando pode ser necessário, de facto, para apoiar muito mais as pessoas. Porque há pelo menos um desafio que estamos a enfrentar neste choque petrolífero, neste choque energético, petróleo e combustíveis, que não estava a ocorrer em 2022, quando foi a invasão da Ucrânia pela Rússia, que é a subida acentuada das taxas de juro da dívida. Já nem é só a taxa de juro que as pessoas pagam pela prestação da casa. Simultaneamente, está a haver aqui uma mini tempestade, que ainda não se sabe de que dimensão é que pode ter, com as taxas de juro pagas pelos Estados a subirem significativamente. O diagnóstico que está a existir neste momento é que até há cinco anos, digamos assim, havia mais poupança capaz de financiar as necessidades de investimento e dívida. Com a sucessão de conflitos em que é necessário os Estados endividarem-se mais para manterem o seu estoque de armamento, digamos assim E ainda com a procura de financiamento que está a existir muito significativamente, dá só os grandes nomes, por parte das empresas de inteligência artificial, neste momento há uma espécie de escassez de poupança global. É a explicação que está a ser dada para esta subida das taxas de juro. O que isto significa? Apesar de nós estarmos a descer a dívida, já no próximo ano, uma das faturas que aumenta mais é a fatura dos juros com a dívida. Portanto, temos várias frentes aqui para gerir e isso exige que se tenha toda a prudência. Se os objetivos não forem pura e simplesmente políticos, ou seja, se o PS, por exemplo, não quiser, pura e simplesmente, que o PSD perca o seu estatuto de disciplinador das contas públicas, que é o paradoxo que pode agora ocorrer.
Ó Sandro.
Sim, eu tinha sugerido o tema da inflação em Espanha, não tanto como um tema, mas como apenas porta de entrada para este assunto, que é: no meio desta discussão, de facto, nas últimas semanas, nos últimos dias, em particular, os dois maiores partidos da oposição confluíram na tese sanxista sobre a descida dos impostos nos combustíveis. E constantemente fazem essa comparação. De repente, hoje ficamos a saber que na estimativa provisória do INE espanhol, a inflação subiu para praticamente 5%, que é o valor mais alto em três anos. Basicamente, desde o início de 2023. Na sequência justamente desse ano de 2022, de grande choque com o início da invasão russa. Ainda não sabemos quanto é que vai ser a nossa, em Portugal, em setembro. Mas temos, por exemplo, os números de agosto, em Portugal foi 3,1.
3 e tal.
É, 3 e pouco, 3,3 penso eu. Em Espanha já tinha sido 4,3. Ou seja, sugerir como solução imediata.
E se a Espanha se constituir para nós, vamos à cama.
Para já vamos, sem dúvida. Mas usar como solução mágica, como o PS e o Chega estão a fazer, a questão dos combustíveis, de uma descida de 10% no IVA, compensado no ISP, é saber também, e há pouco, no intervalo, estávamos a ter uma outra conversa, mas que tem a ver com isto, que é: infelizmente, para resolver crises inflacionistas, normalmente as pessoas têm que sofrer mais, de facto. É exatamente o contrário de dar mais dinheiro. Nós ainda andamos a sofrer, a inflação nunca mais foi a mesma desde a Covid, em que alguns Estados, particularmente os Estados Unidos, injetaram dinheiro na economia.
É a nossa vida.
É, não é? Injetaram dinheiro na economia nessa altura, achando que as pessoas, como ia haver desemprego, que a economia ia sofrer imenso, mas, na verdade, muitas compras até aumentaram nessa altura.
Desculpa, mas aqui tu não tens um excesso de consumo.
Tu não tens um excesso de consumo?
Portanto, é uma inflação não provocada por excesso de consumo.
Há sempre excesso de consumo.
No sentido em que, a partir do momento que os preços da energia sobem, tu ficaste mais pobre.
Certo.
Porque não produzes energia, a combustíveis fósseis.
Exato.
E logo que ficaste mais pobre, isso, desse ponto de vista, tem o mesmo efeito.
Tem o mesmo efeito. Mas não é a mesma causa.
Exato.
Verdade. Mas não é por acaso que os bancos centrais depois sobem as taxas de juro. Em princípio, isso não faria nenhum sentido. Então a vida está cara e ainda me vão fazer ficar com menos dinheiro? Pois, mas a questão é essa, é que para os preços baixarem, infelizmente, é preciso que as pessoas tenham menos dinheiro. Portanto, a lógica de dar mais dinheiro. Imaginem que chegamos agora a novembro, às midterms, e Trump faz o que disse, que é que dá 5 mil euros a cada americano que vote nele. Imagine-se o que é que vai ser. É que esta crise, ainda por cima, tem uma raiz muito concreta. Eu não me consigo lembrar de outra que se resumisse numa só palavra. Esta crise tem um nome: Trump. Esta crise existe porque alguém decidiu fazer esta guerra, com todas as consequências do fecho dos estreitos pelo mundo, e já fora as questões anteriores das guerras tarifárias, da instabilidade injetada nos mercados que odeiam instabilidade constantemente com decisões num sentido e outras no sentido oposto. E esta questão é muito curioso, como é que o Chega ainda não pagou esta fatura? Como é que o PCP pagou, e bem, a fatura de continuar a ser pró-russo durante esta guerra, e como é que o Chega, ou como é que os partidos de direita radical ainda não começaram a pagar o preço político pelo que as pessoas estão a passar.
Estou a ver se o Sítio tem a resposta para essa pergunta. Eu diria que as pessoas não fazem essas contas ainda. Ainda não fizeram essas contas.
Não, as pessoas ainda não fizeram essas contas.
Basta ver aquelas reportagens que temos todas as semanas nas bombas de gasolina, nas televisões. É aquela reportagem tipo à sexta e à segunda-feira, e ao domingo também. Isto está muito caro, eles não ajudam, eles não fazem nada.
E eu ponho sempre 20 euros.
E em Espanha isto é muito mais barato.
É verdade, esse é o discurso. Mas não nos esqueçamos que Espanha tem uma diferença em relação a nós. O IVA é mais barato, porque, de facto, Espanha decidiu baixar o IVA e recuou nessa medida.
Teve de recuar.
Perante a obrigação europeia.
Este meu entredito, Sítio, mais para te provocar a dizer aquilo que eu penso. Não, estou a brincar. Mas o que é facto é que estamos a assistir A pouca seriedade na forma como estamos neste leilão de indigências, porque não estamos a explicar as coisas todas como elas devem ser explicadas, com responsabilidade, nem a olhar para daqui a seis meses ou um ano.
Nem estamos a olhar para o facto de termos uma grande parte, como ainda há pouco ouvíamos do economista Nogueira Leite, que é a chamada política invariante, que é o que se costuma dizer, é dinheiro que está cativo para gastos.
4900 milhões de euros.
São quase 4900 milhões de euros. São 4783 milhões de euros. A partir do momento em que tivemos o aumento de despesa com pensões, etc., tivemos o aumento com carreiras especiais da função pública, convém não esquecer, tudo isso vai cair em 2027. Portanto, a nossa margem é curtíssima. Qual era a pior coisa que nós podíamos fazer com essa margem tão curta? Era baixar combustíveis, porque automaticamente-
É um sinal completamente errado.
É um sinal completamente errado, de todos os pontos de vista. Nós ouvimos aqui João Galamba falar da mobilidade elétrica e da necessidade de virar o ponteiro. Agora, sim, temos uma causa premente para virar o ponteiro. E de facto, aí o governo podia ajudar, porque era um on/off. Era uma medida para as pessoas trocarem de carro, era uma ajuda para as pessoas trocarem de carro. Porque senão, o que nos resta? Andar com veículos de tração animal, como tu dizes.
O meu veículo híbrido de tração animal, para quem não sabe, é uma bicicleta elétrica.
Exato. É o que nos resta.
Mas hoje não damos jeito, porque está a chover.
Vai começar a chover.
Vai começar a chover, precisamos de carrinha.
Incomoda-me um pouco andar à chuva, confesso.
Incomoda-me muito andar à chuva.
Uma pessoa com a minha idade também já não se pode expor assim aos elementos.
Exato.
Os elementos.
Olha, nem vos vou pedir nota sobre isto. Queria ir ainda ao relatório da OCDE sobre a educação. Helena, os professores afinal não ganham mal?
É muito rápido, sobretudo porque é um desafio maior.
Tens amigos professores, tu própria és professora. Mas estás a dizer que os professores não ganham mal?
Os professores ganham mal.
Tu habilitas-te.
Sim, os professores ganham muito mal. Estamos a falar sobretudo do básico e secundário, e os professores do ensino superior, há uns anos era equiparado o salário a magistrados e hoje estão muito longe. Mas este trabalho da OCDE está sobretudo focado na evolução dos salários dos professores do básico e secundário. E é interessante porque é contraditório. Os salários dos professores em Portugal são, em média, superiores à média dos salários dos diplomados, das pessoas com licenciatura, em geral. Mas, simultaneamente, o primeiro salário, quando se inicia a carreira, na última década caiu 10% em termos reais.
E já era muito baixo.
Exato, em poder de compra. E a diferença entre quem está cá embaixo na carreira e quem está lá em cima é uma das maiores da OCDE.
Isso é muito grande.
Portanto, há aqui muita coisa para corrigir. Não é fácil de corrigir estas discrepâncias. É preciso melhorar a base salarial para atrair mais jovens pra carreira, até porque há muitos professores a reformarem-se. E é preciso, simultaneamente, e essa é uma das queixas dos professores portugueses, a burocracia e a indisciplina. O ministro Fernando Alexandre prometeu simplificar a burocracia. É de facto um horror. Como disseste, eu dou aulas e não me lembro de tratar tanta papelada que eu gostava de saber quem é que via depois aquilo.
Essa é a sensação, que depois ninguém vê.
Exatamente. E os professores em geral estão completamente submersos em burocracias que valia a pena serem revisitadas. É aqui mais um desafio para o ministro Fernando Alexandre.
Judite, queres acrescentar alguma coisa?
Eu acho, de facto, que quando se quer atrair professores pra carreira e quando o primeiro salário é pior ainda, é um contrassenso autêntico. Há bocado falávamos do aumento das carreiras especiais. Os professores também deviam ser uma carreira especial, porque são a base do futuro e eu tenho muita dificuldade em perceber que não sejam mais valorizados.
Alexandre, ainda tenho um minutinho pra ti.
Eu, por acaso, não tinha nada para dizer.
Não sei o que querias dizer.
Pronto. Até parece.
Pensei que querias falar das rendas. Era um tema da linha.
Acho que já não vamos a tempo.
Não vamos a rendas. Não vamos a tempo?
Falamos amanhã das rendas.
Fica o mote.
Até porque amanhã é o dia em que se vai discutir.
Amanhã que é o dia.
Exatamente. Amanhã, as rendas no "O Vencedor" é vespertino, porque no matutino eu não sei ainda do que é que vão falar, mas sabemos que vão estar o Paulo Ferreira, o Bruno Vieira Amaral, o José Manuel Fernandes e o Rui Pedro Antunes, o editor de política d'O Observador. Um elenco que promete amanhã pela fresca, ali depois das 08:30 da manhã. Até amanhã.