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E o vencedor é na Rádio Observador com Aristide França, Raquel Bocasis e António Costa. Estamos na última semana de campanha para a segunda volta das presidenciais, numa altura em que há milhares de portugueses afetados pelo mau tempo e muitos milhões de euros de prejuízos. Esta, Raquel, poderá ser a campanha mais atípica de sempre. Não existe praticamente.

Sim. Ela já não prometia muito porque esta ideia de uma segunda volta, de passarmos diretamente de uma campanha pra outra, para um país que já está fartíssimo de campanhas e de eleições, já não era famosa à perspectiva. Mas agora com estes acontecimentos, eu acho que a coisa se tornou mais complicada pros dois candidatos em campanha, como eu acho que temos vindo a verificar no terreno, por um lado, e por outro lado, também eu acho que no evoluir das sondagens que são conhecidas. Acho que aquilo que parece é que há cada vez mais desmobilização do voto. E eu diria que há também um outro fenômeno, que tem que ver com algumas pessoas, quer pela abstenção, quer pelo voto em branco, quer por um voto envergonhado, que querem utilizar estrategicamente o seu voto. Vale o que vale, o que nós vamos ouvindo à nossa volta.

Nas nossas conversas.

Mas na minha tracking poll pessoal, eu ouço cada vez mais pessoas quererem direcionar o seu voto de forma a que a vitória de António José Seguro não seja esmagadora e, sobretudo, não ultrapasse as vitórias de Mário Soares, de Marcelo Rebelo de Sousa, etc. E a minha tracking poll começa a bater certo com a outra tracking poll oficial. E, portanto, acho que há aqui uma série de fatores combinados que podem trazer uma tempestade semiperfeita no dia das eleições. Não me parece para já que possa haver uma reviravolta naquilo que é o resultado expectável, mas acho que é bastante possível que a vitória de António José Seguro seja muito menos folgada do que se pensava inicialmente, e acho que ele já terá percebido isso. Não sei se está a adotar a estratégia mais certa.

António?

Campanha? Qual campanha?

Não há.

E acho que aí António José Seguro tem responsabilidade, porque nós passamos de uma primeira semana também atípica, em que não havia propriamente campanha, pra uma segunda semana em que houve o debate que dominou a semana e que culminou com uma tempestade. E, portanto, António José Seguro creio que começou com esta ideia à espera que os votos lhe caíssem no colo e literalmente foram caindo diariamente. Se não era combinado, parecia. Cada dia aparecia uma figura mais ou menos importante, mais ou menos relevante, e muitas delas, é preciso dizê-lo, relevantes, a anunciarem o voto contra André Ventura. Na verdade, foi isso que foram anunciando estas personalidades, mais do que o voto a favor de António José Seguro, foi um voto contra André Ventura. E o que se suspeitava é que isto podia estar a criar uma ideia que se acentuou nos dias da semana passada com a catástrofe da região Centro, que era que tínhamos dois presidentes em exercício. Tínhamos Marcelo Rebelo de Sousa, que não foi logo imediatamente, e António José Seguro a dizer que foi, mais ou menos em segredo, mas depois disse: "Mas quero que saibam que fui." E a comportar-se e a falar como um presidente indigitado. Nos últimos dias, creio que obviamente o tema da catástrofe talvez tenha contribuído pra isso, deu algum espaço de dramatização a André Ventura, e isso talvez explique o que tu dizias, Raquel, e creio que bem, que é o aumento de tom de António José Seguro em relação a André Ventura. Passou ele próprio também, nomeadamente a partir desde ontem com a entrevista à SIC, a agarrar o tema dos democratas contra os antidemocratas e do que estava em causa e de uma dramatização que eu acho que resulta de uma percepção que eu próprio tenho, e que a tracking poll vai dizendo, que a vitória pode ser menos óbvia. E, de facto, a autoridade democrática não está em causa. Uma vitória até pode ser com 50,01, como é evidente, mas a autoridade política pode ser mais ou menos reforçada, sobretudo com esta ideia que se criou de que estava tudo contra André Ventura e este movimento contra André Ventura. Depois chegamos a domingo, e António José Seguro-

E isso será seguramente uma vitória pra Ventura, se conseguir contrariar essa ideia.

Obviamente, se os resultados não forem de uma vitória absolutamente expressiva, porque a expectativa está criada, e ao criar-se essa expectativa, pôs-se a fasquia tão alta que agora às tantas António José Seguro tem que correr um bocadinho Tem que ser candidato, porque ele não é presidente, tem que ser candidato e dizer o que vai fazer.

A questão é se ele está a adotar a estratégia certa, porque a narrativa dos democratas contra os antidemocratas eu acho que cala fundo à esquerda, mas no centro e no centro-direita, não.

Deixa eu ouvir ainda a Judite também. O que diz o teu tracking poll, Judite?

Eu não tenho um tracking poll pessoal.

Não tens?

Não tenho.

Tens que comprar uns, então.

Não, é um microcosmos.

Não vais à zeladoria com o presidente Marcelo?

Não consigo fazer daquilo um tracking poll, porque quando as amostras são muito pequenas, eu acho que o tracking poll não resulta. O que eu acho nesta altura era aquilo que a Raquel estava a dizer. Isto dos democratas contra os não democratas, que ontem António José Seguro tirou da cartola durante a entrevista, surpreendeu-me muito, porque era ser a conversa em que não se queria cair desde o início e em que o próprio António José Seguro não queria cair. E quem estava com uma conversa dos socialistas contra os não socialistas, que também era uma conversa perigosa, era André Ventura. Aparentemente, André Ventura decidiu falar de elites, tirou esta ideia, já não fala dos socialistas, não fala disso, deixou de falar. E agora é António José Seguro que vai buscar os democratas contra os antidemocratas. Nós há bocado ouvimos aqui no Caminho a Belém, que não é propriamente uma coisa muito fácil de defender, como vimos.

Nós tivemos António Mendonça Mendes e o Rodrigo Tasha, em que cada um, António Mendonça Mendes apoiante Seguro e Rodrigo Tasha apoiante André Ventura.

E, portanto, eu não acho que esse seja um bom caminho para António José Seguro. E também acho que é preciso pôr pés ao caminho, porque sessões fechadas. Eu sei que está a chover muito e deve ser difícil arranjar uma aberta pra fazer uma arruada, mas eu lembro-me de campanhas à chuva.

A própria primeira campanha, houve muita chuva.

Mas se calhar uma arruada também nessa altura...

É, fizeram-se muitas arruadas à chuva.

Não é isso, no atual contexto que o país atravessa.

É, não precisa de ter bombos. Os comícios também agora não estão a ter música entusiasmante à entrada. Fazem-se pequenas alterações. Qual é a alternativa? É fazer uma campanha do género André Ventura a carregar paletes d'água? Isso não me parece que seja uma alternativa pra António José Seguro. E, portanto, eu acho que ele precisa de fazer algum tipo de campanha e não chega estar fechado com Portugal sentado. Isso não chega, infelizmente. Portanto, precisa de fazer campanha, precisa de ir pra rua. Hoje vai dar outra entrevista, portanto, claramente nota que precisa de trabalhar.

Não é só estar. Estar não chega. E à medida, eu ouvi o Miguel Pinheiro há pouco aqui no Caça ao Voto, e eu acho que tem razão, isto é, isto correr mal ou bem ao governo, mas já corre muito mal às pessoas, infelizmente. Mas correr politicamente mal ao governo pode dar aqui algum gás a André Ventura.

Vamos continuar a falar de presidenciais já na segunda parte de "E o Vencedor É?" e já agora, só pra desanuviar um pouco, eu não sei se a Constituição permite arruadas sem bombos.

Só com trilho elétrico.

Tu sabes falar ao meu coração. Estamos a falar sobre as consequências também do mau tempo nas presidenciais. Dia oito, já no próximo domingo, é dia de eleições. Este domingo já votaram alguns milhares de eleitores no voto em mobilidade. Judite, ficamos com notas pra dar da primeira parte.

Sim, eu queria dar uma nota a António José Seguro, porque acho que, de facto, é o que está a ficar pra trás nesta campanha na segunda semana e acho que isso se vai notando. Portanto, um nove pra ver se percebe que tem que estudar.

Tem que pedalar. Raquel?

Se calhar baixo um bocadinho.

Temos professoras muito exigentes.

Mas ainda ponho com capacidade de ir ao oral.

Isto aqui é ensino exigente.

Não, mas só pra acompanhar a nota de uma observação que não fiz na primeira ronda. É que pra grande parte do país, estas eleições não são entusiasmantes. Esta segunda volta, tendo em conta os protagonistas em presença, não são entusiasmantes. E em particular, António José Seguro não é entusiasmante pra uma grande parte do eleitorado, eu diria à direita e à esquerda. E acho que lhe cabia e que lhe cabe, nesse aspecto, dou um bocadinho de razão a André Ventura quando ele diz que anda aqui a tentar passar entre os pingos da chuva e achar que não tem que dizer nada às pessoas. Eu acho que António José Seguro prepara-se pra ocupar o mais alto cargo do país e, portanto, convinha que brilhasse um bocadinho mais. E acho que está a fazer muito pouco esforço para brilhar e para se mostrar como alguém que vai ocupar um lugar que pra maior parte dos eleitores é muitos furos acima daquilo que achavam que António José Seguro seria.

E apresentou-se, se calhar, na opinião de alguns, pergunto, com alguma sobranceria que lhe pode ser prejudicial.

Por acaso não há. Quer dizer, eu até conheço pessoalmente António José Seguro e eu acho que ele não é esse tipo de pessoa. O que eu acho é que ele quis manter uma estratégia que correu bem na primeira volta. Só que ele na primeira volta estava a correr com muita gente e agora os focos estão todos em cima dele. E ele tem que provar mais, tem que mostrar mais e tem que provar mais. E está a tentar fazer uma campanha sem fazer isso, e eu acho que isso é muito mau, e acho que inclusivamente dá um grande empurrão a quem não quer sair de casa, porque as pessoas, de facto, não se sentem entusiasmadas.

Já estou perdido na tua nota, que nota afinal deste? Oito?

Oito.

Eu dou um 10,5, porque apesar de tudo continua claramente à frente nas sondagens e não se alterou de forma relevante A perspectiva de que venha a ser mesmo o Presidente da República. Apesar de tudo, ontem na entrevista à SIC, eu creio que foi um pouco mais longe, foi mais exigente com o Governo.

Um pouco mais assertivo.

Assertivo. Apesar de tudo, acho que percebeu que tem que dizer mais alguma coisa do que esperar por domingo. E por isso olhe esse 10:30, embora, obviamente, tenho a certeza absoluta, convicção profunda de que não é do seu registo, da sua natureza, navegar em cima de uma tragédia como esta. Está longe disso, mas apesar de tudo, de facto acabou por beneficiar do ponto de vista político, porque esteve mais protegido. E agora vai haver uma pressão nestes últimos dias, mais concentrada, com maior pressão, pra ter que ir a jogo, e eu acho que tem que se preparar pra isso.

E temos, Raquel, também de ir ainda ao plano do governo para acudir às vítimas dessa tempestade.

Parece um plano pensado nas várias áreas e pra acudir às várias dificuldades que surgiram com esta questão. A minha dúvida é se vai chegar. Os primeiros sinais deste grupo de coordenação, não sei agora o nome técnico exato, que está a funcionar em Leiria. Os primeiros sinais é de que começaram já hoje a trabalhar e a tentar mapear aquilo que são as principais dificuldades. Agora, eu acho que aquilo que aconteceu nos últimos dias mostra-nos mais uma vez a nossa fragilidade. Nós somos o país do desenrasca, definitivamente, e não conseguimos sair disso. Não sei quantas coisas mais vão ter que acontecer pra termos consciência de que temos que estar preparados. Tu e eu trabalhamos muito tempo no Chiado, na nossa Rádio Renascença, e havia uma conversa permanente que era o terramoto. E nós vivemos num país que tem uma altíssima probabilidade de nos acontecer uma coisa destas. O que aconteceu foi muito mau, mas apesar de tudo não foi uma tragédia dessa dimensão, e as pessoas ficam muito assustadas por perceberem a falta de preparação e de coordenação que existe pra fazer face a estas circunstâncias. Deixa-me só dizer mais uma coisa em relação a isto, que é: pra além das ajudas e do impacto econômico, isto é pra passar a bola aqui pro António, que poderá ter na nossa economia. Parece que se fez luz.

Agora tenho que explicar que o edifício do Observador esteve sem luz durante todo o dia. Voltou agora. Também estivemos aqui em modo apagão durante demasiadas horas, diria.

Só pra dizer uma coisa: pra além do dinheiro que vai ter que se gastar para tentar repor minimamente as condições de vida naquela zona, aquela é uma zona que tem um enorme contributo, do que eu percebo, pra economia nacional. Estas indústrias e estas fábricas estarem destruídas, paradas, o impacto que isso vai ter na economia, a somar ao que a tragédia já tem, e até, penso eu, nos níveis de eventual desemprego, que os últimos números eram muito bons, mas são contas que ainda é preciso fazer e é bom que chegue uma ajuda mais organizada, mas não sei se não vamos penar. Eu queria pegar nesta questão agora da ajuda organizada, porque a sensação que dá é que há várias camadas, várias organizações, várias estruturas, e depois tu não sabes exatamente, cada um tem uma quinta e não há articulação entre as quintas. Parece que não há ninguém que mande, no final de contas. Esta estrutura de missão é exatamente pra tentar comatar isso. Pelo menos na parte da reconstrução, haverá um que manda, e eu acho que isso é importante. Em relação às medidas, olhando pra as medidas, elas parecem favoráveis e parece que vão no caminho positivo. Não sei, sinceramente, se aquele valor chega. Não consigo ter essa noção.

Não sabemos ainda.

Se aquele valor chega.

Eu arrisco dizer que não chega. Vamos ver, nós estamos mesmo, eu creio que hoje é possível dizer isso, perante uma espécie de mini Covid, com consequências, de facto, econômicas e sociais muito difíceis. Isto vai demorar meses. Nós recordamos no Covid, havia aquela frase: "Isto vai ficar tudo bem." Não vai ficar tudo bem. Vai demorar muito tempo.

Porque aí dava pra voltar praticamente ao trabalho no dia seguinte. Que as coisas estivessem mais ou menos controladas. E agora aqui não dá, não é?

Não dá. O nível de destruição empresarial é muito grande. O plano é o plano possível num curto espaço de tempo de um governo que tardou a perceber a dimensão disto e que correu olhando pro que havia no Covid, precisamente, na pandemia, e tentando recuperar algumas medidas. Quero notar que dos 2,5 mil milhões de euros anunciados, cerca de 2,1 mil milhões são endividamento e financiamento público, financiamento em entidades públicas. Estou a falar de 1500 milhões de linhas de crédito São dívida para as empresas, é certo, com moratórias e a possibilidade de alguma transformação em fundo perdido, mas limitada. O que também se percebe, porque os recursos do país são os que são. E depois são 400 milhões para Infraestruturas de Portugal e 200 milhões para as CCDR, portanto, público. Sobram 400 milhões para empresas e famílias. É o primeiro suporte. A reconstrução vai demorar, de facto, muito tempo. Eu arrisco dizer que depois dos incêndios e com esta tragédia, que felizmente não teve, ao nível dos incêndios, efeitos de vidas, mas que tem do ponto de vista económico muito mais efeitos do que os incêndios.

Sendo que toda aquela região é importantíssima.

Vamos lá ver, nós falamos muito de turismo. Só para terem uma ideia, aquela região vale cerca de 15% do PIB português, 36 mil milhões de euros. Tem um peso muito relevante nas exportações e, sobretudo, exportações para outras empresas que fazem o produto final. Isto é, quando essas exportações não saem, o produto final também não sai. E isso passa na indústria cerâmica, no setor automóvel, vidro, enfim, uma série de indústrias. Eu arrisco dizer que vai ser necessária uma espécie de uma intervenção como houve aqui há muitos anos, na década de 90, no Vale do Ave, uma intervenção integrada, porque a região, de facto, em menos de 10 anos passa aqui por duas catástrofes naturais muito difíceis de ultrapassar. Agora, as ajudas, o ponto crítico é o tempo que vão demorar a surgir. Obviamente que o governo já veio dizer, hoje nomeadamente: “Atenção que as ajudas são importantes, mas as seguradoras têm que ser as primeiras, naturalmente, a pagar as indemnizações dos prêmios e dos seguros que estão feitos.” Não sei se tive a oportunidade aqui de dizer que nos incêndios as seguradoras pagaram em prêmios de seguros 250 milhões de euros. Nós aqui estamos a falar de 1000, 1500, se calhar 2 mil milhões de euros de estragos. As cheias em Valência custaram 4,4 mil milhões de euros.

Às seguradoras? O total.

4,4 mil milhões de euros. Foi uma coisa num dia, muito circunscrita a Valência, aqui o efeito, seguramente, e a importância para o país é maior, embora uma tragédia, também sabemos, em Valência. Portanto, a resposta vai ter que continuar, e eu creio que foi boa ideia, por manifesta falta de capacidade da ministra, de criar esta unidade de coordenação, que vai estar no terreno e com um autarca. Foi autarca, foi presidente da Câmara de Fundão, e portanto, eu dou um 12 ao plano de resposta condicionado por esta incapacidade de responder. Não é de evitar a catástrofe, porque essa é muito difícil de evitar.

Claro. É imprevisível na escala.

Exato, é de responder às consequências da catástrofe.

E o Vencer or É regressa amanhã, depois das 08h30, nas manhãs 360 da Rádio Observador.