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Começa agora mais uma edição do "Jovem Sorê" da Rádio Observador. Esta segunda-feira a análise é feita pela Alexandra Machado e pelo Rui Pedro Antunes, que se juntam ao José Manuel Fernandes e ao Paulo Ferreira. Carla, hoje falamos de justiça, de democracia interna, mas começamos com contas certas. É o que promete o novo ministro das Finanças. Aliás, Fernando Medina vai mais longe, diz que contas certas rimam com esquerda. Paulo Ferreira suspira já.

Eu suspiro já, convém não exagerar, não carregar demasiado nas cores. E Fernando Medina aqui claramente não só carrega nas cores, como torna o balde de tinta aqui sobre a parede ou sobre o chão. Queria pegar nisto, a propósito das declarações do novo ministro das Finanças ao Expresso este fim de semana, e a frase está lá até na primeira página. Diz Fernando Medina: "Ter contas certas é uma política de esquerda". Convém não exagerar, mais uma vez. É muito bom que o governo esteja ciente da necessidade de ter orçamentos equilibrados. Foi melhor ainda que em 2019, antes da pandemia, o governo socialista com Mário Centeno tivesse chegado ao primeiro superávit marginal, mas lá está, superávit da democracia portuguesa, isso é um ótimo sinal. Agora, convém, de facto, não levar as coisas e perder a memória e no fundo vir dizer que o PS é de contas certas desde pequenino, porque não é bem assim, não é todo assim. Primeiro, isto devia ser uma política nacional e não de direita ou de esquerda. Esta ideia de que em situações normais de ciclo económico, quando não há nenhuma tragédia, quando não há nenhuma pandemia, o normal é que os governos, os Estados, gastem apenas aquilo que recebem. E se tivesse sido assim desde sempre, não teríamos em 2011, há mais de 10 anos, pedido pela terceira vez um resgate financeiro. E nessa altura, convém lembrar, foi um governo socialista que conduziu o país a esse acordo com a troica que o assinou. Portanto, convém não levar demasiado longe estas ideias, mas queria aqui deixar de facto esta nota de que é muito bom que o governo e o ministro das Finanças, a começar pelo ministro das Finanças, tenham este objetivo e esta bandeira bem presente. É sinal de que pelo menos vão pensar nele todos os dias e vão fazer com que as contas batam o mais certo possível. É muito bom que o orçamento de Estado já preveja uma descida do déficit este ano para 1,9%, mesmo depois da pandemia e mesmo contando com o gasto que o Estado está a fazer para tentar amortecer o aumento de preços. Pode-se discutir depois se devia ser mais, se devia ser menos, se a subida de combustíveis devia ir mais longe, o que se devia fazer em relação aos preços dos alimentos. Pode-se discutir também se os salários da função pública deviam ou não ter um aumento intercalar, tal como as pensões. Mas é bom que o governo tenha essa noção de que contas certas é um bom princípio, até porque um país que tem uma dívida ainda muito acima de 120%, como é o nosso caso, não tem margem de manobra. E é preciso ter esta noção, porque o que correu mal há 10 anos deve servir-nos de lição. Portanto, nota positiva, a lição que se tirou, nota negativa para Fernando Medina, a falta de memória, como é evidente. Não nascemos ontem e isto de vir dizer que ter contas certas é uma política de esquerda, está por provar, como é evidente.

Então entre a nota positiva e a negativa, que média é que isso dá?

Levam 10. A positiva muito pela ação, a negativa pela declaração e, portanto, faço aqui uma média, levam 10.

Levam 10. Bom, mas isto das contas certas, Alexandra Machado, aplica-se também às ajudas públicas que o governo está a preparar?

Bom dia. Eu acho que devemos é olhar bem para essas contas certas. Só vou dizer três nomes de empresas: Novo Banco, TAP e Facec.

Pronto, já estragaste tudo.

Não fui eu que as estraguei. Mas quando Fernando Medina chegou ao ministério, foi logo anunciado que tinha sido concluída e entregue no Parlamento uma auditoria da Deloitte relativamente ao Novo Banco e aos atos de gestão de 2020. Só para recordar, cada vez que há uma injeção de capital no Novo Banco, tem que haver uma auditoria. E pronto, esta relativamente a 2020, que permitiu a injeção ou que permitirá uma injeção de capital, foi entregue no Parlamento. Mas de repente, nunca mais se ouviu falar desta auditoria. Aliás, houve uma notícia do Expresso sobre um pormenor da auditoria, mas era bom que o Parlamento, agora que as comissões parlamentares já estão constituídas, e mais uma vez nós falámos disto quando não havia Assembleia da República na sua plenitude, e agora voltamos a falar para não se distraírem completamente com o orçamento de Estado, até porque isto são questões também orçamentais, é bom que a comissão parlamentar ou o Parlamento não se esqueça de divulgar essa auditoria. Era importante que se conhecesse o que é que diz, o que a Deloitte apontou nessas auditorias. E a propósito disso, uma vez que no Novo Banco, cada vez que há uma injeção tem de haver uma auditoria, eu pergunto-me se não deveria acontecer o mesmo com outras empresas, nomeadamente a TAP. Soube-se na semana passada, depois no turbilhão do orçamento, pode também ter passado mais ao lado, a TAP teve um prejuízo de 1600 milhões de euros em 2021. Já se esperava que fosse grande Tem aquele impacto com o Brasil, com uma provisão constituída por causa do negócio da manutenção do Brasil, que claramente foi um buraco que a TAP se meteu e supostamente ou alegadamente vai ser o último ano em que penaliza as contas, mas foram € 1.600, metade da ajuda pública que se fez à TAP. Eu não sei se não seria tempo também de se pensar em auditar a TAP em cada ano que passasse do plano de reestruturação. Nós sabemos que a Comissão Europeia está em cima da TAP e analisa a TAP, mas o Novo Banco também tinha a Comissão Europeia em cima dele. Eu acho que estes assuntos das ajudas públicas têm que ser muito cuidados, nomeadamente pelo Parlamento, e não deixar que se passe ao lado de cada vez que há uma injeção de capital ou uma injeção pública. E isto faz-me trazer também o meu tema preferido, que é a Efacec. Foi anunciada a venda e a reprivatização, e de repente parece que tudo se resolveu na Efacec, sendo que não há uma linha sobre a Efacec no orçamento de Estado para 2022.

Não há nenhuma referência?

Não há nenhuma referência da Efacec para o orçamento de 2022. No mínimo é estranho, porque se foi vendida agora, vai ser vendida em 2022. Por muito que o impacto orçamental possa ser nulo, entre o que sai e o que entra, pode haver um impacto nulo, mas acho estranho não haver uma única referência. Na realidade, são três temas num só, e que a gestão destas contas públicas e das ajudas do Estado, e tanto se fala em contas certas, que se calhar seria acertado falar mais dessas contas. E é essa a nota que eu trago ainda a propósito das contas certas também do Paulo Ferreira.

E o Paulo Ferreira deu um 10 às contas certas. Que nota é que tu dás, Alexandra?

Eu não vou dar uma nota a Fernando Medina, mas vou dar uma nota ao Parlamento, também um 10, para ver se aceleramos aqui um processo de entrega de um trabalho que permita melhoria de nota ao Parlamento no seu conjunto, para ver se dá uma melhoria de nota.

Muito bem. Então fica esse 10, mas é para ser melhor, fica esse arrecado.

É para ser melhor. Têm que entregar trabalho, é uma obrigação de entregar trabalho.

Muito bem, senão a nota pode descer. Já entendemos. José Manuel Fernandes, queres voltar a tua atenção para a justiça e para mais um episódio da saga Vale e Azevedo?

É verdade. O que é que se passa com o Vale e Azevedo? Passa-se com o Vale e Azevedo que ele devia começar a ser julgado amanhã. Estava agendado esse julgamento, mas acontece uma coisa verdadeiramente extraordinária, é que há mais de três anos, isto é, desde março de 2019, um ano antes da pandemia, não estamos a falar de uma coisa que se tinha passado só durante a pandemia, estamos a falar de algo que começou mais de um ano antes da pandemia, que o tribunal tenta notificar João Vale e Azevedo. João Vale e Azevedo está a residir em Londres, diz-se que também está a trabalhar, não sei bem que trabalho é que é o dele, mas tenta notificá-lo para ele comparecer a julgamento e não consegue. Como não consegue e o juiz não tem expectativa que ele voluntariamente venha a julgamento, desconvocou a sessão que estava marcada para próxima terça-feira. Quando se lê os detalhes desta história que vem hoje no Público, percebe-se que a justiça portuguesa continua a ter coisas que são injustas e, sobretudo, incompreensíveis. Uma delas é o tempo que leva cada tradução. Nós já tivemos noção disto também no processo do rendeiro da África do Sul, mas as traduções parecem que é um quebra-cabeças. Há traduções que levaram meses. A tradução do termo de identidade e residência, por exemplo, que era preciso para enviar para Londres, o pedido foi feito no mês de maio, salvo erro, e só foi entregue em outubro, e depois de outubro é que o tribunal pôde enviar e a justificação do tradutor é que trabalha mais. Não é a tradução para uma língua estranha, remota, com poucos falantes. Estamos a falar de uma tradução para inglês, que é a língua franca atualmente do mundo. Tudo isto é realmente incompreensível, é mais um sinal de que não levamos as coisas a sério, sobretudo quando se lidam com personalidades ou figuras, acho que dizer personalidade é quase ofensivo para o termo, figuras como Vale e Azevedo, cuja especialidade é fugir à justiça, contorná-la e no fundo rir-se de todos nós, que é o que ele já fez várias vezes, em várias ocasiões, sobretudo quando vemos o estadão em que ele vive em Londres e quando não conseguimos compreender como é que isso é possível, depois de tudo aquilo que ele fez em Portugal, tudo o que foi acusado. Mais uma vez, é uma nota muito negativa para a forma como funciona o sistema judicial português. Eu acho que vou começar a semana com chumbo direto.

Nem a Páscoa te valeu. Começas já com o teu chumbo, o teu chumbo direto.

Não tenho nenhum espírito pascal, não estou em nenhuma classificação hoje, devo dizer-te.

Então um quatro para a justiça portuguesa no caso de João Vale e Azevedo, que está em Londres e está a ser muito difícil de ser contactado pelas autoridades judiciais portuguesas. Rui Pedro Antunes, queres ir para a alta política?

Mais ou menos.

Então vais falar da decisão de André Ventura de ter suspendido as eleições internas?

Exatamente. Como é que podemos tornar isto alta política? Deixe-me pensar um bocadinho. Talvez lembrando aquela frase de Winston Churchill que diz que a democracia é o pior de todos os sistemas, à exceção daquela que tem como patriarca André Ventura, porque a democracia só funciona no Chega ou só é boa no Chega quando o líder apoia, no fundo, os candidatos internos. Que é isso que voltou a acontecer, porque há um grande histórico no Chega de conflitos nas várias estruturas. Ainda há quatro ou cinco dias tivemos o antigo líder da distrital do Porto a chamar ditador teocrático e tirano ao líder do Chega. A antiga líder da distrital de Braga também tem um longo historial e já se desfiliou, etc. E, portanto, sempre houve um grande problema no controlo do Chega. André Ventura dizia que isto eram dores de crescimento, mas de qualquer das formas, o Chega já é a terceira força e tem de ser escrutinado como tal. Vamos imaginar o que não seria se num partido como o PS ou como o PSD, e enfim, não vamos falar do PCP porque funciona de outra forma. Um partido como o PS ou PSD, de repente, o líder do partido decidia: durante um ano não há eleições internas. Há outros problemas nesses partidos, nomeadamente com caciquismo eleitoral, etc., sabemos que existem, mas isto que se passa no Chega é mais uma prova de que o partido é um partido unipessoal, em que quem não está com o líder acaba de uma forma ou de outra por ser afastado e toda a dinâmica do partido funciona de uma única forma, que é, isto não está nos estatutos do Chega, mas podia estar, que é como André Ventura quiser. Valia mais aquilo de os estatutos do Chega terem um artigo único, número um: quem manda é o presidente do partido. Número dois: todos os militantes devem fazer o que o presidente quiser. E, portanto, mais uma vez, o Miguel Pinheiro já falou disto no Bom Dia e o Vilão, eu não me queria alongar demasiado, mas o que se passou é que durante um ano não há eleições nas distritais, excepto duas em que há a vacatura do lugar, e as próprias concelhias que deviam começar a ter eleições, porque nunca tiveram, eram nomeados os líderes das concelhias pelos líderes das distritais, também não vai acontecer, e pelo menos durante um ano. Há aqui outra coisa bastante interessante. Só há pouco falávamos no Churchill, há uma música do Sérgio Godinho que usa essa mesma frase do Churchill e a certa altura diz que Abel foi morto por Caim, irmão nunca vi mais ruim. Não sei se sabem qual é a música.

Se calhar tens que cantar pra nós conseguirmos identificar.

Acho que melhor não. Acho que não estou nesse mood, nem eu nem as pessoas que nos estão a ouvir. Mas para dizer o seguinte, que um dos candidatos que era conhecido, ou pelo menos um potencial candidato, era precisamente Nuno Afonso, que foi quem fundou com André Ventura o Chega, e portanto há ali uma relação freudiana entre ambos, quer dizer, têm uma relação de grande desconfiança, mas ao mesmo tempo Nuno Afonso é chefe de gabinete, mas também não foi colocado na lista de deputados. Portanto, era uma das pessoas que ia tentar concorrer à distrital de Lisboa e que assim também, pelo seu irmão Caim, não o deixou sequer concorrer, porque suspendeu essas eleições. Portanto, André Ventura continua, qual patriarca da família Chega, a ser o único que manda. É ele que define a lei, é ele que define todos os estatutos. Se não define, tem pessoas que definam por ele e, portanto, suspende quem diz mal dele no Facebook, suspende as eleições internas. É um partido de um homem só, valia mais assumir-se isso de uma vez. E de facto, o Chega, tendo 12 deputados, sendo a terceira força, tem que começar a ser escrutinado como os outros partidos grandes e não apenas como um partido onde tem um grupo de pessoas e ser tudo atribuído a dores de crescimento. E de facto, esta suspensão das eleições internas é mais uma prova de que quem manda ali é André Ventura e mais ninguém.

É uma grande dor de crescimento, essa, de facto.

É, uma grande dor de crescimento.

Então, mas o argumento de que as pessoas ainda não estão preparadas para votar não cola?

Esse é ótimo. Esse então é o expoente máximo do paternalismo. Então as estruturas ainda não estão preparadas, estão lá agora preparadas.

Isto é uma chatice. Dá-se direito de voto às pessoas, nunca se sabe onde é que isso vai parar.

Há, de facto, um grande culto de personalidade. Essa palavra tem um peso muito grande, até por outras experiências históricas, mas para terem uma ideia, nos gabinetes da Assembleia da República, há vários gabinetes que têm uma foto do próprio André Ventura, mesmo que não é o gabinete dele, mesmo uma coisa assim, o culto de um homem, um homem só. Não é um homem só, mas é o único homem que manda.

É o único homem que manda. João Manuel Fernandes, tens falado muito no Chega e das tais dores de crescimento. Os eleitores confiaram mais na capacidade do Chega ser um partido com influência na vida política nacional do que propriamente o líder do Chega.

Eu acho que sim. Nós o que temos a reparar é que o Chega é um partido ainda, de facto, como diz o Rui, muito unipessoal e onde há uma extraordinária dificuldade de ultrapassar isso. Basta perceber o que foram as primeiras intervenções na Assembleia da República dos dois novos grupos parlamentares, do Chega e da Iniciativa Liberal. Na Iniciativa Liberal, já percebemos que o partido vai falar a várias vozes e que tem vários protagonistas. No Chega, há uma diferença muito grande entre o André Ventura e todos os demais. Talvez a única pessoa que não tem feito tristes figuras ou figuras muito tristes seja Mitar Ribeiro, que é vice-presidente do partido, também é deputado e que apesar de tudo tinha já um discurso autónomo, era uma pessoa que existia na vida mediática, pelo menos antes do Chega. E o resto é tudo muito dependente de André Ventura, porque eu penso que ele de alguma forma quer controlar um partido que em termos das pessoas que atraiu, lhe saiu um bocado fora de controle. E nós sabemos que uma boa parte destas guerras que há localmente, são guerras entre as várias tendências que existem no Chega. As pessoas se serão muito mal daquele livro que foi publicado sobre a origem do Chega, mas quem leu esse livro percebe que desde o início o Chega atraiu grupos que são contraditórios. Uns mais ligados, por exemplo, a igrejas evangélicas, outros com pendor social muito conservador, outros que vêm dos antigos partidos políticos do espaço da direita, uns do PSD, outros do CDS, e que têm apesar de tudo uma outra história política e que isto nas estruturas locais sempre deu guerra, sempre deu problemas. André Ventura tem tentado pôr a tapela em cima deste vulcão que ele próprio criou, sem o conseguir muito bem até agora. E há uma enorme diferença, por exemplo, entre um Chega, que praticamente é um partido de um homem só, e se nós olharmos aqui para o lado, para Espanha, para o partido equivalente, que é o Vox, percebemos que tem uma solidez completamente diferente, que conseguiu atrair quadros com outra capacidade, que o Chega até ao momento não atraiu. Atraiu quase só refugo.

Sim, quase só refugo. Rui Pedro, só falta a tua nota.

É verdade, Carla, é um cinco para André Ventura.

Um cinco para o líder do Chega. E assim terminamos, de facto, sem efeitos da Páscoa, notas muito baixinhas. Só falta, Paulo, recordarmos do que é que vamos falar logo a seguir ao "Jornal das Nove". Vamos ter aqui uma semana quente em França.

Vamos, quente em França, que pode ser decisiva também de alguma forma para a Europa, ou pelo menos para o posicionamento do país em relação à Europa. Vamos, de facto, olhar para esta semana decisiva e vamos fazê-lo com o Paulo Santo, que é especialista em assuntos europeus, e também com o jornalista Olivier Bonamici. E vamos olhar para esta reta final, este taco a taco entre Macron e Le Pen.

Eleições presidenciais francesas, no domingo a segunda volta, o "Jornal das Nove" já a seguir.