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Apesar de eu ter um nome, de Blaya ser uma marca e de todas as pessoas me conhecerem, é tipo: "Ok, pessoal, mas eu não tenho concertos . Eu desde criança que sempre quis fazer música ou cantar e dançar, sempre foi o meu foco e a criatividade sempre foi o meu foco. Por isso é que agora comecei a dar aulas, porque pensei: ok, se eu quero fazer outra coisa, eu tenho que ir para uma coisa que eu consiga desenvolver também a minha criatividade e trabalhar a minha criatividade e ao mesmo tempo passá-la aos outros. É a primeira vez que choro assim numa rádio, ou seja onde for, mas também porque as perguntas que me fazem, esse lado nunca é explorado. Porque realmente sinto que existem pessoas numa situação muito pior. E então acabo por não desabafar com o meu público estas coisas que me deixam mais triste. Acho que é isso. Acho que as pessoas não têm muita noção, porque existe a Blaya, a marca, mas como eu estava a dizer, o ano passado eu tive dois concertos. Como é que eu vivo com dois concertos?
A história começa com uma miúda que cresceu entre culturas que se abraçam. Alguém que desde cedo percebeu que não queria viver dentro de caixas. Antes de hits virais, havia a dança como linguagem, uma forma de dizer ao mundo: "Eu estou aqui". Num país onde durante muito tempo a música urbana parecia ter regras invisíveis e onde as mulheres quase sempre ocupavam o lado de fora, ela entrou pela porta grande, sem pedir licença. Ao longo dos anos reinventou-se várias vezes e em cada nova fase manteve uma coisa constante, uma espécie de rebeldia que recusa ficar inquieta. Hoje também regressa a um capítulo importante da sua história, o reencontro com o coletivo que ajudou a redefinir a música portuguesa. Mas antes de falarmos desse regresso, vamos voltar ao início, porque antes de existir a artista, existia também uma mulher cheia de energia, curiosidade e vontade de viver sem filtros. Blaya, bem-vinda ao "In 40 Minutes".
Olá, muito obrigada.
Olá.
Olá, tudo bem?
Tudo bem. Nota-se pela tua energia que estás muito bem disposta e com novidades para contar.
Eu tenho sempre muita energia.
É?
Sim. Sempre. De manhã acordo e já estou pronta para resolver-
Os problemas todos do mundo.
Todos. Mandem para mim que eu resolvo.
Mesmo quando os filhos dão muitas dores de cabeça, naqueles dias em que há muitas birras?
Eu estou sempre aberta para todas as situações, nunca estou cansada.
Boa, vamos enviar-te para o Médio Oriente para acabares com a guerra.
Isso já não.
Não?
Isso já não é comigo. Eu trago felicidade, pessoal. Felicidade, boa disposição.
És uma pessoa positiva, então.
Eu sou uma pessoa positiva no geral, mas às vezes, por exemplo, em concertos ou quando lanço alguma música, fico sempre de pé atrás. Eu não gosto de construir muitas expectativas, porque depois se acontece alguma coisa que eu estava a pensar que ia ser o contrário, fico muito devastada. Mas no geral, sim, sou uma pessoa positiva.
Boa. Estamos a falar aqui com alguém que agora está numa nova vida. Já vamos à música, que há novidades também. Uma senhora professora, João Miguel.
Pois é.
É verdade.
Dás aulas, não é?
Professora Karla.
Professora Karla.
Professora Karla com K, é o que eu digo sempre, mas sim, agora comecei a dar AEC de dança. Dou em Loures, não vou dizer qual é o sítio, senão a escola vai encher. Mas olha, é uma nova fase para mim.
Sim.
Apesar de que eu já tinha dado-
AEC são atividades extracurriculares, para quem não está familiarizado com a linguagem das escolas.
Exatamente. Mas eu já tinha dado aulas na escola dos meus filhos, que é uma escola meio natureza. Não é meio, é uma escola natureza.
Ok.
E eu dava aulas lá de dança, música e língua gestual. Então não é uma coisa supernova para mim, mas ao mesmo tempo, a escola pública acaba por ser muito diferente do privado.
Não vamos dizer onde é, mas é nos subúrbios de Lisboa.
Sim.
Tu conheces bem os subúrbios, não é?
Sim, acho. Não sei. Eu sou de Barreiro.
Os subúrbios do teu tempo de juventude, sentes que são iguais ou diferentes dos subúrbios de hoje, Blaya? Ou professora Karla.
É assim, eu morava em Ferreira do Alentejo. Fiz a escola lá, depois andei no externato em Beringel e depois andei no liceu em Beja.
Ok.
Então-
Sim, mas depois vieste na idade adulta para cá, não é?
Exato. Sim, com 19 anos.
Ok.
Exatamente. Então não tenho muito essa comparação.
Não tens de ter comparação.
Não consigo mesmo ter essa comparação. No Alentejo também acabava por ser tudo subúrbio, acho eu, mas num bom sentido.
Sim.
Então não tenho essa comparação, mas já dei a minha primeira aula e foi o pânico, foi o caos, gritei como se estivesse a gritar com os meus filhos, levantei a voz e eles pararam.
Sentido.
No final da aula eu acho que foi um 10 de 10.
Pronto. E foram para casa falar com os pais.
Houve um momento que eu disse assim: "Se vocês não se calam, eu dou-vos uma cabzada". Mas foi a brincar. Acham que isto vai ser notícia?
Deste? Espero que não tenhas dado.
É que eu digo as coisas a brincar. Há muita coisa que digo a brincar. Ultimamente eu tenho reparado que eu às vezes falo mais do que devia.
Fica aqui a ressalva logo no início, portanto já fica justificado para o episódio todo.
Não, mas é tudo a brincar.
Estou a perceber cheias de perguntas. A Blaya distrai-se. Livro aberto.
Mas eu sou muito descontraída e eu também gosto de passar essa descontração aos miúdos.
E não atribuis o peso do que tu dizes às coisas, não é?
Não. Mas depois digo logo: "Estou a brincar", que era para eles não irem para casa e dizer aos pais e mães: "Olha, ela disse que me dava uma cabeçada". Não, está tudo bem, eu não dou cabeçadas, mas têm que me respeitar, ok?
Claro.
Fim.
Portanto, como é que avalias a experiência curta da AIEX?
Não, 10. Eu adoro desafios.
E adoras crianças.
Eu adoro crianças. Estou a brincar outra vez, desculpem. Eu adoro crianças, eu adoro desafios. No final de abril, nós temos que fazer uma apresentação de dança de uma coreografia. Os outros professores já começaram há dois meses. Eu estou em desvantagem, mas eu vou conseguir. E vai ser incrível. Aquele primeiro ano vai ser demais.
Depois queremos ver tudo. Olha, isto é um ponto perfeito. Estamos aqui a falar da escola para falar da tua mais recente canção, saiu há muito pouco tempo, "No meu tempo de escola", que nos leva precisamente até à tua infância, em Ferreira do Alentejo, que serve como pano de fundo, o sítio onde sereis sempre a Carlinha do Carlão.
É verdade.
O que isto quer dizer?
Porque o meu pai é super conhecido. O meu pai é mais conhecido que eu. Em Ferreira do Alentejo, em Castro Verde, porque o meu pai jogava bola.
No Amora, não era?
Em Castro Verde, em todo lado, em todo o lado.
Da pesquisa que fiz acho que era o Amora. Fiquei curioso para saber qual era o clube.
A última vez que ele jogou acho que foi em Castro Verde. E então as pessoas vêm ter comigo, as pessoas mais velhas: "Carlinha do Carlão". É sempre a Carlinha do Carlão. "Tu és a filha do Carlão!" Nem sequer é a Blaya, não é a Carla. "Tu és a filha do Carlão. O meu marido jogou com o teu pai à bola, não sei aonde." Então existe sempre esta ligação muito engraçada.
É bom, não é?
Sim, eu adoro. Ainda há pouco tempo estive na feira da FIL e veio uma senhora: "Tu és a filha do Carlão. O meu pai jogou com o teu pai à bola. Mande-lhe muitos beijinhos." No outro dia estava no centro comercial, veio-me um senhor: "Eu joguei com o teu pai. É claro que tu não te lembras de mim, mas tu ias com o teu pai lá aos treinos e eu joguei com o teu pai." E eu: "Qual é o seu nome?" Ele disse-me o nome, mas esqueci-me. Depois disse ao meu pai e ele disse: "Pois, filha, eu também não sei."
Então quer isso dizer que em Ferreira do Alentejo o teu pai é mais conhecido.
Totalmente.
É um legend.
É.
É o Zé dos plásticos do Alentejo.
Não, porque depois ele também ajuda toda a gente. Se alguém precisar de alguma coisa: "Preciso ir não sei onde", o meu pai vai. E há bocado estavas a falar dos timorenses que estão lá. Os meus pais também ajudam.
Estão lá em Ferreira do Alentejo, cabeleireiros e vículas, não é?
Sim. Também ajuda, arranja casa para eles, arranja mobília, arranja tudo e mais alguma coisa. Ou seja, o meu pai é imobiliário. Trabalha na câmara.
É um membro ativo da comunidade.
Exatamente. Aliás, no vídeo que eu partilhei dos meus pais.
Sim, que está nas tuas redes sociais.
Está nas minhas redes sociais, que eu perguntei como é que foi a minha infância. O meu pai: "A infância da Carla foi muito pacata, aqui em Ferreira do Alentejo." Ele fez o favor de dizer o quão a comunidade de Ferreira do Alentejo sempre ajudou e sempre esteve ao nosso lado e abraçou a nossa família.
E sente-se muito esse abraço dos teus pais também neste trabalho e neste videoclipe, porque tu estavas a confidenciar-nos que o teu pai também te ajudou a tirar a produção, não é?
A montar o arraial. Para já, eu disse assim: "Olha, papai, fala com a Casa do Povo pra eu ir lá gravar, fala com o Pátio das Andorinhas pra eu ir lá gravar". Ele tratou tudo. E mais alguma coisa. E depois o arraial chegou à noite, um dia antes, fui lá montar eu, meu pai e os timorenses, dois timorenses, que o meu pai ligou. "Venham aqui ajudar". Os timorenses, coitados, saíram de casa às 10 da noite pra ir ajudar. Montámos o arraial, depois a minha mãe também chegou, foi montar também o arraial. Então aquilo fica tudo muito em comunidade. A minha mãe fez-me o cabelo, porque a minha mãe é cabeleireira. Foi ela que me fez o cabelo. Os brincos que eu tenho também é de um rapaz que faz brincos, coisas do Alentejo. E eu tenho umas cadeiras. Por acaso hoje tenho um abacate, mas não veio.
Tipo cadeiras de arraial.
Sim, são as cadeiras tradicionais do Alentejo.
E o teu próprio fato também.
Fui eu que fiz.
Muito coloridas.
Fui eu que fiz. A minha mãe também me ajudou a meter as coisinhas das calças. Então aquilo ficou tudo mesmo em família, entre aspas. É muito giro.
É um trabalho especial também por esse sentimento que carrega, não é?
Sim, totalmente. Eu sinto-me abençoada por ter tanta gente à minha volta, prestável e que goste mesmo de ajudar, porque toda a gente ali em Ferreira do Alentejo estava tipo ok. Ninguém me cobrou pra ir lá. Aqui em Lisboa, normalmente: "Queres vir aqui gravar?" "Está bem, então olha." Uma hora, € 1000. E aquilo lá em Ferreira do Alentejo.
É uma honra ceder o espaço para tu poderes gravar o teu videoclipe.
E fazer tudo ali em amigos. Levei dois amigos meus para me ajudarem a montar o resto. É sempre muito especial quando isso acontece.
É desta forma que se dá também o pontapé de saída, vamos dizer assim, para o teu arraial. E aquilo que tu andas a preparar, porque vais ter um, eu não quero dizer concerto, porque tu defines isto como um arraial, não é? No dia 26 de março.
No dia 26 de março estreia o meu arraial no Beleza. Vai ser o início deste ano de começar e de levar o meu arraial por todo lado, que é arraial de Portugal e arraial do Brasil, porque lá em Fortaleza, Ceará, especialmente às festas juninas, que é como se fosse as marchas.
Sim, é essa a comparação muitas vezes.
Sim, é muito parecido. E então eu estive a pesquisar.
É engraçado que nos Açores também há.
Mas é incrível como isto tudo está interligado. E eu quis mesmo ir buscar estas minhas referências do Brasil e de onde eu nasci, as minhas influências, também com as minhas influências de Portugal, e juntar. E nasceu o arraial, que o palco também vai estar cheio de fitas e cheio de boa vibe, cheio de dança e muita cor. Porque o ano passado, por exemplo, foi o meu lado B e era um lado mais neutro, até no palco era muito mais simples, era um outro lado que as pessoas não estavam muito habituadas. E este ano é juntar tudo, juntar as blaias todas, porque eu também fiz um vídeo sobre isso, juntar as blaias todas dentro da mala e levar para o meu arraial e fazer a festa.
Esta é, eu não queria dizer a versão da blaia, mas é a versão com a qual tu mais te identificas? Ou tu tens tudo um bocadinho e é difícil fazer essa escolha?
É difícil fazer esta escolha. É muito difícil.
Porque tu já foste e és muita coisa, não é?
Sim.
Professora, cantora, bailarina, compositora, escritora. Dona de uma grande gargalhada.
Não, mas eu gosto de estar sempre a fazer desafios a mim própria e a fazer coisas novas. Vocês já viram os meus quadros também com LEDs.
Vês, mais uma.
Vocês ainda não viram. Não é bem pintora.
Artista plástica.
Exatamente. Amei. Agora não vos posso mostrar, mas daqui a bocado mostro.
Iremos ver. Olha, diz-me uma coisa, o Alentejo inspira-te de alguma maneira ou não?
Assim, o Alentejo ensinou-me a ser quem eu sou hoje. A ter calma comigo, apesar de eu ser bastante acelerada, ao mesmo tempo eu sou bastante calma e trouxe isso comigo do Alentejo e também o facto de eu ter que sair tão nova do Alentejo com 16 anos, 17, e colocar-me esse desafio de voar. Se calhar, se eu vivesse em Lisboa, no centro, não iria desafiar-me assim tanto. Estar no Alentejo e ganhar asas e dizer: "Ok, tenho confiança para seguir o meu caminho" e ter os meus pais também que me apoiaram, isso fez com que eu, neste momento, me queira desafiar e queira fazer coisas novas e não ter receio de falhar. Porque eu acho que hoje em dia, na música, especialmente, nós quando achamos um estilo, ficamos naquele estilo e não queremos arriscar.
E às vezes não defraudar o público, não é?
Exatamente. O que acontece é: fazes uma música fixe e depois fazes mais 20 iguais, que é para o pessoal, pra não corres o risco. E ao sair do Alentejo tão nova e ter essa liberdade, também me dá a liberdade de arriscar e de fazer coisas novas, por isso está me sempre a inspirar.
É uma fonte de inspiração ou não, o Alentejo?
O Alentejo é sempre uma fonte de inspiração, mas o que me inspira é a minha multiculturalidade. Ter nascido no Brasil. Vim para cá muito pequenina, depois passei pelo Algarve, fiquei no Alentejo, ganhei essa liberdade. Ouvia Eminem, mas ao mesmo tempo fazia um curso de funaná no Alentejo.
Fazem-se cursos de funaná no Alentejo?
Fiz um curso de funaná no Alentejo, mas isto eu tinha, sei lá, 13 anos ou 12.
Portanto, estamos a falar para o quê? 1990, 1989?
Eu nem vou pensar.
Final dos 80.
Eu nem vou pensar. Não me faças fazer contas agora. Mas apesar de ter que sair de lá, estive sempre a arriscar e a fazer coisas novas e a ouvir, por exemplo, no Alentejo, ouvir Linkin Park, ouvir tudo e mais alguma coisa. Então eu sei que em mim eu nunca me foquei numa só coisa. Sempre fui beber de vários sítios e é isso que agora sou. Depois também vim para cá, ok, buraca, depois uma coisa mais pop, mais funk, e ao mesmo tempo gosto de reggae. Sei lá, eu sou tanta coisa que eu não consigo ficar numa só coisa.
Muito bem. Olha, explica-me como é crescer no Alentejo, não sendo alentejana Agora tens de ser uma alentejana. Foi isso.
Crescer no Alentejo não sendo alentejana. Mas eu considero-me alentejana.
Boa, pronto.
Não, eu considero-me alentejana. O meu sangue é brasileiro, nasci no Brasil, mas a minha vida toda, a minha infância toda foi passada no Alentejo. Eu considero-me alentejana.
A forma como dizes Alentejo.
Sim, quando eu começo a falar com outras pessoas que têm o sotaque alentejano, eu começo logo com o sotaque alentejano.
Tens essa facilidade, se calhar, em captar o sotaque das pessoas com quem estás a falar.
É porque está cá. Mas como depois vim para Lisboa, o sotaque foi indo embora. Mas, por exemplo, os alentejanos usam muito o gerúndio e os brasileiros também. E então isso acaba por ser mais fácil.
Também vieste muito cedo, não é?
Sim, com dois meses.
Pronto, é isso.
Há uma coisa que os alentejanos chamam ao meu pai e chamam à gente, que é brasileira alentejana. Ia te fazer uma música sobre isso, que eu sou brasileira alentejana, a minha mãe é brasileira alentejana, o meu pai é o brasileiro alentejano, os meus pais, a minha mãe especialmente e a minha tia, elas falam muito brasileiro. "Então, tu vais para onde?"
Já estou a imaginar essa sonoridade.
Um brasileiro, mas com alentejano. É muito giro, é muito fofinho.
Blaia, vamos só fazer aqui uma curta pausa para atualizar as notícias e já voltamos com a segunda parte do "Em 40 Minutos". Até já. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos" com a Blaia, que tem novidades para nos contar. Está tudo bem, já falámos muito essa boa energia na primeira parte. Essa é a tua voz de rádio, Blaia.
Sim, gostaram? Espera aí, querem que eu diga o quê?
Diz. O que tu quiseres.
"Olá, eu sou a Blaia. Hoje é o dia não sei o quê, não sei que mais. Vocês estão a ouvir a minha música no meu tempo de escola. Espero que gostem. Fiquem conosco por aí. Obrigada."
Tem potencial.
O quê? Olha, também posso trabalhar aqui.
Achas que as pessoas da rádio falam assim?
Sim, às vezes sim.
As pessoas têm muito esta percepção, praticamente, não é?
Eu acho que antes falavam mais. Hoje em dia já é uma coisa mais descontraída. Sim. Mas eu gosto muito de meter esta voz de rádio.
Também fruto muito da chegada de brasileiros à rádio portuguesa.
Porque é mais descontraída. É verdade.
Havia o fenômeno da Rádio Cidade.
Pois era.
Aquela boa energia que aquilo parecia que as pessoas tinham pilhas que nunca mais acabavam. Tu ouvias muita rádio lá no Alentejo, Blaia?
Acho que não.
Não?
Não.
Nunca foste uma pessoa muito radiofónica.
Sou mais agora, porque passo muito tempo no carro.
Claro.
E então ouço muita rádio, mas quando era mais pequena, não. Foi o início da internet e eu ouvia bastante CDs.
Pois, era isso que ia te perguntar, porque tu sempre gostaste muito de dança, não é? É uma das tuas linguagens, vamos dizer assim. Ouvias muitos CDs?
Muitos CDs.
Muita música?
Sim, muita música, muitos CDs. Os meus pais compravam muito CD. No Natal, fui lá e desencantei, sabem aquelas capas que se usavam para os CDs?
Sim. Mala, era uma pasta. Uma espécie de maleta com separadores. O meu pai também tinha.
Exatamente. Fui lá buscar e vi bastante CDs, porque a minha mãe guarda muitos CDs, guarda tudo. Aliás, se eu quero jogar alguma coisa fora, mando pra minha mãe e ela guarda. Bastante CDs e encontrei lá uma coletânea que eu participei em 2002. Bastante rap. "Ya, ya, 'tá-se bem!"
Olha, precisamente aí. Se houvesse dúvidas sobre a energia da Blaia. Exato, está aqui. Mantém-se igual desde o primeiro segundo, começando desde o "40 Minutos".
Desculpa.
Não tens que pedir desculpa. Nós estamos a ser alimentados por essa energia também.
Ai, meu Deus! Não, mas eu tenho sempre muita energia e gosto de passar essa energia, tanto para vocês que estão aqui comigo, como lá para esse lado.
Falavas aqui do rap. Quando tu entraste mais na cena urbana, vamos lhe chamar assim, falava-se muito, se calhar fala-se mais agora, mas naquela altura também, do espaço que havia reservado para mulheres e que não íamos ver homens ou ouvir homens a cantar letras escritas por mulheres.
Sim.
Sentes que isso tem mudado ao longo do tempo? Que a imagem que temos agora é ligeiramente diferente? Houve um caminho que se fez muito também pela Capicua, por ti, por outras figuras também muito importantes.
O caminho ainda está a ser feito. Está melhor que antes, mas não está por aí além, até porque ainda não vemos muitas rappers. Vemos algumas, ok, mas nós vamos a um festival ou vamos às festas de não sei da onde. Quantas mulheres rappers, para já, quantas mulheres artistas é que vemos em cima do palco? Às vezes ainda temos alinhamentos que é só homens, só feito por homens. E rappers, então, mulheres, ainda mais difícil.
Mas elas existem?
Elas existem, claro que existem.
E onde é que estão?
Continuam a apostar no YouTube, nas plataformas digitais. Mas às vezes é muito difícil furar esta indústria que está tão feita por homens.
Mas sentes que se alimenta muito das mesmas pessoas? É isso que estás a querer dizer?
Como assim? Artistas, mulheres.
Não, digo artistas no seu todo, ou seja, que a indústria musical se alimenta sempre dos mesmos fenômenos musicais, vamos dizer assim?
Eu acho que existem fases. Existem fases, ou existem de ok, durante dois anos, três anos, é sempre as mesmas pessoas, mas vai rodando. Vai sempre rodando. Mas não é por isso que aparecem mais mulheres no alinhamento dos festivais ou das festas. Continuam a ser muito pouco. Eu acho que isso é um trabalho dos promotores de cortar esse ciclo vicioso que acontece tanto. Claro que provavelmente têm sempre receio que não vá ter público, mas alguém tem que cortar isso, cortar esse caminho e trazer mais mulheres. Não que seja preciso fazer um dia das mulheres. As mulheres têm que estar incluídas em todo lado.
Podes fazer tu, ou não?
Eu?
Tu.
Eu já faço malabarismo, já faço muita coisa.
Não, tu chamando outras rappers, outras mulheres para os teus espetáculos, por exemplo.
Também.
Estou a responsabilizar-te, Blaya.
Pois estás.
Ponho a responsabilidade em cima de ti. Percebeste? Obrigado.
Até fiquei com mais calor.
Não, porque às vezes há sempre aquela tentação de nós acharmos que o sistema tem que fazer. Às vezes somos nós, não é?
Sim. Às vezes somos nós.
Pequenos gestos.
Mas eu agora também estou a lutar um bocado por mim.
É?
Eu neste momento estou mesmo a lutar para ter concertos.
Está difícil?
Está, claro que está difícil.
Porquê? Está mais difícil do que antigamente, do que antes?
Para mim, neste momento. Então, o ano passado, por exemplo, eu só tive dois concertos.
E atribuis isso a quê? Eu ia te perguntar como é que uma artista como a Blaya, que nós conhecemos, e isto talvez seja um bocadinho ingrato aquilo que eu vou dizer, mas quando pensamos em Blaya e naquilo que tu és enquanto fenômeno, associamos muito à rebeldia, a uma pessoa muito rebelde e fora da caixa, e podes ser, está tudo ok com isso. Achas que é por isso que também se repensa duas vezes em colocar a Blaya num cartaz de um concerto, em convidar-te para alguma coisa, por causa dessa liberdade que tu também tens.
Sim, a nível de concertos, imagina, quando eu tive os hits em 2018, 2019, nós tivemos 80 concertos, sei lá, por aí, 90 concertos. Veio a pandemia e foi na pandemia que tudo começou mesmo a descer. Foi o pânico para mim. E também foi uma altura que eu comecei a explorar-me e a fazer experiências com o que eu conseguia fazer, porque eu tive Buraka, depois a Buraka acabou, 2016, tive aquele ano que engravidei, no final de 2017 comecei a fazer as músicas novas, 2018 lanço as novas músicas, faz gostoso hit. Nem eu sabia bem quem eu era, na verdade. Não tive muito tempo para fazer isso, porque todas as músicas que saíram em 2018 e 2019 foram feitas com uma equipa, que tivemos uma semana, duas semanas em estúdio, fizemos músicas acontecer. Depois veio a pandemia e aí sim, eu estive sozinha e a tentar perceber quem eu era, o que eu sou, o que eu consigo fazer, onde é que a minha voz consegue ir. E foi aí que eu senti que me desliguei um bocado do público e o público desligou-se de mim. E tentei fazer músicas para o público, em vez de fazer músicas que me agradavam. Continuei a fazer músicas que eu pensava que o público queria. Eu não queria estar a fazer funk, mas eu sentia que o público queria isso e ligava muito ao Faz Gostoso. Blaya do Faz Gostoso, ok. Blaya do Faz Gostoso. E eu comecei a ir por outros caminhos. Ainda lancei uns EPs, que foi o Jungle Disco, que foi o Rabarave, muito funk, mas eu já não me identificava com isso e também ainda estava ligada à Warner, que eu não era obrigada a fazer esse estilo de música, mas eu sentia que tinha que lhes dar aquilo. E então continuei a dar. Entretanto, saí da Warner e comecei a trabalhar no projeto, no álbum Lado B, que é mesmo superdiferente. E então aí foi tipo: "As pessoas, então onde é que está a Blaya do Faz Gostoso?"
Porque isso vai ser para o de cima, não é?
Sim.
Essa imagem.
Porque eu fui muito associada ao Faz Gostoso e ao funk. E como as músicas desse álbum Lado B não têm nada a ver, aí é que os concertos caíram por completo. Apesar da minha energia e apesar do concerto ser uma coisa para cima e ter dança, as pessoas não se estavam a relacionar com a música, mas eu estava. E realmente o ano 2025 para mim foi um momento de aprendizagem. E de lançar coisas que eu queria.
Para um artista que se alimenta tanto do palco e é no palco que se calhar se sente mais completo, como é que foi passar dessa dualidade em que em 2018, aliás, a Madonna reeditou a tua canção.
Sim, exatamente.
Só por si, só isso já é um reconhecimento, não é? Mas como é passar desta dualidade?
Não senti que as pessoas-
Te passaram a valorizar.
Sim Não senti isso. "Fez uma música boa."
Não passaram a olhar para ti com outros olhos?
Não.
Ou a dar outro tipo de valor?
Não, eu acho que, por exemplo, no Brasil, a Anitta fez a regravação com a Madonna e ela foi muito mais reconhecida por fazer a música com Madonna do que eu cá, que a música era minha.
E tu consegues encontrar uma explicação para isso, Blaya?
Não.
Não, ou não queres pensar algo sobre ela?
Não sei. Para já, eu acho que não foi feito o melhor marketing possível. Acho que também começa por aí. Acho que eu devia ter aproveitado melhor. Mas eu sou uma artista que não gosta muito de aproveitar das coisas dos outros. Ai, tenho uma coisa aqui.
Autenticidade não falta por aqui.
Então eu não me aproveitei disso. Não foi uma boa jogada. E depois, imaginem, isto é muito estranho, porque o que eu sinto é: e sou muito sincera com isto, há muita gente que acha as músicas meio fuleiras. Sabes o que é fuleiras?
Sei. Por acaso eu utilizo muito essa expressão.
A sério?
Sim.
Meio tipo: "essa música faz gostoso".
Mas ao mesmo tempo ouvem.
Ya.
Só que têm esse preconceito.
Exatamente. Estás a perceber? E então, como eu acho que não jogámos muito bem, não agarrámos bem nesse facto da Madonna e da Anitta refazerem a minha música, não foi bem aproveitado e sinto muito isso do público. Que é tipo: "ai, é fixe, mas eu só ouço às escondidas, eu não vou ouvir no meio de toda a gente".
Ainda sentes que existe algum, entre aspas, preconceito em relação a ti e à forma como tu te apresentas? Disto que tu também falavas, na questão do faz gostoso, se associarem muito a essa imagem ainda. Porque eu acredito que, apesar de ter sido em 2018 e estamos daqui a caminho de quase 10 anos, ainda que tenha parecido quase ontem.
Não é sério.
Mas acreditas que ainda te associam muito a isso e que isso cria uma certa de preconceito?
Sim, muito mesmo. E à minha forma de estar. E depois também os vídeos que eu fazia na altura, e depois também eu tinha um canal no Facebook, que era o Late Night Blaya, que eu falava abertamente sobre a sexualidade, que eu ensinava as mulheres a fazerem coisas. Calma aí.
Era um canal sem tabus.
Era um canal sem tabus.
A viver a sua sexualidade na sua plenitude.
Exatamente.
E achas que isso prejudicou-te?
Prejudicou-me, claro, totalmente. A minha imagem e muitas pessoas ainda me associam a isso. E na verdade, está tudo bem, porque eu acho que toda a gente tem que ter liberdade da sua sexualidade e falar das coisas sem preconceito. Agora, não precisam. E eu gosto muito de comparar isto com o Brasil, apesar do Brasil não ter nada a ver com Portugal. Mas no Brasil, a sexualidade é levada de uma maneira leve, porque faz parte de nós, do ser humano. Quanto mais nós falarmos da sexualidade e de uma maneira mais leve, mais somos felizes sobre a nossa sexualidade. Nós queremos é pessoas felizes. Não é? E que saibam o que querem no sexo.
Mas aqui ainda há muito preconceito, é isso?
Ainda há muito preconceito. Já temos muitas pessoas a falar sobre isso.
Foste prejudicada por causa disso.
Sim, eu fui prejudicada, mas é assim, eram fases. E agora, neste momento, se eu falasse sobre isso, falava, mas de outra maneira.
De outra maneira. Vamos lá.
Abordava de outra maneira.
Como assim?
Por exemplo, eu metia fotografias minhas e com meu namorado da altura, com umas posições para fazerem em casa, para elas fazerem em casa com os namorados. Agora estaria fora de questão eu fazer uma coisa dessas.
Agora porque já tens mais idade ou agora porque há essa experiência do passado?
Tenho mais idade, tenho esta experiência do passado.
Estás queimada, entre aspas.
Exato. E na verdade, nós podemos falar todos sobre a sexualidade, abordá-la de uma maneira que caiba a toda a gente sem chocar. E eu antes fazia as coisas a chocar, mas não era por mal. Era a minha maneira de ser.
Era a tua rebeldia alentejana.
Mas não era por mal. Eu sempre fui muito tipo: "ok, eu sou mulher, eu faço o que eu quiser, falo do que eu quiser. Querem o quê?" Pronto, e a verdade é que nós podemos fazer isto tudo, dizer isto tudo, de outra maneira.
De outra maneira.
Sim.
Eu queria voltar aqui a esta questão que tu falaste do Brasil, até porque noto que há alguma, não sei se é mágoa a palavra certa, mas algum ressentimento por causa dessa questão e na pandemia, teres voltado a repensar muito na tua identidade, na tua forma de ser enquanto artista.
Sim.
Tu acreditas que se a tua carreira não fosse feita aqui em Portugal e fosse, por exemplo, no Brasil ou noutra parte do mundo, o reconhecimento que terias perante os teus pares, as pessoas que te ouvem, seria diferente?
Não sei.
Mediante aquilo que fizeste e o caminho que fizeste até agora.
Não sei. Não faço ideia. Porque foi ter crescido aqui que moldou a minha personalidade para ser assim. Se eu tivesse crescido noutro sítio qualquer, a minha personalidade seria de outra maneira e eu não consigo imaginar como é que eu seria. Por exemplo, no Brasil, sei lá, tantos artistas bons, e acho que ia ser um bocado mais difícil de furar, mas eu sei quem sou, e sei que sou diferente, e sei que tenho muito pra dar. Já dei muito e tenho muito pra dar a toda a gente. E tenho confiança também suficiente pra dizer que em qualquer parte do mundo eu iria ser a Blaya. Blaya incrível, Blaya! Batam palmas.
Estamos a bater. Olha, vamos fazer uma coisa. A conversa está muito boa, mas vamos despedir-nos dos nossos ouvintes em FM que nos estão a ouvir em rádio. Vamos continuar em podcast, até porque o João Miguel Santos tem de ir à sua vida. Eu fico contigo, Blaya, e vamos continuar esta conversa em podcast. Aos nossos ouvintes, é depois ouvir a versão alargada.
Certíssimo.
Beijinho. Agora, em podcast, numa versão mais alargada. Continuamos a conversa com a Blaya.
Eu.
Sim, tu, Blaya. Ou Karla. Como é que é?
Karla com K.
Carlinha do...
A Carlinha do Carlão.
Exatamente, é isso mesmo. Dizes melhor do que eu, até porque tens aí uma pronúncia mais adocicada. Fica mais bonito.
Mas é tipo o que? Isto é tipo o alentejano ou brasileiro?
É os dois. É uma mistura dos dois.
Carlinha do Carlão, então.
Olha, tínhamos ficado aqui com um tema pendente ainda desta segunda parte e que vamos continuar a falar. Tu falaste aí da questão desse canal que criaste na altura no Facebook, de fotografias que foste partilhando e que neste momento se calhar te sentes algum, vou dizer, arrependimento de as ter partilhado na altura.
Sim, total. Digo mesmo, sinto-me bastante arrependida por ter promovido a minha fala dessa maneira. Como há bocado disse, podia ter sido de outra maneira, podia chegar às pessoas, falar sobre a sexualidade sem chocar.
Que sentes que foi isto que fizeste?
Choquei totalmente. Mas não foi com intenção, era o que me apetecia e fiz.
Agora vamos entrar aqui no tema da maternidade. Vou pegar aqui numa frase que encontrei tua, acho que foi nas redes sociais ou até numa entrevista, já não me lembro bem, mas em que tu dizes: "Ser mãe é fixe, mas todas precisamos de tempo sozinhas no sofá com pipocas e um filme."
Sim.
Esta questão de tu lidares assim desta forma com a maternidade. Sabemos que agora já se fala mais disto, da necessidade das mulheres terem o seu tempo, de terem a sua liberdade, de casais poderem ir de férias sem os filhos, mas isso até aqui, sei lá, há 10 anos era impensável.
Era impossível de se falar.
E tinhas logo, possivelmente, um rótulo de má mãe, irresponsável. Como é que tu lidas sempre também com essas questões e perante um público? Porque não deixas de ser também uma artista pública e com essa vida pública perante os teus seguidores.
É assim, por acaso, até hoje em dia, quando eu disse isso, houve imensos comentários também a dizer: "Para que é que foste ser mãe?" Ou seja, esse tipo de comentário vai sempre haver. Porque nós temos todas maneiras de viver muito diferentes e eu, por acaso, tenho sorte também de ter apoio, porque existem muitas mães que não têm esse apoio de deixar os filhos ou nos avós ou numa babysitter, por exemplo. E eu tenho a sorte de ter esse apoio. Eu sinto-me uma mulher sortuda por ter esse apoio, mas pra quem tem esse apoio e não o faz, eu acho que é muito importante a mulher pensar no ser mulher. Vir antes de ser mãe.
Mas tu nunca te perdeste no meio dessa viagem?
Não, eu acho que nunca me perdi, não. Imagina, quando eu era muito nova, eu nem sequer queria ser mãe. Claro que depois, a namorar, pensei: "Ok, os buracos acabaram e esta é a altura pra ser mãe." Mas eu sempre gostei de ter a minha independência. Neste momento, se o meu namorado tem concertos, eu digo: "Leva a criança pra tua mãe, que eu quero ficar sozinha em casa." É muito importante pra mim ter esse tempo pra mim, de ser mulher, de ser a Karla, de ser a Blaya, de ter criatividade, porque no fim do dia, ter filhos cansa imenso. Cansa mesmo muito. Ontem ainda fui buscar o meu filho à escola antes do tempo, depois fomos pra casa e foi: "Mamã, queres brincar?" E eu assim: "Meu Deus, por que eu fui buscar esta criança antes do tempo?"
Mas a forma como se fala disso, acho que é muito importante, porque eu acho que até então, e até há uns anos falávamos dessa questão ainda há pouco, havia muito medo, porque de certeza que há muitas mulheres a sentir isso e que não diziam. Eu lembro-me do célebre caso da Jéssica Athayde, que quando esteve grávida disse várias vezes nas redes sociais que odiou estar grávida e odiou esse momento e na altura foi criticada por todos os lados.
Mas é assim, como todas as vivências são diferentes, toda gente tem opinião e cada vez que nós dizemos alguma coisa Há de sempre haver alguém que vem dizer a sua opinião. E está tudo bem, é a vivência dela, é a opinião dela. Eu acho que cada uma ou cada um tem que fazer aquilo que lhe faz feliz e viver a vida. Eu, pelo menos, tenho que ter esse tempo para mim, senão fico maluca. Senão eu fico triste, fico deprimida, fico zangada. Por isso, mando sempre os filhos para os meus pais ou para os pais do meu namorado e temos tempo para nós ou tenho tempo para mim. Eu acho que é importante. Acho que é muito importante, mas há mulheres que conseguem viver com isso e está tudo certo. Na maternidade não há nada errado. Estamos todas certas.
E com certeza aprendeste muito com eles também e a mulher que eu tenho aqui à minha frente, aquilo que estamos a conhecer com mais profundidade, também é muito fruto dessa experiência e do que tens aprendido com eles.
Muita paciência. Se há coisa que eu aprendi com eles foi ter paciência, esperar e me moldar a todas as situações. Os nossos filhos todos os dias estão a viver coisas diferentes e nós como adultos, tu e eu, amanhã é um dia diferente, não sabemos o que é que vai acontecer e temos que estar sempre nesta coisa da adaptação. E eles ensinaram muito isto da adaptação. Ok, fez xixi nas calças, está bem, embora adaptar. Pessoal, não há calças e agora o que é que vamos fazer? Não entra em pânico, bora arranjar uma maneira. Então é esta coisa de adaptar e levar as coisas menos a sério.
Ser sempre prática e arranjar solução para tudo.
Super prática, exatamente.
Ainda que às vezes a solução pareça difícil.
Muitas vezes.
Falávamos aqui na versão para FM com os nossos ouvintes da rádio a ouvir, dessa fase difícil em que tu passaste. Não sei se foi uma fase mais vulnerável, se a podemos assumir dessa forma, e se também partilhaste o suficiente com as pessoas para elas perceberem, mas tu acreditas que hoje, em 2026, mediante também, falaste do lado B, que também já lançaste e que te permitiu conhecer também de outra forma, as pessoas conhecem realmente a Blaia?
Se conhecem realmente a Blaia? Não.
Mas porque tu não queres que conheçam na totalidade ou porque ainda há uma visão, se calhar, ainda meio que distorcida?
Eu estou sempre em constante mudança. À medida que os dias passam, eu estou sempre aprendendo. Mas, por exemplo, a imagem que tu tens de mim é de uma pessoa positiva, e eu normalmente sou uma pessoa muito positiva, sou uma pessoa muito alegre, mas tenho os meus dias que sou muito negativa, não confio em mim, não confio nas coisas e penso: "O que eu estou a fazer?" Estás a entender? E esse é um lado que eu não dou acesso às pessoas para terem. E também porque em muitas das entrevistas, as perguntas que me fazem, vou ser muito sincera, as perguntas que me fazem não me levam para esse lado, para o lado da tristeza ou para o lado da dúvida, e então acabo sempre por não partilhar esse meu lado mais negativo e que se calhar acontece uma vez por semana.
Mas tens a noção que as pessoas, e muitas que olham para ti te veem como uma inspiração, se calhar esse lado mais vulnerável também podia ser uma forma de identificação. Saber que existem dias maus.
Às vezes também não quero-
Expor dessa forma.
Não é ser coitadinha, porque não é a cena de ser coitadinha, mas muitas das vezes que eu já pensei em partilhar, pensei: "Por que eu estou a partilhar isto? Há pessoas muito piores que eu. Isto é só parvo. Por que eu estou a queixar-me que não tenho concertos? Isto é só parvo, há pessoas numa situação muito pior que eu." Entendes? Então acabo por não partilhar esses lados e desta coisa profissional que às vezes é tão difícil para mim, que apesar de eu ter um nome, de Blaia ser uma marca, e das pessoas todas conhecerem, é do tipo: "Ok, pessoal, mas eu não tenho concertos."
Essa emoção-
É muito difícil, desculpa. É a primeira vez.
Mas estás completamente à vontade, antes de mais, e esta emoção é patente e sente-se. Já há bocadinho eu tinha percebido que estavas a tremer nessa parte.
Sim.
Porque é também a paixão que tu sentes por isto que fazes e por aquilo que tu sentes acima de tudo.
Eu desde criança que sempre quis fazer música ou cantar. Cantar e dançar sempre foi o meu foco e a criatividade sempre foi o meu foco. Por isso é que agora comecei a dar aulas, porque pensei: "Ok, se eu quero fazer outra coisa, eu tenho que ir para uma coisa que eu consiga desenvolver também a minha criatividade e trabalhar a minha criatividade e ao mesmo tempo passá-la aos outros." Eu nunca iria conseguir trabalhar numa coisa em que eu estivesse fechada.
Não faz parte de ti.
Não faz parte de mim e a minha criatividade é tão boa que eu não posso bloqueá-la. É a primeira vez que choro assim numa rádio. Seja onde for, mas também porque as perguntas que me fazem, esse lado nunca é explorado. Por isso, chorei. É verdade, pessoal, chorei. Mas a mesma intensidade que eu rio é a mesma intensidade que eu choro.
Isso é tão bom. E esta emoção, para quem nos ouve, já há bocado quando falaste disso, para mim é estranho. Há bocado falaste de ti enquanto Blaya, enquanto marca. Acho que muitas pessoas olham para ti ainda dessa forma, enquanto marca, mas acima de tudo, eu tenho aqui à frente uma pessoa que tem sentimentos, que tem dias menos bons, que tem dias bons.
Totalmente. Mas é o que eu te digo, há aquelas coisas que eu acabo por não partilhar, porque realmente sinto que existem pessoas numa situação muito pior. E acabo por não desabafar com o meu público estas coisas que me deixam mais triste ou que eu batalho todos os dias para viver. No fim do dia, acho que é isso. Acho que as pessoas não têm muita noção, porque existe a Blaya, a marca, mas como eu estava a dizer, o ano passado eu tive dois concertos. Como é que eu vivo com dois concertos? É muito difícil.
Vamos falar de coisas boas, até porque isto é algo que primeiro nos enche de nostalgia, nos deixa felizes. Aposto que a tua energia também está lá em cima para este regresso, porque os Buraka estão de volta.
É verdade.
10 anos depois.
Os Buraka estão de volta para celebrar os 20 anos.
Vão fechar o NOS Alive.
Vai ser no dia 11 de julho. Estamos todos muito felizes. O que eu costumo dizer é que cada vez que a gente está juntos, parece que nunca deixamos de estar.
É como se fosse sempre quase a primeira vez.
É como se eu estivesse com eles ontem. Entendes?
Sim, isso é bom.
Sinto muito essa energia e essa amizade. Estamos todos iguais, as mesmas piadas secas deles. E eu ser a única mulher ali no meio deles. É muito engraçado que tenhamos essa mesma energia que tivemos há 10 anos e que tivemos durante o tempo todo que estivemos juntos. E estamos superfelizes.
E é inevitável perguntar isto. Existe uma Blaya artista a solo e existe uma Blaya com os Buraka.
Sim.
Passados 10 anos, que Blaya que vamos ter no palco com os Buraka?
É assim . Muito do que a Blaya é a solo, eu aprendi com Buraka. Basicamente, a Blaya que vão ter é a Blaya que está nos palcos a solo, com os Buraka. Agora, a solo eu preocupo-me mais, porque estou sozinha em palco, sou eu que tenho que fazer ali.
A gestão de tudo.
Tenho os meus músicos, tenho os meus bailarinos, mas ali nos Buraka eu sinto-me uma menina. Eu sou a menina, não preciso de fazer nada, estou ali. Claro que faço o meu trabalho, sou uma das vocalistas, um dos elementos, mas sinto que estou protegida, que sou a menina deles, porque eles são todos muito mais velhos que eu. E sinto essa vibe de ser a menina e eles são os meus mentores para sempre e é essa energia que também vamos passar nos palcos.
Vai ser incrível.
Vai ser, sim.
O que é que mais te orgulha neste legado? Porque houve aqui um período de pausa, não é? E agora voltar e teres pessoas, porque se calhar havia muito esta imagem na altura de que os Buraka eram muito radicais, mas hoje em dia, se calhar, mediante este sentimento de nostalgia que há, até se calhar já se olha para vocês como mainstream pelas sensações que vocês causam nas pessoas e esse ritmo e essa energia que vocês trazem também para nós enquanto público.
É sim. Os mais novos, por exemplo, já não conhecem Buraka. Ninguém conhece. E é muito giro o pessoal mais velho estar com essa nostalgia e querer ver mesmo o concerto que vai acontecer no dia 11 de julho, para também relembrar a adolescência ou a fase jovem deles e trazer essa nostalgia que foi tão bom há 10 anos. Se nós fomos radicais, achas que nós fomos radicais?
Eu digo radicais para o tempo em si. Se calhar, o tipo de música que faziam, a forma como se apresentavam em palco naquela altura. Os tempos agora são um bocadinho diferentes, até pelas redes sociais.
Eu acho que continuamos a ser radicais.
Isso é bom.
Mais velhos. Muito mais velhos, mas super radicais. Eu acho que sim.
No dia 11 de julho vamos poder testemunhar tudo isso.
Sim, acho que vai ser muito igual. Como eu estava a dizer há pouco Parece que nunca nos deixámos de ver, nunca deixámos de fazer concertos. Essa energia vai estar muito no dia 11 de julho. Essa coisa radical e bem cool, Buraka, fazer o que quiser. Aliás, muito dessa cena de eu faço o que eu quiser, veio de Buraka.
Claro.
Mas no conceito Buraka, as pessoas deixavam mais passar do que no conceito Blaya. O conceito Blaya era mais: "Ai, que horror". Buraka, como era uma coisa mais radical, as pessoas deixavam mais passar essa atitude, como é que se diz?
Estás a falar em questão de...?
De mim, de pessoa, de artista.
Ou seja, as pessoas toleravam-te, se calhar não é a palavra certa, mas toleravam-te mais-
Em Buraka
...do que a sol.
Do que a sol, sim.
Sentes isso?
Sim, sinto.
Blaya, dia 11 de julho, com os Buraka no Nos Alive, para fechar em beleza. Vamos terminar este "Em 40 Minutos", que já vai longo, conversa muito boa. Quem é a Blaya, quem é a mulher, a Carla, quando a música acaba?
Sou uma pessoa muito parada. Eu sou uma pessoa que gosta de estar a olhar para o nada e a ouvir música sentada no sofá e muito pensativa. É isso. A Carla é uma mulher muito pensativa. Estou sempre a pensar em opções, em ideias, em coisas para fazer, mas o meu físico é muito calmo. Entendes?
Um belíssimo contraste com tudo o que tivemos aqui, no fundo.
Mas quando eu estou com outras pessoas ou quando faço outras coisas, a minha postura corporal é muito grande e aberta e vai para cima e para baixo.
Mas não tens medo de encher a sala?
Não. Faz parte mesmo.
E que nunca percas isso.
Obrigada.
E que a emoção esteja sempre presente, acho que é das melhores qualidades que o ser humano tem e sermos vulneráveis é sempre bom. Blaya.
Obrigada.
Foi um gosto receber-te aqui no "Em 40 Minutos".
Muito obrigada.
Muito sucesso e a não esquecer, há concerto dia 26 de março.
26 de março, no Beleza, o meu Arreal. Estarei lá para vos receber e para te receber também.
Sim, vamos a isso.
Estás convidado.
Vamos fazer a festa.
Vai ser incrível.
Vamos a isso.
Obrigada.
Muito obrigado, mais uma vez.