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Quem o conhece diz que é distraído, desorganizado, um pouco caótico, mas que não deixa ninguém para trás. Amigo, carinhoso, emociona-se facilmente e não gosta de levar as coisas a sério. É o mais jovem jogador de sempre da história do Benfica. Jogou no Futebol Clube do Porto, no Atlético de Madrid, PSG, também na seleção, e nem no final de carreira, em 2013, o retirou do futebol. Depois de 10 anos como dirigente no Estoril Praia, lança agora um livro com tudo o que aprendeu e com tudo o que ensinou, intitulado "Não é só futebol, estúpido". Esta semana em "40 Minutos", o número 20, Hugo Leal. Bem-vindo.

Muito obrigado. Está tudo certo? Obrigado pela introdução, Filipa. Já estava emocionado com o parquinho que estavas a dizer. É emocionante.

Bem que a introdução estava certa, não é? Que te emocionas facilmente. Quem sou eu para julgar, porque eu sou exatamente igual. Hugo, começamos já por aqui, da camisola número 20. Por que o 20? É que foste usando esse número em quase todos os clubes por onde passaste.

Eu gostava muito de números pares. O 10, na altura, era sinônimo do craque e quando ia para as equipes fazia sentido ser o craque.

Pois.

Só que normalmente o 10 estava ocupado e, portanto, o 20 começou a fazer sentido em determinada altura. Normalmente, quando chegava às equipes, o 20 já estava ocupado, mas sempre que havia uma oportunidade, aí estava, eu selecionava o 20.

Tiravas a senha para o 20.

Exato.

E como é o teu roupeiro lá em casa? Tens muitas camisolas 20 lá? Vinte ou de outras que trocaste?

Tenho muitas camisolas, porque fui guardando sempre uma camisola de cada equipe que representei e cada temporada, para além das camisolas que ia trocando e que guardo por muita estima dos meus amigos e outras que nem tanto, mas ficamos com.

Que bom.

Adorava ver estas camisolas todas. Qual é a camisola mais especial que tu tens guardada?

Eu talvez destacaria a do Gabriel Heinze na seleção, o primeiro jogo dele, que me trouxe-

Na Argentina?

Pela proximidade que tenho com ele e pelo valor, e sei que significava muito para ele aquela primeira camisola e ter me entregue essa camisola, acho que tem muito mérito.

E também entregaste tu, acredito, as tuas camisolas a outros colegas.

Sim. No entanto, eu fui muito mais egoísta do que o Gabriel Heinze naquela altura.

Tens a tua da tua estreia.

Eu guardava as da estreia sempre. Mas procurei sempre que esse fosse um detalhe interessante de dar a alguém que merecesse, que quisesse, e percebi que muita gente no futebol merecia ter uma camisola. Portanto, fui gastando dinheiro à séria com camisolas oferecidas.

Hugo, já vamos falar aqui deste teu livro com o Filipe Mendonça, "Não é só futebol, estúpido", vírgula entre parêntesis, já lá vamos. E esta entrevista não vai ser só também sobre futebol, estúpido, mas vamos falar aqui também de futebol, porque é o ponto de partida para este livro. Eu gostava de perguntar: para aquele menino que começou a jogar aos sete anos em Alverca, o que era o futebol na altura?

O futebol era diversão, era tempo de estar com os amigos, era o estar na rua, era um mar de rosas. Ou seja, só havia coisas boas relativamente ao futebol. Até aquelas discussões com os amigos de quem é que ficava com a bola no final ou quem é que não ia à baliza, até essas são vistas e relembradas como momentos ótimos e bons. E portanto, esse era o futebol bonito do rapaz que jogava aos sete anos.

E esta definição, esta visão que tu tinhas do futebol com esses sete anos quando começaste, manteve-se a mesma até acabares a carreira? Ou seja, em 2013, o que o futebol representava para ti?

Foi mudando muito. A partir do momento que as exigências começam a puxar mais por nós, a competitividade traz-nos umas amizades diferentes. Nós olhamos para um lado e temos aquele que supostamente é dos nossos melhores amigos, mas competimos por um lugar com ele e portanto obriga-nos a crescer nesse sentido. Depois vem o futebol profissional, que torna tudo um pouquinho mais entusiasmante, por um lado, mas por outro, mais complexo. Ou seja, é uma profissão, é uma obrigação, é um compromisso sério e contratual e portanto, aquele ar saudável e bonito do futebol vai muitas vezes perdendo o seu encanto. Claro que tem coisas ótimas e eu quando falo de futebol não posso falar totalmente mal das coisas, porque na realidade eu sou produto do futebol e o futebol deu muita gente boa, criou muitos cidadãos desportivos que são hoje gente que lidera processos muito interessantes e portanto, só no final da carreira, quando começa a ser a parte profissional é que perde o seu glamour.

Uma das grandes frases que tu tens neste livro, e são muitas, mas é uma que eu também acho que tem importância para mim pessoalmente, porque me revejo nela. Diz o seguinte: "Para fazerem bem as coisas, não levem isto demasiado a sério". Num espaço tão competitivo como é o futebol e às vezes até muito agressivo, tóxico, é possível não levar isto demasiado a sério?

Eu diria que sim. No entanto, também não posso esconder que eu, por não ter levado sempre a sério ou demasiado a sério, como me refiro, alguns dos momentos, também por isso fui penalizado. E portanto, quando eu estou numa perspectiva muito mais de dar a mão ao companheiro do que se ele não estava em paciência, porque se calhar para mim é um benefício, porque sou eu que vou jogar, essa perspectiva retira-me a competitividade. Mas foi assim que eu decidi viver esta minha vida desportiva.

E não te arrependes?

Nada, zero.

Tu tens aqui uma história, por exemplo, que acompanhaste o Gabriel Heinze, o teu amigo argentino, até a Argentina quando morreu o pai dele, e furaste, de certa forma, o protocolo do clube, porque não poderias ir nessa viagem, mas puseste à frente o amigo.

Eu acho que são as coisas que fazem sentido. O Gabriel Heinze é meu amigo e será meu amigo para a vida e eu deixei de representar o Paris Saint-Germain e a vida continua, que é um clube. Acho que esses momentos marcam também aquilo que nós somos como pessoas Naturalmente, eu comprei uma guerra com Paris Saint-Germain que paguei cara. No entanto, fi-lo com todo o gosto. Acho que era um amigo que precisava naquele momento e que me fazia sentido. As minhas decisões foram sempre ponderadas, não na base da parvoíce ou da espontaneidade da coisa. No entanto, não foram todas elas viradas para o profissionalismo ou aquilo que se calhar o futebol me obrigava a fazer.

Claro. Gostava de perguntar se foi fácil manteres também fiel a essa filosofia, essa tua maneira de ser durante a carreira, porque vamos lá ver, tu tens aqui alguns momentos, por exemplo, quando sais do Benfica, acabas por sair quase como um alvo. Tiveste uma comunicação social também muito hostil lá fora, por exemplo. Treinaste à parte, tiveste um calvário de lesões, ou seja, todos esses momentos podiam ter contagiado esse Hugo Leal positivo, brincalhão, que não se leva a sério. Como é que conseguiste manter-te fiel a esses princípios?

Eu acho que mais pelo apoio dos demais e o retorno que te traz manter-te assim. No fim ao cabo, se tu te queres associar ao sistema e ser igual ao sistema, vais ser igual e não vais ser nem sequer relembrado pelos outros por tentares qualquer coisa diferente. E depois porque é de bom senso, diria eu. Eu não trocaria a perspectiva profissional por nada das atitudes ou das decisões que tomei relativamente à família, relativamente aos amigos e portanto esses têm muito mais valor pra mim, como digo, também penalizado na perspectiva desportiva, mas eventualmente outros teriam essa prioridade, eu não. E não com isto quero dizer que fui um mau profissional, porque sempre me dediquei com muito gosto, mas havia coisas que me faziam pensar que não valia a todo o custo.

Tu dizes que ao longo da tua carreira sempre foste a criança de balneário, tendo em conta esse teu espírito mais brincalhão, mais divertido. Consegues dar-nos episódios que ilustram isso?

Essa criança de balneário.

Eu nunca pensei escrever um livro. Esse vai ser um livro ou dois, de certeza.

Só com as histórias do balneário.

Dava pra fazer um livro só.

Muitas histórias. Os desafios, não o do Filipe Mendonça, porque esse foi o que me desjesmou a falar sobre o que nós falámos neste livro, mas já tive muitos desafios pra contar histórias. O problema é que as histórias envolvem sempre terceiros e muitas vezes há histórias que não se devem contar, que não fazem sentido nem para quem não as viveu. Mas tenho muitas de balneário. Eu relembro ter ganho o Euromilhões várias vezes, em várias equipas, sempre na brincadeira. Uma vez saiu o segundo prêmio.

Como assim?

Uma vez em Portugal saiu o segundo prêmio.

Eu ouvi e fiquei do gênero: "Como assim?"

Sim, fui um sardo. Na sexta-feira saiu o segundo prêmio em Portugal e eram 200 e poucos mil euros. Nós éramos 20 e poucos a apostar em Setúbal, no Vitória.

Ah, vocês juntavam-se como equipa pra apostar.

Púnhamos todos cinco eurinhos à sexta-feira e eu era o encarregue de restar. Uma vez sai o segundo prêmio e no dia a seguir tínhamos que confirmar se tínhamos ou não tínhamos prêmios. Como saiu o segundo prêmio, eu no sábado fui restar a chave da véspera, mas para a semana seguinte. E meti lá no meio das outras todas, que era aquelas que-- claro, aquilo é uma angaria quando na realidade se começa a comprovar que se tem os números e que bate certo. Imaginem, eu sei o que é ganhar Euromilhões, isso é que é uma festa de balneário com o Euromilhões na mão. Claro, o difícil depois é explicar que não é mentira.

E eras tu que explicavas.

As pernas tremem nessa altura.

E como é que era a reação da malta?

Eu tive, na altura, inclusive um rapaz brasileiro jovem que me ameaçou, que me disse que eu não podia brincar assim com as pessoas. E eu, na altura, senti que a minha vida estava em risco. A hierarquia não estava a valer o seu posto.

Eu tenho que experimentar isso em casa. Provavelmente fico sem a herança, mas também pronto.

Possivelmente.

Não que seja muito grande.

Tive brincadeiras parvas. Inclusive o Cândido Costa conta uma das brincadeiras que tive na altura, também com o Euromilhões, porque dava em Espanha, na altura não era em direto em Portugal, e minha sogra aquilo que fazia era: enviava-me os números que tinham sido sorteados pra nós confirmarmos se tínhamos, se não tínhamos. E nós estávamos em estágio, e cheguei com a chave premiada apontada no papelzinho e pedi pra porem na televisão. Na altura, a Salvador TVI era quem passava o Euromilhões e nesse momento eu disse: "Olha, eu estou com uma fezada pra estes números, de certeza que me sai". Naquele momento, aquilo eram 15 milhões. O Cândido ofereceu-me serviços sexuais pelo processo. E o Cândido conta de outra forma, naturalmente, com a forma dele, muito mais atrevida e arrojada, que tem muito mais piada, mas o momento foi esse, foi começar a sair os números e eu tinha-os todos.

Muito bom.

Eu só imagino a reação das pessoas.

E os treinadores lidavam bem com essa tua leveza? Já nem estou a dizer as brincadeiras, mas a leveza com que tu levavas a filosofia de vida que tu levavas.

Eu acho que nem todos, sinceramente. Muitas vezes nós, no papel de treinadores, de líderes, de processo, queremos que os demais estejam a 100% no processo. E muitas vezes não entendemos que neste registo, até mesmo brincalhão, se pode estar a 100%, que se calhar até pode ser uma forma de aliviar o estresse ou de não estar pressionado, ou de se soltar, de certa maneira.

Deixa eu me perguntar isso, porque eu tenho uma personalidade muito brincalhona e às vezes um dos receios que eu tenho é de ser confundido a minha atitude mais brincalhona com incompetência, com pouca aptidão. Tu sentiste isso também ao longo da carreira? Achas que em Portugal fazemos muito essa ligação?

Aí está o trabalho de um líder depois. Se admite ou não admite, se entende ou não entende isso. Eu, na realidade, importava menos que outros, eventualmente. Por isso é que eu pude ser como era e ainda hoje sou uma criança de idade mental de 15 anos, mas nunca tive problemas com isso. Naturalmente, há perdas. Eu conto no livro um episódio que tive no Braga e que foi o momento da minha rescisão com o Braga. E foi vivido como uma piada fora de tempo, desadequada, e entendo perfeitamente que eu, eventualmente, não deveria ter dito aquilo, só que saiu-me espontaneamente. Sempre fui assim. Quando dizem criança de balneário, acho mais que era o palhaço, mais do que a criancinha.

E de onde é que vem este teu lado, este espírito mais brincalhão, carinhoso, emotivo? É de família?

Eu diria que sim. O humor reside na nossa família. Felizmente, sim. E eu depois sou uma pessoa muito otimista, vejo-me sempre com sorte. Ainda hoje acho que estaciono aqui à porta, mas afinal é no outro lado.

Era no outro lado.

Sou uma pessoa que vê tudo numa perspectiva relaxada, procuro relativizar os problemas, porque acho sempre que alguém tem um problema pior ou alguma coisa pior na vida. E isso também me ajuda a ir superando coisas e ajuda-me a ir contagiando os outros, quando eles não estão tão bem, a irem animando. Claro, eu sou uma má companhia num funeral, sou uma má companhia, porque a minha maneira de ajudar os demais é na base da piada, de puxar pelas pessoas. E há piadas que são desadequadas e que não são bem entendidas.

Mas se calhar até és a melhor, nesse sentido.

Se calhar ajudas a distrair.

Eu diria que sim, que senão não faria. Mas entendo que outros não pensem assim.

Claro. Tu és muito ligado à família e és tão ligado que, pelo que estive a ler, durante algum tempo, enquanto jogavas no Atlético de Madrid, também no PSG, em Paris, tu moravas com a tua namorada Elisabete, que agora é a tua mulher, com os teus filhos, e moravas ao mesmo tempo que o teu irmão André, ou seja, moravam os três. Vocês davam-se bem os três? Isso parece uma sitcom, não é?

Eu falo muito e oiço pouco. Sou daquelas pessoas que dispersam com facilidade. O André ouve muito. Portanto, acho que o André foi sempre uma companhia ótima para a Eli. A verdade é que o André, no ano em que os meus pais regressaram a Portugal, o André estudava em Espanha, portanto, fazia sentido continuar a estudar lá. E nós, de repente, passámos a viver os três sozinhos.

Grande festa.

Grande festa. Tínhamos a senhora que nos ajudava em casa, que já tinha estado conosco no ano anterior e que respondia à minha mãe, porque era a figura que liderava o processo das coisas em casa. E quando nós, no ano seguinte, estávamos sozinhos com ela e pedíamos se havia possibilidade de fazer qualquer coisa para o jantar, ela dizia: "Não, isso não, isso já comeram há três dias". Na realidade, ela via-nos como três crianças e ela é que era a líder da casa.

Ou seja, o que é que tu preferiste: Paris ou Madrid?

Nós naturalmente associamos as nossas preferências aos momentos que vivemos. Em Madrid fui muito mais feliz do que em Paris. Os espanhóis vivem a vida de uma forma diferente, muito mais "la fiesta", com estas coisas-

E "la siesta".

E "la siesta".

Sim.

Que bom!

Também. E associo porque o período desportivo me correu muito bem. Paris já me traz lesões, traz-me até a nível de imprensa algumas complicações e, portanto, destacaria naturalmente Madrid. Não retiraria nunca o processo e os três anos que vivi em Paris, porque foi uma aprendizagem ótima. Fez com que eu fosse, em alguns momentos, a pessoa que sou e que lidasse com o insucesso, como faço hoje, se calhar com maior naturalidade, por ter sido malsucedido ali. Portanto, acabamos por nos habituar ou adaptar às experiências vividas.

Entretanto, tu e a Eli tiveram dois filhos, o Pelayo e também a Aitana. Portanto, acho que já se percebeu quem é que escolheu os nomes.

Curiosamente, fui eu.

Afinal?

Das poucas coisas que eu tenho como possibilidade de escolher em casa. Não se riam, a minha vida é fácil, eu na realidade só tenho que-- sério, Filipa, não te rias, por favor.

Perdoa-me.

Isto quem vive sabe e sente em primeira pessoa.

Um dia havemos de lá chegar.

A mim é ditadas regras e eu cumpro. Portanto, eu não tenho que pensar em nada, não há dúvidas, para mim, a vida é fácil.

Tudo flui.

Vocês tiveram o Pelayo e a Aitana. Se eles te dissessem agora que queriam seguir a carreira de futebolista profissional, até porque o Pelayo está no futebol ou pelo menos esteve na formação, tu ficavas mais assustado ou mais feliz?

Diria que nem uma nem outra. Tal como uma carreira de qualquer outra coisa que tem as suas dificuldades associadas e os prós e os contras, eu dir-te-ia uma coisa: o escolher ser futebolista não significa que se cumpra. Enquanto que escolher ser dentista garantidamente vai-se cumprir se tu academicamente fores capaz de fazê-lo. Portanto, isso acontece. Isso é importante de explicar. No entanto, eu acho que eles ambos regem-se sobre a imagem dos pais, que nós não temos um percurso académico, nem eu nem a Eli. No entanto, conseguimos gerir a nossa vida numa perspetiva saudável, até saudável na perspetiva financeira, social e de emoções, e gostamos muito de fazer o bem. Acredito muito no carma, que se faz as coisas boas, as coisas voltam. E eu acho que eles têm isto, os miúdos têm isto. Depois têm uma autoestima porreira, porque veem-me a mim muitas vezes vestido de mulher no carnaval, ir para a escola deixá-los. E isto eles entendem que não faz mal. Ou seja, não tenhas vergonha de passar estes momentos. O importante é que te façam feliz, desde que não te metas com outras pessoas, desde que isto não implique no mal-estar de outros. Acho que esse sentido os miúdos têm. E, portanto, a autoestima que eles têm Dar-lhesia para eles estarem a escolher o que quisessem.

Qualquer carreira. Mas eles têm noção, sabem a dimensão do que o pai fez? Conhecem a tua carreira?

O Pelayo, talvez. A Aitana menos. Eu diria que a Aitana é naquele sentido de quando nós vamos a algum sítio e as pessoas me falam ou quando estamos no estrangeiro e sou em algum momento reconhecido, ela acha aquilo tipo: "Uau!" Ou seja, por muito que eu lhe diga que eu fiz isto ou fiz aquilo, ela olha para mim: "Ok, ya." Não deixa eu ser o irmão mais velho dela, ou seja, aquele miúdo de 15 anos. E é um bocado essa a perspetiva que ela tem. O Pelayo eu acho que já tem mais noção de algumas das coisas que eu fiz de diferente, do comum. E, portanto, eu acho que ele sim. No entanto, eu acho que a admiração que eles possam sentir por mim tem pouco a ver com aquilo que eu fiz enquanto profissional, tem muito a ver com a forma como eu lido com eles.

Claro que sim, portanto, é a admiração de pai.

Não me estendo mais, porque eu depois fico emocionado.

Estamos aqui todos a chorar. Olha que eu também tenho o choro fácil, depois é uma desgraça. Temos aqui uns lencinhos. Hugo, vamos aqui fazer uma pequena pausa, mas já voltamos à conversa. "Hugo Leal em 40 Minutos". Até já. Segunda parte do "Em 40 Minutos" esta semana com Hugo Leal. Bem-vindo novamente, Hugo. Há aqui um facto que eu acho muito giro. Tu és um homem do futebol, do desporto, mas não vês futebol. Não faz sentido nenhum, mas ou se calhar faz, vamos perceber. Por quê?

Não, eu acredito que não faça sentido.

Para quem ouve futebol é meio estranho.

Quando deixei de jogar, Filipa, eu sim via algum futebol, porque tinha amigos a jogar e tinha amigos que eram treinadores e isto fazia-me querer acompanhá-los e perceber se estava a ir bem.

Sim, tinhas essa ligação.

No entanto, foram muitos anos a jogar futebol e o desejo de ter aquela pausa para dedicar à família era algo que eu seguia, ou sempre que eu tinha alguma lesão e pensava: "Ok, no dia que isto acabar, vou ter mais tempo para a família." Esta foi a minha premissa da coisa. Deixo o futebol, começo a desligar-me um bocadinho e mais tarde não ganhei hábitos de voltar a ver futebol e também já não tinha tantos amigos quanto isso a jogar ou a treinar. E, portanto, fui perdendo um bocadinho o contacto.

Já não tinhas essa ligação que te puxava então a ver. Pronto, percebido.

Então vamos a um quiz. Quem é o atual...? Não, estou brincando.

Não tenho hipótese nenhuma. Viste o Euro?

O meu filho goza comigo por isso. Ou seja, ele pode dizer o nome de um medicamento qualquer que eu acho que pode ser um-

Um jogador

...claro que sim

Kevin De Bruyne, toma-se quantas vezes por um... Estou perdido, não sei.

Já mencionámos aqui alguns pontos, mas vamos mais ao pormenor ao teu livro e do Filipe Mendonça. "Não é Só Futebol, Estúpido" foi escrito em dupla com o Filipe, que foi o teu diretor de comunicação, na altura no Estoril Praia. A pergunta é: se não é só futebol, é mais o quê? Eu acho que de futebol tem menos do que tudo o resto que é abordado no livro. Aqui as temáticas, ao fim e ao cabo, centram tudo no mesmo, que é as relações humanas, é a forma de estar e de transmitir bons valores. E principalmente, que o livro baseia-se muito em coisas que foram vividas na formação. Estamos a falar do ponto de partida de aprendizagem de muitas das crianças que não vão ser, neste caso em concreto, futebolistas ou não vão ter a sua modalidade desportiva como uma profissão de futuro, mas vão ser cidadãos.

Só 1% de-

0,5 do Estoril.

É que chegaram ao futebol profissional.

Nós trabalhamos para 99,5% e se descurarmos este grupo, estamos a fazer, na minha ótica e na forma como transmitimos o livro, mal o nosso trabalho, porque claro que nós queremos otimizar as condições para eles poderem ambicionar ter uma carreira desportiva. No entanto, um clube é muito mais do que isso. Um clube transforma pessoas. Um clube tem a possibilidade de, através dos seus diretores, treinadores, passar bons exemplos. E vejam, se um pai disser a um filho: "Tens de cortar o cabelo porque isso já não se usa assim". Eventualmente, o filho não corta, mas se o treinador eventualmente lhe disser qualquer coisa sobre o cabelo, o miúdo corta.

Isso aconteceu contigo?

Não aconteceu comigo, aliás, na altura usava-se o cabelo assim meio à índio, comprido à frente, com franja e comprido atrás. Mas não tive referências ao cabelo.

Pronto, vá lá.

No entanto, este é o perigo que também tem este registo, que as crianças olham para os seus treinadores como ídolos, como alguém exemplar. E se esse alguém não é o exemplo a seguir, corremos alguns riscos de que as gerações que aí vêm não sejam as gerações que nós apreciemos e que nós admiremos. E o livro parte um bocadinho desse princípio, que conta histórias vividas com pais, com treinadores, um bocadinho de posicionamento estratégico do clube para deixar as crianças com menos receio ao erro, com mais liberdade de expressão, com mais à vontade para serem elas próprias. E, portanto, é um bocadinho sobre isto Quem pensa que é um livro sobre futebol e não compra o livro por ser sobre futebol, está enganado, porque tem muito mais do que isso. No entanto, há acertos onde abordamos algumas coisas técnicas, portanto, serve para os treinadores perceberem o que também foi feito de alterações a nível técnico. E depois tem contributos maravilhosos, de gente do panorama nacional e que tem um contributo muito valioso através daquilo que dizem das suas experiências no livro.

Que vão desde o Rubena Mourinha, o Nuno Gomes, passando por muitos outros nomes. Aliás, olhando aqui pra capa, o que se vê aqui são muitas palavras que não têm tanto a ver com o futebol, mas têm a ver mais com a sociedade, pessoas, integridade, respeito, estratégia. Mas olhando aqui pro título em si, a vírgula do vocativo, e eu que sou um bocado geek da gramática. Portanto, não é só futebol, vírgula, estúpido, mas a vírgula está entre parênteses, ou seja, a vírgula também pode ser removida e isto fica não é só futebol estúpido. O que é o futebol estúpido?

O propósito de escrever assim é exatamente para a interpretação ser de quem lê.

Dúvida, sim.

E há aqui um pouquinho a perspectiva de quando falamos do futebol estúpido, no meu entender, é aquele futebol onde põem os resultados à frente dos valores. Quando nós queremos ganhar a todo custo, isso vale tudo e nós estamos a passar essa informação. Quando um treinador, por exemplo, põe o seu ego à frente daquilo que seria a educação, a formação e a pedagogia que teria que ter no seu desempenho, esse é o futebol estúpido. Quando dependemos de resultados que os diretores na formação avaliam os seus treinadores pelos resultados e quando digo resultados, os números finais do jogo, esse, a meu ver, é o futebol estúpido. Depois existe o outro, que não é só futebol, e claramente quase que um insulto a quem quer manter este registo de que o futebol deveria ser assim, porque isso traz competitividade, porque daqui só os sobreviventes é que lá chegam, e portanto mantém aquela terminologia de guerra, do jogar contra e vamos ganhar estes duelos e as batalhas. E foi um pouquinho disto tudo que nós procuramos fazer de diferente, convencidos, talvez de maneira ingênua, de que nós começássemos hoje, daqui a 10 anos, que foi o que nos aconteceu, tivéssemos melhoras e tivemos bons resultados, mas que daqui a 20, se calhar, isso estivesse implementado no futebol profissional e que houvesse o respeito pelo árbitro, que houvesse o respeito do público para os atletas e entre si, o público. Portanto, que isto tudo conseguisse, de certa maneira, influenciar um pouquinho o nosso futuro desportivo, não só do futebol como amigo, mas que tivéssemos a possibilidade de ir aos estádios, aos rings, aos pavilhões, com as famílias, com a criança e à vontade, sem ter problemas de tapar os ouvidos, porque alguma coisa pode vir daí.

Claro. E tu achas que neste momento, em Portugal, temos muito esse futebol estúpido?

Muito, temos muito, continuamos a ter e teremos sempre. Diria que o sentimento é que nós andamos contra a corrente. Com a motivação de convencer e aglomerar gente para que isto pudesse funcionar. Eu digo que nós, à nossa maneira, fomos tendo os nossos resultados, que influenciamos muitos jovens que passaram pela formação do Estoril, muitas das pessoas que se envolveram com o clube, mas eu acho que acima de tudo, aqueles que viveram este processo, também nas suas vidas pessoais, têm contaminado positivamente e transmitindo esta onda de procurar passar bons valores e viver uma vida mais positiva. E depois vai mais ao particular, na perspectiva futebol, de ser um futebol mais positivo, mas na realidade isto é geral e abrange tudo.

Tu estiveste como diretor da formação do Estoril Praia, do Grupo Desportivo do Estoril Praia nos últimos 10 anos. Como disseste, puseram em marcha uma série de medidas inovadoras, diferenciadas, pedagógicas. Uma delas foi, por exemplo, terem parado de publicar os resultados dos jogos dos escalões mais jovens, até porque muitas vezes eram desnivelados. Tu falas aqui, por exemplo, de um 23 a 0, que foi publicado. Gostava de te perguntar se achas que em Portugal a formação das crianças, e aqui não estou só a falar do futebol, na escola, com as notas, por exemplo, a formação das crianças em Portugal é muito resultadista? Estamos sempre muito a olhar pros resultados e não tanto para se as crianças se formam, se se tornam depois homens e mulheres com decência.

Muito, em demasia. E esta perspectiva do formar, até para sermos competitivos para termos os melhores jogadores no panorama nacional, até pode estar invertida quando olhamos ao resultado precocemente. E explico-vos: há jogadores que estão, de certa maneira, maturados e que estão melhor preparados fisicamente porque estão mais evoluídos do que outros. E esses outros podem ser muito melhores, terem muito mais perspectiva de performance futura do que propriamente aqueles que já estão evoluídos naquela idade. E o que acontece é que um treinador que olha o resultado naquele momento vai optar naturalmente por aquele que é mais forte, que é mais rápido, que lhe traz aquele resultado momentâneo. Vai se esquecer do outro, que é o talentoso, eventualmente, e que esse precisa do espaço e tempo para crescer, para poder chegar ao futebol profissional. Portanto, não estamos só a falar de olhar aos outros, estamos a falar também nesta perspectiva de ter os melhores a chegarem ao futebol profissional. E não é só nesta perspectiva seletiva do sobrevivente.

Tu sentes-te um sobrevivente? Ou sentes-te um sobrevivente por teres conseguido chegar onde chegaste?

Eu creio que, na realidade, tive a sorte de estar nos sítios certos, no momento certo, ter beneficiado decisões de outros e de me sentir e de estar preparado na altura que me surgiu a oportunidade. A verdade é que o futebol é seletivo Eu gostava de não me considerar um sobrevivente, mas sim um selecionado. Mas acredito que é mais esta onda do sobrevivente, porque quando um treinador quer que tu sejas mais agressivo e para isso tem um tom mais agressivo contigo, eventualmente ele está a abafar a imagem de alguém que não está neste registo. Para ser mais extrovertido precisa de tempo, precisa se calhar de apoio em vez de pancada. E é um bocadinho esta ótica que eu apostaria e que eu gostaria de ver futuramente.

E para além da remoção desse lado mais resultadista, vocês também descrevem no livro que tentaram retirar este lado mais bélico do futebol, coisas como jogar contra alguém, o jogo ser uma batalha. Numa geração em que o futebol tem tido cada vez um ambiente um pouco mais tóxico, encontraste muita resistência a esta vossa visão?

Muita. A primeira foi a minha cabeça, o meu cérebro, que me gostava sempre a dizer contra.

A tua própria cabeça estava contra ti.

Porque eu sou produto disto, não se esqueçam. Ou seja, para mim foi difícil. No entanto, quando começámos a delinear estratégias, e nisso o Filipe, que é quem escreve, tem muito mérito, porque foi quem puxou este tema, para mim era um tema natural. Ou seja, o jogar contra fazia parte do meu dicionário corrente. Faz sentido quando nós começamos a retirar este tipo de expressões, porque conseguimos substituí-las por outras. Claro que muitas vezes, e nesta perspetiva inicial, não surte o mesmo efeito. Eu se quero puxar por alguém, eu se soltar uma asneira, eventualmente num tom mais agressivo, faz com que ele me pedague por, nem que seja numa perspetiva de amizade. No entanto, se nós conseguirmos, se nós arranjarmos ferramentas para ir substituindo pouco a pouco estas expressões, já estamos a ganhar. Não tem que ser de imediato. E eu dou por mim, muitas vezes, já tínhamos isto implementado e muitas vezes ainda me saía. Portanto, eu quando queria falar com os treinadores, estava sempre a pensar.

Estavas tão programado com isso.

Eu fui o primeiro, a primeira vítima e a resistência disto. Depois, naturalmente, eu em Cascais tive algumas pessoas do panorama desportivo que tinham feito carreira nesta área e que disseram publicamente que eu se não tivesse tido a formação que tive, jamais teria chegado a ser profissional. Quase que isto a contrariar a ideia de que é necessário dizer os resultados, porque os atletas precisam de lutar e de guerrear por não ter um resultado ao fim de semana. Mas nós depois vemos o outro lado, e comentamos no livro, em Espanha, com miúdos de 10, 12 anos, há localidade que já têm estatísticas para as crianças, ou seja, números de passes errados, valorização pessoal, portanto, eles já têm um ranking. Uma criança tem medo de falhar, porque não quer aparecer na estatística.

Claro, com 10 anos já está a ser avaliada.

Não deveria acontecer. Uma criança deveria de ir para o campo com 10 anos e ser a pessoa mais feliz do mundo naquele espaço.

Sim, divertir-se a jogar.

Temos de falar aqui também de um pilar fundamental, que são os pais. Os pais muitas vezes comportam-se pior do que as próprias crianças, pior do que os próprios jogadores, até porque são eles que normalmente criam as expectativas de carreira, de sonhos, de ser o próximo Hugo Leal, o próximo Cristiano Ronaldo. Neste momento, na tua experiência também, os pais são um problema no futebol formação, mas na formação desportiva dos nossos jovens?

O objetivo aqui quando falámos dos pais e quando me associei à formação do Estoril Praia, foi juntar-nos aos pais, ou seja, envolver os pais naquilo que estamos a fazer. Porque nós muitas vezes criticamos e comentamos que eles são o mal da formação, que eles é que desvirtuam o processo, e muitas vezes de forma injusta, porque nós também não os especializamos ou os preparamos para aquilo que queremos ou que achamos que é melhor. E aquilo que nós reparámos no Estoril Praia foi ao envolvê-los, ao explicar-lhes os benefícios que teriam em ter uma postura diferente, os benefícios principalmente para as crianças. Aquilo que começámos a ver foi uma melhor postura na bancada, por si o atleta não estava focado naquilo que o pai ou a mãe poderiam estar a dizer, ou se o pai ou a mãe estavam em conflito com alguém na bancada e que se iam chatear e que se eles de repente já se soltaram à agremia porque o pai tinha se envolvido à pancada com alguém na bancada. Portanto, estes episódios começaram a desaparecer. E no princípio do ano nós deixámos as regras muito claras. Depois é preciso ter a ousadia de não só apregoar, mas cumprir. E a ideia passava por isso, ou seja, nós não queremos ter este tipo de atitudes e há sanções para este tipo de atitudes. Ao haver, temos que fazer. E nós perdemos muitos atletas muito bons desportivamente, e isso depois futuramente pode ter a ver com receitas de direitos de formação, ou seja, há perdas financeiras associadas. No entanto, se nós queremos um clube em que acreditamos que os valores são prioritários, isto tem que acontecer. Então o pai é avisado, não cumpre, não se envolve e não se identifica, que esse é um dos problemas.

Portanto, chegaste a ter alguns pais a contestar esta tua visão.

Sim. E nós não queríamos que aquilo fosse a verdade pura e dura. Nós fomos moldando algumas das nossas iniciativas, porque algumas podiam ser até radicais, e fomos adaptando, porque o princípio é este. No entanto, quando os pais estão para além daquilo que nós achamos que é o possível de acontecer, nós largávamos. E isto é o bom. Os pais também escolhem os clubes, portanto, dar sempre a indicação ao pai de que se não gosta deste registo, se não é bem aquilo com o qual você se identifica, há outros clubes.

Enquanto estiveste por lá, o Estoril Praia também nunca teve de abordar temas como o racismo, homofobia, igualdade de género, com o Foot for Women, por exemplo, temas que no fundo são direitos humanos e que é uma questão básica da nossa sociedade, mas que muitas vezes também são colados à política E muitas vezes também se ouve os adeptos dizerem a frase: "Deixe a política fora do futebol". É possível fechar a porta à política, entre aspas, no futebol? Ou temas mais políticos, mais fraturantes, vamos assim dizer, como este?

Eu acho que nós fizemos muito bem, quer o Filipe na comunicação, em que traduzia tudo que nós estávamos a aplicar, como também no futebol formação e por onde começámos. Nós começámos pelos treinadores, a prepará-los para saber interpretar situações de atletas que pudessem estar desconfortáveis pela sua situação, pelas suas escolhas, sejam elas sexuais ou eventualmente pela sua etnia. Isto fez com que os treinadores começassem a deixar espaço e a deixar confortável quem estava conosco, quem praticava no clube. Depois, isto leva ao resto. Quando todos sabemos que ali é uma zona de conforto e ali podemos estar, todos nós podemos começar a trazer mais coisas novas para o clube. E eu acho que esse foi o nosso grande mérito, porque aplicámos bem, começámos pela base e comunicámos bem também aquilo que íamos fazer. Não desenvolvemos nunca nas perspetivas políticas, naquilo que acreditávamos que era a liberdade de cada um e, acima de tudo, o conforto de cada um, ou seja, que cada um pudesse ser o que quisesse ser. Os lemas de "aqui não és mais um" e "de um clube para todos" foram muito bem conseguidos e é a bandeira do clube.

Hugo, já sabemos que és uma pessoa que se emociona facilmente. Qual é que é o momento mais emocionante da tua carreira? Consegues escolher só um?

Como dirigente e como jogador?

Sim.

Sem chorar, por favor.

Vou vos dar este último exemplo. Ao ler o livro, eu tenho testemunhos de mães, de pais, de treinadores, e eu emocionei-me com muitos deles. Também parecia que tinha sido a pedir eu a dizer: "Passem um testemunho" e parece que as pessoas falam todas bem de mim. Não é bem isso. Falem bem das coisas, daquilo que foi feito. Mas quando começaram a escrever, eu caí em lágrima. Eu acho que esse acaba por ser um pouquinho o reconhecimento das coisas que eu fui fazendo. Não é que eu precise, mas é agradável.

Sim, não é que seja preciso, mas é sempre bom ouvir.

Sabe muito bem, não posso mentir relativamente a isso, sabe muito bem. No futebol emocionei-me várias vezes, raramente com resultados, muitas vezes com situações de colegas, com algumas lesões que me privavam de estar disponível, inclusive com coisas de outros, lesões de outros, ao falar com pessoas sobre a sua situação, isso também me trouxe alguma angústia muitas vezes. E eu tenho ideia de ter chorado uma vez e conto que foi na altura em que não subimos de divisão no Atlético de Madrid, porque gostava muito de estar em Espanha e isso significava que eu provavelmente iria embora do clube, mas nem no meu último dia como profissional de carreira soltei lágrima. Agora, que soltei lágrima até com publicidade.

Mas agora ao fim destes anos todos ter este reconhecimento trouxe a lágrima hoje.

Eu disse na apresentação: "Aquilo parecia um casamento, mas sem a minha mulher lá". Todos os convidados eram meus, era só amigos e toda a gente a falar, parecia que eu tinha escolhido a dedo quem-

Exato. Olha, isso agora não existe.

Foi bom ver amigos meus.

Hugo, para terminar a nossa conversa, tu tens aqui uma frase também muito boa neste livro e que dizes que é uma resposta a uma pergunta, que é a pergunta que te fazem sempre. Dizes que te perguntam sempre se não achas que passaste ao lado de uma grande carreira e que costumas responder, e que respondes no livro novamente, e cito: "Estaria preocupado se tivesse passado ao lado de uma grande vida". Para fechar, gostava de perguntar se conseguiste essa grande vida.

Eu tenho uma grande vida. Sou uma pessoa feliz, tenho muitos bons amigos, tenho saúde. E sinceramente, não poderia querer melhor do que aquilo que hoje tenho. E portanto, parto deste princípio que se eventualmente tivesse feito esforços para ir jogar para a Rússia, como foi proposto, para outros sítios, que a profissão me obrigaria a isso, eventualmente eu se calhar até poderia estar separado, não ter as crianças que tenho hoje, não ter os amigos que tenho hoje e portanto-

E não eras feliz

...se calhar era de outra forma, mas esta forma como escolhi e que também me afastou da perspetiva profissional, faz-me ser muito feliz hoje e portanto não trocaria por nada.

Que bom. Até eu própria já estava do gênero: "Ai, vai-me cair uma lágrima".

Eu fiquei: "Quase que tive que molar a porta aqui hoje".

Mas foi, já viste. Hugo, muito obrigada por teres estado connosco. Os 40 Minutos passaram a voar.

Muito obrigado.

Hugo Leal no "40 Minutos" da Rádio Observador. Nós voltamos para a semana. Obrigada mais uma vez.

Até para a semana.

Obrigado.