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Não sendo eu primeiramente artista, sou primeiro uma pessoa, eu acho que as pessoas, de facto, se já não conseguem comprar o que é essencial e básico para a sua sobrevivência, como os bens alimentares, quando já não conseguem ou conseguem mal abastecer o seu carro para fazer a sua vida, que andam nos transportes públicos completamente apinhados como se estivessem numa lata de sardinhas, eu enquanto pessoa, enquanto ser humano, direi que o teatro ficará em segundo plano, porque o básico não está assegurado. Obviamente que depois, como artista e como pessoa da cultura, ano após ano, governo após governo, vemos que a cultura fica sempre de lado e só é importante na altura em que os senhores candidatos precisam de pessoas com alguma visibilidade para que sejam melhor ouvidos. A partir daí, já não nos conhecem e isso tem acontecido sempre, portanto, agora não é exceção. Quando somos contactados por alguém que nunca nos contacta em altura nenhuma da nossa vida, apenas para pedir apoio a uma candidatura, é uma forma de usar.
Cresceu entre as paredes apertadas de um bairro típico de Lisboa, numa infância em que a escassez era compensada pelo calor da partilha. Foi ali, entre banhos de alguidar e a vivacidade das ruas, que moldou um caráter e uma independência que viria a ditar as regras do seu próprio destino. É uma mulher sem filtros, que entra pela casa dos portugueses para os fazer esquecer das amarguras da vida, mas é também a voz profunda que no fado sabe cantar as dores mais secretas da alma. O país habituou-se a vê-la como um sinónimo de comédia popular, mas o seu legado é o de uma resistente. Preferiu a estrada e a liberdade de dizer o que pensa, mesmo que isso signifique apontar o dedo à hipocrisia política. Hoje, de olhos postos no presente e sem medo do futuro, senta-se conosco uma força da natureza. Marina Mota, em 40 minutos. Muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.
Muito obrigada. Gostei muito desta introdução.
Olá, Marina.
Olá, a joelhos.
Joões, não há como enganar hoje aqui no Em 40 Minutos.
Não.
Sempre foste muito provocadora. Nós temos esta imagem desta mulher, não é?
Eu não sei se sou provocadora, se provoco alguém é sem querer, é porque alguém me provoca primeiro. E, portanto, eu respondo consoante o que vem do outro lado.
Isso vem do facto de teres nascido em Alcântara? Bairro muito...
Era. Agora já deixou de ser.
Com muita verve, não é?
Sim. Ou seja, as pessoas do bairro naquela época eram um bocadinho desbocadas. O coração estava mesmo aqui ao pé da boca. E para o bom e para o mau. E nascer ali é parte do que sou hoje, sem dúvida absolutamente nenhuma.
Guardas boas memórias de Alcântara?
Muito boas.
Dos anos 60?
Sim, nasci em 62. Portanto, guardo todas as memórias boas, ou seja, tudo o que me aconteceu naquela época fez de mim a mulher que sou hoje. A partilha, o facto de teres dito que nasci e cresci em paredes apertadas, os banhos no alguidar, tudo isso eu guardo com saudade e alegria. Não provocou em mim nenhum trauma, antes pelo contrário, é sinónimo de partilha, de não me esquecer das minhas raízes e de saber que às vezes a vida melhora e hoje tenho uma enorme banheira, mas se um dia tiver que voltar a tomar banho no alguidar, não terei com isso nenhum problema.
Estava a partilhar aqui comigo em off, a Marina Mota, que tem muita dificuldade às vezes em conhecer pessoas. Tem essa dificuldade às vezes?
É horrível.
Lês mal os outros, é isso?
Não, é as pessoas serem-me apresentadas e depois se eu estiver um mês sem as ver, volto a vê-las e parece que as estou a ver pela primeira vez.
Esqueces rapidamente os rostos das pessoas com quem te cruzas.
A não ser que aconteça uma situação muito especial e que eu guarde isso na memória. Mas mesmo as situações que me acontecem na vida, eu às vezes dou por mim a tentar recordar-me de algumas e as imagens vão-se diluindo. As boas e as más, felizmente, guardo mais as boas. Mas o facto de não reconhecer as pessoas com facilidade provoca-me a mim própria algum dissabor e algum desconforto.
Ok, portanto, uma das frases mais ouvidas por ti é: "Não se lembra de mim?" É? Ou o contrário: "Lembra-se de mim?" Até mesmo quando vai ao bairro agora, se calhar.
Eu durante muitos anos, mesmo já não morando no bairro, porque eu saí de lá com 19 anos, quando tinha alguma coisa a fazer por ali perto, eu ia sempre à Travessa do Livramento, que foi onde eu cresci. Hoje em dia já não o faço. E por quê? Porque todas as pessoas daquela época já não existem, já não estão lá. Portanto, para além disso, é uma zona completamente fria, não tem nada a ver com o espaço que eu me lembro de ter comungado com outras pessoas.
O que isso provoca em si, Marina Mota?
Em si ou em ti?
Em ti, desculpa. Tens razão.
Isso eu estou muito atenta.
Está atenta, ativa. Muito bem.
É que nós combinamos isso, não foi? Pronto. O que provoca em mim é um certo saudosismo, mas ao mesmo tempo, não é ficar aqui triste com o facto das coisas não serem iguais agora. Mas traz-me, de facto, uma memória boa de coisas que já não voltam e é muita pena. Nós brincávamos na rua até às tantas da manhã. Não havia nenhum problema de insegurança. As crianças não eram superprotegidas como são hoje. Estávamos ali todos a brincar, brincadeiras saudáveis, não andávamos agarrados a um telemóvel. Portanto, sabíamos muito bem socializar e dávamo-nos muito uns aos outros.
Reconheces-te nesta Lisboa de hoje?
Não, nada, absolutamente. Aliás, eu já não me reconheço, embora eu seja tremendamente alfacinha. Eu fugi de Lisboa quando tinha 30 anos, portanto, eu dei conta muito cedo de que as coisas estavam a cavalgar num sentido com os quais eu não me identificava. Eu já não moro em Lisboa, portanto, tenho 63, eu sei que não se nota.
Não, nada.
Mas já fugi de Lisboa há mais de 30 anos.
A idade não te assusta, pois não?
Eu acho que nos assusta a todos mesmo.
Não assusta?
Sim, não é fazer anos. É muito bom estar aqui. Assusta-me no sentido de perceber e de ter consciência que quando olho para a frente, eu sou uma mulher de olhar para a frente, o caminho já é mais curto do que aquele que já fiz, é só nesse sentido. Portanto, resta-me seguramente muito menos tempo para fazer coisas do que já tive.
E vais ter seguramente muito tempo para viver.
Assim espero, eu gostava de passar dos 100.
Então, vamos lá, faz por isso, não é? Cá estaremos para ver.
Eu tento.
Estaremos cá para ver.
Eu tento.
Quando transportamos para esse bairro onde cresceste, Marina, falámos aqui há pouco dessa dificuldade às vezes em reconhecer alguns rostos, e é patente e tu já falaste sobre isso. Mas que memórias mais é que te saltam à vista e que se calhar são mais nítidas hoje e de que sentes mais saudades desse tempo?
Exatamente a partilha, as conversas até completamente banais, mas poder falar com o meu vizinho.
Tinhas muitos amigos?
Sim. E desses, os rostos estão todos aqui. Eu lembro-me, obviamente, de todos, embora muitos já não estejam conosco. E daí eu andar sempre em busca das minhas novas moradas, e espero que não mude de casa outra vez, mas ser um lugar onde vou ao supermercado e as pessoas ainda me cumprimentam. Curiosamente, um dos funcionários lá do supermercado da minha zona chama-se João, já agora sei que queres saber. E é muito bom nós podermos dizer bom dia, ouvirmos obrigada, dizer: "Esqueci-me da carteira, vou buscar ao carro." "Não é preciso, vais buscar amanhã." Tudo isso que são coisas que parecem tontas, mas é o que faz de mim uma pessoa feliz.
E nota-se. Tu em pequena, corrige-me se eu estiver errado, querias ser hospedeira de bordo.
É verdade.Queria.
O que é que mudou?
Mudou tudo. Entretanto, eu comecei a fazer viagens de avião muito cedo. A minha primeira digressão aos Estados Unidos da América foi, tinha eu 11 anos, mais ou menos.
Uau!
E rapidamente percebi que andar lá em cima é muito divertido para quem viaja, mas para quem lá passa o dia a trabalhar, já deixa de ser tão engraçado.
Essa digressão com 11 anos, a cantar fado?
A cantar fado, exatamente.
Começaste muito cedo, não foi?
Há mais de 50 anos, há mais de meio século já.
Ainda olhas para o fado com esse olhar de garota quando tinha 11 anos, ou seja, com o mesmo entusiasmo, com a mesma vontade, ou hoje é um olhar também diferente e já com alguma distância?
Não, eu continuo a olhar para o fado da mesma forma. O fado é uma música, é um estilo musical que se ouve principalmente com a alma e com o coração. Eu acho que tem a ver comigo. Eu sou, de facto, uma mulher de emoções e continuo a olhar e a escutar fado da mesma forma. Às vezes posso é não conseguir executá-lo da mesma forma. Isto porque não o faço com regularidade. Portanto, tornou-se para mim assustador agora cada vez que me aparece um convite para ir fazer um espetáculo só de fado, implica ensaios, implica uma série de coisas que quando eu cantava com regularidade não era necessário. Eu abria a voz e aquilo estava lá tudo. E agora às vezes não, tenho que ter um bocadinho mais de cuidado.
Sentes que houve alguma mudança? Tu começaste a cantar fado com 10 anos.
10 anos, sim. 10 anos a data oficial, digamos assim.
Nos anos 70. O que é que mudou na forma como se cantou fado nestas últimas décadas e se consumiu fado? Porque houve ali uma altura em que o fado era considerado uma espécie de música pirosa, meio conotada com o fascismo.
Perdoa-me, mas acho que isso é um tremendo disparate. O fado continua a ser o fado e já era naquela altura. Havia maus intérpretes e bons intérpretes, grandes poemas e péssimos poemas, como acontece hoje em dia. Portanto, parece-me que hoje em dia o que acontece é que as pessoas chegaram à conclusão que estavam erradas, a grande maioria. E que então agora o fado, principalmente depois de ser eleito Patrimônio Imaterial da Humanidade, ganha outro estatuto, mas ele continua na sua essência igual.
Igual. O que é que faz de um fado um bom fado, Marina Mota?
Isso tem muito a ver com a sensibilidade de cada um e com o seu estado de alma. Aliás, o último trabalho discográfico que eu fiz chama-se isso mesmo, Estados de Alma, porque nós quando estamos a ouvir ou a ver, seja lá o que for, tem muito a ver com a nossa disposição naquele momento. O que faz um bom fado para mim é quando há um excelente casamento entre a composição e a letra, e depois se tiver um bom intérprete a passar essa mensagem.
Mas isso também vale para uma canção do Festival da Canção, na Bulgária, na Croácia, na Estónia, na Letónia.
Vale para tudo. A única diferença para mim é que eu acho que o fado é uma coisa mais rássica, que vem mais de dentro. É assim que eu vejo.
Portanto, a Marina Mota num chamado bad hair day, num dia despenteado, não poderia-
Em português, se faz favor.
Eu sabia que te ia provocar com isto.
Num mau dia, vá.
Num mau dia, jamais poderá ter uma boa noite de fado.
Então não.
Pode?
Posso cantar cheia de raiva.
É?
É, o fado traz essas emoções todas à tona.
Todas à flor da pele. É uma música catártica.
É onde a raça se imprime. Pode-se cantar alegria, pode-se cantar tristeza, pode-se cantar saudade, pode-se cantar nostalgia, pode-se cantar amores e desamores. No fado, tudo se pode cantar.
Boa. Marina Mota, tu sempre desde muito nova rejeitaste rótulos, quiseram-te chamar e rotular de Yvonne Silva, a nova Amália. Como é que tu foste apercebendo que estavas a criar a tua marca, entre aspas, ser a Marina Mota?
Eu não fiz nada de propósito. Ou seja, eu quando comecei a cantar fado, embora tivesse as minhas referências, mas curiosamente até foram mais masculinas, o Fernando Maurício, foi uma pessoa que eu adorava ouvir cantar. E depois quando me estreiei na revista é que me diziam que eu era parecida com a Yvonne, e eu sinceramente nunca tinha visto a Yvonne representar. Aliás, nem nunca tinha ido à revista. Os meus pais não eram muito de me levar ao teatro, não eram pessoas muito viradas para a cultura. E então tudo isso foi uma surpresa para mim. O que aconteceu foi que eu não deixei que isso me espartilhasse, eu fui o que fui, sou o que sou, e é a minha intuição que manda. Se isso teve ou não alguma influência na marca que eu criei, e que é minha, não faço ideia, mas é esse o meu cunho.
Não vindo de uma família onde havia hábitos culturais ou de consumo de cultura, como é que se dá a tua entrada no mundo da cultura? Através do fado?
Através do fado. Eu comecei a cantar fado.
E é daí que dás o salto para o teatro.
Sim, eu fui convidada para ser atração de uma revista em 1982, portanto há 46 anos também, faz muito tempo, há 44.
Isto nas datas está sempre aqui no ponto.
Sim, isso eu sei quando é que me estreuei. Aliás, eu não sei quando é que comecei a cantar. Eu só digo que foi há 50 anos porque gravei o primeiro disco em 1973, mas para o ter gravado alguma coisa aconteceu antes. Portanto, eu tenho isso como uma data oficial, não tendo sido a data concreta. Agora, a minha estreia na revista, lembro-me. 27 de março, Dia Mundial do Teatro de 1982, no Parque Mayer, no Teatro AVC.
Uau! O que é que fazias nesse espetáculo?
Eu cantava só, eu era atração nacional, eu fui para cantar. Quer dizer, não exatamente. Durante os ensaios acharam que eu tinha alguma piada e deram-me uma preparaçãozinha do final do segundo ato para fazer, um pequeno texto que fazia com uma colega, que dava entrada ao final do segundo ato.
Falaste do teu primeiro disco. Tem-lo, o suporte físico?
Tenho.
Que giro.
Tenho. Chamava-se Meu Nome, uma letra do meu pai, e que na realidade era uma apresentação minha, de quem eu era e de onde vinha.
E os versos ainda estão na cabeça?
Tenho que fazer um esforço, mas sim. Sou capaz de me lembrar talvez da primeira quadra"Com a guitarra e viola e os seus dedilhadores, eu vou-me apresentar. Boa noite, meus senhores." Era assim a primeira quadra.
Agora queremos ficar aqui embalados. Continuar.
Não me lembro.
Disco, não é?
Sim, é um disco, era vinil.
Se fosse cassete não dava pra ler aqui. Em disco tínhamos arranjar aqui um suporte. O fado foi ficando ao mesmo nível, porque a Marina faz tudo. Faz televisão, faz teatro, canta, ou seja, acaba por ser uma mulher com muitas funções e executa-as todas muito bem. Houve alguma que tivesse medo que ficasse para trás neste percurso?
O fado, neste caso, ficou. Aliás, o que me levou até à revista e a revista, por consequência, levou-me à televisão e assim sucessivamente. Mas tudo isto começou no fado. Portanto, o fado é de fato a minha origem. E durante muito tempo eu tive a felicidade, até porque me autoproduzia pra televisão, de cantar e representar juntando as duas coisas que gosto efetivamente de fazer. A determinada altura, a carreira de atriz começou a ter mais peso e eu comecei a ficar sem tempo de exercer a profissão de fadista. Aliás, essa é a minha carteira profissional, é de fadista, não tenho nenhuma de atriz. E aqui o músculo, as minhas cordas vocais. Houve um período que estive seis anos sem cantar. Portanto, quando o José González me convidou para fazer o Caixa Fama agora há um ano e meio, vai fazer dois anos em setembro, pra mim foi um susto. Foi assustador, porque eu não me sentia preparada para cumprir. E então as pessoas não imaginam a angústia, a ansiedade que eu andei aqueles meses todos até chegar ao dia. Eu prometi a mim própria que isso não voltaria a acontecer. E então, de vez em quando, nem que seja no carro ou a tomar banho, ou vou até ao Senhor Vinhos ter com a minha queridíssima Maria da Fé e canto um fadinho por graça, porque preciso de ter isto em movimento.
É preciso uma certa disciplina no sentido de nos obrigarmos a exercitar este dom que nós temos, neste caso, a Marina Mota.
Eu durante muito tempo não tinha essa consciência, até porque eu nunca tive aulas de canto. Não tive aulas de voz, portanto, cantar pra mim era uma coisa natural.
E começaste muito cedo.
Eu só tive consciência agora quando percebi que já há muito tempo que a minha voz não era exercitada, pelo menos nesse registro de cantar naturalmente, e que sentia dificuldade. E então tive que me pôr a trabalhar outra vez. Foi quase como uma reaprendizagem vocal e recorri, nomeadamente, ao Diogo Pinto, que me deu algumas aulas de educação vocal e de canto. E lá está, agora não tenho tido tempo com esta digressão da Radoska, não tenho tido tempo de as fazer de uma forma regular.
Muito bem.
Mas é isto.
Radoska é o nome dessa peça que tu...
Radoska.
Radoska, não é bem Radoska.
É Radoska mesmo.
Ah, é, ok.
Ou seja, Radoska é-
Há pessoas que têm dificuldade quando veem o nome, pensam que é algo associado ao sérvio.
E é. Radoska.
E tentam ler dessa forma.
Radoska, por acaso houve alguém que foi pôr um comentário no cartaz por eu dizer Radoska e que me explicou que em sérvio dir-se-ia Radoika.
Isso.
Pronto, mas se já é complicado pra nós portugueses lermos o título como lá está e respeitar aquela fonética Radoska, se eu fosse explicar que: "Cuidado, está escrito Radoska, mas dever-se-ia ler Radoika", era mais complicada ainda. Portanto, não, Radoska em português.
Já vamos falar disso na nossa segunda parte. Estamos aqui a ficar sem tempo na nossa primeira, portanto vamos dedicar mais tempo ao Radoska na segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com Marina Mota. Até já.
Até já.
Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos", esta semana com a atriz, mulher de muitas funções por aí no mundo das artes, Marina Mota. Radoska.
Radoska.
Radoska, está bem dito. Vamos falar sobre esta peça que já andou um pouco por todo o país e que agora vai estar aqui, pra quem é de Lisboa, bem perto de nós, não é?
Exatamente. Estrearemos no dia 4 de junho.
Está quase aí.
No Parque Mayer, no Teatro Variedades, e lá estaremos durante todo o mês de junho, de 4 a 28 de junho, de quinta a domingo.
É uma comédia, não é?
É uma comédia. É pra rir. Divirtam-se, por favor. E há duas exceções neste mês, não estaremos lá no dia 12, porque há o desfile das marchas na Avenida.
É verdade.
E então nós teremos que desmontar na véspera e vamos fazer um espetáculo no dia 12 em Alcobaça. E também no dia 17, salvo erro, que estarei em Óbidos. De resto, mas de quinta a domingo, salvo estas duas exceções, estarei sempre no Teatro Variedades.
É uma sala muito emblemática também pra ti, não é?
Perdoe-me, não quero ser indelicada. Foi uma sala emblemática pra mim. Agora, depois da sua renovação, eu entrei num espaço que praticamente não reconheço. E, portanto, seria hipócrita se não dissesse que aquilo me ficou assim, quase que uma pequenina facada no peito.
Por quê?
Porque é muito diferente.
É frio?
É. É como entrar no Parque Mayer e não ver o teatro onde eu me estreei, o Teatro ABC. Vejo um parque de estacionamento, portanto, aquele edifício não existe. Portanto, quando eu entrei no parque e não vi o Teatro ABC, e quando entrei pela primeira vez no Teatro Variedades e não o reconheci, de fato, provoca uma certa angustiazinha.
Portugal e Lisboa estiveram muito mal aí, não estiveram? Ou não? Como é que tu avalias agora, com a devida distância, enfim, a decadência de umDe um espaço emblemático da cidade de Lisboa, que é o Parque Mayer. Que era o Parque Mayer. A toponímia ainda existe, mas já não é o que era.
Desde que me estreuei que eu ouvi esse discurso: o Parque Mayer está degradado, o Parque Mayer já não é o que era. De facto, foi-se degradando ao longo dos anos, mas como qualquer espaço, ele precisava de cuidados e acho que ninguém quis saber.
O que falhou, Marina Mota?
Não faço ideia. Acho que isso obviamente terá tudo a ver com alguma questão política, alguns interesses, os quais eu desconheço. Eu tenho certeza que os teatros eram concessões dadas aos empresários e o único que se mantém ainda é o Hélder Costa, no Teatro Maria Vitória, e o resto foi se perdendo. Foram desaparecendo os restaurantes, os espaços de lazer e os teatros. E isso dói-me, porque era de facto um espaço, e eu tenho memória daquele espaço, com todos os teatros a funcionar, de terça a domingo, dois espetáculos por dia, cada um deles apenas com dia de folga a uma segunda-feira, e havia público para todos.
Essa decadência do Parque Mayer não estará também relacionada com a perda de relevância ou a perda de reconhecimento por parte do público do teatro de revista, Marina?
Não. Eu peço desculpa, mas não. Aliás, eu estou aqui convosco. E de onde é que eu vim? Do Parque Mayer. O Fernando Mendes é do Parque Mayer, o Carlos Cunha é do Parque Mayer. Vocês lembram-se da Maria João Abreu? Do Parque Mayer. O José Raposo, do Parque Mayer. Portanto, tudo o resto é puro preconceito. E quando me dizem que era muito bom antes do 25 de Abril, não faço ideia, porque não estive lá e não sei como era, mas foi muito bom na nossa época. Porque temos grandes textos maravilhosos de pessoas que vocês têm aqui. Vi há bocado uma fotografia do Mário Zambujal, que desculpem, mas ninguém me dirá que ele era um mau escritor. E ele escreveu muito para o teatro de revista. Do César de Oliveira, do Henrique Santana, do Francisco Nicholson. Portanto, houve uma tremenda má vontade, e continua a haver, com o teatro de revista, esquecendo-se que os nossos maiores nomes do panorama artístico teatral por lá passaram. E agora estou a falar desta geração que veio comigo, posso falar da anterior, que já cá estava, como o Herman José, o Nicolau Breyner. Eu não conheço um colega, ou conheço poucos, que tenha de facto impacto. Quase todos eles passaram pelo Parque Mayer. E eu digo isso com o maior orgulho.
É um viveiro.
É.
É um viveiro de cultura.
Foi um viveiro.
Cultura popular, não é?
Sim. E ser popular é bom. O povo é quem preenche um país. E eu faço parte dele com muita honra.
Marina Mota, para um artista que se alimenta da arte nas suas várias formas, como é que se encara, ano após ano, governo após governo, o encarar que a cultura é sempre o parente mais pobre no meio de tudo? Há vários problemas no nosso país, sabemos disso, também fazes questão de falar sobre isso. Aliás, na tua peça há também muito essa crítica social, mas para um artista, como é que se encara esta dualidade?
Não sendo eu primeiramente artista, sou primeiro uma pessoa e faço questão de o ser, primeiro um ser humano e depois artista vem a seguir, se é que sou. Eu acho que as pessoas, de facto, se já não conseguem comprar o que é essencial e básico para a sua sobrevivência, como os bens alimentares, quando já não conseguem ou conseguem mal abastecer o seu carro para fazer a sua vida, que andam nos transportes públicos completamente apinhados como se estivessem numa lata de sardinhas, eu, enquanto pessoa, enquanto ser humano, direi que o teatro ficará em segundo plano, porque o básico não está assegurado. Obviamente que depois, como artista e como pessoa da cultura, tenho pena, mas tal como tu disseste, ano após ano, governo após governo, vemos que a cultura fica sempre de lado. E só é importante na altura em que os senhores candidatos precisam de pessoas com alguma visibilidade para que sejam melhor ouvidos. A partir daí, já não nos conhecem e isso tem acontecido sempre, portanto, agora não é exceção.
Sentiste-te usada em algum momento por algum político, Marina Mota?
Eu acho que todos, quando somos contactados por alguém que nunca nos contacta, em altura nenhuma da nossa vida, apenas para pedir apoio a uma candidatura, é uma forma de usar.
Queres pôr nomes nisso que estás a dizer?
Não, mas eu explico porque é que não. Não, porque não foi só um.
Sim.
Portanto, estou a falar de uma forma geral. Depois há pessoas, há políticos de quem se é amigo e se apoia porque se acredita. Mas é assim, nas campanhas eleitorais. Aliás, fala-se muito pouco de cultura nas campanhas eleitorais. Há um ou outro partido que fala um bocadinho mais, mas não é uma das prioridades, e eu percebo. Quando nós temos a educação como está, a saúde como está, eu percebo que a cultura não seja uma das prioridades, mas eu acho que a cultura é um bem essencial. Agora, precisa de ser olhada com outros olhos.
E o consumo de cultura em Portugal tem vindo a aumentar.
Sim, eu acho que nunca houve tanta companhia, por exemplo, a fazer espetáculos na estrada. Agora, sem apoio. Eu falo por mim, eu ando na estrada, trabalho à bilheteira e o meu apoio é o público.
Isso é muito angustiante para um artista?
Como eu, eu esforço-me para dar às pessoas que me vão ver, que têm esse carinho por mim, eu esforço-me para lhes dar o melhor. Se não conseguir é porque não consegui, não é nunca por negligência nem por falta de respeito. Portanto, é um risco, claro que é. Obviamente que há exceções, há câmaras que nos compram o espetáculo para estarmos presentes nas suas localidades, mas também há uma grande maioria que nem sequer nos abre as portas.
A tua filha também já anda metida nessas andanças de te ajudar e estar sempre contigo. Encaraste bem? Ou seja, tu és uma artista, para alguém que cria uma filha que se calhar pensa sempre: "Ah, se calhar vou ter uma filha médica, uma filha advogada." O facto de ela ser também artista, estar contigo na estrada, te ajudar e ser muito o suporte, tanto de ti, Marina Mota, e também como do Carlos Cunha, é bom, é um orgulho?
É. Aliás, eu nunca quis que a minha filha fosse nada. Quis que a minha filha fosse feliz, e eu acho que ela é. Portanto, nunca perspetivei para a minha filha qualquer profissão. E durante muitos anos a Érika não quis ter nada a ver com o meio artístico. Aliás, isto começou já ela estava muito próximo, quase dos 30 anos. Portanto, foi um gosto, embora ela tenha sido criada nos palcos, lá está, no Parque Mayer, ela nunca quis ter nada a ver com esta área. Foi um gosto queQue chegou mais tarde. E agora sim, é bom. Ela anda na estrada com o pai, não comigo. Ela ajuda-me na pré-produção, na marcação de espetáculos, etc. Mas tenho muito orgulho, porque eu sei que ela tem um respeito imenso pela entidade que eu mais admiro, que é o público, e isso deixa-me orgulhosa.
E também é atriz.
Também é atriz. E eu acho muita graça. Mas eu sou mãe.
Eu peço desculpa pela ignorância. Já tiveram a oportunidade de contracenar as duas?
A Érica estreou-se comigo.
Ah, ok.
Sim, estreou-se comigo numa peça que era o "3 em Lua de Mel".
Tu estavas mais nervosa por ti ou por ela?
Talvez por ela. Mas se bem que depois no palco é muito fácil para mim esquecer-me de que quem está à minha frente é meu filho ou meu ex-marido, ou o que seja. É um colega. Neste caso, não é um colega, é uma personagem com a qual eu estou a contracenar. E a Érica fê-lo muito bem, mas leu o papel para fazer parte do elenco, tal como outros colegas o fizeram.
Eu acho isso extraordinário. Aliás, o que eu acho mais extraordinário na vida de um ator e de uma atriz é que quando sobem ao palco, todos dizem que se esquecem de tudo e que vestem a pele do personagem e que olham para o palco como uma nova vida. Eu gostava que me explicasse isso, porque eu até hoje ainda não consegui perceber como é que uma pessoa se consegue despir do fato de ser a Marina Mota, portadora do BI XYZA23Z, e de repente é, deixa-me procurar, a Alexandra Piedade na Rinha das Flores. Explica-me lá isto.
É o trabalho imenso de um ator.
Sim.
Eu costumo dizer que trabalho muito mais com emoções do que com a técnica. E quando nos chega um novo texto e é-me dado uma mulher nova para vestir, eu tento, até às profundezas, saber quem é aquela mulher, de onde é que ela veio, como é que ela se comporta. E dependendo da sua vida, essa mulher supostamente terá uma forma de rir diferente. Às vezes são coincidentes algumas personagens. Mas o que a levará a ter aquela atitude? Por que ela se senta daquela forma? Por que ela ri assim? Por que ela reage daquela forma àquela pergunta? Na realidade, quando eu visto é acreditar que sou aquela pessoa, de fato, e tenho um tempo de preparação para o fazer. É daí que servem os ensaios. Mas eu não acredito que vocês não fossem capazes de fazer este exercício.
Sim.
Ou seja, eu acredito que tu olhes, por exemplo, não sei se tem filhos, mas irmãos, pais, amigos, e és capaz de os observar e perceber que é engraçado, ele não se ri como eu, nem como aquele, nem a reação dele a este assunto é completamente diferente daquela que eu teria. E esse distanciamento de mim para a personagem é gigante. Às vezes não, imprimimos também coisas nossas, porque faz sentido, mas é de fato um estudo. E deixar que isso se entranhe em nós de uma forma muito especial e muito profunda. Porque se eu não acreditar.
Há personagens que entram dentro de nós, não há?
Entram naquela altura, tu esqueces-te delas a seguir.
Deixa-me só aqui sublinhar com alguma soberba, assumo. De vez em quando, tens ligeiramente um sotaque espanhol.
Eu?
Sim.
Tenho um sotaque espanhol?
Quando fores ouvir a entrevista, vais perceber.
Ai, não acredito. Eu tenho um sotaque espanhol?
Isto tem a ver com a personagem que interpretas na novela "A Protegida", certo?
Sim, aí falava espanhol, porque o meu marido era espanhol. Aquela alucinação, sim. Mas não dei conta, até porque "A Protegida"-
Quando dizes: "Na realidade".
Na realidade.
É o espanhol. Realidade.
Não.
Não, se calhar vamos ouvir esta. Não é uma crítica!
Seja, não me aches críticas.
É porque sou uma pessoa muito atenta aos sotaques, mas acho muita graça.
Mas nunca dei conta, se calhar terei.
Vamos ouvir esta entrevista com outros ouvidos.
Até porque esta dificilmente ficaria, porque a novela "A Protegida" já acabou, as gravações já acabaram há um ano, quase. Portanto, se ainda mantivesse o sotaque, estando eu na estrada a fazer outra pessoa completamente diferente, seria estranho.
Marina Mota, qual é a melhor parte do teu trabalho?
A melhor parte do meu trabalho? A preparação é sempre muito dolorosa, porque eu estou a ler as coisas e estou a fazer e sei que não é isto, e se calhar ainda não é isto, e se calhar ainda não estou bem.
És muito perfeccionista?
Eu tento. A perfeição não se alcança, mas eu tento sempre. Ainda não é bem isto, eu acho que ainda posso fazer um bocadinho melhor, ou eu ou um colega que eu esteja a dirigir. A parte melhor, obviamente, a preparação é dolorosa, mas a parte melhor é depois quando estreamos e perceber que o resultado aconteceu, que as pessoas se divertem, para mim é o melhor. É quando um espetáculo termina e eu percebo que aquela plateia ficou feliz com o resultado.
Já tiveste algum público que, por exemplo, não correspondeu à vossa performance, àquilo que vocês estavam a fazer em palco?
Isso também a experiência e os anos ensinam-nos é que os públicos não são todos iguais. Há públicos mais efusivos que outros, o que não quer dizer que não gostem.
Sim.
Eu prefiro os mais efusivos, como é evidente. Eu prefiro ouvir uma boa gargalhada, se tiver que parar para a pessoa rir, do que aquelas pessoas que riem envergonhadas, porque também acontece isso.
Porque isso transforma, não é? Quem está em palco sente essa energia também, não é?
Exato. Aliás, e é só a energia, porque eu não estou a ver as pessoas, mas isso provoca em nós uma vontade de fazer ainda mais e melhor e darmos tudo. Esta peça, por exemplo, que tem apenas uma hora e meia, sem intervalo.
O Radjoca.
"Radôsca".
"Radôsca", peço desculpa. Eu fui ler, sou tão culto.
Mas leste mal. Li outra vez.
Marina Mota, eu acho que foi de propósito.
"Radôsca".
Era pra ver se estavas atenta.
E tem que ser uma peça muito dinâmica, porque nós somos duas atrizes em cena. O Diogo Chama o Rei entra, obviamente, mas é uma participação no final daquela hora e meia. E aquilo não há tempo para pensar. Não há tempo para nada, há tempo para resolver as coisas.
Resolver o quê?
Resolver o que tiver. Logo nos primeiros-
Ensaios
...espetáculos, eu tenho a minha primeira mutação de roupa, são para aí 20 e poucos segundosA roupa também tem que ser muito bem pensada para não ter fechos, para não ter que estar a tirar sapatos e colocar outros. O cabelo tem que estar colocado de uma forma para que quando me despo não fique toda descabelada, porque eu tenho 25, 30 segundos entre sair de cena, trocar de roupa, voltar a entrar. Num dos primeiros espetáculos, eu tinha um brinco daqueles que se enfiam assim, não de mola, com uma argola e um vestido, que tem umas alças. E vocês querem crer, que eu não sei como é que aquilo aconteceu. Nesse tempo, quando eu ia despir o vestido, a alça do vestido ficou dentro da argola do brinco. E então quando eu despi o vestido, eu senti que quase ia rasgar a orelha. E naqueles segundos, nem eu conseguia tirar a alça do vestido, nem tirar o brinco da alça. Para não falhar à cena, porque tinha que entrar, nos últimos segundos consegui tirar o brinco, desprender e o brinco ficou pendurado no vestido, ou o vestido no brinco, como quiserem, porque eu estava a ver que entrava com um vestido pendurado numa orelha e com outra roupa.
E a Rosa Vila estava em palco a ver-te?
Não, a Rosa Vila-
Estava de costas.
Não, também estava fora de cena.
É uma pausa.
Há uma passagem de tempo com um efeito de luz e um pequeno separador musical, que nos dá uma passagem de tempo. Dos primeiros 30 minutos a seguir, passam-se dois meses na peça. Há ali uma passagem de tempo e é esse tempo que nós temos para nos mudar.
Muito bem. O ambiente teatral é um ambiente semicontrolado. Há um texto, há os colegas de teatro, os atores, as atrizes e os músicos que desempenham um papel, mas é um ambiente semicontrolado que pode descambar rapidamente para o desastre. Há alguma noite que recordas que tenha sido- Uma noite louca ...épica do ponto de vista do desastre, Marina Mota?
Já aconteceram muitas coisas nestes anos todos. Aconteceram os tais imprevistos, que não há como controlar. Exatamente por isso é que são imprevistos. E depois algumas pessoas têm maior facilidade em reagir e resolver, e o público às vezes nem se apercebe do que aconteceu, acha que faz parte da peça. Por exemplo, isto não foi um desastre, mas nesta peça eu estou a servir um licor e entretanto o copo entornou-se e eu tenho aqueles segundos para pensar: "Ok, eu vou ter que limpar o chão, porque o chão não pode ficar molhado nas cenas que se seguem". Enquanto falo, fui aos bastidores buscar um pano, voltei, limpei o chão e depois de passado um bocado verifiquei que o líquido continuava a escorrer por baixo da mesa e o palco era inclinado, quase a chegar à plateia. Voltei a sair, voltei a limpar. E depois algumas pessoas que gostam de falar conosco no fim, eu estava a fazer esse comentário e eles disseram-me que achavam que aquilo era da peça. É porque nós resolvemos bem o assunto. Agora, coisas trágicas, quase. Sim, até a mim já me aconteceu. Lembro-me que na minha estreia no Teatro Variedades, em 1989, na prova dos novos, eu bebi vaselina líquida em vez de água.
Meu Deus!
Estamos a falar de 89, imagina, são já uns anos, quase 30. E eu tenho sempre muita água no camarim, aliás, já perceberam que eu bebo muita água, e naquela altura também tirava a pintura com vaselina líquida, exatamente pelas mudanças rápidas, para além de ser mais barato e nós não ganhávamos assim tanto, também era um método muito eficaz, porque é muito oleoso e tira a maquiagem com rapidez. Agora a vaselina já se vende nas drogarias em frascos, que diz vaselina líquida. Naquele tempo, comprava-se a bulso. Nós íamos com uma garrafinha, eles punham lá na drogaria a vaselina e foi isso que aconteceu. Eu tinha uma garrafa com vaselina numa garrafa de água mineral, de plástico, e tinha me esquecido de comprar água e pedi à minha auxiliar de camarim se fazia o favor de me comprar uma água. E ela foi comprar uma água e deixou a garrafa exatamente ao lado da outra. Nós estávamos a receber pessoas e a falar na estreia e fomos nos estrear e muita merda, aquelas coisas que se diz, e de repente pego na garrafa, numa qualquer, e bebi um gole e era a vaselina.
E o que é que provoca a vaselina líquida no nosso corpo?
É um laxante.
Meu Deus!
Um laxante muito forte. E isto aconteceu no dia da estreia. Foi uma coisa horrível. Obviamente que o público não se apercebeu, mas eu passei um bocadinho.
Nem quero imaginar.
Passei um bocadinho.
Olha, vais viver até aos 100?
Eu estou a dizer no mínimo.
Sim, no mínimo.
Porque eu acho que fazer 100 anos deve ser uma coisa-
O que é que vais fazer até lá? Nós queremos estar nesse aniversário.
Pronto, estão convidados.
Obrigado.
Embora eu não faça muitos aniversários.
Não celebras?
Não, não tenho o hábito de fazer grandes festas, mas nos 100 sim, porque eu gosto de festejar as décadas. Fiz uma festinha aos 50, aos 60. Aos 60 não, porque estávamos na Covid, foi complicado. Mas farei aos 70, portanto, obviamente farei também nos 100. Vocês estão desde já convidados.
Obrigado. O que é que queres fazer até aos 100 anos, Marina Mota?
Continuar a fazer o que faço agora. Não há grandes diferenças. Eu cada vez mais gosto de usufruir da minha casa, da natureza, de uns mergulhos no mar, de ter a minha família e aqueles que amo próximos de mim, de beber uns copos com amigos, de dançar de vez em quando, de ir à praia, de ir ao campo e de continuar a trabalhar, se possível, a fazer coisas que me dão prazer.
A fazer o quê? Do ponto de vista laboral.
Eu gosto de andar na estrada. Gosto imenso de andar a fazer digressão. Para já, falando francamente, deixa-me um bocadinho mais livre, porque tenho o resto da semana, segunda, terça, quarta, um bocadinho mais descansada. E depois sei que é duro andar sexta, sábado e domingo de trouxa às costas e para trás e para cima e fazer 300 quilómetros, sou sempre eu que conduzo e eu gosto. E às vezes, quando termina o fim de semana, obviamente que: "Epá, agora já me sabe bem descansar". Mas, por outro ladoTenho mais liberdade do que quando estou a fazer um projeto num teatro residente ou numa novela e permite-me gerir melhor o meu tempo. E gosto muito. Gosto de contactar pessoas novas, tenho pena de não poder usufruir mais, porque embora nós corremos Portugal inteiro e acabamos por não conhecer nada.
É tudo muito rápido.
Chegamos às 15:00, montamos o espetáculo, fazemos o espetáculo à noite, voltamos. Não, neste caso não voltamos, desculpem. Eu tenho que dizer que ficamos, porque temos o apoio, vá, não temos o apoio do governo, mas temos o apoio dos hotéis Vila Galé.
Está bem.
Que nos dá sempre uma instalação Vila Galé próximo. Eu sou muito grata por isso, porque há muito poucos parceiros a apoiar cultura. Portanto, o Vila Galé é nosso amigo.
Do ponto de vista artístico, o que é que te vês a fazer nos próximos anos, Marina? O que fizeste até agora ou queria experimentar coisas novas? Eu ia te perguntar, nós ainda não falámos disso, mas a Marina Mota foi um fenómeno de audiências em televisão. Toda a gente sabe, vários programas, sempre com o nome da Marina, porque sabíamos que isso era sinónimo de fidelizar também o público. Não tens saudades de estar à frente de um programa, por exemplo?
Eu não vou dizer que não gostaria de voltar a fazer humor com regularidade na televisão, até porque todos sabem que é de facto a maior forma de divulgarmos e de fazer o nosso trabalho chegar mais longe.
Uma boa montra, a televisão, não é?
É, sem dúvida. Para o bem e para o mal. Mas obviamente que isso não está na minha mão e eu já há muito tempo, há muitos anos. Eu nunca me preocupei muito com o futuro que está lá longe, não. Cada vez mais eu quero viver a minha vida agora. Obviamente que agora estarei a preocupar-me com o que vou fazer a seguir e é por aí. Se entretanto acontecerem projetos aliciantes e divertidos, que eu possa abraçar com o mesmo carinho e responsabilidade que tenho abraçado até aqui, dar-me-á muito gozo, mas nunca estou a perspetivar muito, até porque a vida nos surpreende e nunca é exatamente assim, o que eu vou fazer daqui a dois anos ou três.
A televisão mudou muito desde esse tempo para agora, até mesmo com a questão das novelas, com os programas de humor. Não sei se agora são mais, se são menos. A Marina sabe me dizer melhor.
Não, eu acho que são menos. Acho que os programas de humor são menos, pelo menos de uma forma regular, são menos.
Temos ainda um resistente em televisão, o Armando José, que se calhar faz isso de uma forma mais, como é que eu hei de dizer?
Regular.
Regular, exatamente.
Abençoado.
Sim. Tem pena naquilo que a televisão se tem vindo a transformar?
Na forma, sim, como as coisas são levadas. Eu não estarei lá, portanto não sou eu. Quem sou eu para perceber os meandros internos do que se passa nas televisões hoje em dia? Mas percebo que há uma dificuldade grande de um projeto fidelizar audiências, porque as coisas andam sempre a oscilar. Às vezes são às 22:00, depois são às 23:00, depois não dá, depois passa para a meia-noite. Depois é outra fórmula, seguramente, mas não estando eu a produzir há mais de 20 anos para televisão, é difícil ficar a falar de fora sem saber o que se passa dentro.
Tu, Marina, és uma consumidora de televisão?
Sou.
O que é que vês na televisão portuguesa?
Na televisão portuguesa costumo ver o Joker, acho que é uma coisa cultural interessante.
Concurso?
Sim. Às vezes diverte-me estar ali até a testar o que eu sei e às vezes chegar a conclusão que sei muito pouco. Gosto de ver os The Voice, por exemplo, porque acho que é uma coisa muito bem produzida. A Catarina Furtado é brilhante. Gosto dos mentores, gosto de quem aparece novo a cantar.
Alimenta-se muito o sonho também, não é?
Há ali um enorme respeito pelos concorrentes e eu isso gosto de ver. E acho que está bem produzido. Gosto da luz, gosto do som, gosto da forma como as coisas se apresentam.
Tu consegues ver um programa de televisão sem pensar nesse lado da produtora, que também já o foste?
É difícil. Ou seja, não estou à frente do ecrã à procura das coisas. Quando me salta ao olho o bom ou o mau, provavelmente eu não consigo desligar a ficha e fico mais atenta.
Quem já fez televisão, depois consome de outra maneira, não é? Está sempre à procura dos defeitos.
Eu não procuro os defeitos, até espero mesmo que eles não existam.
Ao longe.
Não, eu ao contrário, fico muito orgulhosa quando em Portugal se fazem coisas onde os defeitos não aparecem.
Boa! Marina Mota, queria te perguntar, com uma carreira já de muitos anos, há com certeza muitas coisas que te inquietam neste mundo que agora estamos a atravessar. Tu disseste há bocadinho, confidenciaste há pouco comigo que gostas muito de ver notícias. O que te inquieta neste novo mundo que nós estamos a construir? 2026, ainda há pouco tempo falavas aqui da questão também da pandemia, que nos obrigou a toda uma mudança. O que te inquieta?
O que me inquieta mesmo, para já, eu própria, porque sinto-me completamente desencaixada deste tempo. E a culpada sou eu. Eu não sou grande fã das tecnologias, considero-as úteis, mas acho que estão a ser utilizadas em excesso e tenho um pavor gigante que a humanidade deixe de fazer falta, a todos os níveis. Ainda agora mandaram-me fotografias minhas comigo, eu comigo ao colo quando era bebé. E só um especialista perceberá, eu não sou especialista, que aquilo é obviamente a IA a funcionar. Isso para mim é assustador, não poder viver num mundo completamente de ilusão, da fantasia, onde tu vês uma coisa e não percebes se aquilo é real, se está a acontecer, se aquela pessoa existe, se foi um criativo que fez aquela música ou se foi o ChatGPT que construiu aquele poema. Isso para mim é assustador. Mais importante que tudo isso, é a falta de sensibilidade que a humanidade ultimamente está a deixar crescer em si. Hoje em dia tudo é motivo para ofender o outro despropositadamente, seja qual for o assuntoAs pessoas não se importam nada de magoar o outro, só porque sim. Isso é assustador.
Estamos um pouco mais brutos, todos.
Estamos muito brutos.
Quando ouvíamos aquilo do: "Vai ficar tudo bem", em 2020, quando passasse a pandemia.
Eu, por acaso, sempre fui da opinião, quando diziam: "As pessoas vão ficar melhores", eu sempre achei que não. Acho que quem é mau, é mau, e quem é bom, continua a ser, independentemente de qualquer pandemia. Mas hoje é insuportável. Eu não sou muito de redes sociais, eu uso-as porque tenho que divulgar o meu trabalho e hoje em dia já não se podem colar, e bem, os "mupis" nas paredes. Portanto, as redes sociais é a forma que eu tenho, isto se depois a comunicação social não me ajudar a divulgar os sítios onde eu vou estar. Utilizo-as, mas utilizo-as só para isso, salvo raras exceções. E é muito difícil acontecer qualquer publicação, seja de quem for, que os comentários que vêm em seguir não sejam para destruir e falar de coisas que às vezes não vêm nada a propósito.
Até a linguagem, não é?
A linguagem.
Hoje somos todos soldados a escrever. Utilizamos verbos bélicos. Arrasou, matou, esmagou.
Ia matar, e deviam fazer, e deviam acontecer. Isso para mim é assustador. Eu acho que nós devíamos procurar, e pode parecer uma lamechice, estou preparada para depois quando forem pôr os comentários: "A coitadinha lá está armada em parva". Mas não, eu acho que nós em vez de buscarmos sinceramente o amor pelo outro, percebermos melhor, não, andamos a fazer exatamente o inverso. Eu acho que isto é uma autodestruição. Eu não posso acreditar que pessoas que têm aquele tipo de comentário, seja lá qual for o assunto, que possam ser pessoas felizes. Tem que ser gente muito amarga, muito doente, na realidade. E portanto, eu estou completamente desencaixada disto. Isso é o que me assusta. Assusta-me ver pessoas de poder no mundo, todos nós sabemos quem, que facilmente vão destruir outro país só porque sim. Não é para salvar nada, é o petróleo, o eterno petróleo a funcionar. E a minha impotência em relação a isto, que é ficar a assistir e às tantas dar por mim a ouvir a mesma notícia, morreram mais não sei quantas pessoas, e crianças, e mulheres, e velhos, e casas destruídas, e nós a normalizarmos.
Ia-te perguntar isso. Às tantas, nós ouvimos, e especialmente a guerra da Ucrânia já se arrasta há quatro anos, todos os dias notícias sobre isso. E às vezes é assustador a forma como nós ouvimos, ou lemos, ou observamos, e parece que-
Já é natural.
Natural, sim. Mas é muito estranho dizer isto, não é?
Ver, ainda ontem se viu a forma como aquele senhor incrível de Israel tratou aqueles ativistas. Isso a mim é uma coisa que me retira serenidade. Eu não sei como é que a humanidade chegou aqui e não sei onde é que ela vai chegar por este caminho. É completamente assustador. Eu quero chegar aos 100 anos, mas gostava de chegar aos 100 anos num mundo feliz, onde as pessoas dessem mais abraços e menos socos e menos balas.
Num mundo melhor.
Num mundo melhor. E acho que um mundo melhor faz parte de nós todos. Pedia um bocadinho mais de reflexão quando veem uma notícia, verifiquem se vale a pena o comentário que vão fazer a seguir, de crítica destrutiva, se de fato vale a pena. Ou se riam-se só, mesmo que não concordem, ou vão lá discordar, mas não precisam de ser tão ofensivos, tão maus uns para os outros. Maus e más, como é óbvio, a humanidade.
Marina Mota, vamos acabar com um tom de esperança. Quero te pôr a pensar: o que tu achas que, quando alguém pensa em Marina Mota, o que vem à cabeça dos portugueses? Assim, a primeira coisa.
Não faço ideia, mas eu espero que sejam coisas boas. Eu espero que sejam esta nova geração, não, porque eu já não produzo desde 2006, eventualmente 2004, mas dá muito prazer ouvir gerações anteriores dizerem-
Tu és muito abordada na rua.
Sim, eu cresci a vê-la. Provavelmente pessoas até da minha idade, mas eu de facto comecei muito jovem. E sentir que em alguns períodos ou em alguns casos fui uma boa influência ou que pelo menos os consegui divertir, é isso que eu quero que se lembrem de mim.
João Miguel, diz lá como é que se chama o espetáculo. É "Radoshka".
"Radoshka". Ó João, e para não ser eu, onde é que este espetáculo vai estar em junho?
É no Teatro Variedades, no Parque Mayer, cidade de Lisboa, Portugal, de 4 de junho a 28 de junho, sendo que há duas paragens: 12.
Que espetáculo. Estaremos em Alcobaça e depois em Óbidos.
Em Óbidos. Aí está.
E convém dizer que os bilhetes estão à venda, não é? No BOL, nos lugares habituais e também no local. Portanto, sem bilhetes dificilmente entrarão. Quer dizer, há exceções, como é óbvio.
Marina Mota, muito obrigado por teres vindo aqui ao "Observador".
Beijinho, obrigada aos dois.
E eu em 40 minutos. Obrigado.
Obrigada, beijinho.