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Eu não tenho nada contra quem faz pop pastilha elástica. Gosto de um monte de bandas que fazem coisas que são só feitas para pura diversão. Tendo em conta que eu não tenho uma grande voz, aquilo em que eu me distingo tem a ver com as características que eu não coibi, que eu não bloqueei. E essas características muitas vezes são defeitos, mas é deixar ir, é assumir os defeitos, é ser verdadeiro, é ser sincero. Porque eu acho que o público não é parvo e o público consegue distinguir quando é que há sinceridade e quando é que uma palavra complicada, se calhar, traduz um sentimento complicado, e quando é que uma palavra simples também traduz um sentimento complicado.
Provavelmente é um dos homens com a maior coleção de sapatos do país. Sensível e preocupado com aquilo que o rodeia, foi no desenho, e não na música, que encontrou a sua primeira paixão. Ainda assim, ninguém diria, até porque quem o vê no palco sabe que é ali que ele se transforma, se reinventa e que as suas canções ganham uma nova dimensão, sem esquecer sempre um olhar e uma mensagem para o futuro. Samuel Úria, em "40 Minutos". Muito bem-vindo à Rádio Observador.
Olá! Um prazer estar aqui. Também é um gosto desta parte. É muito bom voltar aqui ao Observador e este excelente programa que vocês dirigem, que nem sempre tem 40 minutos.
É verdade. Já está aqui a falar de um dos nossos segredos. Não é segredo para ninguém que tu foste o primeiro artista que deu o pontapé de saída aqui na Rádio Observador. Estávamos a falar nisso.
Estávamos a falar nisso.
Estávamos aqui a contar a história que um artista de grande dimensão que ficou reduzido a um cantinho nos corredores.
Sim, eu tenho mesmo grande dimensão, eu sou uma pessoa pesada e alta.
Muito alto.
E fiquei num cantinho à espera da minha vez de intervir, mas ordeiramente cumpri o que me foi solicitado. Por isso, não tenho histórias de desacatos aqui no Observador.
E estás também na nossa história há cinco anos e conseguiste fazer parte dessa história e nós agradecemos-te por isso. Falámos aqui no início, maior coleção de sapatos do país. Eu tenho uma questão que vai ditar o rumo desta conversa, se vamos continuar ou não, que é: dizes tênis ou sapatilhas?
Eu digo sapatilhas.
Ah! Já estou mais descansado.
A zona do país onde eu cresci, que é o centro-norte, é um enclave linguístico. Temos a dupla designação. Eu cresci, por exemplo, a minha avó dizia cruzeta e dizia sertã. Mas a minha mãe já dizia cabide e frigideira. E eu cresci com os dois termos, com os termos duplos.
Não és aquele extremista da língua e dos regionalismos e diz: "Eu digo assim, porque eu vim daqui e tenho que dizer assim".
Não, eu normalmente brinco mais, sobretudo com a malta de Lisboa, quando estranham muito que eu diga joelho e coelho, escaravelho. Ou seja, as palavras que têm o som e, eu digo com som ê, que sou bastante criticado. E gosto que, por exemplo, tu vais pra Espanha pedir uma paelha, com cinco as. Isso costumo brincar, mas tudo num bom espírito.
Já ficamos mais descansados.
Fora de brincadeiras, este ano há Coliseu, dia 11 de outubro em Lisboa, 17 de outubro no Porto. Faltam ainda sete, oito meses para o grande dia. No entanto, a preparação já começou? Já começa? Como é que está esse ponto? E perguntar também se é algo com que tu tens muita preocupação, saber preparar, idealizar tudo para depois entrares em palco.
Eu tenho muita vontade, que pode parecer que é uma das receitas para a preocupação, mas não, às vezes até é o contrário, porque a minha vontade leva-me quase a não idealizar a coisa, só quero que aconteça. Ou seja, há uma vontade tão grande que quase que desprestigia a preparação, o planeamento, etc. Na verdade, tenho gente a trabalhar comigo que me dá muito na cabeça e que me obriga a assentar um bocadinho os pés na Terra e pensar nas coisas como vão ser e pensar nas partes técnicas e quem é que vai estar e quem é que não vai estar. Mas ainda assim, eu diria que a grande preparação que está a ser feita neste momento não é exclusivamente direcionada para os Coliseus, mas como eu estou de alguma forma a estrear as canções do disco novo em palco e começo a dar concertos e começo a tocar com banda ou em duo, também faço muito um formato duo com Silas Ferreira. Então estou a experimentar as canções, a perceber como é que elas funcionam, que vidas é que elas podem ter exteriores ao disco. E isso, de alguma forma, vai ajudar-me a construir o caminho que eu quero depois levar ao Coliseu, porque os Coliseus estão anunciados como concertos deste disco que acabou de sair.
"2000 AD".
Não vou tocar exclusivamente o disco, até porque seria curto, que é um disco curto e eu quero fazer um espetáculo grande que vai ter muitas retrospetivas, mas toda a construção que está a ser feita não é necessariamente direcionada já para o Coliseu. Estou a experimentar ainda a vida destas canções.
E este "2000 AD" foi lançado no final do ano passado. Tu já falaste imensas vezes também noutras entrevistas sobre este álbum, mas quero perceber também daquilo que tem sido a perceção das pessoas, das pessoas que te conhecem, daqueles que eventualmente agora começaram também a ouvir. Como é que tem sido a recepção a este novo trabalho?
A recepção dos contactos diretos que eu tenho tido tem sido muito boa, mas também é verdade que eu estou no período em que tenho menos noção do impacto que o disco pode estar ou não estar a ter.
Por que tu dizes isso?
Até por questões muito práticas e de agenda, que é eu ando a promover o disco com alguma intensidade. Então eu vou aos sítios pra falar sobre o disco, as pessoas que estão a conversar comigo, de alguma forma investigaram o disco, ouviram entrevistas anteriores. Isso a mim podia-me dar a percepção que o disco está a ser muito entendido e que toda a gente quer saber do disco, quando de fato, eu desloco-me aos sítios porque as pessoas vão fazer perguntas sobre o disco, porque é também a função delas e estão também concentradas naquele dia e não na sua semana inteira. Isso, de alguma maneira, pode-me tirar a percepção real do impacto que o disco pode estar a ter. Eu diria que se calhar daqui a um par de meses, em que o disco já rodou um bocado mais na estrada, que já dei mais concertos, já estive com pessoas mais desinteressadas, mas que de alguma maneira também estão a assistir e que podem comentar dessa forma desinteressada. Aí, sim, eu vou ter a noção e poder-te-ei dizer qual é que é a minha noção do impacto que o disco tem.
Já falaste que este "2000 AD" muitas reflexões, presunções também da tua parte. Dizes também que é um álbum curto. Houve canções que ficaram na gaveta, que sentiste que estavam prontas para sair, mas se calhar não aqui neste "2000 AD"?
Pois é isso, há canções que ficaram de fora e eu odeio ter canções de fora. Normalmente eu consigo encaixar todas as canções que estou a fazer do período em que me concentro pra escrever um disco. Consigo, de alguma forma, afiná-las de alguma maneira para que elas caibam no conceito geral dos discos que eu estou a fazer.
Como é que se define Uma canção que fica de fora. Ou seja, qual é o barómetro? O que define: esta não vai, esta vai?
Neste disco, curiosamente, não foi uma questão de qualidade da canção, nem sequer foi o apreço que eu tinha pela própria canção. Tem mesmo a ver com o facto de eu ter definido o tema que eu queria tratar ou um tema sobre o qual depois pudesse haver vários subjacentes. Quando eu acho que uma canção não tem ligação com essa coisa que eu determinei, para mim, à partida está excluída. Em discos anteriores, eu consegui, mudando algumas ideias, às vezes até por questões estruturais, consegui que houvesse um aprisco à qual ela pudesse voltar e que pudesse encaixar nesse conceito geral. Neste caso, não consegui com algumas canções que ficaram de fora. Acho que é a primeira vez que eu tenho um superávit de canções, tenho um excedente orçamental de canções.
É isso que eu ia perguntar: ainda as vais usar numa outra altura?
Eu tenho muito pouca experiência de ter canções para trás. Não serão tantas que tenham ficado pelo caminho. Normalmente utilizo-as ou nos discos, ou muito rapidamente ofereço-as a alguém. Por isso eu não sei muito bem como lidar com este excedente.
É uma realidade nova.
Até posso, sei lá, aqui a uns tempos, posso fazer um EP das canções que ficaram de fora e chamar-lhe isso.
2001 AD.
Pode ser.
Ou um 2001 AD parte dois, que agora já está na moda, não é?
Mas aí já não tenho o comprometimento que agora me bloqueou e que me limitou às nove que chegaram ao fim do disco.
Ainda vamos falar mais sobre o Coliseu e também há vários concertos que vais fazer até lá, tanto em Lisboa como no Porto e um pouco por todo o país. Mas agora importa irmos até às tuas origens. Quando entraste aqui na rádio, disseste que também já vieste aqui à rádio falar sobre o Tondela, sobre o clube, que também está muito bem classificado e quem sabe, chega outra vez à Primeira Liga.
Vamos lá ver.
Uma juventude passada nos anos 90, em que havia em Tondela, e por aquilo que tu também já falaste muitas vezes, uma cultura musical muito presente. De que forma é que ela estava presente e de que forma é que tu sentias essa cultura musical?
A cultura musical lá era sentida em contraste com a natural escassez, ou seja, que seria natural, crescer numa terra, numa cidade pequena do interior mais profundo. Não é o centro geodésico de Portugal, mas é um bocadinho mais acima, é muito centro, é muito interior, é muito longe do mar. E de alguma maneira, nos anos 90, pré-internet, na altura em que se calhar nem as estradas estavam tão acessíveis de transporte, seria natural que essa terra também estivesse arredada de fenómenos culturais.
Mas tu tiveste essa perceção enquanto crescias ou só depois quando vieste para Lisboa e pensaste: "bem, se calhar, minha cidade até por ser pequena, mas tinha aqui uma componente".
Eu acho que comecei a perceber na altura, quando de repente também percebi e entendi que havia apreço por Tondela, pessoas que estavam em cidades maiores e que vinham muitas vezes especificamente a Tondela para ir ver concertos, sobretudo para ir ver teatro. Tondela sempre foi uma cidade muito forte em teatro. Aliás, a cultura em Tondela desenvolveu-se muito. Cultura na qual eu fui forjado, uma cultura pop, atual, diurna. Foi muito centrada e criada em torno dos fenómenos de um grupo de teatro que se criou em Tondela, que é o Tribo Limpo, do Teatro ACERT. E ACERT é a grande associação cultural e recreativa de Tondela. Então eu cresci com esse orgulho de perceber que em alguns polos, embora Tondela se mantivesse muito desconhecida, cada vez que havia alguém que a conhecia, referia a ACERT. Hoje em dia já há o Clube Desportivo, há o restaurante Os Três Pipos, que também apareceu nos anos 90, que é um dos meus restaurantes preferidos e que para mim também é cultura e também faz parte das minhas memórias. Mas de alguma forma, havia esse orgulho de, de repente, haver um reconhecimento da terra centrada numa coisa positiva, e não no homicídio passional, que se calhar era o mais frequente das terras serem faladas nos noticiários, terras do interior serem faladas nos noticiários nos anos 90. E então havia a noção de que aquilo era um tesouro, e sendo um tesouro, nós tínhamos que o entesourar. A redundância aqui foi propositada.
Torná-lo ainda maior e melhor.
Sim, e é uma coisa que eu costumo dizer com toda a sinceridade, e lá está, eu vivo em Lisboa já há muitos anos e há um excedente da oferta, um excesso da oferta cultural, e isto é positivo, mas a nossa escassez da oferta cultural, para além de ser forte, para nós não era entendida como facultativa. Ou seja, nós tínhamos que aproveitar aquilo que estava acontecendo na nossa terra, porque sim, quase com espírito de missão, em que nós, de alguma forma, sendo público, estávamos também a ajudar a perpetuar esse espírito cultural, essa solidariedade cultural e essa riqueza, e estávamos também a enriquecer. E acho que havia já uma noção, por toda a astroinícia que eu tivesse na minha infância e adolescência.
Já havia essa perceção.
Eu acho que as coisas que eu me consigo orgulhar têm que ver com essa perceção de que havia uma exceção ali a ocorrer. E nós éramos convidados, e isto também é profundamente real, e eu sou muito grato às pessoas que dirigiam a ACERT. Nós éramos convidados a fazer parte. A ACERT, de repente, tornou-se oficiosamente, oficialmente, a minha primeira sala de ensaios. "Está aqui uma sala, miúdos venham para aqui, façam barulho". Havia espetáculos com artistas consagrados e perguntavam: "Não querem vir fazer a primeira parte?"
Isso é ótimo.
Nós nunca tínhamos tocado ao vivo, mas éramos convidados a fazer as primeiras partes de nomes maiores. Eu acho que isso é uma coisa que é difícil descrever o privilégio que existe de podermos contar com essas benesses por pessoas da terra que queriam privilegiar a cultura a chegar à terra, mas também queriam privilegiar a terra enquanto laboratório de nova cultura. E isso mantém-se.
E esse incentivo, de certa forma, moldou-te não só como adolescente, mas depois mais tarde também como artista?
A familiaridade com os fenómenos musicais, familiaridade com o palco, alguma ética de trabalho em torno das dinâmicas de banda, eu devo muito ao espaço que me foi favorecido. Falo do espaço de palco, como o espaço da sala de ensaios, mas também a abertura das pessoas, de não serem condescendentes com os miúdos, tipo: "Está aqui um espacinho em relação ao que quiser."
Sempre houve espaço para vocês crescerem e também para fazerem crescer aquilo que era o teatro, não é?
Eu penso que mesmo os meus colegas hoje em dia, que já tiveram acesso a escolas de música, a concertos dos grandes fenómenos pop, rock, que hoje em dia são os fenómenos mainstream. Mas eu pergunto quantos deles é que também tiveram esse tipo de abertura, de apoio e de incentivo. Por muito que estruturalmente, e por falta de estrutura até académica em torno da minha aprendizagem musical, eu não tive grande coisa. A minha mãe tentou ensinar-me música porque ela dava aulas de música em casa, mas eu não quis saber. Não tenho uma escola, mas em termos de estrutura de apoio, o que eu tive de incentivo e da naturalidade até de lidar com a música, e a naturalidade não me obriga a ser um bom músico, obriga-me a ser o músico mais sensível e sincero que eu puder ser, mesmo que a tradução disso seja o pior de mim. Eu tenho a teoria que os defeitos é que personalizam o artista. E ali os meus defeitos estavam a ser cultivados de uma forma muito especial. As minhas características estavam a ser cultivadas de uma forma especial e a individualidade musical também estava a ser ali privilegiada de uma forma especial.
Falavas aí da relação com a tua mãe, que dava aulas de música. Isso ainda gera muita conversa, tendo em conta que agora és músico de profissão, mas não ligavas nenhuma à tua mãe que dava aulas.
Havia ali uma espécie de rebeldia.
Se tenho aqui ao pé de mim, não quero. Quero ir mais longe.
E não era só isso. Estamos a falar de final da pré-adolescência e adolescência. E de repente, alguns colegas meus, colegas de escola, iam lá a casa ter aulas de música com a minha mãe. Eu não queria ser o menino da mamãe. Eu lembro que eu andava no sexto ano, um dia, por lapso, estava numa aula de inglês e em vez de dizer à professora, disse à mamãe. Claro que eu fui muito gozado.
Quanto tempo?
Não foi muito tempo.
As crianças também depois esquecem-se rápido.
O bullying era outra coisa na altura. Mais grave em algumas circunstâncias, mas nessa deixaram passar. Mas imaginem eu quero isso acontecer com muita frequência numa sala de aulas ao pé de minha casa, dentro da minha casa. Mas esse lado de rebeldia, de não querer ser o menino da mamãe em casa, depois o tapete foi completamente tirado, porque a minha mãe é muito minha fã. Eu também podia dizer com acesso de rebeldia: "Não podes ser minha fã porque és minha mãe, estás quase a tirar legitimidade à minha música, porque eu não quero que seja ouvida por pessoas que são a minha mãe."
Mas é uma fã crítica ou uma fã apoiante?
Na realidade não é muito crítica, é muito mais apoiante. Aliás, a minha mãe e meu pai passam boa parte do dia a ouvir rádios que não ouviriam naturalmente, porque sabem que são as rádios onde passam as minhas canções. E de repente tornaram-se fãs até das rádios e conhecem os radialistas e sabem os horários dos programas e essas coisas, e sabem onde é que as minhas canções estão a votos, etc. E eu não sei nada disso.
Não sabes.
E os meus pais tornaram-se aqueles pais reformados, mas babados, cuja vida não revolva em torno da carreira do filho, mas que são muito orgulhosos.
Tu antes de ser músico de forma oficial, se calhar muita gente não sabe isto, tu foste professor de Educação Visual. Mas tu quando eras mais novo, lembras-te de alguma profissão dita convencional que se calhar pensavas ou querias ser alguma coisa em específico?
Eu sempre fui muito preguiçoso a fazer planos. Continuo a ser.
A preguiça já falámos aqui da preguiça hoje.
É verdade, eu quando ponho mãos à obra, dou tudo de mim e às vezes até mais do que devia. Mas sou preguiçoso, ou seja, quando penso em projetos, acabo por perder muito rapidamente no sentido e no propósito que eu lhes quero dar e de repente não há nada que está a ser erigido, porque eu perdi-me em conceções do que propriamente nas fases práticas de como as coisas se constroem. Então é fixe ter gente a trabalhar comigo. Há pessoas que aprendem a dizer não, eu acho que aprendi a dizer que sim com muita espontaneidade e com muita vontade, porque é a maneira das coisas serem feitas. Mas eu em miúdo não acalentava grandes sonhos de uma profissão. Eu já gostava de música, gostava muito de desenhar.
Também é outra paixão que chegou primeiro que a música.
Chegou primeiro que a música, sim. Paixão enquanto pessoa que diariamente exerce algum tipo de atividade relacionada com a sua paixão. Mas eu não acalentava grandes esperanças de fazer vida disso. E mesmo da música, eu até já poderia chamar músico profissional, porque já estava de alguma forma a ganhar mais dinheiro com a música do que com a minha profissão regular, que eram as aulas, e ainda aí eu tinha as minhas dúvidas se me poderia autodenominar músico, porque pode ter a ver com esse pensamento pequenino de alguém que vem de uma terra pequena, de achar quase que é imerecido que os seus sonhos de repente se tornem o quotidiano. Não estava nas minhas perspetivas, porque é bom demais para ser verdade. Ainda hoje eu acho que alguma ou toda a alegria que eu tenho a falar da minha profissão, é porque com todas as dificuldades, com todas as agruras que também estão subjacentes, para mim não me parece bom demais para ser verdade, estar a viver de uma coisa que é de facto uma paixão, e uma paixão que eu desenvolveria e na qual eu estaria ativo, independentemente de ser a minha profissão ou não.
Isso é muito bonito de se ouvir.
Mas é completamente real.
E acreditamos que seja completamente verdade, porque também muita da tua essência e daquilo que passas para nós através da música, acho que é isso mesmo. Mas nós vamos continuar a falar sobre essa paixão e sobre mais coisas, sobre dúvidas, que também falaste aqui há bocadinho. Na segunda parte do 40 Minutos, vamos só fazer aqui uma pausa para as notícias e já voltamos. Até já. Estamos de regresso em 40 Minutos com Samuel Úria. Já deixaste algumas dúvidas no ar. Vamos procurar esclarecê-las ao longo de mais alguns minutos que ainda temos pela frente. Só para terminar este tema da infância, falaste da questão da adolescência. Tu sempre nos habituaste, e sempre que te apresentaste ao público, a ter um estilo muito próprio. Naquela altura e na tua adolescência, se nós te víssemos na rua, como é que te íamos encontrar? E também perguntar se tinhas alguma alcunha naquele tempo, se alguém te tratava de uma forma mais especial.
Eu tenho um apelido que eu não sei como é que surgiu, mas que ainda hoje os meus amigos mais antigos e alguns que convivem com os antigos, de repente aquilo tornou-se-
Os de Tondela?
Os de Tondela.
Ou já veio também cá pra Lisboa.
Houve uma diáspora de Tondela para várias partes do país e eu também já habitei em vários lados do país, mas as pessoas que me são próximas ou que se tornaram próximas, chamam-me Sami, porque é um apelido que nasceu. Creio que foi talvez a minha tia Manuela que me terá dado esse nome, porque ela é muito de diminutivos. Mas ainda hoje sou conhecido por várias pessoas como Sami. A Márcia trata-me por Samizinho, vai mais longe.
Ok, é um diminutivo ainda maior.
Vai mais longe, mas sim. Estás a falar em termos de estilo, de aparência?
Eu quero saber mesmo.
Eu fui adolescente nos anos 90, eu tinha 12 anos quando saiu o Nevermind do Nirvana, então o grunge bateu muito forte.
Sim.
E o grunge, em muitas coisas, era ausência de estilo e era quem é que se conseguia vestir pior. Também por sorte, a minha mãe tem jeito pra costura também, das suas muitas qualidades, tem jeito pra costura, fez muitas camisas de flanela. Então eu sentia que estava ali, sobretudo no inverno, que Tondela é bastante frio, sentia que estava ali numa espécie de Seattle portuguesa. E então o estilo era mesmo cabelo comprido, desgrenhado, e depois camisolas e casacos? Não, era acumular t-shirt, às vezes 10 umas em cima das outras, e depois também, se fosse preciso, três camisas de flanela umas em cima das outras. Era quanto mais feio e ilógico, mais válido estaria esteticamente. Isso apanhou-me assim metade.
Estamos a ter uma imagem mental agora.
É verdade, é muito Nevermind.
Do Sami.
É bastante Nevermind. Sim.
Samuel Úria, olhando para as tuas inspirações, Bob Dylan, Leonard Cohen, Sérgio Godinho, Jorge Palma.
Há mais, certeza.
Mais. Isso o Samuel nos dirá. O que é que há de cada um deles em ti e como é que se manifesta?
Eu acho que a coisa mais importante nessas influências não tem tanto que ver com mimetismo. Claro que há qualidades de canções e de músicos, se eu tive muita convivência com eles, até inconscientemente, eles transformam-se no patrimônio, nas reservas que eu tenho, de soluções musicais, soluções líricas, o que quer que seja. Mas eu acho que a influência consciente mais forte tem a ver com a vontade de participar do mesmo fenômeno para o qual eles contribuíram. Estou a pensar agora que eu na música não tenho guilty pleasures, na televisão tenho alguns guilty pleasures, e alguns deles são programas de culinária, até concursos de culinária.
Tu gostas muito de cozinhar também?
Eu gosto muito de cozinhar, mas lá está, quando eu estou a ver um programa de culinária, eu posso não gostar até do que eles estão ali a fazer, mas só de estar a ver pessoas a cozinhar, e a cozinhar bem, a darem o seu máximo, dá-me vontade também de ir cozinhar e não reproduzir aquilo que eles estão a fazer.
Ou seja, não segues a receita, mas ficas com a vontade de ir pra cozinha.
Ir pra cozinha. E com a música acontece-me isso. Quando eu vejo alguém que está a fazer uma coisa que me toca de alguma forma, ou de muitas formas, ou de formas superiores à minha própria ideia de existência, como acontece com esses músicos que tu referiste, eu tenho vontade, não de ir fazer canções iguais às que eles fizeram, mas tenho vontade de ir fazer canções, tenho vontade de participar no processo. Tenho vontade de descobrir como é que eles chegaram a algumas soluções, mas através das minhas próprias experiências e com os meus objetivos. Então, as grandes influências que eu tenho desses músicos têm a ver com a apetência que eu tenho por querer participar no fenômeno, mas também se eu sou reverente àquilo que eles fazem, há também, se calhar, um desejo escondido de querer, sem a pretensão de que também haja pessoas a sentirem reverência por aquilo que eu faço, mas pelo menos a minha tentativa de estar para além daquilo que seria o limite autoimposto por mim e pela minha circunstância.
Estavas aqui a falar da questão dos artistas, falaste há pouco da Márcia, que é alguém que estás a trabalhar muito agora. O que é que te acrescentam estas colaborações? Tu com certeza trabalhas também muito a solo e há um processo a solo, mas as colaborações trazem aqui e vê-se também outra componente artística que não é possível ver quando estás sozinho?
Eu acho que sim. O processo de criação, pra mim, é um processo de muito isolamento. Eu tento sempre ficar sozinho e nos últimos discos até tenho ido pra um sítio, e vou pra um sítio algo inóspito, porque no inverno aquilo não é assim muito agradável, mas onde não há pessoas nem vizinhos no raio quase de 1 km. Não tenho mesmo ninguém ao pé.
E sentes-te bem nesse silêncio?
Não me sinto bem. Pra mim, essa é que é a forma, é não me sentir bem. Porque eu acho que se as canções não trouxerem vários desafios, isto não é uma questão de penitência monástica, não tem que ver com isso. É mesmo perceber que há canções que têm que portar todo o desconforto. E mesmo canções alegres, o desconforto e a desarmonia, as coisas em conflito, eu acho que são muito mais inspiradoras do que Do que a inspiração que surge pela distração ou das manifestações de alegria que normalmente aproximam-se muito mais de outras expressões de alegria que já existem. Eu acho que, no meu caso, e não estou a fazer disto regra, a dúvida, a contenda, o conflito, são muito mais personalizados do que propriamente o elogio ou a alegria, ou o que quer que seja. Eu refugio muito nessa solidão. Mas depois também tenho a noção de que o processo não pode ser absolutamente autista, não pode ficar centrado em mim. E assim que acabo de fazer o esqueleto das canções, normalmente voz e guitarra, ou voz e um teclado, o que quer que seja, há a vontade muito grande, não por uma questão de ego, de mostrar aquilo que eu fiz, não tem nada a ver com isso, é mesmo até de me esvaziar e deixar que as canções cresçam por preenchimento das características das pessoas que trabalham comigo.
E como é que fazes depois, por exemplo, a ponte para quando tens um espetáculo que já não é a solo, essas colaborações ou com outro grupo, como é que é feita essa ponte?
A vontade é a grande ponte, porque eu tenho mesmo muita vontade. Para mim a música faz muito mais sentido se for sempre feita de uma forma comunitária. E aliás, eu começo a fazer música de alguma forma mais séria, assim que há um grupo de pessoas com interesses afins, com ouvidos parecidos, que também estão a fazer música e juntamo-nos. Na altura faz-se a Flor Caveira, o selo que ainda hoje pertence aos meus discos, mas é a editora onde eu despontei. E o centro da Flor Caveira, para além da estética, tinha mesmo a ver com esse lado comunitário, de nós nos distribuirmos, às vezes sermos só cinco ou seis, mas de cinco ou seis pessoas haver ordenações diferentes para fazermos 20 bandas, que nunca se repetiam. Esse lado de querer estar com as pessoas para fazer música, que é o lado da vontade, é sempre o lado que eu mais prestigio quando idealizo concertos.
Mas o mundo da idealização não é perfeito, há sempre algum defeito. Os defeitos do Samuel Uri, no processo de criação, no processo de criatividade, surgem mais a solo ou em grupo? Que diferenças é que há? E quais é que são?
Eu acho que surgem de igual forma, embora quando apresento os defeitos a solo, se os abordo, posso sempre resvalar mais para a autocomiseração. Quando o faço em grupo, acho que há mais uma autoironia que favorece até a felicidade com que a coisa está ali a ser partilhada. Claro que eu também acredito na ideia de que devemos levar as cargas uns dos outros e que a alegria deve ser partilhada e o sofrimento também deve ser partilhado e é bom ter companheiros que o podem fazer comigo, companheiros de vida ou companheiros musicais, e às vezes a destrinça é muito difícil de fazer, porque de facto as pessoas com quem eu colaboro são todas amigas, ou já o eram, ou tornaram-se.
São muitas horas juntos.
São muitas horas juntos e eu acho também que todas as pessoas que eu contacto, todas as pessoas com quem eu colaboro estão também dependentes peço desculpa.
À vontade.
Dependência é palavra prepositada. Estão dependentes da felicidade que a música lhes proporciona. Da felicidade e às vezes até da necessidade, daí eu ter falado dependência, da necessidade de exteriorizarem e de se manifestarem através da música. E nesse sentido, é difícil não criarmos afinidade com essas pessoas que, para além de um fenômeno musical, que pode ser a coisa menos romântica possível, e que para muitos de nós é acima de tudo um trabalho, aquilo que nos paga as contas e põe comida na mesa, mas para nenhum de nós é só isso. E até diria que para nenhum de nós isso é a primeira coisa e isso é o mais importante. E quando há essa confluência de vontades, de desejos e de necessidades e de inevitabilidades, é muito difícil tu estares a partilhar palco com alguém com quem não partilhas mais coisas e com quem não crias laços de amizade, que se tornam mesmo muito fortes. Há uma espécie de pro forma nos concertos, que é quando vem algum convidado, por muito que tenhas passado o dia com ele, em ensaios de som, a jantar. Eles entram em palco e dão-te um abraço como se te tivessem visto pela primeira vez e quando se despedem também te dão um abraço como se fosse a primeira vez. E parece um pro forma, uma coisa artificial, mas eu digo-lhe, eu já passei por isto centenas de vezes na minha vida e nunca foi artificial.
Aquele sentimento mesmo.
É alguém que vem à nossa casa e é a casa mais ecuménica do mundo, porque estamos a partilhar com pessoas que nós desconhecemos e queremos não só que aquela amizade, aquele momento, seja testemunhado, como queremos também nós absorver a beleza do convite, da partilha. E eu juro que é sempre genuíno, nunca não foi genuíno.
Falavas aqui do palco enquanto casa e quem te vê um concerto teu sabe a energia. Aquilo que vamos ver é um espetáculo acima de tudo, mas pauta-se muito pela tua energia que tens em palco. Já houve dias em que te sentiste cansado e não te apetecia subir a palco? Ou há sempre uma espécie de energia extra que quer alimentar ainda mais esse sentimento de estar em palco e tu tornares as pessoas o ator principal no teu concerto, porque tu acabas por ser alguém que acaba por dar essa energia ao público, mas eles são sempre os atores principais. Acho que é isto que eu interpreto daquilo que tu fazes e queres dar a quem te vê.
Eu acho que tenho uma amnésia boa em relação ao prazer que o palco me dá, vou ser daquelas pessoas que arriscam porcentagens sem qualquer dado estatístico que as comprove. Mas eu diria que 80% das vezes, dos dias em que eu tenho concerto Eu levanto-me e digo: "Não acontece nada". Mas depois, sobretudo concertos com bandas, encontramo-nos na sala de ensaios, assim que chegamos à carrinha, já estamos todos cansados de rir. Já nos rimos tanto uns com os outros, depois estamos juntos e comemos porcarias e vamos para os sítios, e estamos em sítios e estamos horas à espera e aproveitamos às vezes para dar um passeio enquanto o palco está a ser montado. E depois acabamos de jantar e é hora de concerto e dá muito sono. Nunca tenho nervosismo, às vezes dá-me sono. E depois entro em palco e quando chego a palco lembro: "Pois é, este é o melhor sítio do mundo". Quando chegas a um sítio, ao palco, esteja muita gente, não esteja muita gente, mas estás no palco e percebes que estão pessoas com ouvidos generosos para te ouvir, algumas daquelas pessoas para além de te quererem ouvir, querem te entender, que é uma coisa que eu não fiz por merecer isso, mas há pessoas que estão ali para me entender.
É um conceito diferente, não é? Estar a aproveitar um concerto e, para além disso, querer entender aquilo que tu estás a dizer, aquilo que tu queres passar.
É uma generosidade inqualificável. Nem todas as profissões têm esse privilégio e nisso eu sinto que é um privilégio, para além do gosto que eu tenho a fazer isto, ter essa afeição por parte de pessoas, a maior parte delas desconhecidas, algumas que se tornam conhecidas exatamente porque me abordam com essa crença, com o que quero te conhecer, quero perceber as tuas ideias e as tuas banalidades. Eu não fiz por merecer isso. A parte lúdica às vezes é tão primária, tão espontânea e às vezes é tanto a força motriz que me leva a querer começar a escrever canções. Mas, por um lado, eu também sei que a sinceridade toma conta. Pois é tão bonito que as pessoas entendam que eu estou a ser sincero quando estou a fazer uma canção, porque podiam achar que aquilo eram só patranhas, mas eu acho que o público é mais inteligente. E não estou a tentar afagar egos de públicos, porque eu enquanto público às vezes também me sinto inteligente quando estou a ver um concerto e para além da diversão que eu quero ter, há concertos onde eu não vou para entender. Também faço isso.
Sentir isso é ótimo.
Quero perceber como é que isto se manifesta ao vivo, quero perceber o esgar aquela pessoa enquanto está a cantar uma determinada palavra. Também quero perceber isso e sei que o público também faz isso comigo e isso deixa-me mesmo muito satisfeito. Então torna o palco um lugar muito apetecível, porque estamos ali para entreter as pessoas, mas estamos ali também para receber o maior afeto por essa vontade de entretenimento.
Tens algum ritual antes de subires ao palco?
Consciente não tenho. Eu sou o menos supersticioso que existe no mundo. Há rotinas e quotidianos que têm a ver com o próprio elenco de um dia de concerto, mas não tenho nenhum tipo de ritual. Ainda por cima, como a maioria da minha banda, somos todos pessoas de tradição protestante. Normalmente fazemos uma roda antes dos concertos e é um momento de partilha, sobretudo de gratidão. Há uma manifestação de gratidão por sentirmos que estamos a fazer uma coisa que nos dá tanto prazer. É o nosso trabalho e ainda por cima nos dá tanto prazer. E estamos a chegar a pessoas. E não é um exercício de excesso de humildade, mas eu acho que faz bem essa gratidão de percebermos, mesmo que nós não tenhamos feito nada por merecer isto, vamos dar o melhor, porque as pessoas merecem o nosso melhor.
E seria essa a mensagem que deixarias para as próximas gerações, para os jovens que estão a começar agora com o sonho da música? Qual é que achas que deve ser então a abordagem certa para quem está a dar os primeiros passos?
Eu diria que o meu maior conselho, conselho com E. Mas o meu maior conselho para as gerações, porque é o único conselho sobre o qual eu tenho algum tipo de autoridade, porque isto aconteceu-me quase por acaso. Eu fazia música.
É mais fácil hoje?
Eu acho que é mais difícil. Os meios estão mais democratizados, é mais fácil tu gravares um disco com poucos meios, não tens que ambicionar ir para grandes estúdios e esperar que as rádios te ouçam e que alguém creia em ti, que aposte em ti para gravares um disco. Mas essa democratização também inundou. Há muito mais projetos, há muito mais coisas a acontecer. É muito mais difícil hoje em dia viver de música e viver desafogadamente em torno da música. Eu acho que é mais difícil.
Porque há muito de muito, não é?
Há muito de muito. O que é bom, porque há mais oferta. Eu acho que há um salto qualitativo em várias coisas. Se calhar, a inundação de bandas, de projetos e de pessoas traz mais qualidade, também traz menos qualidade, traz de tudo. Mas eu acho que isso é muito bom. Não tendo eu conscientemente perseguido este sonho, quase que me caiu no colo. Estou a exagerar. Eu fazia músicas, fazia intencionalmente, mas viver de música não foi uma coisa que eu tenha planeado. E nesse sentido, o único conselho que eu posso dar é aquilo que eu estava a dizer, que eu estou sempre a repetir este discurso de Miss Universo, mas tem a ver com a sinceridade, sobretudo de pessoas que queiram fazer canções. E eu não tenho nada contra quem faz pop pastilha elástica. Eu gosto de um monte de bandas que fazem coisas que são só feitas para pura diversão. Mas quem ambiciona ter um bocadinho mais de consciência, de consciência não, mas quem se quer pôr um bocadinho mais nas músicas, que se ponha mesmo a sério.
Quem ousa ser diferente. Nem é ser diferente, é ser irreverente, às vezes, criativo.
Ser sincero. Eu acho que tem a ver a questão da sinceridade, porque eu acho que, se calhar, tendo em conta que eu não tenho uma grande voz, não sou um grande instrumentista. Aquilo em que eu me distingo tem a ver com as características que eu não coibi, que eu não bloqueei. E essas características muitas vezes são defeitos, mas é deixar ir, é assumir os defeitos, é ser verdadeiro, é ser sincero. Porque eu acho que o público não é parvo e o público consegue distinguir quando é que há sinceridade e quando é que uma palavra complicada, se calhar, traduz um sentimento complicado, e quando é que uma palavra simples também traduz um sentimento complicado.
Olhando aqui para o papel político e social da música, que acho que está muito presente também nos teus trabalhos. Tu em 2020 foste um dos nomes que fez parte de um abaixo-assinado, a clareza do que defendemos. Os assinantes deste abaixo-assinado assumem-se como de direita ou de centro-direita. Passados cinco anos, e olhando também para a situação política que atravessamos agora no país, o que defendiam neste abaixo-assinado, achas que se cumpriu? E também, neste caso, tivemos aqui o não é não de Luís Montenegro, falando aqui de uma situação mais específica. Foi a prova que também estavam certos na altura e deste caminho?
Eu acho que aquilo que eu assinei, já na altura me parecia completamente à prova de bala. E eu assinei sabendo que iria receber críticas de todos os quadrantes.
Foram muitas?
Muitas. Curiosamente mais à direita. E pessoas que de repente diziam como é que nós ousávamos fazer cercos sanitários a partidos de extrema-direita e populistas, quando na história de Portugal, ou seja, na história depois do 25 de Abril, partidos como o CDS, também havia quem fizesse. Havia gente de direita a tentar comparar o CDS dos históricos, do Nuno Melo Antunes Roque, do Adelino Amaro da Costa, um partido digno, sobretudo nos anos 80, queria comparar com esta agremiação de sei lá, nem sei como lhes hei de chamar, mas que as notícias dos últimos dias têm exposto de uma forma bastante clara. Ainda por cima, isto acontece, e estou a falar até dessa crítica que eu recebi numa publicação que vocês conhecem de certeza. Mas dias depois, num comício do Chega, que era obviamente um dos visados nesse manifesto, não só, mas também, num comício em que durante a interpretação do hino havia pessoas a fazer a saudação nazi e ninguém mandou parar aquilo que estava ali a acontecer. O abaixo-assinado aparece dias depois disso acontecer e ainda havia gente a falar que não, porque no passado já fizemos cercos sanitários a partidos dignos e a pessoas. Estarem a comparar príncipes e históricos com javalis. A história não me está a dar razão, porque não fui eu que escrevi aquele texto, mas está a dar razão a quem o escreveu e está a dar razão a todas as pessoas que abaixo-assinaram.
Há uma particularidade que há poucos cantores na lista que se assumam como direita. Até nisso sentes que és irreverente?
Sim, mas tenho-me sentido cada vez menos de direita. Eu acho que não ser de esquerda, acho que se calhar é aquilo que mais me distingue. Não sou socialista, não sou marxista, mas sobretudo porque eu não me pauto por nenhuma ideologia. Nesse sentido, é verdade que é mais fácil dizer que sou de direita, porque a direita tem menos teorias sociais e ideologias identificadas para as pessoas se assumirem. Há a direita e depois na esquerda há várias ideologias e várias correntes. Na direita também haverá, se calhar até mais dependentes de fenómenos determinantes económicos do que propriamente de ideologias filosóficas, ou pelo menos a direita dos últimos 50 anos está mais desafeta de ideologias. Mas também considerando aquilo que é a direita hoje, sobretudo a direita partidária, tenho muita dificuldade em sentir-me correspondido ou de eu próprio corresponder.
Estamos mesmo a terminar o nosso tempo. Já só temos tempo para abordar aqui mais uma questão, que é no fundo, não sei, um olhar para o passado, mas também a pensar no futuro. Se tu pudesses dizer alguma coisa àquele homem, ao Sami, vamos chamar-lhe assim, que se lançou há uns quantos anos na música, dar-lhe assim uma espécie de conselho, o que é que tu lhe dirias hoje?
Sei lá. Não sei se quero alterar a linha de tempo, porque estou muito feliz com o sítio onde eu estou agora. O apelo que eu lhe faria tem a ver também com aquilo que eu já confessei aqui um par de vezes, que é: não sejas tão preguiçoso. Eu chamo muitas vezes preguiça à minha propensão para a distração. Mas era: não te dediques tanto à distração, dedica-te mais a coisas concretas, porque se calhar os discos que eu ando a fazer, assumo tudo o que faço ali, mas se calhar já teria feito mais se dispersasse menos. E era fixe ter mais discos feitos.
Samuel Úria, em "40 Minutos" na Rádio Observador, vai estar nos Coliseus 11 de outubro em Lisboa, 17 de outubro no Porto, mas há mais datas e vais andar um pouco por todo o país. É consultar as tuas redes sociais, porque está por lá toda a informação. Muito obrigado.
Muito obrigado, Samuel.
E até à próxima. Obrigado.