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A minha filha a perguntar-me: "Nós estamos pela Palestina ou por Israel?" E eu disse: "O que tu achas?" Na altura da Guerra da Ucrânia, eu fiquei muito afetada. Tivemos uma vaga de refugiados ucranianos e eu recebi em minha casa. Temos uma casa de praia, que era a casa dos meus avós, e eu recebi 16 ucranianos em casa. Eles estavam todos um bocado amontoados, mas estavam muito gratos e criei amizades para toda a vida com várias pessoas.
Eles ainda estão cá em Portugal?
Alguns estão, sim. Hoje falei com uma delas. Criei um grande afeto com esta comunidade e algumas voltaram para a Ucrânia, para Kiev, e que vivem todos os dias e mandamos mensagens e tento descobrir como é que elas estão e como é que as coisas estão. E tenho uma realidade muito concreta. Não é biased. É uma realidade de lá.
Sim, das pessoas que lá estão.
Que vivem lá. E eu vejo as fotos, os vídeos que me mandam. Portanto, as minhas filhas, obviamente, perceberam. Não estavam a perceber bem exatamente o que estava a acontecer, mas eu expliquei, basicamente, um país invade o outro, porque quer aquele país. E elas: "Mas isso não é justo." E eu: "Pois, não é justo. Eles acham que têm o direito àquele país. Portanto, tu tens que decidir por ti, se aquilo é daquela pessoa, tu vais lá e vais tirar, vais entrar na casa daquela pessoa e vais dizer: esta casa agora é minha. Tu achas que isso é justo?"
Nasceu em Nova York, cresceu em colégios internacionais e parecia ter o futuro traçado no universo da ciência. Quando tudo indicava que passaria a vida no silêncio de um laboratório, arrumou as malas e rumou a Londres para estudar teatro. Trocou a precisão do microscópio pela urgência imprevisível das emoções. A sua estreia profissional deu-se do outro lado do Atlântico, no Brasil, antes de se afirmar em Portugal como uma das atrizes mais versáteis e respeitadas da sua geração. Quem trabalha com ela fala de uma mulher incisiva, leal e com sentido de humor apurado, que desmistifica qualquer pose de estrela. Assume-se como uma pessoa teimosa, perfecionista até à exaustão. No entanto, por trás dessa presença elegante e segura, guarda ainda a miúda reservada e secreta da infância. Hoje, em 40 minutos, aqui na Rádio Observador, vamos conhecer a história, as causas e a vida da Paula Lobo Antunes. Seja muito bem-vinda aqui à Rádio Observador.
Olá, obrigada. Que introdução profunda.
É?
É.
Mas diz muito de ti ou não?
Podes depois passar-me isso em mensagem.
Passo, mando-te por WhatsApp, fica combinado. Assim, sempre que quiseres um cartão de visita, já tens aqui para apresentar. Vocês usam muito os showreels, não é?
O showreel e o bio. Muitas vezes é preciso uma biografia. Imagina qualquer trabalho, enfim, para nos apresentarmos, é preciso uma bio ou, por exemplo, em teatro, quando se tem a folha de sala, uma biografia das pessoas. E realmente eu gostei muito dessa definição.
Podes usar esta se quiseres. É só adaptar aqui umas coisinhas, se calhar.
Exatamente, eu acho que foi mesmo. E é engraçado, porque ainda no outro dia estava a pensar nisso do microscópio. E sim, é verdade. Aliás, a minha tese no final do curso, fiquei um mês inteiro a olhar pelo microscópio a contar células do cérebro de ratos. Basicamente, a minha tese era uma coisa que para mim tinha que fazer sentido, que era arranjar uma forma ou encontrar um certo tipo de uma droga qualquer que pudesse prevenir o parto prematuro em mulheres, obviamente, mas não testando em mulheres, mas testando em ratos, que é bastante similar. O prazo é mais curto, porque o prazo de gestação de um rato é bastante curto, são uns meses. E depois podermos usar esta droga ou este químico que consiga prevenir, porque não existe. Uma mulher se entrar em trabalho de parto muito cedo, obviamente, há muitos riscos e muitas perdas. E foi um trabalho que eu achei muito interessante. E depois, eventualmente, tivemos que examinar o cérebro. Portanto, destes ratos, as mães, laminar os cérebros microscopicamente com uma lâmina microscópica e depois pô-las nas lamelas e contar as células. Acho que nem nunca entrei em tanto detalhe deste trabalho que eu fiz.
Uma ótima descrição, porque eu acho que para os nossos ouvintes que não têm essa imagem, estão a criar essa imagem mental na cabeça.
Eu estou a passar por bastantes passos para a pessoa não ficar a pensar: "Então, mas como é que chegaram aí?" Mas chegamos aí ao cérebro, eventualmente, e a laminar o cérebro. Então eu tinha milhares de fatias microscópicas de cérebro e ia contar as células, porque obviamente é muito pequeno. E conseguimos, consegui que o paper, como se diz, isto foi na Escócia, na Universidade de Edimburgo, fosse publicado e que conseguimos estatisticamente ter alguns resultados válidos.
Ou seja, tu mesmo afastando depois desse caminho, tu deste o teu contributo.
Dei para a ciência. Foi engraçado isto por quê? No outro dia estava em Londres e os meus amigos tinham ratinhos. Em português diz, não, no jardim, estavam aí em casa, como aqui também temos. Mas em inglês é rat e mouse. Em português é ratinho e rato.
Exato. É a distinção entre o maior e aquele mais pequenino.
Apesar de serem espécies completamente diferentes. E então eles estavam a rir, a tentar apanhar os ratinhos, coitados, mas em Londres existe e aqui também existe, enfim, tem um jardim. E então eu estava a dizer: "Uma vez dei respiração boca a boca a um rato" e eles agarraram assim para mim: "Como assim?" E eu: "Sim!" Lá estive a explicar que obviamente eu tinha 15 ratos e então os 15 tinham que sobreviver. Para fazer estatisticamente a análise daquilo que eu estava a fazer, não podia perder um rato. Coitada, ela estava a ir embora e então a minha professora mostrou: "Basicamente, tira essa parte de dentro da seringa e põe-se a parte grossa em cima da boca do rato e depois sopra-se devagarinho pela parte mais fininha".
Bem, eu nunca pensei que estes primeiros cinco minutos de conversa contigo, Paula Lobo Antunes, fosse a falar sobre
Respiração boca a boca.
Um rato. De facto, é fascinante.
Pronto, é assim. És uma caixinha de surpresa, às vezes, mas foi engraçado. Por isso é que eu estava a dizer, essa introdução que fizeste foi assim. E eu tenho estado a pensar muito nisso ultimamente, porque tenho estado a recordar coisas que já fiz, porque muitas vezes nós esquecemos.
Tu és nostálgica ou saudosista, neste caso?
Não sou, mas estou a começar a ser. Não sei. Eu acho que é bom para o nosso trabalho também. Às vezes esquecemos onde é que estivemos. As nossas experiências e o que já conseguimos, o que já alcançamos. E às vezes é bom. E também eu faço isso por treinar a memória.
Claro, que é o teu instrumento mais importante.
Acho que é muito importante. Eu, quando era miúda, fazia um exercício que era tentar recordar a roupa que eu usava e começava ontem, anteontem, antes de anteontem, e fazia isso até conseguir para 10 dias, de recordar o que eu tinha usado. São exercícios, não sei, jogos mentais que eu gosto de fazer. E agora, de repente, comecei a ter flashes de coisas que eu consegui também para partilhar com as minhas filhas. E eu acho que é importante termos essas coisas um bocadinho mais presentes. Também para tentar perceber quem nós somos agora.
Como é que chegamos até aqui.
Como é que chegamos, sim.
Muitas vezes esquecemo-nos muito desse caminho, desse processo.
E de porque eu gosto de certas coisas. E música, leva-nos por caminhos incríveis.
Quais são as músicas da tua vida?
A Madonna. Eu sou a fã número um da Madonna.
Tem novo álbum agora, assim mais danceante.
Sim.
Voltou às origens, no fundo.
Eu acho que ela sempre foi. Ela tem sempre aquela dança dela muito particular, todos os concertos dela têm muita dança envolvida. E é uma coisa que eu gostava, eu treinava todas as danças dela. Era o Open Your Heart com a cadeira. Eu sentava-me à frente, gravava na minha Betamax ou no VHS e então passava horas e horas e ia fazendo ela com a cadeira e as danças e as posições.
Então também podíamos ter tido uma bailarina ou nem por isso?
Sim, ou então o que eu adorava ter sido era uma rockstar ou uma popstar.
Tu nasceste em Nova Iorque.
Sim, nasci.
Um sítio onde se realizam e onde há muitos sonhos.
E pesadelos também.
Também faz parte.
Sim, isto é uma batalha constante. Para se querer ser qualquer coisa e tentar descobrir o que eu quero. Mas sim, eu quando era miúda eu cantava sempre à frente do espelho, estava sempre a cantar.
Tu já eras uma artista? Se calhar ainda não sabias.
Eu achava que era. Eu acho que era uma coisa natural. Eu vejo isso também nas minhas filhas.
Ou seja, tu nem sabias, nem calculavas que aquilo podia ser um dia uma profissão, por exemplo.
Não, de todo. Era uma coisa quase inata. Eu tinha um daqueles giradiscos pequeninos da Fisher-Price, que hoje em dia também existe, e punha uma música. Isto é tão mau.
Eu sinto que tu te estás a revelar imenso neste episódio do "40 Minutos". Já descobrimos que já fizeste respiração boca a boca a um rato. O que é que aí vem agora?
Eu acho que até corei um bocadinho. Mas então-
Ligeiramente, sim.
Tinha aqueles giradiscos pequeninos de criança. Mas dava para ouvir música. E então era um single da Carly Simon.
Sim.
Que é fantástica. E ela realmente nos anos 70, 80, era lindíssima. Meu pai gostava imenso dela, minha mãe também. E então ela tinha uma canção que era You're So Vain.
Sim. Nós passamos aqui na rádio muitas vezes, na Rádio Observador. You're So Vain. É das minhas favoritas.
É das minhas favoritas. Eu achava que a música era sobre mim. Como eu também não percebia bem a letra, You're So Vain, e então minha mãe e meu pai também me chamavam You're So Vain, e eu achava aquilo o máximo, e achava que being vain era uma coisa boa.
Ok.
E então eu passava a vida à frente do espelho e a cantar: "You're so vain, so vain. I bet you think this song is about you."
Nós vamos tirar a sonoplastia para nesta parte colocar um bocadinho a música de fundo.
Não, e agora em adulta, depois de descobrir que a música realmente é sobre um homem que realmente, enfim, um narcisista péssimo.
Nós cantamos muitas músicas na nossa infância que mesmo até percebendo a letra, ou seja, tu tinhas conhecimentos de inglês, tu dominavas.
Sim, era a minha primeira língua.
Mas não damos atenção àquilo que estamos a cantar.
Exatamente, eu vejo isso pelas minhas filhas. A minha filha mais velha, tem 13, ela ouve muita música e, por exemplo, há uma nova música da Elizabeth Taylor.
Que é da Taylor Swift.
Da Taylor Swift, exatamente.
Ai a forma como tu disseste Taylor Swift.
E eu disse: "Sabes quem é Elizabeth Taylor, não sabes?" E ela: "Quem?" "Cleopatra". E ela: "Oh, the beautiful actress", que sabia a história, já tínhamos visto o filme juntas. E eu disse: "Ya". E ela: "Uau, ok!" Portanto, eu quero que ela saiba do que ela está a ouvir. E outras coisas que eu olho pra ela e vejo a ficha cair. Ela olha assim pra mim e eu: "Hum, pois". Mas não há censura. Quer dizer, os meus pais censuravam a música lá em casa.
Tinhas de ouvir às escondidas.
Às vezes sim, por exemplo, ouvir MTV às escondidas. O meu pai não via o que estava a acontecer, mas se via assim no cantinho MTV, desligava logo a televisão.
Começavas lá a ver os videoclipes das canções.
Ya. Mas é importante que elas saibam. Mas elas cantam, as duas. Então a questão da música da Olivia Dean, que elas adoram cantar, do "I'm so easy to fall in love". E tinha a minha filha de seis anos a cantar aquilo com imensa emoção, mas ela sabe lá o que isso significa. Ela pergunta-me: "O que quer dizer estar casado? É dar só um beijinho na boca?" Eu disse: "Não".
Não, é mais do que isso.
É muito mais do que isso.
É a mãe e o pai, neste caso a Paula e o Jorge.
É muito mais do que isso. Não, porque eu digo: "Nós não somos casados". "Então, mas não são casados como?" "Não, somos divorciados, mas somos casados, quer dizer, estamos juntos". E a explicar e ela: "Ok". Ela, coitada, não percebe bem esse conceito, mas sim, é importante. Mas é uma coisa, lá está. Voltando à pergunta, que já sabia se era artista ou não era artista, eu acho que são coisas que eu gosto de ver, principalmente nelas, que são coisas naturais nelas. São aptidões? Aptidões, sim. Por exemplo, há miúdos que gostam muito só de ficar ali a desenhar, há uns que gostam de estar a fazer Legos, há uns que gostam de estar a bater uma bola contra a parede. Eu acho que são coisas que já nascem conosco. São aptidões que nascem conosco.
O que as tuas filhas têm de ti? Tens uma já a entrar na fase da adolescência.
Já, sim.
Já está. E a outra que está ainda a descobrir, não é?
A outra de seis anos, coitada, que também precocemente entra à pala da mais velha. Já rebola os olhos e mete as mãos na nanca e responde-me da mesma maneira que responde a mais velha, mas sem saber que está a responder assim daquela maneira. Acho que têm muita coisa, principalmente o afeto, são muito afetuosas. E são sensíveis e também têm o sentido de humor, assim, muito engraçado.
Mas nunca fizeram respiração boca a boca a um rato?
Ainda não.
Ainda não.
Ainda não, nunca se sabe.
É verdade.
Não, é muito engraçado, porque depois também têm aquele lado, a mais velha também diz que quer ser veterinária, a mais nova diz que quer ser médica, mas que quer ser médica de crianças porque não quer ver coisas más. E eu olhei pra ela e pensei: "Mal ela sabe". Mas ela assim: "Eu quero ser um pediatrician". E depois diz isso muito bem. Elas também são bilings.
Pois, dominam muito bem o inglês, não é? Pelo que eu estou a perceber.
Sim, elas são bilings também. Fizemos questão que fossem.
E têm esse accent que tu tens?
Têm. Sim.
Mas não é mau, atenção.
Não, claro, não, é o que é. Mas têm tanto o lado científico como depois também têm um lado artístico ou também desportivo, por exemplo. Mas sim, têm isso. É engraçado, porque realmente as crianças não fazem aquilo que nós dizemos, fazem aquilo que veem.
E que às vezes acham mais graça, o proibido ou aquele: "Não faças isso". É aquele, às vezes, gatilho para querer fazer. Tu eras assim, por exemplo?
Não.
Quer dizer, eras um bocadinho quando teu pai dizia que não podias ver MTV e tu estavas.
Sim, claro. Mas ao mesmo tempo também dava muita responsabilidade. Eu acho que é uma linha muito tênue. É não dizer muitas vezes não faças, mas alertar do que é que pode acontecer se o fizeres. Por exemplo, a minha filha estava-me a dizer que se sente muito, quer dizer, não sei se posso estar a falar muito sobre isto, mas sente muito desconfortável sobre uma coisa. E eu disse assim: "Então se te sentes desconfortável por causa disso, então não faças". Seja o que for. Não vou insistir que ela faça uma coisa que a faça sentir desconfortável, apesar de que se eu sentir que isto é só uma insegurança, aí eu posso-
Trabalhar nisso.
Exato. Mas dou alertas, avisos de coisas que é que pode acontecer. Coisas Perigosas, por exemplo, hoje em dia anda muito sozinha. Vai a pé para os treinos ou para a escola ou anda de bicicleta. Eu disse: "Cuidado quando andas de bicicleta, sempre com capacete. E se eu te apanhar sem capacete, nunca mais vais andar de bicicleta." E coisas atentas, não andes por caminhos que possam ser perigosos.
O ser mãe, no fundo, é muito isso, não é?
É quase como ser... A minha irmã mais velha é médica, ela é pediatra e ela tem sempre o telefone, quase 24 horas, está sempre ligada a receber mensagens e basicamente é isso. A mãe está 24 horas com o telemóvel, que ela agora finalmente tem telemóvel, porque nós só demos o telemóvel agora com 13 anos. E agora tem WhatsApp, não tinha, mas não tem redes sociais. Portanto, nós somos bastante rigorosos nesse sentido com o telemóvel e não tem YouTube, não tem acesso à internet. Estamos a resguardar um bocado isso. Acho que, para nós, faz sentido.
Claro.
Até porque há coisas tão mais interessantes e então não quero que ela crie esse hábito.
Paula Lobo Antunes, a convidada do "Em 40 Minutos" esta semana. Ficamos aqui na nossa primeira parte, mas regressamos já a seguir. Estamos de regresso para a segunda parte do "Em 40 Minutos". Esta semana estamos com Paula Lobo Antunes. Já falámos de tanta coisa e algumas coisas que revelam aqui, se calhar, um lado teu mais nerd, ou nem por isso.
Sim, pode ser.
A medicina mostra o teu lado mais nerd, que também é tua paixão, antes da representação.
Sim, eu tenho dois pais médicos. Apesar de meu pai já ter ido embora, para mim é como se ainda estivesse cá. Sempre fui muito estudiosa, estudei muito para ter boas notas e queria ser a melhor e sou muito curiosa. Eu acho que acima de tudo é curiosa e se calhar uma pessoa acha que uma pessoa curiosa é uma pessoa nerd.
Muitas vezes associamos a isso, é verdade.
É, mas realmente a curiosidade é das coisas mais importantes. Eu sou insaciável a nível de conhecimento. E depois, se calhar, tenho um ligeiro PHDA, que estou a ver um filme e já estou a googlar sobre o que as pessoas andaram a fazer e se são filmes verdadeiros, sobre vida real. Estou ali a tentar perceber e a tentar descobrir ao mesmo tempo. Enfim, eu sou um bocado assim, de querer saber. Adoro cultura geral. Eu fiz uma coisa que as minhas irmãs gozam imenso comigo.
Então?
Quando eu era miúda, isto é horrível. Eu ia para a cama ler os cartões do "Chaves" para estudar.
Oh, não!
Para decorar as respostas.
Mais uma vez, porque querias ser a melhor e ganhar sempre.
Eu queria saber.
Tu tens mau perder?
Muito. Sou péssima. Mas é genético. Isso não tem como.
Então como é que lidas com, agora vou te provocar.
O mau perder Lobo Antunes.
Vou te provocar. Já tive aqui o Jorge Corula, ainda no início deste ano, e falávamos na altura do Benfica.
Sim, mas isso eu estou imune.
É?
Isso eu estou imune, porque eu e o Jorge deixámos de jogar jogos, por causa do meu mau perder. Jogos assim juntos, de ténis e coisas, ele não tem paciência nenhuma com o meu mau perder.
E se for em equipa?
Em equipa eu sou melhor, mas também tenho. Mas também sei o que é fair play. Eu quando fui para a universidade, eu sempre joguei basquete e vôlei, sempre fui muito desportista. E quando eu fui para a faculdade em Edimburgo, eu tive que decidir, porque eu queria fazer parte de tudo. Queria fazer parte ou da equipe de basquete ou equipe de vôlei. E fui aos treinos para ver em que equipa podia ficar e entrei para a equipe de vôlei e fui federada em vôlei durante quatro anos, a fazer o circuito de competição nacional na Escócia. E em equipa é uma coisa, e tenho um fair play sempre tremendo e acho que é a única maneira que se pode jogar, principalmente em equipa. Mas perder mal. Por exemplo, estes jogos no mundial, fiquei muito enraivecida. Mesmo.
Não só com Portugal? Tinhas, por exemplo, outras seleções por quem estavas a torcer?
Tinha, o Cabo Verde. Aliás, na minha varanda ainda estão duas bandeiras, a de Cabo Verde e de Portugal. Tenho que tirar aquilo. Mas sim, e fiquei mesmo desiludida. Fiquei aziada, mas não transpareço. Se a arbitragem for justa, se perdermos justamente, o meu mau perder não se manifesta. Agora, se for injusto, eu fico mesmo... agora o Benfica realmente não teve razão para perder. Vencer. Muitas vezes a Record liga-me e eu faço análise depois dos jogos e realmente, quando perdemos, e muitas vezes perdemos .
Ou empatamos.
Ou empatamos. A coisa que eu digo sempre é: a arbitragem foi justa. E depois começar a descobrir coisas muito feias com a FIFA e com coisas paralelas.
Que tiram muito a magia daquilo que é o desporto.
Tira. Foi o que me aconteceu este mundial, tirou muito a magia. É um bocado como descobrir também que os Oscars são rigged ou que os prêmios são rigged e que tudo é lobby. É um bocado como descobrir que a Fada dos Dentes já não existe. E este ano a FIFA teve coisas que foram um bocadinho desagradáveis. E via-se. Eu já assisti a jogos no mundial, mesmo presencialmente.
E vamos ter em 2030 cá.
E vamos ter, e espero ir ver os jogos, espero que sejam justos, acima de tudo, e que não haja esta coisa fixa, este fixed games. E de repente isso mexeu muito comigo, por acaso. Sim.
Quando estás assim nesses dias em que isso mexe realmente contigo, o que é que te leva ao centro e a acalmar e a espairecer?
As minhas filhas. "Vamos brincar, vamos sair, vamos à praia, vamos dar um mergulho."
E consegues desligar facilmente disso?
Sim. Acima de tudo, porque ao mesmo tempo quero que elas continuem a acreditar. Quero influenciar as minhas filhas que sejam ou do Benfica, ou do Sporting. Não quero isso. Eu quero que elas tenham a sua própria opinião. É engraçado, estamos a divagar tanto, lá está, eu sou all over the place.
Não tens que pedir desculpa.
Por exemplo-
As entrevistas são assim mesmo, nós começamos num ponto e nunca sabemos onde é que vamos parar.
E começámos com eu a decorar o Trivial Pursuit. Mas a minha filha a perguntar-me: "Nós estamos pela Palestina ou por Israel?" E eu disse: "O que é que tu achas?"
Isso é uma excelente pergunta, porque as crianças, e estamos a chegar a esse ponto, em que há conflitos no mundo, temos a guerra na Ucrânia que dura mais de quatro anos, temos o conflito com Palestina e Israel. E é uma criança, neste caso tu tens uma de seis anos, não sei se foi essa que te perguntou.
Não, por acaso foi a outra, de 13.
Mas é uma realidade que chega muito cedo à vida de uma criança. Perguntar: estamos por um lado ou pelo outro, quando estamos a falar de pessoas, de países.
Na altura da guerra da Ucrânia, eu fiquei muito afetada. Tivemos uma vaga de refugiados ucranianos e eu recebi em minha casa. Temos uma casa de praia, que era a casa dos meus avós, e eu recebi 16 ucranianos em casa. Eles estavam todos um bocado amontoados, mas estavam muito gratos e criei amizades para toda a vida com várias pessoas.
Eles ainda estão cá em Portugal?
Alguns estão, sim. Hoje falei com uma delas. Mas sim, criei um grande afeto com esta comunidade. E algumas voltaram para a Ucrânia, para Kiev, e que vivem todos os dias e mandamos mensagens e tento descobrir como é que elas estão e como é que as coisas estão e tenho uma realidade muito concreta. Não é biased. É uma realidade de lá.
Sim, das pessoas que lá estão.
Vivem lá. E eu vejo as fotos, os vídeos que me mandam. Portanto, as minhas filhas obviamente perceberam, não estavam a perceber bem exatamente o que estava a acontecer, mas eu expliquei, basicamente, um país invade o outro, porque quer aquele país. E elas: "Mas isso não é justo." E eu: "Pois, não é justo. Eles acham que têm o direito àquele país. Portanto, tu tens que decidir por ti se achas. Se aquilo é daquela pessoa, tu vais lá e vais tirar, vais entrar na casa daquela pessoa e vais dizer: 'Esta casa agora é minha.' Tu achas que isso é justo?" Foi essa um bocado a explicação. E depois, quando foi esta questão de Israel e Palestina, há muitos judeus na escola da minha filha, mas também há muitos muçulmanos. Não há palestinianos, mas há muçulmanos, e os muçulmanos também se unem aqui. Apesar de que isto não é uma guerra religiosa, só.
É muito mais do que isso, o problema é muito mais profundo que isso.
Portanto, não se pode dizer que isto são os judeus contra os muçulmanos. Não é só isso. Isto é muito profundo. E eu expliquei-lhe. Porque lá em casa nós temos várias coisas palestinianas, vários marcos e várias coisas.
Fizeste questão também nos Globos de Ouro, penso eu, na última edição, a levar algo alusivo a isso mesmo. Tu e o Jorge Corroia.
Sim. E ela na escola esteve a falar sobre isso. E depois houve umas pessoas que começaram a chorar, e depois houve uns que eram judeus, começaram a chorar, amigas dela, a defender Israel, e ela: "Mas estas pessoas são pró Israel." E eu: "Ok. Mas elas estão no direito delas de serem pró Israel." E ela ficou assim um bocado confusa: "Mas nós somos o quê?" E eu disse: "O que tu queres ser? Tu podes ser o que tu quiseres, desde que tenhas toda a informação sobre um lado e sobre o outro "Porque eles disseram que os palestinianos foram e mataram não sei quantas pessoas num concerto." E eu disse: "Isso é verdade. A Hamas, que é um grupo terrorista, e eu digo as coisas como elas são, foi a esse concerto e matou não sei quantas pessoas. Agora, o que está a acontecer? Agora está a acontecer isto." Portanto, dou um caso realista, mas um geral. E ela: "Ah, ok, está bem. Mas é que eu acho que eu sinto que lá na escola eles fizeram parecer que o Hamas era muito mau e que coitados dos israelitas." E eu penso: "Isso é muito interessante, Bi, porque isso é uma questão de bias. Depois cada um pode contar a história como quer. Por isso é que eu te digo, é muito importante que tenhas a informação toda, de um lado e do outro, e depois podes escolher qual é que vais apoiar." E ficamos assim. Depois ela percebeu que, se calhar, a Palestina está um bocadinho encurralada e não tem tanta força. E que sim, Hamas é um grupo terrorista. Enfim, temos que tentar perceber também o lado deles, tentar perceber o lado de Israel, e ela depois há de tomar a sua decisão.
Nós recentemente tivemos vários influencers, foi notícia.
Sim, que foram para lá.
Que visitaram Israel, túneis, nomeadamente do Hamas, a convite da embaixada. O que tu pensas em relação a isso? Uma coisa é falar para uma criança, outra coisa é a informação que nós recebemos todos os dias, a realidade que vemos nas notícias.
É assim, eu acho que aquilo que nós vemos aqui, eu acho que muito pode não ser real. Aliás, isso foi um bocado também a questão da Ucrânia. A Ucrânia está toda destruída. Não, não está. Há sítios que estão destruídos, não está tudo destruído.
E é impressionante pensar como é que a Ucrânia continua e consegue resistir a um país que tem tanta dimensão.
É um povo muito inteligente. A maneira como eles conseguiram, de certa forma, travar aquele primeiro ataque, que eles fizeram muitos danos, mas eles já sabiam que iam ser atacados. Portanto, eles já tinham retirado várias coisas lá do aeroporto quando os russos chegaram. Portanto, o que eles quase que fizeram não foi um cavalo de Troia, mas foi um bocado isso. Mas hoje em dia há informação, não é? Tanto que uma das minhas amigas, a amiga dela namorava um russo e dizia ele próprio, era militar e disse: "Nós vamos atacar neste dia." Portanto, já havia leak de informação de que isso ia acontecer. Agora, se os influenciadores foram convidados para irem, it's on them. Eles é que sabem o que querem fazer. Lá está, é o que eu estava a dizer, há sempre um lado, há um bias. Por exemplo, eu tenho amigos, mas eu só confio nas notícias da Al Jazeera. Eu não confio no CNN, não confio na Fox. Porque hoje em dia, apesar de que as notícias deviam ser completamente unbiased, mas não são, infelizmente. Temos que tentar descobrir a fonte mais correta, a fonte mais justa.
Mais imparcial.
E mais imparcial. E é isso que eu tento dizer às minhas filhas. Portanto, se vão lá ver os túneis de Hamas, será que eles são verdadeiros, os túneis? Não sei. Eu lembro-me quando a flotilha com a Greta e mais muitos portugueses, a Sofia Aparício, mais a Mariana Mortágua. E de repente vejo vídeos também que apareceram no meu feed das crianças israelitas a dizer: "Vá lá, venham ter comigo". E Israel conseguiu fazer vídeos assustadoramente credíveis. E uma pessoa para e pensa: "Isto é em AI, isto é verdadeiro, isto não é verdadeiro." Mas eu quero acreditar no que a Sofia passou, no que a Mariana passou e noutros que estão ali completamente em paz, mas que são tratados como terroristas. Eu quero acreditar nessas pessoas, quero acreditar nessas experiências. Portanto, eu provavelmente não iria. Mas é engraçado, eu tenho uma amiga minha que é judia e estive com ela este fim de semana e a filha dela é judia. Eles fazem esses campos, de ir aos túneis e esses campos de visitas, coming of age. Eu estive lá a celebrar o Bat Mitzvah dela, da miúda. E elas continuam a fazer a vida como se nada fosse em Israel. Pronto, é uma opção. Apesar que nós não falamos sobre a guerra, sobre o conflito, porque lá está, como estávamos a dizer antes, a pessoa pode ser judia, pode ser israelita, mas pode não estar envolvida e não vamos falar sobre uma coisa que realmente possa causar algum constrangimento.
E há muitos inocentes, sem dúvida, não é, neste estudo que não querem a guerra.
Não querem. Eu acho que ninguém quer, a não ser uns psicopatas que estão a liderar, infelizmente. E isso para mim é muito assustador. E é uma coisa que nós não controlamos. Eu só consigo controlar aquilo que está próximo de mim
E mesmo assim às vezes ainda é difícil.
É.
Vamos mudar o tom. Vamos falar do teu projecto mais recente.
Sim.
"Páginas da Vida", em que tu és, como se costuma dizer na gíria, má como as cobras.
Ela é pior do que isso.
És uma grande vilã e que pega aqui num tema muito importante, num Portugal que estamos a atravessar, com questões que vêm muitas vezes ao de cima pela questão da imigração e da emigração. Tu és uma pessoa que, ao interpretar esta personagem, estás a ir completamente contra aquilo que tu acreditas. Como é que isto se faz?
Fazendo. É embrace.
Falamos de uma mulher altamente racista.
Altamente racista, xenófoba, datada, uma mulher sem escrúpulos, uma mulher implacável, uma mulher ignorante, uma mulher que não vê meios para atingir os fins. Acho horrível essa frase. Mas esta mulher eu diria até nojenta. É uma mulher nojenta. Mas pronto, foi a personagem que eu fiz e gostei de a fazer. Gostei de fazê-la na preparação dela, no estar lá, ler as cenas, decorar as cenas. Gostei a criação dela. E gostei a magia, isto é, que acontece entre o ação e o corta. E fica lá.
Consegues despir facilmente essa personagem?
Sim.
Porque acredito que tenha exigido muito de ti e muita entrega, acima de tudo, para fazer uma personagem como esta.
Eu não acredito em fazer nada sem entrega a 200%.
Mas digo isto porque possivelmente já fizeste personagens que são mais próximas da tua identidade.
Sim, encontra-se algumas cordas umbilicais com a personagem e aqui a relação mãe e filha foi aquilo que eu consegui usar meu. Da proteção da filha, do querer o bem da filha, isso é meu. Depois ampliamos os outros lados, que é: aqui eu quero o bem da minha filha, mas por quê? Porque ele é negro e eu não quero que sejas com ele porque socialmente não é aceitável, porque eles não deviam estar cá. E eu fiz uma questão nesta personagem, que eu acho que é muito importante de dizer, que é: muitas vezes as pessoas diziam assim: "Tu vais dizer isso?" Eu disse: "Vou, porque é o que está escrito." E eu fiz questão de todas as palavras que estão a sair da boca da Verônica, serem palavras que estão escritas.
Ou seja, nada de improviso.
Não houve improviso. Nada. Principalmente em relação à abordagem racista. Mas eu sou muito fiel, eu sou daquelas atrizes muito fiel ao texto. Acho que temos que ter respeito pelo texto, a não ser que haja uma gralha ou alguma coisa que possa ter escapado, que não fazia sentido. Mas eu fiz questão mesmo de ser fiel e de dizer e de guardar esses textos. Não vá alguém alguma vez me criticar ou dizer que fui eu, Paula, que disse. Não, aquilo é tudo a Verônica. E ainda bem que eu estou aqui a dizer isto, porque é muito importante que as pessoas saibam. Eu não acredito no improviso. Tem que se estar num jogo muito diferente de novela para se fazer esse tipo de improviso. Improviso acontece durante ensaios. E olha que giro, bora manter isso. Porque de resto, senão é quase como estar a puxar o tapete do colega e até dos realizadores e dos câmaras, de toda a gente, ou da malta do som.
É um trabalho de equipa que tem muitos reflexos.
Claro! "Ai, não sabia que tu ias dizer isso." E eu: "Pois, se eu tivesse feito no ensaio..." Portanto, isto tem que ter um grande respeito por todos. Temos que saber o que vai acontecer ali. E realmente fiz questão. Não peço desculpa, não sou nada apologetic pela Verônica, porque esta personagem existe. Ela existe mesmo. E eu tenho tido várias pessoas a virem me dizer: 'Obrigada. Obrigado por estares a demonstrar isto. Obrigado por estares a fazer isto." Eu tenho uma pessoa que ajuda-me lá em casa e toma conta das minhas filhas, que é minha babá, ela é de Cabo Verde, ela é negra. E quando eu recebi o texto e recebi a personagem, a primeira pessoa com quem eu falei foi com ela. E disse: "Olha, tenho aqui isto", e mostrei-lhe e ela pôs as mãos à cara e disse: "Ai, ai, dona Paula." Mas pronto, as pessoas sabem que a dona Paula não é assim. E eu disse: "Não sei se as pessoas sabem ou não, mas também não me interessa, é o que eu vou fazer, mas quero que saiba que é isto que eu vou fazer." E ela contou-me histórias também, por exemplo, dos sobrinhos dela, que estão na escola e que são bullied por serem negros.
Estas histórias também são importantes no Portugal que temos, naquela questão que eu falei há bocadinho, em que se fala muito e se debate a imigração. São importantes para colocar estas questões em perspectiva, ou seja, o facto de termos pessoas que odeiam a tua Verônica é reflexo de que há, de facto, algo ainda para fazer.
Mas eu acho graça às pessoas que odeiam a Verônica, porque eu acho que não estão a ver o problema. Odeiam a Verônica por quê? Porque ela está a dizer as verdades? Que a maior parte das pessoas pensa, mas não tem a coragem de dizer: por que odeiam a Verônica? É só porque ela está a dizer isso, mas se calhar são os únicos closet anti-imigração? "Não, mas quer dizer, ter aqui estes nepaleses ou os paquistaneses ou os indianos, eu já não posso ir." Por que odeiam a Verônica? A imigração eu acho que tem que ser uma coisa justa. Os meus pais foram imigrantes para os Estados Unidos. Uma pessoa não tem o direito de ir procurar uma vida melhor? Eu própria vivi no Reino Unido durante 20 anos, praticamente. Eu também fui imigrante para lá. Portanto, temos que pensar de uma forma justa: "Espera lá, deixa-me pensar, porque esta pessoa está aqui a tentar fazer uma vida melhor, porque onde eles estão realmente é um inferno ou é uma vida difícil, ou estão a tentar ajudar a família." Quer dizer, têm que respeitar os nossos costumes. Ok, tudo bem, mas se vem para cá uma pessoa que é muçulmana e que vai se sentar ali e rezar para Meca, porque é a hora que tem que rezar, quem somos nós para dizer: "Não, não podes." Quem somos nós? Ele está a desrespeitar-te? Não está. Ele está a seguir a religião dele, cada um de nós temos a nossa crença. Mas eles depois são bons para outras coisas. Até a Verônica tem uma fala dessa: "Meu telemóvel, não sei o quê, não estava a funcionar. Fui hoje", passo a expressão que é dela, "monhês, pelo menos servem pra alguma coisa." Então eles servem para algumas coisas, servem para estar nas estufas a trabalhar, mas os portugueses vão para Inglaterra e França apanhar a apanha da maçã, mas não podem vir aqui para as estufas. Por quê? Porque também não ganham tanto dinheiro. Claro. Então isto é tudo um problema do país. Isto é horrível aquilo que eu vou dizer, mas lá está. O meu pai não era racista, mas dizia: "Minha filha trabalha em restaurantes em Londres", todo orgulhoso. E trabalhava, e trabalhei, fiz tantos trabalhos. Também queria sustentar-me própria, queria ter a minha independência. "Mas aqui em Portugal jamais iria trabalhar num restaurante." E eu: "Pois, porque se calhar aqui eu não precisava." Ia viver em casa da mãe ou do pai e não precisava trabalhar num restaurante, mas se fosse precisar, eu trabalhava. Teve um sobrinho meu que trabalhou no McDonald's e eu acho incrível. Eu queria ir trabalhar. Estudava, mas eu queria ir trabalhar pro McDonald's. E eu me lembro de falar com ele, foi uma lição de vida, que é o conhecimento da outra pessoa, de estar do outro lado, de estar a receber, de estar a servir, que não faz de ti menos pessoa.
Muda enquanto pessoa, não é?
Muda.
Até porque, se calhar, depois vamos a um restaurante e a forma como olhamos para as pessoas-
E contratamos.
Exato. Que nos estão a servir, vai ser diferente.
Exato.
Há outro nível de empatia.
Claro que sim. O respeito tem que ser unânime, universal, independentemente de onde a pessoa vem. Uma pessoa se dorme na rua, não merece respeito? Claro que merece. É um ser humano, tal como nós. Aconteceu qualquer coisa na vida dessa pessoa que o levou pra ali. Mas vamos fazer o quê? Vamos escondê-los, vamos maltratar, vamos ignorar? Não. Obviamente, isto é um problema em Portugal, é um problema do mundo, aliás. Há shifts de grandes massas de populações de países. Se eu estiver a viver num sítio de guerra, eu quero sair dali, apesar de que é óbvio que eu gostava de ficar no meu país. Mas não quero levar uma bomba em cima e quero o melhor pros meus filhos. E não podemos esquecer essa humanidade. Essa humanidade é crucial.
Estamos a perder essa humanidade.
Estamos a perder um bocado essa humanidade. Sim, e eu tenho muita pena disso. Mesmo muita pena.
O que mais te tira do sério nesta fase do mundo que estamos a conhecer?
É destratar as pessoas. Tira-me do sério. Acho que de não ajudar o próximo, faz-me muita confusão. E é uma coisa que me tira muito do sério. Se eu vejo uma pessoa em apuros ou uma pessoa pede-me qualquer coisa, eu posso: "Vou buscar comida, se quiseres, ou vou ao supermercado buscar comida pra ti." Acho que a desigualdade me tira um bocado do sério.
E é um tema que não se fala.
É.
Ou quando se fala, há vozes que tentam, se calhar, mudar o discurso. Tu já sentiste isso em alguma parte? Estamos aqui a falar, tu és mulher, e muitas vezes há essa conversa, o feminismo, a igualdade.
Sim, ainda ontem estive a falar sobre isso. É muito engraçado, eu estava sentada numa mesa, mas por acaso ontem estive a falar isso com a Sandra Faleiro, também uma mulher incrível, uma atriz que eu admiro imenso. Já trabalhei muito com ela, como encenadora, e pensamos muito da mesma forma. E infelizmente temos que falar do patriarcado. Não tem como. E é engraçado essa coisa de: não sofri racismo na pele, mas já sofri desigualdade por ser mulher. Já tive trabalhos em que eu descubro que eu estou a receber metade do ordenado comparado com o meu co-star que é homem. É um bocado injusto, eu acho. Aquela conversa de eu vou ser operada e o médico é um cirurgião. "Mas eu não quero ser operada por uma médica, por uma cirurgiã." Não. Então, mas qual é a diferença? Mas já temos isso instigado na nossa cabeça.
Sim.
Piloto de avião. Hoje temos uma comandante. Nem pensar andar num avião com uma mulher a pilotar o avião. Não, tem que ser um homem. Isto já está dentro.
Mas de onde que isso vem?
Já vem séculos e séculos. Porque é que é um papa? Porque é que não há uma papa? Daí o patriarcado.
Leva-nos a questionar tudo isto que nos rodeia, que muitas vezes nós nem pensamos.
Não pensam. Não se pensa. Estávamos a falar até no filme do "Cônclave", as freiras estão ali a servir os padres, o papa, estão a servir o clero. E elas estão ali a limpar, a lavar a louça, e não sei o quê. Quer dizer, é para isso que elas servem, as freiras? É? O papel da Isabella Rossellini, que incrível, está ali, mas subserviente.
Olha, eu vou pegar aqui nesta questão, porque tu carregas um apelido muito forte em Portugal, Lobo Antunes. Já que estamos a falar aqui da questão da igualdade e oportunidades, isso nunca foi uma questão no teu trabalho, na tua exposição pública? Ou seja, nunca sentiste que isso foi levado para o mau sentido?
Eu acho que é levado para o bom e para o mau.
No sentido de teres mais oportunidades só por seres da família.
Eu acho que provavelmente, inicialmente, eu sofri mais com isso. Mas eu fiz casting como outra pessoa qualquer. Eu conquistei, fui conquistando os meus papéis. Se as pessoas querem pensar se é um nome ou se não é um nome.
Digo isto porque involuntariamente deve vir muitas vezes à cabeça das pessoas, porque só o facto de estar associada a uma família em que há duas pessoas, e há mais, com certeza, mas aquelas que são as duas mais conhecidas, leva a que as pessoas às vezes façam esse bias que tu falaste muitas vezes ao longo desta conversa.
Sim, e há pessoas que gostam, e há pessoas que são fãs, e há pessoas que não gostam. Por exemplo, a nível do meu pai, é médico, também escreveu.
João.
Um médico incrível, e que obviamente todos os dias recebo mensagens sobre ele, a dar gratidão, mas também houve alguns doentes que ele não conseguiu ajudar. Às vezes também levo com esse lado, que é triste. E quando as pessoas dizem: "O teu pai operou a minha mãe", ou: "O teu pai tratou da minha avó". Eu olho para a pessoa e penso: e correu bem? Porque pode ter corrido mal.
Sim.
Mas acima de tudo, sei que o meu pai era um médico acima de tudo humano. Muito humano. E vê-se em qualquer entrevista dele e livros que ele escreveu. E uma coisa que o preocupava muito era o lado humano do médico, que isso não se ensina. Isso tem-se ou não se tem. E isso foi uma coisa que eu aprendi também. E mesmo da minha mãe. A minha mãe também é médica, anestesista. O lado do trato do ser humano é muito importante.
As pessoas já estão numa situação vulnerável e às vezes só a forma como se trata pode fazer realmente a diferença. Às vezes dar uma esperança que a pessoa está tão na mó de baixo que consegue mudar essa perspectiva.
Não sabemos se a pessoa está ou não está. Não sabemos.
Também.
Portanto, é importante isso. E o escritor, o António, quer dizer, há sempre uma coisa, infelizmente ou não, ou eu sou team Saramago, eu sou team Lobo Antunes. Quer dizer, calma, people, podemos ler os dois.
Exato.
Não invalida se é bom ou mau. Mas é engraçado que tanto o meu tio António como o meu pai, cada um teve quatro filhas. Um teve três. O meu tio António teve três filhas e o meu pai teve quatro filhas. E é muito engraçado isso, que é o patriarcado. A minha avó não era feminista. A minha avó dizia que os homens eram superiores às mulheres. E isso enraivecia-nos a mim, às minhas irmãs e às minhas primas. E ela dizia que os filhos dela eram os melhores do mundo, eram seis. E com certeza, ela tinha um orgulho tremendo nos filhos e nos accomplishments, que todos eles são muito accomplished. Tenho o meu tio Manel, que é o mais novo, que é embaixador, que é meu padrinho. Depois tenho o Miguel, que foi diretor no CCB e também na Culturgest, também muito accomplished. E o tio Nuno, são os três que ainda cá estão Que é um neuropediatra que tem o seu centro, o PIN, e tem um centro de estudo para crianças com autismo ou com alguns problemas neurológicos ou de comportamento. E são todos muito successful, têm muito sucesso. E ela acreditava mesmo que os homens eram mais capazes que as mulheres. E eu acho que isso deu-nos assim um certo: "Nós também vamos ser melhores do que os nossos pais e vamos ser incríveis como mulheres e somos todas muito accomplished, mulheres muito fortes. Nós vamos superar isso." E é muito engraçado isso, o orgulho que nós temos também na família, mas como mulheres.
Claro. Isso de certa forma até serviu quase como combustível não é? Para singrar.
Claro que sim. Porque tinha que ser. Tínhamos que ser. Tinha que ser assim.
E tu não és nada comodista, daquilo que se percebe.
Comodista? Como assim?
Uma pessoa que se acomoda às coisas, que vê a caravana passar. Não, tu vais à frente da caravana.
Não. É engraçado, por isso é que eu achei tanta piada à introdução, com a minha timidez.
Porque és silaf, tu és uma pessoa tímida.
Sou muito calada, mas não fico calada. Eu sou calada, mas não fico calada. E acho que sim, a minha presença sente-se e injustiças aqui ao pé de mim, não. Não acontece. E eu quero muito isso com as minhas filhas. Quero que elas não se deixem pisar. E elas podem ser o que elas quiserem, desde que sejam felizes, que para mim é o ultimate goal, acho que é mesmo a felicidade, porque eventualmente, quer dizer, isto tudo depois vai desaparecer. Nós desaparecemos. Portanto, o importante é se o dia, como eu faço, quando pergunto qual foi o momento melhor do teu dia, qual foi o momento menos bom. Eu não gosto de pôr palavras negativas. Há palavras proibidas em minha casa, é feio, é estúpido. Pode-se dizer asneiras, e eu digo muitas. E elas também, volta e meia também dizem, mas se for bem aplicadas, não digo. Mas palavras com conotações negativas não é aceitável.
Paula Lobo Antunes, para terminar, quem és tu? Nós fomos te conhecendo ao longo desta conversa, mas agora quero que sejas tu a dizer, além de todas as paixões, das causas que te movem, falámos de algumas delas aqui, e também da tua profissão. Demos a conhecer ainda mais um bocadinho dessa vertente da Verônica, que continua no ar na Páginas da Vida.
Sim, continua no ar, a fazer cada dia coisas piores, porque ela vai fazer coisas piores.
Mas quem és tu além de tudo isto?
Eu sou uma viajante por este mundo a querer fazer bem, a querer passar bem, passar coisas boas a pessoas que se cruzam comigo. Quero fazer rir, quero fazer as pessoas sentirem-se amadas, sentirem-se bem.
Ser uma pessoa boa.
Eu espero ser uma pessoa boa, gosto de ser uma pessoa boa. E mesmo com tudo ruim à minha volta, quero continuar a ser essa pessoa boa. Não sei. Isso é muito básico, mas é difícil, mas é bom, mas sei lá, não sei. Quero ser uma pessoa boa.
E acho que deu para conhecer também isso mesmo nesta conversa, não em 40 minutos. Muito obrigado por ter vindo aqui à Rádio Observador. Paula Lobo Antunes, obrigado.