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Foi-me dito muitas vezes, e reitero isto sempre que falo sobre este assunto: "A tua carreira vai estagnar".

Isso assustou-te de alguma forma na altura?

Claro, isso era o meu drama. Ainda por cima eu era um workaholic convicto. Aquilo que me tornou muito preocupado foi o lado da violência física na rua, que nunca aconteceu, mas recebi ameaças de morte e essas coisas todas que acontecem na sequência quando dizem uma coisa destas. Eu acho que aquilo que eu percebi na altura foi: isto não é negociável, eu vou avançar. E ao avançar, percebi que as pessoas que de alguma forma ou obstaculizavam ou não estavam muito abertas, achando que isto era uma chamada de atenção. Muitas pessoas disseram isso, que era uma chamada de atenção e que por que tens de dizer aquilo que és. De certeza que alguns ouvintes estarão a pensar: "Lá está ele a falar sobre ser gay, que chatice". Mas é um bocado como se eu tivesse uma família e fosse heterossexual, não falar dos meus filhos. Eu vou falar dos meus filhos. Ninguém pensa nisso.

Aos sete anos andava com um atlas debaixo do braço. Não queria perder o mundo, talvez também não quisesse perder-se a si mesmo. Viveu metade da vida à frente de câmaras, microfones, palcos e talvez toda a outra metade a procurar silêncio suficiente para perceber quem era. Hoje é uma das vozes mais ouvidas da sua geração, e não só pela forma como fala, mas pela maneira como escuta o que os outros não dizem e dá voz a causas que realmente importam. Trabalha com a palavra, com o gesto, com a pergunta que incomoda, mas aproxima. Não procura só o aplauso, procura sentido. E hoje está aqui, porque há conversas que valem 40 minutos ou uma vida inteira. Rui Maria Pêgo.

Olá!

Seja bem-vindo aqui à Rádio Observador.

Muito obrigado, João. Primeiro, obrigado por esta introdução tão simpática.

É que as tuas introduções são muito difíceis de bater.

As melhores são as da Inês Menezes. Eu sou um eterno aprendiz e muito fraquinho perto da Inês. É difícil, este formato tem uma coisa complexa às vezes, que é, eu acho que tu demoras, como estavas a dizer, na procura do sentido que eu acho que vou tentando fazer. Eu acho que tu demoras a aprimorar a tua voz. É aquela frase que eu vou repetindo ad eternum, do Miles Davis: "Sometimes it takes you a long time to sound like yourself". Eu acho que esse sítio é um sítio que demora e, portanto, é natural. Vais um dia ter as tuas introduções rapidamente. Eu ainda estou à procura das minhas.

Não, eu lembro-me solenemente das tuas introduções na altura do "Era o que faltava", e que eram sempre pomposas.

Eram muitas vezes escritas pela Ana Marques.

Mas pronto, a voz também conta e o tom, e isso também é sempre importante. Nós estávamos aqui a falar em off, mas já era algo que também te queria perguntar e para os nossos ouvintes, para aqueles que nos ouvem. Alguém habituado a perguntar, a estar nesse lugar, está confortável e confiante em sustentar estes próximos 40 minutos de conversa?

Não, eu odeio responder a perguntas.

Que bom!

Mas acho que há uma coisa que é: eu vejo a ideia de uma entrevista, também porque as faço, como um momento em que se tu não tens nada para dar, então não vás. Acho que há esse lado.

Se não há nada para acrescentar.

Sim, e se não estás disponível. O grande problema é que eu não concebo dar entrevistas ou fazer entrevistas sem que alguma coisa se revele. E portanto, como isso dá trabalho e dá energia e sobretudo, muitas vezes, pode desalojar certezas, de vez em quando resisto à ideia de dar entrevistas. Acho muito mais interessante perguntar, até porque fico menos implicado.

Sim.

Mas como eu acho que também não dá para ser ator sem dares um bocado de sangue, acho que sim, acho que estou aberto a isso.

Eu queria aqui pegar numa frase que disse na tua introdução, uma das vozes mais ouvidas da tua geração, não só pela forma como falas, mas pela maneira como escutas, como ouves o que os outros não dizem e dás voz a causas que realmente importam. Isso, para quem te conhece, quer seja das redes sociais, quer seja pelo teu trabalho enquanto ator e também na rádio e até mesmo na televisão, tu assumes que esse é o teu grande papel na tua vida, ou foi algo que se foi encaminhando muito sem tu teres noção de que isso iria ser uma realidade?

O meu grande papel na vida, eu acho, é cumprir-me e viver com o máximo de liberdade e autonomia possível. Eu sou um obsessivo com a ideia de poder habitar a minha pele com toda a autenticidade possível. Eu acho que autenticidade é uma palavra que perdeu a importância que já teve. Acho que está a sofrer uma enorme erosão, tal como as orlas costeiras do mundo neste momento, e que continuaremos a ver a subida do mar e também a subida da falta de autenticidade. Ou seja, agora a autenticidade é vendida como commodity. Tu podes pegar naquilo e vais vender. E este lado da obsessão com descobrir aquilo que é quem nós somos internamente, é uma coisa que me dá uma certa neura.

Mas tu procuras isso muitas vezes?

Não, eu quero é viver de uma maneira que seja profundamente fiel, ou que seja, que seja honesta. Há algum tempo eu dei uma entrevista no "Goxa", mas à Maria Botelho Moniz. Ela pergunta: "O que tu gostavas que as pessoas soubessem sobre ti que não sabem?" E eu disse que eu sou honesto, porque eu tento ser muito honesto. Eu acho que o grande problema de quando tu estás nesta procura de quem tu és, voltando à tua pergunta, acho que este meio abre espaço para que tu tenhas que inventar uma persona para poderes resistir e sobreviver. E eu vivi assim durante muito tempo, sobretudo quando se é homossexual e quando se tem esta questão de como é que eu vou ser entendido. Profissionalmente, tinha-me sido sempre dito: "A partir do momento em que tu disseres que és homossexual, a tua carreira acaba". E portanto, eu quando aos 26 digo publicamente que sou Houve uma dimensão de eu não vou mais negociar eu não contar tudo o que sou.

Isso é também uma questão de liberdade de ser.

Liberdade de ser e de temperatura de comunicação. Ou seja, eu não posso falar com as pessoas que estão a ouvir no carro agora, ou em podcast ou contigo, ou então eu faço perguntas às pessoas a pedir que elas se revelem. Não é que tu tenhas que assumir a tua orientação sexual ou seja o que for. Eu acho é que é importante quando isso, de alguma forma, explica quem tu és, explica a maneira como tu comunicas. E no nosso caso em particular, em Portugal, eu acho que os avanços são tremendos nos últimos 10 anos. Eu só escrevi aquele texto que me evidenciou há nove anos.

Eu tenho aqui esse excerto.

Tens? Eu apaguei tudo.

Posso ler?

Podes ler um bocadinho, mas acho que já envelheceu mal.

"Sempre tive um problema com a expressão coming out ou sair do armário. O assumir também não me cai bem. Acho o confessar horrível. Toda esta terminologia pressupõe um segredo, uma vergonha, um bocado escuro e sombrio que deve ser posto de lado a todo o custo. Foi assim que cresci até aos 19 anos, quando acabei por contar aos meus pais, levado em lágrimas, cheio de medo, de rejeição e com uma sensação de perigo iminente que gostava de rapazes."

Sim, essa é a realidade, isso aconteceu. Fui sentado numa sala, muito triste.

O que isso te traz?

Ouvir isto agora?

Sim.

O texto que eu estava a falar não era esse, ainda bem que não era o outro.

Achavas que estavas a falar do outro.

Estou a falar do outro em que eu escrevi um texto, porque tinha sido na altura do atentado de Orlando, nos Estados Unidos, em que várias pessoas morreram na discoteca Pulse.

Foi em 2016.

E eu na altura senti que era uma espécie de uma hipocrisia gigantesca da minha parte eu ter uma plataforma e usá-la para partilhar memes e piadas. E aí, se calhar, deu sair um bocado uma espécie de-

Mas isso também é muito do Rui Maria Pêgo.

Sim, sem dúvida.

Uma coisa não anula a outra.

Não, mas teve que haver um passe de maturidade da minha parte de: o que eu quero fazer com esta voz? O que tu dizias há pouco. E eu acho que, ouvindo-te ler esse texto meu, que é posterior, eu acho que isto é uma coisa que anda a par e passe com a maneira como eu comunico, com a maneira como eu estou na vida. É tão complexo, muitas vezes, não fazer parte de uma maioria, embora eu tenha muitos privilégios. Eu safo-me muitas vezes porque tenho muitos privilégios, mas outras pessoas não têm a mesma sorte. E portanto, o mínimo que eu posso fazer é, se eu tenho algum espaço no espaço mediático, usá-lo de uma forma que eu considere relevante. E numa altura em que há um mar de irrelevância, acho que é muito importante saber apontar para os sítios certos.

E qual é que é esse mar de irrelevância?

Eu acho que é uma explosão de capturas da nossa atenção, que vêm do telefone e vêm das redes sociais. E uma das coisas que eu mais gosto na rádio linear é esta ideia de que o que está a acontecer agora, está a acontecer agora, embora nós estejamos a gravar este programa.

Já estragou tudo.

Sim, esta ideia de que existe um momento que é partilhado por todos em simultâneo e que pode ser surpreendente. Eu ligo o rádio e de repente estou a ouvir isto. Isso pra mim é próximo da magia. Mas a rádio linear tem isso. Quando eu falo do mar de irrelevância, é uma série de sucedâneos, de podcasts, de influenciadores e figuras que no fundo, se tu os premes, não estão a dizer nada de novo, não te acrescentam. E portanto, eu acho que a nossa atenção está capturada, e será muito difícil sair daqui. Eu não quero acrescentar à irrelevância. Quando eu estou sentado contigo a ter esta conversa ou quando eu faço um programa, eu tento que isso não seja assim. Agora, provavelmente pra muitas pessoas não será. Eu sei que não sou unânime e ainda bem.

E não fazes por isso.

Não quero.

Ia te perguntar, tu falavas da questão da irrelevância, de um mar de irrelevância, penso que foi isso que disseste. Isso transporta-se também para a questão política, para o tempo que estamos a viver ou não faz esse paralelismo?

Eu acho que o grande problema agora não é a irrelevância na política, é a relevância extrema da política e o fato da maior parte das pessoas estar divorciada dela. Ou seja, eu acho que nós adoramos todos comentar nas redes sociais, se calhar vamos ouvir a Rádio Observador e ouvir sentir qualquer coisa, ouvi um alerta no telemóvel que me dá mais uma notícia por aí fora, mas há uma fadiga, que é uma fadiga que faz com que as pessoas cujas suas vidas são tão complexas e tão complicadas, com ordenados míseros e especulação imobiliária em todas as cidades, que eu acho que depois falta energia para se ocuparem ou nos ocuparmos de reclamar a rua e reclamar o espaço político, que é de todos. Nesse aspecto, eu acho que a irrelevância é muito triste isto, o fato de as pessoas não saírem de casa para votar ou não se posicionarem, permite que haja fenômenos que galopam e que ganham espaço e que capitalizam o desconforto das pessoas e a falta de discernimento e sobretudo, a exaustão.

Achas que é o ponto que estamos a atravessar neste momento? Estamos a chegar a um ponto de exaustão ou ponto das pessoas já acharem que aquilo que pensam ou aquilo em que acreditam não é não tem valor, mas se calhar, por que vou exercer isto?

Eu acho que isso acontece. E pior do que isso, eu acho que é um caso clássico da história. Não é preciso ter uma licenciatura pra saber a história. É assim que as ditaduras se impõem, é assim que o fascismo se impõe, é assim que as democracias musculadas se impõem. Que é o autoritarismo vai aparecendo nas nossas vidas porque isso é tudo um caos. E portanto, é muito fácil que isso se manifeste. E isso dá-me uma enorme tristeza, mas também concebo que se eu tiver três trabalhos e ganhar mil euros, ainda assim não tiver capacidade pra pagar a escola dos meus filhos, e a vida for toda muito esmagadora, não me sobra muito tempo pra eu, de repente, agora Ir para a rua reclamar o que seja. Estou morto, estou farto. Mas também esse gatilho, que em Portugal é sempre ligeiramente mais. Os franceses pegam fogo a carros rapidamente. Nós não. E a beleza da nossa placidez.

Nós teoricamente vamos mais para a rua.

Sim, vamos para a rua, mas depois pronto. E eu acho que devemos continuar a ir, atenção, mas acho que estamos muito divorciados daquilo que é o grande plano das coisas. Eu acho que nós estamos sempre muito focados nas nossas circunstâncias e menos no plano do país.

Há bocadinho li aqui aquele excerto que escreveste em 2016. Até pensava que era esse texto, por acaso. Tirei-o daqui porque sabia que me ia dar jeito. Naquela altura, quando tu assumiste a tua homossexualidade, o medo colocava-se à frente da verdade ao ponto de tu mudares os teus comportamentos, a tua forma de ser. Não digo ser uma outra pessoa, mas chegaste a questionar também, mesmo tendo a certeza que o querias fazer, se o devias fazer naquele momento, porque acredito que hajam muitas dúvidas. E para um jovem naquela altura e estando no meio em que está, com tanta opinião pública, projecção. Vulnerável, se calhar, a opiniões que podem surgir.

Vulneráveis estamos sempre a partir do momento em que estamos no jogo. Eu acho que a questão é um bocado essa. Aquilo que eu desde os 19, que a minha família e os meus amigos sabiam, portanto uma coisa súbita que de repente: "Agora vou dizer". Nem toda a gente recebeu uma carta no mesmo dia. Eu já tinha recebido a carta há muito tempo, mas o que eu sentia era que não só era de uma hipocrisia tremenda. Eu fazia uma rádio, era líder de audiências de uma rádio que falava sobretudo para jovens. Aqui depois abre-se a doutrina de versus quanto, se deves dizer, se não deves dizer, por que deves dizer, por que não deves dizer e cada pessoa tem o seu caminho. A forma também. Mas eu já tinha tido várias vontades de o fazer antes. Eu acho que aquilo que se tornou evidente à época foi esse momento nos Estados Unidos foi o gatilho, mas foi só mais um numa longa lista, e pareceu-me evidente que eu poderia ter algum tipo de impacto. O que se veio a verificar, capas de jornais, que é também completamente desmedido, uma coisa tonta. Acho completamente absurdo. E jornais e pessoas a escrever "confissão". Confissão, nada, eu só contei uma coisa que faz parte de mim. Eu não andava a fingir, de todo. Até estava o tempo todo a brincar com isso e fazia imensas piadas, tanto no Curto Circuito como mais tarde na rádio. Eu acho é que foi também uma espécie de crash course em como é que tu lidas com a opinião pública quando de repente é sobre ti e não é sobre tu seres filho dos teus pais, que era mais um argumento sempre na minha existência que existia.

Porque tu estavas habituado a ler muitas vezes coisas sobre as outras pessoas e a falar com outras pessoas sobre esses mesmos assuntos. Portanto, aqui o jogo, no fundo, virava um pouco.

Eu estava habituado a ser ligeiramente um protagonista, mas era numa escala muito menor. E atenção, a escala também não se alterou assim tanto. A rádio tem essa beleza. Eu acho é que há uma espécie de recompensa cármica, diria eu, de tu apareceres como tu és, apareceres inteiro. A minha comunicação havia sempre alguma resistência de algumas pessoas, porque havia qualquer coisa que não estava bem explicada. E agora, nos últimos anos, eu acho que não há nada que me iniba, eu posso dizer o que eu quiser. Mas foi-me dito muitas vezes, e reitero isto sempre que falo sobre este assunto, foi-me dito muitas vezes: "A tua carreira vai estagnar".

Isso assustou de alguma forma, na altura?

Claro, isso era o meu drama. Ainda por cima eu era um workaholic convicto. Agora menos, mas ainda assim, hoje se vou trabalhar, trabalho das 9 à meia-noite. Portanto, eu tenho alguma tendência para o excesso nesse aspeto, mas aquilo que me tornou muito preocupado foi o lado da violência física na rua. Isso era uma coisa que me preocupava, que nunca aconteceu, mas recebi ameaças de morte, essas coisas todas que acontecem na sequência quando dizem uma coisa destas.

Já nas redes sociais, na altura.

Sim, nas redes sociais. Não recebi em casa por carta, recebi nas redes sociais.

Não, mas podia acontecer. Podia lembrar da tutora da Isabel Moreira numa outra situação.

Não, mas a Isabel tem um feminismo completamente diferente.

Por defender minorias também, que já recebeu ameaças de morte e ameaças mesmo à porta de casa.

Mas ela tem um papel muito mais importante que o meu e ela tem uma coragem que atravessa 25 anos ou 30 anos e ela é fundamental e tem sido uma das figuras mais importantes no Parlamento, no avanço dos direitos LGBTQIA+. Eu acho é que aquilo que eu percebi na altura foi: isto não é negociável, portanto eu vou avançar. E ao avançar, percebi que as pessoas que de alguma forma ou obstaculizavam ou não estavam muito abertas, achando que isto era o momento de uma chamada de atenção. Muitas pessoas disseram isso, que era uma chamada de atenção e que por que tens de dizer aquilo que és. De certeza que alguns dos ouvintes estarão a pensar: "Lá está ele a falar sobre ser gay, que chatice". Mas é um bocado como se eu tivesse uma família e fosse heterossexual, não falar dos meus filhos. Não, eu vou falar dos meus filhos. Ninguém pensa nisso. Mas há uma dimensão que eu acho que foi útil, porque no fundo me deu as dimensões todas.

Rui Maria Pêgo, a primeira parte já passou.

Já? Foi rápido, desculpa.

Fazer uma entrevista contigo é desafiante, porque fazemos uma pesquisa, encaminhamos isto para um lado e depois andamos aqui a deambular e é isso que é bonito.

Ainda bem. O caos. A beleza do caos.

Um caos controlado. Estamos em "40 Minutos" hoje com alguém que percebe muito de rádio, de televisão, um pouco sobre a arte no seu todo. Rui Maria Pêgo, voltamos já a seguir para a segunda parte. Até já. Segunda parte do Em 40 Minutos, estamos com Rui Maria Pêgo, como eu disse no final da primeira parte, alguém que percebe muito disto.

Mais ou menos.

De rádio, de televisão, de teatro, já lá vamos, até porque vai estar em cena na próxima semana.

Estreio na quinta-feira.

No Teatro da Garagem, já lá vamos falar sobre isso. Vamos continuar aqui a falar. Há bocadinho até falámos da Isabel Moreira pra falar aqui um bocadinho da questão da política. Como é que nós estamos em Portugal ao nível de direitos e garantias à comunidade LGBTQIA+? Tu és uma pessoa que se posiciona muito nas redes sociais, acho que isso é muito importante.

Isso tem um custo.

Tem um custo, claro, mas acho que é muito importante para as gerações que aí vêm, aquelas que já estão cá. Não digo apoio, mas é uma rede de segurança e uma voz que pode também dar alguma seriedade a esta causa e peso também, porque é importante termos estas pessoas que falam sobre as coisas sem medos, como estamos a falar aqui na Rádio Observador.

Eu fui acusado numa fase de fazer muito ativismo de sofá, que era eu estava em casa e fazia um post e se calhar depois não me posicionava muito. Mas também eu acho que uma coisa que eu aprendi foi: tu não podes ser o role model ou aquilo que as pessoas querem que tu sejas, tu tens de ser aquilo que tu és. Eu percebi muito cedo, depois dessa explosão que falávamos há pouco, dessa notoriedade que veio com esse texto, eu percebi que tinha que ser metódico na maneira como eu me posicionava. Ou seja, eu não posso ir a todas as batalhas sob pena de depois não ter força pra lutar. Acho que a voz pede força. E portanto, nesse circuito de escolhas, eu acabei por perceber que tinha que ser mais direto. Dito isto, correspondendo à tua pergunta, eu acho que estamos a atravessar uma fase perigosíssima, senão das mais perigosas que já vivemos em democracia. Acho que é evidente que a atual composição da assembleia é perigosíssima pros direitos das mulheres, das pessoas racializadas, das pessoas LGBTQIA+. As questões da imigração, etc. Aquilo que assistimos é aquilo que dizíamos há uns anos de os direitos não estão garantidos, mas dizíamos isto de uma forma: "Os direitos não estão garantidos, mas tudo bem."

Era quase como se fosse sempre um alerta no sentido de não nos podemos desligar, porque há sempre uma ameaça ali ao virar da esquina.

Mas a verdade existe.

Exato.

A ameaça agora, na minha opinião, e acho que não é choque nenhum dizer que sou uma pessoa de esquerda, portanto acho que isso não é chocante. Voto normalmente à esquerda, aliás, acho que nunca votei à direita, ou se votei, não me lembro. Não, não acho que nunca votei à direita. Votei? Não. E tudo bem, eu acho que isso é um dos pontos que é muito importante pra mim.

E acho que às vezes também fazemos disto uma questão muito de esquerda e direita.

Quando os direitos das pessoas são transversais.

Exato. Marta Gil, conversei há pouco tempo com ela no 40 Minutos, ela dizia isso mesmo.

E o Adolfo Mesquita Nunes é uma figura que era da CDSPP e é homossexual assumido. Eu acho que esse é um dos problemas deste tempo, que é tu não conseguires partir pão com pessoas que pensam diferente. O que não quer dizer que não queiram. Eu acho que o que a esmagadora maioria das pessoas quer é uma sociedade que é mais justa pra todos. Depois há pessoas que são mais neoliberais, há pessoas que são mais de esquerda radical ou o que se quer dá a dizer, mas no limite dos limites, eu acho que toda a gente quer esteja melhor. E portanto, o que me interessa é perceber, mesmo que aquela pessoa esteja nos antípodas da minha leitura da realidade, eu conversar com ela e aprender coisas. Não era o que faltava, isso acontecia mais vezes, porque eu como tinha mais conversas diárias na rádio comercial, entrevistei quase 500 pessoas ao longo de dois anos. Há um momento em que eu vou obviamente entrevistar pessoas com as quais eu não concordo.

Claro.

No "Baixa a Língua", o podcast que eu faço atualmente, isso acontece menos, porque eu convido pessoas que de alguma forma eu posso até nem concordar totalmente, mas que são pessoas que eu quero muito conhecer.

Mais pela história.

São pessoas que, sei lá, entrevistei há pouco tempo o António Brito Coutto e Res, que nunca tinha entrevistado, e adorei. Não quer dizer que eu concorde em absoluto com tudo o que ele diz, mas há uma dimensão de proximidade, de ideológica, se tu quiseres.

E como é que tu fazias quando recebias alguém que era um bocadinho mais distante?

Um bocadinho ou bastante.

Ou bastante daquilo que tu pensas, da tua visão de mundo.

Eu acho ótimo. Se eu estivesse outra vez num FM diariamente, faria exatamente igual. E entrevistaria, ou se, imagina, o programa fosse uma rádio como a Rádio Observador, tu tens que falar com toda a gente. Eu acho é que há uma dimensão depois quando o discurso de ódio e o discurso que é neutralizador das liberdades dos outros, isso tem que ser combatido pelo jornalismo. Sempre. E portanto, uma coisa é day time, entretenimento, é outra coisa, porque o acesso às pessoas é diferente. Quando eu ligo a Rádio Observadora, quando eu vejo a CNN, é um canal de notícias. Portanto, aqui o jogo é outro. Quando tu tens uma antena, por exemplo, como a Rádio Comercial ou um programa da manhã, como na TVI ou na SIC, o público que te segue, podes de fato fazer mudança com isso, porque são pessoas que à partida, insospeitamente, não estão à espera de ter uma conversa que seja hardcore politicamente. Mas eu acho que tem que se pensar muito bem sobre essas pessoas estarem presentes. Acho que a minha mãe fez isso muito bem há pouco tempo.

Fez, sim, senhora.

Fez, sim, senhora. Mas há um perigo aí. Do combate de alguns discursos mais extremistas, deve ser o jornalismo. Porque pode se passar aquela ideia meio de licor doce, de que no fundo, ele diz estas coisas, mas no fundo ele é um querido ou ela é uma querida. E as pessoas são todas muitas coisas, mas temos que ter a oportunidade de estar de igual para igual na arena. E às vezes quando se está a fazer um programa de entretenimento, eu não tenho as mesmas armas que tu tens quando estás a fazer jornalismo. É diferente.

Mas falando aqui da tua mãe e desse episódio, penso que estavas te a referir-

Eu nunca falei sobre isso e não vou falar mais.

Não, ia te perguntar na questão de um desafio, que era: se tu estivesses nesse papel.

Eu não estaria nesse papel.

Era isso.

Porque eu não convidaria. Ou só convidaria naquele contexto que minha mãe também estava a fazer e que outros protagonistas fizeram, que é: eu vou entrevistar todos. Eu todos entrevistaria. Agora, se eu tiver que optar entre tenho um ou dois, não vou de certeza falar com essa figura. Não que eu não tenha curiosidade, porque tenho. Eu tenho essa curiosidade. Não se proporcionou, mas se eu fizesse um especial eleições ou um especial política, aí sim, mas tem a ver com o fórum onde isso acontece. O Guilherme Girinhas fez isso, por exemplo. E tudo bem. Agora, eu acho é que se eu estou numa emissão linear, que tem outro tipo de objetivo, aí isso tem que ser medido. Não sou eu, de certeza, a decidir, será o meu diretor a decidir ou a pessoa que tem a diretriz editorial.

Vamos à infância.

Agora sim.

Vamos à infância. Isto é assim, isto contigo é muito dinâmico. Nerd e muito chato, é assim que tu te resumes. Eu fui procurar por todo lado características do Rui Maria Pêgo em criança.

São essas.

São estas. Tu deste mais trabalho aos teus pais quando eras criança ou foi na adolescência quando começaste a desafiar muitas das normas? Tu cresceste num colégio.

Muito católico.

Conservador, podemos dizer também.

Muito conservador.

Essa infância para alguém tão irreverente. Já eras muito irreverente nessa altura ou reprimias-te um pouco?

Não, eu acho que não tinha noção. Eu tenho dois momentos na minha infância. Há um momento até os 10 anos que era uma escola também conservadora, mas pequena, mas ao mesmo tempo onde a imaginação me foi ensinada. Ou seja, não havia barreiras para o que eu poderia ser e, portanto, as crianças crescem nessa escola de uma forma muito saudável, que é o Nosso Jardim, que é uma escola de Lisboa pequenina. E depois fui para uma escola maior, e nessa escola maior, muito conservadora e onde a diferença era perseguida, isso não tenho a menor dúvida. Ou seja, pensar diferente, vestir diferente, ser diferente, numa lógica de um certo circuito lisboeta, de classe média, classe média alta, com um certo tipo de códigos.

E onde a diferença também, se acentuava mais.

Sim. Eu acho que por mais difícil que tenha sido, e tenha havido bullying, e eu tenha feito bullying a outros, atenção, eu não sou de todo uma alma ingênua e um anjo, acontece sempre o outro lado, o reverso da medalha. Há uma zona da minha construção, da minha personalidade, que foi fértil, de alguma forma, essa pressão. O que eu quero dizer com isto? Tu definires-te por oposição, tipo eu não quero isto, eu quero outra coisa, também é útil, porque tu vais percebendo que se calhar não é isto que tu queres. Mas eu fiz o percurso todo superconservador, eu até para Católica fui estudar Direito, eu fiz tudo exatamente by the book.

Estudar, engenharias.

Sim, eu não acabei e ganhei o casting do Curto Circuito aos 18, 19.

19.

E portanto não tinha essa apetência. Não fui um grande aluno de Direito e tinha professor a dizer: "Você vai ter que escolher, você quer ser advogado ou quer ser apresentador?" E eu a pensar: não quero estar aqui, mas isto é um problema. E depois acabei por desistir e depois acabei por fazer História anos mais tarde. Mas a minha infância eu acho que era um miúdo com muita propensão para a observação dos outros. Aquilo que eu gostava de fazer com oito anos era ver a Britcom, que eram as séries de humor britânico que davam na RTP 2, o "Blackadder" e essas coisas todas, com o Rowan Atkinson. E o meu sentido de humor foi esculpido aí. E o meu desalinho talvez tenha sido esculpido aí, mas foi muito esculpido pelos meus pais. As minhas irmãs fizeram anos ontem, portanto, tenho aqui um insight que vem de ontem. Eu acho que independentemente, todas as famílias têm os seus complexos e disfunções, claro, mas eu acho que uma das coisas que nos foi passada é a liberdade de pensamento e a descoberta da nossa própria voz à mesa. Eu discuto política desde que tenho oito anos, ou sete. E isso sempre foi uma coisa-

Isso é incrível.

Sim, aliás, eu achava que a monarquia era o melhor sistema, porque na monarquia não havia corrupção. Mãe, coisa que eu disse e que depois a minha mãe disse: "Não é bem assim." Mas deixámos a conversa para depois. Eu era um obsessivo com história.

O fato de tu seres filho de dois grandes nomes da comunicação, Rui Pêgo e Júlia Pinheiro.

Sim, é Júlia Pinheiro, não é Teresa Guilherme, às vezes se confunde.

Desde pequeno sentes que foi um rótulo fácil de te colocarem? Rui Maria Pêgo, filho de...

Claro que não. Eu sabia que esta pergunta provavelmente apareceria. Ainda hoje, e eu tenho 36 anos, portanto trabalho desde os 19, há 17 anos que trabalho, quando sai uma notícia sobre mim, às vezes não, sejamos justos, mas muitas vezes aparece: o filho de. E eu acho que é natural, porque isso de alguma forma traz cliques, é natural porque se for uma coisa que sai no mundo cor-de-rosa, é natural que isso aconteça, nas revistas cor-de-rosa. Eu acho que é preguiçoso, muitas vezes.

Isso chateia-te de alguma forma?

Já não. Eu fiz uma série chamada "Filho da Mãe", que era um bocado o rebentar dessa ideia. Que é se as pessoas acham todas que eu sou privilegiadíssimo.

Isso já foi há imenso tempo, parece que foi ontem.

Foi em 2015.

Sim, no Canal Q.

Foi há 10 anos. E esta ideia de que se eu sou tão privilegiado, então eu vou levar isto ao extremo e vou ser a maior estrela que este país já viu, porque eu mereço. É o nepotismo máximo.

Sim.

Eu acho que essa piada que eu fiz nessa altura, pontualmente Agora existe a ideia do Nepo baby, que não existia na altura, mas também está ligado muito a pessoas que não fazem nada. E eu faço muitas coisas, porque também não há esta ideia. Acho que é muito engraçado dizer isso. Obviamente, que não tive exatamente uma existência difícil. Mas eu sempre trabalhei muito e sempre quis trabalhar muito e portanto, eu quero que o meu trabalho fale por mim. Se isso me incomoda? Às vezes dá uma certa neura, porque eu acho que se tu estás a olhar para mim, estás a ver isso primeiro. Mas eu sempre tive de atravessar a vida assim, só não aconteceu em Inglaterra, onde isso não é nada importante. Aliás, ninguém quer saber. É mais importante, se calhar, descobrirem que eu até sou vagamente conhecido por trabalho em Portugal, do que a questão familiar, não conta. Curiosamente, já viste.

Não é uma questão.

Não, mas esse lado informa, enquadra, faz parte de quem eu sou, não tenho vergonha nenhuma disso, meus pais são os dois muito bons no que fazem. Mas são, como dizem os ingleses, they are their own people. E eu sou quem eu sou e eu faço o meu percurso, e as minhas irmãs igual. Portanto, é muito redutor e preguiçoso tu olhares para alguém. É a mesma coisa que eu entrevistar, como já aconteceu várias vezes, entrevistar pessoas que são filhos de alguém. Toda a gente é filho de alguém. News flash. Última hora, aqui na Rádio Observador.

Revelação.

Revelação. Mas eu só os ver através disso ou esse ser o ponto pelo qual eu pego. Não, isso faz parte da minha biografia, mas não me define. E isso pra mim é o mais importante.

E dessa experiência em Inglaterra, tu tiraste mais consciência disso. Ou seja, em Portugal existe muito mais essa tendência de colar as pessoas, não digo às origens, mas pode ser.

Inglaterra também. Inglaterra é um universo muito classista, uma monarquia. Ainda há pessoas que são condes e condessas e marqueses e marquesas. Cá só temos a Diana do Cavaleiro e pouco mais. Com pena minha, que eu adoro palácios e tiaras. No entanto, existe esta lógica classista e, por acaso, o acesso às artes, infelizmente, no Reino Unido, sobretudo nas escolas onde eu andei, se não tiveres capacidade financeira, é muito difícil que entres nelas. Há, neste momento, também muito pouco investimento nas artes performativas no Reino Unido, mas Reino Unido. Portanto, é um sistema patriarcal, classista, que não se vai alterar e que está na cabeça das pessoas. Ou seja, as cabeças ainda estão muito colonizadas por esta leitura de donde é que tu vens.

Quem és tu?

Quem és tu? Quer dizer, obviamente, que tenho um trunfo a meu favor, que é ninguém me conhece, que é uma beleza e um problema. Porque em Portugal, se calhar, o meu nome chega antes de mim ou uma ideia preconcebida chega antes de mim. Mas lá não, lá é: "De onde é que tu és? You're not exactly white". Porque pra eles nós somos white other, que é também uma coisa muito complexa. Essa leitura é completamente diferente, mas eu acho que só agora, saindo da escola e fazendo o caminho para Portugal, só agora, por exemplo, no Teatro da Garagem, onde eu entrei pra audição. Eu adoro audições, porque acho que as audições são muito justas, à partida serão justas.

Meritocracia.

Pelo menos esperemos que assim seja, às vezes não. Mas eu estou a fazer agora uma peça chamada "Metamorfoses de Ovídio", que estreia quinta-feira. Eu entrei por casting, como os outros atores. Às vezes o problema é tu teres a oportunidade de te provares. E é mais aí que é difícil. Agora, não vou negar, já fui convidado pra fazer coisas porque as pessoas sabiam quem eu era, obviamente.

Claro.

E isso tem privilégio associado. Portanto, eu não posso negar que isso existe.

Uma percentagem do teu trabalho e daquilo que tu fazes.

Mais facilidade do que alguém que tenha nascido em Bragança, por alguma razão, e não tenha nenhum acesso ao universo midiático. Obviamente que isso ajuda.

Mas tu fazendo também projetos que te dão a conhecer, no fundo, isso também desperta atenção de realizadores, de pessoas que trabalham no meio. Não acho que seja tirar a meritocracia, acho que são formas diferentes.

Eu tenho procurado trabalhar com pessoas até fora de Portugal e por isso é que eu fiz "Écorché de Mètre", que foi escrito pelo Nacional, mas que foi escrito pelo encenador francês, ou o Passaporte, que eu andei escrito por atores de casting estrangeiros. Obviamente, também tem um lado português, mas há uma coisa de um crivo que não passe pela intelligentsia portuguesa. Agora, eu não posso fingir. Eu conheço a maior parte das pessoas em Portugal. Portanto, isso tem obviamente uma força. Não quer dizer que me escolham por isso, às vezes. Pelo contrário. Agora, eu também estou cansado da onda do: "Ai, coitadinho de mim, que tenho tanto acesso". Isso também é uma grande besteira.

Claro.

E não é verdade. Agora, eu estou muito contente com este trabalho no Teatro da Garagem, porque é um back to basics naquilo que foi a minha experiência em Inglaterra, de ter que inventar um espetáculo do chão, com alguém com quem eu nunca tinha trabalhado, que é um histórico do teatro português, do teatro experimental português, que é o Carlos Pessoa, encenador e fundador do Teatro da Garagem, diretor artístico. E estas Metamorfoses de Ovídio são a criação número 114 deste teatro, desta companhia. E eu estou muito feliz lá e tem sido um processo muito engraçado.

E estreia esta quinta-feira, dia 24 de julho, às 21h.

24 de julho, às 21h, no Teatro da Garagem. Há bilhetes, sobretudo de 25 pra frente, 24 já está quase esgotado. E é uma nova leitura, uma releitura sobre as Metamorfoses de Ovídio, texto, se não me engano, é do século VIII antes de Cristo. Portanto, um texto muito atual. Por acaso é bastante atual.

Pra quem gosta de história, é ótimo.

Eu adoro, mas eu sou um nerd de Shakespeare, tudo que seja uma coisa mais clássica, eu estou lá abatido. Quando eu fui à Inglaterra, quatro dos espetáculos que vi era o Rei Édipo, o Hamlet. Mas eu estou a gostar muito, porque é uma leitura moderna sobre aquilo que é objetivamente aquele texto, que é um texto poético. Portanto, que nós temos que tornar ativo, e isso é complexo.

E cativante pra quem vê, não é?

Sim, faço espetáculo com os atores João Estima, Ana Lucy Palminha e Célia Teixeira, e a direção artística é do Carlos Pessoa.

Então, fica aqui o convite pros nossos ouvintes. Dia 24 já está esgotado.

Mas ainda há bilhetes, ainda tenho três ou quatro.

Se calhar um bocadinho.

Se calhar.

Só para os nossos ouvintes também não nos deixarem agora.

Não, claro que sim.

Tu és muita coisa: actor, apresentador, radialista e não radiologista.

Sinto que odeio essa palavra, radialista.

Radialista, não é?

Chateia-me um bocado.

Preferes o quê? Animador de rádio?

Apresentador de rádio.

Apresentador de rádio.

Eu odeio animador também. Eu não animo nada. Não vou animar ninguém.

Pronto.

Animador, para mim, lembra-me as pessoas que fazem balões em festas.

Os animadores, por exemplo, de hotéis?

Sim, animadores socioculturais. São, para mim, pessoas que fazem balões com a boca. Estás a ver? Para mim é um animador sociocultural.

Rui Maria.

Estou a ser muito preconceituoso.

Apresentador de rádio ou radio host.

Radio host.

Se também quiseres dizer. No meio artístico, tu sendo tanta coisa, já te quiseram colar algum rótulo? Falávamos aqui há pouco de oportunidades. Já te quiseram colar algum rótulo pelo fato de fazeres tanta coisa?

Sim. Acho que estamos numa fase diferente. Estamos numa fase bastante diferente. Eu acho que o que acontece agora é aquilo que aconteceu em todos os outros mercados. Quer dizer, objetivamente, e quem está a ouvir saberá isto, talvez, para tu poderes existir. Eu não consigo viver do meu trabalho de ator vivendo em Portugal. Eu não faço novelas, portanto eu não tenho um trabalho contínuo, sem desprimor para quem faz. Eu trabalho de lés a lés. Eu faço umas coisas pontualmente. Não é por fazer uma radio play para a BBC, como fiz, que fiquei rico. Pelo contrário, até nem fui muito bem pago. Portanto, eu tenho que fazer 500 coisas para sobreviver. E é o que toda a gente faz. Todos os meus amigos fazem locuções, fazem espetáculos de teatro quando podem, fazem filmes se puderem. Como sabemos, a nossa produção audiovisual não é exatamente draconiana.

Dizes assim pelos incentivos à cultura, também.

Sim, e como sabemos, temos até o Ministério da Cultura, que é um ministério tão grande agora, que é até uma subpasta. É um dos problemas, eu acho, deste governo. O orçamento é muito parco. Portanto, é difícil de se ter um grande otimismo. Ainda assim, temos que fazer milhares de coisas. Acaba por ser muito injusto que uma pessoa seja rotulada como A ou B ou C quando tens de fazer 500 coisas para viver. E eu acho que quem é criativo, e eu acho que a maior parte das pessoas é assim, eu acho que todas as pessoas têm um artista interior qualquer, muitas vezes reprimido. Acho que nós somos todos muitas coisas e não faz sentido para mim nós tentarmos definirmo-nos por uma coisa. Eu acho que esse tempo acabou. Até porque a inteligência artificial vai colonizar todos os nossos trabalhos.

É verdade.

Eu adoro que a inteligência artificial esteja muito focada agora em fazer filmes e vídeos.

Eu não vou ver.

Eu usei o ChatGPT três vezes até agora. E não nego que é útil quando eu pedir 100 terras com nomes esquisitos em Portugal e de repente aparecem 100 terras. Isso é útil para escrever uma coisa qualquer. No entanto, eu acho que é muito perigoso. Eu acho que só quem tem uma identidade muito definida, só quem é muito inteiro, é que vai sobreviver.

A criatividade pode ficar presa, não é? Eu pelo menos penso assim.

Mas pode ser usada como um catalisador, que não tem que ser objetivamente a morte do artista, neste caso.

Eu acho que aquilo acaba por ser um bocadinho viciante. Não sei se tens essa opinião, tu só usaste três vezes.

Sim.

Mas quando falo com amigos que também o fazem, sinto que acaba por ser um tema cada vez mais recorrente nas conversas. "Usei o ChatGPT para fazer uma lista de não sei o quê. Usei o ChatGPT para fazer um roteiro para uma viagem."

Eu acho que o problema é quando o ChatGPT passa a ser o teu terapeuta.

Pois.

Aí sim, preocupa-me.

Até faz leituras de tarot, sabias?

Sabia. Eu adoro bruxas. Já sabia. Isso eu prefiro à antiga. Ir a um sítio escuro, velas a arder.

A experiência toda, no fundo.

Sim, o cheiro a sálvia.

A televisão, enquanto apresentador, eu sei que é uma coisa que tu gostas muito.

Mas faço muito pouco.

Continua a ser um sonho por cumprir?

Agora eu tenho outros sonhos.

Aquele formato. Aliás, ia perguntar-te, existe algum formato hoje que esteja no ar, por exemplo, em que tu te imaginasses a apresentar?

Eu acho a televisão portuguesa muito chata. E eu digo isto várias vezes. Já não tenho paciência para me coibir quanto a este aspecto. Acho que as televisões estão catatônicas a tentar sobreviver àquilo que é a mudança imparável do tempo. Eu acho que estamos a tentar parar o vento com as mãos e não conseguimos. Eu acho extraordinário que o Observador se mantenha e que a Rádio Comercial, porque a Rádio Comercial tem ótimos resultados e é muito saudável financeiramente, mas é muito complexo, é um tempo muito difícil. E eu concebo e concedo que as estações de televisão sejam muito avessas ao risco. Ainda assim, acho que nós merecemos todos coisas um bocado mais excitantes. E aquilo que eu vejo na televisão dá-me sono, confesso. Mesmo os grandes formatos que toda a gente aplaude muito, eu acho que estão muito gastos. E eu não tenho grande paciência para aquilo que vejo, e isto se calhar é uma snobeira minha, uma arrogância. Ainda hoje, há uns dias, soubemos que o Stephen Colbert deixará de ter o seu programa no late night, o que significa que o friso, aquela parte da ordem da grelha, vai morrer, o que significa que aquele exercício-

E vai se perder uma parte de um público que estava com a televisão.

Que é o late night. Que é o que sempre foi o meu sonho, eu sempre quis fazer late nights. Eu estar a assistir à morte do late night nos Estados Unidos significa que se em Portugal há um late night, que é o Sempre à Meia-Noite, eu sempre quis fazer esses programas, eu queria ser o Jon Stewart. Durante muito tempo, era o meu sonho ser o Jon Stewart. Agora, eu depois acabei por perceber que não havia muito espaço para isso. E também eu acho que as estações de televisão que poderiam, de alguma forma, ser a coluna vertebral para tu depois: "Ok, agora tenho um problema, porque meti-me com não sei quem e agora alguém me vai defender." Isso já não existe, porque não compensa. E mesmo os anunciantes não estão interessados nisso, estão muito mais interessados em fazer um reel de 30 segundos pro Instagram. Portanto, começa a ser difícil tu captares esse tipo de investimento. Ainda assim, eu acho que há muitas maneiras de fazer televisão. Eu acho que a televisão não está morta, acho que pode se reinventar. E adoraria fazer formatos assim. Adorava fazer o "Ello Mais Fraco". Amava. Sempre que vou, eu fico com vontade de fazer, mas depois olho à volta e deprimo-me, porque sinto que esse tempo já passou, o que é sem demérito pros seus protagonistas. Atenção, eu acho que há muitas pessoas com muito talento em Portugal, em todas as áreas. Agora, a verdade é que há uma crise de criatividade tremenda, que vai da RTP à SIC, e outros canais.

A RTP é aquela que se tenta mais, se calhar, reinventar.

Sim, mas com muito medo da relevância. Eu lamento imenso, mas eu gosto da RTP, acho que a RTP faz um trabalho fundamental, sobretudo na criação de públicos para séries de televisão, investem muito e ainda bem, mas eu acho que têm muito medo de ter um lança-chamas em horário nobre. Acho que estamos num tempo que aos 70 anos, sem ninguém ver.

Quantos tens?

36.

36. Se tiveres 70, dá para fazer.

Dá para fazer muita coisa. Se não houver televisão. Eu acho é que há pouco espaço pra isso, João. Isso é uma pena, eu acho que a nossa geração, tu és mais novo que eu, mas eu acho que o que acontece é: são muito poucos os sítios onde tu podes, agora há 200 mil podcasts, portanto as pessoas podem fazer isso, mas esta coisa de tu habitares um lugar que é visto por todos e com isso teres essa responsabilidade, é uma coisa que neste momento apenas o Ricardo Araújo Pereira tem. E mesmo assim, tem 30 minutos. E mesmo assim, aquilo tem um determinado segmento. Eu acho que fazem falta muitas vozes, fazem falta vozes queer, fazem falta vozes racializadas, fazem falta vozes.

Faz falta o Rui Maria Pêgo.

Isso já não sei. Tenho coisas pra fazer.

Tens saudades de fazer rádio diariamente?

Não.

Sim?

Eu adoro fazer rádio e estou aqui, estou muito confortável. Isto é um bocado a minha casa.

Isto é fazer rádio, ainda que seja uma conversa.

Não, claro que sim. Eu confesso-te que, e já fui convidado algumas vezes pra voltar.

Acredito que o Pedro Ribeiro te chateie muitas vezes.

Agora menos. Não, mas o Pedro é muito um champion. Devo muito ao Pedro, porque o Pedro me deu muitas oportunidades. Ainda assim, eu acho que fazer rádio sem tu quereres fazer rádio diariamente é a mesma coisa que arrancar um dente todos os dias. Eu não quero acordar às 5 da manhã sem querer acordar às 5 da manhã. E acho que esse meu timing de fazer rádio diário, seja de manhã, seja ao final do dia, acho que pode voltar, acho que poderei voltar, acho que faz sentido.

Volto a frisar, tens 36 anos.

Sim, voltarei um dia, mas agora estou focado. Imagina, eu fiz um investimento tremendo em estudar fora, custou muito dinheiro, deu muita energia, e portanto eu estou focado em inventar uma carreira internacional e uma carreira artística. Não quer dizer que no meio disso tudo não possa fazer rádio de outras maneiras ou noutros lugares ou de outra forma. Eu acho é que tem que ser também sério. E se eu não tenho disponibilidade emocional, não posso dizer: "Agora quero" e passado dois meses já não quero.

Sim, duas semanas, se calhar.

Não, porque depois imagina, tu inventas um programa. Tu sabes como é que estas coisas são. Inventas um programa.

E é muito difícil fidelizar o público.

Muito. Na rádio, demoras no mínimo seis meses pra repararem que lá estás. Embora agora seja mais rápido, seis meses, no mínimo. Não podes fazer durante cinco minutos. E eu tenho uma tendência que faço dois a três anos. Também não pode ser. A dada altura, se estás a fazer um programa principal de uma rádio com muita audiência, tu tens de ter a certeza que o queres fazer. Portanto, é uma coisa na qual eu já ponderei, tenho saudades de fazer conversas diariamente, às vezes, mas depois penso.

Às vezes.

Às vezes, mas depois penso: "Agora não podia fazer aquela peça, ou agora não posso ir, sei lá, pra Inglaterra seis meses se me apetecer ou outra coisa qualquer". E depois há a questão de eu não estar apaixonado e não ter um marido, que é uma coisa que eu também tenho que resolver. Portanto, se eu também estou o tempo todo enfiado no estúdio, eu não consigo. Tem que ver.

Verdade. Eu estou a falar muito da tua idade, mas não te estou a chamar velho, de todo. Vamos fechar este 40 minutos. Podia perguntar-te o que é que tens debaixo da língua, que é uma pergunta que tu fazes muito no teu podcast, que conduzes, e muito bem, na Rádio Comercial.

Obrigado.

Prefiro perguntar-te, pra alguém com uma voz tão forte, falamos aqui muito de causas e que se desdobra em muitos papéis, o que é que inquieta o Rui Maria Pêgo?

O medo.

E o que é que é esse medo?

O medo inquieta-me muito, porque o medo queima a esperança e diminui ou transforma a nossa visão naquela visão túnel. Quanto mais medo eu tenho, menos eu sou capaz de ver pra além da escassez. E aquilo que me parece é que nós estamos cada vez mais, e o ciclo noticioso, que antigamente era de 24 horas, agora a sensação que eu tenho é que dentro de um dia, há 72 horas. Este bombardear constante, o scroll de agora Gaza, a seguir outra desgraça horrível que me afeta verdadeiramente. Eu acho que este é um tempo que, e é assim que os punhos de ferro às voltas das nossas gargantas se apertam: é com o medo. E, portanto, eu acho que devemos sempre tentar combater esse medo. Portanto, aquilo que me preocupa é isso. O medo é onde as coisas acabam. E, portanto, tento sempre manter algum otimismo e tentar ver as coisas de outra maneira. E eu às vezes tenho um lado muito inflexível, porque sou Aquário.

Eu também.

Também és? Pronto, então saberás. Há uma coisa de uma inflexibilidade, às vezes, mas que tem a ver também com eu ter uma crença enorme que as coisas podem ser melhores. Às vezes temos só é que falar uns com os outros, eu acho que nós temos dificuldade. Portanto, ainda bem que tens este programa em que falas com pessoas. É por isso que eu acho também que a Rádio Observador, e até a SF, Antena Um e outras rádios de palavra, são muito importantes, porque é ao ouvir os outros também nós podemos fazer um bocado uma reflexão sobre nós mesmos. Portanto, obrigado pelo convite.

Obrigado, Rui. Rui Maria Pêgo, que pra semana vai estar no Teatro da Garagem.

Sim, 24 de julho a 27 de julho.

E pronto, há bilhetes, comprem, vão ver o Rui em breve na televisão, quem sabe na rádio.

Não sei se na televisão. "Debaixo da Língua", com novos episódios todas as semanas, à quinta-feira.

Na Rádio Comercial. Rui Maria Pêgo, muito obrigado por teres vindo aqui e que nunca te falte voz para gritar perante o medo.

Vou gritar imenso com lança-chamas.

Muito obrigado.

Adeus, obrigado, João. Adeus, obrigado.