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Como é que está a ver o desenrolar desta noite eleitoral, que para já dá uma liderança a Donald Trump? As probabilidades de vitória pendem também para Donald Trump, mas Kamala Harris está a aproximar-se, uma vez que tem agora a chegada dos estados da região Oeste. Mas, para já, como é que acha que se vai desenrolar esta noite eleitoral?

Muito boa noite, ou muito bom dia.

Quase.

Em relação a Nova Iorque, não há grandes surpresas. Também não era um estado que estava em concorrência ou que haveria grandes surpresas. Mas sim, parece-me que ao longo desta noite, Donald Trump tem realmente sempre liderado e nos sete estados que são considerados focais ou swing states ou battleground states, ele está a ganhar em todos, desde Georgia, Arizona, Michigan e aquela grande muralha azul que é Pensilvânia, Michigan e Wisconsin. Mas ainda é muito cedo e Pensilvânia é o estado que vai ser importantíssimo na decisão do próximo presidente. 90% dos presidentes eleitos na história dos Estados Unidos têm ganho Pensilvânia. Raramente se vê um presidente ganhar a Casa Branca sem ganhar a Pensilvânia. Ainda é muito cedo, além das coisas não estarem a correr muito bem para Kamala Harris.

É de alguma forma surpreendente para si que Donald Trump tenha esta tendência de voto a esta hora nos estados considerados decisivos, como referia?

Sim, eu estou admirado de Donald Trump ainda não ter declarado vitória, que foi o que ele fez em 2020. Eu acho que não deve demorar muito tempo e que ele realmente declare vitória, que depois também põe em questão se eventualmente haverá alguma mudança na votação, porque muitos dos estados ainda estão por contar os votos pela correspondência. Eu acho que temos que ter calma e provavelmente não vamos saber dentro das próximas 24 horas quem realmente venceu as eleições. Mas também há outra coisa que é a Câmara dos Representantes e o Senado.

Exatamente.

Principalmente, se Donald Trump ganhar, tem que haver alguém ali para controlar ou para contrabalançar o poder do Executivo. E eu acho que nessa arena, os democratas têm uma oportunidade mais do que de 50/50, de reverter o controle da Câmara dos Representantes aos democratas e, pelo outro lado, parece-me que os republicanos vão realmente ganhar controle do Senado.

E há aqui a questão do voto popular. Nós começámos a analisar isso também um pouco nas últimas horas, porque se está a verificar a tendência de Donald Trump estar também a liderar no voto popular, algo que não aconteceu nas duas últimas eleições. Como é que vê se esta tendência a confirmar-se? Mas para já tem 53 milhões de votos contra 47 milhões de Kamala Harris.

Sim, é uma surpresa, porque eu acho que todas as sondagens desde 2016 até agora davam a vitória do voto popular aos democratas. Isso também depende, temos que avaliar os votos que já foram recolhidos, de onde é que foram recolhidos, dos centros urbanos ou das áreas rurais de certos estados. Eu ainda creio que além de perder a eleição, que Kamala Harris deve ganhar o voto popular, porque quando vamos ver os grandes centros urbanos serem contabilizados e serem contados, mas provavelmente não chegará para mudar o voto eleitoral.

Mas prevê, tendo em conta aquilo que são as projeções, as tendências que temos nesta altura, Donald Trump e o Partido Republicano liderarem todos os swing states nesta fase, algo que não foi bem assim na eleição de 2020. Óbvio que depois verificou-se uma tendência de Joe Biden mais na fase final, que deu essa liderança, mas não estava a liderar nesta altura, desta forma, Donald Trump e o Partido Republicano nos swing states. Podemos ter um desfecho mais rápido do que tivemos há quatro anos, onde tivemos de esperar quatro, cinco dias?

Sim, eu espero que sim e essa foi a minha expectativa sempre, independentemente de quem ia ganhar, que se fosse resolvido o mais breve possível para que o país possa realmente aceitar a decisão da eleição e caminhar em frente. Portanto, sim, parece-me que sim. E se formos realistas, os números começam a ser muito difíceis para Kamala Harris. E também temos que lembrar que a Kamala Harris, que entrou nesta campanha ao intervalo, ao meio do jogo, com ventos de frente, e parece-me que ela não conseguiu ultrapassar o déficit do Joe Biden, que tem uma taxa de popularidade a 40%. Ela não conseguiu desatar-se dele e é óbvio que o povo quer uma mudança ou começa a ser cada vez mais óbvio que sim. Mas entretanto, ainda é muito cedo. Temos que ter calma e temos que ver que o processo se concretize nestas próximas horas. Mas parece-me que sim, que vamos saber mais cedo Do que sabemos há quatro anos.

Há pouco dava conta da importância do voto por correspondência. Em eleições anteriores, foi o Partido Democrata o mais beneficiado pelo voto por correspondência. Antecipa que nestas eleições o mesmo vai acontecer ou já haverá mais eleitores republicanos que também recorreram a esta forma de votação?

Sim, 100%. As comparações entre 2020 e 2024, em termos do voto antecipado, do voto por correspondência, viu os números do voto democrata descerem ligeiramente e os números dos votos republicanos por correspondência e por voto antecipado subirem. Eu vou falar em Nova York, especificamente, que há quatro anos os democratas tinham uma vantagem de 10% e agora este ano foi só de 4%. Acho que também essas indicações já começaram a mostrar o caminho para esta noite de eleições.

Olhando para aquilo que será esta noite eleitoral e aquilo que será um discurso de vitória de um ou de outro candidato, mas olhando para a realidade de Donald Trump, que fez um discurso de vitória, como já referiu há pouco, há quatro anos, ainda não tínhamos o desfecho e depois acabou por não vencer propriamente. Para já, estamos a ver uma candidatura muito silenciosa nesta noite eleitoral. Começou logo a contestar a votação, mas a partir daí foi silenciando a campanha e a candidatura de Donald Trump. O que espera da voz do candidato republicano, se se confirmar a vitória que vamos tendo para já?

Eu espero que o que aconteceu há quatro anos e o que ele disse durante a campanha, que ele agora, se realmente o desfecho lhe der a vitória, que ele une o país, que baixe a temperatura que nos tem dividido nos últimos quatro anos ou realmente nos últimos oito anos. Não sei, não tenho grande expectativa que isso aconteça, mas espero que, de alguma forma, o peso da realidade que ele vai ter a responsabilidade novamente de ser presidente de todos os americanos, aqueles que votaram por ele e aqueles que não votaram por ele. Espero que aquele receio de vingança, aquele receio de ele agora acertar contas, que não tenha qualquer guia para o controlar, que realmente fosse só na campanha e que na realidade ele agora vai se tornar o presidente de todos os americanos. É isso que eu espero. E espero que todos aceitem o resultado.

Paulo Pereira, desculpe interromper, só dar conta de que fechou o primeiro swing state. Carolina do Norte acaba de fechar. Vitória para Donald Trump. Ainda há votos a serem contabilizados? Sim, ainda há esses votos. Para já, 89% dos votos contabilizados, mas já dão todas as projeções de Donald Trump como vencedor na Carolina do Norte. Nesta altura segue com 50,8% contra 48% de Kamala Harris. Dizer que em 2020 e em 2016, Trump venceu também na Carolina do Norte, portanto, repete-se esse resultado.

Aí não há grande surpresa. Eu sei que é considerado um swing state por causa dos centros urbanos.

Exatamente.

E das universidades que existem nesses centros urbanos, mas aqui não é grande surpresa. Realmente, isto vai ficar em três ou quatro estados, que é Pennsylvania, Michigan, Georgia e Wisconsin.

Exatamente.

É por aí. Mas claro que o caminho, como em 2016, o caminho começa a se fechar para a Kamala Harris. Perdendo a Carolina do Norte, acho que não é grande surpresa.

Mas será uma surpresa se, porventura, Donald Trump ganhar também na Geórgia.

Sim, que ele está a liderar. Acho que ele ganhando Geórgia, as coisas tornam-se muito difíceis para a Kamala e o Donald Trump aí já pode só ganhar um dos estados do Oeste, principalmente Arizona, por exemplo, se ele ganhar Arizona, pronto, ganha. Ele está agora, acho que com 220.

Duzentos e trinta já. Duzentos e trinta delegados, contra 179 de Kamala Harris.

Mais de 40. Ainda tem alguns estados do Oeste para entrar que facilmente são republicanos. Sim, a matemática começa a ser complicada para a Kamala Harris, mas como eu disse há um bocado, os democratas também, nem tudo é perdido se conseguirem virar a Câmara de Representantes, porque aí também tornam o trabalho do Donald Trump um pouco mais difícil e têm um contrabalanço, de alguma forma, e o speaker da Câmara de Representantes será de Nova York.

Dizer que Donald Trump está muito próximo já do resultado que conseguiu em 2020, a nível de delegados. Teve 232, para já vai com 230 e portanto está a aproximar-se muito rapidamente desse resultado que conseguiu em 2020. Kamala Harris, o Partido Democrata, tem 179. Tinha conseguido em 2020, 306. Olhando para 2016, nessa altura, Donald Trump tinha conseguido 304, o Partido Democrata, 227. Teremos, portanto, praticamente, Paulo Pereira, um resultado de Donald Trump já superior ao de 2020. Veremos se o voto popular também se confirma isso, mas a nível de delegados, tudo indica que ficará acima destes 232 e tudo indica também que será então uma eleição muito mais renhida, muito mais difícil de resolver no final desta noite

Sim, eu acho que no fim, como em 2020 e 2016, até acabou por não ser assim tão renhida. Por quê? Porque se ganhares, como vocês sabem perfeitamente, o colégio eleitoral, ganhando por um voto ou 1 milhão de votos, em 48 dos 50 estados, ganhas os eleitores todos. Então, isto pode acabar até por parecer não tão próximo que nós todos pensamos que iria ser. O Donald Trump, por exemplo, pode ganhar com mais de 300 votos eleitorais, como em 2016. E em 2020, a eleição foi muito mais renhida do que o resultado final. Mas sim, esse é o sistema que nós temos do voto pelo colégio eleitoral, que realmente não dá a realidade do país. E então, até pode que, no fim, não seja assim tão renhido como nós pensamos que iria ser.

Há mais um estado que fechou, Oregon, nesta altura e de acordo com a Associated Press, pelo menos, fechou nesta altura, a projeção aponta, foi também o resultado em 2020 para a vitória de Kamala Harris, do Partido Democrata, consegue eleger mais oito delegados, só para 187 delegados o Partido Democrata, contra 230 de Donald Trump. Tem sido expressa alguma preocupação por parte de alguns líderes europeus as consequências de uma eventual vitória de Donald Trump para as relações transatlânticas, também preocupações em torno daquela que pode vir a ser a política externa, particularmente no que diz respeito à guerra no leste da Europa, na Ucrânia, também no Médio Oriente. Antecipa problemas, partilha desta apreensão relativamente àquilo que vai ser o papel dos Estados Unidos?

Sim, eu sim, pessoalmente sim, eu vi uma sondagem hoje que só 4%, ou aliás, perguntando aos votantes quando eles saíam das urnas, as preocupações e os negócios estrangeiros ou o estrangeiro, era só 4%. Portanto, eu acho que o Donald Trump, a campanha dele focou, e muito bem, em termos de política na economia, na imigração, na segurança. E então, claro que o resto ficou para o lado. E sim, para mim preocupa-me bastante, porque a nossa realidade é que nós não existimos no vácuo. Nós existimos num mundo que é cada vez mais pequeno e o que acontece na Ucrânia ou no Israel tem muito a ver com o que acontece aqui. E eu preocupo-me que o Donald Trump não é que não tenha experiência, porque ele foi presidente quatro anos, mas que não esteja focado nisso, que está tão focado na fronteira com o México, também é importante, claro que é, a imigração cá, como na Europa também a imigração clandestina é problemática e tem que se tratar disso, mas ao mesmo tempo também não podemos virar as costas à Europa, nem a Israel, nem ao Médio Oriente. Portanto, sim, preocupa-me e eu entendo perfeitamente porque os líderes europeus preocupam-se com esta eleição. Mas ele tem uma oportunidade agora de unir o país e de também reunir os líderes europeus para lhe dar confiança de que realmente os Estados Unidos continua par a par com eles.

Há o risco desta ligação, particularmente com os países da União Europeia, esta relação umbilical, diria, com os Estados Unidos a serem o grande farol em matérias de segurança, por exemplo, desta relação umbilical se tornar numa relação um pouco mais afastada?

Sim, eu preocupo-me com isto, como o Donald Trump tinha dito na última eleição, "America first". Claro que não é a realidade do nosso mundo e o fato dele também elogiar strong men, como o Orbán, o Kim Jong-un, o Putin e outros, também preocupa-me, e eu acho que preocupa. Mas como eu disse, o foco desta eleição foi em matérias nacionais.

Era isso que ia dizer, porque aparentemente esta visão de política externa de Donald Trump não pesou na decisão dos eleitores.

Zero. E a Kamala Harris encontrou-se numa situação, um paradoxo, porque precisa dos votos muçulmanos em Michigan, por exemplo, mas depois também precisa dos votos judaicos em outras áreas. E então tinha que fazer este tipo de dança, porque claro que sabemos que isso é um assunto que divide a Europa, mas cá nos Estados Unidos as pessoas não se dividem assim tanto. Há um grande apoio a Israel, mas no entretanto, Dearborn, Michigan, tem a maior comunidade muçulmana em qualquer estado, principalmente o Iraque. É importantíssimo, e como sabemos que Michigan foi decidida por milhares de votos da última vez. Portanto, tornou-se difícil para ela conseguir navegar esses polos opostos.

Paul Pereira, mayor de Mineola, no estado de Nova York. Muito obrigado por ter estado conosco nesta noite eleitoral, madrugada em Portugal continental. Desejo-lhe também um bom resto de noite em Mineola a acompanhar estas eleições