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Pela primeira vez tentou-se um modelo novo, um só artista para interpretar todas as canções. Não podiam ter feito melhor escolha, porque o Carlos, sendo um fadista excepcional, para mim o melhor da sua geração, era também um homem versátil e capaz de cantar outro tipo de canções, que foi o que fez durante esse festival. Foi um festival muito sui generis para mim. Para já foi o único em que um único intérprete interpretou todas as canções. E depois, as recordações que tenho são de uma cordialidade extrema entre toda a gente que concorreu. Todos éramos amigos, todos nos conhecíamos bem, estávamos a passar uma época, em 1976, em que pessoas até com grandes políticos inteiramente distintos e diferentes conviviam bem, não havia atritos. Foi um festival que correu muitíssimo bem. O Carlos interpretou as canções magnificamente e, portanto, as recordações que tenho só podem ser boas.
Falava agora dessa cordialidade e dessa convivência entre tantos artistas. As canções também depois no programa eram comentadas pelo maestro Vitorino de Almeida, que era num registo muito próprio e frontal, quase como se fosse o programa uma reunião de colegas transmitida em direto para o país.
Foi um pouco isso. Acabou por ser um pouco isso, até porque repara, deve ter sido o único festival em que os autores compositores, que era o meu caso, que tinha escrito uma das canções, também interpretavam em palco com o Carlos. Ou seja, nós tínhamos uma participação ativa. Eu não cantei, nenhum de nós cantou, mas eu, por exemplo, toquei viola, toquei guitarra durante a atuação do Carlos nesse festival. E todos nós participamos de alguma forma na canção. E depois o António Vitorino de Almeida comentava as canções à sua maneira, com a sua sabedoria e com a competência que também todos lhe reconhecemos como evidente. Foi um festival também que teve uma parte que essa sim já não me agradou tanto. Tenho que ser honesto e sincero. Foi um festival em que se polarizaram entre duas das canções, uma apoiada porque foi escrita por dois autores socialistas e outra por dois autores afetos ao Partido Comunista. E os dias desses dois partidos, o Partido Socialista e o Partido Comunista, entraram numa guerra de votos. Foi curiosíssimo, porque um dia estava uma à frente, outro dia estava a outra, depois estava a outra, depois estava a outra. Creio que foram duas semanas.
Na altura, Portugal estava exatamente nessa iminência das eleições legislativas de abril de 76, em que acabou por ser eleito Mário Soares. Havia vários compositores que eram também personas políticas, que acabaram exato por ser capitalizadas, se calhar, pelos partidos. Houve uma espécie de medir da temperatura antes das eleições?
Sem dúvida. Foi uma guerra. Eu lembro-me que todos os dias íamos ver, por curiosidade, qual era a canção que ia à frente e um dia era uma, no outro dia já era outra, porque havia toda uma mobilização partidária para que a canção desse partido passasse para a frente. Acabou por ganhar a canção do Manuel Alegre, portanto, afeta ao Partido Socialista, uma versão de Verde Pineiro, em desfavor do "Não Falas Alegre", que era exatamente assim que se chamava a canção do João Fernando Torres e do Ari dos Santos, do José Carlos. E portanto, esta polarização banalizou um pouco os outros temas, alguns dos quais, por exemplo, "O Teu Poema", do José Luís Tinoco, eu acho das canções mais felizes e mais bem feitas que alguma vez foi escrita em Portugal. E ficou longe da vitória e ficou longe desta guerra, quando merecia, para mim, era a canção que merecia ter vencido.
Mas essas canções, que se calhar nessa altura acabaram por ficar um bocadinho na sombra, tornaram-se grandes êxitos do século XX, pós-revolução. "A Estrela da Tarde".
Sem dúvida. Houve canções que passaram um pouco ao lado nesse festival, porque passaram ao lado dessa guerra política, que se polarizou em duas canções. E eu próprio senti que a minha canção foi completamente ultrapassada por toda essa guerra e o mediatismo que as outras ganharam. Mas não comparo a minha canção às outras, de maneira nenhuma. De forma nenhuma, até porque eu era muito novo na altura. Eu tinha 25 anos em 76 e estava a começar a dar os primeiros passos em termos de escrita de canções. Não tinha muita experiência, havia gente muito mais experiente, muito melhor que eu. Mas na realidade, eu senti-me também um pouco ultrapassado por toda a realidade do festival e senti exatamente o que tu acabaste de dizer, que houve canções que ficaram para a história, que vão ficar para sempre para a história, muito mais do que a que ganhou e a que ficou em segundo lugar. Foram as outras que ficaram, que depois passaram ao lado. Não se aproximaram da vitória, mas que são hoje as grandes canções de referência e grandes canções das maiores do repertório do Carlos do Carmo, que as cantou incrivelmente bem.
O José Brito contava-nos há pouco que era muito jovem nessa altura. Há alguma história mais caricata ou que guarde com mais carinho desse período de preparação do Festival da Canção em 76?
Desse festival em particular, eu não me lembro. Repara, nós todos trabalhamos, cada um de nós trabalhou as suas canções sozinho. Eu trabalhei a minha, escrevi a minha canção sozinho, depois entreguei ao Carlos. Não entreguei ao Carlos, mandei para a RTP a maquete gravada por mim. E ela foi selecionada, foi uma das oito canções selecionadas. Depois tive reuniões com o Carlos, entreguei no sentido que a toquei para o Carlos ouvir. Demos voltas à canção, percebemos como é que ele ia cantar melhor ou pior, como é que seria o arranjo, etc. O que eu mais recordo desse festival é a minha relação com o Carlos do Carmo, tanto como amigo, como compositor, como autor, como pessoa que escreve canções para o Carlos durante anos e viajei muito com ele. Tive a oportunidade do disco ao vivo gravado no Olympia de Paris, eu estive presente. Portanto, todos estes álbuns vêm na sequência deste primeiro encontro no Festival da Canção com o Carlos, porque é aí que eu o conheço, é aí que eu realmente começo a lidar de perto e a conhecer o artista, o homem, a voz excecional que ele tinha, única, e a pessoa muito boa que ele era, franco, honesto e aberto.
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