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Estou sim?
Está sim, viva, boa noite. Catarina Martins?
Olá, boa noite.
É o João Francisco Gomes do Observador. Imagino que nesta altura já vá no carro a caminho de Lisboa depois do comício que teve esta noite no Porto, não é verdade?
Sim, já estamos a ir para Lisboa. Tenho que estar lá amanhã de manhã cedo.
E correu bem o comício esta noite no Porto. Foi importante ter o apoio de Francisco Louçã nesta campanha?
Foi, claro que sim, o comício com a Marisa e com o Francisco é um momento importante. E é o comício no Porto, acho que foi bastante importante e acho que as intervenções de todos, por exemplo, da Marisa e do Francisco, foram momentos importantes nesta campanha, até para clarificar o que se tem ouvido durante a campanha, as posições dos vários partidos.
Já vai a caminho do décimo dia de campanha amanhã. O cansaço já se faz notar? Como é que está em estado?
Não, estou bem. Na verdade, já tive campanhas mais cansativas, até porque com mais responsabilidades é mais cansativo, porque ser cabeça de lista sempre é uma responsabilidade grande, mas é diferente ser coordenadora e cabeça de lista e portanto, talvez tenha como comparar.
Sim, exatamente. Já fez outras campanhas noutro papel, como líder do partido. Qual é que é a maior diferença que está a sentir relativamente a esta campanha, em relação, por exemplo, a campanhas que fez para eleições legislativas?
A questão é que as campanhas europeias têm um ritmo menos exigente do que as legislativas, não por vontade do Bloco, eu julgo que isto acontece com todos os partidos, mas porque são eleições que acabam por não ter tanta atenção como nós gostaríamos. Em geral, não estou a falar da comunicação social, estou a falar do país. Isso acho que sejam eleições com um ritmo um pouco diferente. Eu gostaria que tivesse um ritmo mais exigente, mais próximo das legislativas, mas é normal, as campanhas respondem também à atenção que o próprio país tem nos temas europeus. Nós temos tentado, ainda assim, ter uma campanha exigente, bastante presente, porque nas europeias está a decidir-se muito do que é a nossa vida coletiva e portanto é preciso tentar passar essa mensagem.
Catarina tem feito uma campanha muito focada, e já o disse várias vezes ao longo da campanha, muito focada em mostrar exemplos positivos, aquilo que temos de melhor em Portugal, chamar a atenção das pessoas para algumas questões concretas. Por exemplo, hoje dedicou o dia às questões da habitação. Mas o que lhe pergunto é: o que é que tem sentido nas ruas? Sente que as pessoas reconhecem o seu trabalho do tempo de coordenadora do Bloco de Esquerda? Estão mobilizadas para votar em si?
Eu não me posso queixar da falta de simpatia e de reconhecimento popular. Isso julgo que, felizmente, existe e existe muito carinho e acho que isso é muito importante. A simpatia não compra os votos, as pessoas precisam é de votar, mas acho que isso tem muito a ver, esse carinho e esse reconhecimento. Às vezes mesmo pessoas que não dão tanta importância assim às europeias como nós gostaríamos. Sabemos que as europeias são uma eleição em que é preciso fazer um grande esforço de mobilização, mas das coisas que eu mais ouço na rua, talvez seja o "obrigada". Portanto, sinto que tenho esse reconhecimento e isso é sempre belo, chega a ser até comovente.
"Obrigado pelo trabalho que fez como coordenadora do Bloco de Esquerda nos últimos anos", é isso que tem ouvido?
Sim, por questões diversas, seja por questões concretas. Sei lá, uma senhora numa feira de Matosinhos parou para falar comigo para me dizer que tinha tido acesso à reforma com menos penalização por causa das ondas financeiras contributivas e queria-me agradecer isso. Às vezes as pessoas falam de coisas concretas. Ou hoje, por exemplo, no comício do Porto, apareceu um senhor que trabalha nas pedreiras para agradecer também o que nós fizemos sobre o trabalho das pedreiras. Às vezes tem a ver com questões muito concretas em que as pessoas reconhecem, ou uma pessoa que foi vinculada graças ao processo de desinfação de cargos, às vezes tem a ver com questões muito concretas, outras vezes questões mais gerais. As mulheres muitas vezes abordam por reconhecerem que o papel que eu tive, com a exposição que tive, contribuiu de alguma forma para sentirem que as mulheres ganharam mais espaço público. Enfim, às vezes é de formas muito diferentes.
Esse tem sido um tema forte desta campanha, a luta por avanços nos direitos das mulheres. Dezassete anos depois do referendo ao aborto, a Catarina ainda esperava ter de andar numa campanha a falar deste assunto?
Sim e não. Ou seja, não, porque nós queremos que os direitos sejam conquistados, são conquistados e pronto. Temos é que pensar como é que pode ficar melhor, os avanços que falta fazer. Devia ser essa a nossa luta, que falta tanta coisa por conquistar e não estar a tentar consolidar o que está no passado. A verdade é que nós também sabemos que os direitos nunca ficam, que é sempre preciso proteger e a tentativa de controlo das mulheres existe sempre. E portanto nós vimos noutros países da Europa, aliás, em que os direitos estavam conquistados e o crescimento de ultraconservadores puderam pôr esses direitos em causa e da extrema-direita, nalguns casos, em casos diferentes Em alguns casos, já foi possível reconquistar direitos também. Mas é um terreno sempre complexo e eu não tenho dúvidas que a afirmação dos direitos das mulheres é um caminho muito difícil e sobre o qual não podemos descansar.
Catarina, a propósito desse tema dos direitos das mulheres, mas também de outros como a imigração, a questão da habitação, etc. Uma série de temas. A Catarina tem falado muito do grande perigo da aproximação entre a direita tradicional e a extrema-direita. Mas de facto, a verdade é que nas últimas legislativas, por exemplo, o Chega já teve mais de um milhão de votos. A Catarina, tendo já feito várias campanhas eleitorais, nestes últimos dias, ao passar pelas ruas, ao passar pelos mercados, ao conversar com as pessoas, tem sentido isso? Tem sentido um país mais próximo da extrema-direita, talvez até mais revoltado quando conversa com as pessoas?
Na verdade, nas interações comigo não, pelo contrário. As pessoas que vêm falar comigo vêm falar preocupadas com esses avanços, mas não tenho tido interações com pessoas que afirmem uma adesão a esse projeto político, embora como seja óbvio, elas existam. As pessoas que nos abordam para falar disso normalmente é para nos pedirem para lutarmos, para não desistirmos, que não querem recuar. Ou seja, há também talvez, e mais forte, uma certa consciência do perigo pelas pessoas que querem avanços e não recuos. Desse ponto de vista, quando pensamos como o 25 de Abril teve tanta gente, como houve tanta gente que saiu à rua, como percebeu essa necessidade, há também aqui um toque de rebate antifascista, digamos assim. Sinto mais isso do que outra coisa.
E sente que também há um medo, um temor das eventuais consequências que possam advir, quer para Portugal, quer para a Europa, de um Parlamento Europeu com um grande crescimento da extrema-direita, como se perspetiva, pelo menos olhando para as sondagens?
Veremos os votos. É verdade que a extrema-direita tem um tempo de antena que nunca nenhuma outra força política teve. Eles são muito financiados. Há alguma origem de financiamento na Europa, nomeadamente, votários do Parlamento Europeu já pensou que alguma origem desse financiamento até vem da oligarquia de Vladimir Putin. Há também, como sabemos, outros fenómenos de financiamento. Ganharam um espaço que nunca nenhum outro quadrante político teve. E muitas vezes fala-se das redes sociais, da internet, mas não é só isso, é também na comunicação social. Veja que eu não consigo falar com a comunicação social sem me perguntarem pela extrema-direita também. E portanto, a agenda deles passa a ser omnipresente. Escuta-se muito mais as mentiras, as novidades da extrema-direita do que o tempo de trabalho. E portanto, há aqui uma entorse, um deslizamento para a direita que tem muito a ver com fenómenos vários, incluindo interesses financeiros muito fortes. Em todo o caso, as eleições ainda não foram. A esquerda em todos os países está a fazer, julgo eu, o seu trabalho. As sondagens também indicam que a esquerda é o grupo que pode crescer e desse ponto de vista é muito importante no equilíbrio de futuro.
Durante a campanha também tem falado especialmente contra as novas regras da governação económica da União Europeia. Aliás, tem usado muito esse exemplo para criticar a convergência entre PS, PSD, CDS e Iniciativa Liberal. Diria que este é para si o grande problema da União Europeia, ou seja, ser um projeto que continua a focar-se quase exclusivamente em questões económicas?
As questões económicas dominam a nossa vida. O problema é que as opções são erradas e elas devem ser discutidas. Está certo e está certíssimo quando a União Europeia fez dívida conjunta para lançar o programa de recuperação da União no pós-Covid e com isso reforçar as zonas do Estado social e não só, percebeu que estavam muito frágeis. Não tem sentido depois de fazer esse esforço, voltar atrás e cortar a capacidade de investimento nos Estados, quando nós continuamos a ter imensas fragilidades, não só Portugal, mas a Europa como um todo. E as crises estão aí, porque a resposta à crise climática tem de existir, porque nós podemos achar que agora não é uma prioridade, mas com o clima não se negocia. O aquecimento está a acontecer, a União Europeia está a aquecer a uma velocidade muito mais alta do que outras zonas do planeta. Vamos ter crescentes problemas de ondas de calor e de cheias. E não só não se está a fazer o suficiente, eu diria, ou quase nada, especialmente a nível para baixar as emissões, que não estão a baixar, como não se está a apostar no território. Portanto, a Europa precisava agora de estar a ter um grande projeto, enorme investimento no território para criar segurança para as populações. Em vez de fazer isso, determinar que mecanismos como o PSR, mecanismos de investimento promovidos pela União Europeia para poder responder a essas questões, voltar a regras que impedem os países de investirem. Uma absoluta desresponsabilidade. Eu acho bem que as questões económicas tenham uma grande centralidade, o que eu diria é que estas são erradas.
Eu fazia-lhe a pergunta porque às vezes ao ouvi-la, quer a Catarina, quer a Mariana Mortágua, que tem estado muito presente na campanha, a falar do sonho de paz que foi acalentado na criação da União Europeia naquele período de pós-guerra, vinha-me à cabeça aquela célebre frase Que é atribuída a Jean Monnet, mas eu acho que a frase é apócrifa, que dizia que se tivesse que voltar a fazer tudo novamente, começava pela cultura em vez da economia. Não sei se concordaria com esta ideia ou se há um problema na cultura europeia que está a ser deixada de lado para nos focarmos em regras orçamentais.
Não nos enganemos, a cultura também precisa de investimento. E isso é algo que nós devíamos todos ter aprendido, desde logo com, por exemplo, as regras que os próprios Estados Unidos desenharam quando foi do Plano Marshall para reconstruir a Europa e também conseguiram com isso a sua presença cultural no território europeu. A cultura também é economia.
Nós sabemos, disse no início, que as europeias têm habitualmente uma abstenção muito elevada. Tenho reparado que durante as várias iniciativas de campanha, a Catarina tem procurado explicar o que se pode fazer a partir do Parlamento Europeu para contribuir para cada tema. Acredita, pelo que tem percebido nas conversas com quem vai falando, que a mensagem está a passar ou acha que a Europa ainda é uma língua estrangeira para muita gente?
Eu acho que por razões boas ou más, há uma maior perceção. Boas, por exemplo, ter-se percebido que ainda bem que houve uma estratégia europeia para haver acesso às vacinas Covid. Independentemente dos problemas que houve com as farmacêuticas, etc. Mas enfim, a ideia do esforço coletivo, as pessoas percebem que é importante ele ter existido. Más, como pessoas olham para a prestação da casa, que estavam em pé o Euribor e percebem que as decisões do Banco Central Europeu podem determinar as suas condições de vida de formas muito radicais. Há pessoas que viram a prestação da casa duplicar. Portanto, acho que essa perceção também existe. Como digo, é preciso, no entanto, na campanha fazer também essa pedagogia, tenho tentado fazê-la.
Claro. Só para terminar a nossa conversa, continuam a sair sondagens que têm apontado todas mais ou menos no mesmo sentido, para a possibilidade do Bloco eleger só uma eurodeputada. Tem falado sobre isso na caravana? O José Gusmão tem estado permanentemente ao seu lado nesta campanha. Tem falado sobre a possibilidade dele não vir a ser eleito?
Claro, já vi sondagens para todos os gostos. Com isto eu não quero atacar o trabalho de quem faz sondagens, mas é cada vez mais difícil ter ideia clara do que vai acontecer. Enfim, temos de fazer o nosso trabalho, fazer a campanha, tentar que ela seja a mais esclarecedora possível, publicizar e teremos os votos que merecermos.
Catarina, vou deixá-la fazer, tem mais de 300 km ainda para fazer nesta noite. Pergunto-lhe só como é que aproveita estas muitas viagens de carro para descansar ou para trabalhar nas suas intervenções?
É um bocadinho de tudo, depende do dia, depende da hora e depende do tempo. Agora não pretendo, neste momento, até chegar a Lisboa, não vou preparar nenhuma intervenção para amanhã. Já estou cansada. Tenho, depois, tempo amanhã para o fazer.
Obrigado, Catarina Martins. Olhe, boa noite e boa viagem.
Obrigada, boa noite.