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Ricardo Silvestre, colunista do Observador, também doutorado em Filosofia da Ciência e mestre em Relações Internacionais. Há aqui alguns sinais que já podemos analisar com destaque para o estado de Ohio.
Sem dúvida. Deixa-me antes começar por falar na Flórida. O resultado, como tu tens dito e muito bem, está já fechado e sem dúvida que as margens são maiores. Trump ganha Flórida por mais. Pegando naquilo que estavas a dizer, o que eu estou a achar muito interessante é o que está a acontecer em Ohio, porque saiu uma sondagem muito importante de Iowa, e por isso é que eu agora estou a tentar distinguir os dois estados bem, Ohio e Iowa. Mas a sondagem da Iowa é muito importante por quê? Porque mostrava que num estado que é tradicionalmente republicano, a Kamala Harris estava à frente por três pontos. Ohio, que é um estado também que Trump ganha repetidamente, ganhou em 2016, ganhou em 2020, em 2020 até por uma grande vantagem, está neste momento azul. Atenção, as grandes cidades de Ohio ainda não entraram. Aliás, é um fenômeno que, por exemplo, também vemos na Georgia. A Georgia neste momento está à frente porque são os votos rurais que estão a entrar. Os grandes distritos como é Fulton County, Cobb County, Douglas County, ali à volta de Atlanta, esses resultados ainda não começaram a entrar.
Sendo que são os grandes centros urbanos que beneficiam a partida o Partido Democrata.
Sem dúvida. Então na Georgia vai ser de certeza absoluta. Portanto, este resultado da Georgia neste momento é um pouco enganador digamos assim, esta vantagem de Trump, porque como eu estava a dizer, são mais os votos rurais que estão a entrar neste momento.
Mas Ohio é um bastião republicano praticamente. Se tiver essa viragem, já nem estamos a falar de swing states, estamos a falar de estados tradicionalmente republicanos a virarem para democrata.
Esse é um excelente ponto, Miguel. Por quê? Porque neste momento o que estão a entrar em Ohio são os votos rurais. O que aconteceu exatamente em Iowa. Em Iowa, os votos rurais eram os votos que acabaram por dar a vantagem, atenção, na sondagem à Kamala. Portanto, há aqui um fenômeno um pouco deste belt que fica aqui mais a norte, onde ainda falta, claro, Wisconsin e Michigan, que pode decidir esta eleição. Ainda é cedo para dizer isso, claro, mas este indicador é importante.
Em Ohio são 20 mil votos de diferença nesta altura com 38% contados até agora. Mas estando então os votos rurais já a pender para Kamala, quando tivermos os votos das grandes cidades, pode-se confirmar.
Estão a faltar as grandes cidades, Cleveland, Cincinnati, esses votos vão entrar mais tarde.
João Diogo Barbosa, bem-vindo também a esta emissão, obrigado pela disponibilidade. Pergunto se de facto pode este resultado neste estado do Ohio servir de rampa de lançamento para o desfecho eleitoral desta noite a favor de Kamala Harris.
Boa noite, eu começaria pelo chavão de dizer que a noite vai ser longa e que é cedo para dizer, porque acho que ainda estamos todos um pouquinho traumatizados com o que aconteceu em 2016, em que a eleição inicialmente parecia muito favorável aos democratas e depois rapidamente se inverte, e até se inverte de forma mais chocante do que seria uma inversão ao dia de hoje. Mas eu acho que apesar desses bons resultados ou bons indicadores no Ohio, concretamente, eu acho que ainda há espaço para nós vermos que Trump tem conseguido, mesmo em locais onde está a perder, ter resultados relativamente satisfatórios ou pelo menos melhores do que em 2020. E eu acho que isso diz-nos que, por um lado, Trump está a conseguir penetrar na camada dos independentes mais do que seria expectável, ou seja, havia a sabedoria consolidada de que os independentes, saindo para votar, não votariam em alguém como Donald Trump, que já tinha sido presidente, que era candidato pela terceira vez e, portanto, poderia não entusiasmar como antes. O fato de ele ter conseguido, segundo estes dados preliminares, bons números aí com independentes, bons números, por exemplo, com os hispânicos na Flórida, e eu acho que a Flórida é um sinal de alerta relevante para os democratas. Pode querer dizer que apesar de os resultados iniciais não serem muito favoráveis, ainda há aqui margem para haver uma inversão. Por que eu acho que a Flórida é muito importante? É verdade que é um estado que nas últimas eleições tem virado cada vez mais para os republicanos, mas a verdade é que a Flórida foi resolvida ou decidida muito cedo. A contagem foi evidente, os democratas tiveram más prestações não só a nível presidencial ou das eleições presidenciais, mas também ao nível do Congresso e, portanto, é difícil extrapolar para os estados vizinhos, até porque a Flórida tem uma composição demográfica um bocadinho particular. Mas eu acho que do lado dos democratas, se os resultados preliminares do Ohio são um indicador de felicidade, os resultados da Flórida devem ter causado alguns arrepios e acho que está na cabeça de toda a gente uma repetição de 2016 como possível, senão provável.
E Ohio já não é um indicador de tanta felicidade quanto isso, porque de acordo aqui com a projeção da Associated Press, Donald Trump e o Partido Republicano já lidera. É certo que por uma curta margem, no entanto, lidera, Ricardo Silvestre.
Eu estava a falar mais é das margens. Eu não acho que a Kamala vá ganhar Ohio, mas a margem é importante porque contamina os outros estados em volta.
Os outros estados, Iowa, por exemplo.
Particularmente Michigan e Wisconsin, que é a tal Blue Wall que se fala muito com Pennsylvania, que tem que ir para a Kamala, para a Kamala ganhar, principalmente se Georgia ficar com Trump. O que eu repito, e não sei se o meu colega de painel concordará comigo, os resultados de Georgia, a gente viu isso em 2016 e 2020, são resultados que vão ser considerados muito mais tarde, porque os votos dos grandes centros urbanos demoram algum tempo a aparecer, apesar do governador Kemp ter dito que os resultados serão conhecidos ainda esta noite.
Há pouco falávamos da noite longa. Na última eleição, a noite longa durou quatro dias, quatro, cinco dias. Vamos ver o que acontece nesta eleição. Mas olhando para a Pensilvânia, ouvi-o dizer, Ricardo, que Kamala tem mesmo que ganhar este estado. Ao dizer isso, está a dizer se não vencer na Geórgia, claro. Sim, se ela ganhar Pensilvânia, Michigan e Wisconsin, e depois terá de ganhar Nevada, mas parece que Nevada irá cair para ela, ela é presidente dos Estados Unidos. Agora, ganhar a Pensilvânia não é assim tão fácil, como podes imaginar, Miguel. Por isso é que foi um investimento da campanha Harris, que puseram quase as fichas todas nesse estado, enquanto Trump, por exemplo, foi muito mais para a Carolina do Norte, porque ele também precisa de ganhar esse estado para ter aquilo que se chama o caminho aberto para a Casa Branca. Deixa-me dizer-te uma coisa relativamente ao que estavas a dizer há pouco, que achei muito interessante, e a nossa colega em Washington estava a falar das filas. Há filas de cinco horas para votar em Pensilvânia. Espera-se que bata todos os recordes, que o estado este ano tenha o maior número de votantes que alguma vez viu. Agora, para quem cai, era como estava a dizer o meu colega de painel, vamos ver, também por causa da questão dos independentes.
Para já é Kamala Harris e o Partido Democrata quem lidera, estão apurados ainda apenas 8% dos votos. No entanto, Kamala Harris lidera com quase 72% dos boletins, contra cerca de 27% de Donald Trump. João Diogo Barbosa, a Pensilvânia é de facto um estado muito importante para o desfecho destas eleições e particularmente na perspectiva do Partido Democrata?
É isso mesmo. É um estado em que os democratas fazem depender quase toda a sua estratégia de vitória e, portanto, também fizeram depender a sua estratégia de campanha. É um estado que se calhar não é assim tão importante para Donald Trump, porque havia também essa teoria consolidada de que se perdesse a Pensilvânia ou se a Pensilvânia fosse um estado mais disputado, poderia fazer ganhos noutros sítios. Mas eu diria que do lado dos democratas houve um investimento em campanha que, apesar de ser, como dizia o Ricardo, bastante impressionante, e havia relatos inclusivamente de eleitores que nos últimos dias já demonstravam alguma fadiga de campanha, porque já não conseguiam ver mais anúncios, quer dos democratas quer dos republicanos, porque tinha sido de facto um investimento brutal. É também um estado em que se eventualmente os democratas não ganharem e por causa disso ficar muito difícil vencerem a eleição presidencial, se vai se calhar ponderar um bocadinho do ponto de vista da estratégia de campanha e da estratégia de vitória, se Kamala Harris não poderia ter tido outra escolha para vice-presidente e especificamente ter nomeado ou escolhido o governador do estado como seu colega de campanha. Acho que, novamente, com todos os caveats de ser demasiado cedo, a verdade é que se a estratégia de vitória dependia tanto desse estado, haveria mais que os democratas pudessem ter feito e que não foi feito seguramente, mas isso não quer dizer que não continue a ter o governador muito popular nesse estado a fazer campanha insistentemente com Kamala Harris e com Tim Walz, que não tenha havido essa despesa e até uma organização de bater à porta. Eu vi números hoje, a campanha dos democratas dizia que só durante a manhã do dia das eleições, os voluntários tinham batido cerca de 100 mil portas. Isso é um número brutal e que revela bem a estrutura das campanhas na América. Acho que vamos demorar bastante tempo pela forma como está organizado o método de contagem, vamos se calhar demorar algum tempo a saber os resultados da Pensilvânia e se calhar durante esse processo, como os resultados não são contados de forma inteiramente harmonizada, vamos ter algumas surpresas ou podemos ter algumas surpresas. Não me chocaria nada que estivéssemos a falar, se calhar daqui a duas horas, de uma liderança de Donald Trump que depois se invertesse por uma liderança ou por uma vitória muito curta de Kamala Harris, ou eventualmente uma liderança de Donald Trump que se fosse consolidando, ainda que não seja expectável que para qualquer um dos lados haja uma vitória retumbante. Se houvesse uma vitória retumbante na Pensilvânia, se a questão fosse resolvida bastante cedo, acho que todos nós podíamos esquecer a noite longa e rapidamente estaríamos a falar do início da presidência de Donald Trump, ou dos primeiros atos da presidência de Donald Trump, ou de como Kamala Harris poderia ou não continuar o legado de Joe Biden. Pensilvânia é muito importante, mas é um estado difícil de contar e, portanto, também aí vai demorar a termos dados mais concretos.
Até porque há aqui uma dificuldade acrescida comparativamente com outros estados, é que os votos por correspondência só começam a ser contados aquando do encerramento das urnas, o que não acontece noutros estados. Entretanto, Miguel Cordeiro, há mais um estado onde há já uma projeção definitiva para o desfecho das eleições.
Foi o estado que acabou de fechar a votação, Arkansas, fechou há uma e meia hora de Portugal continental. Vitória para Donald Trump. Essa é a projeção da CNN, da Fox News, da Associated Press. Todos dão vitória de Donald Trump no Arkansas e explicar que todas estas estações, canais, a Associated Press também, só estão a avançar com as projeções nos estados onde há uma grande margem, uma margem clara para se poder avançar com esta projeção. Nos estados onde é dividido, mesmo que seja uma margem só de 1%, 2%, não avançam com as projeções, também devido ao historial das sondagens nas eleições anteriores.
Eu ia só dizer, Miguel, sendo que a Associated Press também fecha aqui algum estado, que eu não consigo perceber exatamente qual é que foi, para o Partido Democrata, que passa a ter 49 delegados. O que é que tu ouviste, Miguel?
New Jersey, também fechado para o Partido Democrata, Kamala Harris vence em New Jersey e aqui é também uma projeção. Portanto, são as duas últimas projeções que temos. Arkansas, assim que fechou, tivemos a projeção. Estado tradicionalmente republicano, cai novamente para os republicanos. New Jersey já tinha fechado há pouco, mas a projeção saiu há poucos minutos, cai para o Partido Democrata. Bowl Nacional, 101 para Donald Trump nesta altura, 49 para Kamala Harris. Nós já vamos continuar a conversa, está conosco em estúdio o José Rafael Lopes. José, estás também a acompanhar estes dados ao minuto, a recolher informações importantes. O que nos podes dizer da contagem, como ela está nesta altura?
Bem, Miguel, eu na verdade trazia-te aqui o que poderia ser uma das poucas diferenças face às últimas eleições, mas a verdade é que com os dados mais recentes acabou por haver aqui uma alteração. Falo do estado do Kansas, um estado que em 2020 foi conquistado pelos republicanos. Há pouco Dava vantagem de Kamala Harris, mas entretanto, como sabemos, as contagens ainda estão a ser feitas, houve reviravolta e o que poderia ser uma diferença acabou por confirmar uma vantagem para já de Donald Trump no estado do Kansas. Há pouco houve muitos estados que ficaram com projeção de vitória para Donald Trump e também para Kamala Harris, apesar de para já a vantagem ir para o republicano. Falo, por exemplo, de Oklahoma, Missouri, Alabama e também o Tennessee, estados mais rurais e que já nas últimas eleições tinham sido conquistados pelos republicanos, mantêm-se. Ou seja, para já há um cenário bastante semelhante em relação às últimas eleições. Havia aqui também uma possibilidade de um roubo, digamos assim, por parte de Kamala Harris, que seria o estado do Ohio, que também havia há pouco vantagem de Kamala Harris. Entretanto, está precisamente com os dados mais recentes, igualzinho, 49% Kamala Harris, 49% Donald Trump. Este é um estado que foi conquistado por Donald Trump e Kamala Harris tentará roubá-lo, para já ainda não conseguiu. Importante, de novo, salientar a questão da Pensilvânia, um dos swing states mais importantes e para já continua também a verificar-se que é a grande troca em relação a 2020, que é a Carolina do Norte e a Geórgia.
É bem observado, José, porque tu davas conta da possibilidade de o Partido Democrata roubar a Carolina do Norte ao Partido Republicano e o Partido Republicano roubar a Geórgia ao Partido Democrata. Só que nesta altura a situação inverteu-se e é o Partido Republicano que lidera nestes dois estados.
Precisamente, era aí que eu ia chegar, que na Geórgia havia essa possibilidade que, entretanto, já se alterou. Estes dois swing states, a Carolina do Norte e a Geórgia, estão neste momento com a vantagem, digamos assim, republicana de Donald Trump. E para terminar, salientar apenas que nas últimas eleições, Donald Trump, dos sete swing states, conseguiu apenas um, neste momento já com um resultado bastante melhor.
Ricardo Silvestre, este é um dado importante, este desfecho das eleições na Geórgia e na Carolina do Norte e o facto de o Partido Republicano nesta altura liderar nestes dois estados?
Eu faço a ressalva novamente que Georgia é muito cedo para estarmos a tirar esse tipo de conclusões. Já a Carolina do Norte, eles estão empatados, 49,5, mas aí o voto é um pouco mais disperso no sentido em que não há grandes centros populacionais. Há alguns bastiões democratas, digamos assim, portanto, estou muito interessado em ver como é que avançam os votos na Carolina do Norte. Deixe-me fazer uma ressalva importante, que é: também estou a acompanhar a eleição para o Senado. A Casa dos Representantes, nós sabemos, são muitas eleições, portanto, não vale a pena estarmos aqui a gastar muito tempo com essa eleição, mas a do Senado, sim, porque mesmo que a candidata democrata ganhe, se o Senado fica republicano, vai complicar a vida. E em Ohio, novamente, Sherrod Brown, que é o senador eleito, portanto, está a defender o seu lugar, está à frente por três pontos percentuais, enquanto para a presidência está empatado, o que não deixa de ser interessante.
Vamos chamar também o João Diogo Barbosa a esta ronda de comentário, porque olhando aqui para a eleição para presidente, estamos neste ponto: Donald Trump para já em vantagem 101 contra 52 de Kamala. Isto mistura resultados já fechados com projeções de estados dados como certos, ora para um candidato, ora para outro. Queria também perguntar-lhe sobre Senado, sobre o Congresso, como é que vê esta eleição na fase em que estamos agora, 1h40 praticamente da manhã. Ainda temos estados onde vão fechar as urnas, mas que análise faz, tanto no Senado como no Congresso, daquilo que já sabemos nesta altura?
Esse é um ponto extremamente importante e que normalmente tem mais atenção do que tem tido este ano, porque a eleição presidencial está tão empatada segundo as sondagens e até segundo estes resultados preliminares, que temos esquecido um bocadinho o resultado das eleições legislativas, vamos dizer assim. Ou seja, a eleição para o Senado é tendencialmente favorável aos republicanos. As sondagens apontam para a possibilidade de haver uma maioria, ainda que curta um ou dois lugares, sendo que vale a pena recordar que o Senado tem 100 senadores e em caso de empate, o vice-presidente tem a possibilidade de desempatar e, portanto, quem vencer a presidência ganha também essa vantagem no caso de o Senado ficar 50/50. Mas as previsões dizem que os republicanos terão alguma vantagem e os dados que nós temos visto das primeiras contagens não negam essa possibilidade. Já em relação à Câmara dos Representantes, o cenário é invertido, ou seja, parece, segundo as sondagens, que os democratas partem com alguma vantagem. Também aqui não se espera uma grande maioria, quer de um lado, quer do outro. Espera-se até uma maioria curta dos democratas e isso pode significar bastante no impacto que o futuro presidente terá. No caso de Donald Trump, a verdade é que sem uma grande capacidade de, por via legislativa, implementar o seu programa para a América, podemos ver acentuadas aquelas tendências de concentração do poder no Executivo e de atuar, sobretudo, através de ordens executivas, concentrando o poder na presidência e dessa forma também ter uma certa revolução da forma como se organiza o sistema presidencial americano. Do ponto de vista dos democratas, que têm um entendimento normalmente mais amplo Do Estado federal, isto é, que são mais hábeis a perceber normalmente que ganhar a presidência significa também ter a possibilidade de nomear os chefes de uma série de agências federais e, ao mesmo tempo, a partir dessas agências federais, alterar as políticas públicas. Não ter uma maioria legislativa seria um mau sinal para grandes reformas, mas não seria nada que não estivessem já habituados. Sendo que o resultado das eleições, quer para a Câmara dos Representantes, quer para o Senado, vai marcar o período inicial da presidência, ou seja, até às eleições intercalares, onde aqueles que não foram eleitos agora para o Senado ou para a Câmara dos Representantes, veem as suas eleições locais ocorrer e aí as cartas são baralhadas de novo e poderá haver novas maiorias. O facto de nenhum dos candidatos presidenciais provavelmente ter uma maioria nas duas câmaras vai ser sempre difícil para a implementação do seu programa e vai ser ainda um teste à resistência do sistema face a um presidente ou uma presidente que se vê mais ou menos forçada a governar através de decretos.
Os contrapesos da arquitetura constitucional e política dos Estados Unidos, entretanto, fecharam as contas em mais dois estados, isto de acordo com as projeções da Associated Press, em Delaware e Illinois, e caíram estes dois estados, Ricardo Silvestre, para o Partido Democrata. Sublinhava aqui a importância muito em especial deste estado de Illinois.
Sim, era de esperar. Illinois...
Ainda não está ligado o microfone, é isso?
Desculpem. Isto é do nervosismo da eleição. Obrigado, Miguel. Então é o seguinte, Illinois claramente já se sabia que ia cair democrata, não é por aí. Eu continuo a ver as margens, porque as margens são importantes no sentido em que, mais uma vez, há esta ideia de contaminação. Aliás, o João Diogo estava a falar nisso. Portanto, é normal que estejamos a ver alguma contaminação no Sun Belt, porque é de esperar ver isso. Por exemplo, os resultados da Virgínia afetam os resultados da Carolina, os resultados da Carolina afetam os resultados em Georgia e por aí adiante. Portanto, Illinois cair não é por aí adiante. A margem é que é interessante, porque mais uma vez relaciona-se com aquilo que estávamos a falar há bocado, que é ver o que é que vai dar Wisconsin e Michigan, que assim vamos ver quais é que são os resultados que são realmente importantes para a Kamala. Ela tem que ganhar estes dois estados, sem dúvida nenhuma. Ohio, como já falámos, as margens estão muito mais curtas e Pensilvânia, neste momento, mas ainda é muito cedo, a candidata democrata está à frente também, o que também neste momento é uma surpresa para mim, porque as grandes cidades, neste caso Pittsburgh e Filadélfia, os resultados ainda não começaram a entrar.
Há também aqui este dado da Carolina do Norte. Há pouco o Ricardo sublinhava este facto, os dois candidatos Donald Trump e Kamala Harris estavam praticamente empatados nos últimos minutos. Donald Trump alargou a vantagem para a candidata democrata, tem nesta altura uma vantagem de cerca de seis pontos percentuais, sendo que na Geórgia, outro dos swing states, um dos estados decisivos para o desfecho desta noite eleitoral, Trump lidera também desta feita com uma diferença de 11 pontos percentuais. João Diogo Barbosa, há aqui uma tendência nestes dois estados, dois estados que podem ser importantes para o desfecho daquilo que vai acontecer no final da noite.
Sim, vai ser muito interessante perceber, sobretudo, qual dos candidatos consegue superar as expectativas. Tem sido muito difícil fazer uma grande análise a partir dos resultados que já conhecemos, sobretudo porque os resultados preliminares, e infelizmente para o comentário, têm sido exatamente coincidentes com a lógica de esta eleição vai decidir-se por margens muito curtas. As margens não têm sido absolutamente surpreendentes, não temos visto, ou pelo menos quando vemos um candidato a dar-se um bocadinho melhor com determinado grupo demográfico, vemos o outro candidato a surpreender de forma mais ou menos idêntica a outro. E isso impede aquela ideia, que chegou a ser avançada como possibilidade, de até termos, apesar de sondagens muito próximas, termos uma vitória retumbante ou uma vitória pelo menos significativa de um dos candidatos, e a ser evidente muito rápido ou muito ao início da noite. Todas as tendências que nós temos visto, e tem sido curioso só desde que estamos a falar, como várias das tendências já se inverteram, o candidato Trump a ultrapassar Harris em determinados estados, o inverso a acontecer, mas menos. E eu acho que nós vamos continuar a ter essa dificuldade nas próximas horas. Parece-me que pondo nos pés os candidatos, eu não estaria, enquanto republicano, muito infeliz com os resultados que tenho visto, mesmo que na Geórgia haja alguma dificuldade, mesmo que a Carolina do Norte esteja mais em jogo do que seria expectável. A verdade é que se estivermos amanhã a olhar para trás, e assumindo que amanhã também já vamos conhecer os resultados, este caminho não nos nega uma vitória de Donald Trump, sendo que a lógica e a dinâmica dos últimos dias até pareciam apontar mais no sentido de alguma vantagem dos democratas. E, portanto, neste momento, com as tendências que conhecemos, eu acho que Donald Trump não estará 100% desconfortável e até estará com alguma expectativa para perceber o que vem aí, sendo que os republicanos desta vez, em contraponto muito significativo com 2020, têm números de votos por correspondência bastante diferentes e isso pode em alguns estados estar a ajudar, noutros até poderá vir a complicar, como é o caso da Pensilvânia, em que esses votos são contados depois. Mas eu acho que não está a ser um início de noite muito mau para qualquer um dos candidatos. Acho que comparativamente com as expectativas dos últimos dias, talvez até Donald Trump esteja mais confortável com o rumo das coisas do que Kamala Harris.
João Diogo Barbosa, muito obrigado por ter estado conosco nesta emissão especial da Rádio Observador, Noite Eleitoral dos Estados Unidos da América. Ricardo Silvestre, já voltamos à conversa