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Vice-presidente do departamento de Sociologia, gostaria de ter uma rápida análise a estes primeiros dados que são conhecidos nesta altura, sendo que daqui a pouco, à uma, vamos ter muitos estados a fechar e muitos votos a serem contados. Quase metade do país tem contagem de votos daqui a 25 minutos, mas olhando para o que já temos, que análise faz?
Para já, parece-me que não há grandes surpresas. A CNN americana dava muito efusivamente a vitória do Vermont para Kamala Harris, mas não me parece que isso seja uma grande surpresa. Todos os estados até agora são previsíveis.
Repetiu o resultado de 2020.
Sim. E o que era esperado, e portanto esta vantagem era esperada, porque a sequência dos estados à medida que vão fechando, este seria o resultado esperado. E como dizia da Geórgia, não se pode dizer nada, porque nem 10% dos votos contados é impossível perceber e há sempre aquela coisa de que os condados maiores podem tender a votar mais democrata e vão demorar mais tempo a contar. Para já é muito difícil. Eu diria que a vitória mais surpreendente da noite é a do Sporting ao Manchester City.
Por números assombrosos, 4 x 1, a vitória do Sporting na partida de Rúben Amorim do Estádio José Alvalade, um desfecho que qualquer um dos candidatos a estas eleições nos Estados Unidos gostaria de igualar. Nuno Gouveia, boa noite. Bem-vindo também a esta emissão especial. Pedia também uma primeira análise a estes dados já conhecidos, ainda escassos e que, como aqui referíamos há pouco, vêm confirmar aquilo que foi o despacho eleitoral de 2020.
Sim, de facto, não há nenhuma surpresa, os resultados são aqueles esperados. Na Flórida era expectável, apesar de ainda a contagem da ira meia, mas era expectável que o Donald Trump vencesse, que é o terceiro maior estado da União. Como o Nuno estava a dizer, na Geórgia a votação ainda é muito inicial, ainda faltam os grandes condados de Atlanta, onde é expectável uma maior votação em Kamala Harris. E portanto, neste momento estamos todos à espera que mais resultados comecem a ser mostrados, sobretudo naqueles estados que obviamente vamos perceber para que rumo vai esta eleição. E nós a partir da uma da manhã já teremos mais dados da Carolina do Norte, da Pensilvânia, os outros estados do Midwest também vão fechar depois. E a partir que os números começarem a vir desses estados, poderemos fazer uma análise mais concreta sobre a nossa noite eleitoral. Neste momento, basicamente, não temos dados para dizer muito mais do que isto.
Mas olhando para já para esta noite eleitoral e sabendo aquilo que foi a campanha, temos uma eleição que é muito difícil de prever o desfecho, um empate a nível nacional praticamente em todas as projeções. Olhando para os swing states, temos praticamente a mesma coisa, as projeções a darem resultados muito semelhantes. E temos uma expectativa em todo o mundo. Nós temos falado um pouco disso também ao longo desta noite, madrugada eleitoral. A Europa vive esta eleição também nessa expectativa por podermos ter uma presidência completamente diferente, quer vença Trump ou quer vença Kamala Harris, ou essas diferenças que se foram vendo em campanha, depois na presidência em si acabam por não existir tanto como vemos a campanha. Nuno Gouveia.
Haverá áreas que será certamente diferente ganhar Donald Trump ou Kamala Harris. E para nós europeus, que de facto seguimos estas eleições quase como se fossem nossas, e não é apenas em Portugal que o fazemos, noutros países europeus o interesse mediático e das pessoas sobre estas eleições é grande também porque nos diz muito respeito. E na Europa, que valorizamos a relação transatlântica e quem valoriza a NATO, obviamente fica preocupado com algumas das declarações e intenções de Donald Trump, visto que ao longo da campanha eleitoral, ele demonstrou como a presidência sua será bastante diferente de Kamala Harris. Sabemos também que nos últimos anos, independentemente de estar um republicano ou um democrata na Casa Branca, a Europa já não tem aquela centralidade que tinha há 20 anos, há 30 anos, mas mesmo assim, parece-me que será uma relação bastante diferente e bem mais tensa se Donald Trump vencer, do que Kamala Harris vencer. Porque apesar de tudo, Kamala Harris terá sempre, em relação à NATO, em relação à Ucrânia, por exemplo, uma posição bem mais próxima da maioria dos países da União Europeia do que se for Donald Trump. E este interesse que se excita aqui do nosso lado também tem a ver com o nosso próprio interesse, como é evidente.
Nuno Amaral Jerónimo, que consequências temo da vitória de um ou outro candidato para a Europa e particularmente, referia aqui Nuno Gouveia também, para aquilo que será o futuro do conflito na Ucrânia, mas também no Médio Oriente?
Essas expectativas, nós não sabemos muito bem se aquilo que o Trump vai dizendo é verdade ou não, porque é difícil.
Tem sido um pouco ambíguo. Ao longo da campanha foi um pouco ambíguo relativamente à questão da Ucrânia, por exemplo.
Pois é, exatamente. E portanto, é difícil perceber se é assim que vai ser. Eu li análises que dizem que há ali uma espécie de coisa escondida, alguma coisa escondida, e que depois o apoio poderá ser maior. Hoje, por acaso, jantei com um professor ucraniano que está a ditar na nossa universidade e ele disse que em Kiev esta noite não se dorme. Porque há uma certa ansiedade para saber até o que é que vai ser, porque depois de conhecer os resultados pode ser que Se começa a perceber melhor o que se pretende fazer ou pelo menos se for ele a ganhar, o que pode pretender fazer.
Teme esse professor que uma eventual vitória de Donald Trump possa significar a capitulação da Ucrânia às mãos da Rússia?
Não, curiosamente, é mesmo essa expectativa do que vai ser depois. Ou seja, ganhando, o que ele depois vai dizer a seguir e não só a partir do dia que tomar posse, mas até dos meses que vão até lá. E se as posições se podem clarificar. Porque quando diz "vou acabar com a guerra em 24 horas", isso quer dizer exatamente o quê? No fundo, o que esperam, outra vez, se Donald Trump ganhar, é uma clarificação que pode ser para um lado ou para o outro, mas por isso é que a ansiedade é grande. É porque nem sequer eles percebem muito bem o que é que isso quer dizer. Enfim, foi uma conversa com uma pessoa, mas eu falava um pouco dessa expectativa e aí nessa ansiedade do que poderia vir. Se posso deixar aqui, porque há um dado interessante de umas sondagens que saíram hoje na "Equity Polls", mas não sobre os resultados, mas sobre os sentimentos dos americanos. Por causa daquilo que o Nuno Gouveia dizia antes, havia uma comparação muito interessante, que é se perguntando se tinham uma visão positiva ou negativa do que poderia ser uma administração Trump ou Harris, o país está dividido ao meio. Uns acham que vai ser terrível, outros acham que vai ser bom. Presume-se que isso seja mais ou menos no eleitorado. Mas depois perguntava-se outra coisa, que era se achavam que algum deles é radical. E 36% acham que só Harris é que é radical, mas mais de 60 acham que só Trump é que é radical. Portanto, há uma diferença em quem acha que o Trump é mais radical do que Harris, embora quando se pergunta se temem um ou outro, aí as sondagens estão empatadas. Ou seja, há uma coisa muito interessante que é mesmo quem acha que há uma parte do eleitorado que acha que o Trump é radical.
Se é radical, ele pode... Pois, exatamente.
Isso é muito curioso. Eu fugi a isto só para dizer que isso também pode preocupar a Europa. Ou seja, de uma parte dos americanos, no fundo, poderem achar que essa radicalização de Donald Trump não é um problema ou se calhar até pode ser uma vantagem. Mas isso pode nos preocupar no sentido em que uma certa proximidade civilizacional que existia entre a Europa e a América, eu não estou a falar só da questão de política externa, mas mesmo uma aproximação civilizacional que pode estar a esboroar-se.
Mas pode também, de certa forma, ajudar a explicar essa questão entre radical e temer ou não o fato de o histórico em 2016, olhando para os anos antes, 2015, 2014, durante a campanha, Donald Trump prometeu muita coisa que acabou por não concretizar, muita coisa radical que acabou por não concretizar e portanto os receios acabaram por não se cumprir, de certa forma, durante a sua presidência. Acha que isso pode ajudar também a explicar essa diferença entre o número de pessoas que o temem e o número de pessoas que o acham radical?
Sim, porque essa é uma análise interessante de perceber se é aquilo que prometeu, e algumas coisas nós sabemos, até por algumas das memórias, por exemplo, de pessoas que trabalhavam na administração Trump e que foram falando na televisão e dando entrevistas. Portanto, há pessoas que trabalharam com Donald Trump na administração e que foram contando que algumas dessas ideias radicais acabaram por ser paradas dentro da parte mais burocrática da administração. Até porque alguns contam que o Trump tinha umas ideias, vamos chamar radicais, ou umas ideias de transformação radical, pelo menos, e que ficavam paradas ou bloqueadas na máquina burocrática e ele depois se esquecia, não ligava mais. Portanto, ele dava uma ordem, depois eles não a cumpriam e ele não pensava mais nisso. Isso alguns do pessoal da administração mais burocrático, mais político, mas há várias pessoas que contam esta situação. E portanto, esse bloquear tem um pouco esse discurso agora, teve um pouco essa narrativa de que "eu não fiz porque não me deixaram". Não sabemos se foi mesmo assim, mas essa narrativa existe um bocado. E uma das coisas que nós temos medo, até por causa da democracia interna dos Estados Unidos, é que ele tente eliminar ainda mais esses obstáculos burocráticos que o foram impedindo de fazer algumas coisas. Mas como digo, eu acho que é a mesma personagem, que é uma grande incógnita, porque há um tipo de discurso retórico que a gente conhece, mas depois há um outro tipo de ação política que não se percebe muito bem qual é que é e qual é que vai ser. Isto não quer dizer que não haja e não possa haver tentativas de minar a democracia. Há muitos analistas que temem essa tentativa de minar o que são até os freios e contrapesos da política americana.
Falava nesta sondagem. Há outra sondagem divulgada esta noite pela CNN, Nuno Gouveia, e que revela que 80% dos eleitores já tinham decidido em quem iria votar nestas eleições em setembro. É de alguma forma surpreendente este dado?
Pois, mas de facto se nós recordarmos as sondagens desse período, elas já indicavam que o número de indecisos era baixo e portanto não é normal que assim suceda, mas neste ciclo eleitoral já havia pelo menos a sensação que havia muito poucos indecisos.
É um sintoma da polarização que caracterizou esta eleição
E se nós repararmos desde o início do ciclo eleitoral, fora aquele período depois do debate em que Joe Biden foi um completo desastre e acabou por se retirar da campanha, onde de facto aí nesse período Donald Trump teve uma vantagem considerável. Fora esse período, a campanha esteve sempre quase em situação de empate técnico, uns momentos com Trump um bocadinho à frente. Depois de Kamala Harris surgir, ela nos primeiros dois meses apareceu um bocadinho à frente, mas nunca nenhum candidato esteve muito distante um do outro, porque de facto quase metade da América se inclina por um candidato e por um lado para um bloco partidário e a outra metade para o outro. E, portanto, o que vai decidir as eleições desta noite será a capacidade que cada candidato teve de mobilizar o seu eleitorado e depois, obviamente, para que lado penderam estes indecisos que decidiram nos últimos dias. E nos dois últimos ciclos eleitorais, esses eleitores que decidiram quase no fim, foram quase sempre para Donald Trump. Em 2016 isso valeu-lhe a vitória e em 2020 não lhe valeu a vitória, mas valeu-lhe uma aproximação muito grande a Joe Biden, pois as sondagens pouco antes das eleições davam uma vantagem confortável a Joe Biden, que não se confirmou no dia das eleições. E a expectativa para esta noite é perceber se estas pessoas que decidiram o seu sentido de voto nos últimos dias caíram novamente para Donald Trump. O meu primeiro instinto é até pela forma como sobretudo esta última semana desde o comício de Nova Iorque de Donald Trump, o meu primeiro instinto seria dizer que esses eleitores tenderiam mais a votar em Kamala Harris, mas esta é uma eleição muito especial e também é preciso dizer que os fundamentos e o contexto desta corrida favorecem o candidato republicano, favorecem o partido da oposição, pois temos uma administração bastante impopular, um presidente bastante impopular, Kamala Harris, obviamente, fazia parte dessa administração e responde por essas políticas. Além disso, há uma série de dados que neste momento favorecem o Partido Republicano. Portanto, a mim parece-me que esta corrida apenas chega ao dia de hoje competitiva, precisamente pela personalidade de Donald Trump e pela forma como ele conduziu a sua campanha, sobretudo nestas últimas semanas.
Nuno Amaral Jerónimo, seria impossível para Joe Biden estar numa posição de empate técnico como estava Kamala Harris há horas nas últimas sondagens, se tivesse continuado nesta corrida?
Eu acho que era óbvio que isso não iria acontecer. Acho que já estava na altura, já era mais ou menos óbvio que ia ser um descalabro. Mas deixa-me só acrescentar uma coisa do que dizia o Nuno Gouveia, porque é muito interessante que vi também nestas exit polling, nas sondagens feitas pela CNN, que dava que ao contrário da eleição de há quatro anos, a maioria dos independentes, não tem a ver com decidir o voto à última hora ou não, mas dos votantes que são independentes, que não estão registrados em nenhum partido, desta vez, na sondagem da CNN, dava uma maioria para Trump. Ao contrário de há quatro anos, em que a maioria terá votado em Joe Biden.
Classificação é contrapenfacto, como é que ela é citada?
É uma vantagemzinha para o Donald Trump, embora estas sondagens são nacionais e também depende de como é que são distribuídos esses votos dos eleitores independentes. Mas de qualquer forma, para já é um dado que pode afigurar alguma vantagem e aquilo que dizia o Nuno Gouveia, que há aqui uma vantagem destas eleições que podem ter uma ligeira margem, mas não significa que isso vá decidir a eleição. Isso não me parece que vá decidir. É só um dado interessante.
Há também um dado que resulta desta campanha e dos estudos que têm sido feitos sobre os eleitores nestas eleições. Aparentemente, Nuno Gouveia, parece que há uma segmentação maior de determinados grupos de eleitores face a outros atos eleitorais. Por exemplo, em função do gênero, homens e mulheres. É assim?
Sim, essa é uma das tendências que se acentuou nos últimos ciclos eleitorais e nesta eleição a clivagem será bastante grande, pelo menos todos os dados apontam, entre a votação masculina e feminina, com as mulheres a votar maioritariamente no Partido Democrata e os homens no Partido Republicano.
Tem que ver com a questão do aborto e com as posições que têm dos candidatos em relação ao aborto.
Seguramente é um dos temas que tem mobilizado o voto feminino para o Partido Democrata, e isso já aconteceu nos últimos ciclos eleitorais, sobretudo nas intercalares de 2022, mas que se acentuou aqui e é se calhar a grande força de Kamala Harris nesta campanha foi ter conseguido mobilizar o eleitorado feminino para votar nela. Por outro lado, Donald Trump estava a fazer também, ou pelo menos as sondagens indicavam que estava a crescer eleitoralmente em alguns segmentos do eleitorado não tão favorável ao Partido Republicano, como as minorias, como a comunidade latina, que é uma comunidade que vota majoritariamente no Partido Democrata, e este ciclo eleitoral não irá escapar a essa regra, mas que aparentemente Donald Trump estava a conseguir maior apoio dentro desta comunidade.
E vamos ver se confirmam esses apoios, ora de um lado, ora do outro. Nuno Amaral Jerónimo, Nuno Gouveia, muito obrigado por terem estado conosco na Rádio Observador