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Luís Oliveira vive em Nova Iorque, neste caso vive há 10 anos nos Estados Unidos da América. Luís Oliveira, muito bem-vindo à nossa emissão especial da Rádio Observador. Como é que está a viver esta noite eleitoral nos Estados Unidos da América? Como é que se vive também na cidade de Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, uma noite eleitoral como esta?

Antes de mais, muito boa noite, obrigado pelo convite para estar aqui. Estou a vivê-la com alguma ansiedade. Já são muitos meses, primeiro de pré-campanha, depois de campanha, a chegar a esta noite e todos sabemos que há muita coisa em jogo e muitos assuntos que são importantes, quer para a vida dos americanos, quer para a vida dos imigrantes a viverem nos Estados Unidos, quer para o mundo em geral. Acho que há sempre muita ansiedade com o resultado destas eleições. E para já, as projeções confirmam que essa ansiedade vai se manter por mais algum tempo, uma vez que a corrida parece estar bastante renhida.

Luís Oliveira define-se como tendencialmente democrata. Significa isto que é um swing eleitor?

Não sei se serei um swing eleitor, na medida em que quando voto, tendo a votar mais à esquerda, mas penso que me incluo dentro dos moderados, o que significa que há temas dentro do Partido Republicano com os quais eu mais me identifico, mas na maioria é dentro do Partido Democrata e é aí que seria o meu voto.

Já participou nesta eleição, já vota nos Estados Unidos da América e perguntar-lhe se é a primeira vez que vota, vive há 10 anos, pelo que eu percebi, nos Estados Unidos.

Esta foi a primeira vez que votei, sim, eu tornei-me cidadão no final do ano passado e então esta é a minha primeira eleição. Votei já há cerca de duas semanas por voto antecipado.

Um sentimento especial?

Sim. Foi um momento para recordar.

Mas votou antecipadamente, portanto, não esteve hoje nas urnas. Conseguiu perceber a agitação nas mesas de voto durante o dia de hoje e na cidade também para as pessoas que votam apenas neste dia?

Eu vi algumas filas, vi também muitos amigos nas redes sociais a partilhar a sua ida às urnas, sempre com bastante orgulho. Acho que também esta polarização das eleições e o fato de, no fundo, virem para a frente todas as conversas nestas últimas semanas, faz com que haja mais mobilização e pelo menos dentro da minha rede de amigos e de contactos a nível das redes sociais, vi as pessoas mobilizarem-se com bastante orgulho.

Há pouco tínhamos aqui uma compatriota nossa nesta emissão, Luísa Davis, que dizia que pelo fato desta eleição estar a ser profundamente polarizada, teve algumas desavenças entre os imigrantes portugueses a viverem nos Estados Unidos. É uma realidade também por si testemunhada, Luís Oliveira?

Não, por acaso, não me apercebi dessa situação. Eu acho que, pelo menos dentro da rede de contactos portugueses que tenho aqui, acho que as pessoas são altamente respeitadoras da opinião individual de cada um e não vi essas desavenças. Pelo menos a minha perceção na comunidade portuguesa é que é um pouco mais moderada, apesar de toda esta polarização das eleições e da política americana hoje em dia, onde quase que se eu sou um democrata, não posso falar com um republicano e vice-versa. Mas por acaso na comunidade portuguesa tive a perspetiva um pouco mais moderada e respeitadora.

Ou seja, mais moderado, mas existe uma discussão em torno das eleições norte-americanas, principalmente entre os imigrantes que têm essa possibilidade de votar?

Sim, existe. Mais nos temas, o que depois leva, obviamente, à eleição e ao ato de votar. Mas penso que temas relacionados com o aborto, relacionados com o que foi a invasão do Capitólio nas últimas eleições e, portanto, a proteção ou o risco à democracia, têm sido dois dos temas que eu tenho visto serem mais discutidos. Mas sim, sem dúvida que há essa discussão e essa conversa em torno das eleições.

Luís Oliveira, o que o fez votar em Kamala Harris?

Essa é uma excelente pergunta. Eu, por acaso, apesar de ter votado Kamala Harris, não sou um dos maiores fãs. Penso que ela teve um termo como vice-presidente em que se eclipsou durante grande parte da presidência e, portanto, reapareceu agora quase no final da corrida por questões que são conhecidas.

É uma honraria.

Sim, eu acho que o Donald Trump é um candidato muito errático, que tem uma visão muito centrada em si mesmo da política, não muito dado a colaborações e a estreitar relações, nomeadamente com a Europa. E eu, apesar de estar nos Estados Unidos há 10 anos, não deixo de sentir Portugal e a Europa muito Muito fortemente e penso que Donald Trump é claramente um maior risco para a Europa do que Kamala Harris e isso fez decidir o meu voto.

Mas vendo Kamala Harris como um mal menor, preferia Joe Biden?

Também não. Eu achei pena que o Partido Democrata demorasse tanto tempo a reagir a um declínio que começava a ser bastante óbvio na candidatura de Joe Biden, mas como reagiram tardiamente, acho que não houve oportunidade de encontrar dentro do Partido Democrata uma renovação, alguém que pudesse vir com um discurso diferente, que se demarcasse da própria presidência Biden, que é altamente impopular. Mas pronto, foi o que resultou.

Olhando para a campanha eleitoral, o que achou da forma como é feita a campanha nos Estados Unidos da América? É óbvio que já vive há uma década nos Estados Unidos, mas acredito que tenha tido mais atenção a essa campanha este ano, uma vez que podia já votar. Como é que avalia a forma como é feita a campanha também nos Estados Unidos da América e esta organização? Até ao dia de eleições, é possível haver campanha, é possível haver mensagem política, ao contrário do que temos, por exemplo, em Portugal.

É muito complicado, porque há um misto de campanha e há um misto de show off, de querer ter as maiores audiências, e isso faz com que todo o discurso, toda a campanha surja muito em torno das questões escândalo. E por isso é que nós estamos sempre a bater no ponto da imigração, no ponto do aborto e do direito das mulheres a serem donas e senhoras do seu corpo, mas que são questões que depois há uma grande percentagem do eleitorado americano que eu penso que não são as principais questões que eles valorizam. Eles o que vão valorizar é se vão ter melhores condições de vida ou não com o presidente A ou o presidente B. Mas penso que essa discussão mais de fundo das propostas, da visão de futuro para uma América é muito ofuscada pelos hot topics, por estes temas mais quentes, porque é o que polariza e é o que acaba por trazer audiências.

Mas sente, de facto, o país polarizado? Falávamos há pouco da comunidade portuguesa nos Estados Unidos da América, mas sente-se durante a campanha, durante o dia de eleição, um país polarizado?

Completamente. Porque eu acho que nós estamos numa fase em que a grande maioria das pessoas recebe a sua informação através de plataformas de redes sociais, em que os algoritmos acabam por ditar ou, no fundo, reforçar a informação que cada um quer ver. E, portanto, acabamos por entrar num ciclo vicioso onde duas pessoas diferentes têm diferentes visões da mesma realidade. A realidade é só uma, mas a forma como ela é apresentada através destes novos canais de informação acaba por ditar a nossa perceção da realidade. Eu sou democrata tendencialmente, como disse, mas vejo muito Fox News, porque eu quero ver o contraditório em relação ao que eu próprio estou a pensar. Mas penso que isso não é prática comum e as pessoas acabam por ter um inbreeding da própria informação que recebem e isso acaba por polarizar imenso a conversa e faz com que não haja discussão, porque quando duas pessoas têm uma diferente perceção da mesma realidade, acaba por ser quase impossível trazê-las a um meio-termo.

Luís Oliveira, há pouco falava do episódio do Capitólio. É para si fonte de preocupação aquilo que vai acontecer a seguir ao anúncio do resultado destas eleições?

É um risco, porque nós vimos o que aconteceu e era impensável há quatro anos que uma coisa daquelas pudesse acontecer num país como os Estados Unidos. Eu penso que este ano, o facto de Donald Trump não é o commander in chief, como era há quatro anos, e portanto, a influência que terá no reforço ou não reforço da capacidade militar em resposta a qualquer tipo de insurgimento vai ser muito mais limitada do que era há quatro anos atrás. Também penso que toda a gente já está um pouco mais preparada para essa situação e, portanto, essas duas razões levam-me a pensar que algo semelhante não deverá acontecer. No entanto, acho que temos que esperar e ir reagindo ou ir ajustando à forma como as pessoas vão reagir aos resultados e eventuais alegações de fraude que venham a acontecer e como é que isso vai influenciar emocionalmente a população, é uma incógnita. Mas penso que em termos das instâncias, das instituições, acho que toda a gente estará pelo menos mais preparada se algo desse gênero se vier a concretizar.

Estamos quase no final desta nossa conversa, faltam dois minutos. Como é que avalia esta sua decisão e esta sua experiência de ter decidido imigrar para um país como os Estados Unidos, o líder do mundo livre? O que diria a um português que pensará eventualmente em imigrar, em ir à procura de melhores condições de vida e particularmente para esse país onde está?

Eu acho que é uma aventura extremamente interessante. É um país muito diferente ou tem uma realidade muito diferente da europeia. Acho que a principal recomendação era que tivesse uma thick skin. Os Estados Unidos, e nomeadamente a cidade de Nova York, não é uma cidade convidativa, é uma cidade que nos testa no dia a dia pela sua intensidade, pelas suas características, é uma cidade que nos põe à prova com bastante frequência e, portanto, acho que sem dúvida é uma aventura, acho que é algo que, pelo menos pessoalmente, tem sido extremamente positivo, mas que requer o seu quê de resiliência.

Ficam os conselhos de uma voz que já leva 10 anos de experiência nos Estados Unidos da América. Luís Oliveira, muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador.