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Fomos ouvir agora João Oliveira, eurodeputado da CDU, a quem agradeço também desde já a disponibilidade para estar aqui connosco na Rádio Observador. Obrigado, João Oliveira, bem-vindo. Gostava de lhe perguntar desde já por aquilo que já foi a reação do Partido Comunista Português no Parlamento. Paula Santos, líder parlamentar do PCP, recorda a experiência de Maria Luís Albuquerque num governo que diz que é de má memória e menciona também as responsabilidades que teve, sérias, diz Paula Santos, no corte de salários e pensões. Acha que este é o principal cartão de visita de Maria Luís Albuquerque nesta chegada à Comissária Europeia?
Sim, eu acho que esta escolha que o governo faz para a Comissária Europeia Maria Luís Albuquerque é uma notícia que gera natural preocupação e o justo descontentamento certamente entre os portugueses. Eu diria que esta discussão verdadeiramente só tem utilidade ou só tem interesse se nós perguntarmos pelas políticas que as pessoas defendem. O percurso de cada um, a notoriedade maior ou menor proximidade aos centros de decisão e aos centros de poder, são questões que eventualmente podem suscitar alguma curiosidade, algum interesse, mas são questões secundárias, porque verdadeiramente aquilo que é decisivo para aferir o acerto ou desacerto da escolha que é feita pelo governo é saber quais são as opções políticas que as pessoas defendem, quais são as políticas que em concreto as pessoas que a escolhem defendem.
E acha que neste caso com Maria Luís Albuquerque não sabemos qual é o pensamento europeu, por exemplo?
Eu julgo que teremos oportunidade certamente para fazer essa discussão mais em concreto num momento mais à frente, particularmente quando houver a oportunidade de fazer a audição no Parlamento Europeu da comissária, da proposta de nomeação da comissária. Mas eu diria que olhando para o passado e para as opções políticas que defendeu, eu julgo que há de facto elementos que são elementos de preocupação para os portugueses e elementos que justificam um justo descontentamento. Nós lembramos que Maria Luís Albuquerque foi quem assumiu a pasta das finanças do governo da troika, junto o PSD e CDS, que retirou o dinheiro e os salários dos trabalhadores e das pensões dos reformados e do funcionamento do serviço público e dos subsídios de desemprego e dos setores sociais para ir tapar o buraco dos bancos. Maria Luís Albuquerque é o rosto do escândalo do BES e das opções políticas que o governo tomou de dar cobertura ao escândalo do BES. É o rosto da privatização dos CTT, é o rosto da desgraça em que os hospitais funcionavam nos tempos do governo da troika. É o rosto das injustiças fiscais que foram impostas aos portugueses com uma situação absolutamente indecente, de esbulho fiscal que foi imposto aos trabalhadores e de favorecimento de grupos económicos. E portanto, eu diria que Maria Luís Albuquerque, pelo passado que tem e pelas opções políticas que tomou, é de facto uma péssima escolha e uma péssima notícia como escolha por parte do governo para Comissária Europeia.
João Oliveira, gostava de lhe perguntar tendo em conta esse passado que mencionava agora, independentemente das escolhas tomadas, o facto de ter sido ministra das Finanças numa altura tão difícil para o país, numa altura de resgate financeiro, numa altura da troika, numa altura em que Portugal tinha várias limitações, se isso pode, por outro lado, dar também alguma força à Maria Luís Albuquerque por ter trabalhado em situações tão complicadas e ter agora uma condição mais favorável de trabalho. Isso pode ajudar também, pode de certa forma, por um lado, ser positivo na forma como a Europa vê Maria Luís Albuquerque?
Eu diria que é uma boa notícia para os centros de decisão a quem essas políticas serviram, mas é uma péssima notícia não apenas para o povo português, mas para os povos da Europa. Certamente os bancos, as seguradoras, os especuladores que tiveram nessa política da troika os seus direitos sempre defendidos, respirarão de alívio pela escolha que o governo fez. E terão até elementos de confiança relativamente a Maria Luís Albuquerque e à possibilidade de, a partir da Comissão Europeia, continuar esse trabalho de assegurar os seus interesses. Mas diria eu que esses interesses económicos e financeiros que vivem da desgraça alheia são antagónicos aos interesses que têm os trabalhadores, os reformados, que precisam de aumentos de salários, de aumentos de pensões, de investimento na habitação, de investimento na saúde, de acesso à saúde e à educação de qualidade, que precisam de aproveitamento da capacidade produtiva do país e de um rumo de desenvolvimento soberano que corresponda aos interesses dos trabalhadores e do povo. Eu diria que todos esses veem as suas expectativas defraudadas e, portanto, eu diria que seria uma ilusão deixar alguma margem de expectativa de que, de facto, os interesses dos trabalhadores e do povo possam ser acautelados com estas coisas que o governo fez para a Comissária.
Olhando aqui para outros nomes, falava-se também, por exemplo, de Miguel Poiares Maduro. Tendo em conta os vários nomes que se têm falado, muitos deles associados ao antigo governo de Pedro Passos Coelho, preferia que a escolha tivesse recaído para outro dos nomes?
Repare, parece-me que essa opção, essas alternativas, pertenceriam do mesmo mal, e é o mal que eu identifiquei no início desta nossa conversa. Se a questão central é saber que políticas defendem as pessoas que são escolhidas para estes cargos, e se estamos a falar de pessoas que têm, até do ponto de vista do seu percurso político, exatamente as mesmas opções feitas no mesmo sentido e o apoio às mesmas políticas, eu diria que de pouco servia se em vez de Pedro tivesse sido Paulo ou se em vez de Paulo tivesse sido Luísa. Portanto, eu diria que escolher as pessoas em função dos mesmos critérios de opções políticas e de orientação política daria exatamente o mesmo resultado e suscitaria o mesmo tipo de objeções e preocupações.
João Oliveira, uma última questão. Agora falta saber também que pasta é que Maria Luís Albuquerque vai receber como Comissária Europeia. Muito se tem falado sobre, até pela questão da paridade de género, da possibilidade de ficar com estabilidade financeira, serviços financeiros, mercado de capitais. São pastas que, tendo em conta o histórico de Maria Luís Albuquerque, são as mais indicadas ou pelo menos as mais óbvias?
Eu calculo que entre banqueiros e acionistas de grupos económicos possa haver esse tipo de apostas. Os banqueiros que viram agora no governo da troika quando Maria Luís Albuquerque era ministra das Finanças, os banqueiros e os acionistas de grupos económicos que viram os seus interesses protegidos com aquela política da troika, eu calculo que possam ter a expectativa de que uma vez mais possa ser nessas áreas que ela possa exercer as suas funções. Mas eu insisto, essa opção pode servir aos banqueiros, pode servir aos especuladores, pode servir aos acionistas de grandes grupos económicos, pode servir às perspetivas até das multinacionais e do reforço do seu poder no espaço da União Europeia, não serve nem ao povo português, nem ao outro povo dos estados que integram a União Europeia.