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Alô?

Sim, boa noite.

Sim. Mariana?

Olá, é a Mariana. Chegou agora a Bragança, não é?

Acabado de chegar ao hotel em Bragança. Confirmo. Depois de um dia que começou há alguns quilómetros atrás, em Viana do Castelo, e que já teve umas quantas paragens.

É verdade. Estamos aqui já nesta segunda semana de campanha. O cansaço já está a pesar ou nem por isso?

Sim, agora sim. Agora começa a tornar-se mais exigente e há momentos do dia em que às vezes parece que faltam um bocadinho as forças, mas temos que continuar. Depois há outros também em que a gente pensa que é preciso continuar a caminhar, e é preciso continuar a mostrar a nossa energia e a nossa mensagem, e portanto, vamos em frente.

Dizem-me que come muito pouco na estrada. Tem pouco tempo.

Estou quase a comer aqui uns frutos secos, mas estou neste momento a comer uns frutos secos. E hoje almocei, o que foi ótimo.

Já é um progresso. Tem rotinas que consiga manter quando está na estrada? Ou tem a vida do avesso?

Tenho a vida um bocadinho do avesso, tenho a vida metida dentro de uma mochila. Na verdade, não é de uma mala, é mesmo de uma mochila. Mas há alguns aspetos que se conseguem manter. Tomar pequeno-almoço, por exemplo, beber alguns cafés, que vão sendo cada vez mais, de dia para dia. E o que mais? Pouco mais. Fora essa rotina.

O PS tem tido uma agenda particularmente frenética, não é? Até em comparação com outras campanhas. Acha que isso está a compensar? Sim, pelo menos comparando a agenda com outras campanhas. Por exemplo, há muito contacto de rua. É uma aposta que gosta de fazer, que faz questão de fazer?

Eu não consigo imaginar uma campanha sem ter muito trabalho e sem ter muito contacto de rua. Se nós queremos passar uma mensagem e acreditamos nela, a única forma de passar, além de comícios e da comunicação social, que obviamente é de massas e portanto chega a mais pessoas, mas é estar na rua e tentar ocupar todos os espaços para fazer passar a nossa mensagem. Também há a questão dos comícios, evidentemente, mas os contactos na rua são absolutamente essenciais, com muita energia, com muita alegria, com capacidade também de ouvir as pessoas, embora a um ritmo mais acelerado do que aquilo que gostaríamos, porque o tempo é sempre pouco para o muito que há para fazer, mas acho que é absolutamente essencial estar na rua e ouvir e falar.

Acha que são um bocadinho o seu forte em campanha? Esses contactos.

Não sei se é o meu forte. É uma coisa que eu gosto muito de fazer. Como eu tenho dito, eu antes de vir para a política, tenho 20 anos de profissão numa área em que lido muito com as pessoas, porque os administradores hospitalares nos serviços de saúde lidamos muito com as pessoas. E portanto, se calhar, talvez por isso, as pessoas fiquem até um bocadinho admiradas por essa dimensão. Mas ela é muito natural e tem muito a ver com esse percurso profissional de muitos anos. Porque quando dizem: "é muito intenso." Para mim é normal, na minha perspetiva. Não, o que noto é que agora já são muitos dias com pouco descanso e muito físico. Com muita componente também física, mas o resto acho normal, acho que é assim que tem de ser e estamos entusiasmados. E embora fosse difícil, mais tempo houvesse.

Deixe-me aproveitar para lhe perguntar, porque estava a falar da sua experiência profissional e hoje também falou da experiência do PS. Aproveitou para, suponho eu, lançar uma farpa à campanha de Sebastián Bugallo quando disse que não é preciso ser jovem para defender os jovens, sobretudo quando se tem ideias velhas ou princípios velhos. Foi hoje ainda, há bocadinho, num comício em Guimarães. Por que achou importante deixar essa mensagem? Até porque tem feito uma campanha em que tenta um bocadinho evitar ataques muito diretos, não é? Ou falar sobretudo de ataques a políticas.

Sim, a referência foi dirigida às ideias e não às pessoas. É possível ser jovem e ter ideias velhas, e há quem seja jovem e tenha ideias velhas. E às vezes é preciso também sublinhar isso, chamar a atenção das pessoas que não é apenas a idade cronológica que é relevante e que há um conjunto de aspetos, um conjunto de dimensões que são absolutamente essenciais, não só para se ter essa tal jovialidade, mas sobretudo para fazer o mundo andar para frente, porque não há nada pior do que uma mentalidade retrógrada, digo eu.

Ou seja, acha que Sebastián Bugallo apesar de ser jovem, tem essa mentalidade.

Retrógrada? É uma questão, não será do candidato ou de outros candidatos, é uma questão ideológica. Há partidos que são progressistas, pelo menos coisa se chamam progressistas. Há outras forças políticas que são mais, agora não lhes vou chamar pré-históricos, porque já discutamos essa experiência, mas que são mais arraigadas àquilo que é uma agenda mais conservadora. Não há outra forma de dizer.

E ia lhe perguntar também, lá está, e ainda agora dizia que os ataques não são às pessoas. Acha importante manter essa, há uma imagem sua que é mais afetiva e mais empática, não é tanto de ir propriamente ao choque com outros candidatos. É importante manter essa direção?

Não é uma questão de imagem, é mesmo uma questão de maneira de ser. Se há coisa que me perturba é a violência. E violência não é só a violência física, é violência verbal também Uma coisa é nós às vezes nos entusiasmarmos e falarmos com mais contundência, até sonora ou nas palavras. Outra coisa é o ataque pessoal. Isso acho uma coisa insuportável e acho que a política tem que ser feita com elevação e essa é a minha perspectiva. Eu pelo menos habituei-me a olhar assim para uma série de homens e mulheres da política, de Jorge Sampaio a Lourdes Pintasilgo. São os nossos exemplos.

Ia também fazer uma pergunta em relação ao comício de hoje, porque tivemos Carlos César a pedir paciência sobre estas eleições, naquele sentido de estas eleições não significarem, se correrem bem ao PS, por exemplo, efeitos para o governo. Acha que o PS está com pressa ou nem por isso?

Nós somos um partido democrático e como um partido democrático de democratas, nós respeitamos os resultados eleitorais. Não andamos em campanha para outra coisa que não seja para estas eleições e com os objetivos concretos de afirmar o nosso projeto europeu.

Senta-se assim a responsabilidade grande aos ombros.

Claro, e acho que o presidente do partido disse isso de uma forma muito clara, muito objetiva, numa grande intervenção, como é seu timbre, e destacando aquilo que no fundo é a visão e a orientação para o partido e também para fora do partido, que é para ser claro, porque há por aí quem tenha dito que o PS cria instabilidade. Não cria instabilidade nenhuma. Nós somos respeitadores dos resultados democráticos e portanto, quer o presidente do partido, quer o secretário-geral, foram muito claros. Nós podemos não gostar ou achar que teria sido melhor para os portugueses ter sido feito outro caminho. Nós respeitamos os resultados eleitorais. Sabemos que há um tempo para governar e há um tempo a ser oposição. Agora, como disse o secretário-geral, neste momento somos oposição e portanto queremos ser respeitados enquanto oposição. Isso também me parece bastante evidente. A oposição tem o seu espaço, não é uma não existência.

Certo.

E todos os democratas têm de perceber isso.

Já estou aqui com conversas muito sérias para esta hora da noite. Ia-lhe perguntar se antes de se deitar ainda consegue ler um bocadinho, se vê notícias, tem alguma coisa que goste de fazer ou desliga?

Três ou quatro coisas. Todas bastante íntimas, mas banho frio ajuda bastante a relaxar. Depois, deixar o telemóvel de lado um bocado, depois de falar com a família e tentar ler umas linhas.

Muito bem. Ia só fazer mais uma perguntinha: e quando anda no carro, sei que agora chegou há pouco, mas passamos muitas horas na estrada, o que é que costuma ir a fazer no carro? Há pessoas que gostam de ir a trabalhar, há pessoas que gostam de aproveitar para cumprir.

Sempre a trabalhar. Eu gostava de ir a trabalhar e fazer sempre a trabalhar. Das duas, uma: ou a ler, ou a ouvir, ou preparar um discurso, ou a ler qualquer coisa nas últimas notícias. Não há rádio no carro, mas há notícias a passarem através do telemóvel, não há notícias em direto a serem transmitidas. E é isso. E é viajar em segurança também, que também é importante, e com boa disposição dentro da viatura e preparados para irmos ao ponto seguinte, onde saímos e falamos com as pessoas. É isto.

Muito bem. Não vou empedir-la de descansar mais. Portanto, muito obrigada.

É um gosto. Obrigada. Um beijinho grande.

Muito obrigada. Até amanhã.