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Conosco ao telefone está o Francisco José Viegas, ex-secretário de Estado da Cultura, também editor, e é também nessa condição que o contactamos. Francisco José Viegas, pegando aqui nestas palavras de António Costa, Mega Ferreira fica ligado a uma nova parte da cidade de Lisboa. Mudou essa parte da cidade de Lisboa e com isso a cultura em Portugal?
Bom dia. É uma notícia, para já, muito triste, neste pós-Natal. Eu acho que o António Mega Ferreira foi fundamental para Lisboa, sim, através da Expo 98. Ele era, à sua medida, um homem que amava Lisboa, era um homem de Lisboa. Agora, eu preferia salientar duas ou três coisas de que me lembro e de que não vou esquecer. Para já, a gratidão que eu hei de ter sempre em relação a António Mega Ferreira. Ele foi um criador, um homem de golpes de génio, de grande criatividade. Eu conheci-o como jornalista, ele acolheu-me na altura nas páginas do jornal que ele fazia. Depois, mais tarde, foi buscar a universidade para fazermos a revista Ler, que se deve também a ele, eu disse isso sempre. E como editor, ele teve no Círculo de Leitores um papel decisivo na modernização, na criatividade da edição em Portugal, isto nos anos 80. Depois, de facto, nos anos 90, ele foi decisivo quer na participação portuguesa da Expo 92 em Sevilha, quer depois na Expo 98. E nos últimos tempos, eu recordo o papel do António como autor. Ele foi contista também, tinha dois livros absolutamente deliciosos, "As Caixas Chinesas" e o "Helio, Ventilador de Resende", que foi o seu primeiro livro de contos. É difícil recordar estas coisas à medida que a memória do António passa por mim agora. E nos últimos tempos, ele dedicou-se a uma das suas grandes paixões, que foi Itália. Escreveu vários livros sobre Itália, sobre Roma, escreveu livros sobre literatura, sobre guerras entre escritores, sobre palavras da língua portuguesa, que são os seus derradeiros livros. E eu acho que o António ficará certamente a marcar a criatividade, como um homem absolutamente genial em determinados momentos, capaz de golpes de asa, e que marcaram e vão continuar a marcar a cultura portuguesa. Há coisas que sem ele não teriam sido possíveis. A modernização do Jornal de Letras na altura em que ele era chefe de redação, a criação da revista Ler, que depois eu continuei. E, como eu digo, o seu papel como diretor do Centro Cultural de Belém durante muito tempo.
Francisco, interrompo-o para lhe perguntar, porque esteve aqui a descrever várias dimensões do António Mega Ferreira. Ele tinha essa capacidade de integrar todas essas dimensões da cultura e pensar no impacto que a cultura podia ter depois na sociedade, ou seja, o facto de ser escritor, jornalista, gestor cultural, conseguia ver, não queria usar um clichê, mas a cultura 360, digamos assim?
Sim, de certo modo é isso. Ele não via a cultura como apenas um espetáculo, como hoje se vê, como a manifestação de um desejo de espetáculo. Para já, é preciso notar que o António Mega Ferreira era um homem cultíssimo, quer dizer, nada do que era humano lhe era estranho, nada do que era cultura, objetos culturais e artísticos lhe eram estranhos. A música, por exemplo, era um apaixonado pela música, pela pintura, pelo cinema, pela fotografia. E era essa noção de que nenhum homem culto está só no meio da cultura, ou seja, nada lhe pode ser estranho, que ele foi marcando. Eu acho que aquilo que vai marcar é obviamente o papel do António Mega Ferreira na edição, o papel do António Mega Ferreira na Expo 98, o papel do António Mega Ferreira como criador, como pensador também, porque nenhum destes seus derradeiros livros podem ser esquecidos. Estes livros ultimamente publicados pela Tinta da China e que são, de facto, obra de um homem culto, um homem capaz de relacionar. E isso foi aquilo que foi sempre decisivo e muito marcante na obra do Mega, que foi a capacidade de relacionar, de estabelecer redes, relações, quer afetivas, quer desavindas. Isso foi muito importante. Quer dizer, falar com o António Mega Ferreira era também estabelecer essas relações e os laços que ele criava a partir do nada. E observar o Mega a trabalhar nesse processo criativo foi estimulante e há de ser uma das suas grandes referências.
Entusiasmava também as pessoas que trabalhavam à volta dele com essa dinâmica criativa?
Ele geriu equipas, mobilizou equipas, mobilizou pessoas e pela vida fora, quer com pessoas de quem se sentia próximo, quer com pessoas de quem se foi afastando, ele não deixou de estabelecer laços e de manter esses laços. Ele era também, à sua medida, um homem do Renascimento, que era um período por que ele se apaixonou, também porque se apaixonou por Roma e porque se apaixonou por Itália. Esses últimos livros do António sobre Roma, inclusive é um guia de Roma, são notáveis e dão conta também do espírito do António Mega Ferreira como o homem do Renascimento, o homem que atravessou a política, o jornalismo, foi um dos rostos do célebre jornal Dois, da RTP 2, nos anos em que Fernando Lopes foi diretor do canal dois da RTP. Eu acho que as pessoas que durante os anos 80, 90 e 2000 puderam contactar com o António, não poderão senão ter uma palavra de gratidão. E eu tenho essa palavra de gratidão. Fui sempre uma pessoa grata, apesar de nem sempre estar de acordo com ele, nem sempre estarmos do mesmo lado, mas nunca esqueci essa gratidão em relação ao António.