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Na Rádio Observador temos estado ao longo de todo o fim de semana a acompanhar a sétima convenção da Iniciativa Liberal, que decorre no Centro de Congressos de Lisboa e é um momento de definição do partido. Há três candidaturas à liderança e essa campanha acaba por ser o tema dominante aqui no Centro de Congressos de Lisboa. Vamos falar certamente muito sobre essa campanha e sobre aquilo que pode ser o futuro do partido com o nosso convidado. Temos conosco Miguel Ferreira da Silva, que foi o primeiro presidente da Iniciativa Liberal. Bem-vindo à Rádio Observador. Comigo, na moderação desta entrevista, tenho a Inês André Figueiredo, jornalista de política do Observador. Começaria por lhe falar de João Cotrim Figueiredo, que falou pela primeira vez sobre a campanha eleitoral da Iniciativa Liberal e admitiu que preferia que não tivesse havido uma campanha com tantas questões internas. É presidente, foi o primeiro presidente da Iniciativa Liberal, foi fundador. Não fica desiludido quando olha para aquilo que aconteceu ao longo deste fim de semana?

Não, não fico. Confesso que não, mas também é uma questão de perspectiva. Eu olho para este fim de semana como um momento histórico da IL. Nós desde sempre, desde o início e ao longo das várias direções que tivemos, das várias comissões executivas, dos vários presidentes, houve vários desígnios. Só que nós éramos muito poucos e, portanto, tivemos que nos centrar em um ou dois, porque éramos literalmente poucos. Hoje não somos. Olhando para esta sala, todos nós percebemos que já temos membros mais do que suficientes para ter vários desafios em cima da mesa. O primeiro desafio foi construir o partido, que hoje parece muito fácil, mas na altura não havia nenhum destes novos partidos e foi muito difícil. Foi um desafio muito grande, mas depois houve outros dois desafios muito encadeados um no outro. Por um lado, espalhar a mensagem liberal e representação. Nós em cinco anos enfrentamos sete eleições e o grande desígnio era ter representação. Esse desígnio foi conseguido. Agora estamos a começar um novo ciclo e neste novo ciclo o desígnio é completamente diferente. Portanto, respondendo mais diretamente o possível à sua questão, eu acho que o João esteve, acho não, sei, tenho a convicção, esteve muito bem neste ciclo, conseguiu todos os resultados que todos nós estamos muito gratos.

E neste fim de ciclo, ele fez bem em entrar na campanha nesta reta final?

Eu não fiz, o Carlos não fez, ou pelo menos não fez desta forma. Eu lembro-me quando saí da presidência da Iniciativa Liberal, um bom amigo, com muitas décadas de experiência política, teve a cortesia de me ligar e de me dar um conselho que considero muito pertinente e que segui à risca. Um bom ex-líder é um líder calado e preferencialmente até desaparecido, mas pelo menos calado.

Acha, portanto, que João Cotrim Figueiredo devia ter estado calado?

Acho que foi uma boa opção que eu fiz. Tenho pena que ele não tenha tido um bom amigo que falasse sobre esta nova fase.

Mas João Cotrim Figueiredo esteve calado até aqui e resolveu falar na convenção, no último dia da convenção, a poucas horas da eleição.

Da eleição, exatamente.

Foi como um último trunfo usado na campanha de Rui Rocha?

Não sei, não estou por dentro da campanha e não quero acreditar nisso. Aliás, até vou mais longe. Do que conheço do João, tenho a certeza que ele não se deixaria instrumentalizar no sentido que está aqui implícito na sua pergunta, no melhor sentido da palavra. Eu acho que ele teve uma tentação e, como digo, acho que alguém o devia ter aconselhado de outra forma, porque quando esse meu amigo me deu este conselho de estar calado, confesso que custou muito durante os primeiros dois anos, porque claro, tem vontade de participar na política, portanto, quer falar, mas ele explicou-me por quê. É que um ex-líder ou um líder que está de saída, se fala a favor, está se a apropriar do ciclo que vem a seguir. E se fala contra, está a dividir o partido, porque o cargo de presidente de um partido, cargo de liderança, nós perdemos muita liberdade.

Então, não concorda com João Cotrim Figueiredo quando ele disse ali em cima do palco, no discurso de despedida, que tem o direito e o dever de tornar a opinião clara em público e que foi o que fez?

Não, não concordo. Discordo, porque um líder de um partido, sobretudo quando é líder, mas também no momento imediatamente a seguir e obviamente, durante a saída, todos nós temos que perceber que, quer queiramos, quer não, representamos o partido. Depois, ao fim de dois ou três anos, como é o meu caso, já readquiri alguma da minha liberdade, mas não se tem essa liberdade. Eu vou lhe dar um exemplo concreto para não se pensar que eu estou aqui só a conceptualizar. Hoje é sabido que eu sou liberal social e o deputado José Manéis Pinto é um liberal mais clássico. Nenhum de nós, enquanto líder do partido, alguma vez disse isso, porque ambos sabíamos, e o João também sabe, também foi exemplar nessa matéria, que representamos várias visões liberais. E portanto, seria, no fundo, limitar a participação interna ou a representação, que a liderança escolhesse uma ou outra visão daquilo que é, ainda hoje, uma plataforma de vários liberais.

Mas João Cotrim Figueiredo não o disse enquanto esteve na liderança. Agora deixa um testemunho para a sua sucessão, caso venha a ser aquela que ele apoiou. Está já a condicionar o futuro do partido nessa visão de escolher um lado do liberalismo, digamos assim?

Inês, eu estou tentando dizer, até porque o meu nome também é o mesmo, aquilo que Jesus disse. Ipse dixit, a Inês o disse, não fui eu.

Eu perguntei.

É um facto, pois é um facto inabalável. O João Cotrim, efetivamente, enquanto líder, e repare que embora ele já se tenha demitido, a demissão formal só acontece daqui a umas horas, ele ainda enquanto líder, de facto Tomou uma posição. Tem direito a essa posição? Claro que sim. Todos nós, liberais, somos livres e ele também tem que ser um homem livre.

O Miguel Ferreira da Silva já teve a oportunidade de lhe dizer que ele devia ter ficado calado?

Ainda não tivemos essa oportunidade de nos cruzarmos. Eu não diria isso dessa forma. Não é uma questão de chegar ao Ferreira da Silva e dizer: "Devias ter estado calado". Não, é chegar ao Ferreira da Silva e dizer: "João, nesta fase em que estamos de saída de uma liderança, é importante resguardarmo-nos, até para não prejudicar o legado do partido que ele deixou, que é reconhecido por todos". Nós vimos aqui, toda a sala se levantou a saudar e a agradecer o legado do João Cotrim, que é absolutamente brilhante. Portanto, acho que esta última fase, como digo, acho que lhe faltou ali um bom conselho, digamos assim.

Mas esse aplauso de que falava, estivemos aqui o fim de semana inteiro e vimos que foi provavelmente o maior aplauso da sala, não dá a entender que, se calhar, João Cotrim Figueiredo não está assim tão errado em ter dado a sua opinião quando tem uma sala inteira a levantar-se, mesmo depois de ter feito isto e disto ter sido um tema da campanha interna?

Estivemos aqui, como disse, o fim de semana inteiro e eu vi a primeira parte do discurso do João, em que todos nos levantamos, e eu também, obviamente, muito agradecido. Na segunda parte, em que de facto ele falou das críticas, a sala não reagiu assim, como sabe.

Mas no final do discurso, teve uma sala de pé a aplaudi-lo.

Estamos todos agradecidos à liderança do João Cotrim, mas durante essa parte foi notório o que se passou na sala. Mais uma vez, não está aqui em causa ele ter ou não ter razão. Na minha opinião, não terá nuns casos, poderá ter nos outros e cada um terá a sua opinião sobre essa matéria. Não é isso que está em causa. O que está em causa é que há um legado do nosso deputado único ter conseguido que todos nós estivéssemos unidos para conseguirmos oito deputados e depois estar aqui a debater pequenas questões internas por alguém que está de saída, não me parece que seja bem. Aliás, até acho que prejudica quer a Carla Castro, se ganhar, e prejudica o Rui Rocha, se ganhar.

São pequenas questões internas que, no fundo, foram as únicas que foram aqui discutidas nesta convenção.

Olhe que não.

O que lhe pergunto é se aquilo que João Cotrim Figueiredo fez, mesmo nesse discurso de despedida, em que fez questão de guardar uma parte, ainda que curta, para os críticos, se também aí errou.

É exatamente isso que eu estou a dizer. O João Cotrim, na minha opinião, devia ter falado do seu legado, criar um espírito de união no partido no momento em que nós estamos em eleições disputadas e resguardar-se de manifestar opinião ou de alguma forma participar nesse debate, isto é, deixar livremente que todos nós façamos a nossa opinião.

Já percebemos que concorda muito pouco com aquilo que foi a atuação de João Cotrim Figueiredo nestes últimos tempos, nomeadamente no que diz respeito à luta interna.

Nas últimas horas, porque não foi só no discurso, foi o que aconteceu anteriormente.

Mas concorda com João Cotrim Figueiredo quando ele diz que esperava que Carla Castro tivesse tido a hombridade de lhe fazer as críticas que tem feito na campanha quando eram parceiros de comissão executiva?

Não quero acreditar que ele tenha deixado de fazer ver os seus pontos de vista. Há uma coisa que lhe garanto, eu não estou na comissão executiva desde 2018, não sei o que se passa lá dentro, obviamente. Não é o meu papel, mas há uma coisa que eu notei nos últimos anos, e aliás, por isso é que neste momento decidi encabeçar uma lista ao Conselho Nacional. Nós sempre dissemos que a Iniciativa Liberal é uma maratona, não é um sprint. Não estamos cá para uma eleição, estamos cá, como eu dizia no início, e todos dizem depois também, e bem, estamos cá para 30 ou 40 anos e vamos chegar ao governo. O que se passou nos últimos anos foi que o João é um muito bom gestor. É mesmo, acho que toda a gente reconhece isso. E o João geriu muito bem o esforço colossal que o partido teve para ter estes resultados em vários sprints, em sete sprints eleitorais em apenas cinco anos. Mas isso criou um side effect, um efeito secundário, que foi, se estávamos tão concentrados naquilo que era urgente, se calhar tudo aquilo que era um bocadinho menos urgente, mas podia ser igualmente importante, teve que ser posto de lado. Ou seja, não havia pessoas nem tempo para fazer isso. Não é posto de lado com nenhuma culpa, é porque honestamente não havia mesmo recursos nem pessoas para isso. E tenho a impressão que o João ficou de tal forma centrado, e bem, no projeto que não se terá percebido que era preciso que dentro da equipa houvesse outras pessoas que tratassem dessa outra parte de integrar os membros.

E agora que se aperceberam disso, por que a linha de continuidade que levou a Iniciativa Liberal, como todos o dizem aqui, ao sucesso, não serve?

Por dois motivos. Primeiro, porque a Iniciativa Liberal não está aqui para continuidades. Nunca, jamais. Nós estamos aqui para inovar, sempre, e para ser constantemente insatisfeitos. Portanto, o que quer que nós consigamos alcançar, nunca será suficiente. Nós queremos sempre mais. Repare, ao contrário dos outros partidos que querem distribuir o que há, nós queremos que haja mais para todos os portugueses. E portanto, internamente é normal que aconteça exatamente a mesma coisa. Nós somos naturalmente insatisfeitos, mesmo com ele, devíamos ser.

Mas ser naturalmente insatisfeito significa mudar 99% de uma equipa que teve esse tal sucesso de que vocês falam?

Se calhar eu faço-lhe uma outra pergunta, que é: então acha normal que durante estes cinco anos haja mudanças de liderança tão frequentes e com crescimento do partido e que não haja mudança de equipa?

E o que isso quer dizer?

Não sei, é uma pergunta que eu ponho porque eu próprio não tenho a resposta para isto. Ou seja, como é que é possível haver líderes que consideram que devem sair porque é preciso uma estrutura diferente, uma postura diferente, um esforço diferente, e depois manter-se quase a mesma equipa? Não me parece normal, há aqui qualquer coisa que não está certa.

Ainda não falámos de Rui Rocha. Considera-o um barão caciqueiro?

Não, claro que não. Todos nós conhecemos o Rui. O Rui é uma figura que tem uma intervenção pública, uma intervenção nas redes que todos nós conhecemos, até antes de ser deputado à Pela Iniciativa Liberal, deputado por Braga, com uma campanha absolutamente fantástica. Não, longe disso.

Consegue me dizer o nome de um barão caciqueiro do partido?

Foi Carla Castro que falou em caciques, não fomos nós.

Exatamente, nem eu.

Está a pedir ajuda para identificar um?

Mas posso lhe dizer já uma coisa. Tive o cuidado, no início do partido, todos nós tivemos, mas como sabe, os estatutos foram feitos por mim e pelo Tiago Malhan, literalmente escritos, e uma das nossas preocupações foi essa. Por isso é que na Iniciativa Liberal não existe uma J, conosco os jovens sentam-se na mesa grande. Por isso é que na Iniciativa Liberal não há distritais para agregar núcleos com mais ou menos votos, cada núcleo, cada conselho participa diretamente. Portanto, eu estou longe de falar desses tais baronatos. Eu sou capaz é de lhe dizer outra coisa, que é: a ação de participação dos membros, através dos núcleos ou diretamente junto dos órgãos nacionais, porque éramos poucos, ficou muito centrada na leitura que alguns poucos membros das comissões executivas faziam. E se calhar este é o momento, olhe para a sala, temos aqui mais de 2 mil membros nesta convenção. Na anterior convenção, que elegeu um Conselho Nacional, todos os membros do partido eram menos de 2 mil. Portanto, é normal que seja preciso uma maior abertura das formas de participação. Respondendo mais diretamente à pergunta, que é isso que verdadeiramente quer. Eu não lhe vou dizer o nome de um barão, porque acho que não há barões na IL, todos nós somos iguais.

Então não concorda com a afirmação de Carla Castro?

Deixe-me dizer, vai ver onde eu quero chegar.

Mas é uma questão de sim ou não. Acabou de dizer que não há barões na IL. Carla Castro diz que há.

Não, não é. Repare, na IL, precisamente por termos uma forma bastante diferente, é comum utilizarem-se expressões, e já me ouviu discordar de uma expressão que Tiago Malhan utilizou, embora concorde, no fundo, com o que está implícito, é normal nós utilizarmos expressões que são típicas de outros partidos. Aqui não há barões. Agora, que há pessoas que, provavelmente com a melhor das intenções, mas limitam a quantidade de participação que os membros agora podem ter, porque já não somos 600 ou 2 mil, somos 6 mil, sim, isso é verdade, os processos têm que ser alterados, porque a IL, mais uma vez, está sempre insatisfeita e quer sempre fazer melhor.

Estamos mesmo a chegar ao fim. Deixe-me fazer-lhe uma pergunta, não sei se se apercebeu daquilo que aconteceu. Olhe, agora está Tiago Gonçalves ali em cima do palco, nem de propósito, porque ia lhe perguntar, quando subiu ontem ao palco, agradeceu a João Cotrim Figueiredo e ouve-se nos microfones que o presidente cessante do partido lhe responde, agradece ao Comitê Central, numa referência a uma entrevista que tinha sido dada. Há ou não há um Comitê Central na Iniciativa Liberal? E caso não seja a pessoa que apoia a liderar a próxima equipa, poderá permanecer essa ideia de opacidade.

Já tive a oportunidade de dizer que não concordo com a expressão de Comitê Central. Sei o que ela quer exprimir, obviamente, todos nós percebemos a mensagem.

E concorda com o que quer exprimir ou não?

Não sei, honestamente. Gostava de saber, porque como conselheiro nacional durante este mandato, fiquei com essa dúvida. Fiquei com a dúvida se a comissão executiva, ainda que com a melhor das intenções, quis centrar demasiado a ação na ação externa e se com isso terá, espero que inadvertidamente, não permitido tanta participação dentro do partido.

E entende, vamos dizer assim, boca de Cotrim Figueiredo?

Não, não entendo. Não entendo como é que um líder se permite a dizer isso e muito menos como é que um líder que está de saída e que tem um legado que todos nós celebramos, acaba por, no fundo, sujar a pintura com uma reação excessivamente emocional, que não é digna do João Cotrim que conhecemos. O João Cotrim é uma figura que nós acreditamos que pode participar de um governo. Não é este o João Cotrim que está excessivamente exaltado.

Obrigado, Miguel Ferreira da Silva, primeiro presidente da Iniciativa Liberal, que nos teve a ajudar também a olhar para esta sétima convenção da Iniciativa Liberal. Haveremos de voltar aqui ao Centro de Congressos de Lisboa mais vezes, até porque hoje ainda vamos ter que ouvir o discurso de encerramento desta convenção, que coincide com o primeiro discurso do novo ou da nova líder da Iniciativa Liberal.