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Boa tarde. Aguardamos por Paulo Raimundo, Secretário-Geral do Partido Comunista Português, para esta última entrevista do segundo dia de trabalhos do Congresso do PCP. Eu recordo que a partir das 18h começa a reunião do Comitê Central, ou seja, este congresso partidário é diferente de muitos outros partidos a que costumamos assistir. Aqui há uma parte à porta fechada, que é a reunião do Comitê Central, que vai fazer eleger a direção do Partido Comunista Português, sem que o lugar de secretário-geral esteja em causa. Mas há esse momento à porta fechada, em que o Comitê Central reúne para decidir a direção e também para outras conclusões. Agora sim, já temos conosco Paulo Raimundo, secretário-geral do Partido Comunista Português. Obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós nesta emissão do Observador. É o seu primeiro congresso como secretário-geral. Chegou a confessar que se sentiu à rasca quando o partido decidiu escolhê-lo para esta função. Já se sente confortável no fato de secretário-geral?

Sinto mais confortável, naturalmente. O tempo vai passando, vamos nos habituando e ficamos aqui empenhados a dar um contributo, como estão a fazer estes delegados todos aqui no Congresso.

Já reconheceu que o partido tirou ilações dos resultados que tem tido, dos resultados eleitorais. Pode dar exemplos concretos de coisas que o PCP precisa mudar para encarar os próximos desafios?

Os resultados que tivemos do ponto de vista eleitoral não nos satisfizeram. Ninguém ficou contente, nem transformamos derrotas em vitórias, ao contrário daquilo que se vai dizendo, isso não foi. E, portanto, temos que intervir sobre eles. É nessa base que estamos, temos que intervir sobre eles. E aquilo que temos que fazer é fazer aquilo que estamos a fazer hoje com mais profundidade ainda, mais ligado às pessoas, aos problemas, ligados à realidade da vida, perder menos tempo com a bolha, desculpem a expressão, com a bolha midiática, e centrarmos naquilo que é a realidade da vida e não da propaganda. E eu penso que o Congresso está a dar esse sinal, sinal de um partido que sabe o quadro em que está, sabe que os ventos não estão favoráveis, mas perante esses ventos não favoráveis, não está à espera que os ventos passem. É um partido que está empenhado em enfrentar esses ventos, essa maré forte, ligando-se às pessoas e à vida e intervindo sobre isso. Eu penso que a grande vida deste Congresso é exatamente essa. E aí está o segredo de aumentar a influência social, política e também eleitoral do PCP, que tanta falta faz ao nosso povo e ao trabalhador.

Falando do seu primeiro discurso neste Congresso, acusou o PS de ser cúmplice da direita. Eu sei que normalmente o PCP diz que não tem ilusões sobre protagonistas específicos, mas acha que acabou aquela fama que Pedro Nuno Santos vinha cultivando de ser uma espécie de líder dos socialistas mais à esquerda?

Não, se me permite corrigir a expressão, eu não acusei nada. Eu apenas referi fatos.

Constatou.

Constatei, não há erro. É um fato, é uma constatação que o PS viabilizou o orçamento de Estado do PSD do CDS. Ou seja, ao viabilizar, torna-se cúmplice das opções que foram tomadas. E fez uma coisa pior, no nosso entender. É que não só passou a ser cúmplice das opções políticas, como possibilitou ao Chega e à Iniciativa Liberal se libertassem de ter que votar a favor de um orçamento com o qual estão de acordo, como sabemos. Isso constatei. Aliás, e constatei uma outra coisa na intervenção que fiz: é que o Partido Socialista votou favoravelmente à descida do IRC, como sabem, que é uma medida com a qual nós estamos profundamente contra. Achamos que não tem efeito nenhum na vida das pessoas a não ser nos lucros das empresas. E constatei essa questão. Eu, como sabe, não tenho por hábito falar de pessoa A, B ou C, e eu penso que o PS demonstrou aquilo que vem.

Nós perguntamos porque é um protagonista que tinha cultivado precisamente essa ideia de que ia, enfim, quando chegasse-

Teria cultivado essa ideia alguém.

O PCP nunca acreditou propriamente nessa mais esquerdista de Pedro Passos Coelho.

Não, é como lhe digo, com toda a sinceridade e franqueza, procurarei manter esta linha de raciocínio de não é pessoa A, B ou C, o que interessa é as opções políticas e aquilo que determina. E o que determina não é a vontade do A, B ou C, o que determina é a opção política de fundo. E o PS, constatando um fato, o que fez foi isso, viabilizar o orçamento PSD/CDS, um orçamento de desastre, e associar-se à política que está em curso. E vai ser responsável. Não é só um problema de se ter associado agora, é que vai ser responsável pelas consequências que vão ter, inevitáveis, dessas opções de fundo político.

Permitiu que outros partidos da direita, como o Chega e a Iniciativa Liberal, tomassem espaço na oposição.

Já viu o favor que o PS lhes fez, libertando-os de ter que votar a favor de um orçamento com o qual estão de acordo, estão comprometidos até, desculpem a expressão. Pronto.

Admitiu que o PCP não fez tudo para evitar percepções erradas no caso da Ucrânia. O que faria diferente ao dia de hoje?

Não, sabe, nós somos, para o bem e para o mal, eu acho que é para o bem, procuramos ser o mais rigorosos possível na análise que fazemos. As vírgulas contam, as vírgulas contam nestas coisas. E eu penso que nós fomos profundamente injustiçados a partir das opiniões que avançamos. É claro que hoje, já passaram dois anos, e hoje é mais difícil pôr em causa a posição que tomamos naquela altura, porque a realidade veio nos dar razão, infelizmente. Mas lá está, pronto, nós podemos sempre encontrar outras formas de passar a mensagem, com mais precisão.

Mas era isso que lhe queríamos perguntar. Ou seja, houve algum erro de mensagem que consiga tentar agora?

Não me parece. Quer dizer, é daquelas coisas, passado este tempo, havia sempre, eventualmente, outras formas de dizer o mesmo. Só que foi aquilo que nós dissemos. E aquilo que nós dissemos, na questão central, está atualíssima e infelizmente, está-se a demonstrar que mais uma vez o PCP tinha razão. Eu até gostava que nós não tivéssemos tido razão

Sobre essa questão, tem frisado muito que não só a questão da paz, de não prolongar eternamente a guerra, como até dos efeitos, por exemplo, em termos de investimento em políticas sociais, que são desviados para a economia de guerra, como tem referido. Mas na altura também era muito criticado por ou omissões ou referências mais de passagem ao papel da Rússia. Não acha que foi também por aí feito criticado?

Não, eu acho que isso foi empolado, porque o que nós dissemos na altura foram três coisas, de uma forma muito rápida. A guerra não tinha começado naquele dia, ainda que tivesse ganhado uma escalada muito grande no dia 22 de fevereiro de 2022, inclusive com a entrada das tropas russas em território ucraniano. A segunda questão, os intervenientes na guerra não eram a Rússia e a Ucrânia. Havia outros intervenientes na guerra. E a terceira questão, que era a questão fundamental, é que era preciso que todos se movimentassem para, não tendo sido possível evitá-la, que a travassem o mais depressa possível. Ora, a opção foi toda ao contrário. E nós chegamos a uma situação em que, se quisermos, 16 anos depois, e de forma mais viva, dois anos depois, com milhares de mortos, não sabemos quantos são, com um país destruído, com milhares de mortos de um lado e do outro, naturalmente, com um país destruído, e só espero é que nós resolvamos isto rapidamente para que não cheguemos a uma situação em que depois destes mortos todos, depois desta destruição toda, tudo acabe da mesma forma como começou.

Sobre as eleições autárquicas, que são as próximas que os partidos vão enfrentar, disse que quem não está preocupado anda distraído.

Claro.

Não está a colocar a fasquia demasiado alta quando diz que para além de manter as 19 autarquias de CDU, quer reconquistar outras?

Mas por quê? Nós temos essa ambição, justa ambição. Até se quiser, posso brincar, diria assim: nós temos 19 autarquias, temos um trabalho de provas dadas, trabalho desenvolvido, um projeto que é incomparável com outros. Aliás, nós até queremos que se compare o nosso projeto, a nossa obra, com o projeto e a obra de outros, e portanto, isso dá-nos muita confiança, confiança das populações, confiança do nosso trabalho. E é verdade, é um facto, que nós temos 11 das 19 autarquias que vão ter que trocar de cabeça de lista. Mas se quiser, em tom de brincadeira, se isso fosse condição para perdermos, então eu diria que podemos estar perante um grande resultado histórico, porque o PS vai ter que mudar 50 e, portanto, nós ganhamos as 50, já viu o balanço que isso dá. Não, nós estamos muito confiantes, estamos sinceramente muito confiantes pelo trabalho que temos, pela ligação que temos às populações, e eu acho que são justas as, diria assim, a perspetiva de poder ir mais longe.

Mas digamos que o objetivo mínimo é manter as que tem, estancar a perda eleitoral.

Eu percebo a pergunta, porque as eleições autárquicas são um ato eleitoral e portanto, só que as eleições autárquicas têm uma particularidade. Aliás, têm várias, mas há uma em concreto: são 308 batalhas eleitorais. Muitas delas definem-se a partir de aspetos locais muito concretos e portanto não há nenhuma eleição autárquica que eu me lembre, posso estar enganado, onde todos os partidos não tenham perdido ou não tenham ganho. Não estou a falar ganho do ponto de vista nacional, é ganho esta ou aquela autarquia, perdido aquela autarquia. A nossa experiência também é essa. Na altura em que perdemos, também ganhamos. Na altura em que ganhamos, também perdemos. Portanto, estamos mãos para estas batalhas.

Teme que neste, e agora aproveitando uma coisa que o João Ferreira dizia ainda agora aqui no palco do Congresso, falava de que há um descontentamento da população que pode ser aproveitado, por forças acho que reacionárias, era a palavra que ele usava. A minha pergunta é se nestas autárquicas teme que haja esse descontentamento se traduza em votos, por exemplo, em forças como o Chega.

Vamos lá ver. Eu não temo nada. O que cabe a mim, a mim, a meu partido, à força-

No sentido se acha que é um risco grande nestas autárquicas.

À grande força popular, do ponto de vista autárquico, que é a CDU, o que nos cabe é afirmar nossas propostas, os nossos candidatos, os nossos projetos, as soluções que temos para o poder local, e cada um vai ter que fazer o mesmo, e depois as pessoas vão optar. As pessoas depois vão optar.

Não acha que haja um risco acrescido por causa desse descontentamento que falava das populações?

Não me parece, não é acrescido nem deixar de ser acrescido. Eu acho é que nós não podemos partir para as eleições autárquicas voltando a fazer um frete, desculpem a expressão, ao Chega, colocando o Chega já como se fosse o alfa e o ômega das eleições autárquicas. Conosco, farei, para além deste sublinhado que fiz agora, farei um esforço muito grande para não dar mais esse palanque ao Chega.

Há também outro ato eleitoral mais distante, mas deste ciclo político, que são as presidenciais, já se está a rir. O PCP já disse que vai decidir a forma de intervir a seu tempo nestas eleições. A minha pergunta é o que é que lhe parecem os nomes que têm vindo a ser ventilados à esquerda? Mário Centeno, António Vitorino, Augusto Santos Silva, António José Seguro, algum deles seria uma boa hipótese para corporizar essa intervenção do PCP?

Olha, eu acho que é nomes a mais pra um apenas lugar, não é? E, portanto, estamos nesta fase ainda. Sinceramente, acho que até me custa perceber o alcance de tanta insistência, não é nesta nossa conversa, é do ponto de vista geral, a insistência na questão das presidenciais. Há tantos problemas pra resolver, os salários, as pensões, o acesso ao Serviço Nacional de Saúde, as questões do acesso à habitação, as dificuldades das pessoas. As pessoas estão muito longe dessa preocupação das presidenciais. Nós, se me permite...

Há pré-candidatos que estão já com vontade que se fale nisso.

Lá está, quanto mais falar nisso, mais eles põem bicos de peste, desculpem a expressão. Não é desvalorizar nenhum dos nomes, não é isso. Mas resolvam o problema dos salários das pessoas. Resolvam o problema das pensões. Resolvam o problema de 7 milhões de pessoas, que é isso que estamos a falar quando falamos de trabalhadores e pensionistas. Caramba, penso que é justo sublinhar que as presidenciais será das últimas preocupações que existem.

Do dia a dia. Posso depreender pelas suas palavras que com este lote de candidatos que se fala, o PCP terá que apresentar o seu candidato?

Não, o PCP irá decidir a forma de participar, sendo que o PCP não vai prescindir de intervir no quadro das presidenciais. A forma como vai fazer, veremos.

Já vários secretários-gerais do PCP acabaram por ser candidatos presidenciais. Admite também essa possibilidade?

Nós não dizemos nunca nenhuma tarefa do partido, mas eu penso que nós, a seu tempo, sem precipitação, encontraremos as soluções para esta batalha.

Não era um bom teste também à sua liderança, se nascesse das presidenciais?

Julgo que há testes mais exigentes e mais necessários. Olhe, desculpem a insistência, salários, pensões, Serviço Nacional de Saúde, habitação, direitos das crianças, rede pública de creches. Esses são as grandes batalhas das grandes exigências.

Paulo Raimundo, obrigado pela disponibilidade por se juntar a nós esta emissão d'O Observador aqui no Congresso do PCP. Estaremos também de regresso em breve com mais entrevistas, análises e comentário a este segundo dia de trabalhos do PCP.