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Conosco está também o Bruno Cardoso Reis, historiador, investigador, especialista em assuntos internacionais. Bruno, partilhas desta opinião de que não é líquido que a União Nacional não venha a alcançar esse grande objetivo de conseguir a maioria absoluta?
Sim, acho que essa possibilidade existe e fará muita diferença realmente se não o consegue por poucos, ou se não o consegue por muitos. Uma coisa é ter 220, 215 deputados, que muitas previsões apontavam, outra coisa é estar muito próximo deste número mágico dos 289, sendo que aí depois há sempre a possibilidade de procurar caçar alguns deputados da direita mais convencional. Portanto, sim, acho que isso é possível. Como também já foi referido, temos aqui este dato já objetivo, que é pela primeira vez a Frente Nacional elege nos departamentos do ultramar, que à partida são departamentos multirraciais, em que o tipo de argumentos tradicionais destes partidos da família Le Pen não pegava muito. Realmente é significativo que tenha pegado alguma coisa, que tenha pegado o suficiente pra eleger deputados. Teremos de ver. À partida, todas as sondagens apontam para que isso não aconteça, mas vamos ver, inclusive esta questão da mobilização.
Como é que interpretas esta mobilização na segunda volta?
Há aqui duas interpretações possíveis. Uma é, se olharmos pro passado mais recente, em França ou nos Estados Unidos, no fundo é uma mobilização polarizada e simétrica, ou seja, quer o polo mais à esquerda, quer o polo mais à direita, vão votar. Por exemplo, nas últimas eleições presidenciais americanas foi isso que aconteceu. Nunca ninguém tinha perdido umas eleições americanas com tantos votos como Trump e também nunca ninguém tinha ganho com tantos votos, em termos de número de pessoas, de número de votantes, como Biden. Outra possibilidade é a França de 1981. Aliás, os resultados estão muito próximos disso, ou seja, a grande viragem na Quinta República, em que pela primeira vez a esquerda consegue chegar ao poder com Mitterrand, neste contexto do pós-1958, em que durante um período muito longo foi a direita gaullista que predominou. Portanto, pode ser esse cenário, ter havido aqui realmente uma mobilização assimétrica, ou seja, mais gente da Frente Nacional que se convence desta vez é que é mesmo possível, e se for assim, isso pode fazer as sondagens errarem, porque as sondagens também assentam num certo padrão histórico e em momentos de mudança, como temos visto várias vezes nos últimos anos, falham.
Falta muito pouco para ficarmos a conhecer não os resultados finais, mas as projeções à boca da urna. Faltam três minutos para o encerramento das assembleias de voto, as últimas assembleias de voto em França, já que nem todas encerram à mesma hora. Paris, por exemplo, sim, onde há uma maior densidade populacional, o encerramento às 20h, 19h em Lisboa, e a essa hora precisamente são avançadas as projeções à boca da urna e a Cátia Bruno, enviada especial d'"O Observador", há pouco dizia aqui que normalmente essas projeções à boca da urna não diferem muito dos resultados finais. Averiguamos daqui a dois minutos e meio quais os indicadores apontados por estas sondagens. Tiago André Lopes, essa pergunta: temos hoje uma sociedade francesa mais polarizada?
Temos, isso parece-me que temos, e é muito efeito também obviamente de Macron a tentar jogar ao centro sozinho, acabou por secar muitas das ideias que havia de centro-direita e centro-esquerda, e esse posicionamento acabou por radicalizar o espectro político. Não é um fenômeno exclusivamente francês. Nós estamos a ver o mesmo, por exemplo, em Espanha ou na Grécia, estamos a ver efeitos similares com o aparecimento de novas configurações políticas que se vão cada vez mais apresentando como ou a extrema esquerda ou a extrema direita, ou na chamada direita dura e esquerda dura, porque evitam o centro, porque o centro pela sua indefinição, porque joga na nuance, a nuance é difícil, por exemplo, de comunicar na era das redes sociais. E é por isso que nós estamos a ver esta espécie de desaparecimento do centro, porque ao nível da comunicação política, o centro ainda não conseguiu adaptar-se ao novo eleitorado e às novas formas de fazer comunicação política. Eu acho que é muito aí que vem a radicalização. Além disso, o centro-direita a centro-esquerda tem dominado a vida política francesa e não tem sido capaz, em todos os momentos, de dar respostas eficazes. E eu acho que hoje também é um dos fatores que vai levar o eleitorado às urnas e o vai fazer escolher, é muito a percepção de indicadores como segurança, como poder de compra, expectativa de vida ou a ideia de que se perdeu o controle e que é preciso uma espécie de travão e uma espécie de voltar atrás, se é que voltar atrás for de fato possível.
É uma realidade transversal a outros países, presumo, na Europa e não só em França.
Eu diria que é uma realidade que está em curso em todo lado e portanto agora é só uma questão de esperarmos pra ver o que é que nos diz os primeiros resultados e esperarmos pra ver o que é que vai de fato acontecer e de que modo é que vamos ter ou não um parlamento que permita a governação da extrema-direita, que volto a dizer, é mais branda. Agora, esta polarização é sintomática um pouco por toda a Europa. Não é por acaso que nas últimas eleições europeias nós tivemos 17 dos 27 países a eleger deputados de extrema-direita e de extrema-esquerda.
Ora, estamos em cima das 19h, 20h em França, Paris. As assembleias de voto já estão encerradas e nesta altura são avançadas as primeiras projeções à boca da urna.
Uma grande surpresa.
Grande surpresa, precisamente. Então Bruno, força
Aparentemente, de acordo com as sondagens à boca das urnas, realmente quem vence é a Nova Frente Popular, ou seja, é o bloco das esquerdas e não este novo partido dos Le Pen, o Rassemblement National, a União Nacional. As estimativas são entre 172 e 192 para a Nova Frente Popular. O partido Macron aparece em segundo, portanto, são duas surpresas. Este Ensemble, este grupo mais centrista entre 150 e 170, e o Rassemblement National, esta União Nacional, teria entre 132 e 152.
É uma grande surpresa. A confirmar-se será de facto uma grande surpresa e uma grande queda face aquelas que eram as projeções para a União Nacional.
Como também dizia a Cátia Bruno ainda há pouco, realmente estas sondagens à boca das urnas costumam ser bastante fiáveis em França, mas eu gosto sempre de salientar que estamos em tempos muito incertos politicamente e, portanto, por vezes as sondagens até à boca das urnas acabam por errar alguma coisa, mas a ser assim, é realmente uma grande surpresa e um resultado bastante imprevisto, que valida aquilo que estávamos a dizer aqui, o cuidado que há que ter em fazer previsões antes de resultados.
Sendo Bruno Cardoso Reis, que à esquerda e entre a coligação Nova Frente Popular e a França Insubmissa, se bem vejo, que consegue eleger o maior número de deputados à partida.
Sim, o que estamos a ver entre 68 e 74 seriam desta França Insubmissa, 63 a 69 o PS, os Ecologistas 32 a 36 e depois o Partido Comunista entre 10 e 12. Isso também não é irrelevante, ou seja, ser este bloco de Mélenchon, à partida, um bloco mais à esquerda, eventualmente pode tornar mais difícil a soma.
E a não escolha, eventualmente, Mélenchon para primeiro-ministro.
Exato. Sendo que, apesar de tudo, temos de pensar que se este bloco mais centrista, de centro-esquerda, centro-direita, em torno de Macron ou Ensemble, se tiver realmente um resultado deste centro, 150, 170, pode ir buscar a esquerda moderada, o Partido Socialista, os Ecologistas, etc., e realmente deixar cair a França Insubmissa. À partida, teríamos de ver depois exatamente os resultados finais e se a soma realmente chega aos 289 ou não, mas pelo menos teria alguma autoridade política pra apresentar um governo nesses termos e eventualmente desafiar o bloco de Mélenchon a votar contra um governo desse tipo e eventualmente arriscar dar mais força ao partido dos Le Pen.
Tiago André Lopes, de queixo caído?
De queixo caído, mas acima de tudo estava a tentar fazer contas mentais enquanto o Bruno falava e tentar perceber que tipo de governo é que pode sair disto. E a verdade é que, à partida, com estes resultados e a confirmar-se, e tal como dizia o Bruno Cardoso Reis, e eu acompanho, em momentos de transição, as sondagens tendencialmente tendem a falhar de forma estrepitosa e pode acontecer aqui surpresas ao longo da noite. Mas se se confirmarem estas sondagens e se esta for a configuração final do Parlamento, ou teremos um governo de minoria, um governo minoritário com apoio parlamentar, ou dificilmente eu estou a ver qualquer um destes campos conseguir chegar a uma aproximação para formar qualquer forma de entendimento. Eu não acredito que Macron esteja disponível para fazer uma coligação com Mélenchon, o que vai deixar cair os 289. Eu não acredito que mesmo somando nesta fase o Rassemblement com os Republicanos não dá os 289 e podemos ter aqui, sim, um governo minoritário e podemos ter termos políticos muito difíceis em França, acima de tudo ao nível da decisão política, porque vamos assistir a um jogo de bloqueios em permanência no Parlamento francês.
Sim, Bruno Cardoso Reis, difícil esta política de alianças?
Sim, no fundo, isso parecia aqui a aposta mais segura, que ia ser muito difícil formar governo, ia ser muito difícil qualquer dos blocos ter uma maioria coesa, com alguma coesão ideológica com os tais 289 deputados. Nesse aspecto, sim, apesar de tudo, eu diria, faz bastante diferença se tivermos esta ordem de grupos mais votados. Se for em primeiro lugar o grupo mais à esquerda, depois a seguir o grupo centrista de Macron, eu diria que isso ainda é uma surpresa maior, e em terceiro lugar apenas a União Nacional, o partido dos Le Pen. Isso realmente reduz a margem de manobra política do grupo político da família Le Pen pra reclamar, pra dizer que estão a ser injustamente excluídos do poder, etc. Agora, aumenta a responsabilidade deste grupo mais centrista e do grupo mais à esquerda tentar chegar a algum tipo de acordo. Mas em todo caso, eu considero que a grande questão e que o grande problema será realmente ter um governo minimamente estável, com um programa coeso e também, sobretudo pra quem olha de fora, apesar de tudo, eu diria, há aqui uma notícia relativamente boa neste sentido. Isto dá menos margem, mais uma vez, para a contestação àquilo que tem sido a política da França, quer em termos de União Europeia, quer em termos do apoio à Ucrânia. Temos aqui um grande bloco, aparentemente, porque ainda haveria que somar também os Republicanos, embora, realmente, como dizia o Tiago também, não parece, mesmo assim, ser suficiente este bloco de esquerda mais moderada, de centro moderado e de uma direita que não se identifica com o Rassemblement National, mas apesar de tudo, isso daria alguma margem maior ao presidente Macron, que continua a ter o chamado domínio reservado, continua a ter poderes importantes formais na defesa e na política externa. É ele, por exemplo, que tem assento no Conselho Europeu, dá-lhe mais margem realmente para manter alguma continuidade nessas prioridades. Agora, não dá grande margem para tomar novas iniciativas, medidas mais ambiciosas. Este risco de algum caos político em França e de uma certa paralisia na Europa, isso acho que se mantém, realmente.
Tiago André Lopes, e parece que de facto a elevada participação nesta segunda volta acabou por beneficiar a esquerda. Foi o eleitorado de esquerda que mais se terá mobilizado para este ato eleitoral.
Ao que parece, se se confirmarem de facto estas sondagens, o eleitorado de esquerda mobilizou-se melhor e de forma mais rápida, portanto, terá conseguido ganhar a iniciativa e a dinâmica eleitoral. E o primeiro resultado interessante que saiu é já confirmado a Hollande.
Tiago, peço desculpa, já retomas o teu raciocínio. Vamos ouvir Jean-Luc Mélenchon, que nesta altura faz uma primeira declaração. Vamos escutar a boleia da CNN Portugal.
Magnífico movimento cívico que fezmo-nos. O Rassemblement National que hoje está longe de conseguir a maioria absoluta que todos lhe davam. É um tremendo alívio para a esmagadora maioria de pessoas no nosso país, uma nova França constituída por todos aqueles que sempre amaram este país. Essas pessoas ganharam. Com estes boletins de voto, uma maioria fez outra escolha para o país. A vontade do povo deve ser a partir de agora estritamente respeitada. Nenhum refúgio, arranjo ou combinação pode ser aceitável. As lições do voto não deixam dúvidas. A derrota do presidente da República e da sua coligação está claramente confirmada. O presidente deve admitir esta derrota sem contorná-la de qualquer forma que seja. O primeiro-ministro deve ir embora. Nunca recebeu, de facto, a confiança em nacional. Acaba de dirigir a campanha que perdeu no seu campo político. O presidente tem o poder, tem o dever de chamar a nova Frente Popular para governar.
Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, um dos partidos que integra a coligação Nova Frente Popular de Esquerda, que de acordo com as projeções à boca da urna, venceu esta segunda volta das eleições legislativas em França, deve eleger entre 172 a 192 deputados. Retomo o contato com Tiago André Lopes. Tiago, antes de Jean-Luc Mélenchon, falávamos sobre o eleitorado que se mobilizou para esta segunda volta e que, aparentemente, a confirmarem-se estes resultados, terá votado mais nos partidos à esquerda, terá sido o eleitorado de esquerda que mais se mobilizou para este ato eleitoral. E pedia também um comentário a esta declaração feita por Jean-Luc Mélenchon.
Eu até começaria pelo comentário, que acho que é o mais interessante agora e o mais atual, olharmos para o que disse Mélenchon. São palavras audaciosas, mas arriscadas. Mélenchon pediu a Macron que se inclinasse, que fizesse venha aos resultados, aceitasse a derrota e que chamasse a Nova Frente Popular para formar governo. Ora, a Nova Frente Popular, apesar de chegar em primeiro lugar, dificilmente vai conseguir consensos parlamentares alargados para passar iniciativas legislativas de forma fácil. Portanto, esse vai ser o primeiro desafio. Há, de facto, uma derrota a partir de Macron, mas se Macron tiver conseguido chegar com o seu partido em segundo lugar, se o Ensemble, a sua coligação, tiver chegado em segundo lugar, para Macron há um sentimento de uma derrota menor. E isso eu acho que vai ser curioso ao longo da noite. Se Macron, de facto, como está suposto, não vai falar, não é previsível que fale esta noite, pelo menos segundo os ministérios franceses, não está previsto haver declarações do Palácio do Eliseu, mas isso agora pode mudar, porque com estes resultados pode haver vontade, afinal, da presidência de falar ao país e de explicar para que ponto é que se vai agora, para que momento é que se vai agora. Mas parece, de facto, que a confirmar, e nós vamos continuar a insistir nisto durante mais uma hora, meia hora que seja, enquanto não houver resultados palpáveis e tangíveis, porque já vimos projeções também, por vezes, não serem tão coerentes no resultado final quanto isso. Portanto, é ainda arriscado. Agora, parece, de facto, se for para aqui, que houve um trabalho à esquerda e ao centro-esquerda, e ao centro-direita também, com o Ensemble, muito eficaz de barrar a extrema-direita. E o último dado que eu queria dar, que era o primeiro que ia dar há pouco, é só para apontamento, que François Hollande já está eleito, portanto, um histórico do Partido Socialista. O Partido Socialista, contudo, nesta plataforma de esquerda, ficará em segundo e não em primeiro. Vai ser, em princípio, a França Insubmissa que vai ter mais deputados e isso é que poderá dificultar depois o jogo de coligações.
Bruno Cardoso Reis, analise também esta primeira declaração de Jean-Luc Mélenchon.
Sim. Bem, começando pela questão da participação, realmente confirma-se a segunda tese, no fundo, uma mobilização assimétrica, neste caso mais à esquerda e ao centro do que da direita mais radical. Depois, eu estava aqui a ver, por exemplo, o próprio Le Monde, que é um jornal de esquerda, não é de referência, mas de esquerda, não é todo um jornal de direita. O título que dá é A Nova Frente Popular ligeiramente à frente do Ensemble, ou seja, do grupo centrista de Macron e do Rassemblement National, ou seja, o partido de Le Pen. Os resultados são realmente muito próximos, mesmo na repartição de votos à esquerda, as estimativas são 68 a 74 pra França Insubmissa, 63 a 69 pro PS e depois então claramente mais abaixo entre 32 e 36 pros ecologistas. Portanto, eu diria aquilo que é relevante e revelador também é Mélenchon vir reclamar uma grande vitória. Quer dizer, quem o ouviu, parece que o partido dele arrasou, conquistou uma maioria absoluta no Parlamento. Ora, tá muito longe de ser isso. No fundo, nós temos três blocos muito próximos. E, portanto, a única forma de haver aqui um governo com alguma força é realmente tentar somar os moderados à esquerda e os moderados ao centro, vamos dizer assim, os moderados desta Nova Frente Popular e do partido de Macron.
Parece tarefa difícil.
Tem uma dificuldade que é, desde logo, Mélenchon, portanto ele já está a condicionar. Aparece aqui como a voz da Frente Popular. E, portanto, ele realmente é alguém que quer claramente assumir esse papel de liderança, de protagonismo. Sempre teve essa ambição, sempre teve também essa característica de personalidade. Por outro lado, diga-se também, não se vê muito bem. Portanto, como dizia o Tiago, o Macron será que vai conseguir ficar calado, como diz que ia ficar durante o dia de hoje? Realmente ele caracteriza-se muito pela hiperatividade política. Não é bem alguém como Mitterrand ou como Chirac, que eram já estadistas veteranos com muita experiência e portanto podiam gerir a coabitação com um certo retiro duma política mais ativa. Vamos ver se isso também não é aqui um fator adicional, mas realmente o ponto fundamental é Mélenchon quer claramente condicionar aqui a agenda política, desde logo desta Nova Frente Popular, mas não tem realmente nem os votos, nem os deputados para conseguir fazer isso garantidamente. Agora, pode criar muitas dificuldades, realmente.
Ficas com a ideia que Mélenchon quer ser ele o convidado a formar governo por parte do presidente francês? Destas palavras consegues inferir isso?
Quer dizer, não sei se é isso. Eu acho que ele não se importaria de ser ele a puxar os cordelinhos, vamos dizer assim. Agora claramente quer ter aqui uma palavra decisiva em termos de, nomeadamente este agrupamento das esquerdas, e quer condicionar também a ação do presidente Macron. Mas realmente, como eu digo, quem o ouvisse parecia que ele tinha ganho com maioria absoluta. Ora, não é todo o caso. Para já e de acordo com esta sondagem à boca das urnas, estes resultados próximos significam que se calhar vamos ter de aguardar algum tempo à medida que a noite evoluir pra perceber exatamente se esta ordem se mantém, primeiro, segundo, terceiro, nesta ordem, com que resultados exatamente, e também os equilíbrios dentro desta Nova Frente Popular entre o PS e a França Insubmissa. Tudo isso pode ainda mudar, mas Mélenchon claramente não quer esperar, quer desde já condicionar as coisas.
Sendo que aqui os intervalos, quer dizer, a Nova Frente Popular de acordo com esta projeção, consegue entre 172 a 192 deputados, o intervalo do Ensemble no máximo consegue 170 deputados, portanto abaixo do limiar mínimo de resultados da Nova Frente Popular. Quanto à Frente Nacional, consegue no máximo 152 deputados, o Ensemble no mínimo 150. Portanto, a confirmar-se dificilmente se alterará a ordem da situação.
Sim, claro, se as sondagens se confirmarem. E entre caso e só uma última nota, que é: aqui também é uma questão de expectativas. Eu acho que claramente a grande derrotada a confirmarem-se minimamente estes resultados, se não houver aqui uma oscilação enorme, um erro enorme nas sondagens à boca das urnas, que não tem acontecido nos últimos anos, é realmente a Frente Nacional, quer dizer, passou de vencedora garantida, a questão era saber até se teria-
Se teria maioria absoluta ou não
...maioria absoluta próximo disso ou não, para o terceiro bloco, e portanto como uma clara derrotada. E isso também altera um pouco aqui os dados desta gestão de um certo caos político, da dificuldade de criar um governo estável em França.
Tiago André Lopes, eu retomo uma pergunta feita ainda antes de ser conhecida esta projeção, que era se terá sido acertada a estratégia da Nova Frente Popular e do Ensemble de desistirem de candidaturas em círculos onde tinham menos possibilidades de virem a ser eleitos, isto para tentar evitar a eleição dos candidatos da União Nacional.
Eu vou ter que lhe dar duas respostas a essa questão. Pelas sondagens, sim. Pelos resultados já confirmados para já, não. Porque a verdade é que pra já nos resultados já confirmados, ou seja, resultados já fechados, está a liderar pra já o Rassemblement National. Tem já 121 deputados eleitos, enquanto que o Ensemble tem 86 e a Nova Frente Popular tem 84. É óbvio que muito possivelmente a Nova Frente Popular vai eleger bastante em Paris, por exemplo, vai eleger os grandes círculos urbanos que demoram um pouco mais a fazer contagem, mas neste primeiro momento, os indicadores ainda não estão a acompanhar as sondagens dentro daquilo que já está eleito. Mas a confirmar-se as sondagens, e é possível que venha a confirmar parcialmente, parece que foi uma estratégia acertada. O único cuja estratégia é menos acertada acaba por ser Macron, porque se Macron quis lançar uma espécie de renovação do sistema político, aquilo que ganhou agora foi um sistema político ainda mais difícil de controlar e que lhe vai tirar o que dizia há pouco o Bruno Cardoso Reis, e que eu acompanho 100%: vai lhe tirar acima de tudo a capacidade de novas iniciativas. Não lhe tira poder político, não lhe tira o domínio reservado, mas tira-lhe a capacidade de forçar o Parlamento a aprovar coisas que estes blocos não concordem, porque estes blocos a partir de agora vão jogar tacitamente política a política, lei a lei.
Saiu tiro pela culatra Emmanuel Macron.
Eu diria que sim, ou seja, eu acho que Macron fez uma má aposta. Havia vários cenários, um dos quais era o cenário de garantir que a extrema-direita governaria, não governaria em condições e assim condicionaria a subida de Le Pen em 2027 ao Eliseu
Com esta aposta, isto pode até facilitar a chegada ao Eliseu de Marine Le Pen, porque um cenário de ingovernabilidade ou de difícil governo liderado pelos moderados ou pela extrema-esquerda, pode servir a favor da máquina política e de propaganda de Marine Le Pen. Portanto, numa lógica para Le Pen, este resultado não é necessariamente o pior resultado para ela capitalizar daqui a dois anos uma vitória nas presidenciais.
Já vamos também à análise a esse respeito, Bruno Cardoso Reis, mas nesta altura o líder do Partido Socialista francês faz também já uma declaração, reage a estes resultados. Vamos escutar à boleia da RTP3.
Nous avons fondé un projet collectif pour notre pays et fédéré une majorité de Françaises et de Français. La France méritait mieux qu'une alternative entre néolibéralisme et fascisme, comme cela nous est imposé depuis sept ans.
A França escolheu entre o neoliberalismo e o radicalismo.
Une responsabilité immense, celle de trouver un chemin pour faire avancer la France et répondre aux besoins des Françaises et des Français.
Este resultado representa uma enorme responsabilidade para a Nova Frente Popular, que venceu, de acordo com as projeções, esta segunda volta.
Qui fait avancer l'Europe. Je le dis ce soir, nous ne nous prêterons à aucune coalition des contraires qui viendrait trahir le vote des Français et prolonger les politiques macronistes. Nous ne voulons qu'une seule chose, faire en sorte que notre pays se retrouve. Il a été tellement fracturé. On a connu tant d'oppositions jusqu'à ces derniers jours où le RN avait même fait le choix de diviser les Français entre eux. Nous avons besoin de retrouver la force d'un pays qui se réunit sur des bases claires, sur des valeurs claires, celles de la République.
Temos o desejo de retomar os caminhos de uma França republicana unida.
Côte à côte ou face à face.
A reação do líder do Partido Socialista francês a estes resultados que dão a vitória à Nova Frente Popular, que integra vários partidos, incluindo o PS francês, mas também a França Insubmissa, que de acordo com os resultados que há pouco foram divulgados, foi o partido mais votado entre os partidos de esquerda que integram esta coligação. Vamos continuar a ouvir.
Ce soir, nous disposons d'une majorité relative. Ce n'est pas une majorité absolue. Et donc je demande à ceux qui ont été désavoués à trois reprises d'annoncer clairement qu'ils reconnaissent leur défaite et que pendant l'année qui vient, ils ne mêleront jamais leur voix à celle de l'extrême droite pour empêcher le nouveau Front populaire de gouverner.
Bruno Cardoso Reis, vamos então à análise a esta declaração do líder do PS francês. Olivier For.
Por um lado, ele tinha de falar rapidamente porque o Mélenchon já falou.
O Mélenchon já havia falado.
Portanto comprar aqui um bocadinho de terreno. No fundo, o que ele vem dizer é sobretudo uma mensagem para o centro macronista, que é reconheçam que perderam e portanto agora têm a obrigação de não se juntar à Frente à
À União Nacional.
À União Nacional ou ao partido dos Le Pen. Portanto, no fundo, eu diria, até para nós que estamos aqui em Portugal, no fundo é um bocadinho esta ideia dos três blocos. O Chega, o bloco de centro-direita, o bloco de centro-esquerda e portanto sempre esta ideia de que não deve haver soma de ninguém ao bloco da extrema-direita e que sendo assim será viável um governo de Frente Popular. Um governo realmente em que os socialistas terão um peso importante. Agora vamos ver realmente qual é a reação do bloco macronista, deste bloco mais centrista. Até que ponto é que realmente eles aceitam este tipo de condicionamento ou também querem algum tipo de contrapartidas, porque lá está, isto tudo é uma questão de expectativas. Apesar de tudo, eu também estou muito de acordo com o que dizia o Tiago, quer dizer, claramente a aposta de Macron parece-me ter falhado, até porque ele, na minha perspetiva, não pensou que fosse possível criar esta Nova Frente Popular, ou seja, pensou que o voto da esquerda seria provavelmente mais fragmentado e, portanto, na segunda volta, o bloco dominante moderado voltaria a ser o dele. Ora isso realmente não aconteceu, mas também não teve aqui uma derrota catastrófica. Portanto, até que ponto, tendo em conta a personalidade também de Macron, ele aceitará realmente ser reduzido a um presidente pouco ativo na política interna e aceitará, no fundo, oferecer o voto do seu bloco. Sendo que também há esta questão, qual é o peso que ele ainda tem nesse bloco. Houve aqui umas reações muito críticas de muitos dos seus aliados políticos e, portanto, temos de ver. E enfim, ele também é um presidente que já não pode ser reeleito e portanto cada vez mais estes diferentes blocos vão também começar a pensar nas eleições presidenciais de 2027. E aí também, aliás, em linha com o que dizia o Tiago, eu acho que há que ter aqui algum cuidado. Estes blocos deveriam ter realmente cuidado, quer o da esquerda, quer o do centro Em ter essa noção que estão a governar a prazo e se criarem realmente o caos, se criarem uma impressão na opinião pública francesa muito negativa, isso pode ser utilizado depois pela Marine Le Pen e pela União Nacional para tentar dizer que da próxima vez é que tem mesmo de ser e precisamos não só de uma maioria parlamentar, mas também de um presidente da União Nacional.
Estão por isso, Tiago André Lopes, centro e esquerda obrigados a entenderem-se?
Estão pelo menos obrigados a manter as vias abertas para o diálogo. Eu acho que o entendimento não vai ser fácil, porque a campanha polarizou muito os vários partidos e há aqui aproximações difíceis de fazer. Aliás, nós vimos isso quando os próprios republicanos se dividiram o partido ao meio por causa de apoiar ou não candidatos do Rassemblement National, levou à saída de Éric Ciotti. Isso já nos mostra o grau de radicalização que está em curso no Parlamento francês. Agora, se há a possibilidade, ainda há pouco um comentador francês dizia isso, de o Parlamento francês ter entrado no período do atoleiro, ou seja, uma espécie de imobilismo por incapacidade de avançar na aprovação de novas iniciativas, isso é, para já, pelo menos a confiar nos resultados e os números estão a mudar a uma velocidade bastante assinalável, isso é muito possível. E portanto eu acho que nós precisamos, acima de tudo, de perceber qual é a dimensão e a diferença final entre os vários blocos e depois qual é o jogo de cedências para fazer ou não, inclusive, porque vai ser possivelmente a figura mais massacrada da noite de hoje, qual é a capacidade para manter Gabriel Attal como primeiro-ministro. Parece-me que o espectro e a possibilidade é reduzida de ele se manter na posição, mas a verdade é que é isso que está também em jogo aqui, é se Macron consegue manter um aliado ou se vai ter que prescindir e depois vai ter que encontrar uma outra pessoa. E a questão que vai ficar na noite é: então quem é que sucederá a Gabriel Attal com este tipo de Parlamento, com três grandes blocos, quem é a figura menos divisiva ou mais consensual, ou se se opta no final por um cenário como o italiano, com governo tecnocrático, como nós tivemos antes dos governos atuais de Meloni. Pode ser um cenário, nós já tínhamos discutido isso para outros países, pode-se ter que avançar no final para um governo tecnocrático que deslinde o impasse que parece estar a criar-se.
Eu diria que estas duas conferências de imprensa claramente são um sinal para dizer, por um lado, não aceitaremos que Attal continue, ele tem de sair, e também de dizer não queremos um governo com um primeiro-ministro tecnocrático. Não seria aquele cenário do completo caos e um governo sobretudo de tecnocratas, mas seria um cenário de ter ministros de vários destes blocos, mas depois ter um primeiro-ministro mais tecnocrático. Aí o grande problema é sempre também que estes blocos desconfiariam que isso seria uma forma de Macron continuar a dominar o governo. E claramente, sobretudo este bloco mais à esquerda, não quer isso e não sei se mesmo entre os aliados do presidente, se haveria grande entusiasmo em relação a essa questão. Mas eu estava aqui a ver também o Raphaël Glucksmann, que no fundo é um elemento desta esquerda socialista mais moderada e que teve um ótimo resultado nas europeias. Já entretanto veio dizer que temos um Parlamento dividido, em linha com o que estava a dizer o Tiago, e temos de nos comportar como adultos. Isto é um teste à maturidade política dos franceses e dos políticos franceses, porque realmente há muitos países europeus onde este tipo de Parlamento muito fragmentado não é um problema. Nós vemos isso, por exemplo, com muita frequência na Alemanha há décadas, nos Países Baixos, em vários países da Europa do Norte, mas por exemplo, a Alemanha é um exemplo clássico disso, ou ainda mais os Países Baixos, que basicamente não têm um governo que não seja de coligação desde a Segunda Guerra Mundial. E portanto quer na opinião pública, quer na cultura política, quer entre os atores políticos, há este hábito de que é preciso chegar a compromissos, vamos ver qual é a relação de forças saída da eleição, vamos ver quais são as principais prioridades para o partido com mais votos, depois uma outra prioridade de outros partidos que também são aceitáveis para esse partido, e chega-se aqui a uma negociação, a um programa conjunto e portanto consegue-se governar com coligações amplas, até com partidos de cores ideológicas diferentes. Mas realmente não é de todo essa a cultura política prevalecente em França e portanto parece-me, apesar de tudo, importante e positivo que haja atores políticos importantes como o Raphaël Glucksmann que tenham a noção desse problema e que apelem a uma cultura de maior pragmatismo e compromisso, mas não sei se isso se concretizará.
Entretanto, também já há uma reação de outra formação política que integra a nova Frente Popular, que de acordo com as projeções venceu estas eleições legislativas. É a líder dos Verdes, Marine Tondelier, que diz que hoje ganhámos e amanhã vamos governar. É também essa a expectativa de outra força política que integra esta coligação. E agora é a vez de Bardella, da União Nacional, reagir a estes resultados. Vamos acompanhar esta declaração.
A volta das eleições legislativas antecipadas.
Reação de Jordan Bardella, do Rassemblement National.
Marcando esta eleição com uma taxa de participação histórica, os franceses honraram primeiro a nossa democracia. Quero agradecer aos eleitores do Rassemblement National e seus aliados pela manifestação patriótica sem precedentes que expressaram. Quero saudar a sua mobilização, a sua constância e também a sua serenidade perante a caricatura, as campanhas de desinformação e muitas vezes o desprezo dos nossos adversários. No início desta campanha da segunda volta marcada por alianças políticas contra natura, destinadas a impedir por todos os meios possíveis os franceses de escolherem livremente uma política diferente. O Rassemblement National hoje consegue o resultado mais importante de toda a sua história.
Infelizmente, a aliança da desonra e os arranjos eleitorais perigosos coordenados por Emmanuel Macron e Gabriel Attal com as formações da extrema-esquerda, privam esta noite os franceses de uma política de recuperação que eles publicitaram amplamente, colocando-nos à frente nas eleições europeias depois do domingo passado, quando a primeira volta ficou com cerca de 34% dos sufrágios expressos. Esta noite, esses acordos eleitorais atiram a França nos braços da extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon. A dinâmica do Rassemblement National, pondo-o claramente à frente na primeira volta, permitindo duplicar o número de deputados e com mais de 45% em muitos dos círculos eleitorais em França, são elementos que explicam a nossa vitória de amanhã. Tendo em conta a política que será aplicada nos próximos meses e que não irá responder a nenhuma das preocupações dos franceses, o Rassemblement National, mais do que nunca, é a única alternativa face ao partido único de Philippe Coutu e Édouard Philippe. Digo esta noite, com gravidade: privar milhões de franceses de que as suas ideias possam chegar ao poder, não será nunca um destino viável para a França. Esta noite, assumindo deliberadamente paralisar as nossas instituições, Emmanuel Macron não apenas empurrou o país para a incerteza e para a instabilidade, priva, em consequência, e durante muitos meses, os franceses de qualquer resposta às suas dificuldades quotidianas. Em plena crise de poder de compra, quando a insegurança e a desordem afetam tanto o nosso país, a França vê-se privada de uma maioria, um governo para agir e a capacidade de uma retoma da França. Todos perceberam hoje que estes acordos eleitorais, orquestrados a partir do Eliseu entre o Presidente da República isolado e uma extrema-esquerda incendiária, não levarão o país a lado nenhum. Constituída em partido único, a questão que todos os nossos compatriotas agora supõem é a seguinte: o que eles vão fazer? Eu sei a frustração de milhões de franceses. Eu conheço a frustração de milhões de franceses esta noite. Eu conheço a urgência do seu cotidiano, mas também as suas expectativas. E quero dizer-lhes, desde há vários meses, num país em que a esperança sob eu e nunca deixará de silvar. Esta noite tudo começa. O Rassemblement National irá cumprir o seu trabalho na Assembleia Nacional, primeiro com Marine Le Pen e depois em todo o país, continuando a trabalhar para uma união nacional, para uma reunião de todos os franceses e para a alternância democrática tão necessária que há de vir aí. No Parlamento Europeu, finalmente, os nossos deputados, a partir de amanhã, irão representar o seu papel no seio de um grande grupo que terá um peso na relação de forças na Europa para contrapor os fluxos migratórios, a ecologia punitiva e os prejuízos à nossa soberania, porque o Rassemblement National é diferente dos outros. Não vai entrar em compromissos políticos palacianos. Hoje como amanhã, estará ao lado do povo francês e pronto a assumir as suas responsabilidades. Não queremos o poder pelo poder. Queremos o poder para devolver este poder ao povo francês, para restaurar a soberania da nação e para pôr em prática o projeto de retoma que fará a França recuperar da situação em que está. A todos os franceses e todas as francesas, quero dizer que a minha intenção vai para a retoma do país mais do que nunca. Estarei convosco até à vitória. Esta noite, tudo começa. Nada poderá deixar para trás um povo que tanto esperou. Viva a França! Viva a República!
A intervenção de Jordan Bardella, da União Nacional, a estas projeções avançadas há cerca de 35 minutos e que apontam com alguma surpresa para a vitória da nova Frente Popular, a coligação de esquerda. Tiago André Lopes, que análise a esta intervenção de Bardella?
Bardella está a fazer duas coisas. Por um lado, obviamente, está a assumir que é um bom resultado, e em bom rigor é, porque mesmo se olharmos para os resultados parcelares, o Rassemblement National já tem mais 40 deputados do que tinha em 2022. Ainda estamos com resultados parciais, portanto não é um mau resultado. E depois está a fazer aquilo que se esperava, está a extremar o discurso e a dizer que a vitória nos foi roubada, que houve aqui uma política, e ele insistiu durante toda a semana na ideia antinatura ou contranatura destes blocos centro-direita, direita, centro-esquerda, esquerda radical, juntarem-se todos só para impedir o Rassemblement National de chegar ao poder. E isso obviamente pode ter aqui um duplo efeito: vai potenciar a candidatura do Le Pen, mas também, qualquer fracasso daqui para frente ao nível da governação, o Rassemblement National vai dizer "porque nos roubaram o cetro". E vai ser isso que nós vamos assistir nos próximos anos, vai ser uma vitimização permanente de porque nós íamos e roubaram-nos o cetro. E nesse aspeto, a confirmar as projeções, porque a verdade é que para já os resultados ainda não as confirmam em nenhuma medida. Continua o Rassemblement à frente, o Ensemble em segundo e a Nova Frente Popular em terceiro, e não como as projeções dirigiam até aqui. Mas obviamente, falta o voto urbano com mais densidade e aí as coisas poderão alterar-se. Mas a confirmar-se, esta reação é para isso mesmo, é para polarizar o eleitorado e para extremar a visão de que o Rassemblement National não só foi derrotado como foi impedido de ganhar.
É esta a narrativa, Bruno Cardoso Reis, ensaiada para as presidenciais de 2027?
Sim, penso que se confirme inteiramente isso. Em todo caso, acho que é relevante que a Frente Nacional não tenha esperado mais, a União Nacional, o que a Assembleia Nacional não tenha esperado mais e tenha já concedido a derrota, tenha aceito a derrota. Eles provavelmente também terão informações mais detalhadas e à partida, isto parece indicar que realmente a própria União Nacional dá como seguro que, com variações, o resultado não andará muito longe disto. E o que se estão a concentrar já é precisamente aquilo que já tentaram fazer um pouco na campanha, mas agora com esta variante, colar o mais possível Macron e Mélenchon, falar daqui de uma aliança contranatura e dizer: "Nós agora é que somos a oposição". E como dizia o Tiago também, o correr mal é culpa deste grande bloco central e a alternativa somos nós. E tentar reverter esta derrota no próximo ciclo eleitoral, que à partida será em 2027, se não acontecer nada até lá, o que é bem possível que não seja assim. Mas em todo o caso, esse é um aspeto importante. Um segundo aspeto que eu queria aqui sublinhar é, apesar de tudo, apesar de todas estas incertezas, problemas, etc, é importante recordar que continuamos a estar na Quinta República. Já há quem fale numa Sexta República. A França é o campeão, entre os grandes países da Europa Ocidental, das mudanças de regime, pelo menos 15 mudanças de regime nos últimos dois séculos. A Grã-Bretanha não muda de regime, tem feito reformas importantes, mas vai-se reformando. Na França, precisamente porque é muito difícil chegar a compromisso, muitas vezes o que temos não são reformas, mas revoluções, ruturas. A última foi esta de 1958, com a Quinta República. Já há quem fale numa Sexta República, eu acho que é cedo para falar nesses termos. Realmente, o presidente da República objetivamente tem poderes importantes, sobretudo na frente externa e da defesa e eu diria que quer esse facto, quer apesar de tudo, um resultado em que a esquerda, inclusive um bloco importante de esquerda moderada, quer o centro ligado a Macron, ficou em primeiro e em segundo lugar, acho que é evidente que em muitas capitais europeias, não em todas, mas em muitas capitais europeias, houve aqui um grande suspiro de alívio, ainda que, há que sublinhar esse aspecto, temos que ter essa noção da realidade, realmente a França dificilmente poderá alinhar em grandes iniciativas, mas apesar de tudo, pelo menos não será aquela força de bloqueio que muitos temiam, com um governo, por exemplo, dominado pela Frente Nacional, a ter assento nos conselhos setoriais de ministros, a controlar o orçamento. Agora, realmente, a questão, a bola está do lado destes dois blocos. Do bloco desta esquerda muito diversa e que tem figuras que querem claramente dominar este bloco, mas que tem uma taxa de rejeição muito grande entre a maioria dos franceses, como Mélenchon, e depois o bloco centrista de Macron, em que também, como eu dizia, há muitos insatisfeitos com a forma como Macron conduziu esta questão e não é seguro que a liderança do presidente será assim tão aceite no bloco que à partida é o dele.