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Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr. Primeiro-Ministro, Sr.as e Srs. Convidados, Sr.as e Srs. Deputados, pela primeira vez, Portugal comemora o 25 de Abril com a liberdade condicionada. A liberdade que a Revolução nos trouxe está hoje, por força das circunstâncias, limitada a esta cerimónia e ela própria, fortemente condicionada. Mas aquilo que à primeira vista pode parecer negativo é, no fundo, um exemplo positivo do próprio regime democrático, que sem complexos, mostrou ser capaz de responder com a legalidade constitucional perante uma ameaça séria à nossa saúde coletiva. Portugal não tem a democracia suspensa. Tem a democracia bem presente, ao demonstrar que ela encerra em si mesma mecanismos de funcionamento capazes de responder com eficácia a uma circunstância única e absolutamente excecional. Teria sido dramático se, por cobardia ou complexos de ordem ideológica, não tivéssemos aprovado o estado de emergência e não tivéssemos imposto os constrangimentos que as circunstâncias, infelizmente, nos exigem. A bem da própria democracia, tal não aconteceu. Temos todos consciência que Portugal vive um período muito difícil do ponto de vista sanitário. Pelo momento que estamos a atravessar e pelo fato de podermos vir a ter uma segunda onda da pandemia daqui por poucos meses. Impõe-se, por isso, que o país se prepare para esta eventualidade, porque a economia portuguesa não resistirá a uma nova paragem idêntica àquela que estamos a viver. As falhas que da primeira vez existiram não poderão ser repetidas. No próximo inverno, teremos ter uma maior capacidade de resposta do SNS sob todos os pontos de vista. Temos de ter mais equipamentos disponíveis e mais profissionais habilitados a usá-los. Teremos de ter testes em quantidade suficiente. Terá de haver proteção individual adequada para todos, a começar pelos profissionais de saúde que estão na linha da frente. E terá de haver, como já tive oportunidade aqui alertar, informação e pedagogia adequada, que na ausência de medicamentos para a cura da infeção, apoie os portugueses no necessário reforço do seu sistema imunitário. A questão do planeamento logístico não pode também ser esquecida, pois sem ele, a nossa resposta será sempre deficiente e incompleta. Neste particular, temos de olhar com especial cuidado para os lares de idosos, onde todos estes aspetos assumem uma importância absolutamente decisiva. Mais importante do que planear a presença de governantes nos jornais e nas televisões para publicitarem a toda a hora o que fizeram e o que não fizeram, é planear a resposta do país a uma eventual segunda onda da Covid-19. A enorme debilidade com que a nossa economia e as nossas finanças públicas vão sair desta longa paragem não acomoda um novo embate de igual dimensão. Por isso, temos também de, ao nível dos diversos ministérios, corrigir as falhas e injustiças que têm vindo a acontecer, de modo a que as empresas e os trabalhadores possam receber os seus apoios em tempo útil e oportuno. O Partido Socialista e os partidos da maioria parlamentar que apoiam o Governo têm garantido que com eles não haverá qualquer tipo de austeridade. É uma notícia que seguramente a todos agrada, mas tal otimismo não pode ser impeditivo de nos prepararmos para o pior cenário, pois tal como o povo nos ensina, mais vale prevenir do que remediar. Sr. Presidente, na evocação do 25 de Abril, cumpre-nos agradecer aos militares que há 46 anos, tantos quantos deputados aqui hoje presentes, nos trouxeram a liberdade e a democracia. Deles não me quero nem posso esquecer. Mas na celebração deste ano, julgo ser da maior justiça evocar à frente de tudo mais aqueles que faleceram vitimados pela Covid-19, em particular os que, pela crueldade das circunstâncias, não puderam ter um funeral de acordo com as nossas tradições e os nossos valores culturais. É neles e nos seus familiares que primordialmente devemos ter hoje e aqui o nosso pensamento. É a eles que devemos dedicar, em primeiro lugar, esta sessão solene do 25 de abril de 2020. Aos portugueses, que durante todo este tempo de estado de emergência continuam a trabalhar para que a nossa economia não pare por completo e para que não nos faltem os bens de primeira necessidade, a começar justamente pelos serviços de saúde, não pode também a Assembleia da República deixar de agradecer. A ingratidão, sendo própria de alguns homens, não pode ser própria do homem. Portugal atravessa um momento particularmente difícil. A ele suceder-se-á tempo de completa dedicação à recuperação da economia nacional e da nossa esperança coletiva. A unidade que a esmagadora maioria dos portugueses demonstrou na luta contra este inimigo comum, permite-nos a certeza de que, tal como em muitos outros momentos da nossa história, haveremos de ultrapassar esta dificuldade com o saber e a coragem com que sempre o fizemos. Haveremos de vencer com a mesma coragem que ao tempo dobramos o cabo das tormentas e com elas construímos a esperança.

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