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Estou aqui em Idanha-a-Nova, um concelho que se tem projetado nos últimos anos como um polo de produção de agricultura biológica. Em 2015, constituiu-se aqui na freguesia do Ladoeiro, uma freguesia de Idanha-a-Nova, a Sementes Vivas, é uma empresa que produz sementes com certificação biológica. O Micha Groenewegen é sócio desta empresa, que emprega 35 pessoas. Micha, bem-vindo à emissão especial da Rádio Observador.
Obrigado. Boa tarde.
Como é que surgiu a Sementes Vivas? Antes de mais, o Micha é holandês, não é?
Sim, exatamente.
Como é que veio parar aqui a Idanha-a-Nova?
Isso é uma história bem longa.
Foi por amor?
Não foi por amor. Foi por amor para sementes e para cultivo de plantas e as hortícolas, basicamente. Fomos um grupo de oito pessoas a fundar a Sementes Vivas, na altura, e foi por causa de estarmos apaixonados pela diversidade que existe em termos de plantas, em termos de hortícolas, e quisemos então trazer esta diversidade de volta para as pessoas conseguirem cultivar. E escolhemos Portugal porque era um sítio onde não havia outras empresas de sementes, mas onde continua a haver muitas variedades tradicionais, continua a haver muita diversidade de plantas e de hortícolas.
Muito bem. Portanto, vocês só recuperam ou só utilizam sementes de plantas tradicionais portuguesas?
Não. Nós fazemos as duas coisas. Nós fazemos recuperação de variedades tradicionais. Nós basicamente falamos com agricultores e vamos ver quais são variedades tradicionais que poderiam ter interesse, mas ao mesmo tempo também existem variedades comuns que nós fazemos a multiplicação e uma parte do nosso negócio também é exportação para Alemanha e Suíça, e por isso ali utilizamos variedades diferentes. Por isso tem as duas vertentes ao mesmo tempo.
Muito bem. Para onde é que vocês vendem as sementes?
Nós vendemos principalmente em Portugal, eu acho que já podem encontrar em muitos sítios diferentes as nossas sementes. Ao mesmo tempo, também vendemos online. E depois o nosso maior mercado de exportação é a Alemanha e Suíça. Porque nós temos sementes biológicas e biodinâmicas certificadas, e há uma grande procura, especialmente naqueles mercados no norte, para este tipo de sementes, e não existem muitas empresas que conseguem entregar a qualidade e quantidade de sementes que temos.
Falou em sementes biológicas e biodinâmicas. Qual é a diferença entre uma semente biológica e uma biodinâmica?
A certificação biológica, e acho que já muitas pessoas conhecem o que é. A certificação biodinâmica é uma certificação adicional que vai além do que é a certificação biológica. Basicamente, a certificação biodinâmica quer ver a quinta como se fosse um organismo fechado. Tentamos fechar o ciclo de produção, tentamos tirar os inputs, os fertilizantes, o composto que utilizamos, o mais perto possível, ou criar na própria quinta. Por isso é uma visão mais holística de quinta e é uma certificação adicional além de biológica. Isso é uma coisa que é muito importante, especialmente para os consumidores em Alemanha e em Suíça, porque é uma certificação que elas têm muita confiança, porque é uma certificação muito restrita e por isso é uma certificação que pra nós traz valor adicionado.
Muito bem, a Sementes Vivas constituiu-se aqui em Idanha-a-Nova em 2015, começaram a produzir no ano seguinte, 2016. Podemos dizer que é um caso de sucesso, uma vez que em oito anos cresceram, já empregam 35 pessoas, não só em Portugal, mas também lá fora. Foi difícil?
Foi difícil, porque o que nós fizemos foi: não havia quase nenhuma produção de sementes em Portugal. E então nós fazemos a produção de sementes na nossa quinta, e nós tivemos que aprender como fazer produção de sementes neste clima, mas ao mesmo tempo nós fazemos produção com produtores. Nós temos quase 30 produtores espalhados por Portugal inteiro, desde o norte, vindo do Castelo até Algarve e lá no meio, em todo lado. Foi um grande caminho de aprendizagem e eu acho que sim, podemos oito anos depois falar que estamos a chegar lá, mas com as sementes é mais lento, é mais devagar.
Pois, porque não é só produzir o produto. Por exemplo, quando se produz a semente do tomate Marmande, tem que se produzir o fruto e depois daí retirar a semente, é um produto mais moroso.
Sim, mas ainda adicionalmente, o que nós fazemos? Nós fazemos uma produção de sementes mãe, antes. Por isso, nós temos que fazer duas produções de sementes antes de nós tirarmos sementes que podemos vender. E em algumas culturas, o ciclo não é um ano, mas é dois. E aí estamos a falar em quase quatro anos de trabalho antes de termos um produto que podemos comercializar.
Para uma semente. Para o conjunto de sementes.
Exatamente. É por isso que eu estava a dizer, oito anos para nós não é assim tanto tempo. Para nossa perspectiva, mal começamos.
Estamos a falar de um negócio que tem que dimensão, Micha?
Temos uma faturação mais ou menos de dois milhões anualmente.
Isso é incrível. Esperavam atingir esse valor quando começaram esse negócio?
Eu acho que ter expectativas em termos de aonde é que se vai com um projeto assim, porque isso é um projeto único, isso não é um negócio normal, é um trabalho que requer muito conhecimento e muito trabalho, que significa que demora o seu tempo e não há muitas empresas que fazem isso. Então nós vamos descobrindo o caminho enquanto estamos a fazer.
Muito bem, vou só enumerar algumas das sementes que podem encontrar no Sementes Vivas: abóbora, berinjela, curgete, physalis, pimento, acelga, alface, ervilha, fava, feijão, alho francês. Depois há flores anuais, flores perenes, flores comestíveis, flores para abelhas e depois há a tal lufa. O que é a lufa?
A lufa é uma planta que é muito parecida com o pepino, cresce da mesma forma, mas ao invés de dar um fruto comestível, dá um fruto que quando seca, as fibras dentro do fruto ficam como se fosse uma esponja, uma esponja natural. Então pode-se utilizar como se fosse uma esponja natural. Claramente, não podes ir à loja comprar, tens que cultivar, mas que também pode dar prazer esta parte.