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Estou?
Estou. Olá, boa noite, António Tanger Correia.
Olá, boa noite.
Boa noite. A campanha está na reta final. O cansaço já aperta?
Claro. Tem sido um ritmo bastante elevado, portanto, é evidente que dia após dia já começa a moer.
Tem dito que, nos tempos em que fez campanha, as coisas não eram como são hoje. O que viu de diferente desta vez?
Tudo. O papel da comunicação social não é o mesmo. Obviamente, a tecnologia evoluiu. Antigamente não havia diretos, havia vagamente uns relatos feitos pelos jornalistas que acompanhavam a campanha, mas era uma coisa feita diferida, obviamente. Havia grandes comícios, fundamentalmente grandes comícios de capital de distrito em capital de distrito, de cidade grande em cidade grande. Não havia este tipo de arruadas. Se houvesse manifestação de rua era umas manifestações mais recheadas. Portanto, era completamente diferente. E o nível também da participação nas campanhas também era diferente. Não havia tantos ataques, tanta polarização.
É muita energia, é isso?
Como?
Demasiada energia?
Não, eu acho é que é energia mal veiculada muitas vezes. E em vez de procurar tirar o lado positivo, muitas vezes tira-se o lado negativo, e isso eu acho que não é positivo. Mas enfim, é o que há, é assim que as coisas são.
Por outro lado, também já o ouvi dizer que mais 15 dias e ficava um profissional. Se for preciso fazer campanha daqui a uns meses, aceita?
Eu fazer campanha? Agora não faço mais campanhas. Agora vou pegar na maleta, vou viver em Bruxelas e vou fazer o meu trabalho.
Está à espera desse dia?
Estou, sim, senhora.
Já agora, há quanto tempo é que está à espera desse dia?
Como assim? De ser eleito?
Se era um sonho antigo, se é uma coisa que aconteceu recentemente.
Não, de todo. Aconteceu recentemente, foi meramente uma questão de estar no lugar certo. O André entendeu que eu seria o... Porque eu nunca quis ser deputado na Assembleia da República. Isso aí, nem pensar nisso. No fundo, era o único elemento da direção, tenho experiência internacional, 40 anos de diplomacia e achou o André, achou eu, achou toda a gente que era, digamos-
Já agora que o disse, por que nunca quis ser deputado na Assembleia da República?
Não faz parte da minha maneira de ser. Para já, eu vou para Bruxelas não para ser político, mas para estudar, defender, trabalhar em dossier e em assuntos, que é isso que eu gosto, é isso que eu faço. A política nacional e o constante ataque, a constante defesa e digamos que aqueles bravatos de fazer ida e volta não faz parte da minha maneira de ser, de todo.
Já só tem três dias até o final da campanha.
Dois.
Dois. Este já está no fim. Costuma-se dizer que o Chega é o rei das redes sociais. Já criou um Instagram ou vai aproveitar estes dois dias?
Não, senhora. Vou fazendo com as redes do partido e depois quando chegar a Bruxelas, sim, vou criar um Instagram e vou atacar as redes sociais, mas com um intuito diferente, que é um intuito de ser informado e informar.
Está prometido que em Bruxelas vai criar um Instagram?
Está prometido.
Muito bem. E já agora, um TikTok também ou ficamos pelo Instagram?
Não, acho que o TikTok eu deixo pra rapaziada mais nova.
Muito bem. Tem sido acusado por alguns adversários de alinhar em teorias da conspiração e até de contribuir para elas.
Não vamos entrar por aí no final da campanha, não.
Não, eu gostava só de lhe perguntar.
A conspiração são vocês que chamam teorias da conspiração.
Pois, mas era exatamente isso que eu gostava de lhe perguntar, porque na RTP disse até que quem faz as teorias da conspiração são os governos e as grandes empresas, e que também já as chegou a fazer. Não acha que isto é dar argumentos a quem lhe faz esse tipo de acusações?
Não, porque, de facto, as coisas são como são, as informações circulam. Estou habituado a lidar com informações classificadas e com informações confidenciais e até secretas. Eu não divulguei nenhuma delas, muitas vezes isso, se passado para o grande público, seria um choque para o grande público e viriam logo teorias disto e aquilo daquilo outro, que de facto não são.
Então é aceitável que existam teorias da conspiração?
Não, não são teorias da conspiração. Teorias da conspiração são os senhores da comunicação social que chamam.
Mas para que servem este tipo de informações?
Para que servem? Como assim? Existe muito tipo de informação que circula. Uns mais sensíveis que outros. É tão simples quanto isso e pela minha mão passaram muitos e muitos assuntos sensíveis. Eu nem sequer falo neles. Estamos a falar em campanha eleitoral, não vamos entrar por aí. Portanto, vamos falar de assuntos europeus, se não se importa, porque já estou farto desses conversas. Diga.
Claro. Ou seja, não gosta de ser associado a este tema, é isso?
Não é essencial. Acho que as pessoas entenderam mal e acho que já falei suficiente sobre isso, portanto passamos à frente.
Muito bem. Já assumiu durante esta campanha eleitoral, e agora que estamos na reta final, que é normal ter sempre André Ventura ao seu lado, porque sem o presidente do partido até podia ser difícil atingir os objetivos. Como vice-presidente do partido, considera saudável que a marca Ventura e a marca Chega se confundam ou até que a marca do presidente seja mais forte?
Considero. O partido nasceu com o Ventura, tem cinco anos, foi ele que o desenvolveu, como está lembrada, seguramente. Primeiro foi eleito deputado único, depois foi um grupo parlamentar de 12, agora são 50 e fundamentalmente o Chega sem Ventura, neste momento, não seria o Chega que é. Ele próprio diz que um dia passará o testemunho, mas esse dia está longe ainda de chegar.
Como vice-presidente do partido, não incomoda nada.
Não, até porque eu sou um vice-presidente por trás da cortina, como sempre fui na minha vida, ou seja, faço aquele trabalho que normalmente as pessoas não veem, não está exposto às pessoas que normalmente olham pra um político.
E está confortável com isso?
Muito.
O presidente do partido já disse que pretende vencer as eleições, já disse também que queria ficar à frente do PS. O senhor já disse que cinco eurodeputados era bom, seis era excelente. Gostava de lhe perguntar, aqui com uma provocação, se o Chega se tornou no novo PCP e seja qual for o resultado, nunca perde.
Não, eu não sou desse género. Além de ser diplomata, sou campeão nacional em título, portanto sou desportista de alta competição. E nós sabemos perfeitamente quando é que ganhamos e quando é que perdemos. E eu tenho as minhas vitórias com as minhas derrotas.
Deixe-me ficar aqui esclarecido. O que é que seria uma derrota e o que é que seria uma vitória na noite eleitoral?
Uma derrota seria eleger, suponha, dois deputados. Isso claramente que seria uma derrota. Agora, se elegermos quatro a cinco, já não considero de todo uma derrota.
Mas já chega para ser uma vitória ou fica a meio caminho?
Não, seria claramente uma vitória. Quatro é uma estabilização relativamente às últimas eleições legislativas, portanto, é uma consolidação. É mais por aí do que outra coisa. Agora, se efetivamente houver aí um golpe de sorte que o eleitorado decida dar-nos mais qualquer coisa, isso é fantástico.
A vitória, por enquanto, era um golpe de sorte. Ficar em primeiro.
Ficar em primeiro, posso chamar de golpe de sorte, mas de facto, seria a vontade do eleitorado. Essas coisas não acontecem por acaso, acontecem porque as pessoas puseram lá a número.
Só para terminar aqui um último tema. Uma das questões que marca estas eleições é a provável viragem à direita do Parlamento Europeu e o que acontecerá às famílias políticas. Sei que não é um tema que goste muito de falar, pelo menos nos últimos tempos não quis falar sobre isso. Por que isso se tornou um tabu para o Chega?
Não, não é tabu. Desculpe, mas não é tabu. Nós estamos numa posição em que as coisas estão a movimentar-se. Ainda hoje, não sei se viu, o Orbán que disse que ia aderir ao ECR, pelo menos ao ECR como era, ou pelo menos anteriormente tinha manifestado essa intenção, disse que era preciso que a direita se unisse. Basicamente a mensagem era que devia toda a direita se unir no Parlamento Europeu. Isso foi o que o Orbán disse. Portanto, isso só revela apenas e só uma coisa: é que estão a ser feitas movimentações por partidos grandes dentro da Europa e que estão à espera dos resultados de dia nove para depois encontrarem ou não soluções diferentes das que existem. E nós estamos atentos, muito atentos mesmo, e logo veremos como é que iremos agir uma vez com as cartas em cima da mesa.
Mas deixe-me perguntar-lhe se é desconfortável sentar-se ao lado ou ser colado, como tem vindo muitas vezes a acontecer durante a campanha eleitoral, a partidos que não defendem a Ucrânia.
Isso é a tal história, como lhe disse, o Chega defende aquilo que defende, o Chega é fiel a si próprio e aos seus eleitores. E não saímos daqui. Se eu me sentar ao lado, já me sentei ao lado muitas vezes. Eu tinha um vizinho em Belgrado que era um dos maiores assassinos da história moderna, que era o Arkan. E eu todos os dias dizia bom dia, boa tarde, com sorriso, e era meu vizinho, não estava sentado ao lado dele, mas vivia costas com costas com ele.
Uma coisa é ser vizinho, outra coisa é convidá-lo para entrar pra sua casa.
A minha casa, que é a minha casa, é o Chega. O resto, a família política é a família política.
Mas este tema pode ou não levar o Chega a repensar?
Não, o Chega vai repensar se houver lugar para repensar. Agora, é evidente que a falta de apoio à Ucrânia para nós está fora de questão. Se alguém se sentir incomodado com o nosso apoio, então esse alguém que se manifeste.
Deixe-me só fazer-lhe uma última pergunta. Se no dia a seguir às eleições, António Tanja Correia fosse o único com poder na mão, o que escolheria para o Chega? Ou o que escolheria para as famílias europeias da direita radical e da extrema-direita?
A extrema-direita até não existe, como eu já expliquei, que a extrema-direita e as organizações neofascistas são fundamentalmente originais na esquerda. Essa narrativa é bom que acabe, porque é errada. Se eu tivesse poder, fazia exatamente aquilo que eu lhe disse antes. Via as cartas que estavam em cima da mesa e decidia. Mas como não vou fazer isso sozinho, faço com o André e com os meus colegas de partido, é isso que vai acontecer.
Vai esperar para ver.
Exatamente.
Mas não acha, como disse há uns dias, que estão a assistir de bancada?
Estamos, claro. Estamos à espera que ponham as cartas em cima da mesa.
E à espera para decidir o melhor.
Claro.
Muito obrigada, António Tanja Correia.
De nada, o prazer é meu.
Boa sorte e boa continuação.
Muito obrigado.