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Às segundas-feiras à tarde, em directo, temos sempre este encontro com a beleza e também um encontro com o Martim Sousa Tavares. Martim, bem-vindo, boa tarde.

Olá, cá estamos.

Está aqui também a Judite França para este encontro com a beleza, para tudo isso ficar mais belo.

Tudo isto é beleza.

Tudo isto é beleza.

Tudo isto existe, tudo isto é beleza.

Na semana passada fomos até Moçambique e a uma zona particular de Moçambique que eu não conhecia, mas que fiquei fã, porque fui ver no Google e apetecia-me ir para lá.

Uma praia.

Mas hoje vamos à Nigéria. Continuas muito africano estas últimas semanas.

Eu acho que enquanto continuar a ouvir o podcast do nosso Lobato.

"O Sargento na Sala 7"

"O Sargento na Sala 7", eu vou continuar debaixo desta nuvem africana. Não, na verdade é porque a semana passada, lembrando quem possa não ter ouvido, fomos atrás do interesse de Jóli Braga Santos pela música africana nos anos 60, em 1965, quando ele se interessou pelas tradições da marimba em Zavala. E ele não é caso único. Aliás, o Steve Reich, de quem também já aqui falámos, no verão de 1970 matriculou-se num curso de verão, daqueles que as pessoas fazem, na Universidade do Gana, em Accra, em percussão. Se alguma vez quiserem mandar os vossos filhos para um campo de férias, podem sempre mandá-los para fazer um curso de percussão africana. Mas no fundo, estes aspetos não ocidentais, não europeus, interessaram imenso os compositores de música clássica do século XX e ajudaram a desfazer o mito de que a arte africana é a arte primitiva, que em muitos museus ainda temos estas duas categorias juntas. E já chamar arte africana a coisas que tanto vêm de Marrocos como vêm da África do Sul, já isso é um bocadinho grave. Mas esta awareness, chamemos-lhe assim, ajudou a que a música africana se revelasse nas suas riquezas e é uma espécie de percurso que vai de norte para sul, porque no início do século XX temos, por exemplo, o Béla Bartók, que andou pela Argélia e pelo norte de África, chegou a ir a uma conferência sobre música árabe no Cairo. Noutras artes temos o Paul Klee, por exemplo, pintor alemão, também a andar pela Tunísia e pelo Egito. E depois, à medida que o tempo vai andando, eles vão descendo pelo continente, vão-se afastando mais da Europa e do norte de África e vão entrando pela África Austral. E é o caso de muitos destes compositores. No entanto, eu gostava de agora mostrar o exercício ao contrário, que é música clássica escrita por compositores africanos e não música clássica escrita por europeus, inspirada nos modelos africanos. E vamos à Nigéria, que é um dos países com uma tradição musical mais rica em todos os aspetos, que também tem uma tradição de música clássica que chega a este país através da igreja, através das comunidades e do rito litúrgico, numa altura em que as igrejas tinham escolas, as pessoas aprendiam ali a ler e a escrever e também a tocar, mas rapidamente se percebeu que aquilo não apelava muito ao gosto nigeriano, onde as pessoas sentem a falta do termo "gbeze", que é o ritmo, a percussão, o ânimo, tudo aquilo que dá vontade de bater o pé e que a música de igreja não tem tanto para dar. E como é que se faz a síntese de dois géneros tão diferentes? Como é que um compositor ou uma compositora nigeriana pode expressar a sua musicalidade através da nossa música clássica? Não é fácil, mas existem exemplos. Eu há uns anos descobri que a Universidade de Oxford publicou cinco volumes de partituras de obras escritas para piano só por compositores africanos. E lá descobri este compositor que vamos ouvir hoje, que é o Christian Onyejé, que nasceu em 1967 na Nigéria e que, estando ancorado na tradição europeia da música clássica, fez todo um percurso académico já em África. Ele nunca teve de ir para fora de África para estudar. Tem um doutoramento na Universidade de Pretória, na África do Sul, e antes disso estudou na Universidade da Nigéria. É compositor, é pedagogo e é investigador, ou seja, ele investiga as tradições locais nigerianas, absorve-as e transpõe essas maravilhas para a música dita clássica. Nós hoje vamos ouvir um excerto da Ogo, que é uma dança feita por raparigas que ainda não têm idade para casar, que é uma música simples, com padrões rítmicos muito curiosos e que para mim simplesmente põe um sorriso na cara.

Que bela viagem à Nigéria aqui proporcionada pelo Martim Sousa Tavares. Recorda-me o nome do compositor, só tenho aqui o nome de quem está a tocar, o William.

Christian Onyegi. É curioso, se quiserem, existe no canal do YouTube do próprio, é fácil encontrá-lo, Christian Onyegi. Existe um vídeo dele a tocar esta mesma música no piano, que eu imagino que seja o piano da sua casa, mas o piano está tão desafinado que eu não consegui trazer aqui essa peça. E é curioso, porque ele tem outro vídeo no seu canal em que toca um prelúdio de Chopin com o piano igualmente desafinado, a aquele ponto é chocante, é destimbrante. E eu pensei: isto realmente é muito curioso.

Não há afinadores de piano na Nigéria.

Se calhar, também, não tão facilmente, mas estamos numa latitude tão diferente que, de facto, se calhar, o compositor está mais interessado noutros aspetos mais tímbricos, ou o que for, do que propriamente a afinação em si do instrumento, porque ele toca aquilo com uma compenetração tal e para mim era um grande sofrimento ouvir tanto a sua oga.

Ter um piano desafinado é o pior que há.

É o pior que há. Mas de resto, eu acho que o Chopin escreveu os prelúdios também em Maiorca, uma coisa assim nos anos 30 ou 40 do século XIX, onde também tinha o piano, segundo consta, muito desafinado.

Se calhar ela está historicamente informada. Exato. Eu estava a reparar numa coisa nesta música, que era: ao princípio, na música, tive aquela sensação de que podia ser qualquer pessoa a tocar isto, um aluno da escola, não sei o quê, mas depois ele tem uns lives tecnicamente mais exigentes mais à frente.

Mas nunca é virtuose. Eu acho que o engraçado é isto. Não sei se estão a ver as kalimbas, kalimba mira, aqueles instrumentos rudimentares para serem tocados com a ponta dos dedos, no fundo, para animar um bailarico. E a ideia que dá é que ele transpõe esse espírito. Há aqui, de facto, uma depuração, não lhe vou chamar pobreza, porque aos nossos olhos se calhar é, mas ali faz a festa, que serve o propósito de dançar. E de facto, é uma música dançável, que eu acho muito agradável, põe um balançar na escuta.

Eu às vezes sinto falta que entre aí uma percussão.

Pois.

Parece que vai entrar a qualquer momento, não é?

Sim. E provavelmente, não digo que não, se calhar quem ouve isto in loco saca de uma caixa de fósforos ou qualquer coisa e faz a festa.

E começa a fazer um batuque. Ainda assim, o Fela Kuti permanece até hoje como uma grande figura da música da Nigéria.

Sem dúvida. E o engraçado, pouca gente sabe, é que ele é descendente do primeiro compositor clássico nigeriano, chamado Josiah Ransom Kuti. Estávamos a falar disto off record antes de gravar, só a família Kuti tem direito a uma página na Wikipédia, porque há o Fela Kuti, o primo do Fela Kuti foi Prémio Nobel da Literatura em 1986. Não tem o apelido Kuti, mas conhecemo-lo como Wole Soyinka e tem um irmão que vai ser Ministro da Saúde, uma irmã que é médica e teve um papel fundamental na independência da Nigéria e foi a primeira mulher a conduzir um carro. A mãe foi uma pioneira dos direitos das mulheres, o pai foi um reformista do sistema de ensino. Enfim, é uma daquelas famílias.

É uma família abençoada.

É uma família geral.

E os filhos de Fela Kuti já estão na música também há uns quantos.

É verdade. É incrível.

Estava a lembrar o Seun Kuti, que tem andado mais por festivais até na Europa a tocar.

E os afrobeats continuam vivíssimos.

Completamente. E temos a Sade Adu, que também é a segunda artista mais conhecida da música da Nigéria, apesar de ser britânica, mas de facto nasceu na Nigéria.

Exatamente.

Bem, falámos da Nigéria, da Nigéria com amor. Depois de termos feito uma viagem com o Martim durante a semana passada à Moçambique, aqui estamos na Nigéria. Vamos ver se para a semana ainda continuamos por África ou não. Martim, até para a semana. Obrigado.

Descobriremos.