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Seja muito bem-vindo a mais um "Encontro com a Beleza", todas as semanas aqui na Rádio Observador, com o Martim Sousa Tavares. Olá, Martim.
Olá.
Está por cá também João Costa e Silva. Olá. Eu sou o Nélson Ferreira. Temos música clássica, mas não só. Temos um encontro com a beleza.
É verdade, e eu espero que estejamos a ser ouvidos na praia. Portanto, quem nos estiver a ouvir, está com uns AirPods e está a ouvir aquele .
Ok.
Não é?
Sim.
Torna tudo melhor. Hoje vamos ter passarada na nossa programação, que é a criatura que melhor canta no mundo inteiro e nem percebo como é que não há um podcast só sobre o canto dos pássaros.
Estás a dar ideias.
Olha, é aquilo que vamos ter hoje. Portanto, ornitólogos de todo o mundo, unam-se. Vamos ter o canto dos pássaros, que é uma canção muito bonita, catalã, vamos estar ali na Catalunha, que é também uma canção de embalar. As canções de embalar, que na Espanha se chamam as nanas, são um fenómeno mundial, todas as culturas as têm e têm algumas coisas em comum, nomeadamente os BPMs. Não podem ser coisas porque o bebê não adormece. Mas é uma coisa engraçada do ponto de vista antropológico, que é o ser humano, desde que existe, canta para fazer adormecer bebês. Vocês sabem falar catalão?
Não.
Ok, é que eu queria pronunciar isto bem.
Nem me atrevo.
Pronto, ok. Então, o canto dos pássaros. Não vou tentar dizer isto em catalão e também não vou dizer em castelhano para não ofender em morte os catalães que nos estão a ouvir. É uma canção que tem origens no século XVIII, mas há umas fontes que apontam até mais para trás. E o engraçado é que ela destoa um bocadinho das canções de embalar tradicionais, porque é triste. É muito melancólica, tem um fio de tristeza, parece quase que vai para a música cigana a certa altura. Tem uma letra em língua catalã que fala dos pássaros que louvam a Deus, é uma canção de Natal também.
Há um outro animal que louva a Deus também.
Exato. E é muito conhecida localmente na Catalunha, toda a gente a conhece.
É o malhão de lá? Não é bem o malhão.
Não, porque é triste.
Ok.
É triste e lenta, mas é muito bonita e há muitas versões ao longo da história. Mas ela ficou sobretudo famosa graças ao Pablo Casals, violoncelista lendário, catalão, e tornou-se uma espécie do hino não oficial dos exilados catalães, portanto, de uma Catalunha perdida ou daqueles que tiveram que abandonar a Catalunha e a Espanha por causa do franquismo.
É por Puigdemont?
Não, isto é muito antes. O Casals exilou-se logo no final dos anos 30, quando o Franco sobe ao poder e começa a fazer as coisas tornarem-se desagradáveis para os republicanos. E em 38, ele faz o seu último concerto em Espanha, que é por acaso no Teatro do Liceu, em Barcelona, que é uma magnífica sala. E a partir daí, o que é que ele faz? Vai-se embora, mas atravessa os Pirinéus e fica do lado francês da Catalunha. Portanto, não vai para longe, provavelmente continua a falar catalão, e é até uma zona da França que vai ser das últimas a ser ocupadas, portanto ainda viveu ali em relativa paz durante uns tempos. E o que ele fazia? Todos os anos que ele viveu, desde 1939 até ao fim da sua vida, ele abria ou fechava o concerto a tocar esta música. Ele, além de um grande músico, foi uma pessoa que se destacou muito pelo ativismo e pela defesa da paz, da liberdade e dos direitos humanos. Ganhou imensas condecorações, nomeadamente a Medalha da Paz da ONU, e ele faz um discurso, já tem 90 e muitos anos, em 1971, em que diz a importância da paz e da Catalunha para a defesa da paz, e depois toca esta música. Eu não vos quero mostrar esta música na versão do Pablo Casals, porque acho que há outras ainda mais bonitas. Mas é engraçado porque isto passou, por causa dele, a ser uma espécie de hino da paz, também. Quando ele toca isto em Nova Iorque, no palco das Nações Unidas, de repente isto passa a ser o grito da paz. É engraçado que ele era tão aguerrido nesta questão de não voltar à Espanha enquanto o Franco lá estivesse, que ele não só não voltava à Espanha, como não tocava em países cujo governo reconhecesse o governo franquista. Isto diminui-lhe imenso as possibilidades de mercado. O que vale é que ele também já tinha uma certa idade, ele nasce no século XIX. Mas, por exemplo, ele abriu uma exceção para ir aos Estados Unidos a convite do Kennedy, que lhe deu também a Medalha Presidencial pela Liberdade, e tocou lá uma vez e disse: "Mas isto é uma vez sem exemplo, portanto, não se habituem. Se me quiserem ver, vão à Costa Rica", ou assim, os sítios onde ele andava. Portanto, nós vamos ouvir este Canto dos Pássaros, esta melodia magnífica, com toda esta história e significado, tocada numa versão pelo mandolinista Avi Tal. E o que eu vos quero dizer é que o som dos pássaros, é por isso que eu quero mostrar esta versão, ele inclui o som de pássaros, não é sonoplastia, não são pássaros verdadeiros, são umas máquinas feitas por uns construtores franceses, em que se sopra e sai o som dos pássaros, que é inventado para caçadores, para a treina.
Estava a imaginar um objeto que faz isso.
Mas há umas que são uma espécie de umas bisnagas que tu apertas e sai.
Para ir aos patos.
Exatamente. Toda a passarada que vão ouvir é feita pelos próprios músicos a trabalharem nestas maquinitas.
Tiveram partitura para essa parte, também?
Certeza que sim.
Estou com pena de interromper estes passarinhos.
Não é incrível? E o engraçado é que há um vídeo em que ele mostra as caixas com os instrumentos dos pássaros e cada caixa tem o pássaro específico. Portanto, isto não são pássaros ou calhas, é tipo o peito vermelho da América do Norte e faz aquele som específico.
Estava aqui uma coisa interessantíssima na vida dele. Ele em 1955 casou com a segunda mulher.
Mas antes ele teve um caso com a Guilhermina Suggia. Um caso não, muito mais do que um caso.
A sério?
Sim. Durante oito anos. Nunca chegaram a casar.
Então ele casou com a segunda mulher e ela morreu logo nesse ano.
Foi. Tu vais falar da diferença de idades deles.
E depois ele casou com uma senhora que tinha 20 anos.
Não, 60 anos menos.
Exato.
60 anos menos.
Exato, ela tinha 20, ele tinha 80. E perguntei: "Mas como é que olha para isso?" E ele disse: "Se ela morrer, morreu".
Exatamente.
Que é um humor espetacular para quem passou pela história que ele passou.
Sim, então não o preocupa a diferença de idades. Se ela morrer, morreu.
Se ela morrer, morreu. O que é que acontece?
Nem sou eu o problema.
Exatamente. Adorei esta história. E estava aqui a ler também um pouco dessa ligação a Puerto Rico, onde ele se instalou.
Onde ele morreu.
E onde também fez obra, fundando uma orquestra sinfônica em 1958.
Sim. E o discurso dele das Nações Unidas está no YouTube, se o quiserem ver. É um pequeno discurso improvisado, ao qual se dá o título "Sou Catalão", em que ele explica de que forma é que a Catalunha dá uma lição ao mundo nas raízes da busca pela paz, a paz governamental. E fala de umas coisas do século XI que aconteceram lá na Catalunha.
Contexto, portanto.
É bonito. Exatamente.
"O Canto dos Pássaros Catalães" é o título do episódio desta semana do "Encontro com a Beleza", que está de regresso hoje a uma semana, sempre com o Martim Sousa Tavares. Um abraço, Martim Tavares.
Podem crer que está.