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Vamos lá. Vamos a isso.

O Observador parece um Ferrari.

Bem-vindo ao Carpool do Observador. É um estreante aqui no nosso formato, é a primeira vez?

Sim, é a primeira vez.

Vamos dar uma volta por Gaia.

Agora seja um cliente certo do Observador, pelo que tenho lido.

Em 2021, dizia que nunca mais seria candidato a um cargo eletivo. E depois em 2022, disse numa entrevista ao jornal Sol, se não me engano, que só se enlouquecesse é que voltava a candidatar-se à Câmara Municipal de Gaia. O que o fez mudar de ideias?

Olha, eu ontem ainda dei uma entrevista a um colega vosso, mas da imprensa escrita, e dizia que eu que não podia ser tratado de forma diferente de outras pessoas, como o professor Marcelo Rebelo de Sousa, quando disse que só seria candidato ao PSD se Cristo viesse à Terra. Não nos consta a nenhum de nós que Cristo tenha vindo cá abaixo, e o professor Marcelo acabou por ser candidato ao PSD. Ou seja, mudar de opinião face ao tempo. O tempo passa, as circunstâncias passam, nós mudamos, a envolvência muda. E eu mudei de opinião.

Mas o que é que o fez mudar de ideia?

Primeiro, a degradação imensa que verifiquei que estava a acontecer a todo um projeto que tinha colocado Gaia como uma cidade moderna e que hoje está num processo de regressão absolutamente dramático, em todos os aspetos. Em mobilidade, em limpeza, em ambiente. Por outro lado, porque, como qualquer outra pessoa, como qualquer um de nós, sou uma pessoa normal, não sou insensível às enormes pressões que sofri e aquelas que mais me influenciaram foram das pessoas da rua, as pessoas normais, os cidadãos da rua, que no último ano e meio, onde me encontravam, me diziam sempre que eu tenho que voltar e tenho que dar outro empurrão à terceira cidade do país e voltá-la a pôr no caminho de desenvolvimento que ela estava. Olhe, onde estamos agora a passar, nada disto existia.

Antes de ser presidente da câmara.

Era uma viela em que os carros caíam ao rio. Pensar em casas de classe média aqui em frente com esta qualidade era impensável. Aliás, quando chegarmos à Furada, daqui a uns metros, a Furada era uma vila de pescadores pobres, que viviam e nem casas de banho tinham em casa. E hoje, há uma alteração do ponto de vista sociológico absolutamente brutal, na medida em que, não sei se é boicote, mas não sei porque não nos queremos deixar passar lá à frente.

Está aqui um desvio, trânsito proibido.

Eu acho que poderemos tentar passar. Apesar de tudo, acho que poderemos tentar passar.

Depois dessas obras todas, decidiu deixar a Câmara Municipal de Gaia e ser candidato à Câmara Municipal do Porto. Teme que os gaienses, mesmo tendo passado todos estes anos, se tenham sentido abandonados e que não tenham esquecido isso?

Não, de forma nenhuma. Eu só fui candidato ao Porto, porque não podia ser mais candidato a Gaia mais uma vez. Há limitação de mandatos.

Mas renunciou um pouco antes do fim do mandato, não é?

Não. Também me fizeram essa pergunta no Sol e não é verdade. Eu saí da Câmara três semanas antes do fim do mandato para a campanha eleitoral. Saí da Câmara em agosto.

Quando estava a acabar o mandato.

E as eleições foram em setembro.

Mas não sente que possa haver...?

Não, até porque eu tenho consciência também de que uma convivência pró-ativa e construtiva com a cidade do Porto é absolutamente fundamental para o desenvolvimento de Gaia. Neste momento, questões como as travessias, novas pontes, eventualmente túneis de ligação entre as duas cidades, a gestão conjunta dos eventos do rio, dos eventos de animação e lazer, dos eventos culturais, são muito importantes também para Gaia. Eu disse isso muitas vezes aos empresários de Gaia, que o presidente da Câmara do Porto era quase tão importante como o presidente da Câmara de Gaia para o seu desenvolvimento. Continuo a pensar da mesma maneira.

Chegou a dizer algum tempo depois, num contexto específico, ou pela forma como aconteceu, que tinha sido o maior erro político da sua carreira. Consegue explicar-nos de onde é que vem essa ideia?

Por uma razão, eu explico muito sumariamente, embora isso é passado, não tem muito interesse, mas pronto, será para as minhas memórias. Porque a convergência negativa contra a minha candidatura foi de tal forma. Quer dizer, o presidente da Câmara do Porto, com 12 anos de funções, é sempre poderoso, tem sempre influência. Na altura era o doutor Rui Rio, fez durante dois anos campanha contra mim, contra a minha candidatura, ainda apoiou o doutor Rui Moreira. Aliás, hoje nem se falam. Mas bom, é a vida. O CDS, que estava em convergência comigo em Gaia há quatro mandatos e estava em coligação no governo com o doutor Passos Coelho, aliás, isto coincidiu até com a famosa frase da saída irrevogável do doutor Portas.

Quando disse isto em 2021, também disse que era irrevogável. Já tem alguma coisa em comum com o doutor Portas.

Olhe, deve ser a única coisa que tenho mesmo em comum com o doutor Portas. É essa palavra, porque o resto não tenho mais nada em comum, mesmo mais nada em comum com o doutor Portas. E o CDS contra, o doutor Rui Moreira contra, e outra coisa que se deve recordar Que é o Tribunal Constitucional só a três, quatro semanas das eleições é que me considerou candidato. Repare que os eleitores não esperam até quatro semanas antes para tomar uma decisão sobre quem vão apoiar. Foi um capcios diminutius, foi um handicap tremendo, e eu devia ter tido a lucidez de ter percebido isso e ter obrigado, por exemplo, que o doutor Pedro Passos Coelho se virasse para o doutor Portas e dissesse: "Meu amigo, o senhor continua aí no lugar que quer, passa para vice-primeiro-ministro, é o dono disso tudo, mais um dos donos disso tudo, mas no Porto vai apoiar o candidato do PSD, ou então em mais nenhum sítio do país há candidaturas." Se isso tivesse sido feito, o doutor Portas tinha tido juízo, mas não foi feito. E eu devia ter sido consequente e ter dito ao doutor Pedro Passos Coelho: "Obrigado, continuamos amigos, mas arranje um candidato ao Porto."

Os números não são... Há números diferentes, digamos assim, quem lhe seguiu na presidência da Câmara fala de uns números, Luís Filipe Menezes fala de outros, mas deixou um passivo grande para trás.

Deixe-me dizer que isso é das coisas que eu aceito ouvir, mas que me irritam muito. Irritam-me por uma razão, porque nós fizemos uma revolução completa em Gaia. Quem me critica por isso, aliás, era o presidente da Câmara em funções, nunca fala da extraordinária obra que herdou. Fala de um putativo passivo. Mas em relação a esse putativo passivo, há duas questões.

Mas também confirmou que havia uma dívida de 169, não?

Isso é mentira, completamente mentira. Uma mentira dita muitas vezes, como sabe, passa a ser verdade. Mas só que a senhora não é uma pessoa qualquer, é uma pessoa informada, é uma jornalista informada, é uma pessoa da classe A de compreensão da realidade portuguesa. Quando uma câmara está com passivo elevado, ou seja, ultrapassa os limites do passivo que a lei permite, a lei é implacável. O Tribunal de Contas reprova as contas da Câmara. Durante 16 anos nunca reprovou as contas da Câmara. Mas mais, pior ainda. Acontece como aconteceu com Portugal, com a Troika. Quando uma câmara está endividada, o Estado intervém. Intervém e passa a gerir a Câmara durante cinco ou seis anos, como aconteceu, por exemplo, aqui num concelho próximo, com Marco de Canaveses. E nada disso aconteceu. E o senhor presidente da Câmara chegou à Câmara e a primeira coisa que fez foi baixar impostos. Quando a Troika entrou em Portugal, a primeira coisa que o governo fez foi aumentar impostos e cortar pensões. Portanto, hoje a herança é que esta Câmara tem quase mais de uma centena de milhões de euros de receita do que tinha quando eu abandonei funções. Por quê? Porque as vias que eu abri, o saneamento que eu construí, as casas que eu construí, o desenvolvimento da frente de mar, da frente de rio, onde vamos passar agora, fizeram com que o investimento em Gaia fosse brutal e de uma classe média e média-alta que vem pagar impostos muito grandes e ajudar ainda mais ao desenvolvimento de Gaia.

Olhando para trás, para estes últimos 12 anos em que não foi autarca aqui em Gaia, reconhece algum mérito a Eduardo Vitor Rodrigues?

Eu gostava de ser parcimonioso nesta matéria, mas eu digo que não reconheço nenhum mérito. Entre várias coisas, a falta de transparência na gestão pública é absolutamente assustadora. Quer dizer, uma câmara que tem um presidente da Câmara que perde o mandato, um vice-presidente da Câmara com problemas, mais dois ou três vereadores que são arguidos em processos, mais dois ou três diretores que são arguidos e acusados em processos. Isto é uma palete de irregularidades e de falta de transparência. Bastaria isso para eu não poder visionar nada de positivo. Não foi aberta uma única via estruturante. Vamos passar por muitas das que eu abri. O dinheiro foi atirado a rodos numa lógica, que eu diria, do pior socialismo, para cima das instituições, para comprar votos. Portanto, eu mentiria se dissesse que vi algum mérito. Não, não vejo nenhum mérito. Vejo falta de limpeza, vejo retrocesso, vejo falta de policiamento e insegurança, vejo toda uma cidade que estava em explosão de desenvolvimento ter dado para trás.

Então vamos falar um bocadinho sobre o futuro. O seu lema é avançar, está aí em muitos cartazes pela cidade. Neste regresso, ou uma tentativa de regresso à Câmara, conseguiu fazer uma coligação com a Iniciativa Liberal e com o CDS. Que relevância que tem esse apoio, sendo que não tinha o mesmo rasgo se fosse sozinho?

Não, eu tenho que fazer a leitura do que é a realidade nacional. Neste momento, há uma dialética nacional entre focos de poder, polos de poder. Eu acho que um dos polos de poder que poderá dar estabilidade ao país é este polo que reúne o PSD, CDS, com a Iniciativa Liberal. Eu penso que isso vai repercutir mesmo nos próximos anos da vida política portuguesa. Sinceramente, não acredito que a bipolarização se faça entre o PSD e o PS. Eu acho que se vai fazer muito mais, porventura, se calhar, entre o PSD e o Chega. E portanto, faz todo o sentido que também no poder local se reforce esse caminho da aproximação entre o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal. Penso que passa por aí muito o futuro da governação estável do país. Portanto, eu quis dar esse exemplo. Não é que fosse para mim Vital ter esse tipo de coligação para poder ter um bom resultado ou ganhar as eleições, mas penso que também a Iniciativa Liberal traz alguma coisa de positivo. Eu acho que a Iniciativa Liberal trouxe um bocadinho de frescura à democracia portuguesa. Não tenho nenhum problema em dizê-lo. Tem muita juventude qualificada, tem quadros técnicos de qualidade e portanto seria uma tolice não aproveitar essa oportunidade para os juntar num projeto de desenvolvimento da cidade.

Ficou de alguma forma melindrado quando ouviu o João Cotrim Figueiredo na convenção da Iniciativa Liberal a dizer que se fosse ele não teria feito esta coligação?

Não, eu penso que ele também é um candidato presidencial problemático. Manifestamente.

Por que é que diz isso?

Porque há claramente a ideia de que é importante que haja uma aglutinação no centro direita moderada à volta de um candidato ganhador e o doutor Cotrim não vai manifestamente unir essa direita, vai dividi-la. Se tivéssemos um cataclismo de ter uma segunda volta entre, por exemplo, o senhor almirante e o candidato da esquerda moderada, o António José Seguro, as responsabilidades tinham que se pedir a um candidato problemático que se chama Cotrim. A questão é essa. Portanto, cada um responde pelos seus atos, eu respondo pelos meus, ele responderá pelos dele.

Já que estamos a falar também em habitação, aqui em Vila Nova de Gaia, a câmara assinou em 2021 um acordo para a construção de quase 2000 casas.

Não, foi 180 milhões de euros para 3000 casas.

Que depois acabou por haver aqui ajustes por causa da inflação.

Não, até agora não fez nada.

Era isso que eu, que aqueles dados conhecidos.

Isso é uma verdadeira vergonha. A herança que deixou é 450 acordos assinados, quando tinha dinheiro para 3000 casas.

Não percebe a justificação da inflação e de ter subido o valor?

Não, não consigo entender. O doutor Isaltino Morais conseguiu construí-las todas. Portanto, não consigo entender rigorosamente a não ser incompetência e incapacidade.

E sabendo que esse dinheiro existe e que o acordo está feito, o que é que pretende fazer com ele?

O mais grave, penso que é muito importante também utilizar um veículo como a Rádio Observador, porque é onde se debatem a sério todas as manhãs estes assuntos com pertinência. O que é mais grave é que a execução desses acordos do PRR para habitação, com que os sucessivos governos, o anterior e este, têm enchido a boca. A verdade é que também têm muita culpa em que as coisas não têm avançado e podemos falar um pouco sobre isso também. Mas a não execução até 31 de julho significa a reversão das verbas para a União Europeia. Portanto, não é só as câmaras que não cumpriram, é o próprio Estado que está metido em sarilhos, que tem que arranjar uma solução para ultrapassar essa situação.

Prometeu 4000 casas com rendas acessíveis.

No mandato, sim.

Neste mandato de quatro anos.

40% no interior.

São casas novas, é uma reabilitação de casas? Qual é o seu leque?

Podemos optar por vários modelos, desde casas novas até à reabilitação de casas que estão abandonadas, até ao aproveitamento de equipamentos do Estado que estão abandonados e podem ser transformados em habitação.

Um bocadinho à boleia do que se tem discutido em termos de habitação a nível nacional. Os inquilinos de bairros municipais que não paguem rendas devem ser despejados?

Eu acho que sim. A política que aqui segui foi: deitei abaixo tudo, que eram bairros que estavam muito degradados. Foram pura e simplesmente deitados abaixo. Construí bairros novos. E os bairros que eu construí, a esmagadora maioria, são pequenos equipamentos como este que a senhora vê aqui. Ou seja, passa por eles, nem sabe que é um bairro social. E são de 20, 30, 40 casas, inseridas no tecido urbano normal. Coloquei lá assistentes sociais a viver, a antecipar problemas financeiros das famílias, a antecipar problemas de delinquência, de adição. E conseguiram um equilíbrio de funcionamento que muitas vezes fez com que o chamado elevador social funcionasse nesses bairros e as pessoas saíssem dos bairros, porque tinham capacidade financeira e tinham adquirido um estatuto social que lhes permitia sair de lá. Ora, esses bairros pequenos são a filosofia correta quando é preciso fazer bairros para os mais pobres. Mas neste momento, o nosso foco é urbanizações para jovens, jovens casais, jovens solteiros, mas que têm o direito de viver sozinhos, porque já trabalham, porque já têm os seus meios de subsistência. Uma classe média que está muito estrangulada por rendas altíssimas. E até vamos passar num sítio que eu lhe vou mostrar, que para nós vamos misturar jovens casais com jovens universitários. É o que chamam um campus universitário moderno, em que vamos ter restaurantes para os vários níveis e possibilidades económicas dos estudantes e dos jovens, onde vamos ter pavilhões para desporto e onde vamos ter um grande pavilhão com escritórios, gabinetes individuais para todos aqueles que ainda estudam.

Só para terminar a questão da habitação, porque há pouco falou na questão das demolições. Então faz sentido que as câmaras municipais, sempre que haja habitação ilegal, façam uma demolição de imediato?

Foi isso que eu estava a dizer. Eu tinha uma oposição na Assembleia Municipal no primeiro mandato, PS e PC. O líder do Partido Comunista da Assembleia Municipal era um homem batalhador e que mostrava grandes conhecimentos sobre habitação social. No fim do mandato, eu contratei o parceiro líder da habitação social de Gaia. Ainda agora as pessoas reclamam pelo seu regresso, porque ele trouxe aquela boa disciplina do Partido Comunista, que é uma disciplina justa. E, portanto, quem se comporta bem, quem tem um comportamento cívico, mesmo que, por exemplo, fique com dívidas, porque passou por dificuldades circunstanciais na sua vida e não consegue pagar as rendas, ele negociava a recuperação das rendas a dois anos, três anos, quatro anos. Agora, quem pega numa caçadeira e dá tiros para o vizinho do lado, quem vem sozinho desestabilizar um bairro, quem pura e simplesmente diz que não vai pagar mais e destrói o seu apartamento, perde o apartamento e vai embora.

Está de acordo com o que disse Ricardo Leão quando se falou deste tema da questão dos crimes.

Estamos a falar de Loures, não é?

Exatamente. Ricardo Leão foi polêmico quando disse que quem comete crimes deve ser despejado das habitações municipais.

Eu não conheço a situação concreta de Loures. O que eu lhe posso dizer é que eu tive situações de pessoas que saíam de caçadeira a dar tiros para os seus vizinhos.

E perdiam a...

É evidente que essas pessoas não são bem-vindas, nem os vizinhos os querem ao lado deles. Temos que ponderar situação a situação.

Acho que podemos falar um pouco sobre a questão da mobilidade, mas se calhar iria aproveitar aqui este espaço entre sítios para lhe perguntar: como é que será o dia seguinte das eleições? Conseguiu várias maiorias absolutas, não sei se esse é o objetivo, mas caso vença sem ser com maioria absoluta, está disponível para se sentar à mesa com outros partidos e tentar fazer uma negociação para chegar a um acordo?

Qualquer democrata tem que estar aberto para isso. Desde que vença as eleições, tem o direito de ser o presidente da Câmara e de fazer os acordos que entender. Agora, não me passa pela cabeça não ter maioria absoluta.

Não lhe passa pela cabeça?

Não passa, mesmo.

O que o faz ter essa crença tão grande?

O que sinto na rua, o apoio das pessoas e o estado de degradação a que a atual câmara atirou o município. Penso que as pessoas não são cegas.

Acha que o seu principal adversário, João Paulo Correia, vai ser prejudicado pelo legado de Eduardo Vitor Rodrigues?

Porventura, não será beneficiado. Mas o doutor João Paulo Correia, que eu estimo, é uma pessoa que eu estimo, estimo-o como pessoa. Eu fui 20 e tal anos médico, professor universitário, depois estive 20 anos na política, agora estou há 12 anos nos negócios internacionais. O doutor João Paulo Correia nunca fez mais nada na vida. A única coisa que apresenta é ter sido presidente de uma junta e vereador. Aliás, com um enorme comprometimento em relação a esta gestão autarca. Foi presidente da junta seis ou sete anos com este presidente da Câmara. Nunca o ouvimos reclamar por nada, hoje reclama por tudo. Além de que a lista que apresenta, que também merece todo o respeito, mas nos cinco primeiros lugares estão quatro presidentes de junta. Eu penso que não foi uma opção, foi uma necessidade.

Já percebi que está muito crente na maioria absoluta. Se não a conseguir, há alguma linha vermelha na questão das negociações ou está disponível para sentar-se à mesa com qualquer partido? Se tiver, por exemplo, de recrutar um vereador noutro partido.

A minha ideia é muito mais no sentido de apresentar os projetos e de projeto a projeto negociar os projetos.

Quer governar com a minoria.

E não dar cargos executivos a outros partidos.

Vamos então falar da mobilidade. Na questão da mobilidade, há vários problemas em Gaia, pelo menos os gaienses vão se queixando disso. Podemos começar com, por acaso estamos aqui a entrar na autoestrada, até começo ao contrário. O seu principal adversário, João Paulo Correia, diz que devem acabar as portagens em três.

Só há uma.

Em três autoestradas, não é? Que ele diz.

Só há uma, vamos passar por ela agora. Não é portagem, é uma SCUT. Mas eu pergunto onde é que estava o meu adversário destes 12 anos. Foi deputado, o seu partido negociou com o PSD um conjunto de isenções, como sabe, de portagens pelo país inteiro e nunca o vimos defender para acabar com esta portagem aqui na A29, que é aquela ali à frente. Que é uma grande injustiça, porque põe metade do conselho a pagar portagem e a outra metade a não pagar dentro da mesma cidade, o que é um caso que penso que é único no país e que não faz nenhum sentido.

Mas concorda que é uma injustiça, portanto?

É uma injustiça, claro que é.

Então acha que devia acabar com ela?

Sim, eu vou defender que esta situação termine. Mas eu tenho moral para falar. Agora, quem durante 12 anos conviveu com uma câmara que nunca fez essa reivindicação ou que foi deputado à Assembleia da República e quando chegou a hora de negociar isenções, nunca falou de Gaia, não tem essa moral para falar disso.

Então, continuando na questão da mobilidade, a UNIR tem sido o grande problema.

A UNIR foi um desastre. Mas eu penso que é um problema global de conceptualização dos transportes urbanos que está errado. Eu penso que os transportes urbanos da Área Metropolitana do Porto deveriam ter sido pensados na sua globalidade. Porventura, se tivesse havido até um concurso único Para toda a mobilidade da área metropolitana, mesmo em termos de custos para os cidadãos e para os seus impostos, que certamente com essa massa crítica de um milhão e meio de consumidores, é muito mais fácil negociar do que negociar município a município. Mas a negociação feita aqui.

Mas a culpa, ou parte da culpa daquilo que se está a passar, foi de alguma forma da Câmara ou não havia como saber que iria correr mal?

Eu penso que foi muito da Câmara, porque o atual presidente da Câmara liderou muito esse processo na área metropolitana. Ele era o presidente da área metropolitana e, portanto, tinha esse duplo estatuto. Não quis enveredar por esse modelo de fazer uma negociação global, que para mim era o que seria útil. E no que fez em Gaia, os cidadãos sabem. A UNIR pura e simplesmente é um verdadeiro desastre.

Mas sem essa parceria em toda a área metropolitana do Porto, há forma de resolver?

Eu penso que é importante uma parceria com a cidade do Porto, principalmente, porque, como sabe, é notícia quase todos os dias a questão da Via de Cintura Interna ser um bloqueio ao funcionamento de toda a área metropolitana do Porto. Eu penso que Gaia e Porto têm que se juntar para encontrar soluções para os dois municípios, que depois vão ter repercussão.

Agora concorda com o seu colega de partido, Pedro Duarte, que quer portajar a VCI aos automóveis pesados?

Não, não concordo. Acho que não tem sentido nenhum.

Por que diz isso?

Porque acho que isso não ia resolver rigorosamente nada.

Não ia ajudar a conter o trânsito na VCI e depois, consequentemente, na cidade?

Não. Em primeiro lugar, conter o trânsito da VCI, é preciso saber para onde é que ele ia depois. Como se ia atirar ao rio, das pontes abaixo. Não, nós precisamos de novas travessias entre o Porto e Gaia, como tem Paris, como tem Frankfurt, como tem Budapeste, continuação das ruas da cidade, que no fundo, Porto e Gaia são, no seu conjunto, duas cidades com realidades de gestão administrativa diversa, mas que têm muito em comum.

Qual é que é a sua ideia no que toca aos passes de transporte público aqui para Gaia? Tem alguma intenção de torná-los gratuitos para determinadas faixas etárias ou para todos, quem sabe?

Eu acho que em relação a isso devemos fazer contas. Fazer contas e ver o que é justo. Eu penso que um idoso de 70 anos, que tem uma pensão de 10 mil € do Banco de Portugal, não precisa de passe.

Não precisa de ajuda.

Não precisa de nenhum passe. Portanto, aquela ideia de generalizar, de dizer todos os idosos ou todas as crianças, todos os jovens, precisam de passe, não é verdade. Para poder ajudar os pobres, não posso esbanjar com aqueles que felizmente são ricos e não tenho nada contra os ricos. Quanto mais ricos houver, melhor. Bom, mas não pode ser algo de generalizado, tem que ser algo que poderá estar indexado aos próprios rendimentos das pessoas.

E para os jovens?

Temos dentro da cidade, e nomeadamente para jovens que precisam muito de transporte público, quer para ir estudar, quer para ir trabalhar, temos que ter, nos novos meios de transporte que vamos ter, uma atitude parcimoniosa e de bom senso. Embora neste momento já existem condições especiais para estudantes e até para jovens trabalhadores. Mas eu penso que em relação aos estudantes e a jovens trabalhadores, temos que ter o mesmo critério que temos para os pensionistas.

Depende daquilo que recebem.

A não ser que o jovem trabalhador também receba 10 mil € por mês de ordenado.

Esperemos que sim.

O que não é muito vulgar.

Exato. Falava há pouco de Santo Ovídio, é um dos sítios onde se acredita que é possível, onde está previsto que passe o TGV. Está fechado, ao que tudo indica, que o TGV vai mesmo passar aqui em Gaia e que terá uma paragem aqui. Começando pelo início, concorda com esta ideia? Faz sentido Gaia ser uma paragem para o TGV e não só um ponto de passagem?

Eu acho que faz sentido. O que não faz sentido é haver duas estações a 5 km uma da outra. Digo isso com todo o à vontade. A estação de Gaia devia ser a estação Porto do Sul.

Quais é que são, para percebermos, quais é que são as que ficariam a 5 km uma da outra?

Dois terços dos putativos utilizadores do TGV serão cidadãos de Gaia ou cidadãos da zona ocidental do Porto, de Matosinhos e Maia, que estão mais perto da estação de Gaia do que de Campanhã. Outro dia vi um senhor que escreveu num jornal que havia uma cidade, eu nem decorei qual era, que realmente o TGV parava de 5 em 5 km. Eu não conheço nenhuma cidade que o TGV pare de 5 em 5 km. Portanto, começo logo por discordar disso, mas pronto, se eu vinha vindimado, está vindimado. Não vou discutir sequer o assunto. Agora, há uma coisa que eu vou discutir: é que não concordo com a estação onde ela estava prevista, não vou concordar. Lá não será em Santo Ovídio. Para mim vai ser uns 300 metros abaixo, na fronteira de Santo Ovídio com Vilar do Paraíso, porque em Santo Ovídio ficava a cento e tal metros de profundidade.

As últimas notícias dão conta da possível demolição até 135 casas. O que a Câmara pode fazer para travar isso?

É dizer que não sei

É o quê? Desculpe.

É dizer que não aceita essa posição. Tem de mostrar força.

Ainda tem essa possibilidade.

Claro que sim. Não vivemos na Coreia do Norte. Não é chegar por aqui fora, pôr buldozers a deitar as casas das pessoas abaixo. Somos pessoas sensatas e que podemos discutir e podemos dialogar.

Temos estado a dar uma grande volta pela cidade. Vê-se muita construção por todo lado. Isto são construções maioritariamente privadas, neste caso?

São privadas, sim, mas essa construção que está a ver, Gaia, era um dormitório de pessoas muito pobres que não tinham casa no Porto. Hoje é um dormitório de classe média. Por quê? Porque foi feito o saneamento, porque foram feitas novas avenidas, porque passou a ter vida cultural, porque passou a ter lazer, porque passou a ter, passei de dois para 10 metros quadrados por habitante os espaços verdes de Gaia. Portanto, por isso é que está a haver a construção. A construção veio porque veio a qualidade de vida, como aconteceu em Oeiras, por exemplo.

Se pudesse comparar Gaia com um outro município em Portugal, seria Oeiras?

Não, Oeiras está muito melhor que Gaia.

Mas ambiciona chegar lá?

O doutor Isaltino não precisava durar até aos 100 anos e não vai durar. O doutor Isaltino Morais, o meu pai, faleceu há 15 dias, a 50 dias de fazer 100 anos, portanto a genética espero que tenha passado para mim, mas não tenciono ser presidente.

Os meus sentimentos.

Muito obrigado. Não tenciono ser presidente da Câmara até aos 100 anos.

Até porque disse que não queria sair de bengala, há pouco.

Não, não quero. Nem de canadianas. Não quero.

Que zona é esta que estamos aqui?

Esta é o Jardim do Morro, é um dos sítios agora do sunset, da moda da área metropolitana do Porto, mas também é dos sítios, à noite, mais inseguros da área metropolitana. É um dos sítios onde vamos ter que atuar, onde vendedores ambulantes.

Entramos por ali?

Pode ir atrás, sim. E é onde nós construímos o teleférico que liga ao sítio de onde arrancámos. Construímos este teleférico e a nossa ideia, como presidente da Câmara do Porto saudável, é fazer um teleférico daqui até ao jardim do Palácio de Cristal.

Acho que estamos aqui num sítio belíssimo, se calhar, para terminar a nossa conversa. Depois gostava de, já agora, lhe perguntar, tem um livro que diz "Nunca é tarde demais". É por isto que está a candidatar-se, por acreditar que ainda é possível fazer melhor?

Eu acho que é possível dar um empurrão. Esta é a terceira cidade do país, em habitantes e em área. A primeira é Lisboa, a segunda é Sintra, a terceira é Gaia. Tem quase 400 mil habitantes daqui a pouco. Eu acho que é possível dar um grande empurrão. Temos grandes projetos. Temos projeto de trazer grandes festivais para Gaia, como o Porto Wine Fest, uma grande festa em setembro, que vai rivalizar com a Festa da Cerveja de Munique. Quando os turistas não tiverem para aí já pós-férias, têm o Porto Wine Fest com corridas no rio, com concertos no rio. Eu posso lhe dizer que provavelmente será com o Bocelli. Com barracas de vinho do Porto, provas de vinho do Porto. Temos um projeto de constituir três novos museus. O Museu das Pontes do Porto, de homenagem ao professor Edgar Cardoso. Dois museus, o Museu das Lutas Liberais e o Museu das Invasões Napoleônicas, ali em cima, no Mosteiro da Serra do Pilar. Foi de lá que o Porto foi bombardeado, quer pelas tropas de Napoleão, quer pelos absolutistas que lutavam contra os liberais. Nasceu, de uma certa forma, aqui a democracia portuguesa.

Temos o Mosteiro do Pilar aqui. E lembrei-me.

É nossa intenção reivindicar ao Estado a passagem para a Câmara do Mosteiro.

É o Mosteiro de Santo Agostinho, que tem também um livro que se chama exatamente "As Confissões de Santo Agostinho". Gostava de terminar só a perguntar-lhe se tem alguma confissão a fazer aos gaienses nesta recandidatura à Câmara, neste regresso, ou tentativa de regresso à Câmara Municipal.

Confissão. A confissão normalmente é de um pecado.

Não tem nenhum pecado para assumir.

Não tenho nenhum pecado. A confissão é de que venho com muita convicção de que vamos conseguir dar um salto, porventura, muito mais significativo do que demos nos anos em que liderei anteriormente.

Daí a palavra avançar.

Porque eu estou diferente. Estou mais experiente.

Acha que está melhor, diferente para melhor?

Sinceramente, acho que estou melhor.

Muito obrigada.

Se nós com a idade piorássemos, era um desastre.

Muito obrigada por este carpool. Foi um gosto.

Muito obrigado eu, que agradeço a oportunidade.

Obrigadíssima. Oh, senhor presidente. Ele até já estouva a pedir, oxalá que sim. Ai, que bom! Ai, senhor presidente.